<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1" ?>
<rss version="2.0"
xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
>
<channel>
<description>Site do poeta Fabricio Carpinejar</description>
<link>http://www.carpinejar.blogger.com.br</link>
<title>.:.   Fabricio Carpinejar   .:.</title>

<item>
<title><b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Com providencial ajuda de <a href="http://charles.pilger.com.br">Charles Pilger</a>, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. <a href="http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/">Atualizem</a>.</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39325002</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/10/2007 10:39:42 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  </title>
<description><![CDATA[<b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A MEGERA</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://image.hotdog.hu/_data/members3/227/128227/images/Salvador%20Dali%20-%20Galatea%20Of%20The%20Spheres.jpg"><br /><br />Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela. <br /><br />Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade. <br /><br />A megera não é mal-amada, ela não ama. <br /><br />A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela. <br /><br />Ela não sairá do passado porque não tem futuro. <br /><br />Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.  <br /><br />Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência. <br /><br />A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela. <br /><br />Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.  <br /><br />Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil. <br /><br />Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa. <br /><br />A megera é a Idade Média. <br /><br />A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho. <br /><br />Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado. <br /><br />Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.<br /><br />É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir. <br /><br />Ela não se depila, ela se corta.<br /><br />Sofre por não fazer sofrer. <br /><br />Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral. <br /><br />A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral. <br /><br />O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai. <br /><br />A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera. <br /><br />A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?" <br /><br />A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro. <br /><br />A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos. <br /><br />A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.<br /><br />Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos. <br /><br />Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada. <br /><br />A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência. <br /><br />A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo. <br /><br />A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex. <br /><br />Ela transforma a separação numa briga de condomínio. <br /><br />A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar. <br /><br />Será educada somente quando não tiver opção. <br /><br />Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo. <br /> <br />A megera é o fracasso do amor.  ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39318964</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/8/2007 02:20:54 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS</b><br />Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://images.americanas.com.br/produtos/item/352/1/352142g.gif"align=left>Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.<br /><br />A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência. <br /><br />Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si. <br /><br />Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia <b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b> (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento <b>Desato</b>, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro. <br /><br />O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:<br /><br /><i>"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.<br />Aquela que fala do namorado com tanta ternura.<br />Mesmo das brigas ando tendo inveja.<br />Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,<br />Sempre querendo, querendo, querendo."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 3)<br /><br /><i>"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."</i><br /><br />(<b>Receita pra Lavar Palavra Suja</b>, pág. 44)<br /><br />Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível. <br /><br />Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.<br /><br />Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."<br /><br />Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água". <br /><br />Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas." <br /><br />A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés". <br /><br />Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia. <br /><br /><b>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</b><br /><br />SERVIÇO<br /><b>Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90</b><br /> <br />(Publicado em <a href="http://www.estado.com.br">O ESTADO DE S.PAULO</a>, CADERNO <b>CULTURA</b>, pág. 5, Domingo, <b>7/01/2007</b>)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39316805</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/7/2007 07:04:29 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A INFÂNCIA POR PERTO</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mobi.ch/mobiliar/live/diemobiliar/engagement/kultur/m-406001/puppentheater_kl.jpg"><br /><br />Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância. <br /><br />A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos. <br /><br />É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa. <br /><br />A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu. <br /><br />O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte. <br /><br />Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.  <br /><br />Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo. <br /><br />Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado. <br /><br />E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html#39307413</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2007_01_01_archive.html</link>
<pubDate>1/3/2007 08:48:15 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"</b><br />Gravura de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><br /><img src="http://content.barewalls.com/closeup/h6130c.jpg"><br /><br />Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente. <br /><br /> Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal. <br /><br />Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca? <br /><br />Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.  <br /> <br />O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível. <br /><br />O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome. <br /><br />As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas. <br /><br />Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil. <br /><br />E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39295829</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/29/2006 08:36:31 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.divus.cz/images/umelec/jones.jpg"><br /><br />Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos? <br /><br />Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas. <br /><br />Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus. <br /><br />Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.  <br /><br />De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.<br /><br />Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo. <br /><br />Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias. <br /><br />Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar. <br /><br />Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade.  Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa. <br /><br />Minha filha agora me põe a envelhecer. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39286530</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/26/2006 11:03:24 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>BRAÇADA DE ABELHAS</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www1.estado.com.br/Estado/contenidos/0000003396/0001698356_DC02BDEB-8426-44E1-A5A7-EF2EE0E0CE2F/filename.jpg"><br /><i>Foto de Evelson de Freitas/AE</i><br /><br />Precisava levar uma rosa para a professora.<br />Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não. <br />Menos eu, que amava desperfumando.<br /><br />Uma rosa que fosse sapato de abelha, <br />barco de pássaro, cadarço de espinho. <br />Podia ser rosa apenas.<br />Com o talo do tamanho de uma gravata,<br />que não ultrapassasse o cinto.<br /><br />Uma rosa ainda aspergida, luzindo,<br />joelho escapando da saia. <br /><br />Arriscado tomá-la dos jardins e quintais. <br />Havia sempre um conhecido na janela. <br />Um amigo de parente. Um cachorro latindo.<br /><br />Percorria o cemitério antes da escola,<br />para ganhar dois quarteirões de vento.<br />As ruas tortas e as camas<br />sem a pressa dos hospitais.<br />Os acenos entre as letras. O acento<br />de pedra para o lado errado. As datas <br />fotografando o tempo deitado. <br /><br />Em nome de minha professora, <br />roubei várias rosas das lápides.<br />Larápio, mudava de túmulo.<br />O coração morrendo de vergonha.<br />Arrumava a folhagem do vaso para despistar, <br />como quem preenche a falta de um livro <br />distribuindo os que ficaram. <br /><br />Todo ano que passa, estou <br />devendo uma rosa nova a um morto. <br /><br />(Poema especial de Natal publicado no <a href="http://www.estado.com.br">Estado de S. Paulo</a>, Caderno 2, <b>25/12/06</b>)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39284495</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/25/2006 09:31:26 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MAIS ROSTO </b><br />Pinturas de Paul Klee<br /><br /><i>"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."</i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.leninimports.com/paul_klee_gallery_112.jpg"><br /><br />Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas. <br /><br />Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?<br /><br />As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade. <br /><br />Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho. <br /><br />Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.<br /><br />Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto. <br /><br />Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.<br /><br />- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca. <br /><br />- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.<br /><br />Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:<br /><br />- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.<br /><br />- Que nada, disse. <br /><br />Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta. <br /><br />- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39277753</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/21/2006 11:14:03 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS</b><br />Arte de Marc Chagall<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_200423.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.document.no/weblogg/archives/bilder/chagall.jpg"><br /><br /><i>"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história? <br /><br />Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos. <br /><br />Beijos, Caroline"</i><br /><br />Oi, Caroline<br /><br />É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado. <br /><br />Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades. <br /><br />Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.<br /><br />O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher. <br /><br />Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação. <br /><br />Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39271042</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/19/2006 12:23:11 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> </title>
<description><![CDATA[<b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SAIDEIRA</b><br /><br />Nesta <b>terça (19/12)</b>, participo da última edição de 2006 do <b>SARAU ELÉTRICO</b>. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, <b>Rodrigo Rosa</b>, ilustrador do meu livro infantil <i>Filhote de Cruz-credo</i> (Girafinha). <b>Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman </b>comandam a conversa. Canja musical de <b>Vanessa Longoni</b>.<br /><br />O encontro acontece às <b>21h</b>, no bar <b>Ocidente</b> (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8 <br /> ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39269335</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/18/2006 06:48:02 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CAMPEÃO DO MUNDO </b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /> <br /><img src="http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=38917293_801.jpg&v=P"><img src="http://www.aldiatx.com/img/08-06/17/libertadores.jpg"><br /><br />Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.  <br /><br />Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata. <br /><br />Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada. <br /><br />Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.  <br /><br />Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja. <br /><br />Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento. <br /><br />No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39268922</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/18/2006 04:23:08 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM PATINHO MUITO FEIO</b><br />Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo" <br /><br /><b>PATRÍCIA ROCHA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2520392.jpg"><br /><i>Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar  <br />Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH</i><br /><br />  <br />Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer. <br /><br />Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro <b>Filhote de Cruz-Credo</b>, que ele <b>lança amanhã</b>, <b>em Porto Alegre</b>. <br /><br />- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina. <br /><br />A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos. <br /><br />- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus. <br /><br />Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz: <br /><br />- Panqueca! <br /><br />Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa. <br /><br />- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.<br /><br /><br /><b>Trecho</b><br /><i>"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei. <br />Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo. <br />- Quer mesmo saber? <br />- Sim, quero. <br />- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"</i><br /><br /><b>O QUE:</b> <b>lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas</b> <br /><b>QUANDO:</b> <b>neste sábado (16/12), às 17h</b><br /><b>ONDE:</b> na <b>Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)</b><br /><b>QUANTO:</b> preço sugerido de R$ 27 <br /> <br />(<b>ZERO HORA</b>, <a href="http://www.clicrbs.com.br">SEGUNDO CADERNO</a>, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)   <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39260822</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/15/2006 08:28:53 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FALTA DE TEMPO</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lucienkrief.co.il/pics/large_351.jpg"><br /><br />Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento. <br /><br />Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho <i>free lancer</i> do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...<br /><br />Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda. <br /><br />Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também. <br /><br />Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.  <br /><br />Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39257945</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/14/2006 08:24:57 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROBLEMAS NO BLOG</b><br /><br />O provedor <b>Globo.Com</b> está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39256501</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/13/2006 12:16:41 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS</b><br />Arte de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.art.net/~coffin/WRITINGS/BEAUTY/hatstand.gif"><br /><br />Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan. <br /><br />Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala). <br /><br />É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.  <br /><br />Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde. <br /><br />Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.  <br /><br />Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.  <br /><br />Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica. <br /><br />No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca. <br /><br />Vou viver pela boca.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39251269</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/11/2006 12:36:15 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO</b><br />Pintura de Sigmar Polke<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.edition-kloeckner.com/edition/ku/po/banale.jpg"><br /><br />Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.<br /><br />Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.<br /><br />Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?  <br /><br />Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.<br /><br />Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.<br /><br />O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.<br /><br />Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.<br /><br />Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.<br /><br />Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.  <br /><br />Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo. <br /><br /><i>Coluna de novembro/2006 do <a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll11.htm">Clube da Calcinha</a></i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39234181</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/4/2006 07:38:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA</b><br /><br /><img src="http://www.koeln-art.de/bilder/gross/jones_beklakt.jpg"align=right>O <b>Sesc de Sorocaba (SP)</b> é palco do show <a href="http://www.brazilbizz.com.br/">"Canalha Romântico"</a> nesta <b>terça-feira</b>, <b>5/12</b>, a partir das <b>20h</b>. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".  <br /><br />O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.<br /><br /><i>SERVIÇO:<br /><br />O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado <br />Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar<br /><br />Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h<br /><br />Onde: Sesc Sorocaba  (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15) <br />33329933).<br /><br /><b>Entrada franca</b></i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39234177</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/4/2006 07:35:20 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/VI20061202.jpg"><br /><b>Zero Hora, <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&edition=6841&template=502.dwt&start=1§ion=Vida&source=ind&channel=9&id=&titanterior=&content=&menu=21&themeid=§ionid=&suppid=&fromdate=&todate=&modovisual=">Caderno Vida</a>, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076</b><br /><br /><i><b>"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."</b></i><br /><br /><b>POR FAVOR, PARE AGORA</b><br />Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante <br /><br /><b>LEANDRO RODRIGUES</b><br /><br /> <i>Foto(s): Adriana Franciosi/ZH</i><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491301.jpg"><br /><i>O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana</i>  <br /><br /><br /> Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados. <br /><br />- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta. <br /><br />Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir. <br /><br />- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma. <br /><br />Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça. <br /><br />Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro. <br /><br />- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). <br /><br />A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar. <br /><br />- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete. <br /><br />( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )<br /> <br /><b>Tentativas </b><br /><b>O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:</b><br /><br /><b>*</b> Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer <br /><br /><b>*</b> Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes <br /><br /><b>*</b> Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas <br /><br /><b>*</b> Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos <br /><br /><b>*</b> Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente <br /><br /><b>*</b> Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos <br /><br />Fonte: <i>Instituto Nacional do Câncer</i><br /><br /><b>DAR UM BASTA</b><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/rbs/image/2491302.jpg"><br />Foto(s): Adriana Franciosi/ZH <br /> <br />A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica. <br /><br />- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira. <br /><br />Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses. <br /><br />Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007. <br /><br />- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.<br /><br /><b>Os benefícios do chega </b><br /><br /><b>*</b> Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal <br /><br /><b>*</b> Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue <br /><br /><b>*</b> Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal <br /><br /><b>*</b> Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor <br /><br /><b>*</b> Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida <br /><br /><b>*</b> Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora <br /><br /><b>*</b> Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade <br /><br /><b>*</b> Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram <br /><br /><b>Fonte: Instituto Nacional do Câncer</b><br /><br /><a href="http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3361.dwt&tp=§ion=Blogs&&blog=39&tipo=1&coldir=1">Faça o teste sobre seu nível de dependência do cigarro </a><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39233411</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/3/2006 10:12:10 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES </b><br />Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar*</b><br /><i>Especial para o Estado</i><br /><br /><img src="http://www.estado.com.br/editorias/2006/12/03/2.12.imagem_marcia.jpg"><br /><br />Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (<i>O Tango Fantasma </i>e <b>Diana Caçadora</b>), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.<br /><br />Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança <b>Caim - Sagrados Laços Frouxos</b>.<br /><br />Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento. <br /><br />O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família. <br /><br />Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.<br /><br />Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser. <br /><br />As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados. <br /><br />As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.<br /><br />A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.<br /><br />Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.<br /><br />Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.<br /><br />Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."<br /><br />Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.<br /><br /><i>* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br />(SERVIÇO)<br /><b>Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90</b><br /> <br />Publicado em <b><a href="http://www.estado.com.br">O Estado de São Paulo</a>, Caderno 2/Cultura, 3/12/06</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html#39233346</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_12_01_archive.html</link>
<pubDate>12/3/2006 09:52:48 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA AVE-MARIA </b><br />Arte de Gerhard Richter<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://kunstonline.dk/indhold/pics/gerhard_richter_6.jpg"><br /><br />Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer. <br /><br />No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de <i>Poesia</i> havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar. <br /><br />Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros. <br /><br />Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39223944</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/30/2006 01:10:05 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ÚLTIMO DIA</b><br /><br />Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de <b>Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</b>, <i>HORÁRIO NOTURNO</i>. As provas vão rolar no dia <b>2 de dezembro</b>, das <b>9h30 às 12h</b> (redação) e das <b>14h30 às 17h30</b> (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se <a href="http://www.unisinos.br/vestibular/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=29">aqui</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39222330</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/29/2006 11:29:45 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM</b><br />Arte de Allen Jones<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_192850.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.openeyegallery.co.uk/images/58ac1d190374f7181be34963c4572d88.jpg"><br /><br /><i>"Prezado Fabrício, <br /><br />Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.<br /><br />Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.<br /><br />A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos. <br /><br />Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.<br /><br />Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.<br /><br />Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.<br /><br />Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.<br /><br />Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.<br /><br />Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!<br /><br />Um abraço,<br /><br />Silvia"</i><br /><br />Olá, Sílvia!<br /><br />Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.<br /><br />Vamos por partes, com calma. <br /><br />Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas. <br /><br />Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário. <br /><br />Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação. <br /><br />Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo. <br /><br />Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis. <br /><br />É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção. <br /><br />Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando. <br /><br />Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado. <br /><br />Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39211418</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/24/2006 09:44:24 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FRANQUEZA PARA MACHUCAR</b><br />Pintura de Allen Jones <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.liverpoolmuseums.org.uk/walker/collections/20c/graphics/large/jones.jpg"><br /><br />Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça. <br /><br />Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades. <br /><br />Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa. <br /><br />Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise. <br /><br />Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça. <br /><br />Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte. <br /><br />Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo. <br /><br />Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado. <br /><br />Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque. <br /><br />Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores. <br /><br />Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira. <br /><br />Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola. <br /><br />Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos: <br />- Ainda tem uma barriguinha. <br /><br />Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão. <br /><br />Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.<br />- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.  <br />- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.  <br />A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras. <br /><br />Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar. <br /><br />Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade. <br /><br />Intimidade é gentileza. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39209787</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/24/2006 10:56:32 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/11/img_foto1150.jpg"><br /><br /><br />É neste <b>domingo (26/11)</b>, a <b>partir das 15h</b>, o lançamento de meu livro infantil <a href="http://www.girafinha.com.br/girafinha/site/">"Filhote de cruz-credo" (Girafa)</a>, ilustrado pelo amigo <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>. Será na <b>Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros)</b>, em <b>São Paulo</b>. A atriz Kiara Terra, do grupo <i>História Aberta</i>, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês. <br /> <br />A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para <b>16/12</b>, às <b>17h</b>, na <b>Livraria do Arvoredo</b> (Rua Felix da Cunha, 1213).<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39209510</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/24/2006 08:02:23 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DESABAFO</b><br />Pintura de Allen Jones<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://barquisimeto.intercable.net.ve/racely/jones-allen.jpg"><br /><br />Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?<br /><br />Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. <br /><br />É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.<br /><br />Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. <br /><br />Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. <br /><br />Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.<br /><br />Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. <br /><br />Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. <br /><br />O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. <br /><br />Amor nunca dirá: <i>que os outros se danem</i>. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. <br /><br />Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.<br /><br />Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor.  É uma maneira certa de nunca chegar a ele. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39206155</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/22/2006 08:51:58 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ</b><br />Pintura de Emil Nolde<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dentist.dk/nolde/storpix/6767.jpg"><br /><br />Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote. <br /><br />Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores. <br /><br />Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro. <br /><br />Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro. <br /><br />Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco <i>Café da Manhã</i>, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.<br /><br />Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental. <br /><br />Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa. <br /><br />Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci. <br /><br />Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39204581</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/22/2006 10:18:16 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM</b><br />Colagem de Jean Dubuffet <br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_190540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.hu/budapest/ludwig/images/0047_t2397_maxi.jpg"><br /><br /><i>"Oie, Carpinejar! Tudo bom?<br /><br />A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.<br /><br />Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida. <br /><br />Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista. <br /><br />Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos. <br /><br />Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.<br /><br />A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava. <br /><br />Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.<br /><br />Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição. <br /><br />Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria. <br /><br />Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo?  Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência! <br /><br />SOCORRO!<br /><br />Abraços,<br /><br />Rubens"</i><br /><br />Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa. <br /><br />Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor. <br /><br />Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia. <br /><br />Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser. <br /><br />Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura. <br /><br />Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade. <br /><br />Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.<br /><br /><i>Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39194348</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/18/2006 09:33:56 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>VELHO-DO-SACO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.veredart.com/vered_artist_index_images/dubuffet_page_images/DUBUFFET,-JEAN.jpg"><br /><br />Tremia de horror do Velho-do-saco. <br /><br />O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude. <br /><br />O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.<br /><br /> - Crianças, ora bolas!<br /><br />A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.  <br /><br />O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam? <br /><br />Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce. <br /><br />O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo. <br /><br />De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes. <br /><br />Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.<br /><br />Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula. <br /><br />Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: <i>Vicente tem medo de aula de capoeira</i>. <br /><br />É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39189338</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/16/2006 09:51:46 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SERÁ QUE TE CONHEÇO?</b><br />Arte de Marisol Escobar<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.colorado.edu/cuartmuseum/images/3_101.jpg"><br /><br />Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir. <br /><br />Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo. <br /><br />"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio. <br /> <br />Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca. <br /><br />"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto. <br /><br />Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais. <br /><br />Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual. <br /><br />Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo. <br /><br />"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si. <br /><br />"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo. <br /><br />"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura. <br /><br />Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos. <br /><br />"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária. <br /><br />Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras. <br /><br />"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.<br /><br />Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida. <br /><br />"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39184703</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/14/2006 10:18:33 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SOU UM CARACTERE CHINÊS</b><br />Arte de Paul Klee <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><img src="http://www.lacasagiratoria.com/imagenes/2005/050809.jpg"><br /><img src="http://www.imultimedia.pt/museuvirtpress/port/alfa/zoom/e4.gif"><br /><br />Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior. <br /><br />A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos. <br /><br />Eu sou um caractere chinês. <br /><br />Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto. <br /><br />Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.<br /> <br />Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim. <br /><br />Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas. <br /><br />Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar. <br /><br />Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.  <br /><br />Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39181360</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/13/2006 12:09:01 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br /><br /><img src="http://www.siblog.blogger.com.br/carpin5bx.jpg"><br /><br /><i>"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra. <br /><br />Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes. <br /><br />As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol. <br /><br />Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência. <br /><br />Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."</i><br /><br />Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: <b>Filhote de cruz-credo</b>, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de <a href="http://www.blogdedesenho.blogger.com.br/">Rodrigo Rosa</a>, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola. <br /><br /><b>A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), <b>a partir das 15h30</b>, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do <i>História Aberta</i></b><br /><br /><i>FNAC - Espaço Infantil<br />Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros<br />São Paulo Telefone: 45013000</i><br /><br /><i>Editora Girafinha:<br />(11) 3258 88 78</i><br /><br /><img src="http://www.siciliano.com.br/capas/8599520237.jpg"><br /><b>FILHOTE DE CRUZ-CREDO</b><br />Autor: Fabrício Carpinejar<br />Ilustrações: Rodrigo Rosa<br />ISBN: 8599520237<br />Editora: A GIRAFA EDITORA<br />Número de páginas: 40<br />Encadernação: Brochura<br />Edição: 2006<br />Preço: R$ 27,00  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39179869</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/12/2006 02:08:32 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA</b><br />Pintura de Richard Diebenkorn<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lesliesacks.com/gallery/artistPages/diebenkorn/225/tn_die904a.jpg"><br /><br />Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores. <br /><br />Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro. <br /><br />Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas. <br /><br />Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas. <br /><br />Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente. <br /><br />As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa. <br /><br />Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39177440</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/11/2006 12:26:34 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DESPEDIDA DE ANA</b><br /><i>Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.</i><br /><br />Gravura de Klimt<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://cv.uoc.es/~991_04_005_01_web/fitxer/klimt.gif"><br /><br />Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada. <br /><br />Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava. <br /><br />Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você. <br /><br />Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha. <br /><br />Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem. <br /><br />Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura. <br /><br />Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura. <br /><br />Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.  <br /><br />Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a  verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca. <br /><br />Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura. <br /><br />Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer. <br /><br />Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39172537</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/9/2006 09:56:28 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>QUANDO NÃO SE ESPERA</b><br />Arte de Giacometti<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.dutchmuseumshop.com/afbeeldingen/poster/giacometti/giacometti-homme-qui-marche.jpg"><br /><br />Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido. <br /><br />Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda. <br /><br />Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar. <br /><br />Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra. <br /><br />A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha. <br /><br />Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro. <br /><br />Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele. <br /><br />A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39167208</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/7/2006 11:50:59 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR</b><br />Pinturas de Nicolas De Staël<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://odalisamelie.club-blog.fr/odalisamelie/images/nu_couch_bleu_1.jpg"><br /><br />O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento. <br /><br />Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico. <br /><br />Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta. <br /><br />Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.  <br /><br />Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna. <br /><br />Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos. <br /><br />Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras. <br /><br />Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito. <br /><br />Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade. <br /><br />Amar na alegria é amar casando. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39164012</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/6/2006 08:01:08 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>EMPAREDADO</b><br /><br />Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no <a href="http://www.digestivocultural.com.br/">site</a>, conduzida por Julio Daio Borges. <br /><br /><b>A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA</b><br /><i>Segunda-feira, 6/11/2006</i><br /><br /><b>Por Julio Daio Borges </b><br />   <br /><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1.jpg"><img src="http://www.digestivocultural.com/entrevistas/imagens/7-1b.jpg"><br /><i>Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto</i><br /><br />Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.<br /><br />Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). <br /><br />O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)<br /><br /><b>1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu? </b><br /><br />As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos). <br /><br /><b>2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)? </b><br /><br />Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista. <br /><br /><b>3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?</b><br /><br />Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente. <br /><br /><b>4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.</b><br /><br />Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores. <br /><br /><b>5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?</b><br /><br />Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios). <br /><br /><b>6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"? </b><br /><br />Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim. <br /><br /><b>7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?</b><br /><br />Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.<br /><br /><b>8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?</b><br /><br />Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela. <br /><br /><b>9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?</b><br /><br />Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo. <br /><br /><b>10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...) </b><br /><br />Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39163598</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/6/2006 12:26:16 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO</b><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/image0605.jpg"><br />- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na <b>noite de sábado (4/11)</b>. Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore... <br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/showfabro2.jpg"><br />- Na <b>noite de sexta (3/11)</b>, eu e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí </a>contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39161815</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/5/2006 12:01:41 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NA RECEPÇÃO DA POUSADA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.gnosis.art.pl/iluminatornia/sztuka_o_inspiracji/paul_klee/paul_klee_martwa_natura_bez_tytulu_1940.jpg"><br /><br />Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos!  Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo? <br /><br />Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança.  Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.  <br /><br />Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar. <br /><br />Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher. <br /><br />Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três.  Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro. <br /><br />Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos. <br /><br />- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.<br /><br />Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro. <br /><br />- Bagaceiro, eu? <br /><br />Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes. <br /><br />Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar: <br /><br />- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.  <br /><br />Tive pena de mim por não falar mais nada. <br /><br />Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava. <br /><br />- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39160593</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 06:18:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>REVELAÇÕES</b><br /><br />Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. <a href="http://carpinejar.zip.net/ ">Veja lá</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39160537</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 06:00:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br /></title>
<description><![CDATA[<b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NOVO CARPIM</b><br />De <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a> e Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/1600/carpimnovo2Bblog.0.jpg"><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html#39160530</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_11_01_archive.html</link>
<pubDate>11/4/2006 05:57:34 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA VEZ NO RESTAURANTE</b><br />Pintura de Miró<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://sobek.colorado.edu/~gimenez/miro/miroe.jpg"><br /><br />A mãe adoeceu e ele teve que levar o filho ao trabalho. <br />Era garçom do restaurante Ouriço. O filho de quatro anos foi tomado de austera alegria. Uma alegria adulta, por assim dizer. Uma alegria de levantar o queixo como se houvesse levantado de um dia para outro uma penugem entre o nariz e os lábios. <br /><br />A criança não se conteve de ansiedade. Finalmente iria ao trabalho do pai, tantas vezes prometido e adiado. <br /> <br />O pai, constrangido, explicou ao chefe o contratempo e prometeu não incomodar. <br /><br />Só que a criança perguntava mais do que o tempo de responder. Imitava seus gestos, sua carranca, questionou se ele não receberia também uma gravata borboleta. <br /><br />Há guris que sonham em ganhar uma camisa de futebol, o menino desejava uma gravatinha para encurtar o pescoço. Uma gravatinha para se exibir ao pai. Para mostrar o quanto que os dois se pareciam. <br /><br />O pai avisou que não tinha. Brabo. Já estava brabo, porque precisava atender as mesas, trocar as toalhas, repor o serviço, providenciar a comida.<br /><br />Se o garçom normalmente olha para todos os lados, ele olhava até para fora do restaurante a antever quem se aproximava. Orava pelo pouco movimento. Por ironia, a casa lotou rapidamente e sua pressão subiu como espuma de chope.<br /><br />No entrevero entre a cozinha e a recepção, não é que seu filho derrubou um prato de petiscos. O estilhaço produziu o batimento desordenado de um coração para transplante. O garçom-pai parou tudo para varrer, recolher os cacos e pedir desculpa. <br /><br />Saiu ralhando:<br />- Não mexe mais em nada! <br /><br />Ingenuidade crer no silêncio:<br />- Pai, o que eu vou fazer com os braços? <br />- Que braços?<br />- Não posso mexer em nada. <br /><br />A criança observava com admiração a agilidade do pai, capaz de suportar uma pilha de sete pratos em uma única mão, contornar as cadeiras com a cintura sem deixar cair e gritar os números das mesas. <br /><br />- Meu pai é malabarista.<br />- Meu pai nunca erra. <br />- Meu pai é famoso, todos chamam ele.<br /><br />A cada elogio que recebia, o garçom se irritava. O amor impróprio para aquele momento. A criança não entendia com quem falava, diferente do pai solto, risonho e brincalhão de casa, que o ajudava a colar figurinhas, que contava histórias e o fazia dormir com a mão no rosto. <br /><br />- Por favor, vou perder o emprego. <br /><br />O filho ensaiou um resmungo pela expressão de raiva, não por ter compreendido as palavras. <br /><br />- Tá bom tá bom, depois a gente conversa. <br /><br />O chefe percebeu o desespero de seu funcionário. O medo de falhar. Alcançou uma travessa para o menino levar refrigerante para uma mesa e entusiasmou os movimentos mexendo em seus cabelos. <br /><br />A criança foi bem devagar, contando os passos, orgulhoso e altivo com sua barba imaginária. Calçou o pedido na mesa. Tirou primeiro o refrigerante, depois o copo, concentrando o peso na boca. Tranqüilo, como chuva e calha. O casal servido bateu palmas. <br /><br />A criança falou alto, para que a voz encontrasse seu pai antes dele:<br /><br />- Viu? Sou que nem meu pai...<br /><br />Seu filho era mesmo ele. Mas bem melhor. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39150223</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/31/2006 06:05:26 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title>São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br /></title>
<description><![CDATA[São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006 <br /><a href="http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di28100615.htm">Folha de São Paulo</a>, Folhinha, 28/10/06<br /> <br /><b>POEMAS INÉDITOS</b><br />Arte de Joseph Cornell<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><b>MEU FILHO COMIGO</b><br /><br />Meu filho, não terminamos<br />de conversar mesmo dormindo.<br />Nossas tosses continuam o assunto.<br /><br />Uma responde à outra.<br />Uma completa a outra.<br />São tosses educadas,<br /><br />que não ofendem a noite. <br />Somos tremendamente <br />felizes na doença. <br /><br /><b>MINHA FILHA SEM MIM</b><br /><br />Minhas mãos não são mãos.<br />Mas pente, quando ajeito teu cabelo<br />no portão da escola. Mas relógio,<br /><br />a controlar tuas refeições. <br />Mas faca, a fatiar o pão na mesa. <br />Mas gancho, a segurar teu casaco<br /><br />para que corra no parque. Pai troca<br />as mãos pelos pés de propósito,<br />sempre atrasado em comparação com a mãe.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39140860</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/28/2006 09:36:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ELE NÃO PERDOA MEU PASSADO!</b><br />Colagem de Peter Blake<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_183641.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bbc.co.uk/radio3/programmes/images/peterblake.jpg"><br /><br /><i>"Bom dia! Eu e o meu namorado trabalhamos juntos. Antes de namorá-lo, saí com algumas pessoas, algumas delas aqui do trabalho. <br /><br />Ele ficou sabendo disso por intermédio de outras pessoas, e, no começo, quando ele vinha me questionar, eu negava. Primeiro porque eu ainda não gostava dele, achava que não tinha nada a ver ficar sabendo disso, e também porque eu não quero saber do passado dele e acho que ele deveria agir da mesma forma. Acontece que de tanto ele insistir, eu acabei contando algumas das coisas que fiz. Eu era uma pessoa extremamente inconseqüente e não estava nem aí pra nada. Saía mesmo, se eu estava a fim transava, enfim, não me preocupava com a minha imagem.<br /><br />Acontece que agora - não sei se você já passou por isso -  eu achei a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida. Realmente amo muito ele. Não quero mais saber de ninguém, me sinto extremamente feliz e completa. Mas estou sendo massacrada pelas coisas que já fiz anteriormente. Não sei como agir. Eu nunca vou conseguir modificar o meu passado. E creio que isso vai interferir no meu futuro com ele. Quero muito resolver isso, mas tudo que eu tento fazer ou falar parece que só piora as coisas. Tenho medo de perdê-lo. Ele é tudo que eu sempre procurei em um homem e agora que eu achei isso está me impedindo de ser realmente feliz com ele.<br /><br />Me ajude.<br /><br />Mirela"</i><br /><br />Olá, Mirela!<br /><br />Você tem uma história, sua bagagem não é resultado do sobrenatural e do Espírito Santo. Ao começar um namoro, não se apaga a memória. É uma ditadura fazer com que o outro elimine sua vida anterior, seus namorados, suas pequenas façanhas, suas aventuras. Boas ou ruins, deliciosas ou trágicas: elas aconteceram e ensinaram. A amnésia não significa fidelidade. Nem deve modificar seu passado, ou ficar envergonhada pelo aprendizado sexual. Ser feliz é não se proibir, permitir se conhecer, tentar. <br /><br />Sou contrário, por exemplo, a queimar caixinhas com as fotografias do ex. Inquisição combina com a Idade Média. Uma violência sacrificar parte dos documentos de uma vida para agradar alguém. Descartar as lembranças não preserva o futuro. Revela falta de sinceridade e conveniência. <br /><br />O único cuidado é evitar comparações, não transformar a memória em indiscrição ou grosseria. Inadmissível elogiar um antigo companheiro e evocar momentos inesquecíveis na intimidade. Isso é tortura. <br /><br />Caso tenha feito sexo com dois homens ao mesmo tempo, ou participou de swing, sei lá, nada é capaz de interferir o que estão construindo juntos. Ele não precisa aceitar, ou permitir, mas compreender. <br /><br />Não é nenhum crime transar! Ele não transou antes de conhecer você?<br /><br />Predomina a teoria machista, o homem pode transar com inúmeras mulheres na pré-história da relação, que só alimenta sua virilidade. Já a mulher pode ter apenas alguns casos, menos de uma mão, senão é promíscua. Por favor, com toda a experiência adquirida, o casal tem condições de se dar mais e melhor. O amor não é puritano, não é preconceituoso, não condena. É fiel à verdade.<br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39138407</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/27/2006 02:01:36 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O SUL</b><br /><br />Acabo de ser informado que receberei o <b>Prêmio Sul, Nacional e os Livros 2006</b>, da Rede Pampa, categoria <b>Iniciativa cultural</b>, pela abertura do <a href="http://www.unisinos.br/formacao_especifica/escritores/"> Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos</a>. É uma premiação que dedico aos alunos e professores.  <br /><br />Para completar a felicidade, Maria Carpi, digníssima mãe, ganhou na categoria Poesia com seu lançamento "O Herói Desvalido" (Bertrand Brasil).<br /><br />A cerimônia de entrega do troféu acontece na <b>terça (31/10)</b>, às <b>21h</b>, na <b>Associação Leopoldina Juvenil</b>, em Porto Alegre (RS). <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39138405</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/27/2006 01:59:46 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>LEITE EMPEDRADO</b><br />Pintura "Léa e Maura", de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mnba.gov.br/2_colecoes/8_pintura_br/2_p_guignard.jpg"><br /><br />Elas não eram gêmeas. Deus não repete a mesma letra. <br /><br />Deus se nega. Nega ter escrito alguma coisa. Deus é um autor inédito. Janaína e Jamela nasceram no mesmo ventre, dois minutos depois da outra. Parto normal, como se fosse normal o homem. A mãe Arlete trabalhava como faxineira de hotel. Apagava a memória dos hóspedes, que encontravam o quarto ileso do primeiro dia. Não prestou atenção em quem veio primeiro. Janaína ou Jamela? Dois minutos é pouco para uma vida, muito para uma morte. Não pensou nos nomes. Já estavam prontos, com roupas e sapatos. Suas duas meninas santas criaturas haviam morrido antes e se chamavam Jamela e Janaína. Morreram afogadas no açude. Não eram gêmeas. Nada no mundo é gêmeo: a alegria, a dor, a esperança, o rancor da alegre dor. Se havia alguma coisa alegre no mundo era a dor, isso Arlete conhecia. Rezava o terço gritando. Janaína e Jamela nasceram no dia dos finados. Provocação? Acreditou que Jamela e Janaína eram a Jamela e Janaína afogadas. O leite empedrou como se fosse lápide o mamilo rosado. Rosa cheirosa de lápide, sem vala de pétala para sair o cheiro, sem velas de abelhas para mudar de lugar. O seio preso é pior do que dor de dente. O seio preso é um dente sufocando a língua. Cheiro trancado é fedor. A fé fede. Janaína e Jamela fermentaram aos bocados, aos bordados, trancadas em casa. Idade não havia. A única certeza é que uma nasceu dois minutos depois da outra. Qual? Arlete não controlou, gritando de dor. O grito é uma forma de rir. Vestiam a mesma roupa. A roupa das irmãs gêmeas mortas. Jamela gostava de ser Janaína e Janaína gostava de ser Jamela, para enlouquecer a mãe. Mas Jamela se agravava em Janaína pela cova abaixo da boca e Janaína se fingia de Jamela emagrecendo. O pai Boécio andava de caminhão pelas estradas. Nunca vinha para jantar. Nunca vinha para almoçar. A mãe chamava pela casa as quatro filhas, duas mortas e duas vivas, entre panelas fumegando e janelas cerradas. Qual das duas vivia no escuro? Deus não explica o que não escreveu. Festa de aniversário não havia. Janaína e Jamela visitavam o cemitério. Ficavam o dia inteirinho diante da cruz das irmãs mortas. Seus nomes antecipados na pedra, falecidos antes de nascerem. A morte é bem mais durável, não discorda, não quebra, não amolece. A mãe rezava um terço de trás para diante, revezando as novenas com Jamela e Janaína. Quem reza terço se acostuma a algemar as mãos. Esquerda sentada na direita. Filhas perfeitas são as que morreram. Cidade pequena é assim: tudo termina cedo para começar mais tarde. Jamela e Janaína são tão fortes que cresceram sem existir. <br /><br />Só Arlete as viu, preocupada em apagar os dois minutos de diferença entre uma e outra. <br /><br />Da antologia <b>"Contos sobre tela" (Edições Pinakotheke, 142 páginas)</b>, organização Marcelo Moutinho, vários autores.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39136487</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/26/2006 07:50:43 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SÚBITA COMPREENSÃO</b><br />Pintura de Guayasamin<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://i18.ebayimg.com/04/i/07/e4/c6/de_1_b.JPG"><br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i>. Ele usa todo o céu da boca para a declaração <br /><br />Repentinamente, posiciona-se preocupado com sua saúde, com o bem-estar, com sua fragilidade. Identifica seu desânimo, o estresse, a irritação excessiva. De onde partiu essa generosidade? <br /><br />Como um santo convertido em plena guerra, ele passa a se importar com sua felicidade. Não é esquisito? Deseja sua alegria, a ponto de colocá-la acima da dele. Oferece o corpo ao sacrifício, renuncia o egoísmo para agradá-la. Finalmente se põe no lugar da mulher e vislumbra uma saída.  <br /><br />Com fala mansa e cordial, adverte que você precisa de um tempo sozinha, um intervalo para pensar e se fortalecer, seria agradável passear mais com as amigas, investir em projetos pessoais e largar um pouco a casa. Confessa que estava sendo egoísta, que não percebeu seu cansaço antes e pede desculpa pela lentidão de raciocínio. Age como um sonho de homem, dedicado e delicado. <br /><br />Recomenda até uma viagem de férias, para Maceió, com tudo pago. Logo ele, extremamente sovina. "Eu cuido da casa, fica tranqüila", avisa. Promete que as plantinhas não irão morrer de sede, tem cabimento?<br /><br />A impressão inicial é que teve um estalo, bateu a cabeça, acordou a sensibilidade, deixou o estado de hibernação masculina. <br /><br />O que cheira mal é que a frase surge unicamente na crise e na tensão. Na briga e na despedida. Não será ouvida antes ou depois de um orgasmo, antes ou depois do arrebatamento. Não será ouvida no início do relacionamento. Aparece nos créditos finais do amor, quando o filme já foi visto. <br /><br />A expressão é uma paulada, um genérico do "quero continuar seu amigo". Triste escutá-la de seu marido ou de seu namorado. Embebida de falsa serenidade. De veneno. De cinismo. Tem a gentileza de um fio dental. <br /><br />O que ele está pedindo para que faça quer fazer para si e não tem coragem de assumir. Joga a responsabilidade para o seu lado. É um embuste, um golpe de estado. Ele espera que diga: "tem razão", para em seguida soltar os demônios, aprontar, fazer a pose de vítima e não se responsabilizar pela separação. Ainda sai por cima, com o paternalismo dos cuidados. <br /><br /><i><b>Só quero que seja feliz</b></i> deve ser lido "é melhor nos separarmos, que tenho outros projetos". <b><i>Só quero que seja feliz</i></b> deve ser interpretado "quero minha felicidade, que não combina com a sua". <i><b>Só quero que seja feliz</b></i> é uma ordem de despejo entregue com educação. <br /><br />Nunca somos felizes pelos outros. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39132702</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/25/2006 02:30:29 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>REDIAL</b><br />Para <a href="http://falsamagra.zip.net/index.html">Aninha</a>, em nosso aniversário<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://spaightwoodgalleries.com/Media/Chagall/Chagall_House_Village.jpg"><br /><br />Eu ligo <i>umas</i> doze vezes por dia para minha mulher. Com ou sem assunto, nos problemas ou na absoluta normalidade. Pode surgir uma tragédia ou uma bonança que dará no mesmo, vou ligar com entusiasmo num dia discreto e invisível. Sou o tipo classificado como chato, carrapato, grudento. <br /><br />Nenhuma mulher gostaria da minha companhia. Solidão ao meu lado precisa me incluir. Não permito minha esposa ter um amante em paz. Ela exibe uma generosidade incalculável. Toma uma decisão delicadíssima numa reunião e lá vem seu marido interromper e perguntar de repente se está tudo bem com ênfase de profeta. Nenhum acontecimento extraordinário ocorreu desde a última vez que conversamos, mas extraordinário é arrumar linguagem sem a ação. A linguagem torna-se ação. <br /><br />Peço exclusividade para revelar coisa nenhuma e me ofendo se ela não me socorre na hora. Descrevo o que comi no almoço, faço fofoca da família, aviso da última contratação do Internacional. Ou seja, temas inadiáveis. Sou como uma mãe novata, que detalha os primeiros sons do bebê com assombro. Ainda estou nascendo em mim. <br /><br />Há momentos insuportáveis, em que embeiço um favor quando ela não pode se mexer com o excesso de tarefas. A pressa é autoritária: atropelo. Nem pergunto se ela pode atender: falo. Ela guarda muito amor para suportar o batuque do celular a cada meia hora. Torro sua paciência com relatórios do nada. <br /><br />Herdei de minha mãe o dom aos assuntos secundários. Demoro a contar o que interessa, isso quando conto. Vou acumulando pormenores, detalhes inexpressivos, comentários fugazes para chegar ao motivo da ligação. Aliás, é raro um telefonema com motivo. Desligo antes de revelar. Ou esqueço o que desejava. Não ligo para passar recados e urgências. Ligo para estar junto. Uma das contradições é que uso a concisão somente ao receber chamadas e me perco ao fazê-las. <br /><br />Não digo que pensei nela, telefono para demonstrar que penso nela. Observo uma vitrine, uma roupa que ela adoraria vestir, uma promoção imperdível de sapatos e me assanho nas teclas a questionar se ela já tinha visto. Manuseio o celular como um interfone, com a expectativa de que ela estará em casa e me mandará subir. <br /><br />Por mais que eu telefone para ela, sempre tem uma declaração que escapa. Uma observação que esqueci e temo que seja enterrada. Já desliguei e sofro com a vontade de retornar. Sou um redial permanente.  <br /><br />Minha independência é da boca para fora, não sei viver sem narrar e partilhar a ansiedade.  Não é insegurança, carência e couro do divã. As vozes dentro de mim não são tão atraentes, inteligentes e interessantes quanto a voz dela.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129277</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/24/2006 11:05:10 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 50 DIAS</b><br /><br /><img src="http://www.waw.com.br/new/2004/cigarro-a.jpg"><br /><br /><b>*</b> Estava devendo notícias. Testei os meus limites nas últimas semanas alternando abstinência e ciclos de cigarros intermináveis. Houve dias que não fumei nada; em outros, uma carteira até enjoar. <br /><br /><b>*</b> Quem me viu em Brasília pitando, pode guardar a imagem para um antiquário. <br /><br /><b>*</b> Desde ontem, não fumei mais nenhum cigarro. E foi uma data particularmente tensa, com homenagens e declarações emocionadas. Em circunstâncias semelhantes, teria fumado um maço. <br /><br /><b>*</b> É esquisito, agora acendi um cigarro como incenso. Deixei ele no cinzeiro queimando sozinho, mão invisível de vidro.<br /><br /><b>*</b> Estou no segundo dia sem fumar, cumprindo minha promessa de aniversário. Mudei minha perspectiva de enxergar o vício: eu me trato como um não-fumante, que é melhor do que ex-fumante. É uma cilada psicológica que criei para enfrentar o nervosismo e a ansiedade. Como botei na cabeça que nunca fumei, não sofro nenhuma perda. Na figura de ex-fumante, eu me sentia menor, em dívida, perdendo tempo e prazer.<br /><br /><b>*</b> Um fumante cessa seu vício depois de várias tentativas frustradas. Ele assume um olhar minoritário. Como ninguém mais acredita nele, de tanto que prometeu que iria desistir, ele passa a acreditar em si como provocação. Uma esperança sem resistência não é esperança. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129245</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/24/2006 10:54:03 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><b>25/10 (quarta), às 20h</b> - Ao lado da escritora Cláudia Tajes e da jornalista Paola Deodoro, serei a vítima do <b>Papocabeça</b>, debate quinzenal pop-filosófico na Casa de Lou-lou (Mariante, 170), em Porto Alegre (RS). A mediação é de <b>Carol Teixeira</b>, com total apoio do público, que faz perguntas sobre o tema da noite: A Vaidade. Ingresso: R$ 5. Chegue cedo para pegar mesa!    <br /><br /><b>31/10 e 1º/11 (terça e quarta)</b> - <a href="http://www.forumdasletras.ufop.br/2006/">Fórum das Letras de Ouro Preto (FLOP)</a> -  Minas Gerais <br />Na noite de terça (1°/11), sou o convidado da <i>Via Sacra Poética</i>, saraus e perfomances do evento. Farei assaltos poéticos em bares e restaurantes da cidade. Informações Gerais:  (31) 3551-2120<br /><br /><b>PARTICIPAÇÃO NA <a href="http://www.feiradolivro-poa.com.br/">52ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE</a></b><br /><br /><b>28, 29 e 30/10 - sábado, domingo e segunda - 18h30</b><br />Sala Memorial do Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223)<br /><b>OFICINA DE CRÔNICAS</b>, por Fabrício Carpinejar <br />Primeiros passos no gênero: escolha de temas, estrutura da crônica, observação do cotidiano.<br /><br /><b>30/10 - segunda - 17h30</b><br />Sala dos Jacarandás - Memorial do RS (junto à Feira do Livro).<br /><b>Lançamento do CD "<a href="http://www.trintaemtranse.com.br/">Trinta em Transe</a>"</b>, coletânea endiabrada de poetas e prosadores do sul para voz e posteridade. Gravei a faixa "O que uma mulher quer?", do livro "O Amor Esquece de Começar".  <br />O disco já está disponível em várias livrarias legais de Porto Alegre (Palavraria, Beco dos Livros, Botequim das Letras, Cultura, Ventura e lá vai corda). <br /><i>Pedidos: Marcelo Noah - marcelonoah@gmail.com</i><br /><br /><b>02/11 - quinta -18h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Biblioteca do Patrono<br /><b>FAHRENHEIT 451: Fabrício Carpinejar</b><br />Patronáveis apresentam seus clássicos preferidos. Interpreto "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima. <br /> <br /><b>03/11- sexta - 19h</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - O Retrato<br /><b>A REFLEXÃO CRÍTICA EM POESIA</b><br />(Bate-papo arejado e benfazejo)<br />Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin e Ronald Augusto<br />  <br /><b>03/11 - sexta - 20h30</b><br />Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223) - Auditório Barbosa Lessa<br /><b>POESIA EXPLÍCITA AO VIVO</b>, <br />(Espetáculo de Fabrício Carpinejar e <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>)<br /><br /><b>04/11 - sábado - 19h30<br />Pavilhão de Autógrafos<br />Sessão de autógrafos do livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), ao lado de "O Herói Desvalido", de Maria Carpi</b><br /><br /><b>5/11 - domingo - 18h</b><br />Casa do Pensamento, Área Infantil e Juvenil - Armazém A do Cais do Porto<br /><b>A UMBIGOLATRIA NACIONAL</b><br />(Considerações sobre o individualismo dos brasileiros)<br />Fabrício Carpinejar, Juremir Machado da Silva, Cirilo Augusto Thomas, Ênio Meinen e Marco Antonio Boa Nova Valério<br /><br /><b>11/11 - sábado - 17h30</b><br />Memorial do Rio Grande do Sul - Sala dos Jacarandás<br />Vicente Franz Cecim apresentado por Fabrício Carpinejar e Antônio Hohlfeldt<br />(Escritor paraense conversa sobre sua obra, que reúne poesia, ensaio, prosa e anotações de viagem).<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39129123</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/24/2006 09:46:56 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O MAPA </b><br />Para Sylvia<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.geocities.com/WallStreet/3701/ita/pictures/itamg.jpg"><br /><br />O escritório amarelo, os quadros alinhados e distribuídos com equilíbrio, as cores dos móveis evocando o miolo dos girassóis. A luz da lamparina aquecia a madeira entre o rústico e o preciso. Você sabe a casa em que é mais fácil encontrar um jogo de gamão do que um tabuleiro de xadrez?  Pois é essa que estou falando. <br /><br />Era uma casa de bom gosto, se não fosse um mapa rodoviário grudado na parede com durex. Um mapa com a confusão babélica das linhas viárias. <br /><br />Não compreendia a utilidade de um mapa de botequim no apartamento de minha amiga de Brasília. Ela não viajava muito, não tinha nenhuma atividade geográfica em sua docência na universidade. Muito menos constava possuir uma obsessão por guias turísticos. Ou uma queda por arqueologia. <br /><br />O mapa combinaria com um posto da polícia rodoviária, para a finalidade da receber perdidos e atender acidentes, não naquele lugar temperado de livros e relíquias pessoais. <br /><br />A cartografia das estradas mostrava marcas hesitantes de caneta vermelha, datas enredadas em iniciais, círculos afobados, movimentos migratórios das mãos. Traçado infantil de adulto, que engana sua idade na letra, mas não nos desenhos.  <br /><br />Fiquei aguardando no sofá a amiga se arrumar para sairmos, até que tocou o telefone. Ela veio meio descabelada para o escritório e conseguiu atender no último toque. O último toque é sempre o que apanhamos com o fôlego cortado. <br /><br />Começou a conversar de frente ao mapa e de costas para mim, o que agravou a curiosidade. Segurando o telefone no ombro, tomou uma caneta hidrocor na gaveta e passou a riscar cidades, a sobrevoar distâncias com a pressão do indicador. Enfrentou dificuldades para dar conta dos movimentos simultâneos: assinalar o pouso do dedo, decifrar os nomes microscópicos dos municípios e manter a ligação em um estado civilizatório de pergunta-resposta.  <br /><br />Ela falava com seu namorado do Rio de Janeiro. Um ator. Marcelo. Que partiria em uma nova excursão. <br /><br />Neste momento, entendi, entendi entendi.<br /><br />Ela reproduzia as andanças de Marcelo no mapa. Acompanhava seus avanços e recuos, esperando que ele ficasse tão próximo que pudessem se surpreender e matar as saudades. Faz seu roteiro, sem que ele saiba. Ajuda as veias a encontrar a saída mais próxima.<br /><br />Quando ele falar o nome estranho de uma cidade visitada, ela já terá imaginado. Quando comentar que esteve em Manaus, já lembrará da estação. <br /><br />Só o amor é capaz de ser tão patético e assim soar sublime. Tão ridículo e assim alcançar a verdade. <br /><br />Só o amor é capaz de articular segredos sem denunciar a devoção, sem depender das recompensas. <br /><br />Ela não colocou o mapa para esnobar o que está sentindo ou provar alguma coisa. Não me contou nada, descobri por acaso. <br /><br />O mapa é o rascunho do corpo dele. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39124622</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/22/2006 04:25:28 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CARPINEJAR SEM CENSURA</b><br /><br />Minha filha <a href="http://pontacabeca.zip.net">Mariana</a>, 12 anos, inventou de fazer um blog contando os bastidores do pai dela. Sobrou para mim. O nome é <b>"Carpinejar Revelação"</b>. Não tenho nem idéia do que virá. Como é surpresa, conhecerei os textos ao mesmo tempo que você. <a href="http://carpinejar.zip.net/">Confira</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39121351</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/21/2006 08:31:31 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br /></title>
<description><![CDATA[<b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CAMISA AZUL-GRENÁ</b><br />Arte de Arthur Bispo do Rosário<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://personales.ya.com/laemental/bispo_02.jpg"><br /><br />Minha avó usava uma camisa azul de seda. A sua preferida. Em todas as fotos de aniversário, ela aparece com a blusa, segurando os netos, trazendo bandejas de galinha recheada, rindo com o queixo para baixo. A impressão é de que ela tirou todas as fotografias de sua vida em um único dia. <br /><br />Seus olhos formavam leques, com as abas internas à mostra. Quero comentar que seu olhar ventava. E não a boca. Piscava muito, a abafar as diferenças entre os familiares. Disfarçava as brigas dos filhos e tios, já que não havia como evitá-las. <br /><br />Sua camisa azul-grená foi a minha grande tentação. Os botões perolados eram chapados de um lado, perfeitos como bolinha para o futebol de mesa. <br /><br />Custoso encontrar aquela bolinha para jogar com os irmãos e os vizinhos... Suportávamos botões furados, quadrados, excessivamente redondos, que não voavam como pretendíamos para as redes. <br /><br />De repente, a camisa azul-grená oferecia dez botões fabulosos. Desenrolando os frágeis fios brancos, poderiam pousar definitivos em minhas mãos, para a inveja dos adversários. <br /><br />Minha avó morava no interior do Estado e sempre a visitava no veraneio. Descobri os botões quando estava em seu colo e toquei por acidente em seu seio direito. O sutiã não me revistou. Ela me observou feio, em reprimenda. <br /><br />Esperei sua saída na fruteira, de manhãzinha, para furtar a peça. Entrei manso em seu quarto. Impossível entrar devagar em uma casa com o piso de madeira! Meu batimento discordava das pernas. Puxei com os dentes uma das dobras da corda. Escolhi o botão da manga, julgando ser o mais fácil de cair e soar como queda involuntária. Enfiei-o afoito no bolso e aguardei o regresso para a capital o quanto antes, para não ser flagrado. A culpa não combinava com os figos maduros e avermelhados do pátio. <br /><br />Repetia o ritual a cada verão. Dos meus sete aos quatorze anos. Minha avó, sempre cuidadosa com as roupas, não ia repondo os botões. Vivia pedalando a máquina de costura e não deixava uma única peça desfalcada ou rasgada. Mas sua camisa azul-grená favorita permanecia desdentada.  <br /><br />O pavor crescia ao supor que ela sabia o que eu aprontava. Estaria mais calmo se arrumasse sua camisa imediatamente. Por que não me denunciava e abria o jogo? Eu já roubava esperando ser pego. Já roubava fazendo barulho. E nunca era encontrado. Nunca advertido. <br /><br />Quando minha avó morreu, vestia a mesma camisa azul-grená. Vestia é modo de dizer. Restavam somente três botões do meio. Deixei para Deus abri-los.<br /> <br />Eu a despi. O mistério é ela ter concordado com isso. <br /><br /><img src="http://www.clubedacalcinha.com.br/logotipo.jpg"><br />(<a href="http://www.clubedacalcinha.com.br/babydoll06.htm">Clube da Calcinha</a>, outubro/2006)<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39112790</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/18/2006 10:27:13 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>TÁ ACABANDO!</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://www.eyestorm.com/images/big/bwork12149.jpg"><br /><br />No momento de lavar o brim, transplantava moedas de uma calça a outra. As moedas não se desvalorizavam com as mudanças histéricas dos planos econômicos e do dinheiro. Eram numerosas fichas telefônicas, numa época distanciada do celular e onde o telefone fixo significava propriedade de família. Na década de 80, eu não chegava em casa sem contar os telefones públicos no caminho. Por uma questão de urgência e prevenção, se o primeiro não funcionasse, deveria conhecer qual o mais perto. O orelhão tinha a importância de parada de ônibus, de posto policial, de pronto-socorro. Mais do que lufadas de vento ou placa de rua, esquina precisava de uma cabine para ser valorizada.<br /><br />Filas se formavam diante do telefone, em qualquer horário e chuva. Igual a comício-relâmpago. Igual disputa de caixa de mercado no final de semana. Cada ficha que caía produzia um barulho de descarga e acelerava a voz do interlocutor, receoso com o fim abrupto da conversa, de esquecer de dizer o necessário. Quantas declarações amorosas, pedidos de emprego, saudades de filhos não foram interrompidos com "fala rápido, não tenho mais ficha"?  Ou o cara estava arrependido de seus erros e, quando se sentia pronto a pedir o perdão, a ligação silenciava. O "alô alô" desesperado dele era um modo de chorar, que sua mulher nunca escutaria. <br /><br />O aparelho engolia a seco as aspirinas metálicas. O orelhão hipocondríaco tomava umas cem por dia e não morria. Agüentava a overdose de um dia inteiro até chegar o para-médico da companhia telefônica, que realizava a lavagem estomacal.<br /><br />Eu conversava enrolando minhas pernas no poste. Como se o poste fosse uma perna feminina e calçasse salto-agulha. Ao ligar para uma colega, exigia o talento de disfarçar a pressa. Deixava a menina relatar minúcias de sua tarde, mesmo que restasse somente uma ficha e alguns minutos. <br /><br />Abafava os soluços do telefone quando consumia os créditos. Jurava que quem estava no outro lado da linha comigo escutava a ficha tropeçando para dentro. Escondia o barulho de estômago falando repentinamente mais alto. <br /><br />Fazia de conta que tinha todo o tempo do mundo para discorrer sobre frivolidades enquanto os que estavam atrás de mim faziam caretas de descontentamento e firmavam a solidariedade do resmungo. O orelhão era feito para dar recado, mas ninguém obedecia à regra de etiqueta. Impossível não contrariá-lo. De bom tom não olhar para trás, senão batia o arrependimento da tagarelice e da espera dos usuários. Colava, portanto, o rosto no disco e virava estátua. <br /><br />Havia a paciência de ouvir as conversas alheias. Não foram uma ou duas vezes que mudei meu discurso depois de acompanhar depoimentos emocionados em minha frente. Iria ligar para terminar um namoro e, enquanto aguardava, via uma senhora sofrendo, balbuciando, insistindo para que ele voltasse. Alterava de pronto minha idéia e marcava um novo encontro. <br /><br />O orelhão me botava a pensar antes de dizer. Sem ele, minha vida tem sido perigosamente precipitada. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39096351</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/12/2006 12:50:06 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROGRAMAÇÃO</b><br /><br /><br /><b>13/10 (sexta-feira) - Sarau do Horror: Sexta-feira 13 com Fabrício Carpinejar</b><br />Bate-papo com escritor e esquete teatral com o grupo Ardearte Alcova de Sangue <br /><b>Biblioteca Pública Olavo Bilac</b>, Feira do Livro de São Leopoldo, <b>18h</b>.<br /><br /><b>18/10 (quarta) - <a href="http://br.geocities.com/cenaspoeticas/programacao18.html">FESTIVAL CENAS POÉTICAS DE BRASÍLIA</a></b><br /><br /><b>14h - Leitura Dramática: Fazendo cena com Carpinejar</b><br />Concepção: Grupo Representação e crítica da poesia contemporânea<br />Coordenação: Prof. Dra. Sylvia Cyntrão<br />Direção: Julliany Mucury<br />Local: Auditório Dois Candangos <br /><br /><b>16h - Oficina com Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Poesia não é elogio: desaforando a Vida</i><br /><br /><b>19/10 - Palestra em Frederico Westphalen (RS), 10h, URI (Universidade Regional Integrada)</b><br /><i>Rua Assis Brasil, 709</i><br /><br /><b>21/10 (sábado)</b> - <a href="http://www.feiradolivrocaxias.com.br/">Feira do Livro de Caxias do Sul (RS)</a><br />Bate-Papo: "Blogs de escritores-jornalistas", com Fabrício Carpinejar e Paulo Ribeiro<br />Café Cultural, na Praça Dante Aligheri, <b>17h</b>  <br /><br /><b>23/10 (segunda)</b> - <b>Entrega do Prêmio Literário Erico Verissimo</b>, pela Câmara Municipal de Porto Alegre (RS). <br />Sarau especial sobre poesia e crônicas de Fabrício Carpinejar. CEEE Erico Verissimo, 20h. <br /><i>Rua dos Andradas, 1223 Fones: 51 3226-7974 e 3226-5342</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39096204</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/12/2006 12:03:32 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ENROLAÇÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_178759.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thefineartcompany.co.uk/serigraph/schwimm.jpg"><br /><br /><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Acompanho suas poesias e admiro muito suas metáforas. Eu também escrevo, e depois que li teus poemas, mudei totalmente minha forma de escrever. Mas a questão hoje é sobre o consultório sentimental.<br /><br />Você sempre dá conselhos para mulheres. Agora dá um conselho pra um homem.<br /><br />Terminei meu relacionamento de um ano e dois meses com minha namorada. Tudo por causa das dúvidas dela em relação a mim, se queixando de não saber se de fato quer continuar namorando. <br /><br />Já que é assim, preferi cair a ficar em cima da corda bamba. Ela quer que eu esteja por perto, mas sem ficarmos juntos. É complicado porque gosto muito dela. Como vou olhá-la e não poder beijá-la? Como ficar ali, ao lado, servindo de amigo?<br /><br />Não dá cara... Tô arrasado. Não durmo faz uma semana. Já liguei pedindo pra voltar, mas ela rejeita a possibilidade. Diz que se eu quiser ir visitá-la tudo bem. Só visitar, nada mais! <br /><br />Eu me conformei, estou tentando esquecê-la.<br /><br />Será que o mais sensato é fazer isso ou tentar reconquistá-la custe o que custar?<br /><br />Me responde, cara, ajuda este fã dos teus poemas a achar uma solução."</i><br /><br />Olá, Anderson<br /><br />Vai cair de todas as formas: ficando no muro, pulando ou acenando para os carros. <br /><br />Eu alteraria a postura. É confortável que permaneça ao lado dela. Assim não some e, ao mesmo tempo, não encontra ninguém.Ela pretende manter o domínio e não se responsabilizar pelas ações futuras. Como ela já disse que não deseja namorar, está livre para outro relacionamento. Como ela disse que aceita só visita, já o colocou em igualdade de condições com os demais. Entendeu? Se arrumar um novo parceiro, dirá que foi honesta e que não fez trapaça. <br /><br />Sei que é complicado esquecê-la, mas é a única forma de não se esquecer. Não tente reconquistá-la custe o que custar. Costuma custar uma depressão e uma lista onerosa de calmantes. Deixa que ela descubra o quanto sua ausência dói, já que não descobriu o valor de sua presença. Afaste-se. Depende de sangue frio para recuperar o calor do corpo dela. <br /><br />Depois de um relacionamento, se não há concordância de ambas as partes pela separação, a amizade é inviável. Como diminuir a intimidade? Bem aquilo que você descreveu: "olhá-la e não poder beijá-la". Isso é tortura. Na vida profissional ou no amor, não há como diminuir o vencimento. <br /><br />Lembra da música de Milton Nascimento: "amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves"? Ele errou a letra. Após o amor, amiga é coisa para se guardar debaixo de sete palmos. <br /><br /><i>Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39094940</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/11/2006 09:07:49 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ESCONDO O AMOR NA AMIZADE</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.allposters.com/images/NIM/MS659.jpg"><br /><br />Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia. <br /><br />Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro.  Os dentes como lápis apontados pelo vento. <br /><br />Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada. <br /><br />Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida. <br /><br />Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.<br /><br />Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada. <br /><br />Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto. <br /><br />Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar. <br /><br />Amei durante a semana mais do que nos finais de semana. <br /><br />Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim? <br /><br />Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo. <br /><br />A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba. <br /><br />Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39081473</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/8/2006 09:41:09 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CONTRA FAKES E FALSOS PROFETAS</b><br /><br />A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39080459</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/7/2006 08:29:07 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>AMOR NA GRAVIDEZ</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Gustav Klimt<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_176239.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.zarez.hr/140/images/SZ%20Austrija%202%20-%20Klimt%20copy.jpg"align=right><i>"Fabrício,<br />Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adoro seu blog, coloquei-o como favorito e acesso toda semana para alimentar minha alma.<br /><br />Resolvi te escrever para uma "consulta poética", pois estou em um momento da mais pura inspiração: estou grávida (12 semanas), segunda gestação (tenho uma filha linda, de 6 anos), mas desta vez está tudo tão diferente. Tenho me sentido extremamente triste (não era pra ser o contrário?), apesar de não ter parado com minhas atividades (nem profissionais, nem pessoais). Às vezes me pego cobrando atenção do meu marido, não o vejo "babando" por mim ou pela gravidez, não recebi nenhuma cartinha dele de alegria pelo novo fato (e olha que já estávamos 'tentando' há mais de um ano e meio), será que estou querendo demais? <br /><br />Ele recebeu a notícia com a maior alegria, e às vezes pra puxar assunto pergunta se eu já pensei em algum nome, mas é o máximo de manifestação! Não sei se fiz mal, homens têm a mania de termos de explicar tudo o que queremos (até o que nos parece óbvio) e foi isso que fiz: pedi a ele que se expressasse mais, que me escrevesse algo, mas foi tudo em vão.É claro que cada um tem um temperamento diferente, eu sou mais sensível, enquanto ele é mais prático, mas você não acha que a gestação era pra 'quebrar' todos os gélidos 'muros individuais'?"</i><br /><br />Olá, Cristina<br /><br />A gravidez aumenta a sensibilidade. A audição, o tato, o gosto. É uma TPM do bem. Fica-se mais generosa e afetiva. Mais inteira. A alegria e a tristeza aparecem com intensidade redobrada. Tempo de solidão, em que os acontecimentos são interiores e imperceptíveis. Um calafrio e chute no ventre, um enjôo, uma vontade de comer algo estranho, uma lembrança inusitada. Como explicar que isso é importante para ele? <br /><br />É o mesmo que discursar no almoço sobre o carregamento de folhas pelas formigas perto da chuva. São fenômenos poéticos e musicais, próprios de uma atmosfera de encantamento. Reverenciam-se os pressentimentos e as premonições. A mulher grávida é uma profecia. <br /><br />Durante o período, a gestante é um ser da invisibilidade. Valoriza os sentimentos, as vésperas das roupas, os detalhes, o tom da pronúncia, os rituais de cortejo e de carinho. Repara na melodia, enquanto o seu companheiro procura a letra. O homem é um animal da visibilidade.Presta atenção somente na escolha do nome, na identificação do sexo, quando a barriga cresce. Naquilo que é enxergado. Diria mais: a mulher é grávida por toda a vida; o homem, unicamente nos nove meses. <br /><br />É natural sua cobrança para que seja mais assistida, mas ele não entendeu o que vem acontecendo. Pensa que é mais uma etapa da vida do casal, como o namoro, o casamento, a ascensão profissional, a compra da casa. Se ele é prático, não vai mudar na gravidez. Será inútil fazer roteiros turísticos pela sua imaginação. Mudará assim que nascer a criança. O filho oferece tudo o que o homem não entendeu de sua mulher antes. Temo que possa sofrer um desgaste maior na estima depois do nascimento do bebê. Já que o bebê tende a absorver a atenção, colocando a mãe em segundo plano. <br /><br />Alguns homens acreditam que estão perdendo a mulher para a gravidez, outros acreditam que ganham a mulher com a gravidez.Talvez seu marido seja o primeiro caso e não perceba que ele também está grávido. Ainda não caiu a ficha.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>AMOR NA GRAVIDEZ</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Gustav Klimt<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_176239.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.zarez.hr/140/images/SZ%20Austrija%202%20-%20Klimt%20copy.jpg"align=right><i>"Fabrício,<br />Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adoro seu blog, coloquei-o como favorito e acesso toda semana para alimentar minha alma.<br /><br />Resolvi te escrever para uma "consulta poética", pois estou em um momento da mais pura inspiração: estou grávida (12 semanas), segunda gestação (tenho uma filha linda, de 6 anos), mas desta vez está tudo tão diferente. Tenho me sentido extremamente triste (não era pra ser o contrário?), apesar de não ter parado com minhas atividades (nem profissionais, nem pessoais). Às vezes me pego cobrando atenção do meu marido, não o vejo "babando" por mim ou pela gravidez, não recebi nenhuma cartinha dele de alegria pelo novo fato (e olha que já estávamos 'tentando' há mais de um ano e meio), será que estou querendo demais? <br /><br />Ele recebeu a notícia com a maior alegria, e às vezes pra puxar assunto pergunta se eu já pensei em algum nome, mas é o máximo de manifestação! Não sei se fiz mal, homens têm a mania de termos de explicar tudo o que queremos (até o que nos parece óbvio) e foi isso que fiz: pedi a ele que se expressasse mais, que me escrevesse algo, mas foi tudo em vão.É claro que cada um tem um temperamento diferente, eu sou mais sensível, enquanto ele é mais prático, mas você não acha que a gestação era pra 'quebrar' todos os gélidos 'muros individuais'?"</i><br /><br />Olá, Cristina<br /><br />A gravidez aumenta a sensibilidade. A audição, o tato, o gosto. É uma TPM do bem. Fica-se mais generosa e afetiva. Mais inteira. A alegria e a tristeza aparecem com intensidade redobrada. Tempo de solidão, em que os acontecimentos são interiores e imperceptíveis. Um calafrio e chute no ventre, um enjôo, uma vontade de comer algo estranho, uma lembrança inusitada. Como explicar que isso é importante para ele? <br /><br />É o mesmo que discursar no almoço sobre o carregamento de folhas pelas formigas perto da chuva. São fenômenos poéticos e musicais, próprios de uma atmosfera de encantamento. Reverenciam-se os pressentimentos e as premonições. A mulher grávida é uma profecia. <br /><br />Durante o período, a gestante é um ser da invisibilidade. Valoriza os sentimentos, as vésperas das roupas, os detalhes, o tom da pronúncia, os rituais de cortejo e de carinho. Repara na melodia, enquanto o seu companheiro procura a letra. O homem é um animal da visibilidade.Presta atenção somente na escolha do nome, na identificação do sexo, quando a barriga cresce. Naquilo que é enxergado. Diria mais: a mulher é grávida por toda a vida; o homem, unicamente nos nove meses. <br /><br />É natural sua cobrança para que seja mais assistida, mas ele não entendeu o que vem acontecendo. Pensa que é mais uma etapa da vida do casal, como o namoro, o casamento, a ascensão profissional, a compra da casa. Se ele é prático, não vai mudar na gravidez. Será inútil fazer roteiros turísticos pela sua imaginação. Mudará assim que nascer a criança. O filho oferece tudo o que o homem não entendeu de sua mulher antes. Temo que possa sofrer um desgaste maior na estima depois do nascimento do bebê. Já que o bebê tende a absorver a atenção, colocando a mãe em segundo plano. <br /><br />Alguns homens acreditam que estão perdendo a mulher para a gravidez, outros acreditam que ganham a mulher com a gravidez.Talvez seu marido seja o primeiro caso e não perceba que ele também está grávido. Ainda não caiu a ficha.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>AMOR NA GRAVIDEZ</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Gustav Klimt<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_176239.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.zarez.hr/140/images/SZ%20Austrija%202%20-%20Klimt%20copy.jpg"align=right><i>"Fabrício,<br />Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adoro seu blog, coloquei-o como favorito e acesso toda semana para alimentar minha alma.<br /><br />Resolvi te escrever para uma "consulta poética", pois estou em um momento da mais pura inspiração: estou grávida (12 semanas), segunda gestação (tenho uma filha linda, de 6 anos), mas desta vez está tudo tão diferente. Tenho me sentido extremamente triste (não era pra ser o contrário?), apesar de não ter parado com minhas atividades (nem profissionais, nem pessoais). Às vezes me pego cobrando atenção do meu marido, não o vejo "babando" por mim ou pela gravidez, não recebi nenhuma cartinha dele de alegria pelo novo fato (e olha que já estávamos 'tentando' há mais de um ano e meio), será que estou querendo demais? <br /><br />Ele recebeu a notícia com a maior alegria, e às vezes pra puxar assunto pergunta se eu já pensei em algum nome, mas é o máximo de manifestação! Não sei se fiz mal, homens têm a mania de termos de explicar tudo o que queremos (até o que nos parece óbvio) e foi isso que fiz: pedi a ele que se expressasse mais, que me escrevesse algo, mas foi tudo em vão.É claro que cada um tem um temperamento diferente, eu sou mais sensível, enquanto ele é mais prático, mas você não acha que a gestação era pra 'quebrar' todos os gélidos 'muros individuais'?"</i><br /><br />Olá, Cristina<br /><br />A gravidez aumenta a sensibilidade. A audição, o tato, o gosto. É uma TPM do bem. Fica-se mais generosa e afetiva. Mais inteira. A alegria e a tristeza aparecem com intensidade redobrada. Tempo de solidão, em que os acontecimentos são interiores e imperceptíveis. Um calafrio e chute no ventre, um enjôo, uma vontade de comer algo estranho, uma lembrança inusitada. Como explicar que isso é importante para ele? <br /><br />É o mesmo que discursar no almoço sobre o carregamento de folhas pelas formigas perto da chuva. São fenômenos poéticos e musicais, próprios de uma atmosfera de encantamento. Reverenciam-se os pressentimentos e as premonições. A mulher grávida é uma profecia. <br /><br />Durante o período, a gestante é um ser da invisibilidade. Valoriza os sentimentos, as vésperas das roupas, os detalhes, o tom da pronúncia, os rituais de cortejo e de carinho. Repara na melodia, enquanto o seu companheiro procura a letra. O homem é um animal da visibilidade.Presta atenção somente na escolha do nome, na identificação do sexo, quando a barriga cresce. Naquilo que é enxergado. Diria mais: a mulher é grávida por toda a vida; o homem, unicamente nos nove meses. <br /><br />É natural sua cobrança para que seja mais assistida, mas ele não entendeu o que vem acontecendo. Pensa que é mais uma etapa da vida do casal, como o namoro, o casamento, a ascensão profissional, a compra da casa. Se ele é prático, não vai mudar na gravidez. Será inútil fazer roteiros turísticos pela sua imaginação. Mudará assim que nascer a criança. O filho oferece tudo o que o homem não entendeu de sua mulher antes. Temo que possa sofrer um desgaste maior na estima depois do nascimento do bebê. Já que o bebê tende a absorver a atenção, colocando a mãe em segundo plano. <br /><br />Alguns homens acreditam que estão perdendo a mulher para a gravidez, outros acreditam que ganham a mulher com a gravidez.Talvez seu marido seja o primeiro caso e não perceba que ele também está grávido. Ainda não caiu a ficha.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39079083</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/7/2006 09:40:27 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NÃO SE COME UMA MULHER</b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.poster.net/schiele-egon/schiele-egon-nudo-femminile-2407988.jpg"><br /><br />Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. <br /><br />Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. <br /><br />Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. <br /><br />Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza.  Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando.  Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. <br /><br />Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. <br /><br />Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. <br /><br />Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.  <br /><br />Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. <br /><br />É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro.  Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.  <br /><br />Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. <br /><br />Não se come uma mulher, ela é que se devora. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>NÃO SE COME UMA MULHER</b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.poster.net/schiele-egon/schiele-egon-nudo-femminile-2407988.jpg"><br /><br />Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. <br /><br />Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. <br /><br />Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. <br /><br />Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza.  Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando.  Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. <br /><br />Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. <br /><br />Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. <br /><br />Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.  <br /><br />Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. <br /><br />É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro.  Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.  <br /><br />Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. <br /><br />Não se come uma mulher, ela é que se devora. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NÃO SE COME UMA MULHER</b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.poster.net/schiele-egon/schiele-egon-nudo-femminile-2407988.jpg"><br /><br />Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. <br /><br />Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. <br /><br />Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. <br /><br />Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza.  Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando.  Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. <br /><br />Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. <br /><br />Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. <br /><br />Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.  <br /><br />Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. <br /><br />É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro.  Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.  <br /><br />Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. <br /><br />Não se come uma mulher, ela é que se devora. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39073664</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/5/2006 12:21:26 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>IMPERDÍVEL</b><br /><br />Lançamento do livro <b>"O Herói Desvalido"</b>, de <b>Maria Carpi</b> (Bertrand Brasil)<br /><b>Segunda (9/10), às 19:30h, Livraria Cultura Bourbon Shopping Country </b><br />Av. Tulio de Rose, 80 Fone (51) 3028-4033 Porto Alegre RS<br /><br />Sessão de autógrafos, leitura de poemas e debate.<br />Farei a apresentação da autora. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>IMPERDÍVEL</b><br /><br />Lançamento do livro <b>"O Herói Desvalido"</b>, de <b>Maria Carpi</b> (Bertrand Brasil)<br /><b>Segunda (9/10), às 19:30h, Livraria Cultura Bourbon Shopping Country </b><br />Av. Tulio de Rose, 80 Fone (51) 3028-4033 Porto Alegre RS<br /><br />Sessão de autógrafos, leitura de poemas e debate.<br />Farei a apresentação da autora. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>IMPERDÍVEL</b><br /><br />Lançamento do livro <b>"O Herói Desvalido"</b>, de <b>Maria Carpi</b> (Bertrand Brasil)<br /><b>Segunda (9/10), às 19:30h, Livraria Cultura Bourbon Shopping Country </b><br />Av. Tulio de Rose, 80 Fone (51) 3028-4033 Porto Alegre RS<br /><br />Sessão de autógrafos, leitura de poemas e debate.<br />Farei a apresentação da autora. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39073640</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/5/2006 12:10:54 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ERICO VERISSIMO NA FAMÍLIA: 1981, 1991 E 2006</b><br /><br />Acabo de receber o <a href="http://www.camarapoa.rs.gov.br/ ">Prêmio Erico Verissimo</a> pelo conjunto da obra. A decisão é da <b>Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre</b>. O projeto apresentado por <b>Sofia Cavedon</b> (PT) teve aprovação do plenário do Legislativo em sessão nesta <b>quarta-feira (4/10)</b>, curiosamente Dia do Poeta e do meu padrinho São Francisco de Assis.<br /> <br />O bonito: meu pai (Carlos Nejar) ganhou o mesmo prêmio em 1981 e a mãe (Maria Carpi), em 1991.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>ERICO VERISSIMO NA FAMÍLIA: 1981, 1991 E 2006</b><br /><br />Acabo de receber o <a href="http://www.camarapoa.rs.gov.br/ ">Prêmio Erico Verissimo</a> pelo conjunto da obra. A decisão é da <b>Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre</b>. O projeto apresentado por <b>Sofia Cavedon</b> (PT) teve aprovação do plenário do Legislativo em sessão nesta <b>quarta-feira (4/10)</b>, curiosamente Dia do Poeta e do meu padrinho São Francisco de Assis.<br /> <br />O bonito: meu pai (Carlos Nejar) ganhou o mesmo prêmio em 1981 e a mãe (Maria Carpi), em 1991.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ERICO VERISSIMO NA FAMÍLIA: 1981, 1991 E 2006</b><br /><br />Acabo de receber o <a href="http://www.camarapoa.rs.gov.br/ ">Prêmio Erico Verissimo</a> pelo conjunto da obra. A decisão é da <b>Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre</b>. O projeto apresentado por <b>Sofia Cavedon</b> (PT) teve aprovação do plenário do Legislativo em sessão nesta <b>quarta-feira (4/10)</b>, curiosamente Dia do Poeta e do meu padrinho São Francisco de Assis.<br /> <br />O bonito: meu pai (Carlos Nejar) ganhou o mesmo prêmio em 1981 e a mãe (Maria Carpi), em 1991.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html#39071618</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_10_01_archive.html</link>
<pubDate>10/4/2006 07:32:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM AMOR SEM VOLTA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.fantasyarts.net/Klee/Paul_Klee_Zitronin.bmp"><br /><br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Apaixonado pela colega Alice. Ambos com treze anos. Cursávamos o último ano do Ensino Fundamental. <br /><br />Ela não gostava de mim, gostava como amigo. Mas meu amor por ela valia por dois. Amava por mim e por ela. Amar em dobro é dobrar também a própria solidão.<br /><br />Durante dois anos, guardei o sentimento sufocado. Escrevia cartas e poemas. Redigia bilhetes curiosos e ternos durante a aula. Anotava corações em seus cadernos. Insinuava uma aproximação atrapalhada, apressada. Agüentei no osso seus namoros com caras mais velhos, as confidências e detalhes macabros de suas conquistas. <br /><br />Uma noite chuvosa, correndo de mãos dadas para chegar em casa, tentei o beijo, emparedei sua cintura debaixo da marquise e ela escapou o rosto. Meu primeiro beijo foi um não-beijo. A chuva me impediu de chorar.<br /><br />A partir desse encontro, nossa amizade não poderia seguir ingênua. Não poderia nem seguir. Ela me olhava desconfiada. Sempre que uma mulher olha desconfiada nos promove a homem. Não posso esconder o orgulho de ser observado como homem após permanente insistência. Mesmo que seja como homem recusado.  <br /><br />O que não esperava é que ela abrisse a guarda, orientada pelo irmão, que aconselhou: <br /><br />- Dá uma chance para o menino. <br /><br />Mandou um bilhete avisando que não viveria sem mim. Convidou-me para ir ao seu apartamento. Seus pais estavam no cinema. <br /><br />Eu a beijei no sofá. Era mais alta do que eu. Errei um pouco a altura do tronco para encaixar. Um beijo tímido, sem convicção. Um beijo com a língua hesitante. Com os lábios mudos, murchos.<br /><br />Logo nos despedimos. E fingíamos que nada acontecera. Prometemos ligar no dia seguinte, não mais nos falamos. Nem para acarrear o amor. Mudei meu lugar na classe e sentei ao fundo. Seus cabelos loiros me acenaram longamente. <br /><br />Eu a amava, mas não fora suficiente. Ela deve ter pensado que ficar comigo era o melhor. Mas o melhor não é o verdadeiro. Não se persuade o corpo com argumentos. Ela desejava me amar por admiração ao amor que eu sentia duplicado. O amor que a tornava Alice do Fabrício. Ela tinha ciúme do próprio amor que nutria por ela e queria tomar de volta. <br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Que o amor não se convence. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM AMOR SEM VOLTA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.fantasyarts.net/Klee/Paul_Klee_Zitronin.bmp"><br /><br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Apaixonado pela colega Alice. Ambos com treze anos. Cursávamos o último ano do Ensino Fundamental. <br /><br />Ela não gostava de mim, gostava como amigo. Mas meu amor por ela valia por dois. Amava por mim e por ela. Amar em dobro é dobrar também a própria solidão.<br /><br />Durante dois anos, guardei o sentimento sufocado. Escrevia cartas e poemas. Redigia bilhetes curiosos e ternos durante a aula. Anotava corações em seus cadernos. Insinuava uma aproximação atrapalhada, apressada. Agüentei no osso seus namoros com caras mais velhos, as confidências e detalhes macabros de suas conquistas. <br /><br />Uma noite chuvosa, correndo de mãos dadas para chegar em casa, tentei o beijo, emparedei sua cintura debaixo da marquise e ela escapou o rosto. Meu primeiro beijo foi um não-beijo. A chuva me impediu de chorar.<br /><br />A partir desse encontro, nossa amizade não poderia seguir ingênua. Não poderia nem seguir. Ela me olhava desconfiada. Sempre que uma mulher olha desconfiada nos promove a homem. Não posso esconder o orgulho de ser observado como homem após permanente insistência. Mesmo que seja como homem recusado.  <br /><br />O que não esperava é que ela abrisse a guarda, orientada pelo irmão, que aconselhou: <br /><br />- Dá uma chance para o menino. <br /><br />Mandou um bilhete avisando que não viveria sem mim. Convidou-me para ir ao seu apartamento. Seus pais estavam no cinema. <br /><br />Eu a beijei no sofá. Era mais alta do que eu. Errei um pouco a altura do tronco para encaixar. Um beijo tímido, sem convicção. Um beijo com a língua hesitante. Com os lábios mudos, murchos.<br /><br />Logo nos despedimos. E fingíamos que nada acontecera. Prometemos ligar no dia seguinte, não mais nos falamos. Nem para acarrear o amor. Mudei meu lugar na classe e sentei ao fundo. Seus cabelos loiros me acenaram longamente. <br /><br />Eu a amava, mas não fora suficiente. Ela deve ter pensado que ficar comigo era o melhor. Mas o melhor não é o verdadeiro. Não se persuade o corpo com argumentos. Ela desejava me amar por admiração ao amor que eu sentia duplicado. O amor que a tornava Alice do Fabrício. Ela tinha ciúme do próprio amor que nutria por ela e queria tomar de volta. <br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Que o amor não se convence. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM AMOR SEM VOLTA</b><br />Pintura de Paul Klee<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.fantasyarts.net/Klee/Paul_Klee_Zitronin.bmp"><br /><br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Apaixonado pela colega Alice. Ambos com treze anos. Cursávamos o último ano do Ensino Fundamental. <br /><br />Ela não gostava de mim, gostava como amigo. Mas meu amor por ela valia por dois. Amava por mim e por ela. Amar em dobro é dobrar também a própria solidão.<br /><br />Durante dois anos, guardei o sentimento sufocado. Escrevia cartas e poemas. Redigia bilhetes curiosos e ternos durante a aula. Anotava corações em seus cadernos. Insinuava uma aproximação atrapalhada, apressada. Agüentei no osso seus namoros com caras mais velhos, as confidências e detalhes macabros de suas conquistas. <br /><br />Uma noite chuvosa, correndo de mãos dadas para chegar em casa, tentei o beijo, emparedei sua cintura debaixo da marquise e ela escapou o rosto. Meu primeiro beijo foi um não-beijo. A chuva me impediu de chorar.<br /><br />A partir desse encontro, nossa amizade não poderia seguir ingênua. Não poderia nem seguir. Ela me olhava desconfiada. Sempre que uma mulher olha desconfiada nos promove a homem. Não posso esconder o orgulho de ser observado como homem após permanente insistência. Mesmo que seja como homem recusado.  <br /><br />O que não esperava é que ela abrisse a guarda, orientada pelo irmão, que aconselhou: <br /><br />- Dá uma chance para o menino. <br /><br />Mandou um bilhete avisando que não viveria sem mim. Convidou-me para ir ao seu apartamento. Seus pais estavam no cinema. <br /><br />Eu a beijei no sofá. Era mais alta do que eu. Errei um pouco a altura do tronco para encaixar. Um beijo tímido, sem convicção. Um beijo com a língua hesitante. Com os lábios mudos, murchos.<br /><br />Logo nos despedimos. E fingíamos que nada acontecera. Prometemos ligar no dia seguinte, não mais nos falamos. Nem para acarrear o amor. Mudei meu lugar na classe e sentei ao fundo. Seus cabelos loiros me acenaram longamente. <br /><br />Eu a amava, mas não fora suficiente. Ela deve ter pensado que ficar comigo era o melhor. Mas o melhor não é o verdadeiro. Não se persuade o corpo com argumentos. Ela desejava me amar por admiração ao amor que eu sentia duplicado. O amor que a tornava Alice do Fabrício. Ela tinha ciúme do próprio amor que nutria por ela e queria tomar de volta. <br /><br />Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição. <br /><br />Uma lição que guardo até amanhã. <br /><br />Que o amor não se convence. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39058657</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/30/2006 12:16:03 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CARPIM II</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/320/carpimnovo3Blog.jpg"><br /><br />Mais uma tira do personagem Carpim, cria minha e do <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CARPIM II</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/320/carpimnovo3Blog.jpg"><br /><br />Mais uma tira do personagem Carpim, cria minha e do <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CARPIM II</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/320/carpimnovo3Blog.jpg"><br /><br />Mais uma tira do personagem Carpim, cria minha e do <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a>.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39058651</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/30/2006 12:15:01 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>BORDADO COM AS INICIAIS</b><br />Arte de Henri Michaux<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bauerart.com/Michaux_E248.jpg"><br /><br />Eu tomava ônibus em viagens mais longas com meu travesseiro. <br /><br />Um longo travesseiro pendurado no braço, além da mala e do ar madrugado. <br /><br />Era o equivalente a levar uma centelha de casa para um lugar impessoal. Era um resto do quarto. Um pedaço da cama. Enganava o desconforto da poltrona com a intimidade de um capricho pessoal. Facilitava meu descanso entre o corredor escuro e a janela de luzes bruxuleantes. <br /><br />Ficava menos enjoado da mistura de diesel, de couro e cortinas antigas.  O travesseiro é leal porque traz os cheiros dos cabelos depois do banho. Tanto faz a estação, o travesseiro é o último dia da primavera. A lavanda da roupa. <br /><br />Ainda observo muitos passageiros, crianças, jovens e velhos, carregando o travesseiro na rodoviária. São figuras engraçadas, a arrastar o casaco da infância. Segurando o pano como um filho agasalhado, dormindo, a manter os cuidados do leite e do peito. <br /><br />Quando embarcamos num amor, levamos o travesseiro. O travesseiro é o que temos de mais particular. Mas quem nos recebe pode identificar nele simplesmente um pano velho. Uma superstição. Um laço antigo. Uma teimosia. Não enxerga que uma vida nova não apaga a vida anterior.  <br /><br />Pode não ser o travesseiro, pode ser uma frase, um gesto, um ritual familiar, que vale muito e que carregamos conosco. Um objeto que nos identifique. Que diga de onde viemos e que mostre que temos uma história. <br /><br />Há a idéia de que o amor é ambição. Sobrenatural, que não reside nos pequenos contentamentos. A maioria não acredita que o amor cabe num travesseiro. <br /><br />Por mais que se dê linguagem e atenção, o outro achará pouco e falará de culpa e da confusão.  Falará de condicionamentos e que não está preparado, como se houve preparação para amar. <br /><br />Por mais que se cozinhe, faça surpresas, leve a amizade para passear de mãos dadas, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se apaixone e se enlouqueça, que mude os hábitos, o outro achará pouco. Por mais que se acredite, que arrepie as verdades ternas do sopro, o outro achará pouco. Por mais que se beije com gosto no cinema, abrace com força, o outro achará pouco. Por mais que se doe, que se doa, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se abra a memória, confidencie segredos, o outro achará pouco. Por mais que se transe na mesa, costure as roupas, ajude nas economias, inspire o trabalho, o outro achará pouco.  <br /><br />Por mais que se pouse, que se proteja, o outro achará pouco.  <br /><br />E damos tudo o que temos e o outro achará pouco. E damos tudo o que poderemos ser e o outro achará pouco. Sempre pouco. <br /><br />Falimos e o outro achará pouco. Nascemos de novo e o outro achará pouco. Morremos de novo e o outro achará pouco. Exaustos, arrebentamos o travesseiro e não entendemos como as penas já souberam voar.  <br /><br />Pouco, pouco, pouco. <br /><br />Quem achou pouco, não entende de amor. Quando se ama, acorda-se vestido para o milagre.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>BORDADO COM AS INICIAIS</b><br />Arte de Henri Michaux<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bauerart.com/Michaux_E248.jpg"><br /><br />Eu tomava ônibus em viagens mais longas com meu travesseiro. <br /><br />Um longo travesseiro pendurado no braço, além da mala e do ar madrugado. <br /><br />Era o equivalente a levar uma centelha de casa para um lugar impessoal. Era um resto do quarto. Um pedaço da cama. Enganava o desconforto da poltrona com a intimidade de um capricho pessoal. Facilitava meu descanso entre o corredor escuro e a janela de luzes bruxuleantes. <br /><br />Ficava menos enjoado da mistura de diesel, de couro e cortinas antigas.  O travesseiro é leal porque traz os cheiros dos cabelos depois do banho. Tanto faz a estação, o travesseiro é o último dia da primavera. A lavanda da roupa. <br /><br />Ainda observo muitos passageiros, crianças, jovens e velhos, carregando o travesseiro na rodoviária. São figuras engraçadas, a arrastar o casaco da infância. Segurando o pano como um filho agasalhado, dormindo, a manter os cuidados do leite e do peito. <br /><br />Quando embarcamos num amor, levamos o travesseiro. O travesseiro é o que temos de mais particular. Mas quem nos recebe pode identificar nele simplesmente um pano velho. Uma superstição. Um laço antigo. Uma teimosia. Não enxerga que uma vida nova não apaga a vida anterior.  <br /><br />Pode não ser o travesseiro, pode ser uma frase, um gesto, um ritual familiar, que vale muito e que carregamos conosco. Um objeto que nos identifique. Que diga de onde viemos e que mostre que temos uma história. <br /><br />Há a idéia de que o amor é ambição. Sobrenatural, que não reside nos pequenos contentamentos. A maioria não acredita que o amor cabe num travesseiro. <br /><br />Por mais que se dê linguagem e atenção, o outro achará pouco e falará de culpa e da confusão.  Falará de condicionamentos e que não está preparado, como se houve preparação para amar. <br /><br />Por mais que se cozinhe, faça surpresas, leve a amizade para passear de mãos dadas, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se apaixone e se enlouqueça, que mude os hábitos, o outro achará pouco. Por mais que se acredite, que arrepie as verdades ternas do sopro, o outro achará pouco. Por mais que se beije com gosto no cinema, abrace com força, o outro achará pouco. Por mais que se doe, que se doa, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se abra a memória, confidencie segredos, o outro achará pouco. Por mais que se transe na mesa, costure as roupas, ajude nas economias, inspire o trabalho, o outro achará pouco.  <br /><br />Por mais que se pouse, que se proteja, o outro achará pouco.  <br /><br />E damos tudo o que temos e o outro achará pouco. E damos tudo o que poderemos ser e o outro achará pouco. Sempre pouco. <br /><br />Falimos e o outro achará pouco. Nascemos de novo e o outro achará pouco. Morremos de novo e o outro achará pouco. Exaustos, arrebentamos o travesseiro e não entendemos como as penas já souberam voar.  <br /><br />Pouco, pouco, pouco. <br /><br />Quem achou pouco, não entende de amor. Quando se ama, acorda-se vestido para o milagre.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>BORDADO COM AS INICIAIS</b><br />Arte de Henri Michaux<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bauerart.com/Michaux_E248.jpg"><br /><br />Eu tomava ônibus em viagens mais longas com meu travesseiro. <br /><br />Um longo travesseiro pendurado no braço, além da mala e do ar madrugado. <br /><br />Era o equivalente a levar uma centelha de casa para um lugar impessoal. Era um resto do quarto. Um pedaço da cama. Enganava o desconforto da poltrona com a intimidade de um capricho pessoal. Facilitava meu descanso entre o corredor escuro e a janela de luzes bruxuleantes. <br /><br />Ficava menos enjoado da mistura de diesel, de couro e cortinas antigas.  O travesseiro é leal porque traz os cheiros dos cabelos depois do banho. Tanto faz a estação, o travesseiro é o último dia da primavera. A lavanda da roupa. <br /><br />Ainda observo muitos passageiros, crianças, jovens e velhos, carregando o travesseiro na rodoviária. São figuras engraçadas, a arrastar o casaco da infância. Segurando o pano como um filho agasalhado, dormindo, a manter os cuidados do leite e do peito. <br /><br />Quando embarcamos num amor, levamos o travesseiro. O travesseiro é o que temos de mais particular. Mas quem nos recebe pode identificar nele simplesmente um pano velho. Uma superstição. Um laço antigo. Uma teimosia. Não enxerga que uma vida nova não apaga a vida anterior.  <br /><br />Pode não ser o travesseiro, pode ser uma frase, um gesto, um ritual familiar, que vale muito e que carregamos conosco. Um objeto que nos identifique. Que diga de onde viemos e que mostre que temos uma história. <br /><br />Há a idéia de que o amor é ambição. Sobrenatural, que não reside nos pequenos contentamentos. A maioria não acredita que o amor cabe num travesseiro. <br /><br />Por mais que se dê linguagem e atenção, o outro achará pouco e falará de culpa e da confusão.  Falará de condicionamentos e que não está preparado, como se houve preparação para amar. <br /><br />Por mais que se cozinhe, faça surpresas, leve a amizade para passear de mãos dadas, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se apaixone e se enlouqueça, que mude os hábitos, o outro achará pouco. Por mais que se acredite, que arrepie as verdades ternas do sopro, o outro achará pouco. Por mais que se beije com gosto no cinema, abrace com força, o outro achará pouco. Por mais que se doe, que se doa, o outro achará pouco. <br /><br />Por mais que se abra a memória, confidencie segredos, o outro achará pouco. Por mais que se transe na mesa, costure as roupas, ajude nas economias, inspire o trabalho, o outro achará pouco.  <br /><br />Por mais que se pouse, que se proteja, o outro achará pouco.  <br /><br />E damos tudo o que temos e o outro achará pouco. E damos tudo o que poderemos ser e o outro achará pouco. Sempre pouco. <br /><br />Falimos e o outro achará pouco. Nascemos de novo e o outro achará pouco. Morremos de novo e o outro achará pouco. Exaustos, arrebentamos o travesseiro e não entendemos como as penas já souberam voar.  <br /><br />Pouco, pouco, pouco. <br /><br />Quem achou pouco, não entende de amor. Quando se ama, acorda-se vestido para o milagre.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39055738</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/29/2006 10:25:06 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DIÁLOGO SEM CORTES COM AMIGO NO MSN</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/4728/219/320/msnonline....jpg"><br /><br />Rodrigo Rocha diz:<br />Fabro!<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />oi mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Sinto falta do blog da Ana...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />bonita foto<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />posso me apaixonar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu largar do cigarro, sou capaz de mudar de sexo<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas queria te dizer uma coisa... estou prendendo a respiração para ler teu blog...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />pq?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Por sentir tua agonia...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já passei por isso diversas vezes...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas tenho de confessar... Este diário está sendo super discutido aqui pela internet...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bem legal... muita gente comentando, se surpreendendo.,,,<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />será que vou conseguir?<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />obrigado pela força, meu mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />deste aos não fumantes a chance de sentir a abstinência....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />se precisares espancar alguém tens meu telefone...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />eles não sabem o terror que é<br />Rodrigo Rocha diz:<br />sou grande, e aguento tua raiva, se precisares...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hehehhehe<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho certeza<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quero ver não perder o casamento com a abstinência<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />minha vida está em jogo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />todos sempre esperam de mim o humor e a alegria<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Eu imagino... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />estou conhecendo o outro lado da moeda<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o desespero e a privação<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Mas acho que todos entenderão...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />que loucura... a cena na rodoviária... conseguiste levar o leitor até lá...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />muito bom... deu para sentir o vazio do lugar...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />não esqueço minha filha dizendo com orgulho:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />meu pai parou de fumar por mim<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho vontade de chorar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bah, que demais....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />precisava dar este motivo de orgulho para meu pai também..........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />terei que separar o ar leve do pesado<br />Rodrigo Rocha diz:<br />difícil........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a boca pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a água pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sempre nadei em rio<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />agora é a vez de engolir o mar<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quem não suporta o fracasso não nasceu<br />Rodrigo Rocha diz:<br />é verdade.......... Mas pense o seguinte... No próximo ano, quando fores eleito patrono da feira, estarás comemorando um ano sem cigarro... daí poderás rir um pouco desde momento;;;;<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu for patrono, aí é que terei que fumar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahahaha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou egoísta: ainda não aprendi a me agarrar a alguém com a mesma dependência do cigarro<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou mais fiel aos meus vícios<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Acho que estás aprendendo... Isso mostra que já não és tão egoísta....<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fiumante é uma múmia<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele se embalsama vivo na fumaça<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Pensa que não vai morrer, porque fumar é subir acima do seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fumante pensa que voa dentro de sua própria cova<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />A cova é seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele é tão apressado que se enterra ali mesmo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O que achas?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Concordo...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />ainda mais pelo fato de todo fumante saber dos males que o cigarro causa...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />aquela pequena lista que publicaste...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenbir um amor não é evitá-lo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenir é só aumentar a coragem<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já está no próprio maço.... O fumante não arrisca outras drogas pq nenhuma oferece mais de 1400 substancias tóxicas numa só tragada....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />o fumante quer o pior de uma vez só...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o cigarro é duplamente minha solidão:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />e para me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só, quando estou num lugar estranho e fico sem jeito<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para me sentir só, quando preciso um pouco de paz e me recolho do tumulto<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Precisas de uma nova bengala... mas tu vais ter que descobrir qual o melhor modelo... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />risos<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Minha jovem velhice...<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DIÁLOGO SEM CORTES COM AMIGO NO MSN</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/4728/219/320/msnonline....jpg"><br /><br />Rodrigo Rocha diz:<br />Fabro!<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />oi mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Sinto falta do blog da Ana...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />bonita foto<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />posso me apaixonar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu largar do cigarro, sou capaz de mudar de sexo<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas queria te dizer uma coisa... estou prendendo a respiração para ler teu blog...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />pq?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Por sentir tua agonia...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já passei por isso diversas vezes...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas tenho de confessar... Este diário está sendo super discutido aqui pela internet...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bem legal... muita gente comentando, se surpreendendo.,,,<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />será que vou conseguir?<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />obrigado pela força, meu mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />deste aos não fumantes a chance de sentir a abstinência....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />se precisares espancar alguém tens meu telefone...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />eles não sabem o terror que é<br />Rodrigo Rocha diz:<br />sou grande, e aguento tua raiva, se precisares...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hehehhehe<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho certeza<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quero ver não perder o casamento com a abstinência<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />minha vida está em jogo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />todos sempre esperam de mim o humor e a alegria<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Eu imagino... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />estou conhecendo o outro lado da moeda<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o desespero e a privação<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Mas acho que todos entenderão...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />que loucura... a cena na rodoviária... conseguiste levar o leitor até lá...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />muito bom... deu para sentir o vazio do lugar...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />não esqueço minha filha dizendo com orgulho:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />meu pai parou de fumar por mim<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho vontade de chorar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bah, que demais....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />precisava dar este motivo de orgulho para meu pai também..........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />terei que separar o ar leve do pesado<br />Rodrigo Rocha diz:<br />difícil........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a boca pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a água pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sempre nadei em rio<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />agora é a vez de engolir o mar<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quem não suporta o fracasso não nasceu<br />Rodrigo Rocha diz:<br />é verdade.......... Mas pense o seguinte... No próximo ano, quando fores eleito patrono da feira, estarás comemorando um ano sem cigarro... daí poderás rir um pouco desde momento;;;;<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu for patrono, aí é que terei que fumar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahahaha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou egoísta: ainda não aprendi a me agarrar a alguém com a mesma dependência do cigarro<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou mais fiel aos meus vícios<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Acho que estás aprendendo... Isso mostra que já não és tão egoísta....<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fiumante é uma múmia<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele se embalsama vivo na fumaça<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Pensa que não vai morrer, porque fumar é subir acima do seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fumante pensa que voa dentro de sua própria cova<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />A cova é seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele é tão apressado que se enterra ali mesmo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O que achas?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Concordo...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />ainda mais pelo fato de todo fumante saber dos males que o cigarro causa...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />aquela pequena lista que publicaste...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenbir um amor não é evitá-lo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenir é só aumentar a coragem<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já está no próprio maço.... O fumante não arrisca outras drogas pq nenhuma oferece mais de 1400 substancias tóxicas numa só tragada....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />o fumante quer o pior de uma vez só...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o cigarro é duplamente minha solidão:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />e para me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só, quando estou num lugar estranho e fico sem jeito<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para me sentir só, quando preciso um pouco de paz e me recolho do tumulto<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Precisas de uma nova bengala... mas tu vais ter que descobrir qual o melhor modelo... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />risos<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Minha jovem velhice...<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DIÁLOGO SEM CORTES COM AMIGO NO MSN</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/4728/219/320/msnonline....jpg"><br /><br />Rodrigo Rocha diz:<br />Fabro!<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />oi mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Sinto falta do blog da Ana...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />bonita foto<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />posso me apaixonar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu largar do cigarro, sou capaz de mudar de sexo<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas queria te dizer uma coisa... estou prendendo a respiração para ler teu blog...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />pq?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Por sentir tua agonia...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já passei por isso diversas vezes...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />mas tenho de confessar... Este diário está sendo super discutido aqui pela internet...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bem legal... muita gente comentando, se surpreendendo.,,,<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />será que vou conseguir?<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />obrigado pela força, meu mano<br />Rodrigo Rocha diz:<br />deste aos não fumantes a chance de sentir a abstinência....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />se precisares espancar alguém tens meu telefone...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />eles não sabem o terror que é<br />Rodrigo Rocha diz:<br />sou grande, e aguento tua raiva, se precisares...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hehehhehe<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho certeza<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quero ver não perder o casamento com a abstinência<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />minha vida está em jogo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />todos sempre esperam de mim o humor e a alegria<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Eu imagino... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />estou conhecendo o outro lado da moeda<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o desespero e a privação<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Mas acho que todos entenderão...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />que loucura... a cena na rodoviária... conseguiste levar o leitor até lá...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />muito bom... deu para sentir o vazio do lugar...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />não esqueço minha filha dizendo com orgulho:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />meu pai parou de fumar por mim<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />tenho vontade de chorar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />bah, que demais....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />precisava dar este motivo de orgulho para meu pai também..........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />terei que separar o ar leve do pesado<br />Rodrigo Rocha diz:<br />difícil........<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a boca pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />a água pesada da leve<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sempre nadei em rio<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />agora é a vez de engolir o mar<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />quem não suporta o fracasso não nasceu<br />Rodrigo Rocha diz:<br />é verdade.......... Mas pense o seguinte... No próximo ano, quando fores eleito patrono da feira, estarás comemorando um ano sem cigarro... daí poderás rir um pouco desde momento;;;;<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />se eu for patrono, aí é que terei que fumar<br />Rodrigo Rocha diz:<br />hahahahaha<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou egoísta: ainda não aprendi a me agarrar a alguém com a mesma dependência do cigarro<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />sou mais fiel aos meus vícios<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Acho que estás aprendendo... Isso mostra que já não és tão egoísta....<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fiumante é uma múmia<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele se embalsama vivo na fumaça<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Pensa que não vai morrer, porque fumar é subir acima do seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O fumante pensa que voa dentro de sua própria cova<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />A cova é seu corpo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Ele é tão apressado que se enterra ali mesmo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />O que achas?<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Concordo...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />ainda mais pelo fato de todo fumante saber dos males que o cigarro causa...<br />Rodrigo Rocha diz:<br />aquela pequena lista que publicaste...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenbir um amor não é evitá-lo<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />prevenir é só aumentar a coragem<br />Rodrigo Rocha diz:<br />já está no próprio maço.... O fumante não arrisca outras drogas pq nenhuma oferece mais de 1400 substancias tóxicas numa só tragada....<br />Rodrigo Rocha diz:<br />o fumante quer o pior de uma vez só...<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />o cigarro é duplamente minha solidão:<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />e para me sentir só<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para não me sentir só, quando estou num lugar estranho e fico sem jeito<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />para me sentir só, quando preciso um pouco de paz e me recolho do tumulto<br />Rodrigo Rocha diz:<br />Precisas de uma nova bengala... mas tu vais ter que descobrir qual o melhor modelo... <br />Fabrício Carpinejar diz:<br />risos<br />Fabrício Carpinejar diz:<br />Minha jovem velhice...<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39054897</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/28/2006 10:19:59 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CARPIM</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/carpimtira2blog.0.jpg"><br /><br />Apresento aqui ao mundo a minha parceria quadrinística com o amado amigo <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a></b>. Elaboro os textos e ele faz os desenhos. Carpim é meu alter ego. Uma resposta do meu corpo masculino para minha alma feminina.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>CARPIM</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/carpimtira2blog.0.jpg"><br /><br />Apresento aqui ao mundo a minha parceria quadrinística com o amado amigo <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a></b>. Elaboro os textos e ele faz os desenhos. Carpim é meu alter ego. Uma resposta do meu corpo masculino para minha alma feminina.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CARPIM</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/carpimtira2blog.0.jpg"><br /><br />Apresento aqui ao mundo a minha parceria quadrinística com o amado amigo <b><a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fernando Chuí</a></b>. Elaboro os textos e ele faz os desenhos. Carpim é meu alter ego. Uma resposta do meu corpo masculino para minha alma feminina.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39054877</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/28/2006 10:09:43 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 11º DIA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.repubblica.it/2005/f/sezioni/arte/gallerie/maestriamerica/maestriamerica/esterne211215192106121646_big.jpg"><br /><br /><b>*</b> Fumei um cigarro, depois de três dias. O cansaço, a exaustão psicológica, fazer mais do que posso contribuíram para expelir a fumaça.<br /><br /><b>*</b> Curioso é ler meu horóscopo:<br /><br /><i>Já que você passou dois dias se percebendo mais a fundo, saberá sem esforço o que precisa fazer para aumentar seus ganhos, para extrair mais prazer da vida, alem de aumentar sua confiança pessoal. Concentre seu tremendo poder de regeneração nesses focos importantes.</i>  (Fonte, FSPaulo)<br /><br /><b>*</b> Acordei cedo, às 4h, viajei para Venâncio Aires, na região central do RS, cidade de 60 mil habitantes. Fui dar uma palestra para o Sesc. Desci numa rodoviária deserta. Como a gerente demorou um pouco para me buscar, a solidão mexeu nos bolsos do casaco. Terminei com a abstinência e a brasa dividiu a boca. Virei a rua, minha vida, um ônibus com os faróis baixos.  <br /><br /><b>*</b> Não quero me explicar. O cigarro me abrevia. <br /><br /><b>*</b> Fumo desde pequeno para me enturmar, ser homem, crescer. Tragava nas mesas de bar para encontrar afinidades com a turma mais velha. Tinha que mentir a idade de algum modo. <br /><br /><b>*</b> O cigarro foi minha primeira barba. Para meu rosto não aparecer tanto. <br /><br /><b>*</b> Num único filtro, torno-me - por tabela - viciado em outros elementos:<br /><br /><i>Acetona: usada para remover esmalte <br />Tirebina: substância que dilui tinta a óleo <br />Formol: conservante de cadáver <br />Amônia: desinfetante para pisos, azulejos e privadas <br />Naftalina: eficiente para matar baratas <br />Nicotina: responsável por causar a dependência <br />Alcatrão: material composto por substâncias capazes de causar câncer <br />Monóxido de carbono: o mesmo que sai do cano de descarga dos automóveis <br />Agrotóxicos: usados no cultivo da folha de tabaco, como DDT <br />Metais pesados: os mesmos encontrados em baterias de carro</i><br /><br /><b>*</b> Sofro se não fumo. Sofro se fumo. Não há mais ignorância, nem alegria. <br /><br /><b>*</b> Iniciei a campanha em nome de minha filha, prossegui minha luta em nome de vocês, que me deixam comentários e mandam mensagens de apoio. Mas só  terminarei o vício por mim. Será que me falta amor-próprio?<br /><br /><b>*</b> A amiga Adriana me mostrou que o percurso não será fácil: preciso parar de fumar todo dia.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 11º DIA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.repubblica.it/2005/f/sezioni/arte/gallerie/maestriamerica/maestriamerica/esterne211215192106121646_big.jpg"><br /><br /><b>*</b> Fumei um cigarro, depois de três dias. O cansaço, a exaustão psicológica, fazer mais do que posso contribuíram para expelir a fumaça.<br /><br /><b>*</b> Curioso é ler meu horóscopo:<br /><br /><i>Já que você passou dois dias se percebendo mais a fundo, saberá sem esforço o que precisa fazer para aumentar seus ganhos, para extrair mais prazer da vida, alem de aumentar sua confiança pessoal. Concentre seu tremendo poder de regeneração nesses focos importantes.</i>  (Fonte, FSPaulo)<br /><br /><b>*</b> Acordei cedo, às 4h, viajei para Venâncio Aires, na região central do RS, cidade de 60 mil habitantes. Fui dar uma palestra para o Sesc. Desci numa rodoviária deserta. Como a gerente demorou um pouco para me buscar, a solidão mexeu nos bolsos do casaco. Terminei com a abstinência e a brasa dividiu a boca. Virei a rua, minha vida, um ônibus com os faróis baixos.  <br /><br /><b>*</b> Não quero me explicar. O cigarro me abrevia. <br /><br /><b>*</b> Fumo desde pequeno para me enturmar, ser homem, crescer. Tragava nas mesas de bar para encontrar afinidades com a turma mais velha. Tinha que mentir a idade de algum modo. <br /><br /><b>*</b> O cigarro foi minha primeira barba. Para meu rosto não aparecer tanto. <br /><br /><b>*</b> Num único filtro, torno-me - por tabela - viciado em outros elementos:<br /><br /><i>Acetona: usada para remover esmalte <br />Tirebina: substância que dilui tinta a óleo <br />Formol: conservante de cadáver <br />Amônia: desinfetante para pisos, azulejos e privadas <br />Naftalina: eficiente para matar baratas <br />Nicotina: responsável por causar a dependência <br />Alcatrão: material composto por substâncias capazes de causar câncer <br />Monóxido de carbono: o mesmo que sai do cano de descarga dos automóveis <br />Agrotóxicos: usados no cultivo da folha de tabaco, como DDT <br />Metais pesados: os mesmos encontrados em baterias de carro</i><br /><br /><b>*</b> Sofro se não fumo. Sofro se fumo. Não há mais ignorância, nem alegria. <br /><br /><b>*</b> Iniciei a campanha em nome de minha filha, prossegui minha luta em nome de vocês, que me deixam comentários e mandam mensagens de apoio. Mas só  terminarei o vício por mim. Será que me falta amor-próprio?<br /><br /><b>*</b> A amiga Adriana me mostrou que o percurso não será fácil: preciso parar de fumar todo dia.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 11º DIA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.repubblica.it/2005/f/sezioni/arte/gallerie/maestriamerica/maestriamerica/esterne211215192106121646_big.jpg"><br /><br /><b>*</b> Fumei um cigarro, depois de três dias. O cansaço, a exaustão psicológica, fazer mais do que posso contribuíram para expelir a fumaça.<br /><br /><b>*</b> Curioso é ler meu horóscopo:<br /><br /><i>Já que você passou dois dias se percebendo mais a fundo, saberá sem esforço o que precisa fazer para aumentar seus ganhos, para extrair mais prazer da vida, alem de aumentar sua confiança pessoal. Concentre seu tremendo poder de regeneração nesses focos importantes.</i>  (Fonte, FSPaulo)<br /><br /><b>*</b> Acordei cedo, às 4h, viajei para Venâncio Aires, na região central do RS, cidade de 60 mil habitantes. Fui dar uma palestra para o Sesc. Desci numa rodoviária deserta. Como a gerente demorou um pouco para me buscar, a solidão mexeu nos bolsos do casaco. Terminei com a abstinência e a brasa dividiu a boca. Virei a rua, minha vida, um ônibus com os faróis baixos.  <br /><br /><b>*</b> Não quero me explicar. O cigarro me abrevia. <br /><br /><b>*</b> Fumo desde pequeno para me enturmar, ser homem, crescer. Tragava nas mesas de bar para encontrar afinidades com a turma mais velha. Tinha que mentir a idade de algum modo. <br /><br /><b>*</b> O cigarro foi minha primeira barba. Para meu rosto não aparecer tanto. <br /><br /><b>*</b> Num único filtro, torno-me - por tabela - viciado em outros elementos:<br /><br /><i>Acetona: usada para remover esmalte <br />Tirebina: substância que dilui tinta a óleo <br />Formol: conservante de cadáver <br />Amônia: desinfetante para pisos, azulejos e privadas <br />Naftalina: eficiente para matar baratas <br />Nicotina: responsável por causar a dependência <br />Alcatrão: material composto por substâncias capazes de causar câncer <br />Monóxido de carbono: o mesmo que sai do cano de descarga dos automóveis <br />Agrotóxicos: usados no cultivo da folha de tabaco, como DDT <br />Metais pesados: os mesmos encontrados em baterias de carro</i><br /><br /><b>*</b> Sofro se não fumo. Sofro se fumo. Não há mais ignorância, nem alegria. <br /><br /><b>*</b> Iniciei a campanha em nome de minha filha, prossegui minha luta em nome de vocês, que me deixam comentários e mandam mensagens de apoio. Mas só  terminarei o vício por mim. Será que me falta amor-próprio?<br /><br /><b>*</b> A amiga Adriana me mostrou que o percurso não será fácil: preciso parar de fumar todo dia.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39054605</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/28/2006 08:35:54 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://courses.washington.edu/englhtml/cgi-bin/parody/peter_blake_mad-3_200.jpg"align=left><b>OFICINA ABRE VAGAS NO TRIMESTRE</b><br />Pintura de Peter Blake<br /><br />Exercitar a observação da realidade, disciplinar o senso crítico e esclarecer a experiência literária. São as propostas da oficina de criação poética de Fabrício Carpinejar, que está com inscrições abertas para o próximo trimestre até <b>segunda (2/10)</b>. O curso oferece mais <b>dez vagas</b> e acontece no <b>Espaço Tessituras</b> (Av.Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre, às <b>segundas</b>, das <b>9h às 11h</b>. <b>Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br</b><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://courses.washington.edu/englhtml/cgi-bin/parody/peter_blake_mad-3_200.jpg"align=left><b>OFICINA ABRE VAGAS NO TRIMESTRE</b><br />Pintura de Peter Blake<br /><br />Exercitar a observação da realidade, disciplinar o senso crítico e esclarecer a experiência literária. São as propostas da oficina de criação poética de Fabrício Carpinejar, que está com inscrições abertas para o próximo trimestre até <b>segunda (2/10)</b>. O curso oferece mais <b>dez vagas</b> e acontece no <b>Espaço Tessituras</b> (Av.Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre, às <b>segundas</b>, das <b>9h às 11h</b>. <b>Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://courses.washington.edu/englhtml/cgi-bin/parody/peter_blake_mad-3_200.jpg"align=left><b>OFICINA ABRE VAGAS NO TRIMESTRE</b><br />Pintura de Peter Blake<br /><br />Exercitar a observação da realidade, disciplinar o senso crítico e esclarecer a experiência literária. São as propostas da oficina de criação poética de Fabrício Carpinejar, que está com inscrições abertas para o próximo trimestre até <b>segunda (2/10)</b>. O curso oferece mais <b>dez vagas</b> e acontece no <b>Espaço Tessituras</b> (Av.Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre, às <b>segundas</b>, das <b>9h às 11h</b>. <b>Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39052743</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/28/2006 04:38:31 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - EDIÇÃO ESPECIAL</b><br />Pintura de Tom Wesselmann<br /><br /><img src="http://www.artregister.com/SeavestIntroductiontoCollection/Images/WesselmannSmokesm.jpg"align=right><b>*</b> A risada mudou. Agora é histérica, de um gravador indo para frente. <br /><br /><b>*</b> Minha mulher não me suporta. Ela confessou que enlouqueci. Mandará uma carta para Souza Cruz solicitando o marido de volta. <br /><br /><b>*</b> Agora entendo o motivo da ausência de namoradas antes do cigarro. <br /><br /><b>*</b> Para interromper o vício, teria que me curar da timidez.  <br /><br /><b>*</b> Estive por duas horas com o cigarro na boca, trocando de dedo, babando, rosnando, e não acendi. Não entendi o que me segurou.  <br /><br /><b>*</b> Vamos ao terceiro dia de abstinência!<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - EDIÇÃO ESPECIAL</b><br />Pintura de Tom Wesselmann<br /><br /><img src="http://www.artregister.com/SeavestIntroductiontoCollection/Images/WesselmannSmokesm.jpg"align=right><b>*</b> A risada mudou. Agora é histérica, de um gravador indo para frente. <br /><br /><b>*</b> Minha mulher não me suporta. Ela confessou que enlouqueci. Mandará uma carta para Souza Cruz solicitando o marido de volta. <br /><br /><b>*</b> Agora entendo o motivo da ausência de namoradas antes do cigarro. <br /><br /><b>*</b> Para interromper o vício, teria que me curar da timidez.  <br /><br /><b>*</b> Estive por duas horas com o cigarro na boca, trocando de dedo, babando, rosnando, e não acendi. Não entendi o que me segurou.  <br /><br /><b>*</b> Vamos ao terceiro dia de abstinência!<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - EDIÇÃO ESPECIAL</b><br />Pintura de Tom Wesselmann<br /><br /><img src="http://www.artregister.com/SeavestIntroductiontoCollection/Images/WesselmannSmokesm.jpg"align=right><b>*</b> A risada mudou. Agora é histérica, de um gravador indo para frente. <br /><br /><b>*</b> Minha mulher não me suporta. Ela confessou que enlouqueci. Mandará uma carta para Souza Cruz solicitando o marido de volta. <br /><br /><b>*</b> Agora entendo o motivo da ausência de namoradas antes do cigarro. <br /><br /><b>*</b> Para interromper o vício, teria que me curar da timidez.  <br /><br /><b>*</b> Estive por duas horas com o cigarro na boca, trocando de dedo, babando, rosnando, e não acendi. Não entendi o que me segurou.  <br /><br /><b>*</b> Vamos ao terceiro dia de abstinência!<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39052412</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/28/2006 12:00:53 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DÉCIMO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.michaelpetronkogallery.net/images/wesselmann/wessemanncigdetail.jpg"><br /><br /><b>*</b> Vivo em outra dimensão. Não vejo recompensa. <br /><br /><b>*</b> Tornei-me um assassino. Por contenção de despesas, também sou a vítima.<br /><br /><b>*</b> O que me irrita: todos conversam comigo como se eu estivesse normal, centrado, sereno. É difícil ser educado sem a fumaça. Quero agredir todo mundo porque não estou fumando. Entenda: ninguém tem culpa, mas o que fazer? <br /><br /><b>*</b> Aumento a voz de uma hora para outra, mordo os pulsos, me desvencilho com facilidade, abandono filmes no meio, desisto de escrever e de ler. Qual a graça de parar de fumar para ser outro? Desejava parar e continuar sendo o mesmo. <br /><br /><b>*</b> É impossível deixar o fumo sem alterar a minha rotina (alimentação, serviço, exigências). Isso pode ser viável nas férias. <br /><br /><b>*</b> Um pouco mais serei macrobiótico. <br /><br /><b>*</b> Reclamei na banca que o Halls alterou o gosto. Eu é que estou light. <br /><br /><b>*</b> Minha rapidez de raciocínio está aniquilada. Como dar palestra, responder e-mails, atender telefone? Virei uma sopa fria. <br /><br /><b>*</b> Liguei para minha mãe e ela aconselhou:<br />- Dois cigarrinhos por dia não farão mal!<br />Era só o que faltava ouvir.<br /><br /><b>*</b> Qual é o cigarro inadiável?<br /><b>A)</b> Depois do almoço ou janta<br /><b>B)</b> Depois do sexo<br /><b>C)</b> Na balada, olhando o terreno<br /><b>D)</b>Tomando cerveja ou chopp com amigos<br /><b>E)</b> Ao retirar o extrato do banco<br /><br />Minha conclusão - infelizmente - é todas as alternativas acima. <br /><br /><b>*</b> Escrevi ontem que hoje seria melhor. Péssima profecia: hoje foi muito muito pior. Alguém pode alcançar um lenço de papel? <br /><br /><b>*</b> Minha mulher Ana, esperta, continua fumando. E apagou todo o seu blog - <a href="http://falsamagra.zip.net">Falsa Magra</a> - para ninguém reclamar. Ao ler de manhãzinha, não havia nada no site dela de quinze mil visitas. A falsa magra evaporou, lipoaspirou! Não acredito que ela renunciou um ano de histórias. Reclamações para <b>ananejar@uol.com.br</b><br /><br /><b>*</b> Não sei se atravessarei a noite sem fumar. São dois dias. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DÉCIMO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.michaelpetronkogallery.net/images/wesselmann/wessemanncigdetail.jpg"><br /><br /><b>*</b> Vivo em outra dimensão. Não vejo recompensa. <br /><br /><b>*</b> Tornei-me um assassino. Por contenção de despesas, também sou a vítima.<br /><br /><b>*</b> O que me irrita: todos conversam comigo como se eu estivesse normal, centrado, sereno. É difícil ser educado sem a fumaça. Quero agredir todo mundo porque não estou fumando. Entenda: ninguém tem culpa, mas o que fazer? <br /><br /><b>*</b> Aumento a voz de uma hora para outra, mordo os pulsos, me desvencilho com facilidade, abandono filmes no meio, desisto de escrever e de ler. Qual a graça de parar de fumar para ser outro? Desejava parar e continuar sendo o mesmo. <br /><br /><b>*</b> É impossível deixar o fumo sem alterar a minha rotina (alimentação, serviço, exigências). Isso pode ser viável nas férias. <br /><br /><b>*</b> Um pouco mais serei macrobiótico. <br /><br /><b>*</b> Reclamei na banca que o Halls alterou o gosto. Eu é que estou light. <br /><br /><b>*</b> Minha rapidez de raciocínio está aniquilada. Como dar palestra, responder e-mails, atender telefone? Virei uma sopa fria. <br /><br /><b>*</b> Liguei para minha mãe e ela aconselhou:<br />- Dois cigarrinhos por dia não farão mal!<br />Era só o que faltava ouvir.<br /><br /><b>*</b> Qual é o cigarro inadiável?<br /><b>A)</b> Depois do almoço ou janta<br /><b>B)</b> Depois do sexo<br /><b>C)</b> Na balada, olhando o terreno<br /><b>D)</b>Tomando cerveja ou chopp com amigos<br /><b>E)</b> Ao retirar o extrato do banco<br /><br />Minha conclusão - infelizmente - é todas as alternativas acima. <br /><br /><b>*</b> Escrevi ontem que hoje seria melhor. Péssima profecia: hoje foi muito muito pior. Alguém pode alcançar um lenço de papel? <br /><br /><b>*</b> Minha mulher Ana, esperta, continua fumando. E apagou todo o seu blog - <a href="http://falsamagra.zip.net">Falsa Magra</a> - para ninguém reclamar. Ao ler de manhãzinha, não havia nada no site dela de quinze mil visitas. A falsa magra evaporou, lipoaspirou! Não acredito que ela renunciou um ano de histórias. Reclamações para <b>ananejar@uol.com.br</b><br /><br /><b>*</b> Não sei se atravessarei a noite sem fumar. São dois dias. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DÉCIMO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.michaelpetronkogallery.net/images/wesselmann/wessemanncigdetail.jpg"><br /><br /><b>*</b> Vivo em outra dimensão. Não vejo recompensa. <br /><br /><b>*</b> Tornei-me um assassino. Por contenção de despesas, também sou a vítima.<br /><br /><b>*</b> O que me irrita: todos conversam comigo como se eu estivesse normal, centrado, sereno. É difícil ser educado sem a fumaça. Quero agredir todo mundo porque não estou fumando. Entenda: ninguém tem culpa, mas o que fazer? <br /><br /><b>*</b> Aumento a voz de uma hora para outra, mordo os pulsos, me desvencilho com facilidade, abandono filmes no meio, desisto de escrever e de ler. Qual a graça de parar de fumar para ser outro? Desejava parar e continuar sendo o mesmo. <br /><br /><b>*</b> É impossível deixar o fumo sem alterar a minha rotina (alimentação, serviço, exigências). Isso pode ser viável nas férias. <br /><br /><b>*</b> Um pouco mais serei macrobiótico. <br /><br /><b>*</b> Reclamei na banca que o Halls alterou o gosto. Eu é que estou light. <br /><br /><b>*</b> Minha rapidez de raciocínio está aniquilada. Como dar palestra, responder e-mails, atender telefone? Virei uma sopa fria. <br /><br /><b>*</b> Liguei para minha mãe e ela aconselhou:<br />- Dois cigarrinhos por dia não farão mal!<br />Era só o que faltava ouvir.<br /><br /><b>*</b> Qual é o cigarro inadiável?<br /><b>A)</b> Depois do almoço ou janta<br /><b>B)</b> Depois do sexo<br /><b>C)</b> Na balada, olhando o terreno<br /><b>D)</b>Tomando cerveja ou chopp com amigos<br /><b>E)</b> Ao retirar o extrato do banco<br /><br />Minha conclusão - infelizmente - é todas as alternativas acima. <br /><br /><b>*</b> Escrevi ontem que hoje seria melhor. Péssima profecia: hoje foi muito muito pior. Alguém pode alcançar um lenço de papel? <br /><br /><b>*</b> Minha mulher Ana, esperta, continua fumando. E apagou todo o seu blog - <a href="http://falsamagra.zip.net">Falsa Magra</a> - para ninguém reclamar. Ao ler de manhãzinha, não havia nada no site dela de quinze mil visitas. A falsa magra evaporou, lipoaspirou! Não acredito que ela renunciou um ano de histórias. Reclamações para <b>ananejar@uol.com.br</b><br /><br /><b>*</b> Não sei se atravessarei a noite sem fumar. São dois dias. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39051681</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/27/2006 07:58:32 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - NONO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.nyss.org/cutout/images/Tom%20Wesselmann/wesselmann1.jpg"><br /><br /><b>*</b> Suportei um dia sem fumar. Amigos bocejaram nicotina em minha frente. Tive compromissos pesados, problemas, cancelamentos, urgências. <br /><br /><b>*</b> De noite, enfrentei crise de ansiedade. Deitei na cama e chorei longamente. Estou ainda chorando. Não cesso de chorar. Alterno soluço, riso e choro. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que meu estado fosse tão grave. <br /><br /><b>*</b> Meus braços estão sem elástico. <br /><br /><b>*</b> Consegui ficar sem fumar hoje. Consegui. Amanhã estarei ainda mais forte.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - NONO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.nyss.org/cutout/images/Tom%20Wesselmann/wesselmann1.jpg"><br /><br /><b>*</b> Suportei um dia sem fumar. Amigos bocejaram nicotina em minha frente. Tive compromissos pesados, problemas, cancelamentos, urgências. <br /><br /><b>*</b> De noite, enfrentei crise de ansiedade. Deitei na cama e chorei longamente. Estou ainda chorando. Não cesso de chorar. Alterno soluço, riso e choro. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que meu estado fosse tão grave. <br /><br /><b>*</b> Meus braços estão sem elástico. <br /><br /><b>*</b> Consegui ficar sem fumar hoje. Consegui. Amanhã estarei ainda mais forte.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - NONO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.nyss.org/cutout/images/Tom%20Wesselmann/wesselmann1.jpg"><br /><br /><b>*</b> Suportei um dia sem fumar. Amigos bocejaram nicotina em minha frente. Tive compromissos pesados, problemas, cancelamentos, urgências. <br /><br /><b>*</b> De noite, enfrentei crise de ansiedade. Deitei na cama e chorei longamente. Estou ainda chorando. Não cesso de chorar. Alterno soluço, riso e choro. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que meu estado fosse tão grave. <br /><br /><b>*</b> Meus braços estão sem elástico. <br /><br /><b>*</b> Consegui ficar sem fumar hoje. Consegui. Amanhã estarei ainda mais forte.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39049002</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/26/2006 09:29:44 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>INSÔNIA </b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><i>" - A noite de hoje está me parecendo um sonho. <br />   - Mas não é. É que a realidade é inacreditável."<br />Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" </i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://silencio.weblog.com.pt/images/eyes/EgonSchiele_Embrace_(Lovers_II).GIF"><br /><br />Quem já não ficou sem dormir por um amor?<br /><br />Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos. <br /><br />Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego. <br /> <br />A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair. <br /><br />A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.<br /><br />Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha. <br /><br />O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra. <br /><br />Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua. <br /><br />Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.  <br /><br />Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber.  Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.<br /><br />Os vícios são perdoados pelo viço.<br /><br />O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos. <br /><br />Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria.<br /><br />O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará. <br /><br />Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.  <br /><br />Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço. <br /><br />O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso. <br /><br />Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois. <br /><br />Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>INSÔNIA </b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><i>" - A noite de hoje está me parecendo um sonho. <br />   - Mas não é. É que a realidade é inacreditável."<br />Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" </i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://silencio.weblog.com.pt/images/eyes/EgonSchiele_Embrace_(Lovers_II).GIF"><br /><br />Quem já não ficou sem dormir por um amor?<br /><br />Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos. <br /><br />Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego. <br /> <br />A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair. <br /><br />A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.<br /><br />Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha. <br /><br />O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra. <br /><br />Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua. <br /><br />Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.  <br /><br />Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber.  Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.<br /><br />Os vícios são perdoados pelo viço.<br /><br />O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos. <br /><br />Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria.<br /><br />O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará. <br /><br />Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.  <br /><br />Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço. <br /><br />O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso. <br /><br />Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois. <br /><br />Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>INSÔNIA </b><br />Pintura de Egon Schiele<br /><br /><i>" - A noite de hoje está me parecendo um sonho. <br />   - Mas não é. É que a realidade é inacreditável."<br />Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" </i><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://silencio.weblog.com.pt/images/eyes/EgonSchiele_Embrace_(Lovers_II).GIF"><br /><br />Quem já não ficou sem dormir por um amor?<br /><br />Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos. <br /><br />Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego. <br /> <br />A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair. <br /><br />A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.<br /><br />Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha. <br /><br />O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra. <br /><br />Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua. <br /><br />Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.  <br /><br />Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber.  Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.<br /><br />Os vícios são perdoados pelo viço.<br /><br />O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos. <br /><br />Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria.<br /><br />O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará. <br /><br />Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.  <br /><br />Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço. <br /><br />O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso. <br /><br />Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois. <br /><br />Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39046667</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/26/2006 12:10:39 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: OITAVO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><b>*</b> Estou me enganando, concordo com os comentários do blog. Não parei de fumar, a diminuição é um recurso covarde para adiar o fim.<br /><br /><b>*</b> Fumar seis ou cinco ou doze cigarros é insistir com a dependência.<br /><br /><b>*</b> Amanhã não mais. Seja o que Deus quiser. Vou antecipar meu aniversário.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: OITAVO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><b>*</b> Estou me enganando, concordo com os comentários do blog. Não parei de fumar, a diminuição é um recurso covarde para adiar o fim.<br /><br /><b>*</b> Fumar seis ou cinco ou doze cigarros é insistir com a dependência.<br /><br /><b>*</b> Amanhã não mais. Seja o que Deus quiser. Vou antecipar meu aniversário.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: OITAVO DIA</b><br />Pintura de Tom Wesselmann <br /><br /><b>*</b> Estou me enganando, concordo com os comentários do blog. Não parei de fumar, a diminuição é um recurso covarde para adiar o fim.<br /><br /><b>*</b> Fumar seis ou cinco ou doze cigarros é insistir com a dependência.<br /><br /><b>*</b> Amanhã não mais. Seja o que Deus quiser. Vou antecipar meu aniversário.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39046652</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/26/2006 12:08:24 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>VENTO BOM NA FRESTA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/tirabigat2blog.jpg"><br /><br />O músico e compositor <a href="http://www.fernandochui.com.br/">Fernando Chuí</a>, do CD "Nunca Vi Mandacaru", está com blog. Confira as histórias, tiras, lembranças e peladas da <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fresta</a>.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>VENTO BOM NA FRESTA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/tirabigat2blog.jpg"><br /><br />O músico e compositor <a href="http://www.fernandochui.com.br/">Fernando Chuí</a>, do CD "Nunca Vi Mandacaru", está com blog. Confira as histórias, tiras, lembranças e peladas da <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fresta</a>.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>VENTO BOM NA FRESTA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/6482/3879/400/tirabigat2blog.jpg"><br /><br />O músico e compositor <a href="http://www.fernandochui.com.br/">Fernando Chuí</a>, do CD "Nunca Vi Mandacaru", está com blog. Confira as histórias, tiras, lembranças e peladas da <a href="http://fernandochui.blogspot.com/">Fresta</a>.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39046626</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/26/2006 12:04:52 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b><a href="http://www.corredorliterario.com.br/asp/programacao_local.asp#">CORREDOR LITERÁRIO EM SAMPA</a></b><br /><br /><b>3/10 (terça-feira): Literatura no século 21</b><br /><br />Nelson de Oliveira <br />Marcelino Freire <br />Fabrício Carpinejar <br />Juliano Garcia Pessanha<br />Manuel da Costa Pinto<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>5/10 (quinta-feira): Escritores e Novas Mídias</b><br /><br />Glauco Mattoso <br />André Vallias <br />Micheliny Verunschk<br />Fábio Oliveira Nunes<br />Marcelo Tápia<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>Mediação: Edson Cruz (Cronópios)<br />Apoio logístico: Fnac Paulista (Michele Lanzotti)</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b><a href="http://www.corredorliterario.com.br/asp/programacao_local.asp#">CORREDOR LITERÁRIO EM SAMPA</a></b><br /><br /><b>3/10 (terça-feira): Literatura no século 21</b><br /><br />Nelson de Oliveira <br />Marcelino Freire <br />Fabrício Carpinejar <br />Juliano Garcia Pessanha<br />Manuel da Costa Pinto<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>5/10 (quinta-feira): Escritores e Novas Mídias</b><br /><br />Glauco Mattoso <br />André Vallias <br />Micheliny Verunschk<br />Fábio Oliveira Nunes<br />Marcelo Tápia<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>Mediação: Edson Cruz (Cronópios)<br />Apoio logístico: Fnac Paulista (Michele Lanzotti)</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b><a href="http://www.corredorliterario.com.br/asp/programacao_local.asp#">CORREDOR LITERÁRIO EM SAMPA</a></b><br /><br /><b>3/10 (terça-feira): Literatura no século 21</b><br /><br />Nelson de Oliveira <br />Marcelino Freire <br />Fabrício Carpinejar <br />Juliano Garcia Pessanha<br />Manuel da Costa Pinto<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>5/10 (quinta-feira): Escritores e Novas Mídias</b><br /><br />Glauco Mattoso <br />André Vallias <br />Micheliny Verunschk<br />Fábio Oliveira Nunes<br />Marcelo Tápia<br /><br /><b>Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h</b><br /><br /><b>Mediação: Edson Cruz (Cronópios)<br />Apoio logístico: Fnac Paulista (Michele Lanzotti)</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39046614</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/26/2006 12:03:22 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: PRIMEIRA SEMANA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.artstamps.dk/images/Wesselmann-Tom.jpg"><br /><br /><b>*</b> Tive minha primeira experiência buscando parar de fumar em viagem. Obtive estrondosos fracassos.<br /><br /><b>*</b> Era para ter fumado seis cigarros no sábado, fumei doze. No domingo, deveria insistir na meia dúzia. Foram oito. Uma carteira de cigarro em dois dias. A lareira continua acesa. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é meu modo de roer as unhas. Dependo dele para não me sentir deslocado. As espirais da fumaça formam a franja que não mais terei.<br /><br /><b>*</b> Sofro ao não fumar em bar ou balada. Ainda mais com alguém suspirando fumaça em minha frente. Bolachas de chopp são cinzeiros sem fundo. <br /><br /><b>*</b> Aliás, recomendo ao fumante lamber cinzeiros. Vai entender o que está virando sua língua. <br /><br /><b>*</b> Quero beijar de novo meu beijo.<br /><br /><b>*</b> É impossível parar de fumar na companhia do amigo escritor <b>Flávio Moreira da Costa</b>, ele dobra o cigarro com a pressa. <br /><br /><b>*</b> O fumante culpa os outros por não fumar. Culpa a si mesmo por permanecer fumando. <br /><br /><b>*</b> Tem vergonha de respirar sozinho.<br /><br /><b>*</b> É um megalomaníaco disfarçado, engole suas palavras antes de virar pensamento. <br /><br /><b>*</b> Fumar é tão bom quanto um desaforo. Só que o desaforo que cada um pode dizer para si mesmo. <br /><br /><b>*</b> O que faço com meus bolsos vazios? Minhas chaves ficarão viúvas.<br /><br /><b>*</b> Meu erro é a ânsia em substituir o cigarro. O cigarro me substituiu. Já é questão de vingança. <br /><br /><b>*</b> O cigarro não paga meu plano de saúde, mas o justifica. <br /><br /><b>*</b> O fumante não será convencido. É caso de conversão. <br /><br /><b>*</b> Lembrei: comecei o vício por uma dor-de-cotovelo: quando a minha melhor amiga ficou numa festa com meu melhor amigo, que sabia que eu gostava dela. Comi um maço de Hollywood com o escritório fechado. Escutava Pink Floyd. Poderia dar certo?<br /><br /><b>*</b> Não desistirei: largo o cigarro até <b>23 de outubro</b>, meu aniversário.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: PRIMEIRA SEMANA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.artstamps.dk/images/Wesselmann-Tom.jpg"><br /><br /><b>*</b> Tive minha primeira experiência buscando parar de fumar em viagem. Obtive estrondosos fracassos.<br /><br /><b>*</b> Era para ter fumado seis cigarros no sábado, fumei doze. No domingo, deveria insistir na meia dúzia. Foram oito. Uma carteira de cigarro em dois dias. A lareira continua acesa. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é meu modo de roer as unhas. Dependo dele para não me sentir deslocado. As espirais da fumaça formam a franja que não mais terei.<br /><br /><b>*</b> Sofro ao não fumar em bar ou balada. Ainda mais com alguém suspirando fumaça em minha frente. Bolachas de chopp são cinzeiros sem fundo. <br /><br /><b>*</b> Aliás, recomendo ao fumante lamber cinzeiros. Vai entender o que está virando sua língua. <br /><br /><b>*</b> Quero beijar de novo meu beijo.<br /><br /><b>*</b> É impossível parar de fumar na companhia do amigo escritor <b>Flávio Moreira da Costa</b>, ele dobra o cigarro com a pressa. <br /><br /><b>*</b> O fumante culpa os outros por não fumar. Culpa a si mesmo por permanecer fumando. <br /><br /><b>*</b> Tem vergonha de respirar sozinho.<br /><br /><b>*</b> É um megalomaníaco disfarçado, engole suas palavras antes de virar pensamento. <br /><br /><b>*</b> Fumar é tão bom quanto um desaforo. Só que o desaforo que cada um pode dizer para si mesmo. <br /><br /><b>*</b> O que faço com meus bolsos vazios? Minhas chaves ficarão viúvas.<br /><br /><b>*</b> Meu erro é a ânsia em substituir o cigarro. O cigarro me substituiu. Já é questão de vingança. <br /><br /><b>*</b> O cigarro não paga meu plano de saúde, mas o justifica. <br /><br /><b>*</b> O fumante não será convencido. É caso de conversão. <br /><br /><b>*</b> Lembrei: comecei o vício por uma dor-de-cotovelo: quando a minha melhor amiga ficou numa festa com meu melhor amigo, que sabia que eu gostava dela. Comi um maço de Hollywood com o escritório fechado. Escutava Pink Floyd. Poderia dar certo?<br /><br /><b>*</b> Não desistirei: largo o cigarro até <b>23 de outubro</b>, meu aniversário.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: PRIMEIRA SEMANA</b><br />Arte de Tom Wesselmann <br /><br /><img src="http://www.artstamps.dk/images/Wesselmann-Tom.jpg"><br /><br /><b>*</b> Tive minha primeira experiência buscando parar de fumar em viagem. Obtive estrondosos fracassos.<br /><br /><b>*</b> Era para ter fumado seis cigarros no sábado, fumei doze. No domingo, deveria insistir na meia dúzia. Foram oito. Uma carteira de cigarro em dois dias. A lareira continua acesa. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é meu modo de roer as unhas. Dependo dele para não me sentir deslocado. As espirais da fumaça formam a franja que não mais terei.<br /><br /><b>*</b> Sofro ao não fumar em bar ou balada. Ainda mais com alguém suspirando fumaça em minha frente. Bolachas de chopp são cinzeiros sem fundo. <br /><br /><b>*</b> Aliás, recomendo ao fumante lamber cinzeiros. Vai entender o que está virando sua língua. <br /><br /><b>*</b> Quero beijar de novo meu beijo.<br /><br /><b>*</b> É impossível parar de fumar na companhia do amigo escritor <b>Flávio Moreira da Costa</b>, ele dobra o cigarro com a pressa. <br /><br /><b>*</b> O fumante culpa os outros por não fumar. Culpa a si mesmo por permanecer fumando. <br /><br /><b>*</b> Tem vergonha de respirar sozinho.<br /><br /><b>*</b> É um megalomaníaco disfarçado, engole suas palavras antes de virar pensamento. <br /><br /><b>*</b> Fumar é tão bom quanto um desaforo. Só que o desaforo que cada um pode dizer para si mesmo. <br /><br /><b>*</b> O que faço com meus bolsos vazios? Minhas chaves ficarão viúvas.<br /><br /><b>*</b> Meu erro é a ânsia em substituir o cigarro. O cigarro me substituiu. Já é questão de vingança. <br /><br /><b>*</b> O cigarro não paga meu plano de saúde, mas o justifica. <br /><br /><b>*</b> O fumante não será convencido. É caso de conversão. <br /><br /><b>*</b> Lembrei: comecei o vício por uma dor-de-cotovelo: quando a minha melhor amiga ficou numa festa com meu melhor amigo, que sabia que eu gostava dela. Comi um maço de Hollywood com o escritório fechado. Escutava Pink Floyd. Poderia dar certo?<br /><br /><b>*</b> Não desistirei: largo o cigarro até <b>23 de outubro</b>, meu aniversário.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39043429</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/24/2006 11:26:02 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>VOU FICAR ENCALHADA?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.uol.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_171179.shtml ">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://imagecache2.allposters.com/images/pic/NIM/M736~Portrait-of-Gerti-Schiele-Egon-Posters.jpg"><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Eu tenho 18 anos e nunca tive um namorado - e também sou virgem (isso me incomoda, tenho vergonha). As pessoas vivem pegando no meu pé por causa disso.<br /><br />Quando eu digo que não tenho namorado, elas não acreditam. Bem, eu tenho uma grande expectativa em relação a isso, mas sempre que algum homem se interessa por mim, eu não sei, eu tento fugir dele. Minhas amigas não entendem, eu reclamo tanto de não ter namorado e quando alguém se interessa por mim tento fugir. Isso é muito confuso para mim, eu também não entendo. Eu sou um pouco tímida e sinto que isso atrapalha minha vida social, minhas amigas dizem que eu tenho que mudar, mas eu não consigo. Minha mãe diz que se eu continuar fugindo - e escolhendo demais - vou acabar sozinha.<br /><br />E eu tenho receio de começar um relacionamento só por medo de ficar solteira. Como sou filha única, minha mãe me prende muito. Então, quando tenho uma oportunidade, preciso aproveitar? Eu não sei, e me desculpe se fui confusa. Bem, é isso, espero que possa me aconselhar. <br /><br />Luanda"</i><br /><br />Oi, Luanda<br /><br />Não vai ficar sozinha, lhe garanto. Mas não adianta se prevenir das decepções, elas são necessárias e amadurecem a própria alegria e discernimento. Levará foras como todo mundo, e encontrará paixões maiores do que as possibilidades da memória. <br /><br />Deve se entregar para quem gosta, já que a expectativa não é de sexo, e sim de romance. Ainda está na fase de mirabolar como será. Ninguém deve se meter nisso. Nem eu. É uma idealização saborosa, em que nos concentramos em cada porção do corpo como se fosse parte sensível dos lábios. Não entre na onda de se libertar da virgindade a qualquer custo. Tente trabalhar sua timidez para que não vire aversão. Fugir não adianta, diga não se não gostou da conversa. Fique à vontade para negar. Assim se verá depois confortável durante o "sim". <br /><br />Fugir é fobia. Assuma seu gosto. Brinque mais contigo. Seja menos severa. Durante a aproximação, escute o que os interessados têm a dizer. Não leve a sério a obrigação de aproveitar a vida antes que passe. Um barco encalhado, dependendo da praia, é charmoso. <br /><br />Está indecisa entre ser sua mãe ou ser o contrário dela. Acho que não depende de nenhuma das duas alternativas. Expressar o que sente é sua maior liberdade e desobediência - não subestime a transparência. Fale, fale, para que os condicionamentos não mais a silenciem.<br /><br /><i>Pode mandar cartas para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>VOU FICAR ENCALHADA?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.uol.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_171179.shtml ">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://imagecache2.allposters.com/images/pic/NIM/M736~Portrait-of-Gerti-Schiele-Egon-Posters.jpg"><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Eu tenho 18 anos e nunca tive um namorado - e também sou virgem (isso me incomoda, tenho vergonha). As pessoas vivem pegando no meu pé por causa disso.<br /><br />Quando eu digo que não tenho namorado, elas não acreditam. Bem, eu tenho uma grande expectativa em relação a isso, mas sempre que algum homem se interessa por mim, eu não sei, eu tento fugir dele. Minhas amigas não entendem, eu reclamo tanto de não ter namorado e quando alguém se interessa por mim tento fugir. Isso é muito confuso para mim, eu também não entendo. Eu sou um pouco tímida e sinto que isso atrapalha minha vida social, minhas amigas dizem que eu tenho que mudar, mas eu não consigo. Minha mãe diz que se eu continuar fugindo - e escolhendo demais - vou acabar sozinha.<br /><br />E eu tenho receio de começar um relacionamento só por medo de ficar solteira. Como sou filha única, minha mãe me prende muito. Então, quando tenho uma oportunidade, preciso aproveitar? Eu não sei, e me desculpe se fui confusa. Bem, é isso, espero que possa me aconselhar. <br /><br />Luanda"</i><br /><br />Oi, Luanda<br /><br />Não vai ficar sozinha, lhe garanto. Mas não adianta se prevenir das decepções, elas são necessárias e amadurecem a própria alegria e discernimento. Levará foras como todo mundo, e encontrará paixões maiores do que as possibilidades da memória. <br /><br />Deve se entregar para quem gosta, já que a expectativa não é de sexo, e sim de romance. Ainda está na fase de mirabolar como será. Ninguém deve se meter nisso. Nem eu. É uma idealização saborosa, em que nos concentramos em cada porção do corpo como se fosse parte sensível dos lábios. Não entre na onda de se libertar da virgindade a qualquer custo. Tente trabalhar sua timidez para que não vire aversão. Fugir não adianta, diga não se não gostou da conversa. Fique à vontade para negar. Assim se verá depois confortável durante o "sim". <br /><br />Fugir é fobia. Assuma seu gosto. Brinque mais contigo. Seja menos severa. Durante a aproximação, escute o que os interessados têm a dizer. Não leve a sério a obrigação de aproveitar a vida antes que passe. Um barco encalhado, dependendo da praia, é charmoso. <br /><br />Está indecisa entre ser sua mãe ou ser o contrário dela. Acho que não depende de nenhuma das duas alternativas. Expressar o que sente é sua maior liberdade e desobediência - não subestime a transparência. Fale, fale, para que os condicionamentos não mais a silenciem.<br /><br /><i>Pode mandar cartas para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>VOU FICAR ENCALHADA?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.uol.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_171179.shtml ">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://imagecache2.allposters.com/images/pic/NIM/M736~Portrait-of-Gerti-Schiele-Egon-Posters.jpg"><br /><br /><i>"Oi, Fabrício<br /><br />Eu tenho 18 anos e nunca tive um namorado - e também sou virgem (isso me incomoda, tenho vergonha). As pessoas vivem pegando no meu pé por causa disso.<br /><br />Quando eu digo que não tenho namorado, elas não acreditam. Bem, eu tenho uma grande expectativa em relação a isso, mas sempre que algum homem se interessa por mim, eu não sei, eu tento fugir dele. Minhas amigas não entendem, eu reclamo tanto de não ter namorado e quando alguém se interessa por mim tento fugir. Isso é muito confuso para mim, eu também não entendo. Eu sou um pouco tímida e sinto que isso atrapalha minha vida social, minhas amigas dizem que eu tenho que mudar, mas eu não consigo. Minha mãe diz que se eu continuar fugindo - e escolhendo demais - vou acabar sozinha.<br /><br />E eu tenho receio de começar um relacionamento só por medo de ficar solteira. Como sou filha única, minha mãe me prende muito. Então, quando tenho uma oportunidade, preciso aproveitar? Eu não sei, e me desculpe se fui confusa. Bem, é isso, espero que possa me aconselhar. <br /><br />Luanda"</i><br /><br />Oi, Luanda<br /><br />Não vai ficar sozinha, lhe garanto. Mas não adianta se prevenir das decepções, elas são necessárias e amadurecem a própria alegria e discernimento. Levará foras como todo mundo, e encontrará paixões maiores do que as possibilidades da memória. <br /><br />Deve se entregar para quem gosta, já que a expectativa não é de sexo, e sim de romance. Ainda está na fase de mirabolar como será. Ninguém deve se meter nisso. Nem eu. É uma idealização saborosa, em que nos concentramos em cada porção do corpo como se fosse parte sensível dos lábios. Não entre na onda de se libertar da virgindade a qualquer custo. Tente trabalhar sua timidez para que não vire aversão. Fugir não adianta, diga não se não gostou da conversa. Fique à vontade para negar. Assim se verá depois confortável durante o "sim". <br /><br />Fugir é fobia. Assuma seu gosto. Brinque mais contigo. Seja menos severa. Durante a aproximação, escute o que os interessados têm a dizer. Não leve a sério a obrigação de aproveitar a vida antes que passe. Um barco encalhado, dependendo da praia, é charmoso. <br /><br />Está indecisa entre ser sua mãe ou ser o contrário dela. Acho que não depende de nenhuma das duas alternativas. Expressar o que sente é sua maior liberdade e desobediência - não subestime a transparência. Fale, fale, para que os condicionamentos não mais a silenciem.<br /><br /><i>Pode mandar cartas para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39042736</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/24/2006 08:02:56 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DESAFIO</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><img src="http://www.newartsgallery.com/prints/peter_blake/PB1.jpg"><br /><br />A Unisinos abriu o hotsite <a href="http://www.unisinos.br/desafio_literario/">Desafio Literário</a>. Para interessados mostrarem seu trabalho. A primeira provocação  é escrever um <b>miniconto de até 200 caracteres</b>. Haverá depois outras charadas como palavras cruzadas da literatura contemporânea e dezenas de fotos de autores numa reprodução literária do Sgt. Pepers (quem acertar todos os escritores colocará sua imagem no cenário). Faça seu perfil e divulgue seu talento. <br /><br />Abaixo meu texto de apresentação.<br /> <br /><b>MINI MIM, O VILÃO EM MINIATURA ATACA DE NOVO</b><br /><br /><i>O hotsite é um escritório ambulante, imaginário, amalucado, feito para todo escritor que estava esperando a chance para mostrar seus inéditos e palpitar na produção contemporânea. Um modo de estar na vitrine e divulgar o talento. O espaço propõe desafios literários, jogos intelectuais e charadas visuais.<br /><br />Entre um e outro exercício, o que vale é a amizade que se cria e a possibilidade de encontrar uma galera com as mesmas afinidades, gostos, taras e obsessões. <br /><br />O primeiro desafio é escrever um miniconto, com tema livre, de no máximo 200 caracteres. Nem adianta escrever mais do que isso, que o alarme de incêndio<br />irá soar.<br /><br />O exercício é inspirado em iniciativas como "Os cem menores contos brasileiros do século" (Ateliê Editorial), antologia organizada por Marcelino Freire. Os melhores textos receberão brindes. <br /><br />Para quem pensa que é impossível ser tão conciso, basta pensar no mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso, com apenas 37 letras:<br /><br />"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".<br /><br />Literatura para nocaute: jab, hook, gancho, cruzado, direto. Sucessão de golpes para o leitor ver estrelas mais cedo. <br /><br />Brevidade é intensidade. Dizer pouco, mas dizer bem. As narrativas microscópicas pretendem reproduzir a persuasão de torpedos. Exigem poder de síntese e de imaginação, a partir de um pequeno conflito ou uma contradição. Cabe, portanto, sugerir mais do que expor, captar um detalhe e uma semelhança até então irrelevantes. <br /><br />Uma outra referência de nosso projeto é o grupo francês Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), algo como "oficina Literária Potencial", que aproximou a literatura da matemática com provocações quase impossíveis. Grandes escritores fizeram parte dessa trupe da metade do século passado: Italo Calvino, Raymond Queneau, Jacques Roubad, Georges Perec. <br /><br />O Oulipo estabelecia restrições formais na execução de um livro. Estimulava as dificuldades como forma de excitar a fantasia e a criatividade. Por exemplo, "Exercícios de Estilo", de Queneau, narra uma banal subida de um passageiro no ônibus de 99 formas diferentes, e "La Disparition", de Perec, não contém nenhuma palavra com a vogal "e", a mais assídua da língua francesa. <br /> <br />Venha, portanto, brincar com a linguagem.  Entenderá que a literatura é uma brincadeira séria. <br /><br />Ah, o título não tem nada a ver com o texto. Para variar, bem coisa de Austin Powers. Ou você acredita em Dr. Evil?</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>DESAFIO</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><img src="http://www.newartsgallery.com/prints/peter_blake/PB1.jpg"><br /><br />A Unisinos abriu o hotsite <a href="http://www.unisinos.br/desafio_literario/">Desafio Literário</a>. Para interessados mostrarem seu trabalho. A primeira provocação  é escrever um <b>miniconto de até 200 caracteres</b>. Haverá depois outras charadas como palavras cruzadas da literatura contemporânea e dezenas de fotos de autores numa reprodução literária do Sgt. Pepers (quem acertar todos os escritores colocará sua imagem no cenário). Faça seu perfil e divulgue seu talento. <br /><br />Abaixo meu texto de apresentação.<br /> <br /><b>MINI MIM, O VILÃO EM MINIATURA ATACA DE NOVO</b><br /><br /><i>O hotsite é um escritório ambulante, imaginário, amalucado, feito para todo escritor que estava esperando a chance para mostrar seus inéditos e palpitar na produção contemporânea. Um modo de estar na vitrine e divulgar o talento. O espaço propõe desafios literários, jogos intelectuais e charadas visuais.<br /><br />Entre um e outro exercício, o que vale é a amizade que se cria e a possibilidade de encontrar uma galera com as mesmas afinidades, gostos, taras e obsessões. <br /><br />O primeiro desafio é escrever um miniconto, com tema livre, de no máximo 200 caracteres. Nem adianta escrever mais do que isso, que o alarme de incêndio<br />irá soar.<br /><br />O exercício é inspirado em iniciativas como "Os cem menores contos brasileiros do século" (Ateliê Editorial), antologia organizada por Marcelino Freire. Os melhores textos receberão brindes. <br /><br />Para quem pensa que é impossível ser tão conciso, basta pensar no mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso, com apenas 37 letras:<br /><br />"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".<br /><br />Literatura para nocaute: jab, hook, gancho, cruzado, direto. Sucessão de golpes para o leitor ver estrelas mais cedo. <br /><br />Brevidade é intensidade. Dizer pouco, mas dizer bem. As narrativas microscópicas pretendem reproduzir a persuasão de torpedos. Exigem poder de síntese e de imaginação, a partir de um pequeno conflito ou uma contradição. Cabe, portanto, sugerir mais do que expor, captar um detalhe e uma semelhança até então irrelevantes. <br /><br />Uma outra referência de nosso projeto é o grupo francês Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), algo como "oficina Literária Potencial", que aproximou a literatura da matemática com provocações quase impossíveis. Grandes escritores fizeram parte dessa trupe da metade do século passado: Italo Calvino, Raymond Queneau, Jacques Roubad, Georges Perec. <br /><br />O Oulipo estabelecia restrições formais na execução de um livro. Estimulava as dificuldades como forma de excitar a fantasia e a criatividade. Por exemplo, "Exercícios de Estilo", de Queneau, narra uma banal subida de um passageiro no ônibus de 99 formas diferentes, e "La Disparition", de Perec, não contém nenhuma palavra com a vogal "e", a mais assídua da língua francesa. <br /> <br />Venha, portanto, brincar com a linguagem.  Entenderá que a literatura é uma brincadeira séria. <br /><br />Ah, o título não tem nada a ver com o texto. Para variar, bem coisa de Austin Powers. Ou você acredita em Dr. Evil?</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DESAFIO</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><img src="http://www.newartsgallery.com/prints/peter_blake/PB1.jpg"><br /><br />A Unisinos abriu o hotsite <a href="http://www.unisinos.br/desafio_literario/">Desafio Literário</a>. Para interessados mostrarem seu trabalho. A primeira provocação  é escrever um <b>miniconto de até 200 caracteres</b>. Haverá depois outras charadas como palavras cruzadas da literatura contemporânea e dezenas de fotos de autores numa reprodução literária do Sgt. Pepers (quem acertar todos os escritores colocará sua imagem no cenário). Faça seu perfil e divulgue seu talento. <br /><br />Abaixo meu texto de apresentação.<br /> <br /><b>MINI MIM, O VILÃO EM MINIATURA ATACA DE NOVO</b><br /><br /><i>O hotsite é um escritório ambulante, imaginário, amalucado, feito para todo escritor que estava esperando a chance para mostrar seus inéditos e palpitar na produção contemporânea. Um modo de estar na vitrine e divulgar o talento. O espaço propõe desafios literários, jogos intelectuais e charadas visuais.<br /><br />Entre um e outro exercício, o que vale é a amizade que se cria e a possibilidade de encontrar uma galera com as mesmas afinidades, gostos, taras e obsessões. <br /><br />O primeiro desafio é escrever um miniconto, com tema livre, de no máximo 200 caracteres. Nem adianta escrever mais do que isso, que o alarme de incêndio<br />irá soar.<br /><br />O exercício é inspirado em iniciativas como "Os cem menores contos brasileiros do século" (Ateliê Editorial), antologia organizada por Marcelino Freire. Os melhores textos receberão brindes. <br /><br />Para quem pensa que é impossível ser tão conciso, basta pensar no mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso, com apenas 37 letras:<br /><br />"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".<br /><br />Literatura para nocaute: jab, hook, gancho, cruzado, direto. Sucessão de golpes para o leitor ver estrelas mais cedo. <br /><br />Brevidade é intensidade. Dizer pouco, mas dizer bem. As narrativas microscópicas pretendem reproduzir a persuasão de torpedos. Exigem poder de síntese e de imaginação, a partir de um pequeno conflito ou uma contradição. Cabe, portanto, sugerir mais do que expor, captar um detalhe e uma semelhança até então irrelevantes. <br /><br />Uma outra referência de nosso projeto é o grupo francês Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), algo como "oficina Literária Potencial", que aproximou a literatura da matemática com provocações quase impossíveis. Grandes escritores fizeram parte dessa trupe da metade do século passado: Italo Calvino, Raymond Queneau, Jacques Roubad, Georges Perec. <br /><br />O Oulipo estabelecia restrições formais na execução de um livro. Estimulava as dificuldades como forma de excitar a fantasia e a criatividade. Por exemplo, "Exercícios de Estilo", de Queneau, narra uma banal subida de um passageiro no ônibus de 99 formas diferentes, e "La Disparition", de Perec, não contém nenhuma palavra com a vogal "e", a mais assídua da língua francesa. <br /> <br />Venha, portanto, brincar com a linguagem.  Entenderá que a literatura é uma brincadeira séria. <br /><br />Ah, o título não tem nada a ver com o texto. Para variar, bem coisa de Austin Powers. Ou você acredita em Dr. Evil?</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39042702</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/24/2006 07:52:42 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>QUALQUER COISA<br />(PEQUENA HISTÓRIA DE AMOR)</b><br />Para Fernando Chuí, protagonista da fábula<br />Arte de Tom Wesselmann<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.extralot.com/bilder/inventory/74/thumbs/WT_N_5106.jpg"><br /><br />Ele vai dormir no sofá. <br /><br />Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos. <br /><br />Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite. <br /><br />Ele vai dormir no sofá por escolha. <br /><br />Por decisão.  <br /><br />Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa. <br /><br />Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão. <br /><br />Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.  <br /><br />Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua. <br />Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado. <br /><br />Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho. <br /><br />Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela. <br /><br />Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la. <br /><br />Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença. <br /><br />Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil. <br /><br />Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça. <br /><br />Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência. <br /><br />Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.<br /><br />Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas. <br /><br />Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento. <br />Ele só não esperava não se conhecer depois dela. <br /><br />Casou com ela com toda a clareza. <br />E casou consigo no escuro.<br /><br />Tudo o que conheceu dela desconheceu de si. <br />Liberou memória na personalidade. <br /><br />Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia. <br /><br />Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã. <br /><br />Não se repetem.<br /> <br />O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.<br /><br />Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites. <br /><br />Não é gozação. Ela não age por mal. <br /><br />Foi ele que a ajudou a superar os limites. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>QUALQUER COISA<br />(PEQUENA HISTÓRIA DE AMOR)</b><br />Para Fernando Chuí, protagonista da fábula<br />Arte de Tom Wesselmann<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.extralot.com/bilder/inventory/74/thumbs/WT_N_5106.jpg"><br /><br />Ele vai dormir no sofá. <br /><br />Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos. <br /><br />Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite. <br /><br />Ele vai dormir no sofá por escolha. <br /><br />Por decisão.  <br /><br />Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa. <br /><br />Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão. <br /><br />Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.  <br /><br />Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua. <br />Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado. <br /><br />Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho. <br /><br />Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela. <br /><br />Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la. <br /><br />Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença. <br /><br />Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil. <br /><br />Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça. <br /><br />Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência. <br /><br />Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.<br /><br />Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas. <br /><br />Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento. <br />Ele só não esperava não se conhecer depois dela. <br /><br />Casou com ela com toda a clareza. <br />E casou consigo no escuro.<br /><br />Tudo o que conheceu dela desconheceu de si. <br />Liberou memória na personalidade. <br /><br />Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia. <br /><br />Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã. <br /><br />Não se repetem.<br /> <br />O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.<br /><br />Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites. <br /><br />Não é gozação. Ela não age por mal. <br /><br />Foi ele que a ajudou a superar os limites. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>QUALQUER COISA<br />(PEQUENA HISTÓRIA DE AMOR)</b><br />Para Fernando Chuí, protagonista da fábula<br />Arte de Tom Wesselmann<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.extralot.com/bilder/inventory/74/thumbs/WT_N_5106.jpg"><br /><br />Ele vai dormir no sofá. <br /><br />Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos. <br /><br />Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite. <br /><br />Ele vai dormir no sofá por escolha. <br /><br />Por decisão.  <br /><br />Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa. <br /><br />Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão. <br /><br />Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.  <br /><br />Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua. <br />Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado. <br /><br />Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho. <br /><br />Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela. <br /><br />Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la. <br /><br />Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença. <br /><br />Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil. <br /><br />Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça. <br /><br />Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência. <br /><br />Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.<br /><br />Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas. <br /><br />Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento. <br />Ele só não esperava não se conhecer depois dela. <br /><br />Casou com ela com toda a clareza. <br />E casou consigo no escuro.<br /><br />Tudo o que conheceu dela desconheceu de si. <br />Liberou memória na personalidade. <br /><br />Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia. <br /><br />Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã. <br /><br />Não se repetem.<br /> <br />O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.<br /><br />Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites. <br /><br />Não é gozação. Ela não age por mal. <br /><br />Foi ele que a ajudou a superar os limites. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39031936</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/21/2006 10:54:58 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 5º e 6º DIA</b><br />Arte de Philip Guston<br /><br /><img src="http://www.lacoctelera.com/myfiles/pensart/GUSTON_FRIEND-TO_MF_1978.jpg"><br /><br />Parei de fumar antes de mim. Fui proibido de fumar nos bares. Fui proibido de fumar nos restaurantes. Fui proibido de fumar nos shoppings. Fui proibido de fumar nos aeroportos. Fui proibido de fumar no trabalho. Fui proibido de fumar em casa. Tinha a rua ainda, mas sempre um ônibus vinha primeiro. Parar de fumar no corpo era só uma questão de tempo. Ou de falta de espaço.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 5º e 6º DIA</b><br />Arte de Philip Guston<br /><br /><img src="http://www.lacoctelera.com/myfiles/pensart/GUSTON_FRIEND-TO_MF_1978.jpg"><br /><br />Parei de fumar antes de mim. Fui proibido de fumar nos bares. Fui proibido de fumar nos restaurantes. Fui proibido de fumar nos shoppings. Fui proibido de fumar nos aeroportos. Fui proibido de fumar no trabalho. Fui proibido de fumar em casa. Tinha a rua ainda, mas sempre um ônibus vinha primeiro. Parar de fumar no corpo era só uma questão de tempo. Ou de falta de espaço.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 5º e 6º DIA</b><br />Arte de Philip Guston<br /><br /><img src="http://www.lacoctelera.com/myfiles/pensart/GUSTON_FRIEND-TO_MF_1978.jpg"><br /><br />Parei de fumar antes de mim. Fui proibido de fumar nos bares. Fui proibido de fumar nos restaurantes. Fui proibido de fumar nos shoppings. Fui proibido de fumar nos aeroportos. Fui proibido de fumar no trabalho. Fui proibido de fumar em casa. Tinha a rua ainda, mas sempre um ônibus vinha primeiro. Parar de fumar no corpo era só uma questão de tempo. Ou de falta de espaço.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39031931</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/21/2006 10:53:27 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O AMIGO QUE ME ESPERA NO FINAL DA AULA</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.addenbrookes.org.uk/resources/images/art/artwalk_images/blake_party_lagiaconda.jpg"><br /><br />O amigo é aquele que tem todos os motivos para desistir de você e não desiste. <br /><br />Você fez por merecer a separação. Exagerou. Afastou o abraço, gritou que ele não o compreende.<br /><br />Mas o amigo entende até na incompreensão. Aguarda entender.  <br /><br />Eu preciso de um amigo que não me renuncie quando já desisti. Que me lembre de não desistir. <br /><br />Que seja insistente como o esquecimento dos velhos. <br /><br />Que desperte o meu humor no desespero, que se desespere com a ausência de notícias. <br /><br />Um amigo que não numere as páginas do livro. Toda página pode ser a mesma. <br /><br />Um amigo que sopre meu rosto perto de sua boca, como uma gaita de mão. <br /><br />Um amigo capaz de esconder seu amor para proteger a amizade e de me aconselhar a seguir o que ele tinha vontade. Um amigo que desconheça minha infância para repeti-la, que conheça minhas dores para não tocá-las, que assobie minha alegria para alardeá-la. Que não me torture com os meus defeitos. Que me perdoe por não ser como ele. Aliás, que me agradeça por não ser igual a ele. <br /><br />Um amigo que não use meus segredos para ganhar outros amigos. <br /><br />Um amigo que abra o vidro do carro para apanhar o resto do céu. Que cante alto no volante no momento em que ansiava pelo silêncio e me obrigue a dispensar a timidez para desafinar junto. Na estrada, o vento também canta de olhos fechados. <br /><br />Um amigo com cheiro de cortina. Isso: cheiro de cortina, com a experiência de enrolar várias e várias vezes o corpo na cortina. E que tenha recebido beijos dos pais com o tecido arregalado no rosto. <br /><br />Quem se escondeu na cortina deu giros dentro de si e de seus problemas e aprendeu a regressar. <br /><br />O amigo do primeiro desejo, não do último. <br /><br />O amigo que não me espera no recreio, o amigo que me espera no final da aula. <br /><br />O amigo que é a haste do mar, que não fica de pé no barco, para não desequilibrá-lo. <br /><br />Não quero um amigo que fuja na primeira ofensa, que se isole ofendido num canto, amarrado no orgulho, condicionado às palavras. Um amigo que não fale por mim, que fale através de mim. <br /><br />Não quero um amigo que me ofenda porque não atendi suas expectativas. <br /><br />Amigo não tem expectativa, tem esperança. <br /><br />O amigo vai procurá-lo não sendo necessário. Vai aumentá-lo enquanto está diminuído e vai diminuí-lo para preveni-lo da ambição. O amigo é do contra ao seu lado. <br /><br />O amigo dirá as verdades por respeito, não se eximirá de opinar, tudo com zelo e contenção. Não abandonará a corda da pandorga ainda que ela sirva de fio telefônico para chuva. <br /><br />Tive amigos que se fecharam, desapareceram, que me trocaram por uma fofoca, que chegaram à porta e recuaram ao portão. <br /><br />Esses amigos não foram amigos, se é amigo só depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade. <br /><br />O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão. O amigo sempre volta. <br /><br />Pensando bem, não volta, nunca saiu do lugar. Ele é a rua que atravesso para chegar em casa. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O AMIGO QUE ME ESPERA NO FINAL DA AULA</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.addenbrookes.org.uk/resources/images/art/artwalk_images/blake_party_lagiaconda.jpg"><br /><br />O amigo é aquele que tem todos os motivos para desistir de você e não desiste. <br /><br />Você fez por merecer a separação. Exagerou. Afastou o abraço, gritou que ele não o compreende.<br /><br />Mas o amigo entende até na incompreensão. Aguarda entender.  <br /><br />Eu preciso de um amigo que não me renuncie quando já desisti. Que me lembre de não desistir. <br /><br />Que seja insistente como o esquecimento dos velhos. <br /><br />Que desperte o meu humor no desespero, que se desespere com a ausência de notícias. <br /><br />Um amigo que não numere as páginas do livro. Toda página pode ser a mesma. <br /><br />Um amigo que sopre meu rosto perto de sua boca, como uma gaita de mão. <br /><br />Um amigo capaz de esconder seu amor para proteger a amizade e de me aconselhar a seguir o que ele tinha vontade. Um amigo que desconheça minha infância para repeti-la, que conheça minhas dores para não tocá-las, que assobie minha alegria para alardeá-la. Que não me torture com os meus defeitos. Que me perdoe por não ser como ele. Aliás, que me agradeça por não ser igual a ele. <br /><br />Um amigo que não use meus segredos para ganhar outros amigos. <br /><br />Um amigo que abra o vidro do carro para apanhar o resto do céu. Que cante alto no volante no momento em que ansiava pelo silêncio e me obrigue a dispensar a timidez para desafinar junto. Na estrada, o vento também canta de olhos fechados. <br /><br />Um amigo com cheiro de cortina. Isso: cheiro de cortina, com a experiência de enrolar várias e várias vezes o corpo na cortina. E que tenha recebido beijos dos pais com o tecido arregalado no rosto. <br /><br />Quem se escondeu na cortina deu giros dentro de si e de seus problemas e aprendeu a regressar. <br /><br />O amigo do primeiro desejo, não do último. <br /><br />O amigo que não me espera no recreio, o amigo que me espera no final da aula. <br /><br />O amigo que é a haste do mar, que não fica de pé no barco, para não desequilibrá-lo. <br /><br />Não quero um amigo que fuja na primeira ofensa, que se isole ofendido num canto, amarrado no orgulho, condicionado às palavras. Um amigo que não fale por mim, que fale através de mim. <br /><br />Não quero um amigo que me ofenda porque não atendi suas expectativas. <br /><br />Amigo não tem expectativa, tem esperança. <br /><br />O amigo vai procurá-lo não sendo necessário. Vai aumentá-lo enquanto está diminuído e vai diminuí-lo para preveni-lo da ambição. O amigo é do contra ao seu lado. <br /><br />O amigo dirá as verdades por respeito, não se eximirá de opinar, tudo com zelo e contenção. Não abandonará a corda da pandorga ainda que ela sirva de fio telefônico para chuva. <br /><br />Tive amigos que se fecharam, desapareceram, que me trocaram por uma fofoca, que chegaram à porta e recuaram ao portão. <br /><br />Esses amigos não foram amigos, se é amigo só depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade. <br /><br />O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão. O amigo sempre volta. <br /><br />Pensando bem, não volta, nunca saiu do lugar. Ele é a rua que atravesso para chegar em casa. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O AMIGO QUE ME ESPERA NO FINAL DA AULA</b><br />Arte de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.addenbrookes.org.uk/resources/images/art/artwalk_images/blake_party_lagiaconda.jpg"><br /><br />O amigo é aquele que tem todos os motivos para desistir de você e não desiste. <br /><br />Você fez por merecer a separação. Exagerou. Afastou o abraço, gritou que ele não o compreende.<br /><br />Mas o amigo entende até na incompreensão. Aguarda entender.  <br /><br />Eu preciso de um amigo que não me renuncie quando já desisti. Que me lembre de não desistir. <br /><br />Que seja insistente como o esquecimento dos velhos. <br /><br />Que desperte o meu humor no desespero, que se desespere com a ausência de notícias. <br /><br />Um amigo que não numere as páginas do livro. Toda página pode ser a mesma. <br /><br />Um amigo que sopre meu rosto perto de sua boca, como uma gaita de mão. <br /><br />Um amigo capaz de esconder seu amor para proteger a amizade e de me aconselhar a seguir o que ele tinha vontade. Um amigo que desconheça minha infância para repeti-la, que conheça minhas dores para não tocá-las, que assobie minha alegria para alardeá-la. Que não me torture com os meus defeitos. Que me perdoe por não ser como ele. Aliás, que me agradeça por não ser igual a ele. <br /><br />Um amigo que não use meus segredos para ganhar outros amigos. <br /><br />Um amigo que abra o vidro do carro para apanhar o resto do céu. Que cante alto no volante no momento em que ansiava pelo silêncio e me obrigue a dispensar a timidez para desafinar junto. Na estrada, o vento também canta de olhos fechados. <br /><br />Um amigo com cheiro de cortina. Isso: cheiro de cortina, com a experiência de enrolar várias e várias vezes o corpo na cortina. E que tenha recebido beijos dos pais com o tecido arregalado no rosto. <br /><br />Quem se escondeu na cortina deu giros dentro de si e de seus problemas e aprendeu a regressar. <br /><br />O amigo do primeiro desejo, não do último. <br /><br />O amigo que não me espera no recreio, o amigo que me espera no final da aula. <br /><br />O amigo que é a haste do mar, que não fica de pé no barco, para não desequilibrá-lo. <br /><br />Não quero um amigo que fuja na primeira ofensa, que se isole ofendido num canto, amarrado no orgulho, condicionado às palavras. Um amigo que não fale por mim, que fale através de mim. <br /><br />Não quero um amigo que me ofenda porque não atendi suas expectativas. <br /><br />Amigo não tem expectativa, tem esperança. <br /><br />O amigo vai procurá-lo não sendo necessário. Vai aumentá-lo enquanto está diminuído e vai diminuí-lo para preveni-lo da ambição. O amigo é do contra ao seu lado. <br /><br />O amigo dirá as verdades por respeito, não se eximirá de opinar, tudo com zelo e contenção. Não abandonará a corda da pandorga ainda que ela sirva de fio telefônico para chuva. <br /><br />Tive amigos que se fecharam, desapareceram, que me trocaram por uma fofoca, que chegaram à porta e recuaram ao portão. <br /><br />Esses amigos não foram amigos, se é amigo só depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade. <br /><br />O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão. O amigo sempre volta. <br /><br />Pensando bem, não volta, nunca saiu do lugar. Ele é a rua que atravesso para chegar em casa. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39028807</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/20/2006 10:48:46 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 4º DIA</b><br />Pintura de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-20687-medium.jpg"><br /><br /><b>*</b> Meu filho Vicente sempre diz que vai ganhar de mim no futebol. Agora ele mudou o discurso para me animar: entra em campo querendo empatar. <br /><br />- Assim os dois ganham, né?<br /><br />Segui o exemplo com o cigarro. Montei um time retranqueiro, não cogito a vitória, mas não deixarei o jogo sem um empate. <br /><br /><b>*</b> No trabalho, é mais cômodo suportar a ausência de cigarros. Basta não sair dos ambientes fechados. Logo, logo terei agorafobia. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é minha asma mal-curada. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 4º DIA</b><br />Pintura de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-20687-medium.jpg"><br /><br /><b>*</b> Meu filho Vicente sempre diz que vai ganhar de mim no futebol. Agora ele mudou o discurso para me animar: entra em campo querendo empatar. <br /><br />- Assim os dois ganham, né?<br /><br />Segui o exemplo com o cigarro. Montei um time retranqueiro, não cogito a vitória, mas não deixarei o jogo sem um empate. <br /><br /><b>*</b> No trabalho, é mais cômodo suportar a ausência de cigarros. Basta não sair dos ambientes fechados. Logo, logo terei agorafobia. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é minha asma mal-curada. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 4º DIA</b><br />Pintura de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-20687-medium.jpg"><br /><br /><b>*</b> Meu filho Vicente sempre diz que vai ganhar de mim no futebol. Agora ele mudou o discurso para me animar: entra em campo querendo empatar. <br /><br />- Assim os dois ganham, né?<br /><br />Segui o exemplo com o cigarro. Montei um time retranqueiro, não cogito a vitória, mas não deixarei o jogo sem um empate. <br /><br /><b>*</b> No trabalho, é mais cômodo suportar a ausência de cigarros. Basta não sair dos ambientes fechados. Logo, logo terei agorafobia. <br /><br /><b>*</b> O cigarro é minha asma mal-curada. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39028803</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/20/2006 10:47:40 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FEIRA DE RIBEIRÃO PRETO</b><br /> <br />Participo da <a href="http://www.feiradolivroribeirao.com.br/feira/programacao.php?prog=8">Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto</a> (SP), para falar de um dos homenageados da sexta edição: <b>Mario Quintana</b>. No <b>sábado (23/9)</b>, às <b>17h</b>, estarei no <b>Salão de Idéias</b>. Discutirei o centenário do poeta, ao lado de Márcio Vassalo e Anníbal Gama <br /> <br />No município paulista de 500 mil habitantes, que concentra um grande número de distribuidores das principais editoras brasileiras e megastores, a Feira do Livro segue até 24/9, numa área de 16 mil metros quadrados nas praças XV de Novembro e Carlos Gomes e na Esplanada do Theatro Pedro II. Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, reunirá 300 autores em mais de mil atividades. <br /> <br />Aproveito o evento para autografar meu mais recente livro, "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006). <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FEIRA DE RIBEIRÃO PRETO</b><br /> <br />Participo da <a href="http://www.feiradolivroribeirao.com.br/feira/programacao.php?prog=8">Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto</a> (SP), para falar de um dos homenageados da sexta edição: <b>Mario Quintana</b>. No <b>sábado (23/9)</b>, às <b>17h</b>, estarei no <b>Salão de Idéias</b>. Discutirei o centenário do poeta, ao lado de Márcio Vassalo e Anníbal Gama <br /> <br />No município paulista de 500 mil habitantes, que concentra um grande número de distribuidores das principais editoras brasileiras e megastores, a Feira do Livro segue até 24/9, numa área de 16 mil metros quadrados nas praças XV de Novembro e Carlos Gomes e na Esplanada do Theatro Pedro II. Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, reunirá 300 autores em mais de mil atividades. <br /> <br />Aproveito o evento para autografar meu mais recente livro, "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006). <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FEIRA DE RIBEIRÃO PRETO</b><br /> <br />Participo da <a href="http://www.feiradolivroribeirao.com.br/feira/programacao.php?prog=8">Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto</a> (SP), para falar de um dos homenageados da sexta edição: <b>Mario Quintana</b>. No <b>sábado (23/9)</b>, às <b>17h</b>, estarei no <b>Salão de Idéias</b>. Discutirei o centenário do poeta, ao lado de Márcio Vassalo e Anníbal Gama <br /> <br />No município paulista de 500 mil habitantes, que concentra um grande número de distribuidores das principais editoras brasileiras e megastores, a Feira do Livro segue até 24/9, numa área de 16 mil metros quadrados nas praças XV de Novembro e Carlos Gomes e na Esplanada do Theatro Pedro II. Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, reunirá 300 autores em mais de mil atividades. <br /> <br />Aproveito o evento para autografar meu mais recente livro, "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006). <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39028796</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/20/2006 10:45:23 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 3º DIA</b><br /><br /><img src="http://images-eu.amazon.com/images/P/2253009164.01.LZZZZZZZ.jpg"><br /><br /><br /><b>*</b> Hoje fui melhor talvez porque ainda tenha a esperança de fumar. Quando botei que iria largar de vez o vício, foi um deus-me-acuda. Engano meu desejo. Despisto. Acostumo com menos. <br /><br /><b>*</b> Estou fumando seis cigarros por dia e reduzindo um por semana. Um jeito mais severo e ponderado. Não posso me livrar da doença, mas posso me livrar progressivamente do excesso dela, até ganhar força para erradicá-la.<br /> <br /><b>*</b> Para quem consumia mais de uma carteira, estou menos fumante. Mas ainda não sou um ex-fumante. <br /><br /><b>*</b> Alguns efeitos colaterais da diminuição: fico tonto toda vez que fumo.<br /><br /><b>*</b> Até verdura passou a cheirar bem. Não sabia que alface tinha perfume...<br /><br /><b>*</b> A grande diferença é que não fumo por fumar. Antes fumava sem pensar. Nem tinha motivo. Acendia cada vez que ia para rua. Atualmente, em cada cigarro, penso o que faço, tenho consciência e negocio o prazer. <br /><br /><b>*</b> Sou agora um fumante alfabetizado. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que participaria de uma reunião de condomínio com <b>4 700 substâncias tóxicas</b>. Sou um voto vencido. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 3º DIA</b><br /><br /><img src="http://images-eu.amazon.com/images/P/2253009164.01.LZZZZZZZ.jpg"><br /><br /><br /><b>*</b> Hoje fui melhor talvez porque ainda tenha a esperança de fumar. Quando botei que iria largar de vez o vício, foi um deus-me-acuda. Engano meu desejo. Despisto. Acostumo com menos. <br /><br /><b>*</b> Estou fumando seis cigarros por dia e reduzindo um por semana. Um jeito mais severo e ponderado. Não posso me livrar da doença, mas posso me livrar progressivamente do excesso dela, até ganhar força para erradicá-la.<br /> <br /><b>*</b> Para quem consumia mais de uma carteira, estou menos fumante. Mas ainda não sou um ex-fumante. <br /><br /><b>*</b> Alguns efeitos colaterais da diminuição: fico tonto toda vez que fumo.<br /><br /><b>*</b> Até verdura passou a cheirar bem. Não sabia que alface tinha perfume...<br /><br /><b>*</b> A grande diferença é que não fumo por fumar. Antes fumava sem pensar. Nem tinha motivo. Acendia cada vez que ia para rua. Atualmente, em cada cigarro, penso o que faço, tenho consciência e negocio o prazer. <br /><br /><b>*</b> Sou agora um fumante alfabetizado. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que participaria de uma reunião de condomínio com <b>4 700 substâncias tóxicas</b>. Sou um voto vencido. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 3º DIA</b><br /><br /><img src="http://images-eu.amazon.com/images/P/2253009164.01.LZZZZZZZ.jpg"><br /><br /><br /><b>*</b> Hoje fui melhor talvez porque ainda tenha a esperança de fumar. Quando botei que iria largar de vez o vício, foi um deus-me-acuda. Engano meu desejo. Despisto. Acostumo com menos. <br /><br /><b>*</b> Estou fumando seis cigarros por dia e reduzindo um por semana. Um jeito mais severo e ponderado. Não posso me livrar da doença, mas posso me livrar progressivamente do excesso dela, até ganhar força para erradicá-la.<br /> <br /><b>*</b> Para quem consumia mais de uma carteira, estou menos fumante. Mas ainda não sou um ex-fumante. <br /><br /><b>*</b> Alguns efeitos colaterais da diminuição: fico tonto toda vez que fumo.<br /><br /><b>*</b> Até verdura passou a cheirar bem. Não sabia que alface tinha perfume...<br /><br /><b>*</b> A grande diferença é que não fumo por fumar. Antes fumava sem pensar. Nem tinha motivo. Acendia cada vez que ia para rua. Atualmente, em cada cigarro, penso o que faço, tenho consciência e negocio o prazer. <br /><br /><b>*</b> Sou agora um fumante alfabetizado. <br /><br /><b>*</b> Nunca pensei que participaria de uma reunião de condomínio com <b>4 700 substâncias tóxicas</b>. Sou um voto vencido. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39024417</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/18/2006 09:12:37 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FAXINA</b><br />Para o escritor David Sedaris, que já trabalhou em limpeza de casas<br />Pintura de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.tate.org.uk/collection/T/T00/T00566_9.jpg"><br /><br />Quando uma faxineira vem limpar a casa, eu me torno hóspede. Dei-me conta disso. Ela age com uma velocidade impressionante, mexendo os panos, a vassoura e o aspirador. Localiza os detergentes ao virar os ouvidos. Movimenta o balde com a elasticidade de um terceiro braço. Entra obcecada a terminar logo. Não há segredo para ela, esconderijos para mim. Caminha em sua solidão com a naturalidade de roupas íntimas. Espana os móveis, encera os bidês, como se estivesse lendo um livro e ninguém, ninguém estivesse a olhando. Assim que minha faxineira entra, assume meu endereço. <br /><br />Fico com a impressão de que estou incomodando. Um intruso. Estorvo. Ela se aproxima de onde estou como uma ameaça. O apartamento nunca é suficientemente espaçoso para conter seu avanço. Pergunto sempre se ela precisa de alguma coisa. Questiono como estão os filhos e o marido. Não suporto o silêncio. Faço café para ela. Tento agradar. Não encerro meus textos. Embaralho-me ao telefone. Peço emprestado o computador. Ela treina o desembaraço e eu, uma retração perpétua. Será que tenho culpa pela baderna do apartamento e me diminuo em criança temendo o castigo? Pode ser. Quando pequeno, era fácil esconder quando derramava suco no sofá. Virava as almofadas. <br /><br />A faxineira é um Messias toda a semana. Ao telefonar que não poderá ir, estranhamente respiro a mais repentina satisfação, pouco me importando de que modo acalmarei a bagunça. É um alívio não mudar minha rotina. Não me estrangeirar com sua vigilância. <br /><br />A entrada da faxineira no apartamento lembra a separação de um casal. Eles ainda estão morando juntos, mas não se comunicam. Respeitam seus territórios. Só que ambos estão loucos de diferenças, loucos por dizer, loucos para se arrepender, loucos para se abençoar com desaforos. Mas por achar que não é o momento certo, por achar que a sujeira ainda é muito grande, que a sobrevivência é a prioridade, emudecem com gentilezas e educação. Após tanta intimidade, após tantos anos de cumplicidade, protegem-se na formalidade. São visitas habituadas a permanecer conformadas. O quarto dedicado ao sexo vira um hotel macrobiótico. <br /><br />Um dos dois - com o tempo - decide ser a faxineira. Enquanto um finge que nada mudou, o outro tira as cadeiras e a mesa do lugar, desmorona a pilha de roupas, procura os restos, as nódoas e as manchas das mentiras e terá que mostrar que há conserto ou não há o que fazer. É sempre o mais corajoso e desconfiado. O que enfrenta a rinite alérgica e abre as janelas.  O que esvazia a geladeira para encontrar o que está estragado. Vai esfolar os joelhos, derramar-se no solo para esfregar o piso, mostrará que a gordura não sai e pedirá explicações do que aconteceu. <br /><br />Não se suporta uma faxineira porque ela conhece nossos defeitos. Não se suporta testemunhas de nossa precariedade. Tem gente que não casa para não ser descoberta. Tem gente que não se separa para não ser desmascarada. Tem gente com pavor de intimidade, a que existiu ou a que existirá com a limpeza. <br /><br />No fim do dia, após a faxina, entende-se que a falta de amor denuncia mais do que o amor. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FAXINA</b><br />Para o escritor David Sedaris, que já trabalhou em limpeza de casas<br />Pintura de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.tate.org.uk/collection/T/T00/T00566_9.jpg"><br /><br />Quando uma faxineira vem limpar a casa, eu me torno hóspede. Dei-me conta disso. Ela age com uma velocidade impressionante, mexendo os panos, a vassoura e o aspirador. Localiza os detergentes ao virar os ouvidos. Movimenta o balde com a elasticidade de um terceiro braço. Entra obcecada a terminar logo. Não há segredo para ela, esconderijos para mim. Caminha em sua solidão com a naturalidade de roupas íntimas. Espana os móveis, encera os bidês, como se estivesse lendo um livro e ninguém, ninguém estivesse a olhando. Assim que minha faxineira entra, assume meu endereço. <br /><br />Fico com a impressão de que estou incomodando. Um intruso. Estorvo. Ela se aproxima de onde estou como uma ameaça. O apartamento nunca é suficientemente espaçoso para conter seu avanço. Pergunto sempre se ela precisa de alguma coisa. Questiono como estão os filhos e o marido. Não suporto o silêncio. Faço café para ela. Tento agradar. Não encerro meus textos. Embaralho-me ao telefone. Peço emprestado o computador. Ela treina o desembaraço e eu, uma retração perpétua. Será que tenho culpa pela baderna do apartamento e me diminuo em criança temendo o castigo? Pode ser. Quando pequeno, era fácil esconder quando derramava suco no sofá. Virava as almofadas. <br /><br />A faxineira é um Messias toda a semana. Ao telefonar que não poderá ir, estranhamente respiro a mais repentina satisfação, pouco me importando de que modo acalmarei a bagunça. É um alívio não mudar minha rotina. Não me estrangeirar com sua vigilância. <br /><br />A entrada da faxineira no apartamento lembra a separação de um casal. Eles ainda estão morando juntos, mas não se comunicam. Respeitam seus territórios. Só que ambos estão loucos de diferenças, loucos por dizer, loucos para se arrepender, loucos para se abençoar com desaforos. Mas por achar que não é o momento certo, por achar que a sujeira ainda é muito grande, que a sobrevivência é a prioridade, emudecem com gentilezas e educação. Após tanta intimidade, após tantos anos de cumplicidade, protegem-se na formalidade. São visitas habituadas a permanecer conformadas. O quarto dedicado ao sexo vira um hotel macrobiótico. <br /><br />Um dos dois - com o tempo - decide ser a faxineira. Enquanto um finge que nada mudou, o outro tira as cadeiras e a mesa do lugar, desmorona a pilha de roupas, procura os restos, as nódoas e as manchas das mentiras e terá que mostrar que há conserto ou não há o que fazer. É sempre o mais corajoso e desconfiado. O que enfrenta a rinite alérgica e abre as janelas.  O que esvazia a geladeira para encontrar o que está estragado. Vai esfolar os joelhos, derramar-se no solo para esfregar o piso, mostrará que a gordura não sai e pedirá explicações do que aconteceu. <br /><br />Não se suporta uma faxineira porque ela conhece nossos defeitos. Não se suporta testemunhas de nossa precariedade. Tem gente que não casa para não ser descoberta. Tem gente que não se separa para não ser desmascarada. Tem gente com pavor de intimidade, a que existiu ou a que existirá com a limpeza. <br /><br />No fim do dia, após a faxina, entende-se que a falta de amor denuncia mais do que o amor. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FAXINA</b><br />Para o escritor David Sedaris, que já trabalhou em limpeza de casas<br />Pintura de Peter Blake<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.tate.org.uk/collection/T/T00/T00566_9.jpg"><br /><br />Quando uma faxineira vem limpar a casa, eu me torno hóspede. Dei-me conta disso. Ela age com uma velocidade impressionante, mexendo os panos, a vassoura e o aspirador. Localiza os detergentes ao virar os ouvidos. Movimenta o balde com a elasticidade de um terceiro braço. Entra obcecada a terminar logo. Não há segredo para ela, esconderijos para mim. Caminha em sua solidão com a naturalidade de roupas íntimas. Espana os móveis, encera os bidês, como se estivesse lendo um livro e ninguém, ninguém estivesse a olhando. Assim que minha faxineira entra, assume meu endereço. <br /><br />Fico com a impressão de que estou incomodando. Um intruso. Estorvo. Ela se aproxima de onde estou como uma ameaça. O apartamento nunca é suficientemente espaçoso para conter seu avanço. Pergunto sempre se ela precisa de alguma coisa. Questiono como estão os filhos e o marido. Não suporto o silêncio. Faço café para ela. Tento agradar. Não encerro meus textos. Embaralho-me ao telefone. Peço emprestado o computador. Ela treina o desembaraço e eu, uma retração perpétua. Será que tenho culpa pela baderna do apartamento e me diminuo em criança temendo o castigo? Pode ser. Quando pequeno, era fácil esconder quando derramava suco no sofá. Virava as almofadas. <br /><br />A faxineira é um Messias toda a semana. Ao telefonar que não poderá ir, estranhamente respiro a mais repentina satisfação, pouco me importando de que modo acalmarei a bagunça. É um alívio não mudar minha rotina. Não me estrangeirar com sua vigilância. <br /><br />A entrada da faxineira no apartamento lembra a separação de um casal. Eles ainda estão morando juntos, mas não se comunicam. Respeitam seus territórios. Só que ambos estão loucos de diferenças, loucos por dizer, loucos para se arrepender, loucos para se abençoar com desaforos. Mas por achar que não é o momento certo, por achar que a sujeira ainda é muito grande, que a sobrevivência é a prioridade, emudecem com gentilezas e educação. Após tanta intimidade, após tantos anos de cumplicidade, protegem-se na formalidade. São visitas habituadas a permanecer conformadas. O quarto dedicado ao sexo vira um hotel macrobiótico. <br /><br />Um dos dois - com o tempo - decide ser a faxineira. Enquanto um finge que nada mudou, o outro tira as cadeiras e a mesa do lugar, desmorona a pilha de roupas, procura os restos, as nódoas e as manchas das mentiras e terá que mostrar que há conserto ou não há o que fazer. É sempre o mais corajoso e desconfiado. O que enfrenta a rinite alérgica e abre as janelas.  O que esvazia a geladeira para encontrar o que está estragado. Vai esfolar os joelhos, derramar-se no solo para esfregar o piso, mostrará que a gordura não sai e pedirá explicações do que aconteceu. <br /><br />Não se suporta uma faxineira porque ela conhece nossos defeitos. Não se suporta testemunhas de nossa precariedade. Tem gente que não casa para não ser descoberta. Tem gente que não se separa para não ser desmascarada. Tem gente com pavor de intimidade, a que existiu ou a que existirá com a limpeza. <br /><br />No fim do dia, após a faxina, entende-se que a falta de amor denuncia mais do que o amor. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39022193</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/18/2006 07:07:39 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>Folha de Londrina, <a href="http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=10359LINKCHMdt=20060917">Folha 2</a>, Domingo (17/09/06) </b><br /> <br />ENTREVISTA <br /><br /><b>UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO</b><br />Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores <br /><br />Por <b>Katia Michelle</b><br />Foto de José Suassuna<br /><br /><img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/09/img_foto1403.jpg"><br /><b>Fabrício Carpinejar: "Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem"</b><br /> <br /><b>Curitiba</b> - Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis. <br /><br />Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba - onde participou do projeto <b>Sempre um Papo</b>, da Caixa Econômica Federal - ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe. <br /><br /><b>Como a literatura nasceu em você? </b><br />Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo. <br /><br /><b>E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?</b><br />Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi. <br /><br /><b>Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?</b><br />Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria? <br /><br /><b>Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?</b><br />Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino. <br /><br /><b>Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?</b><br />Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima. <br /><br /><b>Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora? </b><br />Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ''Meu filho, minha filha', que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', o ano que vem ''Terceira Sede'' e em 2008, ''Biografia de uma Árvore''. O infantil é o ''Filhote de Cruz Credo'', onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ''O homem quando chora'', que mostra essa metamorfose masculina de comportamento. <br /><br /><b>Trecho da crônica "Sou quando deixo de ser", de Carpinejar</b><br /><br /><i>"Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei."</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>Folha de Londrina, <a href="http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=10359LINKCHMdt=20060917">Folha 2</a>, Domingo (17/09/06) </b><br /> <br />ENTREVISTA <br /><br /><b>UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO</b><br />Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores <br /><br />Por <b>Katia Michelle</b><br />Foto de José Suassuna<br /><br /><img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/09/img_foto1403.jpg"><br /><b>Fabrício Carpinejar: "Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem"</b><br /> <br /><b>Curitiba</b> - Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis. <br /><br />Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba - onde participou do projeto <b>Sempre um Papo</b>, da Caixa Econômica Federal - ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe. <br /><br /><b>Como a literatura nasceu em você? </b><br />Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo. <br /><br /><b>E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?</b><br />Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi. <br /><br /><b>Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?</b><br />Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria? <br /><br /><b>Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?</b><br />Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino. <br /><br /><b>Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?</b><br />Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima. <br /><br /><b>Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora? </b><br />Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ''Meu filho, minha filha', que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', o ano que vem ''Terceira Sede'' e em 2008, ''Biografia de uma Árvore''. O infantil é o ''Filhote de Cruz Credo'', onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ''O homem quando chora'', que mostra essa metamorfose masculina de comportamento. <br /><br /><b>Trecho da crônica "Sou quando deixo de ser", de Carpinejar</b><br /><br /><i>"Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei."</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Folha de Londrina, <a href="http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=10359LINKCHMdt=20060917">Folha 2</a>, Domingo (17/09/06) </b><br /> <br />ENTREVISTA <br /><br /><b>UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO</b><br />Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores <br /><br />Por <b>Katia Michelle</b><br />Foto de José Suassuna<br /><br /><img src="http://www.bonde.com.br/folha/imgsistema/2006/09/img_foto1403.jpg"><br /><b>Fabrício Carpinejar: "Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem"</b><br /> <br /><b>Curitiba</b> - Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis. <br /><br />Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba - onde participou do projeto <b>Sempre um Papo</b>, da Caixa Econômica Federal - ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe. <br /><br /><b>Como a literatura nasceu em você? </b><br />Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo. <br /><br /><b>E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?</b><br />Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi. <br /><br /><b>Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?</b><br />Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria? <br /><br /><b>Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?</b><br />Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino. <br /><br /><b>Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?</b><br />Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima. <br /><br /><b>Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora? </b><br />Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ''Meu filho, minha filha', que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', o ano que vem ''Terceira Sede'' e em 2008, ''Biografia de uma Árvore''. O infantil é o ''Filhote de Cruz Credo'', onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ''O homem quando chora'', que mostra essa metamorfose masculina de comportamento. <br /><br /><b>Trecho da crônica "Sou quando deixo de ser", de Carpinejar</b><br /><br /><i>"Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei."</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39021252</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/17/2006 09:29:19 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 2º DIA</b><br />Fotografia/Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.jiten.com/media/1/20050705-JeanCocteau.jpg"><br /><br /><b>*</b> Mais de 30h longe do cigarro, virei anti-social. Qualquer coisa me enervava, mas o que me levou ao desespero foi a derrota de 2x0 do Inter para o São Paulo. É provocação exagerada à abstinência.<br /><br /><b>*</b> Finalmente entendo a gravidade da TPM. <br /><br /><b>*</b> Assim que acendi meu primeiro cigarro, o gosto foi horrível. Horrível mesmo. Como mastigar corda e ferrugem. <br /><br /><b>*</b> Entonteci. Tive que sentar enquanto o cigarro permanecia de pé. <br /><br /><b>*</b> Ao mesmo tempo, tomei coragem. Desfalcado da nicotina, sou medroso. Eu me conheço mais e não gosto do que vejo. <br /><br /><b>*</b> Telefonei para alguns amigos para me encorajar. A maioria disse para pegar leve. E que eu era bonito fumando. <br /><br /><b>*</b> Só o bêbado não reconhece o seu hálito. Só o fumante não reconhece a cremação de suas roupas. <br /><br /><b>*</b> Faro. Da sala, identificava o cheiro de fumaça nos apartamentos vizinhos. Meu vício é paranormal. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 2º DIA</b><br />Fotografia/Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.jiten.com/media/1/20050705-JeanCocteau.jpg"><br /><br /><b>*</b> Mais de 30h longe do cigarro, virei anti-social. Qualquer coisa me enervava, mas o que me levou ao desespero foi a derrota de 2x0 do Inter para o São Paulo. É provocação exagerada à abstinência.<br /><br /><b>*</b> Finalmente entendo a gravidade da TPM. <br /><br /><b>*</b> Assim que acendi meu primeiro cigarro, o gosto foi horrível. Horrível mesmo. Como mastigar corda e ferrugem. <br /><br /><b>*</b> Entonteci. Tive que sentar enquanto o cigarro permanecia de pé. <br /><br /><b>*</b> Ao mesmo tempo, tomei coragem. Desfalcado da nicotina, sou medroso. Eu me conheço mais e não gosto do que vejo. <br /><br /><b>*</b> Telefonei para alguns amigos para me encorajar. A maioria disse para pegar leve. E que eu era bonito fumando. <br /><br /><b>*</b> Só o bêbado não reconhece o seu hálito. Só o fumante não reconhece a cremação de suas roupas. <br /><br /><b>*</b> Faro. Da sala, identificava o cheiro de fumaça nos apartamentos vizinhos. Meu vício é paranormal. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 2º DIA</b><br />Fotografia/Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.jiten.com/media/1/20050705-JeanCocteau.jpg"><br /><br /><b>*</b> Mais de 30h longe do cigarro, virei anti-social. Qualquer coisa me enervava, mas o que me levou ao desespero foi a derrota de 2x0 do Inter para o São Paulo. É provocação exagerada à abstinência.<br /><br /><b>*</b> Finalmente entendo a gravidade da TPM. <br /><br /><b>*</b> Assim que acendi meu primeiro cigarro, o gosto foi horrível. Horrível mesmo. Como mastigar corda e ferrugem. <br /><br /><b>*</b> Entonteci. Tive que sentar enquanto o cigarro permanecia de pé. <br /><br /><b>*</b> Ao mesmo tempo, tomei coragem. Desfalcado da nicotina, sou medroso. Eu me conheço mais e não gosto do que vejo. <br /><br /><b>*</b> Telefonei para alguns amigos para me encorajar. A maioria disse para pegar leve. E que eu era bonito fumando. <br /><br /><b>*</b> Só o bêbado não reconhece o seu hálito. Só o fumante não reconhece a cremação de suas roupas. <br /><br /><b>*</b> Faro. Da sala, identificava o cheiro de fumaça nos apartamentos vizinhos. Meu vício é paranormal. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39021240</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/17/2006 09:22:50 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 1º DIA</b><br />Imagem de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.museum-arno-breker.org/galerien/shop/cocteau-05.jpg"><br /><br /><b>*</b> Eu me vejo acabado. São vinte e quatro horas sem fumar e escapou o domínio da vida. Login e senha? Login e senha? Login e senha?<br /><br /><b>*</b> Minhas mãos tremem, tive delírios de noite. Ansioso e irritado, já não sei o que fazer. Mudei de personalidade. O negócio é físico: fumava vinte e cinco cigarros por dia. <br /><br /><b>*</b> Eu fumo porque não consigo parar de fumar. Não é mais uma escolha, é dependência. Estou doente. Não é questão de força de vontade. <br /><br /><b>*</b> Se pudesse, eu me internava. <br /><br /><b>*</b> O cigarro estava vinculado a tudo o que fazia. Não se restringia ao prazer do "tapa" depois da refeição. O cigarro já vinha aceso, involuntário.  Tocava o telefone e fumava. Descia as escadas e fumava. Usava o computador e fumava. Acordava e dormia com um cigarro. <br /><br /><b>*</b> Vou me desculpando a cada momento, antecipando o fracasso da tentativa. Vou me perdoando. <br /><br /><b>*</b> Minha tática é fumar seis cigarros a partir de amanhã e seguir diminuindo semana a semana. <br /><br /><b>*</b> Meus dias são enormes e inativos. Há uma queda de produção. Não quero escrever nada, ler nada, sair, fiquei pesado, meu corpo perdeu os braços da poltrona.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 1º DIA</b><br />Imagem de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.museum-arno-breker.org/galerien/shop/cocteau-05.jpg"><br /><br /><b>*</b> Eu me vejo acabado. São vinte e quatro horas sem fumar e escapou o domínio da vida. Login e senha? Login e senha? Login e senha?<br /><br /><b>*</b> Minhas mãos tremem, tive delírios de noite. Ansioso e irritado, já não sei o que fazer. Mudei de personalidade. O negócio é físico: fumava vinte e cinco cigarros por dia. <br /><br /><b>*</b> Eu fumo porque não consigo parar de fumar. Não é mais uma escolha, é dependência. Estou doente. Não é questão de força de vontade. <br /><br /><b>*</b> Se pudesse, eu me internava. <br /><br /><b>*</b> O cigarro estava vinculado a tudo o que fazia. Não se restringia ao prazer do "tapa" depois da refeição. O cigarro já vinha aceso, involuntário.  Tocava o telefone e fumava. Descia as escadas e fumava. Usava o computador e fumava. Acordava e dormia com um cigarro. <br /><br /><b>*</b> Vou me desculpando a cada momento, antecipando o fracasso da tentativa. Vou me perdoando. <br /><br /><b>*</b> Minha tática é fumar seis cigarros a partir de amanhã e seguir diminuindo semana a semana. <br /><br /><b>*</b> Meus dias são enormes e inativos. Há uma queda de produção. Não quero escrever nada, ler nada, sair, fiquei pesado, meu corpo perdeu os braços da poltrona.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 1º DIA</b><br />Imagem de Jean Cocteau<br /><br /><img src="http://www.museum-arno-breker.org/galerien/shop/cocteau-05.jpg"><br /><br /><b>*</b> Eu me vejo acabado. São vinte e quatro horas sem fumar e escapou o domínio da vida. Login e senha? Login e senha? Login e senha?<br /><br /><b>*</b> Minhas mãos tremem, tive delírios de noite. Ansioso e irritado, já não sei o que fazer. Mudei de personalidade. O negócio é físico: fumava vinte e cinco cigarros por dia. <br /><br /><b>*</b> Eu fumo porque não consigo parar de fumar. Não é mais uma escolha, é dependência. Estou doente. Não é questão de força de vontade. <br /><br /><b>*</b> Se pudesse, eu me internava. <br /><br /><b>*</b> O cigarro estava vinculado a tudo o que fazia. Não se restringia ao prazer do "tapa" depois da refeição. O cigarro já vinha aceso, involuntário.  Tocava o telefone e fumava. Descia as escadas e fumava. Usava o computador e fumava. Acordava e dormia com um cigarro. <br /><br /><b>*</b> Vou me desculpando a cada momento, antecipando o fracasso da tentativa. Vou me perdoando. <br /><br /><b>*</b> Minha tática é fumar seis cigarros a partir de amanhã e seguir diminuindo semana a semana. <br /><br /><b>*</b> Meus dias são enormes e inativos. Há uma queda de produção. Não quero escrever nada, ler nada, sair, fiquei pesado, meu corpo perdeu os braços da poltrona.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39019669</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/17/2006 11:41:11 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PAREI DE FUMAR</b><br />Para Mariana e Vicente, meus filhos<br />Para meu paizinho, que está fazendo cirurgia hoje<br /><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.1st-art-gallery.com/artists/fernando_botero/Man%20smoking%20Hombre%20fumando.jpg"><br /><br />Decidi parar de fumar, a partir do meio-dia de <b>sábado (16/9)</b>. Ao lado das crônicas, começo a escrever o <b>diário do ex-fumante</b>. Recuso chicletes, remédios e tratamento. Tenho um pacote cheio na gaveta. Tudo leva a crer que não conseguirei. Sou uma estatística nula. Alheio às probabilidades, paro de fumar. <br /><br />Não sei o que farei com a vida que vai sobrar, não tenho a mínima idéia de como fingirei que estou acompanhado sem a fumaça. Como esconder minha timidez? O vício sempre foi minha virtude para disfarçar. <br /><br />O cigarro é minha bengala de velho. A boca tropeça sem ele. O cigarro é meu aparelho de dentes. Trinquei minha adolescência nele. O cigarro é minha barba ruiva. A gola de minha barba. O cigarro foi minha primeira desobediência. Minha ansiedade de morder. Minha pressa em cuspir. Meu medo de beijar. <br /><br />Eu vou sentir falta da solidariedade dos fumantes. Eu vou sentir falta da pausa ensolarada de brasa depois do almoço. Eu vou sentir falta da coceira da luz diante da janela. Eu vou sentir falta de fumar nas baladas quando a música não ajudava e a bebida fazia efeito. Eu vou sentir falta de fumar enquanto caminhava - o cigarro acelerava chegar. Eu vou sentir falta de fumar quando suportava atrasos. Eu vou sentir falta de fumar para controlar a tensão das palestras. Eu vou sentir falta de procurar no lixo os telefones anotados na carteira. Eu vou sentir falta da raiva dos ex-fumantes. Eu vou sentir falta porque o cigarro me tornava misterioso. Eu vou sentir falta dos segredos que ouvia fazendo de conta que fumava. Triste me desfazer dos meus doze isqueiros engraçados - acendia o cigarro pelo barulho deles. Os cinzeiros permanecerão em casa esperando visitas. Os cigarros adormecem espiralados, como túmulos de flores. <br /><br />Eu me senti homem com cigarro. Me sentirei ainda mais homem sem ele.<br /><br />Fumo desde os 16 anos. Mais da metade de minha vida fumando. E escrevendo fumando. Fumando escrevendo. Não suspirava, tragava. Confundirei a família ao acordar, não haverá minha tosse preparando café. Se meu texto piorar, terei que lidar com a hipótese de que o talento vinha da nicotina. <br /><br />Decidi parar de fumar. Recebi uma mensagem emocionada da Mariana, minha filha. É ridículo parar de fumar porque a filha pede, mas é mais ridículo continuar fumando depois que ela pediu. <br /><br />Minha filha não herdará minha mentira. Não herdará minha morte. Não herdará minha covardia. Herdará minha palavra. <br /><br /><i><b>From: mariananejar <br />To: carpinejar <br />Sent: Tuesday, September 05, 2006 7:03 PM<br />Subject: Sem assunto</b><br /><br /><b>Pai</b><br /><br />Estou te escrevendo com o objetivo de fazer você parar de fumar. Por incrível que pareça, é esse o objetivo.<br /><br />Pensa só, cada pacote de cigarro que você adquirir possui uma mensagem localizada no verso dele, feita pelo Ministério da Saúde. Mas nenhum fumante dá bola para essa mensagem. Nenhum. Mas o Ministério não se preocupa particularmente com ninguém. Eu me preocupo. <br /><br />São fabricados milhões de pacotes de cigarro por dia. Cada um deles tem uma mensagem do Ministério da Saúde. Cada um dos pacotes tem esse tipo de mensagem, diversificadas, mas todas com a mesma intenção.<br /><br />Mensagens de uma filha não são tão comuns quanto uma advertência do Ministério da Saúde. Eu não estou escrevendo para poder fabricar legalmente um pacote de cigarro. E não estou te escrevendo por pura obrigação de Ministério. <br /><br />Meu objetivo não é deixá-lo brabo, nem impaciente. <br /><br />Há muitos anos que você me prometeu que não fumaria mais. Prometeu, claramente, diante da ingenuidade infantil. Minha satisfação se passou, e o cumprimento ficou escondido atrás da fumaça. O cumprir, gasosamente, se foi com a fumaça, com a fotossíntese. E o Fabrício continuou aqui, com a mesma promessa e uma cara de quem quer convencer que um dia vai abandonar o fumo, mas não convence NINGUÉM.<br /><br />A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida.<br /> <br />Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.<br /><br />Se você morrer muito cedo, sentirei muita falta. <br /><br />E de tanto que sentirei falta, meu amor me convenceu de escrever, talvez inutilmente, mas com muita esperança. A esperança é inútil?<br /><br />Você virou o dono da minha lágrima e do meu pesadelo. Guardião de tudo o que me assusta e me faz sentir como quem não pode mudar o destino. E o destino está nas suas próprias mãos.<br /> <br />As palavras de pedido não vão mais se repetir. Elas se guardaram para essa terça-feira, depois de tantos anos solitários e inúteis. Mas é assim que eu me sinto. Inútil ao efeito do cigarro. Inútil. Não adianta esconder seu pacote se sempre terá mais de cinqüenta à venda em qualquer revistaria.<br /><br />Não adianta mais falar palavras com o mesmo sentido se seu ouvido se recusa a aprender depois dos 30 anos. Não adianta eu querer, se o pensamento não supera o ato.<br /> <br />Te amo. <br />Beijos. <br />Tchau.<br /><br />Mari</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>PAREI DE FUMAR</b><br />Para Mariana e Vicente, meus filhos<br />Para meu paizinho, que está fazendo cirurgia hoje<br /><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.1st-art-gallery.com/artists/fernando_botero/Man%20smoking%20Hombre%20fumando.jpg"><br /><br />Decidi parar de fumar, a partir do meio-dia de <b>sábado (16/9)</b>. Ao lado das crônicas, começo a escrever o <b>diário do ex-fumante</b>. Recuso chicletes, remédios e tratamento. Tenho um pacote cheio na gaveta. Tudo leva a crer que não conseguirei. Sou uma estatística nula. Alheio às probabilidades, paro de fumar. <br /><br />Não sei o que farei com a vida que vai sobrar, não tenho a mínima idéia de como fingirei que estou acompanhado sem a fumaça. Como esconder minha timidez? O vício sempre foi minha virtude para disfarçar. <br /><br />O cigarro é minha bengala de velho. A boca tropeça sem ele. O cigarro é meu aparelho de dentes. Trinquei minha adolescência nele. O cigarro é minha barba ruiva. A gola de minha barba. O cigarro foi minha primeira desobediência. Minha ansiedade de morder. Minha pressa em cuspir. Meu medo de beijar. <br /><br />Eu vou sentir falta da solidariedade dos fumantes. Eu vou sentir falta da pausa ensolarada de brasa depois do almoço. Eu vou sentir falta da coceira da luz diante da janela. Eu vou sentir falta de fumar nas baladas quando a música não ajudava e a bebida fazia efeito. Eu vou sentir falta de fumar enquanto caminhava - o cigarro acelerava chegar. Eu vou sentir falta de fumar quando suportava atrasos. Eu vou sentir falta de fumar para controlar a tensão das palestras. Eu vou sentir falta de procurar no lixo os telefones anotados na carteira. Eu vou sentir falta da raiva dos ex-fumantes. Eu vou sentir falta porque o cigarro me tornava misterioso. Eu vou sentir falta dos segredos que ouvia fazendo de conta que fumava. Triste me desfazer dos meus doze isqueiros engraçados - acendia o cigarro pelo barulho deles. Os cinzeiros permanecerão em casa esperando visitas. Os cigarros adormecem espiralados, como túmulos de flores. <br /><br />Eu me senti homem com cigarro. Me sentirei ainda mais homem sem ele.<br /><br />Fumo desde os 16 anos. Mais da metade de minha vida fumando. E escrevendo fumando. Fumando escrevendo. Não suspirava, tragava. Confundirei a família ao acordar, não haverá minha tosse preparando café. Se meu texto piorar, terei que lidar com a hipótese de que o talento vinha da nicotina. <br /><br />Decidi parar de fumar. Recebi uma mensagem emocionada da Mariana, minha filha. É ridículo parar de fumar porque a filha pede, mas é mais ridículo continuar fumando depois que ela pediu. <br /><br />Minha filha não herdará minha mentira. Não herdará minha morte. Não herdará minha covardia. Herdará minha palavra. <br /><br /><i><b>From: mariananejar <br />To: carpinejar <br />Sent: Tuesday, September 05, 2006 7:03 PM<br />Subject: Sem assunto</b><br /><br /><b>Pai</b><br /><br />Estou te escrevendo com o objetivo de fazer você parar de fumar. Por incrível que pareça, é esse o objetivo.<br /><br />Pensa só, cada pacote de cigarro que você adquirir possui uma mensagem localizada no verso dele, feita pelo Ministério da Saúde. Mas nenhum fumante dá bola para essa mensagem. Nenhum. Mas o Ministério não se preocupa particularmente com ninguém. Eu me preocupo. <br /><br />São fabricados milhões de pacotes de cigarro por dia. Cada um deles tem uma mensagem do Ministério da Saúde. Cada um dos pacotes tem esse tipo de mensagem, diversificadas, mas todas com a mesma intenção.<br /><br />Mensagens de uma filha não são tão comuns quanto uma advertência do Ministério da Saúde. Eu não estou escrevendo para poder fabricar legalmente um pacote de cigarro. E não estou te escrevendo por pura obrigação de Ministério. <br /><br />Meu objetivo não é deixá-lo brabo, nem impaciente. <br /><br />Há muitos anos que você me prometeu que não fumaria mais. Prometeu, claramente, diante da ingenuidade infantil. Minha satisfação se passou, e o cumprimento ficou escondido atrás da fumaça. O cumprir, gasosamente, se foi com a fumaça, com a fotossíntese. E o Fabrício continuou aqui, com a mesma promessa e uma cara de quem quer convencer que um dia vai abandonar o fumo, mas não convence NINGUÉM.<br /><br />A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida.<br /> <br />Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.<br /><br />Se você morrer muito cedo, sentirei muita falta. <br /><br />E de tanto que sentirei falta, meu amor me convenceu de escrever, talvez inutilmente, mas com muita esperança. A esperança é inútil?<br /><br />Você virou o dono da minha lágrima e do meu pesadelo. Guardião de tudo o que me assusta e me faz sentir como quem não pode mudar o destino. E o destino está nas suas próprias mãos.<br /> <br />As palavras de pedido não vão mais se repetir. Elas se guardaram para essa terça-feira, depois de tantos anos solitários e inúteis. Mas é assim que eu me sinto. Inútil ao efeito do cigarro. Inútil. Não adianta esconder seu pacote se sempre terá mais de cinqüenta à venda em qualquer revistaria.<br /><br />Não adianta mais falar palavras com o mesmo sentido se seu ouvido se recusa a aprender depois dos 30 anos. Não adianta eu querer, se o pensamento não supera o ato.<br /> <br />Te amo. <br />Beijos. <br />Tchau.<br /><br />Mari</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PAREI DE FUMAR</b><br />Para Mariana e Vicente, meus filhos<br />Para meu paizinho, que está fazendo cirurgia hoje<br /><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.1st-art-gallery.com/artists/fernando_botero/Man%20smoking%20Hombre%20fumando.jpg"><br /><br />Decidi parar de fumar, a partir do meio-dia de <b>sábado (16/9)</b>. Ao lado das crônicas, começo a escrever o <b>diário do ex-fumante</b>. Recuso chicletes, remédios e tratamento. Tenho um pacote cheio na gaveta. Tudo leva a crer que não conseguirei. Sou uma estatística nula. Alheio às probabilidades, paro de fumar. <br /><br />Não sei o que farei com a vida que vai sobrar, não tenho a mínima idéia de como fingirei que estou acompanhado sem a fumaça. Como esconder minha timidez? O vício sempre foi minha virtude para disfarçar. <br /><br />O cigarro é minha bengala de velho. A boca tropeça sem ele. O cigarro é meu aparelho de dentes. Trinquei minha adolescência nele. O cigarro é minha barba ruiva. A gola de minha barba. O cigarro foi minha primeira desobediência. Minha ansiedade de morder. Minha pressa em cuspir. Meu medo de beijar. <br /><br />Eu vou sentir falta da solidariedade dos fumantes. Eu vou sentir falta da pausa ensolarada de brasa depois do almoço. Eu vou sentir falta da coceira da luz diante da janela. Eu vou sentir falta de fumar nas baladas quando a música não ajudava e a bebida fazia efeito. Eu vou sentir falta de fumar enquanto caminhava - o cigarro acelerava chegar. Eu vou sentir falta de fumar quando suportava atrasos. Eu vou sentir falta de fumar para controlar a tensão das palestras. Eu vou sentir falta de procurar no lixo os telefones anotados na carteira. Eu vou sentir falta da raiva dos ex-fumantes. Eu vou sentir falta porque o cigarro me tornava misterioso. Eu vou sentir falta dos segredos que ouvia fazendo de conta que fumava. Triste me desfazer dos meus doze isqueiros engraçados - acendia o cigarro pelo barulho deles. Os cinzeiros permanecerão em casa esperando visitas. Os cigarros adormecem espiralados, como túmulos de flores. <br /><br />Eu me senti homem com cigarro. Me sentirei ainda mais homem sem ele.<br /><br />Fumo desde os 16 anos. Mais da metade de minha vida fumando. E escrevendo fumando. Fumando escrevendo. Não suspirava, tragava. Confundirei a família ao acordar, não haverá minha tosse preparando café. Se meu texto piorar, terei que lidar com a hipótese de que o talento vinha da nicotina. <br /><br />Decidi parar de fumar. Recebi uma mensagem emocionada da Mariana, minha filha. É ridículo parar de fumar porque a filha pede, mas é mais ridículo continuar fumando depois que ela pediu. <br /><br />Minha filha não herdará minha mentira. Não herdará minha morte. Não herdará minha covardia. Herdará minha palavra. <br /><br /><i><b>From: mariananejar <br />To: carpinejar <br />Sent: Tuesday, September 05, 2006 7:03 PM<br />Subject: Sem assunto</b><br /><br /><b>Pai</b><br /><br />Estou te escrevendo com o objetivo de fazer você parar de fumar. Por incrível que pareça, é esse o objetivo.<br /><br />Pensa só, cada pacote de cigarro que você adquirir possui uma mensagem localizada no verso dele, feita pelo Ministério da Saúde. Mas nenhum fumante dá bola para essa mensagem. Nenhum. Mas o Ministério não se preocupa particularmente com ninguém. Eu me preocupo. <br /><br />São fabricados milhões de pacotes de cigarro por dia. Cada um deles tem uma mensagem do Ministério da Saúde. Cada um dos pacotes tem esse tipo de mensagem, diversificadas, mas todas com a mesma intenção.<br /><br />Mensagens de uma filha não são tão comuns quanto uma advertência do Ministério da Saúde. Eu não estou escrevendo para poder fabricar legalmente um pacote de cigarro. E não estou te escrevendo por pura obrigação de Ministério. <br /><br />Meu objetivo não é deixá-lo brabo, nem impaciente. <br /><br />Há muitos anos que você me prometeu que não fumaria mais. Prometeu, claramente, diante da ingenuidade infantil. Minha satisfação se passou, e o cumprimento ficou escondido atrás da fumaça. O cumprir, gasosamente, se foi com a fumaça, com a fotossíntese. E o Fabrício continuou aqui, com a mesma promessa e uma cara de quem quer convencer que um dia vai abandonar o fumo, mas não convence NINGUÉM.<br /><br />A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida.<br /> <br />Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.<br /><br />Se você morrer muito cedo, sentirei muita falta. <br /><br />E de tanto que sentirei falta, meu amor me convenceu de escrever, talvez inutilmente, mas com muita esperança. A esperança é inútil?<br /><br />Você virou o dono da minha lágrima e do meu pesadelo. Guardião de tudo o que me assusta e me faz sentir como quem não pode mudar o destino. E o destino está nas suas próprias mãos.<br /> <br />As palavras de pedido não vão mais se repetir. Elas se guardaram para essa terça-feira, depois de tantos anos solitários e inúteis. Mas é assim que eu me sinto. Inútil ao efeito do cigarro. Inútil. Não adianta esconder seu pacote se sempre terá mais de cinqüenta à venda em qualquer revistaria.<br /><br />Não adianta mais falar palavras com o mesmo sentido se seu ouvido se recusa a aprender depois dos 30 anos. Não adianta eu querer, se o pensamento não supera o ato.<br /> <br />Te amo. <br />Beijos. <br />Tchau.<br /><br />Mari</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39016717</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/16/2006 10:49:42 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>DEPENDÊNCIA TOTAL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_167259.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.forbes.com/images/2001/11/21/con_schiele_248x386.jpg"><br /><br /><i>"Quando ele chegou, foi como se o Universo se despisse. E, assim, conhecê-lo foi como ver o mundo sem roupa, tímido e desavergonhado. Na noite de setembro em que eu o conheci, dei-me conta de que o desencontro em mim era encontro nele. Descobri que o meu amar era mais bonito porque enchia a noite com risinhos, porque nos fazíamos encontrados no silêncio, porque nossos olhos tinham longos diálogos, porque éramos a medida da alegria indiscreta, a alegria que é quase afronta de tão descarada e sedutora que é.  <br /><br />Muito não tardou para que o meu encontro nele fosse desencontro para ele. Sentia-se preso. Temia minha dependência e com razão. A risada minha só podia ser ao lado dele, a alegria só era descarada se ele estivesse comigo. E logo quis impedir que ele tivesse gargalhada solo. Logo exigi estar ao lado dele em todo e qualquer riso. Não deixei que ele se encontrasse em outras alegrias, que não a minha. Erro meu. Ele, por sua vez, acenava com bandeira branca, pedindo liberdade, cada vez mais longe. E ele já estava na margem de lá quando eu, daqui, o vi partir para outra paixão. Depois de uma dolorosa traição, ele se foi. Reconheço minha responsabilidade. Exigi demais.  <br /><br />Perdi o sorriso, o mundo se vestiu correndo e partiu de mim. Quando eu já estava de volta ao rio, e não mais à margem, ele voltou, com os olhos úmidos a pedir perdão. Aceitei. E assim foram duas vezes. Duas novas traições por se sentir pressionado. Duas voltas porque eu tentava perdoar (e talvez não pudesse. Como esquecer, afinal?). <br /><br />Agora, na terceira traição, ele se foi. E de vez. Qual não foi meu desespero ao perceber que, desta vez, ele não voltou, não quis meu perdão, não quis estar de volta... Diz que não quer mais me fazer mal, que não se sente capaz de ser fiel, que vai sempre me fazer chorar e que, apesar de me 'amar mais que tudo, para sempre' (são palavras dele, daí as aspas), não quer mais ir ao meu encontro. Desde a última traição, ele não ligou. Eu telefonei. Vez ou outra, ele atendeu. Dizia sempre que me amava. Soube agora que ele namora. Deixei de ligar. Tem sido um grande esforço. Muito grande. Não nos falamos há dois dias. Porque eu não ligo, controlo o desejo de falar com ele, de mantê-lo por perto mesmo que longe. Me esforço porque ele se retirou de cena e não posso forçá-lo a ser protagonista se ele já faz par com outra personagem de uma história nova e distante de mim.<br /><br />   <br />Reconheço que não daríamos certo. Afinal, ele não me oferece o compromisso, o tal amor com coragem. Ou talvez não me ame, apesar de dizer. O que pensar? Ele me ama? Esconde-se atrás de 'estou confuso', mas ama? Ou não ama? Quanto a mim, ainda o amo. E me culpo por isso. Como amar alguém que tanto me fez chorar? E penso em estratégias para esquecê-lo como num passe de mágica, porque esse amor que sinto talvez seja vício. Quero amor fresco, amor doce, amor com alegria descarada, mas leve de pureza. Sem mágoa, sem dor. E, embora o ame, sei que a relação é inviável. Por que, então, não o esqueço? Será vício? Há uma técnica para esquecer, caro Fabrício? Há um caminho para entender? Será que devo me esforçar para mantê-lo longe e, quem sabe, um dia ele volte? Mas por que querer de volta alguém que me faz chorar assim? <br /><br />Enfim, dói.<br /><br />Carinho e admiração,<br /><br />Manuela"</i><br /> <br />Olá, Manuela<br /><br />Você entrou em uma cilada. Uma armadilha brutal. Ao ficar ao lado dele, ele parte. Na hipótese de se afastar dele, deseja que volte. Tanto a separação como a reconciliação são estratégias para alimentar o amor doentio. Amor unilateral. Criou a certeza de que sua alegria nasceu do encontro com ele. Quem vai tirar isso de sua cabeça? Posso até tirar, mas de seu coração não tenho a chave. <br /><br />Ele não deseja o compromisso. Cômodo. Houve três reincidências e ainda guarda esperança. Precisa a quarta, a quinta, para ter certeza de que não presta? Esperança de convertê-lo, de convencê-lo? Vai adiantar... Já entrou no terreno da caridade e da teimosia. Não largamos amores porque precisamos provar que o tempo com eles foi especial. Nossa guerra pela manutenção de uma relação não é a favor do futuro, e sim para valorizar o passado.<br /><br />Pode perdoar o rapaz, só que não vai se perdoar nunca mais. Como amá-lo sem estima, sabendo que não é ideal, que ele vive escapando, que não se contenta contigo? Como satisfazer uma ausência? Garanto que ele não a ama mais do que tudo, o amor dele fica sempre abaixo do ego e do narcisismo. <br /><br />Chega ao cúmulo de se condenar e se martirizar porque ele arrumou outra namorada. Ele trai e você é culpada. Sua alegação é que "exigiu demais". Que se tornou dependente e o privou da liberdade. Não, vem exigindo de menos de você. E ele não é homem para atender suas exigências. Há algumas pessoas que deveriam sair pela porta da cozinha. E receber as sobras de comida e de nossa vida. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>DEPENDÊNCIA TOTAL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_167259.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.forbes.com/images/2001/11/21/con_schiele_248x386.jpg"><br /><br /><i>"Quando ele chegou, foi como se o Universo se despisse. E, assim, conhecê-lo foi como ver o mundo sem roupa, tímido e desavergonhado. Na noite de setembro em que eu o conheci, dei-me conta de que o desencontro em mim era encontro nele. Descobri que o meu amar era mais bonito porque enchia a noite com risinhos, porque nos fazíamos encontrados no silêncio, porque nossos olhos tinham longos diálogos, porque éramos a medida da alegria indiscreta, a alegria que é quase afronta de tão descarada e sedutora que é.  <br /><br />Muito não tardou para que o meu encontro nele fosse desencontro para ele. Sentia-se preso. Temia minha dependência e com razão. A risada minha só podia ser ao lado dele, a alegria só era descarada se ele estivesse comigo. E logo quis impedir que ele tivesse gargalhada solo. Logo exigi estar ao lado dele em todo e qualquer riso. Não deixei que ele se encontrasse em outras alegrias, que não a minha. Erro meu. Ele, por sua vez, acenava com bandeira branca, pedindo liberdade, cada vez mais longe. E ele já estava na margem de lá quando eu, daqui, o vi partir para outra paixão. Depois de uma dolorosa traição, ele se foi. Reconheço minha responsabilidade. Exigi demais.  <br /><br />Perdi o sorriso, o mundo se vestiu correndo e partiu de mim. Quando eu já estava de volta ao rio, e não mais à margem, ele voltou, com os olhos úmidos a pedir perdão. Aceitei. E assim foram duas vezes. Duas novas traições por se sentir pressionado. Duas voltas porque eu tentava perdoar (e talvez não pudesse. Como esquecer, afinal?). <br /><br />Agora, na terceira traição, ele se foi. E de vez. Qual não foi meu desespero ao perceber que, desta vez, ele não voltou, não quis meu perdão, não quis estar de volta... Diz que não quer mais me fazer mal, que não se sente capaz de ser fiel, que vai sempre me fazer chorar e que, apesar de me 'amar mais que tudo, para sempre' (são palavras dele, daí as aspas), não quer mais ir ao meu encontro. Desde a última traição, ele não ligou. Eu telefonei. Vez ou outra, ele atendeu. Dizia sempre que me amava. Soube agora que ele namora. Deixei de ligar. Tem sido um grande esforço. Muito grande. Não nos falamos há dois dias. Porque eu não ligo, controlo o desejo de falar com ele, de mantê-lo por perto mesmo que longe. Me esforço porque ele se retirou de cena e não posso forçá-lo a ser protagonista se ele já faz par com outra personagem de uma história nova e distante de mim.<br /><br />   <br />Reconheço que não daríamos certo. Afinal, ele não me oferece o compromisso, o tal amor com coragem. Ou talvez não me ame, apesar de dizer. O que pensar? Ele me ama? Esconde-se atrás de 'estou confuso', mas ama? Ou não ama? Quanto a mim, ainda o amo. E me culpo por isso. Como amar alguém que tanto me fez chorar? E penso em estratégias para esquecê-lo como num passe de mágica, porque esse amor que sinto talvez seja vício. Quero amor fresco, amor doce, amor com alegria descarada, mas leve de pureza. Sem mágoa, sem dor. E, embora o ame, sei que a relação é inviável. Por que, então, não o esqueço? Será vício? Há uma técnica para esquecer, caro Fabrício? Há um caminho para entender? Será que devo me esforçar para mantê-lo longe e, quem sabe, um dia ele volte? Mas por que querer de volta alguém que me faz chorar assim? <br /><br />Enfim, dói.<br /><br />Carinho e admiração,<br /><br />Manuela"</i><br /> <br />Olá, Manuela<br /><br />Você entrou em uma cilada. Uma armadilha brutal. Ao ficar ao lado dele, ele parte. Na hipótese de se afastar dele, deseja que volte. Tanto a separação como a reconciliação são estratégias para alimentar o amor doentio. Amor unilateral. Criou a certeza de que sua alegria nasceu do encontro com ele. Quem vai tirar isso de sua cabeça? Posso até tirar, mas de seu coração não tenho a chave. <br /><br />Ele não deseja o compromisso. Cômodo. Houve três reincidências e ainda guarda esperança. Precisa a quarta, a quinta, para ter certeza de que não presta? Esperança de convertê-lo, de convencê-lo? Vai adiantar... Já entrou no terreno da caridade e da teimosia. Não largamos amores porque precisamos provar que o tempo com eles foi especial. Nossa guerra pela manutenção de uma relação não é a favor do futuro, e sim para valorizar o passado.<br /><br />Pode perdoar o rapaz, só que não vai se perdoar nunca mais. Como amá-lo sem estima, sabendo que não é ideal, que ele vive escapando, que não se contenta contigo? Como satisfazer uma ausência? Garanto que ele não a ama mais do que tudo, o amor dele fica sempre abaixo do ego e do narcisismo. <br /><br />Chega ao cúmulo de se condenar e se martirizar porque ele arrumou outra namorada. Ele trai e você é culpada. Sua alegação é que "exigiu demais". Que se tornou dependente e o privou da liberdade. Não, vem exigindo de menos de você. E ele não é homem para atender suas exigências. Há algumas pessoas que deveriam sair pela porta da cozinha. E receber as sobras de comida e de nossa vida. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>DEPENDÊNCIA TOTAL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura de Egon Schiele <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_167259.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.forbes.com/images/2001/11/21/con_schiele_248x386.jpg"><br /><br /><i>"Quando ele chegou, foi como se o Universo se despisse. E, assim, conhecê-lo foi como ver o mundo sem roupa, tímido e desavergonhado. Na noite de setembro em que eu o conheci, dei-me conta de que o desencontro em mim era encontro nele. Descobri que o meu amar era mais bonito porque enchia a noite com risinhos, porque nos fazíamos encontrados no silêncio, porque nossos olhos tinham longos diálogos, porque éramos a medida da alegria indiscreta, a alegria que é quase afronta de tão descarada e sedutora que é.  <br /><br />Muito não tardou para que o meu encontro nele fosse desencontro para ele. Sentia-se preso. Temia minha dependência e com razão. A risada minha só podia ser ao lado dele, a alegria só era descarada se ele estivesse comigo. E logo quis impedir que ele tivesse gargalhada solo. Logo exigi estar ao lado dele em todo e qualquer riso. Não deixei que ele se encontrasse em outras alegrias, que não a minha. Erro meu. Ele, por sua vez, acenava com bandeira branca, pedindo liberdade, cada vez mais longe. E ele já estava na margem de lá quando eu, daqui, o vi partir para outra paixão. Depois de uma dolorosa traição, ele se foi. Reconheço minha responsabilidade. Exigi demais.  <br /><br />Perdi o sorriso, o mundo se vestiu correndo e partiu de mim. Quando eu já estava de volta ao rio, e não mais à margem, ele voltou, com os olhos úmidos a pedir perdão. Aceitei. E assim foram duas vezes. Duas novas traições por se sentir pressionado. Duas voltas porque eu tentava perdoar (e talvez não pudesse. Como esquecer, afinal?). <br /><br />Agora, na terceira traição, ele se foi. E de vez. Qual não foi meu desespero ao perceber que, desta vez, ele não voltou, não quis meu perdão, não quis estar de volta... Diz que não quer mais me fazer mal, que não se sente capaz de ser fiel, que vai sempre me fazer chorar e que, apesar de me 'amar mais que tudo, para sempre' (são palavras dele, daí as aspas), não quer mais ir ao meu encontro. Desde a última traição, ele não ligou. Eu telefonei. Vez ou outra, ele atendeu. Dizia sempre que me amava. Soube agora que ele namora. Deixei de ligar. Tem sido um grande esforço. Muito grande. Não nos falamos há dois dias. Porque eu não ligo, controlo o desejo de falar com ele, de mantê-lo por perto mesmo que longe. Me esforço porque ele se retirou de cena e não posso forçá-lo a ser protagonista se ele já faz par com outra personagem de uma história nova e distante de mim.<br /><br />   <br />Reconheço que não daríamos certo. Afinal, ele não me oferece o compromisso, o tal amor com coragem. Ou talvez não me ame, apesar de dizer. O que pensar? Ele me ama? Esconde-se atrás de 'estou confuso', mas ama? Ou não ama? Quanto a mim, ainda o amo. E me culpo por isso. Como amar alguém que tanto me fez chorar? E penso em estratégias para esquecê-lo como num passe de mágica, porque esse amor que sinto talvez seja vício. Quero amor fresco, amor doce, amor com alegria descarada, mas leve de pureza. Sem mágoa, sem dor. E, embora o ame, sei que a relação é inviável. Por que, então, não o esqueço? Será vício? Há uma técnica para esquecer, caro Fabrício? Há um caminho para entender? Será que devo me esforçar para mantê-lo longe e, quem sabe, um dia ele volte? Mas por que querer de volta alguém que me faz chorar assim? <br /><br />Enfim, dói.<br /><br />Carinho e admiração,<br /><br />Manuela"</i><br /> <br />Olá, Manuela<br /><br />Você entrou em uma cilada. Uma armadilha brutal. Ao ficar ao lado dele, ele parte. Na hipótese de se afastar dele, deseja que volte. Tanto a separação como a reconciliação são estratégias para alimentar o amor doentio. Amor unilateral. Criou a certeza de que sua alegria nasceu do encontro com ele. Quem vai tirar isso de sua cabeça? Posso até tirar, mas de seu coração não tenho a chave. <br /><br />Ele não deseja o compromisso. Cômodo. Houve três reincidências e ainda guarda esperança. Precisa a quarta, a quinta, para ter certeza de que não presta? Esperança de convertê-lo, de convencê-lo? Vai adiantar... Já entrou no terreno da caridade e da teimosia. Não largamos amores porque precisamos provar que o tempo com eles foi especial. Nossa guerra pela manutenção de uma relação não é a favor do futuro, e sim para valorizar o passado.<br /><br />Pode perdoar o rapaz, só que não vai se perdoar nunca mais. Como amá-lo sem estima, sabendo que não é ideal, que ele vive escapando, que não se contenta contigo? Como satisfazer uma ausência? Garanto que ele não a ama mais do que tudo, o amor dele fica sempre abaixo do ego e do narcisismo. <br /><br />Chega ao cúmulo de se condenar e se martirizar porque ele arrumou outra namorada. Ele trai e você é culpada. Sua alegação é que "exigiu demais". Que se tornou dependente e o privou da liberdade. Não, vem exigindo de menos de você. E ele não é homem para atender suas exigências. Há algumas pessoas que deveriam sair pela porta da cozinha. E receber as sobras de comida e de nossa vida. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#39015567</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/15/2006 09:10:42 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MULHER-COLAR OU MULHER-BRINCO</b><br />Arte de Wayne Thiebaud <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_1037_185284_Wayne-Thiebaud.jpg"><br /><br />Eu desconfio de teorias. Mas crio as minhas para desconfiar ainda mais. <br /><br />Uma delas é a da mulher-colar e da mulher-brinco, duas formas femininas de organizar a vida. <br /><br />A mulher-colar é mais caseira, procura a unidade. Não é dispersiva, não costuma ter vida dupla, tenta manter uma coerência absoluta entre o trabalho, a casa, o sexo e os filhos (ou os animais). Pretende ter a história sob o controle, o que a atormenta. Fica irritada quando escapa as rédeas da janela. Toma a posição extremista: ou tudo ou nada. Percebe que o nada - bem acompanhada - não é tão ruim assim. Oscila entre a posição de vítima e algoz. Cuidado: quando é vítima é algoz. Adora ser surpreendida. O colar é despir as costas. Como não é posto pela frente, carrega o sopro de um segredo, o leque de um ritual, o vento envidraçado.<br /><br />A mulher-colar se arrepia toda na nuca. Os beijos antecedem os lábios. <br /><br />Sua protagonista guarda uma inclinação para transparência. A mulher-colar dificilmente pensará antes de falar - pensará e falará simultaneamente. Pensará enquanto fala. Será rude caso necessário e não voltará atrás. Pedir desculpa é um tormento para ela. Enleia-se em dizer obrigado. De igual modo, será verdadeira para o elogio. Com tal contundência, que todo elogio da mulher-colar se assemelha a um pedido de casamento.  Perigoso discernir entre a sedução e a carência. <br /><br />Colar é mais complicado de perder. Não há como extraviar, ou fingir que ele não existe. Não há como esquecer que está se usando. Uma mulher-colar não aceita metades, suplências e realidades provisórias. É possessiva, com uma teimosia implacável de menina mimada. Mas não é uma menina mimada, é uma menina independente. <br /><br />Domina o corpo pelo pescoço. Exige que seja olhada com a veemência nos olhos. Mostrará os seios com ambição. O colar é primo da coleira. Com a diferença: quem o usa manda, não é mandado. Os brincos são complementos. Secundários, discretos e dispensáveis. Aparecem para chamar atenção do colar. Como o colar é exagerado, dispensará os anéis e as pulseiras. Ela se julga importante ao escolher.  <br /><br />A mulher-colar tem resistência para abdicar do passado. As pedras estão muito próximas da garganta, lembram as palavras ásperas obrigadas a engolir. Ela põe o colar como quem separa uma voz para ouvir sozinha. O colar é o herdeiro do escapulário. Ao vestir um colar (colar se veste, não é um adereço), a mulher está se ligando aos antepassados: avó, mãe, filha. A mulher-colar mentirá para proteger alguma verdade, em último caso. Não mentirá para se proteger. É constante em suas mudanças. Muda para continuar igual e mais confortável. Abusará da cor escura nas unhas, para exibir personalidade forte. Não vai se influenciar com a opinião alheia, porém fica abalada com sua autocrítica. <br /><br />A mulher-brinco é de outra ordem. Mais expansiva e volúvel. Ela valoriza os detalhes. As etiquetas. As vogais. Os talos das frutas. Sofre uma inaptidão para escolher: prefere ser escolhida. Casa o brinco com o anel. Ou com a pulseira. Mas não suporta a solteirice do colar. <br /><br />Perde o brinco, para permanecer com a sensação de que está procurando algo. O brinco é um pretexto para não parar de procurar, mesmo quando já encontrou. Ela acredita que pode estar melhor ainda que extremamente feliz. É insaciável na alegria e na tristeza. Quando fica abatida, não admite concorrência. A mulher-brinco emprega a duplicidade, não se agrada em apontar que o namoro "terminou". Abandona o final, preocupada em preservar o início. Deixa para resolver no último minuto. Deixa, na verdade, o último minuto para não resolver. A mulher-brinco esquece do passado com facilidade, preocupada em crescer e amadurecer o quanto antes. Não tem tempo para fazer tempo. Valoriza o rosto como moldura. Tem uma fixação pelos cabelos. O brinco é um jeito de diminuir a orelha ou aumentá-la. O brinco não está lá por acaso e acidente. É uma tatuagem do queixo. Nas relações amorosas, não permanece muitos anos. Encontra um jeito de fugir sem dar na vista. Dá o fora e disfarça que recebeu. <br /><br />A mulher-brinco odeia sua solidão. Odeia não contar com testemunhas. Odeia viver para não contar o que viveu. Seu porta-jóias é um emaranhado de fios e de pares trocados. O porta-jóias é o resumo do seu quarto na infância. Demora um tempo para escolher o que colocar, para reparar nas jóias que não a interessava. Recusa a insônia, que afeta sua pele com olheiras, covas e maledicências. A mulher-brinco observa o sono com luxúria. Seu mau-humor depende de como se acorda. Compra tapetes ralos, para facilitar a localização de objetos. Pinta as unhas com misturinha, para não atrair atenção sobre os movimentos das mãos. <br /><br />Impõe-se na troca rápida de assunto. Mente como experiência. Mente para dominar assuntos que desconhece. Mente para conhecer. É ardilosa e faz com freqüência testes e jogos com seus parceiros. Quer se ver desafiada. A mulher-brinco deseja a cômoda livre para se espalhar. Metódica em sua confusão. Nunca conhece direito onde colocou sua vida. <br /><br />A mulher-colar e a mulher-brinco podem coexistir numa única mulher. Mas somente uma delas surgirá diante de um homem. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>MULHER-COLAR OU MULHER-BRINCO</b><br />Arte de Wayne Thiebaud <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_1037_185284_Wayne-Thiebaud.jpg"><br /><br />Eu desconfio de teorias. Mas crio as minhas para desconfiar ainda mais. <br /><br />Uma delas é a da mulher-colar e da mulher-brinco, duas formas femininas de organizar a vida. <br /><br />A mulher-colar é mais caseira, procura a unidade. Não é dispersiva, não costuma ter vida dupla, tenta manter uma coerência absoluta entre o trabalho, a casa, o sexo e os filhos (ou os animais). Pretende ter a história sob o controle, o que a atormenta. Fica irritada quando escapa as rédeas da janela. Toma a posição extremista: ou tudo ou nada. Percebe que o nada - bem acompanhada - não é tão ruim assim. Oscila entre a posição de vítima e algoz. Cuidado: quando é vítima é algoz. Adora ser surpreendida. O colar é despir as costas. Como não é posto pela frente, carrega o sopro de um segredo, o leque de um ritual, o vento envidraçado.<br /><br />A mulher-colar se arrepia toda na nuca. Os beijos antecedem os lábios. <br /><br />Sua protagonista guarda uma inclinação para transparência. A mulher-colar dificilmente pensará antes de falar - pensará e falará simultaneamente. Pensará enquanto fala. Será rude caso necessário e não voltará atrás. Pedir desculpa é um tormento para ela. Enleia-se em dizer obrigado. De igual modo, será verdadeira para o elogio. Com tal contundência, que todo elogio da mulher-colar se assemelha a um pedido de casamento.  Perigoso discernir entre a sedução e a carência. <br /><br />Colar é mais complicado de perder. Não há como extraviar, ou fingir que ele não existe. Não há como esquecer que está se usando. Uma mulher-colar não aceita metades, suplências e realidades provisórias. É possessiva, com uma teimosia implacável de menina mimada. Mas não é uma menina mimada, é uma menina independente. <br /><br />Domina o corpo pelo pescoço. Exige que seja olhada com a veemência nos olhos. Mostrará os seios com ambição. O colar é primo da coleira. Com a diferença: quem o usa manda, não é mandado. Os brincos são complementos. Secundários, discretos e dispensáveis. Aparecem para chamar atenção do colar. Como o colar é exagerado, dispensará os anéis e as pulseiras. Ela se julga importante ao escolher.  <br /><br />A mulher-colar tem resistência para abdicar do passado. As pedras estão muito próximas da garganta, lembram as palavras ásperas obrigadas a engolir. Ela põe o colar como quem separa uma voz para ouvir sozinha. O colar é o herdeiro do escapulário. Ao vestir um colar (colar se veste, não é um adereço), a mulher está se ligando aos antepassados: avó, mãe, filha. A mulher-colar mentirá para proteger alguma verdade, em último caso. Não mentirá para se proteger. É constante em suas mudanças. Muda para continuar igual e mais confortável. Abusará da cor escura nas unhas, para exibir personalidade forte. Não vai se influenciar com a opinião alheia, porém fica abalada com sua autocrítica. <br /><br />A mulher-brinco é de outra ordem. Mais expansiva e volúvel. Ela valoriza os detalhes. As etiquetas. As vogais. Os talos das frutas. Sofre uma inaptidão para escolher: prefere ser escolhida. Casa o brinco com o anel. Ou com a pulseira. Mas não suporta a solteirice do colar. <br /><br />Perde o brinco, para permanecer com a sensação de que está procurando algo. O brinco é um pretexto para não parar de procurar, mesmo quando já encontrou. Ela acredita que pode estar melhor ainda que extremamente feliz. É insaciável na alegria e na tristeza. Quando fica abatida, não admite concorrência. A mulher-brinco emprega a duplicidade, não se agrada em apontar que o namoro "terminou". Abandona o final, preocupada em preservar o início. Deixa para resolver no último minuto. Deixa, na verdade, o último minuto para não resolver. A mulher-brinco esquece do passado com facilidade, preocupada em crescer e amadurecer o quanto antes. Não tem tempo para fazer tempo. Valoriza o rosto como moldura. Tem uma fixação pelos cabelos. O brinco é um jeito de diminuir a orelha ou aumentá-la. O brinco não está lá por acaso e acidente. É uma tatuagem do queixo. Nas relações amorosas, não permanece muitos anos. Encontra um jeito de fugir sem dar na vista. Dá o fora e disfarça que recebeu. <br /><br />A mulher-brinco odeia sua solidão. Odeia não contar com testemunhas. Odeia viver para não contar o que viveu. Seu porta-jóias é um emaranhado de fios e de pares trocados. O porta-jóias é o resumo do seu quarto na infância. Demora um tempo para escolher o que colocar, para reparar nas jóias que não a interessava. Recusa a insônia, que afeta sua pele com olheiras, covas e maledicências. A mulher-brinco observa o sono com luxúria. Seu mau-humor depende de como se acorda. Compra tapetes ralos, para facilitar a localização de objetos. Pinta as unhas com misturinha, para não atrair atenção sobre os movimentos das mãos. <br /><br />Impõe-se na troca rápida de assunto. Mente como experiência. Mente para dominar assuntos que desconhece. Mente para conhecer. É ardilosa e faz com freqüência testes e jogos com seus parceiros. Quer se ver desafiada. A mulher-brinco deseja a cômoda livre para se espalhar. Metódica em sua confusão. Nunca conhece direito onde colocou sua vida. <br /><br />A mulher-colar e a mulher-brinco podem coexistir numa única mulher. Mas somente uma delas surgirá diante de um homem. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MULHER-COLAR OU MULHER-BRINCO</b><br />Arte de Wayne Thiebaud <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_1037_185284_Wayne-Thiebaud.jpg"><br /><br />Eu desconfio de teorias. Mas crio as minhas para desconfiar ainda mais. <br /><br />Uma delas é a da mulher-colar e da mulher-brinco, duas formas femininas de organizar a vida. <br /><br />A mulher-colar é mais caseira, procura a unidade. Não é dispersiva, não costuma ter vida dupla, tenta manter uma coerência absoluta entre o trabalho, a casa, o sexo e os filhos (ou os animais). Pretende ter a história sob o controle, o que a atormenta. Fica irritada quando escapa as rédeas da janela. Toma a posição extremista: ou tudo ou nada. Percebe que o nada - bem acompanhada - não é tão ruim assim. Oscila entre a posição de vítima e algoz. Cuidado: quando é vítima é algoz. Adora ser surpreendida. O colar é despir as costas. Como não é posto pela frente, carrega o sopro de um segredo, o leque de um ritual, o vento envidraçado.<br /><br />A mulher-colar se arrepia toda na nuca. Os beijos antecedem os lábios. <br /><br />Sua protagonista guarda uma inclinação para transparência. A mulher-colar dificilmente pensará antes de falar - pensará e falará simultaneamente. Pensará enquanto fala. Será rude caso necessário e não voltará atrás. Pedir desculpa é um tormento para ela. Enleia-se em dizer obrigado. De igual modo, será verdadeira para o elogio. Com tal contundência, que todo elogio da mulher-colar se assemelha a um pedido de casamento.  Perigoso discernir entre a sedução e a carência. <br /><br />Colar é mais complicado de perder. Não há como extraviar, ou fingir que ele não existe. Não há como esquecer que está se usando. Uma mulher-colar não aceita metades, suplências e realidades provisórias. É possessiva, com uma teimosia implacável de menina mimada. Mas não é uma menina mimada, é uma menina independente. <br /><br />Domina o corpo pelo pescoço. Exige que seja olhada com a veemência nos olhos. Mostrará os seios com ambição. O colar é primo da coleira. Com a diferença: quem o usa manda, não é mandado. Os brincos são complementos. Secundários, discretos e dispensáveis. Aparecem para chamar atenção do colar. Como o colar é exagerado, dispensará os anéis e as pulseiras. Ela se julga importante ao escolher.  <br /><br />A mulher-colar tem resistência para abdicar do passado. As pedras estão muito próximas da garganta, lembram as palavras ásperas obrigadas a engolir. Ela põe o colar como quem separa uma voz para ouvir sozinha. O colar é o herdeiro do escapulário. Ao vestir um colar (colar se veste, não é um adereço), a mulher está se ligando aos antepassados: avó, mãe, filha. A mulher-colar mentirá para proteger alguma verdade, em último caso. Não mentirá para se proteger. É constante em suas mudanças. Muda para continuar igual e mais confortável. Abusará da cor escura nas unhas, para exibir personalidade forte. Não vai se influenciar com a opinião alheia, porém fica abalada com sua autocrítica. <br /><br />A mulher-brinco é de outra ordem. Mais expansiva e volúvel. Ela valoriza os detalhes. As etiquetas. As vogais. Os talos das frutas. Sofre uma inaptidão para escolher: prefere ser escolhida. Casa o brinco com o anel. Ou com a pulseira. Mas não suporta a solteirice do colar. <br /><br />Perde o brinco, para permanecer com a sensação de que está procurando algo. O brinco é um pretexto para não parar de procurar, mesmo quando já encontrou. Ela acredita que pode estar melhor ainda que extremamente feliz. É insaciável na alegria e na tristeza. Quando fica abatida, não admite concorrência. A mulher-brinco emprega a duplicidade, não se agrada em apontar que o namoro "terminou". Abandona o final, preocupada em preservar o início. Deixa para resolver no último minuto. Deixa, na verdade, o último minuto para não resolver. A mulher-brinco esquece do passado com facilidade, preocupada em crescer e amadurecer o quanto antes. Não tem tempo para fazer tempo. Valoriza o rosto como moldura. Tem uma fixação pelos cabelos. O brinco é um jeito de diminuir a orelha ou aumentá-la. O brinco não está lá por acaso e acidente. É uma tatuagem do queixo. Nas relações amorosas, não permanece muitos anos. Encontra um jeito de fugir sem dar na vista. Dá o fora e disfarça que recebeu. <br /><br />A mulher-brinco odeia sua solidão. Odeia não contar com testemunhas. Odeia viver para não contar o que viveu. Seu porta-jóias é um emaranhado de fios e de pares trocados. O porta-jóias é o resumo do seu quarto na infância. Demora um tempo para escolher o que colocar, para reparar nas jóias que não a interessava. Recusa a insônia, que afeta sua pele com olheiras, covas e maledicências. A mulher-brinco observa o sono com luxúria. Seu mau-humor depende de como se acorda. Compra tapetes ralos, para facilitar a localização de objetos. Pinta as unhas com misturinha, para não atrair atenção sobre os movimentos das mãos. <br /><br />Impõe-se na troca rápida de assunto. Mente como experiência. Mente para dominar assuntos que desconhece. Mente para conhecer. É ardilosa e faz com freqüência testes e jogos com seus parceiros. Quer se ver desafiada. A mulher-brinco deseja a cômoda livre para se espalhar. Metódica em sua confusão. Nunca conhece direito onde colocou sua vida. <br /><br />A mulher-colar e a mulher-brinco podem coexistir numa única mulher. Mas somente uma delas surgirá diante de um homem. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38999088</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/10/2006 05:16:21 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title>ESTADO DE S.PAULO, <a href="http://www.estado.com.br">CADERNO CULTURA</a>, página D5<br /><b>Domingo, 10 setembro de 2006 </b> <br />  <br /><b>CONTRA A ESPERANÇA PASSIVA</b><br />Menalton Braff retorna ao gênero que o premiou com o Jabuti e acentua solidão de personagens <br /><br /><img src="http://www.menalton.com.br/images/capa1.jpg"><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br />Especial para o Estado<br /><br />Menalton Braff já foi outro: Salvador dos Passos. Pseudônimo com que publicou seus dois primeiros livros. Com os contos de <b>À Sombra dos Ciprestes</b>, Prêmio Jabuti 2000 - Livro do Ano Ficção, assumiu seu nome, tão estranho e nórdico como um viking exilado. Que parece mais pseudônimo do que seu pseudônimo anterior. O conto significa sempre ao autor uma guinada. Com os contos, abandonou o pseudônimo em 1999 e se fez conhecido. Depois de três romances, volta ao gênero que o consagrou. E melhor do que nunca - acentuando as possibilidades de narrar, ora expressionista, realista, lírico, no compasso combinado entre denúncia, suavidade e mergulho psicológico.<br /><br />É sobre a perspectiva do outro, que Menalton lança <b>A Coleira no Pescoço</b> (Bertrand Brasil, 160 págs., R$ 25). Transparece uma obsessão em retratar seres solitários. As tramas não se limitam a emitir opiniões, desconfortam como um arroto, algo rude e trancado. Não confortam como um suspiro ou um bocejo. Os habitantes de A Coleira do Pescoço não são seres desajustados, mas personagens que estão tentando ganhar a vida dentro das regras, que se ferram e não buscam compreender o que houve de errado, que não explodem e embrulham as mágoas sociais para comer frias no quarto. Sofrem com a dependência do emprego, a obrigação financeira de sustento, e não se arriscam a pensar diferente, aceitam a brutalidade das relações como um pré-requisito.<br /><br />Vinte narrativas curtas e uma linha harmônica a penetrar em cada história: a solidão incomunicável. Praticamente em todos os contos, sabe-se mais dos personagens por aquilo que pensam do que por aquilo que fazem. São assombrações da palavra. Menalton escreve em terceira pessoa, como se estivesse narrando na primeira pessoa. Grudado na personagem, em tal medida que só enxerga o que a personagem está enxergando. Um crente, Daniel, pretende converter uma puta e se transforma num garoto de programa. Uma noiva acompanha, por fora, a construção da casa que seria dela se não houvesse o rompimento. Uma violoncelista sofre os horrores físicos do ensaio num jogo sexual com o marido. A realidade é curta perto das hipóteses imaginadas pelos protagonistas. Eles se antecipam no sofrimento, para sofrer duas vezes. Menalton faz um anticonto, no sentido de que a história subterrânea sobrepuja a história visível. Não testam os limites, seguem ordens. Seja da família, de Deus, da educação. Se o velho e o cachorro morrem atropelados por viverem amarrados no primeiro texto que confere o título à obra, a maioria das caracterizações da coletânea vive atropelada por se manter amarrada às convicções.<br /><br />Menalton desenha figuras que são vocacionadas ao isolamento. O zelador e o vigia, por exemplos. Presos ao fim por uma coleira invisível, que é a crença que a vida pode dar certo se atenderem os preceitos do serviço.<br /><br />O primeiro desenvolve com o cachorro uma convivência leal e cega, a ponto de humanizar o cachorro e cobrar atitudes. A conseqüência é que ele vira um animal, preocupado em tossir para não atrofiar sons humanos e coloca a amizade com o bicho abaixo de sua sobrevivência profissional. O segundo aceita um emprego, sem nunca conhecer o nome de seu patrão. Em ambos os casos, há uma resignação brutal, um voto inútil no dia seguinte, que as coisas vão melhorar caso não ocorra mudança de conduta.<br /><br />O escritor assume um olhar minoritário da classe média baixa. Nos romances, desenvolvia a estranheza da normalidade, indo para o lado da corda mais frágil que arrebenta com o tempo e a velhice. <b>Que Enchente me Carrega?</b> (2002) contava as agruras do sapateiro Firmino, perdendo clientela e se tornando uma profissão extinta. Na <b>Teia do Sol</b> (2004), acompanhava o esconderijo de um militante político disfarçado de horticultor no Nordeste, para fugir da repressão militar. Enquanto Salvador de Passos, em <b>Janela Aberta</b> (1984), oferecia a visão adoentada de um desempregado paulista, que não conseguia conter o deslumbramento de consumo de sua filha adolescente.<br /><br />Seus contos prolongam o mesmo mal-estar. Assim é emblemática a demissão de Rita em um dos contos, por não ter sorrido em seu trabalho, cláusula que constava no contrato de admissão. Do mesmo modo, o caminhoneiro, atolado de atrasos e pressão, sensibiliza-se com a brisa e decide que é um argumento suficiente para seguir viagem. A esperança é observada por Menalton Braff como um defeito, por renovar a passividade. Nesse aspecto, o destino do pintor desmemoriado na delegacia será igual ao da Anita, impotente, depois do assédio do padrasto. A consciência não faz diferença nenhuma.<br /><br />O viés político do autor é de ordem estética, não se propõe a fazer propaganda de nada que não seja literatura. É interessante como já criou, em seu décimo livro, marcas estruturais de sua voz e estilo, como os dois pontos, culminando uma descrição com uma imagem poética.<br /><br /><i>"O suor secara por debaixo da camisa: o tempo nunca parara de escorrer."</i><br /><br />Com um vocabulário levemente arcaico, a linguagem tende a um barroco, mas não estiliza o estilhaçamento. Trata-se de um barroco compartimentado em diferentes ritmos. Encontram-se momentos de fluxo de consciência com passadas mais ponderadas. Não é de se esperar um único escritor, há vários escritores brigando dentro de Menalton.<br /><br />Além da coragem crítica de mexer preconceitos, o contista conversa de igual para igual com a tradição literária e revigora referências. Em <i>Os Sapatos do Meu Pai</i>, recria versão feminina de <i>A Terceira Margem de um Rio</i>, de Guimarães Rosa, uma tarefa quase impossível. Traz a obstinada espera de uma vendedora pela volta do pai pródigo, a partir da lembrança do par de calçados. Pode ser recortada para antologias a comovente cena em que o pai finalmente se aproxima e a filha, então, pensa: "Agora não adianta mais, porque agora já sou."<br /><br />Semelhante processo é percebido em <i>De cima do Muro</i>, releitura do <i>Barão nas Árvores</i>, de Italo Calvino. Teodoro abandona a família e passa a morar no muro, como observador privilegiado do tempo e das manias dos vizinhos. Ele não tem ao certo o motivo que o faz estar ali. Espera descobrir o motivo, que não chegará com a morte, porque talvez ele nunca tenha existido. <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b> é poeta e jornalista, autor de <b>O Amor Esquece de Começar</b><br /></title>
<description><![CDATA[ESTADO DE S.PAULO, <a href="http://www.estado.com.br">CADERNO CULTURA</a>, página D5<br /><b>Domingo, 10 setembro de 2006 </b> <br />  <br /><b>CONTRA A ESPERANÇA PASSIVA</b><br />Menalton Braff retorna ao gênero que o premiou com o Jabuti e acentua solidão de personagens <br /><br /><img src="http://www.menalton.com.br/images/capa1.jpg"><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br />Especial para o Estado<br /><br />Menalton Braff já foi outro: Salvador dos Passos. Pseudônimo com que publicou seus dois primeiros livros. Com os contos de <b>À Sombra dos Ciprestes</b>, Prêmio Jabuti 2000 - Livro do Ano Ficção, assumiu seu nome, tão estranho e nórdico como um viking exilado. Que parece mais pseudônimo do que seu pseudônimo anterior. O conto significa sempre ao autor uma guinada. Com os contos, abandonou o pseudônimo em 1999 e se fez conhecido. Depois de três romances, volta ao gênero que o consagrou. E melhor do que nunca - acentuando as possibilidades de narrar, ora expressionista, realista, lírico, no compasso combinado entre denúncia, suavidade e mergulho psicológico.<br /><br />É sobre a perspectiva do outro, que Menalton lança <b>A Coleira no Pescoço</b> (Bertrand Brasil, 160 págs., R$ 25). Transparece uma obsessão em retratar seres solitários. As tramas não se limitam a emitir opiniões, desconfortam como um arroto, algo rude e trancado. Não confortam como um suspiro ou um bocejo. Os habitantes de A Coleira do Pescoço não são seres desajustados, mas personagens que estão tentando ganhar a vida dentro das regras, que se ferram e não buscam compreender o que houve de errado, que não explodem e embrulham as mágoas sociais para comer frias no quarto. Sofrem com a dependência do emprego, a obrigação financeira de sustento, e não se arriscam a pensar diferente, aceitam a brutalidade das relações como um pré-requisito.<br /><br />Vinte narrativas curtas e uma linha harmônica a penetrar em cada história: a solidão incomunicável. Praticamente em todos os contos, sabe-se mais dos personagens por aquilo que pensam do que por aquilo que fazem. São assombrações da palavra. Menalton escreve em terceira pessoa, como se estivesse narrando na primeira pessoa. Grudado na personagem, em tal medida que só enxerga o que a personagem está enxergando. Um crente, Daniel, pretende converter uma puta e se transforma num garoto de programa. Uma noiva acompanha, por fora, a construção da casa que seria dela se não houvesse o rompimento. Uma violoncelista sofre os horrores físicos do ensaio num jogo sexual com o marido. A realidade é curta perto das hipóteses imaginadas pelos protagonistas. Eles se antecipam no sofrimento, para sofrer duas vezes. Menalton faz um anticonto, no sentido de que a história subterrânea sobrepuja a história visível. Não testam os limites, seguem ordens. Seja da família, de Deus, da educação. Se o velho e o cachorro morrem atropelados por viverem amarrados no primeiro texto que confere o título à obra, a maioria das caracterizações da coletânea vive atropelada por se manter amarrada às convicções.<br /><br />Menalton desenha figuras que são vocacionadas ao isolamento. O zelador e o vigia, por exemplos. Presos ao fim por uma coleira invisível, que é a crença que a vida pode dar certo se atenderem os preceitos do serviço.<br /><br />O primeiro desenvolve com o cachorro uma convivência leal e cega, a ponto de humanizar o cachorro e cobrar atitudes. A conseqüência é que ele vira um animal, preocupado em tossir para não atrofiar sons humanos e coloca a amizade com o bicho abaixo de sua sobrevivência profissional. O segundo aceita um emprego, sem nunca conhecer o nome de seu patrão. Em ambos os casos, há uma resignação brutal, um voto inútil no dia seguinte, que as coisas vão melhorar caso não ocorra mudança de conduta.<br /><br />O escritor assume um olhar minoritário da classe média baixa. Nos romances, desenvolvia a estranheza da normalidade, indo para o lado da corda mais frágil que arrebenta com o tempo e a velhice. <b>Que Enchente me Carrega?</b> (2002) contava as agruras do sapateiro Firmino, perdendo clientela e se tornando uma profissão extinta. Na <b>Teia do Sol</b> (2004), acompanhava o esconderijo de um militante político disfarçado de horticultor no Nordeste, para fugir da repressão militar. Enquanto Salvador de Passos, em <b>Janela Aberta</b> (1984), oferecia a visão adoentada de um desempregado paulista, que não conseguia conter o deslumbramento de consumo de sua filha adolescente.<br /><br />Seus contos prolongam o mesmo mal-estar. Assim é emblemática a demissão de Rita em um dos contos, por não ter sorrido em seu trabalho, cláusula que constava no contrato de admissão. Do mesmo modo, o caminhoneiro, atolado de atrasos e pressão, sensibiliza-se com a brisa e decide que é um argumento suficiente para seguir viagem. A esperança é observada por Menalton Braff como um defeito, por renovar a passividade. Nesse aspecto, o destino do pintor desmemoriado na delegacia será igual ao da Anita, impotente, depois do assédio do padrasto. A consciência não faz diferença nenhuma.<br /><br />O viés político do autor é de ordem estética, não se propõe a fazer propaganda de nada que não seja literatura. É interessante como já criou, em seu décimo livro, marcas estruturais de sua voz e estilo, como os dois pontos, culminando uma descrição com uma imagem poética.<br /><br /><i>"O suor secara por debaixo da camisa: o tempo nunca parara de escorrer."</i><br /><br />Com um vocabulário levemente arcaico, a linguagem tende a um barroco, mas não estiliza o estilhaçamento. Trata-se de um barroco compartimentado em diferentes ritmos. Encontram-se momentos de fluxo de consciência com passadas mais ponderadas. Não é de se esperar um único escritor, há vários escritores brigando dentro de Menalton.<br /><br />Além da coragem crítica de mexer preconceitos, o contista conversa de igual para igual com a tradição literária e revigora referências. Em <i>Os Sapatos do Meu Pai</i>, recria versão feminina de <i>A Terceira Margem de um Rio</i>, de Guimarães Rosa, uma tarefa quase impossível. Traz a obstinada espera de uma vendedora pela volta do pai pródigo, a partir da lembrança do par de calçados. Pode ser recortada para antologias a comovente cena em que o pai finalmente se aproxima e a filha, então, pensa: "Agora não adianta mais, porque agora já sou."<br /><br />Semelhante processo é percebido em <i>De cima do Muro</i>, releitura do <i>Barão nas Árvores</i>, de Italo Calvino. Teodoro abandona a família e passa a morar no muro, como observador privilegiado do tempo e das manias dos vizinhos. Ele não tem ao certo o motivo que o faz estar ali. Espera descobrir o motivo, que não chegará com a morte, porque talvez ele nunca tenha existido. <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b> é poeta e jornalista, autor de <b>O Amor Esquece de Começar</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[ESTADO DE S.PAULO, <a href="http://www.estado.com.br">CADERNO CULTURA</a>, página D5<br /><b>Domingo, 10 setembro de 2006 </b> <br />  <br /><b>CONTRA A ESPERANÇA PASSIVA</b><br />Menalton Braff retorna ao gênero que o premiou com o Jabuti e acentua solidão de personagens <br /><br /><img src="http://www.menalton.com.br/images/capa1.jpg"><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br />Especial para o Estado<br /><br />Menalton Braff já foi outro: Salvador dos Passos. Pseudônimo com que publicou seus dois primeiros livros. Com os contos de <b>À Sombra dos Ciprestes</b>, Prêmio Jabuti 2000 - Livro do Ano Ficção, assumiu seu nome, tão estranho e nórdico como um viking exilado. Que parece mais pseudônimo do que seu pseudônimo anterior. O conto significa sempre ao autor uma guinada. Com os contos, abandonou o pseudônimo em 1999 e se fez conhecido. Depois de três romances, volta ao gênero que o consagrou. E melhor do que nunca - acentuando as possibilidades de narrar, ora expressionista, realista, lírico, no compasso combinado entre denúncia, suavidade e mergulho psicológico.<br /><br />É sobre a perspectiva do outro, que Menalton lança <b>A Coleira no Pescoço</b> (Bertrand Brasil, 160 págs., R$ 25). Transparece uma obsessão em retratar seres solitários. As tramas não se limitam a emitir opiniões, desconfortam como um arroto, algo rude e trancado. Não confortam como um suspiro ou um bocejo. Os habitantes de A Coleira do Pescoço não são seres desajustados, mas personagens que estão tentando ganhar a vida dentro das regras, que se ferram e não buscam compreender o que houve de errado, que não explodem e embrulham as mágoas sociais para comer frias no quarto. Sofrem com a dependência do emprego, a obrigação financeira de sustento, e não se arriscam a pensar diferente, aceitam a brutalidade das relações como um pré-requisito.<br /><br />Vinte narrativas curtas e uma linha harmônica a penetrar em cada história: a solidão incomunicável. Praticamente em todos os contos, sabe-se mais dos personagens por aquilo que pensam do que por aquilo que fazem. São assombrações da palavra. Menalton escreve em terceira pessoa, como se estivesse narrando na primeira pessoa. Grudado na personagem, em tal medida que só enxerga o que a personagem está enxergando. Um crente, Daniel, pretende converter uma puta e se transforma num garoto de programa. Uma noiva acompanha, por fora, a construção da casa que seria dela se não houvesse o rompimento. Uma violoncelista sofre os horrores físicos do ensaio num jogo sexual com o marido. A realidade é curta perto das hipóteses imaginadas pelos protagonistas. Eles se antecipam no sofrimento, para sofrer duas vezes. Menalton faz um anticonto, no sentido de que a história subterrânea sobrepuja a história visível. Não testam os limites, seguem ordens. Seja da família, de Deus, da educação. Se o velho e o cachorro morrem atropelados por viverem amarrados no primeiro texto que confere o título à obra, a maioria das caracterizações da coletânea vive atropelada por se manter amarrada às convicções.<br /><br />Menalton desenha figuras que são vocacionadas ao isolamento. O zelador e o vigia, por exemplos. Presos ao fim por uma coleira invisível, que é a crença que a vida pode dar certo se atenderem os preceitos do serviço.<br /><br />O primeiro desenvolve com o cachorro uma convivência leal e cega, a ponto de humanizar o cachorro e cobrar atitudes. A conseqüência é que ele vira um animal, preocupado em tossir para não atrofiar sons humanos e coloca a amizade com o bicho abaixo de sua sobrevivência profissional. O segundo aceita um emprego, sem nunca conhecer o nome de seu patrão. Em ambos os casos, há uma resignação brutal, um voto inútil no dia seguinte, que as coisas vão melhorar caso não ocorra mudança de conduta.<br /><br />O escritor assume um olhar minoritário da classe média baixa. Nos romances, desenvolvia a estranheza da normalidade, indo para o lado da corda mais frágil que arrebenta com o tempo e a velhice. <b>Que Enchente me Carrega?</b> (2002) contava as agruras do sapateiro Firmino, perdendo clientela e se tornando uma profissão extinta. Na <b>Teia do Sol</b> (2004), acompanhava o esconderijo de um militante político disfarçado de horticultor no Nordeste, para fugir da repressão militar. Enquanto Salvador de Passos, em <b>Janela Aberta</b> (1984), oferecia a visão adoentada de um desempregado paulista, que não conseguia conter o deslumbramento de consumo de sua filha adolescente.<br /><br />Seus contos prolongam o mesmo mal-estar. Assim é emblemática a demissão de Rita em um dos contos, por não ter sorrido em seu trabalho, cláusula que constava no contrato de admissão. Do mesmo modo, o caminhoneiro, atolado de atrasos e pressão, sensibiliza-se com a brisa e decide que é um argumento suficiente para seguir viagem. A esperança é observada por Menalton Braff como um defeito, por renovar a passividade. Nesse aspecto, o destino do pintor desmemoriado na delegacia será igual ao da Anita, impotente, depois do assédio do padrasto. A consciência não faz diferença nenhuma.<br /><br />O viés político do autor é de ordem estética, não se propõe a fazer propaganda de nada que não seja literatura. É interessante como já criou, em seu décimo livro, marcas estruturais de sua voz e estilo, como os dois pontos, culminando uma descrição com uma imagem poética.<br /><br /><i>"O suor secara por debaixo da camisa: o tempo nunca parara de escorrer."</i><br /><br />Com um vocabulário levemente arcaico, a linguagem tende a um barroco, mas não estiliza o estilhaçamento. Trata-se de um barroco compartimentado em diferentes ritmos. Encontram-se momentos de fluxo de consciência com passadas mais ponderadas. Não é de se esperar um único escritor, há vários escritores brigando dentro de Menalton.<br /><br />Além da coragem crítica de mexer preconceitos, o contista conversa de igual para igual com a tradição literária e revigora referências. Em <i>Os Sapatos do Meu Pai</i>, recria versão feminina de <i>A Terceira Margem de um Rio</i>, de Guimarães Rosa, uma tarefa quase impossível. Traz a obstinada espera de uma vendedora pela volta do pai pródigo, a partir da lembrança do par de calçados. Pode ser recortada para antologias a comovente cena em que o pai finalmente se aproxima e a filha, então, pensa: "Agora não adianta mais, porque agora já sou."<br /><br />Semelhante processo é percebido em <i>De cima do Muro</i>, releitura do <i>Barão nas Árvores</i>, de Italo Calvino. Teodoro abandona a família e passa a morar no muro, como observador privilegiado do tempo e das manias dos vizinhos. Ele não tem ao certo o motivo que o faz estar ali. Espera descobrir o motivo, que não chegará com a morte, porque talvez ele nunca tenha existido. <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b> é poeta e jornalista, autor de <b>O Amor Esquece de Começar</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38997757</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/10/2006 09:28:16 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O DIALETO DOS AMANTES</b><br />Arte de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artofeurope.com/schiele/sch1.jpg"><br /><br />Eu me iniciei na matemática com palitos de fósforo. A professora começou com feijão. Mas como era escola pública e a fome grande dos alunos, teve que dispensar a primeira alternativa e se contentar em não chamar atenção do estômago, da barriga roncando e da merenda. Até porque os grãos desapareciam rapidamente de cima das classes. <br /><br />Aparecemos com caixinhas para dispensar o uso dos dedos. <br /><br />Na primeira contagem, estava com doze palitos, ela retirou quatro. Perguntou-me com quantos fiquei: <br /><br />- Dezesseis!, respondi eufórico. <br /><br />Ela me observou desapontada. <br /><br />- Não, são oito. <br /><br />Já com a voz recuando, retruquei. <br /><br />- Não, são oito palitos e oito chamas. <br /><br />E risquei os palitos. Foi um fogaréu na minha mesa. <br /><br />Ela me policiou para não acender mais dentro da aula, era perigoso e pediu que refizesse as contas com os palitos apagados.<br /><br />Mantive a minha opinião: <br /><br />- Dezesseis!<br /><br />- Mas agora não tem mais chama, Fabrício!  <br /><br />- Tem a lembrança do fogo. São oito palitos e oito fogos apagados. <br /><br />Por insubordinação, fui para a sala do SOE (Serviço de Orientação ao Estudante). Fiquei a manhã inteira de castigo, lamentando que fui injustiçado. <br /><br />Cada um tinha sua razão. No amor, a mesma incompreensão perdura. Quem está dentro de um relacionamento não é capaz de falar o idioma de quem está enxergando de fora. São ritmos diferentes. É complicado e arriscado entender de maneira prática o que é vivido com poesia.  Cobra-se um comportamento padrão, recusando os pormenores e as particularidades. Como definir que se o homem não liga no dia seguinte da transa, ele não quer nada com ela. O homem pode pensar igual, não?<br /><br />A poesia só cabe aos amantes. Enquanto se é a resposta, não se caça a resposta. <br /><br />Os conhecidos vão procurar a tradução literal, os resultados e a lógica, eliminando a rima, as imagens e as sutilezas. Não encontrarão a beleza transparente e pequena, a carência que se apossou do desejo e não aceita ser arrancada sem explicação e resistência. <br /><br />É simples culpar uma mulher por se aventurar com um homem casado. Mas a gente não tem noção do que eles viveram juntos. Nem eles mesmos. Ou por que nossa melhor amiga não larga aquele cara que aparentemente não presta? O que ele despertou nela? Amor-próprio?  <br /><br />É comum alguém não abandonar uma relação viciada para não desperdiçar todo o sofrimento depositado nela durante anos. Ela pagou à vista o amor com a dor e busca a recompensa de qualquer jeito. Adivinhava o trágico desfecho, mas a fé não suporta ser contrariada. Qual é a graça se de ser uma opinião unânime? <br /><br />De repente, o amante nem sente mais o amor, sente apenas o orgulho do amor.  Orgulho ferido do amor é pior do que o amor - não admite a renúncia e o saldo.  <br /><br />Não somos iniciados no dialeto criado pelos amantes. Por que se entregaram? Tem como evitar em se apaixonar, sim, tem. Mas é preciso evitar em viver também. O preço é muito alto. Não existe pessoa errada, existem circunstâncias erradas. <br /><br />O amor unicamente é pecado para quem se confessa. Não procure entender o quarto pela sala. O quarto pela varanda. <br /><br />Se o fogo acendeu uma vez ele será sempre a lembrança da chama. A matemática é de menos.  Por mais que a conclusão esperada seja a de oito palitos. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O DIALETO DOS AMANTES</b><br />Arte de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artofeurope.com/schiele/sch1.jpg"><br /><br />Eu me iniciei na matemática com palitos de fósforo. A professora começou com feijão. Mas como era escola pública e a fome grande dos alunos, teve que dispensar a primeira alternativa e se contentar em não chamar atenção do estômago, da barriga roncando e da merenda. Até porque os grãos desapareciam rapidamente de cima das classes. <br /><br />Aparecemos com caixinhas para dispensar o uso dos dedos. <br /><br />Na primeira contagem, estava com doze palitos, ela retirou quatro. Perguntou-me com quantos fiquei: <br /><br />- Dezesseis!, respondi eufórico. <br /><br />Ela me observou desapontada. <br /><br />- Não, são oito. <br /><br />Já com a voz recuando, retruquei. <br /><br />- Não, são oito palitos e oito chamas. <br /><br />E risquei os palitos. Foi um fogaréu na minha mesa. <br /><br />Ela me policiou para não acender mais dentro da aula, era perigoso e pediu que refizesse as contas com os palitos apagados.<br /><br />Mantive a minha opinião: <br /><br />- Dezesseis!<br /><br />- Mas agora não tem mais chama, Fabrício!  <br /><br />- Tem a lembrança do fogo. São oito palitos e oito fogos apagados. <br /><br />Por insubordinação, fui para a sala do SOE (Serviço de Orientação ao Estudante). Fiquei a manhã inteira de castigo, lamentando que fui injustiçado. <br /><br />Cada um tinha sua razão. No amor, a mesma incompreensão perdura. Quem está dentro de um relacionamento não é capaz de falar o idioma de quem está enxergando de fora. São ritmos diferentes. É complicado e arriscado entender de maneira prática o que é vivido com poesia.  Cobra-se um comportamento padrão, recusando os pormenores e as particularidades. Como definir que se o homem não liga no dia seguinte da transa, ele não quer nada com ela. O homem pode pensar igual, não?<br /><br />A poesia só cabe aos amantes. Enquanto se é a resposta, não se caça a resposta. <br /><br />Os conhecidos vão procurar a tradução literal, os resultados e a lógica, eliminando a rima, as imagens e as sutilezas. Não encontrarão a beleza transparente e pequena, a carência que se apossou do desejo e não aceita ser arrancada sem explicação e resistência. <br /><br />É simples culpar uma mulher por se aventurar com um homem casado. Mas a gente não tem noção do que eles viveram juntos. Nem eles mesmos. Ou por que nossa melhor amiga não larga aquele cara que aparentemente não presta? O que ele despertou nela? Amor-próprio?  <br /><br />É comum alguém não abandonar uma relação viciada para não desperdiçar todo o sofrimento depositado nela durante anos. Ela pagou à vista o amor com a dor e busca a recompensa de qualquer jeito. Adivinhava o trágico desfecho, mas a fé não suporta ser contrariada. Qual é a graça se de ser uma opinião unânime? <br /><br />De repente, o amante nem sente mais o amor, sente apenas o orgulho do amor.  Orgulho ferido do amor é pior do que o amor - não admite a renúncia e o saldo.  <br /><br />Não somos iniciados no dialeto criado pelos amantes. Por que se entregaram? Tem como evitar em se apaixonar, sim, tem. Mas é preciso evitar em viver também. O preço é muito alto. Não existe pessoa errada, existem circunstâncias erradas. <br /><br />O amor unicamente é pecado para quem se confessa. Não procure entender o quarto pela sala. O quarto pela varanda. <br /><br />Se o fogo acendeu uma vez ele será sempre a lembrança da chama. A matemática é de menos.  Por mais que a conclusão esperada seja a de oito palitos. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O DIALETO DOS AMANTES</b><br />Arte de Egon Schiele<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artofeurope.com/schiele/sch1.jpg"><br /><br />Eu me iniciei na matemática com palitos de fósforo. A professora começou com feijão. Mas como era escola pública e a fome grande dos alunos, teve que dispensar a primeira alternativa e se contentar em não chamar atenção do estômago, da barriga roncando e da merenda. Até porque os grãos desapareciam rapidamente de cima das classes. <br /><br />Aparecemos com caixinhas para dispensar o uso dos dedos. <br /><br />Na primeira contagem, estava com doze palitos, ela retirou quatro. Perguntou-me com quantos fiquei: <br /><br />- Dezesseis!, respondi eufórico. <br /><br />Ela me observou desapontada. <br /><br />- Não, são oito. <br /><br />Já com a voz recuando, retruquei. <br /><br />- Não, são oito palitos e oito chamas. <br /><br />E risquei os palitos. Foi um fogaréu na minha mesa. <br /><br />Ela me policiou para não acender mais dentro da aula, era perigoso e pediu que refizesse as contas com os palitos apagados.<br /><br />Mantive a minha opinião: <br /><br />- Dezesseis!<br /><br />- Mas agora não tem mais chama, Fabrício!  <br /><br />- Tem a lembrança do fogo. São oito palitos e oito fogos apagados. <br /><br />Por insubordinação, fui para a sala do SOE (Serviço de Orientação ao Estudante). Fiquei a manhã inteira de castigo, lamentando que fui injustiçado. <br /><br />Cada um tinha sua razão. No amor, a mesma incompreensão perdura. Quem está dentro de um relacionamento não é capaz de falar o idioma de quem está enxergando de fora. São ritmos diferentes. É complicado e arriscado entender de maneira prática o que é vivido com poesia.  Cobra-se um comportamento padrão, recusando os pormenores e as particularidades. Como definir que se o homem não liga no dia seguinte da transa, ele não quer nada com ela. O homem pode pensar igual, não?<br /><br />A poesia só cabe aos amantes. Enquanto se é a resposta, não se caça a resposta. <br /><br />Os conhecidos vão procurar a tradução literal, os resultados e a lógica, eliminando a rima, as imagens e as sutilezas. Não encontrarão a beleza transparente e pequena, a carência que se apossou do desejo e não aceita ser arrancada sem explicação e resistência. <br /><br />É simples culpar uma mulher por se aventurar com um homem casado. Mas a gente não tem noção do que eles viveram juntos. Nem eles mesmos. Ou por que nossa melhor amiga não larga aquele cara que aparentemente não presta? O que ele despertou nela? Amor-próprio?  <br /><br />É comum alguém não abandonar uma relação viciada para não desperdiçar todo o sofrimento depositado nela durante anos. Ela pagou à vista o amor com a dor e busca a recompensa de qualquer jeito. Adivinhava o trágico desfecho, mas a fé não suporta ser contrariada. Qual é a graça se de ser uma opinião unânime? <br /><br />De repente, o amante nem sente mais o amor, sente apenas o orgulho do amor.  Orgulho ferido do amor é pior do que o amor - não admite a renúncia e o saldo.  <br /><br />Não somos iniciados no dialeto criado pelos amantes. Por que se entregaram? Tem como evitar em se apaixonar, sim, tem. Mas é preciso evitar em viver também. O preço é muito alto. Não existe pessoa errada, existem circunstâncias erradas. <br /><br />O amor unicamente é pecado para quem se confessa. Não procure entender o quarto pela sala. O quarto pela varanda. <br /><br />Se o fogo acendeu uma vez ele será sempre a lembrança da chama. A matemática é de menos.  Por mais que a conclusão esperada seja a de oito palitos. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38995122</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/9/2006 11:19:18 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SEMPRE UM PAPO</b><br /><br /><img src="http://www.sempreumpapo.com.br/x_arqs/4552ac62d45720845ba2cf14dffc8ed0.jpg"><br /><br />Estarei fazendo palestra e autografando <i>"O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR" (Bertrand Brasil)</i> em <b>Curitiba (13/9)</b> e <b>Maringá (14/9)</b>, no Paraná, dentro do tradicional <b>Sempre um Papo</b>. Confira abaixo os locais e horários. Mais informações no site do <a href="http://www.sempreumpapo.com.br/agenda/integra.php?id=159&idCid=4">projeto</a>. <br /> <br /><b>CURITIBA, 13/09, quarta-feira, às 19h30 | Local: Teatro da Caixa Cultural, Rua Conselheiro Laurindo 280, Centro (41) 3321-1950/ 3321-1613 ENTRADA FRANCA </b><br />  <br /><b>MARINGÁ, 14/09, quinta-feira, às 19h30 | Local: Anfiteatro Nupélia da Universidade Estadual de Maringá, à Av. Colombo, 5790, Bloco G90, (44) 3321-2657 ENTRADA FRANCA </b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>SEMPRE UM PAPO</b><br /><br /><img src="http://www.sempreumpapo.com.br/x_arqs/4552ac62d45720845ba2cf14dffc8ed0.jpg"><br /><br />Estarei fazendo palestra e autografando <i>"O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR" (Bertrand Brasil)</i> em <b>Curitiba (13/9)</b> e <b>Maringá (14/9)</b>, no Paraná, dentro do tradicional <b>Sempre um Papo</b>. Confira abaixo os locais e horários. Mais informações no site do <a href="http://www.sempreumpapo.com.br/agenda/integra.php?id=159&idCid=4">projeto</a>. <br /> <br /><b>CURITIBA, 13/09, quarta-feira, às 19h30 | Local: Teatro da Caixa Cultural, Rua Conselheiro Laurindo 280, Centro (41) 3321-1950/ 3321-1613 ENTRADA FRANCA </b><br />  <br /><b>MARINGÁ, 14/09, quinta-feira, às 19h30 | Local: Anfiteatro Nupélia da Universidade Estadual de Maringá, à Av. Colombo, 5790, Bloco G90, (44) 3321-2657 ENTRADA FRANCA </b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SEMPRE UM PAPO</b><br /><br /><img src="http://www.sempreumpapo.com.br/x_arqs/4552ac62d45720845ba2cf14dffc8ed0.jpg"><br /><br />Estarei fazendo palestra e autografando <i>"O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR" (Bertrand Brasil)</i> em <b>Curitiba (13/9)</b> e <b>Maringá (14/9)</b>, no Paraná, dentro do tradicional <b>Sempre um Papo</b>. Confira abaixo os locais e horários. Mais informações no site do <a href="http://www.sempreumpapo.com.br/agenda/integra.php?id=159&idCid=4">projeto</a>. <br /> <br /><b>CURITIBA, 13/09, quarta-feira, às 19h30 | Local: Teatro da Caixa Cultural, Rua Conselheiro Laurindo 280, Centro (41) 3321-1950/ 3321-1613 ENTRADA FRANCA </b><br />  <br /><b>MARINGÁ, 14/09, quinta-feira, às 19h30 | Local: Anfiteatro Nupélia da Universidade Estadual de Maringá, à Av. Colombo, 5790, Bloco G90, (44) 3321-2657 ENTRADA FRANCA </b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38994936</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/9/2006 09:15:05 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>POESIA</b><br /><br />Sou o entrevistado do "<b>Gaveta do Autor</b>", edição setembro. Confira meu bate-papo abaixo e a matéria no <a href="http://gavetadoautor.com/">site</a>. <br /><br /><b>Como oxigenar a poesia, sempre tão asfixiada por clichês e rimas fáceis?</b><br />Mergulhar fundo na linguagem, não se importando se vai faltar ar lá embaixo. Henri Michaux diz que a alma não voa, a alma nada. Concordo com ele. <br />O poeta não pode se sentir dono de uma voz. Ela mais será dele quando mais lhe faltar. O erro é a casa da verdade. Subverter o lugar-comum, sair do jogo, do trocadilho, do jogral. Falar só quando se tem necessidade, quando é impossível adiar. A verdade não é um hábito como a mentira, a verdade rompe hábitos. O poeta é a instabilidade cardíaca. Concorda para discordar logo em seguida. Não conheço nenhum poeta aposentado. Ou se é para trabalhar toda a vida ou nunca foi. <br /><br /><b>O que existe entre um verso e outro?</b><br />O poema perfeito, que não foi lido, porque estava apressado em escrever o meu.<br /><br /><b>Por que o poeta foge da prosa? </b><br />Por educação, para não contaminar. A poesia costuma bagunçar, anarquizar a linguagem. O poeta não sabe escrever sentado. Escreve de pé, para não ser enterrado. Ele quer comunicar de cara o ruído, o espanto, o relâmpago. Ele é ansioso por vocação. Escreve com os ouvidos. Sua audição é de socos. <br /><br /><b>Que tipo de bem fazem prêmios e honrarias aos escritores? </b><br />Cartas dos leitores. Sinceridade e comoção. Conseguir uma tal identificação, que o leitor esquece o meu nome e toma aquilo que foi escrito como seu. Ser esquecido é o maior prêmio que um autor pode alcançar. <br /><br /><b>Que tipo de prazer é o ofício do escrever? </b><br />O de gargalhar. Não o riso cínico, o riso enviesado, o riso contido. Mas o riso que joga o corpo para frente, que nos põe caminhar. Enquanto dois dedos batucam, os outros oito já são platéia. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>POESIA</b><br /><br />Sou o entrevistado do "<b>Gaveta do Autor</b>", edição setembro. Confira meu bate-papo abaixo e a matéria no <a href="http://gavetadoautor.com/">site</a>. <br /><br /><b>Como oxigenar a poesia, sempre tão asfixiada por clichês e rimas fáceis?</b><br />Mergulhar fundo na linguagem, não se importando se vai faltar ar lá embaixo. Henri Michaux diz que a alma não voa, a alma nada. Concordo com ele. <br />O poeta não pode se sentir dono de uma voz. Ela mais será dele quando mais lhe faltar. O erro é a casa da verdade. Subverter o lugar-comum, sair do jogo, do trocadilho, do jogral. Falar só quando se tem necessidade, quando é impossível adiar. A verdade não é um hábito como a mentira, a verdade rompe hábitos. O poeta é a instabilidade cardíaca. Concorda para discordar logo em seguida. Não conheço nenhum poeta aposentado. Ou se é para trabalhar toda a vida ou nunca foi. <br /><br /><b>O que existe entre um verso e outro?</b><br />O poema perfeito, que não foi lido, porque estava apressado em escrever o meu.<br /><br /><b>Por que o poeta foge da prosa? </b><br />Por educação, para não contaminar. A poesia costuma bagunçar, anarquizar a linguagem. O poeta não sabe escrever sentado. Escreve de pé, para não ser enterrado. Ele quer comunicar de cara o ruído, o espanto, o relâmpago. Ele é ansioso por vocação. Escreve com os ouvidos. Sua audição é de socos. <br /><br /><b>Que tipo de bem fazem prêmios e honrarias aos escritores? </b><br />Cartas dos leitores. Sinceridade e comoção. Conseguir uma tal identificação, que o leitor esquece o meu nome e toma aquilo que foi escrito como seu. Ser esquecido é o maior prêmio que um autor pode alcançar. <br /><br /><b>Que tipo de prazer é o ofício do escrever? </b><br />O de gargalhar. Não o riso cínico, o riso enviesado, o riso contido. Mas o riso que joga o corpo para frente, que nos põe caminhar. Enquanto dois dedos batucam, os outros oito já são platéia. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>POESIA</b><br /><br />Sou o entrevistado do "<b>Gaveta do Autor</b>", edição setembro. Confira meu bate-papo abaixo e a matéria no <a href="http://gavetadoautor.com/">site</a>. <br /><br /><b>Como oxigenar a poesia, sempre tão asfixiada por clichês e rimas fáceis?</b><br />Mergulhar fundo na linguagem, não se importando se vai faltar ar lá embaixo. Henri Michaux diz que a alma não voa, a alma nada. Concordo com ele. <br />O poeta não pode se sentir dono de uma voz. Ela mais será dele quando mais lhe faltar. O erro é a casa da verdade. Subverter o lugar-comum, sair do jogo, do trocadilho, do jogral. Falar só quando se tem necessidade, quando é impossível adiar. A verdade não é um hábito como a mentira, a verdade rompe hábitos. O poeta é a instabilidade cardíaca. Concorda para discordar logo em seguida. Não conheço nenhum poeta aposentado. Ou se é para trabalhar toda a vida ou nunca foi. <br /><br /><b>O que existe entre um verso e outro?</b><br />O poema perfeito, que não foi lido, porque estava apressado em escrever o meu.<br /><br /><b>Por que o poeta foge da prosa? </b><br />Por educação, para não contaminar. A poesia costuma bagunçar, anarquizar a linguagem. O poeta não sabe escrever sentado. Escreve de pé, para não ser enterrado. Ele quer comunicar de cara o ruído, o espanto, o relâmpago. Ele é ansioso por vocação. Escreve com os ouvidos. Sua audição é de socos. <br /><br /><b>Que tipo de bem fazem prêmios e honrarias aos escritores? </b><br />Cartas dos leitores. Sinceridade e comoção. Conseguir uma tal identificação, que o leitor esquece o meu nome e toma aquilo que foi escrito como seu. Ser esquecido é o maior prêmio que um autor pode alcançar. <br /><br /><b>Que tipo de prazer é o ofício do escrever? </b><br />O de gargalhar. Não o riso cínico, o riso enviesado, o riso contido. Mas o riso que joga o corpo para frente, que nos põe caminhar. Enquanto dois dedos batucam, os outros oito já são platéia. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38989709</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/7/2006 07:56:12 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UMA CONVERSA DE AMOR COM MINHA FILHA</b><br />Pintura de Mark Gertler<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.davidbearle.com/images/gettingfin.jpg"><br /><br />Vi que minha filha de doze anos estava encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.<br /><br />- O que houve?<br />- Eu não sei o que é amor, respondeu. Eu não sei se te amo, amo minha mãe, amo o mundo. Às vezes amo, outras vezes o amor é somente companhia do amor que aconteceu. <br /><br />Não respondi com pressa. Fui pesquisar em mim. Retirei-me para pescar cigarras nas árvores. <br /><br />Por mais profana a dúvida, ela tem razão. Temos o amor como algo definitivo. Imutável. Uma comoção com início, sem fim. Mas nem sempre sentimos amor por quem amamos, pode ser o conforto do amor que já sentimos. O passado do amor. <br /><br />O amor é nostálgico e se fortalece em desenterrar os ossos. O amor tende a ser lembrança do amor. Melhor seria se fosse presságio do amor. <br /><br />Uma vez dito: eu te amo, a impressão é que o amor tende a crescer e nunca terminar, que ele já fez seu trabalho e agora tem direito a descansar. O amor não tem domingo. Talvez se transforme em uma crença: eu amo aquela pessoa e pronto. Nada é capaz de dissuadir a afirmação do contrário.  Isso é um erro. O amor é contrariar o próprio amor, para afirmá-lo em seguida. Não acaba de seduzir. O amor é seduzir a si mesmo, depois de seduzir alguém. <br /><br />O amor não é uma verdade, muito menos uma mentira. Está se convencendo de que existe. E existir depende de não se convencer. <br /><br />Corresponde a uma descoberta inventada. Descobre-se um sentimento que a gente inventou. Inventar é permitir que cresça a empatia, que a paixão se instale, que faça sentido, que até se aborreça de não ter chegado antes. No amor, ninguém entra sem pedir licença. Ninguém entra sem a concordância do outro, ainda que involuntária. Ninguém entra sem um "amém", um "obrigado", um "estava esperando", uma saudade, um aceno, uma necessidade. <br /><br />Mas amar é justamente não ter certeza. Não encerrar o assunto. Ama-se aos bocados, não ama-se como um pacote turístico, com passagens, hotéis e passeios orientados. Amor é sofrer a inexistência do amor. Combater com mais amor o que está se esgotando. Amor é reconhecer a possível ausência do amor em alguma hora e recomeçar. É identificar a condição de já ter sido mais forte e remar violento com a boca em direção ao fundo. Nadar na alegria do desespero. <br /><br />Houve dias que minha filha não me amou. Houve dias que minha mulher não me amou. Houve dias em que eu não amei. Mas houve dias em que minha mulher me amou em dobro, que minha filha me amou em dobro, que eu amei como se não houvesse um entardecer do braço. <br /><br />Antes de dormir, apareci para minha filha e conclui: <br /><br />- Amar é não parar de perguntar.<br /><br />Ela virou o rosto para o travesseiro, enfiou o pescoço na coberta e me confidenciou:<br /><br />- Então, eu te amo pai, mas não espalha.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA CONVERSA DE AMOR COM MINHA FILHA</b><br />Pintura de Mark Gertler<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.davidbearle.com/images/gettingfin.jpg"><br /><br />Vi que minha filha de doze anos estava encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.<br /><br />- O que houve?<br />- Eu não sei o que é amor, respondeu. Eu não sei se te amo, amo minha mãe, amo o mundo. Às vezes amo, outras vezes o amor é somente companhia do amor que aconteceu. <br /><br />Não respondi com pressa. Fui pesquisar em mim. Retirei-me para pescar cigarras nas árvores. <br /><br />Por mais profana a dúvida, ela tem razão. Temos o amor como algo definitivo. Imutável. Uma comoção com início, sem fim. Mas nem sempre sentimos amor por quem amamos, pode ser o conforto do amor que já sentimos. O passado do amor. <br /><br />O amor é nostálgico e se fortalece em desenterrar os ossos. O amor tende a ser lembrança do amor. Melhor seria se fosse presságio do amor. <br /><br />Uma vez dito: eu te amo, a impressão é que o amor tende a crescer e nunca terminar, que ele já fez seu trabalho e agora tem direito a descansar. O amor não tem domingo. Talvez se transforme em uma crença: eu amo aquela pessoa e pronto. Nada é capaz de dissuadir a afirmação do contrário.  Isso é um erro. O amor é contrariar o próprio amor, para afirmá-lo em seguida. Não acaba de seduzir. O amor é seduzir a si mesmo, depois de seduzir alguém. <br /><br />O amor não é uma verdade, muito menos uma mentira. Está se convencendo de que existe. E existir depende de não se convencer. <br /><br />Corresponde a uma descoberta inventada. Descobre-se um sentimento que a gente inventou. Inventar é permitir que cresça a empatia, que a paixão se instale, que faça sentido, que até se aborreça de não ter chegado antes. No amor, ninguém entra sem pedir licença. Ninguém entra sem a concordância do outro, ainda que involuntária. Ninguém entra sem um "amém", um "obrigado", um "estava esperando", uma saudade, um aceno, uma necessidade. <br /><br />Mas amar é justamente não ter certeza. Não encerrar o assunto. Ama-se aos bocados, não ama-se como um pacote turístico, com passagens, hotéis e passeios orientados. Amor é sofrer a inexistência do amor. Combater com mais amor o que está se esgotando. Amor é reconhecer a possível ausência do amor em alguma hora e recomeçar. É identificar a condição de já ter sido mais forte e remar violento com a boca em direção ao fundo. Nadar na alegria do desespero. <br /><br />Houve dias que minha filha não me amou. Houve dias que minha mulher não me amou. Houve dias em que eu não amei. Mas houve dias em que minha mulher me amou em dobro, que minha filha me amou em dobro, que eu amei como se não houvesse um entardecer do braço. <br /><br />Antes de dormir, apareci para minha filha e conclui: <br /><br />- Amar é não parar de perguntar.<br /><br />Ela virou o rosto para o travesseiro, enfiou o pescoço na coberta e me confidenciou:<br /><br />- Então, eu te amo pai, mas não espalha.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA CONVERSA DE AMOR COM MINHA FILHA</b><br />Pintura de Mark Gertler<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.davidbearle.com/images/gettingfin.jpg"><br /><br />Vi que minha filha de doze anos estava encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.<br /><br />- O que houve?<br />- Eu não sei o que é amor, respondeu. Eu não sei se te amo, amo minha mãe, amo o mundo. Às vezes amo, outras vezes o amor é somente companhia do amor que aconteceu. <br /><br />Não respondi com pressa. Fui pesquisar em mim. Retirei-me para pescar cigarras nas árvores. <br /><br />Por mais profana a dúvida, ela tem razão. Temos o amor como algo definitivo. Imutável. Uma comoção com início, sem fim. Mas nem sempre sentimos amor por quem amamos, pode ser o conforto do amor que já sentimos. O passado do amor. <br /><br />O amor é nostálgico e se fortalece em desenterrar os ossos. O amor tende a ser lembrança do amor. Melhor seria se fosse presságio do amor. <br /><br />Uma vez dito: eu te amo, a impressão é que o amor tende a crescer e nunca terminar, que ele já fez seu trabalho e agora tem direito a descansar. O amor não tem domingo. Talvez se transforme em uma crença: eu amo aquela pessoa e pronto. Nada é capaz de dissuadir a afirmação do contrário.  Isso é um erro. O amor é contrariar o próprio amor, para afirmá-lo em seguida. Não acaba de seduzir. O amor é seduzir a si mesmo, depois de seduzir alguém. <br /><br />O amor não é uma verdade, muito menos uma mentira. Está se convencendo de que existe. E existir depende de não se convencer. <br /><br />Corresponde a uma descoberta inventada. Descobre-se um sentimento que a gente inventou. Inventar é permitir que cresça a empatia, que a paixão se instale, que faça sentido, que até se aborreça de não ter chegado antes. No amor, ninguém entra sem pedir licença. Ninguém entra sem a concordância do outro, ainda que involuntária. Ninguém entra sem um "amém", um "obrigado", um "estava esperando", uma saudade, um aceno, uma necessidade. <br /><br />Mas amar é justamente não ter certeza. Não encerrar o assunto. Ama-se aos bocados, não ama-se como um pacote turístico, com passagens, hotéis e passeios orientados. Amor é sofrer a inexistência do amor. Combater com mais amor o que está se esgotando. Amor é reconhecer a possível ausência do amor em alguma hora e recomeçar. É identificar a condição de já ter sido mais forte e remar violento com a boca em direção ao fundo. Nadar na alegria do desespero. <br /><br />Houve dias que minha filha não me amou. Houve dias que minha mulher não me amou. Houve dias em que eu não amei. Mas houve dias em que minha mulher me amou em dobro, que minha filha me amou em dobro, que eu amei como se não houvesse um entardecer do braço. <br /><br />Antes de dormir, apareci para minha filha e conclui: <br /><br />- Amar é não parar de perguntar.<br /><br />Ela virou o rosto para o travesseiro, enfiou o pescoço na coberta e me confidenciou:<br /><br />- Então, eu te amo pai, mas não espalha.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38984850</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/6/2006 09:43:52 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>MEU MEDO DA VELHA</b><br />Arte de Picasso<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos12.flickr.com/18948923_232c7b8c9f.jpg"><br /><br /><br />Eu só jogava futebol. Ou pegava frutas, mas depois de jogar futebol. O futebol era o início e o fim de meu dia. O resto ocupava em imaginar meus gols. <br /><br />Quando criança, o terror consistia em chutar a bola na casa da vizinha. O meu pátio tinha uma ligação com o pátio dela. Uma cerquinha não dava conta. Na decisão da partida, a bola escapulia. Na primeira vez que fui pedir, ela já ralhou: "não devolvo, é meu terreno". Foi apelidada para sempre de Velha. A Velha. Nem sequer cogitei perguntar o nome. Eu pergunto o nome de quem guardo esperança.  <br /><br />Eu e os irmãos começamos a criar estratégias de guerra, como descida do telhado, segurar as pernas do outro de cabeça para baixo e se fingir de mendigo ("Tem pão velho?") no interfone para distrair sua atenção. O jogo ganhava entusiasmo. Mas ela comprou um doberman, que dificultou os resgates. Além de zelar com latidos histéricos, o cachorro mostrava uma tara incomum pelas bolas (será que foi treinado?). Era obsceno: ele lambia as bolas. Com toda a conotação sexual que pode existir. Lambia a bola, como um filhote. Levava a bola como se fosse um boneco inflável. Roubamos da geladeira a chuleta de domingo. A mãe culpou depois a empregada (desculpa, Aurélia, foi a gente). Arremessei o alimento do portão enquanto os manos pulavam a cerca por detrás. Funcionou, mas não tinha como furtar a carne todo dia.  <br /><br />O doberman careceu de patas para guardar tantas esferas. E foi assim que definimos nossa vida: caso caísse na Velha, o brinquedo era morto. <br /><br />Não imaginava que o trauma fosse se repetir comigo aos 33 anos. Jogo futebol com o Vicente no terraço. Antes, seu chute não ultrapassava a altura da cerca. Garantia de diversão. Porém, ele ganhou força na perna e lança agora a bola longe, para os telhados das casas embaixo. Foram quatro bolas para o telhado da vizinha, com o barulho estridente de ovo. <br /><br />Gritei para meu filho: "abaixe-se! Para ela não enxergar". Expliquei que ela não devolveria, que estávamos colocando sua casa em risco, poderíamos quebrar alguma vidraça. <br /><br />Ele se calou, assustado, o susto é a compreensão de um menino de quatro anos.  <br /><br />Sobraram três bolas. <br /><br />Não tocamos mais no assunto e tentávamos nos controlar. Até que meu filho inventou de dizer ter sonhado que recuperou todas as bolas, que recebeu uma sacola com elas e citava uma por uma, o tipo, a cor, o peso. Não reprimia a árvore dos cílios. <br /><br />"Sonho se realiza, pai?"<br /><br />Fui para o trabalho incomodado. Como comprar todas as bolas parecidas com as dele? Não havia jeito. Adquiri em diferentes lugares.<br /><br />Decidi, com o medo ancestral da Velha que estava introjetada em mim, bater na casa da vizinha. Apertei o interfone, esperei um pouco, quando completava a meia-volta, uma voz feminina replicou: "quem é?". <br /><br />Avisei que era o vizinho do terraço. <br /><br />- O Fabrício?<br /><br />- Sim (ela sabia meu nome). <br /><br />- Só um minutinho. <br /><br />O minutinho demorou um corredor de hospital. <br /><br />Ela abriu a porta com um riso. Pensei que fosse sádico, não era. De ternura severa. <br /><br />- Queres as bolas? <br /><br />- É que meu filho sonhou que conseguiu de volta. <br /><br />Logo em seguida, ela veio com uma sacola de oito bolas. <br /><br />- Toma todas que caíram aqui, podes vir sempre. E manda um beijo para teu menino. Sou professora e o que alegra os pés alegra as mãos. <br /><br />O nome dela é Dorinha. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>MEU MEDO DA VELHA</b><br />Arte de Picasso<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos12.flickr.com/18948923_232c7b8c9f.jpg"><br /><br /><br />Eu só jogava futebol. Ou pegava frutas, mas depois de jogar futebol. O futebol era o início e o fim de meu dia. O resto ocupava em imaginar meus gols. <br /><br />Quando criança, o terror consistia em chutar a bola na casa da vizinha. O meu pátio tinha uma ligação com o pátio dela. Uma cerquinha não dava conta. Na decisão da partida, a bola escapulia. Na primeira vez que fui pedir, ela já ralhou: "não devolvo, é meu terreno". Foi apelidada para sempre de Velha. A Velha. Nem sequer cogitei perguntar o nome. Eu pergunto o nome de quem guardo esperança.  <br /><br />Eu e os irmãos começamos a criar estratégias de guerra, como descida do telhado, segurar as pernas do outro de cabeça para baixo e se fingir de mendigo ("Tem pão velho?") no interfone para distrair sua atenção. O jogo ganhava entusiasmo. Mas ela comprou um doberman, que dificultou os resgates. Além de zelar com latidos histéricos, o cachorro mostrava uma tara incomum pelas bolas (será que foi treinado?). Era obsceno: ele lambia as bolas. Com toda a conotação sexual que pode existir. Lambia a bola, como um filhote. Levava a bola como se fosse um boneco inflável. Roubamos da geladeira a chuleta de domingo. A mãe culpou depois a empregada (desculpa, Aurélia, foi a gente). Arremessei o alimento do portão enquanto os manos pulavam a cerca por detrás. Funcionou, mas não tinha como furtar a carne todo dia.  <br /><br />O doberman careceu de patas para guardar tantas esferas. E foi assim que definimos nossa vida: caso caísse na Velha, o brinquedo era morto. <br /><br />Não imaginava que o trauma fosse se repetir comigo aos 33 anos. Jogo futebol com o Vicente no terraço. Antes, seu chute não ultrapassava a altura da cerca. Garantia de diversão. Porém, ele ganhou força na perna e lança agora a bola longe, para os telhados das casas embaixo. Foram quatro bolas para o telhado da vizinha, com o barulho estridente de ovo. <br /><br />Gritei para meu filho: "abaixe-se! Para ela não enxergar". Expliquei que ela não devolveria, que estávamos colocando sua casa em risco, poderíamos quebrar alguma vidraça. <br /><br />Ele se calou, assustado, o susto é a compreensão de um menino de quatro anos.  <br /><br />Sobraram três bolas. <br /><br />Não tocamos mais no assunto e tentávamos nos controlar. Até que meu filho inventou de dizer ter sonhado que recuperou todas as bolas, que recebeu uma sacola com elas e citava uma por uma, o tipo, a cor, o peso. Não reprimia a árvore dos cílios. <br /><br />"Sonho se realiza, pai?"<br /><br />Fui para o trabalho incomodado. Como comprar todas as bolas parecidas com as dele? Não havia jeito. Adquiri em diferentes lugares.<br /><br />Decidi, com o medo ancestral da Velha que estava introjetada em mim, bater na casa da vizinha. Apertei o interfone, esperei um pouco, quando completava a meia-volta, uma voz feminina replicou: "quem é?". <br /><br />Avisei que era o vizinho do terraço. <br /><br />- O Fabrício?<br /><br />- Sim (ela sabia meu nome). <br /><br />- Só um minutinho. <br /><br />O minutinho demorou um corredor de hospital. <br /><br />Ela abriu a porta com um riso. Pensei que fosse sádico, não era. De ternura severa. <br /><br />- Queres as bolas? <br /><br />- É que meu filho sonhou que conseguiu de volta. <br /><br />Logo em seguida, ela veio com uma sacola de oito bolas. <br /><br />- Toma todas que caíram aqui, podes vir sempre. E manda um beijo para teu menino. Sou professora e o que alegra os pés alegra as mãos. <br /><br />O nome dela é Dorinha. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>MEU MEDO DA VELHA</b><br />Arte de Picasso<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://photos12.flickr.com/18948923_232c7b8c9f.jpg"><br /><br /><br />Eu só jogava futebol. Ou pegava frutas, mas depois de jogar futebol. O futebol era o início e o fim de meu dia. O resto ocupava em imaginar meus gols. <br /><br />Quando criança, o terror consistia em chutar a bola na casa da vizinha. O meu pátio tinha uma ligação com o pátio dela. Uma cerquinha não dava conta. Na decisão da partida, a bola escapulia. Na primeira vez que fui pedir, ela já ralhou: "não devolvo, é meu terreno". Foi apelidada para sempre de Velha. A Velha. Nem sequer cogitei perguntar o nome. Eu pergunto o nome de quem guardo esperança.  <br /><br />Eu e os irmãos começamos a criar estratégias de guerra, como descida do telhado, segurar as pernas do outro de cabeça para baixo e se fingir de mendigo ("Tem pão velho?") no interfone para distrair sua atenção. O jogo ganhava entusiasmo. Mas ela comprou um doberman, que dificultou os resgates. Além de zelar com latidos histéricos, o cachorro mostrava uma tara incomum pelas bolas (será que foi treinado?). Era obsceno: ele lambia as bolas. Com toda a conotação sexual que pode existir. Lambia a bola, como um filhote. Levava a bola como se fosse um boneco inflável. Roubamos da geladeira a chuleta de domingo. A mãe culpou depois a empregada (desculpa, Aurélia, foi a gente). Arremessei o alimento do portão enquanto os manos pulavam a cerca por detrás. Funcionou, mas não tinha como furtar a carne todo dia.  <br /><br />O doberman careceu de patas para guardar tantas esferas. E foi assim que definimos nossa vida: caso caísse na Velha, o brinquedo era morto. <br /><br />Não imaginava que o trauma fosse se repetir comigo aos 33 anos. Jogo futebol com o Vicente no terraço. Antes, seu chute não ultrapassava a altura da cerca. Garantia de diversão. Porém, ele ganhou força na perna e lança agora a bola longe, para os telhados das casas embaixo. Foram quatro bolas para o telhado da vizinha, com o barulho estridente de ovo. <br /><br />Gritei para meu filho: "abaixe-se! Para ela não enxergar". Expliquei que ela não devolveria, que estávamos colocando sua casa em risco, poderíamos quebrar alguma vidraça. <br /><br />Ele se calou, assustado, o susto é a compreensão de um menino de quatro anos.  <br /><br />Sobraram três bolas. <br /><br />Não tocamos mais no assunto e tentávamos nos controlar. Até que meu filho inventou de dizer ter sonhado que recuperou todas as bolas, que recebeu uma sacola com elas e citava uma por uma, o tipo, a cor, o peso. Não reprimia a árvore dos cílios. <br /><br />"Sonho se realiza, pai?"<br /><br />Fui para o trabalho incomodado. Como comprar todas as bolas parecidas com as dele? Não havia jeito. Adquiri em diferentes lugares.<br /><br />Decidi, com o medo ancestral da Velha que estava introjetada em mim, bater na casa da vizinha. Apertei o interfone, esperei um pouco, quando completava a meia-volta, uma voz feminina replicou: "quem é?". <br /><br />Avisei que era o vizinho do terraço. <br /><br />- O Fabrício?<br /><br />- Sim (ela sabia meu nome). <br /><br />- Só um minutinho. <br /><br />O minutinho demorou um corredor de hospital. <br /><br />Ela abriu a porta com um riso. Pensei que fosse sádico, não era. De ternura severa. <br /><br />- Queres as bolas? <br /><br />- É que meu filho sonhou que conseguiu de volta. <br /><br />Logo em seguida, ela veio com uma sacola de oito bolas. <br /><br />- Toma todas que caíram aqui, podes vir sempre. E manda um beijo para teu menino. Sou professora e o que alegra os pés alegra as mãos. <br /><br />O nome dela é Dorinha. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38978412</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/4/2006 08:50:38 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CERTINHA DEMAIS?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Imagem de Man Ray<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_162936.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.people.virginia.edu/~tpf2e/Man%20Ray%20-%20Tears.jpg"><br /><br /><i>"Sr. Fabrício Carpinejar,<br /><br />Eu passei minha vida inteira tentando ajudar a todas as pessoas que amo. Tive relacionamentos, inclusive um noivado, que acabaram porque a pessoa acabava me achando 'certinha demais'. Até hoje não entendi exatamente o que isto significa.<br /><br />Eu tenho certos modos peculiares de ver a vida, mas jamais impus isto a qualquer pessoa.<br /><br />Certa vez um amigo me disse que quando convivemos com alguém muito bom, nos sentimos mal por não sermos tão bons e evitamos essa pessoa. Se isso é verdade, eu não sei... Só sei que todos me acham muito boa, e é fato que eu estou sempre sozinha. <br /><br />Homens se apaixonam por mim e somem da noite pro dia (e isto não é uma figura de linguagem, eles somem da noite pro dia mesmo). Outros dizem que me adoram, que sempre vão gostar de mim, mas que eu sou certinha demais.<br /><br />Nunca demonstro pra ninguém minha tristeza, mas choro todas as noites, sinto-me sozinha. A impressão que tenho é que eu não consigo encontrar alguém pra mim. Vejo ex-namorados ou moços que já gostaram de mim felizes com outras meninas, fico feliz por eles, mas morro por dentro, porque eu nunca tive isso de verdade.<br /><br />Por favor, me mande algumas palavras porque assim, de certa forma, eu vou sentir que alguém se importa.<br /><br />Obrigada, Isabel"</i><br /><br /><br />Olá, Isabel<br /><br />Vejo que é vítima do medo. Isso. Vítima do medo. O medo mata você. Não assume o comando de sua expectativa. Está buscando mais a aprovação do que o relacionamento. Ainda não tem certeza do que deseja porque está sempre procurando atender o que os outros desejam. Sente-se culpada por aquilo que não viveu e compara sua vida com a dos outros. Depois se sente culpada pela inveja e o caminho de volta se torna mais difícil. Nada é bom o suficiente. E o tempo passa, e fica condicionada a uma idade para um amor. <br /><br />Sua vida é incomparável, nem deveria pensar nisso. <br /><br />O amigo disse que os homens se afastam porque se apequenam diante de uma pessoa boa. Acredito que o ressentimento parte de você, por ser justamente uma pessoa boa. Talvez inspire relacionamentos duradouros enquanto eles só querem aventura. Ou não encontrou alguém que passe pelo mesmo problema e seja capaz de seduzir com paciência. Problema, aliás, que eu gostaria de ter. O nome dessa moléstia é sinceridade. Deve se apaixonar logo pelos seus olhos antes que fiquem desidratados.<br /><br />É certinha? Não identifico mal nisso. Agora temos que ser loucos, desviados, agressivos, perturbados para mostrar que amamos com vontade? Não, amar com violência pode ocorrer dentro das regras. Não é exclusividade do transgressor. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CERTINHA DEMAIS?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Imagem de Man Ray<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_162936.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.people.virginia.edu/~tpf2e/Man%20Ray%20-%20Tears.jpg"><br /><br /><i>"Sr. Fabrício Carpinejar,<br /><br />Eu passei minha vida inteira tentando ajudar a todas as pessoas que amo. Tive relacionamentos, inclusive um noivado, que acabaram porque a pessoa acabava me achando 'certinha demais'. Até hoje não entendi exatamente o que isto significa.<br /><br />Eu tenho certos modos peculiares de ver a vida, mas jamais impus isto a qualquer pessoa.<br /><br />Certa vez um amigo me disse que quando convivemos com alguém muito bom, nos sentimos mal por não sermos tão bons e evitamos essa pessoa. Se isso é verdade, eu não sei... Só sei que todos me acham muito boa, e é fato que eu estou sempre sozinha. <br /><br />Homens se apaixonam por mim e somem da noite pro dia (e isto não é uma figura de linguagem, eles somem da noite pro dia mesmo). Outros dizem que me adoram, que sempre vão gostar de mim, mas que eu sou certinha demais.<br /><br />Nunca demonstro pra ninguém minha tristeza, mas choro todas as noites, sinto-me sozinha. A impressão que tenho é que eu não consigo encontrar alguém pra mim. Vejo ex-namorados ou moços que já gostaram de mim felizes com outras meninas, fico feliz por eles, mas morro por dentro, porque eu nunca tive isso de verdade.<br /><br />Por favor, me mande algumas palavras porque assim, de certa forma, eu vou sentir que alguém se importa.<br /><br />Obrigada, Isabel"</i><br /><br /><br />Olá, Isabel<br /><br />Vejo que é vítima do medo. Isso. Vítima do medo. O medo mata você. Não assume o comando de sua expectativa. Está buscando mais a aprovação do que o relacionamento. Ainda não tem certeza do que deseja porque está sempre procurando atender o que os outros desejam. Sente-se culpada por aquilo que não viveu e compara sua vida com a dos outros. Depois se sente culpada pela inveja e o caminho de volta se torna mais difícil. Nada é bom o suficiente. E o tempo passa, e fica condicionada a uma idade para um amor. <br /><br />Sua vida é incomparável, nem deveria pensar nisso. <br /><br />O amigo disse que os homens se afastam porque se apequenam diante de uma pessoa boa. Acredito que o ressentimento parte de você, por ser justamente uma pessoa boa. Talvez inspire relacionamentos duradouros enquanto eles só querem aventura. Ou não encontrou alguém que passe pelo mesmo problema e seja capaz de seduzir com paciência. Problema, aliás, que eu gostaria de ter. O nome dessa moléstia é sinceridade. Deve se apaixonar logo pelos seus olhos antes que fiquem desidratados.<br /><br />É certinha? Não identifico mal nisso. Agora temos que ser loucos, desviados, agressivos, perturbados para mostrar que amamos com vontade? Não, amar com violência pode ocorrer dentro das regras. Não é exclusividade do transgressor. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CERTINHA DEMAIS?</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Imagem de Man Ray<br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_162936.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.people.virginia.edu/~tpf2e/Man%20Ray%20-%20Tears.jpg"><br /><br /><i>"Sr. Fabrício Carpinejar,<br /><br />Eu passei minha vida inteira tentando ajudar a todas as pessoas que amo. Tive relacionamentos, inclusive um noivado, que acabaram porque a pessoa acabava me achando 'certinha demais'. Até hoje não entendi exatamente o que isto significa.<br /><br />Eu tenho certos modos peculiares de ver a vida, mas jamais impus isto a qualquer pessoa.<br /><br />Certa vez um amigo me disse que quando convivemos com alguém muito bom, nos sentimos mal por não sermos tão bons e evitamos essa pessoa. Se isso é verdade, eu não sei... Só sei que todos me acham muito boa, e é fato que eu estou sempre sozinha. <br /><br />Homens se apaixonam por mim e somem da noite pro dia (e isto não é uma figura de linguagem, eles somem da noite pro dia mesmo). Outros dizem que me adoram, que sempre vão gostar de mim, mas que eu sou certinha demais.<br /><br />Nunca demonstro pra ninguém minha tristeza, mas choro todas as noites, sinto-me sozinha. A impressão que tenho é que eu não consigo encontrar alguém pra mim. Vejo ex-namorados ou moços que já gostaram de mim felizes com outras meninas, fico feliz por eles, mas morro por dentro, porque eu nunca tive isso de verdade.<br /><br />Por favor, me mande algumas palavras porque assim, de certa forma, eu vou sentir que alguém se importa.<br /><br />Obrigada, Isabel"</i><br /><br /><br />Olá, Isabel<br /><br />Vejo que é vítima do medo. Isso. Vítima do medo. O medo mata você. Não assume o comando de sua expectativa. Está buscando mais a aprovação do que o relacionamento. Ainda não tem certeza do que deseja porque está sempre procurando atender o que os outros desejam. Sente-se culpada por aquilo que não viveu e compara sua vida com a dos outros. Depois se sente culpada pela inveja e o caminho de volta se torna mais difícil. Nada é bom o suficiente. E o tempo passa, e fica condicionada a uma idade para um amor. <br /><br />Sua vida é incomparável, nem deveria pensar nisso. <br /><br />O amigo disse que os homens se afastam porque se apequenam diante de uma pessoa boa. Acredito que o ressentimento parte de você, por ser justamente uma pessoa boa. Talvez inspire relacionamentos duradouros enquanto eles só querem aventura. Ou não encontrou alguém que passe pelo mesmo problema e seja capaz de seduzir com paciência. Problema, aliás, que eu gostaria de ter. O nome dessa moléstia é sinceridade. Deve se apaixonar logo pelos seus olhos antes que fiquem desidratados.<br /><br />É certinha? Não identifico mal nisso. Agora temos que ser loucos, desviados, agressivos, perturbados para mostrar que amamos com vontade? Não, amar com violência pode ocorrer dentro das regras. Não é exclusividade do transgressor. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html#38974195</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_09_01_archive.html</link>
<pubDate>9/2/2006 10:46:25 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NADA MAIS BONITO DO QUE UM CASAL ADMIRANDO-SE</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://xroads.virginia.edu/~HYPER/SADLIER/IMAGES/chagall.gif"><br /><br />Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama.  Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir. <br /><br />Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>NADA MAIS BONITO DO QUE UM CASAL ADMIRANDO-SE</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://xroads.virginia.edu/~HYPER/SADLIER/IMAGES/chagall.gif"><br /><br />Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama.  Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir. <br /><br />Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NADA MAIS BONITO DO QUE UM CASAL ADMIRANDO-SE</b><br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://xroads.virginia.edu/~HYPER/SADLIER/IMAGES/chagall.gif"><br /><br />Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama.  Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir. <br /><br />Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38965183</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/31/2006 10:15:41 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FRANK JORGE</b><br /><br /><b>Infelizmente, Frank Jorge deixou a Secretaria de Cultura de São Leopoldo. Escrevi uma carta para o prefeito Ary José Vanazzi. Reproduzo:</b><br /><br /><b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO OU SR. VANAZZI</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Meu caro prefeito Ary José Vanazzi: não posso me omitir e não me espantar com a falta de ambição na cultura. Ambição não é ruim caso não vire arrogância, caso não vire prepotência, caso não vire a vontade de decidir sozinho. <br /><br />O sr. abriu a primeira Secretaria de Cultura do município, o que, convenhamos, mostra sua boa intenção. Mas ela tem somente atuado como um departamento, mantendo o que já existia nas administrações anteriores. Ainda giramos em torno dos mesmos encontros: São Leopoldo Fest, Carnaval e Feira do Livro. Sei que não deve ficar feliz em ser comparado com a administração anterior nesta área, porém, é inevitável. Onde anda toda a experiência adquirida com sucesso pela Administração Popular de Porto Alegre? Onde andam os projetos alternativos, prêmios de incentivo à leitura, captação de projetos junto ao governo federal? Onde anda a arte e a intelectualidade que iriam revolucionar a mentalidade administrativa, recuperar o prédio da Biblioteca Pública, criar um teatro e uma casa com oficinas? Transcorreram dois anos e não localizei.<br /><br />Lamento que toda individualidade que surja dentro da Secretaria esteja saindo. Foram mais de dez funcionários que largaram o barco. Alguma coisa está errada. A desculpa dos demissionários é recorrente: incompatibilidade com a direção. <br /><br />Ou a cultura não é um trabalho em equipe? Não posso culpar o sr., sei que tem feito uma excelente administração em outros setores. Por exemplo, finalmente meu filho tem uma praça de brinquedos. Estou falando da cultura. A cultura ainda é uma peça decorativa. Parece feita para o secretário aparecer em fotos nos jornais. <br /><br />O sr. deve saber que Frank Jorge largou a Secretaria, exercia o cargo de diretor. Iniciava a descentralização cultural, a partir das muambas e grandes eventos. Não senti nenhuma resistência a sua saída. Se não o conhece, um dia deve ter cantado "Amigo Punk" involuntariamente em seu carro. Além de um grande músico e poeta, Frank Jorge é um mobilizador da cena urbana, criativo e incansável, segurava a produção dos eventos, refinou a programação artística, ampliou o espaço de debates. Ele ansiava ficar: ama São Leopoldo como quem nasce pela segunda vez. Alegou divergências com o modo de condução da gestão cultural. É o momento de parar e perguntar: quais as divergências? Queria descobrir. Pode me dizer?<br /><br />Frank Jorge já coordenou a Usina do Gasômetro, montou festivais, dirigiu e apresentou o programa Radar da TVE, impulsionou o Sarau Elétrico na capital. Não é uma figurinha difícil de conviver. Pelo contrário, amável, generoso e sério. Escolheu a discrição enquanto o secretário tomava para si a glória. <br /><br />Desejo dizer, sem medo e afetação, ele é e sempre será meu secretário de Cultura. Nunca precisará fazer um abaixo-assinado para mostrar sua importância. Não precisará ter um CC 6 ou bonificações para ser respeitado. Ele não depende de mim ou do senhor para ser lembrado. <br /><br />Chego até aqui para repetir que a ambição não é ruim quando não é pessoal ou carreirista. A ambição de Frank Jorge é pela cultura. Uma ambição pela diversidade. E não posso aceitar que tudo está bem se ele não está mais conosco. <br /><br />Faço um pedido: não mantenha seus secretários pela amizade. Mantenha seus secretários pela competência. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>FRANK JORGE</b><br /><br /><b>Infelizmente, Frank Jorge deixou a Secretaria de Cultura de São Leopoldo. Escrevi uma carta para o prefeito Ary José Vanazzi. Reproduzo:</b><br /><br /><b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO OU SR. VANAZZI</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Meu caro prefeito Ary José Vanazzi: não posso me omitir e não me espantar com a falta de ambição na cultura. Ambição não é ruim caso não vire arrogância, caso não vire prepotência, caso não vire a vontade de decidir sozinho. <br /><br />O sr. abriu a primeira Secretaria de Cultura do município, o que, convenhamos, mostra sua boa intenção. Mas ela tem somente atuado como um departamento, mantendo o que já existia nas administrações anteriores. Ainda giramos em torno dos mesmos encontros: São Leopoldo Fest, Carnaval e Feira do Livro. Sei que não deve ficar feliz em ser comparado com a administração anterior nesta área, porém, é inevitável. Onde anda toda a experiência adquirida com sucesso pela Administração Popular de Porto Alegre? Onde andam os projetos alternativos, prêmios de incentivo à leitura, captação de projetos junto ao governo federal? Onde anda a arte e a intelectualidade que iriam revolucionar a mentalidade administrativa, recuperar o prédio da Biblioteca Pública, criar um teatro e uma casa com oficinas? Transcorreram dois anos e não localizei.<br /><br />Lamento que toda individualidade que surja dentro da Secretaria esteja saindo. Foram mais de dez funcionários que largaram o barco. Alguma coisa está errada. A desculpa dos demissionários é recorrente: incompatibilidade com a direção. <br /><br />Ou a cultura não é um trabalho em equipe? Não posso culpar o sr., sei que tem feito uma excelente administração em outros setores. Por exemplo, finalmente meu filho tem uma praça de brinquedos. Estou falando da cultura. A cultura ainda é uma peça decorativa. Parece feita para o secretário aparecer em fotos nos jornais. <br /><br />O sr. deve saber que Frank Jorge largou a Secretaria, exercia o cargo de diretor. Iniciava a descentralização cultural, a partir das muambas e grandes eventos. Não senti nenhuma resistência a sua saída. Se não o conhece, um dia deve ter cantado "Amigo Punk" involuntariamente em seu carro. Além de um grande músico e poeta, Frank Jorge é um mobilizador da cena urbana, criativo e incansável, segurava a produção dos eventos, refinou a programação artística, ampliou o espaço de debates. Ele ansiava ficar: ama São Leopoldo como quem nasce pela segunda vez. Alegou divergências com o modo de condução da gestão cultural. É o momento de parar e perguntar: quais as divergências? Queria descobrir. Pode me dizer?<br /><br />Frank Jorge já coordenou a Usina do Gasômetro, montou festivais, dirigiu e apresentou o programa Radar da TVE, impulsionou o Sarau Elétrico na capital. Não é uma figurinha difícil de conviver. Pelo contrário, amável, generoso e sério. Escolheu a discrição enquanto o secretário tomava para si a glória. <br /><br />Desejo dizer, sem medo e afetação, ele é e sempre será meu secretário de Cultura. Nunca precisará fazer um abaixo-assinado para mostrar sua importância. Não precisará ter um CC 6 ou bonificações para ser respeitado. Ele não depende de mim ou do senhor para ser lembrado. <br /><br />Chego até aqui para repetir que a ambição não é ruim quando não é pessoal ou carreirista. A ambição de Frank Jorge é pela cultura. Uma ambição pela diversidade. E não posso aceitar que tudo está bem se ele não está mais conosco. <br /><br />Faço um pedido: não mantenha seus secretários pela amizade. Mantenha seus secretários pela competência. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FRANK JORGE</b><br /><br /><b>Infelizmente, Frank Jorge deixou a Secretaria de Cultura de São Leopoldo. Escrevi uma carta para o prefeito Ary José Vanazzi. Reproduzo:</b><br /><br /><b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO OU SR. VANAZZI</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Meu caro prefeito Ary José Vanazzi: não posso me omitir e não me espantar com a falta de ambição na cultura. Ambição não é ruim caso não vire arrogância, caso não vire prepotência, caso não vire a vontade de decidir sozinho. <br /><br />O sr. abriu a primeira Secretaria de Cultura do município, o que, convenhamos, mostra sua boa intenção. Mas ela tem somente atuado como um departamento, mantendo o que já existia nas administrações anteriores. Ainda giramos em torno dos mesmos encontros: São Leopoldo Fest, Carnaval e Feira do Livro. Sei que não deve ficar feliz em ser comparado com a administração anterior nesta área, porém, é inevitável. Onde anda toda a experiência adquirida com sucesso pela Administração Popular de Porto Alegre? Onde andam os projetos alternativos, prêmios de incentivo à leitura, captação de projetos junto ao governo federal? Onde anda a arte e a intelectualidade que iriam revolucionar a mentalidade administrativa, recuperar o prédio da Biblioteca Pública, criar um teatro e uma casa com oficinas? Transcorreram dois anos e não localizei.<br /><br />Lamento que toda individualidade que surja dentro da Secretaria esteja saindo. Foram mais de dez funcionários que largaram o barco. Alguma coisa está errada. A desculpa dos demissionários é recorrente: incompatibilidade com a direção. <br /><br />Ou a cultura não é um trabalho em equipe? Não posso culpar o sr., sei que tem feito uma excelente administração em outros setores. Por exemplo, finalmente meu filho tem uma praça de brinquedos. Estou falando da cultura. A cultura ainda é uma peça decorativa. Parece feita para o secretário aparecer em fotos nos jornais. <br /><br />O sr. deve saber que Frank Jorge largou a Secretaria, exercia o cargo de diretor. Iniciava a descentralização cultural, a partir das muambas e grandes eventos. Não senti nenhuma resistência a sua saída. Se não o conhece, um dia deve ter cantado "Amigo Punk" involuntariamente em seu carro. Além de um grande músico e poeta, Frank Jorge é um mobilizador da cena urbana, criativo e incansável, segurava a produção dos eventos, refinou a programação artística, ampliou o espaço de debates. Ele ansiava ficar: ama São Leopoldo como quem nasce pela segunda vez. Alegou divergências com o modo de condução da gestão cultural. É o momento de parar e perguntar: quais as divergências? Queria descobrir. Pode me dizer?<br /><br />Frank Jorge já coordenou a Usina do Gasômetro, montou festivais, dirigiu e apresentou o programa Radar da TVE, impulsionou o Sarau Elétrico na capital. Não é uma figurinha difícil de conviver. Pelo contrário, amável, generoso e sério. Escolheu a discrição enquanto o secretário tomava para si a glória. <br /><br />Desejo dizer, sem medo e afetação, ele é e sempre será meu secretário de Cultura. Nunca precisará fazer um abaixo-assinado para mostrar sua importância. Não precisará ter um CC 6 ou bonificações para ser respeitado. Ele não depende de mim ou do senhor para ser lembrado. <br /><br />Chego até aqui para repetir que a ambição não é ruim quando não é pessoal ou carreirista. A ambição de Frank Jorge é pela cultura. Uma ambição pela diversidade. E não posso aceitar que tudo está bem se ele não está mais conosco. <br /><br />Faço um pedido: não mantenha seus secretários pela amizade. Mantenha seus secretários pela competência. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38965178</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/31/2006 10:13:30 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO CELEBRA ETERNAS CAFONICES</b><br /> <br />O que hoje é cafona? Cantores como Sidney Magal, antes bregas, viraram cult. "Sandra Rosa Madalena" e "Meu Sangue Ferve por você" alucinam qualquer balada e enchem as pistas de dança. Odair José, conhecido como "o terror das empregadas", recebeu releitura, recentemente justiçado com a revelação de que foi mais censurado na ditadura militar do que Chico Buarque. Canções como "Pare de tomar pílula" e "Na minha opinião", que criticava o casamento (""o importante é se querer/ assinar papel pra quê?"), já se tornaram história e folclore. O mesmo aconteceu com "Eu não sou cachorro não", de Waldick Soriano, revalorizada como síntese da dor de cotovelo e do amor rejeitado.<br /><br />A pior música cafona da eterna atualidade é o tema da quinta edição do talk-show <b>Em busca do tempo perdido</b>, nesta <b>quinta-feira, 31/8, às 19h30, no Café de Bordo da Paralelo 30 Viagens e Turismo (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo</b>. Em animado concurso retrô, o músico Frank Jorge e o escritor Fabrício Carpinejar definem quem é o mais chinelão da história da MPB: Paulo Sérgio, Wando, Roberto Leal, Dom e Ravel, Agnaldo Timóteo, Benito Di Paula, entre tantos concorrentes de peso. <br /><br />No clima descontraído, <i>Em busca do tempo perdido</i> usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Há sempre interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO CELEBRA ETERNAS CAFONICES</b><br /> <br />O que hoje é cafona? Cantores como Sidney Magal, antes bregas, viraram cult. "Sandra Rosa Madalena" e "Meu Sangue Ferve por você" alucinam qualquer balada e enchem as pistas de dança. Odair José, conhecido como "o terror das empregadas", recebeu releitura, recentemente justiçado com a revelação de que foi mais censurado na ditadura militar do que Chico Buarque. Canções como "Pare de tomar pílula" e "Na minha opinião", que criticava o casamento (""o importante é se querer/ assinar papel pra quê?"), já se tornaram história e folclore. O mesmo aconteceu com "Eu não sou cachorro não", de Waldick Soriano, revalorizada como síntese da dor de cotovelo e do amor rejeitado.<br /><br />A pior música cafona da eterna atualidade é o tema da quinta edição do talk-show <b>Em busca do tempo perdido</b>, nesta <b>quinta-feira, 31/8, às 19h30, no Café de Bordo da Paralelo 30 Viagens e Turismo (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo</b>. Em animado concurso retrô, o músico Frank Jorge e o escritor Fabrício Carpinejar definem quem é o mais chinelão da história da MPB: Paulo Sérgio, Wando, Roberto Leal, Dom e Ravel, Agnaldo Timóteo, Benito Di Paula, entre tantos concorrentes de peso. <br /><br />No clima descontraído, <i>Em busca do tempo perdido</i> usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Há sempre interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO CELEBRA ETERNAS CAFONICES</b><br /> <br />O que hoje é cafona? Cantores como Sidney Magal, antes bregas, viraram cult. "Sandra Rosa Madalena" e "Meu Sangue Ferve por você" alucinam qualquer balada e enchem as pistas de dança. Odair José, conhecido como "o terror das empregadas", recebeu releitura, recentemente justiçado com a revelação de que foi mais censurado na ditadura militar do que Chico Buarque. Canções como "Pare de tomar pílula" e "Na minha opinião", que criticava o casamento (""o importante é se querer/ assinar papel pra quê?"), já se tornaram história e folclore. O mesmo aconteceu com "Eu não sou cachorro não", de Waldick Soriano, revalorizada como síntese da dor de cotovelo e do amor rejeitado.<br /><br />A pior música cafona da eterna atualidade é o tema da quinta edição do talk-show <b>Em busca do tempo perdido</b>, nesta <b>quinta-feira, 31/8, às 19h30, no Café de Bordo da Paralelo 30 Viagens e Turismo (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo</b>. Em animado concurso retrô, o músico Frank Jorge e o escritor Fabrício Carpinejar definem quem é o mais chinelão da história da MPB: Paulo Sérgio, Wando, Roberto Leal, Dom e Ravel, Agnaldo Timóteo, Benito Di Paula, entre tantos concorrentes de peso. <br /><br />No clima descontraído, <i>Em busca do tempo perdido</i> usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Há sempre interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38965166</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/31/2006 10:12:14 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NA VITROLA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/586/747/400/olhos350j.0.jpg"><br /><br />Confira o blog de <a href="http://www.vitroladosausentes.blogspot.com/">Paulo Ribeiro</a>, autor do clássico "Vitrola dos Ausentes" (Ateliê, 2005) e de "Cozinha Gorda" (Maneco, no prelo). Passamos o final da manhã de <b>quarta (30/8)</b> escrevendo nas vidraças da Universidade de Caxias do Sul. Paulo fez um poema pedindo para que as poesias não sejam apagadas das vitrines.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>NA VITROLA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/586/747/400/olhos350j.0.jpg"><br /><br />Confira o blog de <a href="http://www.vitroladosausentes.blogspot.com/">Paulo Ribeiro</a>, autor do clássico "Vitrola dos Ausentes" (Ateliê, 2005) e de "Cozinha Gorda" (Maneco, no prelo). Passamos o final da manhã de <b>quarta (30/8)</b> escrevendo nas vidraças da Universidade de Caxias do Sul. Paulo fez um poema pedindo para que as poesias não sejam apagadas das vitrines.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NA VITROLA</b><br /><br /><img src="http://photos1.blogger.com/blogger/586/747/400/olhos350j.0.jpg"><br /><br />Confira o blog de <a href="http://www.vitroladosausentes.blogspot.com/">Paulo Ribeiro</a>, autor do clássico "Vitrola dos Ausentes" (Ateliê, 2005) e de "Cozinha Gorda" (Maneco, no prelo). Passamos o final da manhã de <b>quarta (30/8)</b> escrevendo nas vidraças da Universidade de Caxias do Sul. Paulo fez um poema pedindo para que as poesias não sejam apagadas das vitrines.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38965160</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/31/2006 10:10:26 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>GROSSERIA</b><br />Pintura de David Hockney<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-27209-medium.jpg"><br /><br />O que não me agrada é a grosseria. O que torna uma pessoa assexuada, infeliz e feia é a grosseria. Ainda mais sob o disfarce da sinceridade. <br /><br />Comentar para uma mulher que está gorda é uma indelicadeza. Qual a finalidade? O que se ganha com isso? Respeito? Duvido. Respeito não surge do desrespeito. <br /><br />Não é possível encontrar confiança ao rebaixar o outro. Amizade não tem desnível. <br /><br />Ou acha que ela não sofre e não sabe? Ela não vai emagrecer com a ofensa. Ninguém muda com a ofensa, só se percebe quem são os verdadeiros amigos. <br /><br />Que benefício trará ao afirmar que ela inspira piedade? Que não se comporta em festas? Que transa mal? <br /><br />Quem se julga no direito de dar nota não conhece o dever de calar. A franqueza está sendo confundida com dizer o que se quer, na hora que bem entender. Não se seleciona as palavras com tato. Fala-se do jeito que sai. Arrumar a casa não é destruí-la. Destruir a casa é apagar a possibilidade de morar nela. <br /><br />Não é qualquer um que consegue conduzir verdades. A verdade não é sinônimo da descortesia. Alguns acreditam que estão fazendo um favor expondo verdades, mas apenas mostram a impossibilidade de se comunicar. Atacam pela incompetência ao diálogo. Não suportam conversar, são vaidosos para escutar o contraponto. Vaidosos para perguntar. Impacientes e logo desejam resolver a situação. Antecipam-se como formadores e deformam. Alegam que não podem se reprimir e reprimem. Alegam que não podem se censurar e censuram. <br /><br />Não há como morder e depois culpar os dentes. Não há como arranhar e depois culpar as unhas grandes. Ou, arrependido, atenuar-se na brincadeira. <br /><br />A liberdade crítica não contraria a educação. Se não sabemos deixar de dizer por amor não saberemos amar sem dizer. E o amor prevê o consentimento do silêncio. Proteger-se da gentileza do silêncio. Não estaremos escondendo nada, mas escolhendo. Escolher é cuidar. É esperar que a boca nasça primeiramente nas mãos. Que aprenda a caminhar nas mãos.<br /><br />Palavras não doem; o que dói é o desprezo com elas. Fala-se pela importância de falar, ao invés de falar pela importância de ser ouvido. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>GROSSERIA</b><br />Pintura de David Hockney<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-27209-medium.jpg"><br /><br />O que não me agrada é a grosseria. O que torna uma pessoa assexuada, infeliz e feia é a grosseria. Ainda mais sob o disfarce da sinceridade. <br /><br />Comentar para uma mulher que está gorda é uma indelicadeza. Qual a finalidade? O que se ganha com isso? Respeito? Duvido. Respeito não surge do desrespeito. <br /><br />Não é possível encontrar confiança ao rebaixar o outro. Amizade não tem desnível. <br /><br />Ou acha que ela não sofre e não sabe? Ela não vai emagrecer com a ofensa. Ninguém muda com a ofensa, só se percebe quem são os verdadeiros amigos. <br /><br />Que benefício trará ao afirmar que ela inspira piedade? Que não se comporta em festas? Que transa mal? <br /><br />Quem se julga no direito de dar nota não conhece o dever de calar. A franqueza está sendo confundida com dizer o que se quer, na hora que bem entender. Não se seleciona as palavras com tato. Fala-se do jeito que sai. Arrumar a casa não é destruí-la. Destruir a casa é apagar a possibilidade de morar nela. <br /><br />Não é qualquer um que consegue conduzir verdades. A verdade não é sinônimo da descortesia. Alguns acreditam que estão fazendo um favor expondo verdades, mas apenas mostram a impossibilidade de se comunicar. Atacam pela incompetência ao diálogo. Não suportam conversar, são vaidosos para escutar o contraponto. Vaidosos para perguntar. Impacientes e logo desejam resolver a situação. Antecipam-se como formadores e deformam. Alegam que não podem se reprimir e reprimem. Alegam que não podem se censurar e censuram. <br /><br />Não há como morder e depois culpar os dentes. Não há como arranhar e depois culpar as unhas grandes. Ou, arrependido, atenuar-se na brincadeira. <br /><br />A liberdade crítica não contraria a educação. Se não sabemos deixar de dizer por amor não saberemos amar sem dizer. E o amor prevê o consentimento do silêncio. Proteger-se da gentileza do silêncio. Não estaremos escondendo nada, mas escolhendo. Escolher é cuidar. É esperar que a boca nasça primeiramente nas mãos. Que aprenda a caminhar nas mãos.<br /><br />Palavras não doem; o que dói é o desprezo com elas. Fala-se pela importância de falar, ao invés de falar pela importância de ser ouvido. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>GROSSERIA</b><br />Pintura de David Hockney<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.picassomio.com/images/art/pm-27209-medium.jpg"><br /><br />O que não me agrada é a grosseria. O que torna uma pessoa assexuada, infeliz e feia é a grosseria. Ainda mais sob o disfarce da sinceridade. <br /><br />Comentar para uma mulher que está gorda é uma indelicadeza. Qual a finalidade? O que se ganha com isso? Respeito? Duvido. Respeito não surge do desrespeito. <br /><br />Não é possível encontrar confiança ao rebaixar o outro. Amizade não tem desnível. <br /><br />Ou acha que ela não sofre e não sabe? Ela não vai emagrecer com a ofensa. Ninguém muda com a ofensa, só se percebe quem são os verdadeiros amigos. <br /><br />Que benefício trará ao afirmar que ela inspira piedade? Que não se comporta em festas? Que transa mal? <br /><br />Quem se julga no direito de dar nota não conhece o dever de calar. A franqueza está sendo confundida com dizer o que se quer, na hora que bem entender. Não se seleciona as palavras com tato. Fala-se do jeito que sai. Arrumar a casa não é destruí-la. Destruir a casa é apagar a possibilidade de morar nela. <br /><br />Não é qualquer um que consegue conduzir verdades. A verdade não é sinônimo da descortesia. Alguns acreditam que estão fazendo um favor expondo verdades, mas apenas mostram a impossibilidade de se comunicar. Atacam pela incompetência ao diálogo. Não suportam conversar, são vaidosos para escutar o contraponto. Vaidosos para perguntar. Impacientes e logo desejam resolver a situação. Antecipam-se como formadores e deformam. Alegam que não podem se reprimir e reprimem. Alegam que não podem se censurar e censuram. <br /><br />Não há como morder e depois culpar os dentes. Não há como arranhar e depois culpar as unhas grandes. Ou, arrependido, atenuar-se na brincadeira. <br /><br />A liberdade crítica não contraria a educação. Se não sabemos deixar de dizer por amor não saberemos amar sem dizer. E o amor prevê o consentimento do silêncio. Proteger-se da gentileza do silêncio. Não estaremos escondendo nada, mas escolhendo. Escolher é cuidar. É esperar que a boca nasça primeiramente nas mãos. Que aprenda a caminhar nas mãos.<br /><br />Palavras não doem; o que dói é o desprezo com elas. Fala-se pela importância de falar, ao invés de falar pela importância de ser ouvido. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38958592</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/29/2006 09:33:50 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>RECOMEÇAR</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.southern.net/wm/paint/auth/modigliani/modigliani.hbuterne-left-arm.jpg"><br /><br />Casar cedo é como um rio que se retira para a outra margem, para alguma aldeia quieta e verdorosa, com crianças a fazer bolas de vento. A imensidão íntima coberta da forragem do limo. A limpeza da varanda. A mesa da janela e os passarinhos adivinhando o lugar das migalhas. <br /><br />Deseja-se passar toda a vida com o amor protegido, confiável, definitivo como o domingo preguiçoso. Não se prepara um plano alternativo, o casamento aumenta nossa idade.   <br /><br />Mas casamentos terminam, e como voltar do exílio voluntário? Como ser jovem novamente? <br /><br />O corpo não é rijo, os seios estão estrábicos, a cintura aberta, as rugas e as varizes se desesperam com o verão. O amor perdoava o corpo. A companhia perdoava o tempo do meu corpo porque suas mãos masculinas faziam parte dele. <br /><br />O corpo é mais grave isolado, mais duro, menos meu. Mais exposto às denúncias do espelho. Sem um fiador que assegure a beleza da convivência. <br /><br />A impressão é que não se perdeu o marido, perdeu-se a mulher em si capaz de conquistá-lo. Perdeu-se o encantamento, a inconseqüência, o que fazia aproximar-me das pessoas sem desconfiança. Se eu me casei com dezoito anos e estou com trinta e dois, agora separada, agora com filho, como me curar de um desamor? Como retomar as festas e não ostentar a caça? Ele era meu colega de faculdade, havia a identificação, a sintonia, as afinidades em busca do diploma. Bastava aparecer e estávamos na mesma sala. A juventude fazia amigos com facilidade. Toda manhã na mesma aula. Havia tempo para se conhecer. Havia futuro. E agora? Quem me dará igual chance? Em uma noite, não consigo me mostrar. Não consigo convencer. Não consigo dizer tudo o que não quero repetir e o que quero melhorar nos quatorze anos de casamento. Não consigo manter-me atenta e interessada numa conversa tediosa. Minha paciência é para a nudez. Sozinha, não poderei encontrar um olhar cúmplice para sussurrar: "vamos embora?". Cheia de insegurança, precisarei tomar as decisões e soar independente. <br /><br />Eu ainda não me recuperei da frustração do casamento. Não que tenha sido ruim, foi bom enquanto acordados. Acabou e ainda me resta a dúvida se acabou ou desistimos de nos esforçar. Ou se acostumamos a dormir em camas separadas e sacrificamos a vontade mútua de anoitecer. Ele não mais conhecia o que vestia para ir trabalhar. Confundia minhas roupas velhas com as novas. A pior traição é a distância da cordialidade. A distância de uma perna a outra das palavras. <br /><br />Não posso voltar atrás, sobrava razão em me despedir. As oliveiras acenavam e não me diziam mais respeito. Esperava que ele voltasse diferente, ansioso, redimido de suas dívidas comigo, pronto a reiniciar. Ele só foi, chorou e foi, e não mais me procurou. Como se eu precisasse fazer o trabalho sujo por ele. Nem se separar ele conseguiu. Eu tive que me separar de mim no lugar dele. Ele não soube me reconquistar, muito menos terminar. <br /><br />Estou de volta mais cética, mais pessimista. Para amar, terei que reaver a fé. Fazer a mala e deixar a aldeia segura. Voltar à cidade grande da esperança. Não posso contar com as amigas casadas para sair. E não será fácil encontrar um homem que se dê bem com meu filho, que seja inteligente e humorado, que não me esqueça para falar unicamente de si. <br /><br />Como seduzo? Desculpa a pergunta, é falta de treino. Como seduzir sem parecer grosseira e atirada? Como me seduzir, principalmente? <br /></title>
<description><![CDATA[<b>RECOMEÇAR</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.southern.net/wm/paint/auth/modigliani/modigliani.hbuterne-left-arm.jpg"><br /><br />Casar cedo é como um rio que se retira para a outra margem, para alguma aldeia quieta e verdorosa, com crianças a fazer bolas de vento. A imensidão íntima coberta da forragem do limo. A limpeza da varanda. A mesa da janela e os passarinhos adivinhando o lugar das migalhas. <br /><br />Deseja-se passar toda a vida com o amor protegido, confiável, definitivo como o domingo preguiçoso. Não se prepara um plano alternativo, o casamento aumenta nossa idade.   <br /><br />Mas casamentos terminam, e como voltar do exílio voluntário? Como ser jovem novamente? <br /><br />O corpo não é rijo, os seios estão estrábicos, a cintura aberta, as rugas e as varizes se desesperam com o verão. O amor perdoava o corpo. A companhia perdoava o tempo do meu corpo porque suas mãos masculinas faziam parte dele. <br /><br />O corpo é mais grave isolado, mais duro, menos meu. Mais exposto às denúncias do espelho. Sem um fiador que assegure a beleza da convivência. <br /><br />A impressão é que não se perdeu o marido, perdeu-se a mulher em si capaz de conquistá-lo. Perdeu-se o encantamento, a inconseqüência, o que fazia aproximar-me das pessoas sem desconfiança. Se eu me casei com dezoito anos e estou com trinta e dois, agora separada, agora com filho, como me curar de um desamor? Como retomar as festas e não ostentar a caça? Ele era meu colega de faculdade, havia a identificação, a sintonia, as afinidades em busca do diploma. Bastava aparecer e estávamos na mesma sala. A juventude fazia amigos com facilidade. Toda manhã na mesma aula. Havia tempo para se conhecer. Havia futuro. E agora? Quem me dará igual chance? Em uma noite, não consigo me mostrar. Não consigo convencer. Não consigo dizer tudo o que não quero repetir e o que quero melhorar nos quatorze anos de casamento. Não consigo manter-me atenta e interessada numa conversa tediosa. Minha paciência é para a nudez. Sozinha, não poderei encontrar um olhar cúmplice para sussurrar: "vamos embora?". Cheia de insegurança, precisarei tomar as decisões e soar independente. <br /><br />Eu ainda não me recuperei da frustração do casamento. Não que tenha sido ruim, foi bom enquanto acordados. Acabou e ainda me resta a dúvida se acabou ou desistimos de nos esforçar. Ou se acostumamos a dormir em camas separadas e sacrificamos a vontade mútua de anoitecer. Ele não mais conhecia o que vestia para ir trabalhar. Confundia minhas roupas velhas com as novas. A pior traição é a distância da cordialidade. A distância de uma perna a outra das palavras. <br /><br />Não posso voltar atrás, sobrava razão em me despedir. As oliveiras acenavam e não me diziam mais respeito. Esperava que ele voltasse diferente, ansioso, redimido de suas dívidas comigo, pronto a reiniciar. Ele só foi, chorou e foi, e não mais me procurou. Como se eu precisasse fazer o trabalho sujo por ele. Nem se separar ele conseguiu. Eu tive que me separar de mim no lugar dele. Ele não soube me reconquistar, muito menos terminar. <br /><br />Estou de volta mais cética, mais pessimista. Para amar, terei que reaver a fé. Fazer a mala e deixar a aldeia segura. Voltar à cidade grande da esperança. Não posso contar com as amigas casadas para sair. E não será fácil encontrar um homem que se dê bem com meu filho, que seja inteligente e humorado, que não me esqueça para falar unicamente de si. <br /><br />Como seduzo? Desculpa a pergunta, é falta de treino. Como seduzir sem parecer grosseira e atirada? Como me seduzir, principalmente? <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>RECOMEÇAR</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.southern.net/wm/paint/auth/modigliani/modigliani.hbuterne-left-arm.jpg"><br /><br />Casar cedo é como um rio que se retira para a outra margem, para alguma aldeia quieta e verdorosa, com crianças a fazer bolas de vento. A imensidão íntima coberta da forragem do limo. A limpeza da varanda. A mesa da janela e os passarinhos adivinhando o lugar das migalhas. <br /><br />Deseja-se passar toda a vida com o amor protegido, confiável, definitivo como o domingo preguiçoso. Não se prepara um plano alternativo, o casamento aumenta nossa idade.   <br /><br />Mas casamentos terminam, e como voltar do exílio voluntário? Como ser jovem novamente? <br /><br />O corpo não é rijo, os seios estão estrábicos, a cintura aberta, as rugas e as varizes se desesperam com o verão. O amor perdoava o corpo. A companhia perdoava o tempo do meu corpo porque suas mãos masculinas faziam parte dele. <br /><br />O corpo é mais grave isolado, mais duro, menos meu. Mais exposto às denúncias do espelho. Sem um fiador que assegure a beleza da convivência. <br /><br />A impressão é que não se perdeu o marido, perdeu-se a mulher em si capaz de conquistá-lo. Perdeu-se o encantamento, a inconseqüência, o que fazia aproximar-me das pessoas sem desconfiança. Se eu me casei com dezoito anos e estou com trinta e dois, agora separada, agora com filho, como me curar de um desamor? Como retomar as festas e não ostentar a caça? Ele era meu colega de faculdade, havia a identificação, a sintonia, as afinidades em busca do diploma. Bastava aparecer e estávamos na mesma sala. A juventude fazia amigos com facilidade. Toda manhã na mesma aula. Havia tempo para se conhecer. Havia futuro. E agora? Quem me dará igual chance? Em uma noite, não consigo me mostrar. Não consigo convencer. Não consigo dizer tudo o que não quero repetir e o que quero melhorar nos quatorze anos de casamento. Não consigo manter-me atenta e interessada numa conversa tediosa. Minha paciência é para a nudez. Sozinha, não poderei encontrar um olhar cúmplice para sussurrar: "vamos embora?". Cheia de insegurança, precisarei tomar as decisões e soar independente. <br /><br />Eu ainda não me recuperei da frustração do casamento. Não que tenha sido ruim, foi bom enquanto acordados. Acabou e ainda me resta a dúvida se acabou ou desistimos de nos esforçar. Ou se acostumamos a dormir em camas separadas e sacrificamos a vontade mútua de anoitecer. Ele não mais conhecia o que vestia para ir trabalhar. Confundia minhas roupas velhas com as novas. A pior traição é a distância da cordialidade. A distância de uma perna a outra das palavras. <br /><br />Não posso voltar atrás, sobrava razão em me despedir. As oliveiras acenavam e não me diziam mais respeito. Esperava que ele voltasse diferente, ansioso, redimido de suas dívidas comigo, pronto a reiniciar. Ele só foi, chorou e foi, e não mais me procurou. Como se eu precisasse fazer o trabalho sujo por ele. Nem se separar ele conseguiu. Eu tive que me separar de mim no lugar dele. Ele não soube me reconquistar, muito menos terminar. <br /><br />Estou de volta mais cética, mais pessimista. Para amar, terei que reaver a fé. Fazer a mala e deixar a aldeia segura. Voltar à cidade grande da esperança. Não posso contar com as amigas casadas para sair. E não será fácil encontrar um homem que se dê bem com meu filho, que seja inteligente e humorado, que não me esqueça para falar unicamente de si. <br /><br />Como seduzo? Desculpa a pergunta, é falta de treino. Como seduzir sem parecer grosseira e atirada? Como me seduzir, principalmente? <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38951827</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/27/2006 10:11:43 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A RESPIRAÇÃO QUE ATRAVESSOU MINHA VIDA </b><br />Pintura de Mark Rothko<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://www.atelier-rc.com/LessonPlan/ROTHKO.JPG&sig=__hwqikOy8kuQ-8LDm1W9SyMPVVJo="><br /><br />Sou fanático por chupar laranjas. Não me apetece cortar, descascar, enrolar a casca como um novelo para cobrir o pescoço; gosto de abrir a fruta com a boca, arrebentar os pingentes enquanto descansam e cuspir as sementes de lado. É molecagem. Divido a esfera em duas metades idênticas. Mais do que matar a sede, mais do que embriagar-me com o suco, alegro-me com a acidez da casca. A acidez do solo. O azedo no doce. Não olho os alimentos antes de comer. Afobo-me de mel. Sugo a laranja como se fosse me fingir de árvore. Como se fosse fugir em ave. Como se fosse tarde.<br /><br />Sou um espremedor de frutas. Um grande espremedor de frutas. Não tenho paciência para contar estrelas. As estrelas igualmente brilham para quem não as conhece. <br /><br />Chupo a respiração de minha mulher quando ela dorme. Assim como quem chupa laranjas. Ou engole fogo. Sim, não há nada mais delicioso do que se aproximar dela, já em estágio avançado de altura, e permanecer rente ao vento na pedra da boca. O vento morno. O vento quente que poderia ser sinal de chuva se não viesse do corpo feminino. O vento que é a véspera da palavra, com todas as palavras possíveis, com todas as palavras por acontecer, sem uma pronúncia as reduzindo a uma escolha. Minha mulher é tranqüila como um barco. Come o mar com colher. O remo é uma colher, uma faca suavizada. <br /><br />Quem não brincava que era invisível quando criança? De passar pelas pessoas e acreditar que ninguém poderia enxergar. Ouvir minha mulher dormindo é ser invisível. É ser ela um pouco por dia. É ser o pouso dela, com os vôos baixando os telhados. É ser seu cansaço de céu.<br /><br />Eu a deixo dormir primeiro e fico acordado colhendo o sopro. Aproximo-me para beijá-la, com os cílios espantados de criança. Não a beijo, deixo sua respiração me beijar, ela faz cócegas na barba. Não conheço música mais veemente do que o som de uma mulher descansando. É o equivalente a escutar o som de um violino dentro do violino. Apanho seu ritmo e me esfrego com a esponja do batimento. Tomo banho a seco em sua respiração. Lavo meu rosto em sua respiração. Lavo as mãos. Lavo a voz. Ela não se mexe, mas pressente que estou pertinho, me fala "eu te amo" para me acalmar. As pálpebras rosadas do escuro. Não me acalma, o amor não me acalma. O amor me faz pensar que estou perdendo alguma coisa dela. <br /><br />Sua respiração é ostra perolando a manhã seguinte. Chupo sua respiração e não basta. Não me detém, não me adormece. Percebo - com clareza e angústia - que serei sempre uma visita em sua respiração. Um hóspede. Nunca poderei dizer que é minha mulher, porque ela é sempre outra após isso. Por mais possessivo que seja, ela não depende de mim. Não se limita a minha presença. Diferente da laranja, não há casca para avisar do seu fim. <br /><br />Uma mulher não se explica. Contenta-se em ser uma pergunta. Ela é uma respiração antes da minha. <br /><br />Minha respiração é tão-somente uma resposta a dela. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>A RESPIRAÇÃO QUE ATRAVESSOU MINHA VIDA </b><br />Pintura de Mark Rothko<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://www.atelier-rc.com/LessonPlan/ROTHKO.JPG&sig=__hwqikOy8kuQ-8LDm1W9SyMPVVJo="><br /><br />Sou fanático por chupar laranjas. Não me apetece cortar, descascar, enrolar a casca como um novelo para cobrir o pescoço; gosto de abrir a fruta com a boca, arrebentar os pingentes enquanto descansam e cuspir as sementes de lado. É molecagem. Divido a esfera em duas metades idênticas. Mais do que matar a sede, mais do que embriagar-me com o suco, alegro-me com a acidez da casca. A acidez do solo. O azedo no doce. Não olho os alimentos antes de comer. Afobo-me de mel. Sugo a laranja como se fosse me fingir de árvore. Como se fosse fugir em ave. Como se fosse tarde.<br /><br />Sou um espremedor de frutas. Um grande espremedor de frutas. Não tenho paciência para contar estrelas. As estrelas igualmente brilham para quem não as conhece. <br /><br />Chupo a respiração de minha mulher quando ela dorme. Assim como quem chupa laranjas. Ou engole fogo. Sim, não há nada mais delicioso do que se aproximar dela, já em estágio avançado de altura, e permanecer rente ao vento na pedra da boca. O vento morno. O vento quente que poderia ser sinal de chuva se não viesse do corpo feminino. O vento que é a véspera da palavra, com todas as palavras possíveis, com todas as palavras por acontecer, sem uma pronúncia as reduzindo a uma escolha. Minha mulher é tranqüila como um barco. Come o mar com colher. O remo é uma colher, uma faca suavizada. <br /><br />Quem não brincava que era invisível quando criança? De passar pelas pessoas e acreditar que ninguém poderia enxergar. Ouvir minha mulher dormindo é ser invisível. É ser ela um pouco por dia. É ser o pouso dela, com os vôos baixando os telhados. É ser seu cansaço de céu.<br /><br />Eu a deixo dormir primeiro e fico acordado colhendo o sopro. Aproximo-me para beijá-la, com os cílios espantados de criança. Não a beijo, deixo sua respiração me beijar, ela faz cócegas na barba. Não conheço música mais veemente do que o som de uma mulher descansando. É o equivalente a escutar o som de um violino dentro do violino. Apanho seu ritmo e me esfrego com a esponja do batimento. Tomo banho a seco em sua respiração. Lavo meu rosto em sua respiração. Lavo as mãos. Lavo a voz. Ela não se mexe, mas pressente que estou pertinho, me fala "eu te amo" para me acalmar. As pálpebras rosadas do escuro. Não me acalma, o amor não me acalma. O amor me faz pensar que estou perdendo alguma coisa dela. <br /><br />Sua respiração é ostra perolando a manhã seguinte. Chupo sua respiração e não basta. Não me detém, não me adormece. Percebo - com clareza e angústia - que serei sempre uma visita em sua respiração. Um hóspede. Nunca poderei dizer que é minha mulher, porque ela é sempre outra após isso. Por mais possessivo que seja, ela não depende de mim. Não se limita a minha presença. Diferente da laranja, não há casca para avisar do seu fim. <br /><br />Uma mulher não se explica. Contenta-se em ser uma pergunta. Ela é uma respiração antes da minha. <br /><br />Minha respiração é tão-somente uma resposta a dela. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A RESPIRAÇÃO QUE ATRAVESSOU MINHA VIDA </b><br />Pintura de Mark Rothko<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://www.atelier-rc.com/LessonPlan/ROTHKO.JPG&sig=__hwqikOy8kuQ-8LDm1W9SyMPVVJo="><br /><br />Sou fanático por chupar laranjas. Não me apetece cortar, descascar, enrolar a casca como um novelo para cobrir o pescoço; gosto de abrir a fruta com a boca, arrebentar os pingentes enquanto descansam e cuspir as sementes de lado. É molecagem. Divido a esfera em duas metades idênticas. Mais do que matar a sede, mais do que embriagar-me com o suco, alegro-me com a acidez da casca. A acidez do solo. O azedo no doce. Não olho os alimentos antes de comer. Afobo-me de mel. Sugo a laranja como se fosse me fingir de árvore. Como se fosse fugir em ave. Como se fosse tarde.<br /><br />Sou um espremedor de frutas. Um grande espremedor de frutas. Não tenho paciência para contar estrelas. As estrelas igualmente brilham para quem não as conhece. <br /><br />Chupo a respiração de minha mulher quando ela dorme. Assim como quem chupa laranjas. Ou engole fogo. Sim, não há nada mais delicioso do que se aproximar dela, já em estágio avançado de altura, e permanecer rente ao vento na pedra da boca. O vento morno. O vento quente que poderia ser sinal de chuva se não viesse do corpo feminino. O vento que é a véspera da palavra, com todas as palavras possíveis, com todas as palavras por acontecer, sem uma pronúncia as reduzindo a uma escolha. Minha mulher é tranqüila como um barco. Come o mar com colher. O remo é uma colher, uma faca suavizada. <br /><br />Quem não brincava que era invisível quando criança? De passar pelas pessoas e acreditar que ninguém poderia enxergar. Ouvir minha mulher dormindo é ser invisível. É ser ela um pouco por dia. É ser o pouso dela, com os vôos baixando os telhados. É ser seu cansaço de céu.<br /><br />Eu a deixo dormir primeiro e fico acordado colhendo o sopro. Aproximo-me para beijá-la, com os cílios espantados de criança. Não a beijo, deixo sua respiração me beijar, ela faz cócegas na barba. Não conheço música mais veemente do que o som de uma mulher descansando. É o equivalente a escutar o som de um violino dentro do violino. Apanho seu ritmo e me esfrego com a esponja do batimento. Tomo banho a seco em sua respiração. Lavo meu rosto em sua respiração. Lavo as mãos. Lavo a voz. Ela não se mexe, mas pressente que estou pertinho, me fala "eu te amo" para me acalmar. As pálpebras rosadas do escuro. Não me acalma, o amor não me acalma. O amor me faz pensar que estou perdendo alguma coisa dela. <br /><br />Sua respiração é ostra perolando a manhã seguinte. Chupo sua respiração e não basta. Não me detém, não me adormece. Percebo - com clareza e angústia - que serei sempre uma visita em sua respiração. Um hóspede. Nunca poderei dizer que é minha mulher, porque ela é sempre outra após isso. Por mais possessivo que seja, ela não depende de mim. Não se limita a minha presença. Diferente da laranja, não há casca para avisar do seu fim. <br /><br />Uma mulher não se explica. Contenta-se em ser uma pergunta. Ela é uma respiração antes da minha. <br /><br />Minha respiração é tão-somente uma resposta a dela. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38942513</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/24/2006 09:53:17 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>HUMOR ELEITORAL</b><br /><br /><br />A <a href=" http://www1.folha.uol.com.br/fsp/">Revista da Folha de São Paulo</a>, <b>edição de domingo (20/8/06)</b>, montou um colégio eleitoral de 32 personalidades para que cada um apresentasse seu candidato fictício predileto, uma figura da literatura, cinema, folclore, televisão e quadrinhos, preparado para resolver ou corrigir os problemas do Brasil.<br /><br />Meu candidato ficou em sexto lugar na <b>enquete eletrônica da <a href="http://www.folha.uol.com.br/">Folha Online</a>, com 7% dos votos (1 252) de um universo de 18 830 participantes</b>. O vencedor foi Super Homem, com 23% dos votos, seguido da Feiticeira (10%) e de Jeannie (9%). Reproduzo a justificativa. <br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://tipos.com.br/media/17/20031101-dick-vigarista.gif&sig=__Gv_me4AzkEZp7pDjABpLhjtz6kY="><br /><br /><b>Dick Vigarista, presidente. Muttley, vice, ambos da série "Corrida Maluca". <br /><br />Lema: "Muttley, faça alguma coisa".  <br /><br />Não seria propaganda enganosa, já que ele é vigarista desde o nome. Faria o gênero presidente esportista. Tão perdedor que é capaz de recuperar a estima de Rubinho Barichello. Não iria conseguir roubar porque é bocudo. Suas coligações se resumem à companhia do Muttley, que se contenta com "medalha, medalha, medalha" e vive rindo à toa. É previsível e insistente, dificilmente perde a esperança. Não suja as mãos, tem fetiche por luvas vermelhas. Como aviador, teria salvo a Varig e a transformado em "Máquina Voadora". Descobriria na prática o estado vegetativo de nossas estradas. Faria sucesso em tempo de seca com seu bordão: "Raios! Raios duplos!"</b><br /><br /><i>Fabrício Carpinejar, 33, escritor, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 288 págs., R$ 35)</i><br /> </title>
<description><![CDATA[<b>HUMOR ELEITORAL</b><br /><br /><br />A <a href=" http://www1.folha.uol.com.br/fsp/">Revista da Folha de São Paulo</a>, <b>edição de domingo (20/8/06)</b>, montou um colégio eleitoral de 32 personalidades para que cada um apresentasse seu candidato fictício predileto, uma figura da literatura, cinema, folclore, televisão e quadrinhos, preparado para resolver ou corrigir os problemas do Brasil.<br /><br />Meu candidato ficou em sexto lugar na <b>enquete eletrônica da <a href="http://www.folha.uol.com.br/">Folha Online</a>, com 7% dos votos (1 252) de um universo de 18 830 participantes</b>. O vencedor foi Super Homem, com 23% dos votos, seguido da Feiticeira (10%) e de Jeannie (9%). Reproduzo a justificativa. <br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://tipos.com.br/media/17/20031101-dick-vigarista.gif&sig=__Gv_me4AzkEZp7pDjABpLhjtz6kY="><br /><br /><b>Dick Vigarista, presidente. Muttley, vice, ambos da série "Corrida Maluca". <br /><br />Lema: "Muttley, faça alguma coisa".  <br /><br />Não seria propaganda enganosa, já que ele é vigarista desde o nome. Faria o gênero presidente esportista. Tão perdedor que é capaz de recuperar a estima de Rubinho Barichello. Não iria conseguir roubar porque é bocudo. Suas coligações se resumem à companhia do Muttley, que se contenta com "medalha, medalha, medalha" e vive rindo à toa. É previsível e insistente, dificilmente perde a esperança. Não suja as mãos, tem fetiche por luvas vermelhas. Como aviador, teria salvo a Varig e a transformado em "Máquina Voadora". Descobriria na prática o estado vegetativo de nossas estradas. Faria sucesso em tempo de seca com seu bordão: "Raios! Raios duplos!"</b><br /><br /><i>Fabrício Carpinejar, 33, escritor, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 288 págs., R$ 35)</i><br /> ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>HUMOR ELEITORAL</b><br /><br /><br />A <a href=" http://www1.folha.uol.com.br/fsp/">Revista da Folha de São Paulo</a>, <b>edição de domingo (20/8/06)</b>, montou um colégio eleitoral de 32 personalidades para que cada um apresentasse seu candidato fictício predileto, uma figura da literatura, cinema, folclore, televisão e quadrinhos, preparado para resolver ou corrigir os problemas do Brasil.<br /><br />Meu candidato ficou em sexto lugar na <b>enquete eletrônica da <a href="http://www.folha.uol.com.br/">Folha Online</a>, com 7% dos votos (1 252) de um universo de 18 830 participantes</b>. O vencedor foi Super Homem, com 23% dos votos, seguido da Feiticeira (10%) e de Jeannie (9%). Reproduzo a justificativa. <br /><br /><img src="http://images.google.com.br/url?q=http://tipos.com.br/media/17/20031101-dick-vigarista.gif&sig=__Gv_me4AzkEZp7pDjABpLhjtz6kY="><br /><br /><b>Dick Vigarista, presidente. Muttley, vice, ambos da série "Corrida Maluca". <br /><br />Lema: "Muttley, faça alguma coisa".  <br /><br />Não seria propaganda enganosa, já que ele é vigarista desde o nome. Faria o gênero presidente esportista. Tão perdedor que é capaz de recuperar a estima de Rubinho Barichello. Não iria conseguir roubar porque é bocudo. Suas coligações se resumem à companhia do Muttley, que se contenta com "medalha, medalha, medalha" e vive rindo à toa. É previsível e insistente, dificilmente perde a esperança. Não suja as mãos, tem fetiche por luvas vermelhas. Como aviador, teria salvo a Varig e a transformado em "Máquina Voadora". Descobriria na prática o estado vegetativo de nossas estradas. Faria sucesso em tempo de seca com seu bordão: "Raios! Raios duplos!"</b><br /><br /><i>Fabrício Carpinejar, 33, escritor, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 288 págs., R$ 35)</i><br /> ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38941271</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/23/2006 08:22:35 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>FORTALEZA</b><br /><br /><img src="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br/images/index_02.jpg"><br /><br />Participo da <a href="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br">7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará</a>, em <b>Fortaleza</b>. De <b>18 a 27 de agosto</b>, no Centro de Convenções do Ceará (Av. Washington Soares, 1141 - Edson Queiroz), a Bienal se inspirou no clássico "As Mil e Uma Noites" para homenagear a arte de narrar e a contação de histórias.<br /><br />Farei duas palestras. A primeira no <b>domingo (20/8)</b>, às <b>16h</b>, no <b>Café Literário</b>, em bate-papo com a escritora <b>Thereza Leite</b>. A conversa será seguida de leitura de textos e sessão de autógrafos do meu novo livro <b>O Amor Esquece de Começar</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35).<br /><br />O segundo momento ocorre na <b>segunda (21/8)</b>, na <b>Tenda do Escriba</b>, às <b>19h30</b>, em debate sobre travessias e a importância da poesia na narrativa com <b>Jorge Pieiro</b> e mediação de <b>Eleuda de Carvalho</b>.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>FORTALEZA</b><br /><br /><img src="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br/images/index_02.jpg"><br /><br />Participo da <a href="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br">7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará</a>, em <b>Fortaleza</b>. De <b>18 a 27 de agosto</b>, no Centro de Convenções do Ceará (Av. Washington Soares, 1141 - Edson Queiroz), a Bienal se inspirou no clássico "As Mil e Uma Noites" para homenagear a arte de narrar e a contação de histórias.<br /><br />Farei duas palestras. A primeira no <b>domingo (20/8)</b>, às <b>16h</b>, no <b>Café Literário</b>, em bate-papo com a escritora <b>Thereza Leite</b>. A conversa será seguida de leitura de textos e sessão de autógrafos do meu novo livro <b>O Amor Esquece de Começar</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35).<br /><br />O segundo momento ocorre na <b>segunda (21/8)</b>, na <b>Tenda do Escriba</b>, às <b>19h30</b>, em debate sobre travessias e a importância da poesia na narrativa com <b>Jorge Pieiro</b> e mediação de <b>Eleuda de Carvalho</b>.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>FORTALEZA</b><br /><br /><img src="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br/images/index_02.jpg"><br /><br />Participo da <a href="http://www.bienaldolivro.ce.gov.br">7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará</a>, em <b>Fortaleza</b>. De <b>18 a 27 de agosto</b>, no Centro de Convenções do Ceará (Av. Washington Soares, 1141 - Edson Queiroz), a Bienal se inspirou no clássico "As Mil e Uma Noites" para homenagear a arte de narrar e a contação de histórias.<br /><br />Farei duas palestras. A primeira no <b>domingo (20/8)</b>, às <b>16h</b>, no <b>Café Literário</b>, em bate-papo com a escritora <b>Thereza Leite</b>. A conversa será seguida de leitura de textos e sessão de autógrafos do meu novo livro <b>O Amor Esquece de Começar</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35).<br /><br />O segundo momento ocorre na <b>segunda (21/8)</b>, na <b>Tenda do Escriba</b>, às <b>19h30</b>, em debate sobre travessias e a importância da poesia na narrativa com <b>Jorge Pieiro</b> e mediação de <b>Eleuda de Carvalho</b>.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38923039</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/18/2006 11:36:21 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O RADINHO DE PILHA ENTRE OS OMBROS</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.masdearte.com/imagenes/fotos/Rdali_electivas.jpg"><br /><br />Uma senhora bem simples rodou e rodou a vitrine de uma loja, até que entrou. Pediu para "experimentar" um radinho de pilha. "Posso testar?". A atendente pensou que ligaria o rádio. Mas testar era colocar o aparelho nos ombros, para ver se pousava bem nos ouvidos. Mexeu-se muito até que encontrou uma posição confortável para o radinho. E amansou os olhos por alguns minutos como se ouvisse uma estação imaginária. Cerrou os olhos e rebolou o queixo devagar. Juro que ouvi a música que não existia apenas acompanhando seu rosto. <br /><br />A atendente irritou-se com a demora e perguntou se ela levaria o produto. "Vai pagar com cartão de crédito?". Ela respondeu que "mais ou menos" e saiu. <br /><br />Não gosto de chamá-la de senhora. Vou chamá-la de Alice. Alice experimentou o rádio como quem estava se vestindo, como quem prova comida, como quem testa um travesseiro ao dormir. Ela colocou seus longos cabelos de trigo ao lado para calçar o som. Abençoou a rua do seu pescoço. Como uma rosa que não se apequena com a água entre as pétalas. A água, uma pétala que não murcha. <br /><br />Não temos mais paciência para experimentar um amor. Colocar as roupas antes de tirar. Dentro da gente, há sempre uma pressa que aponta: "vai levar?" Não fechamos os lábios para lembrar ou mastigar as palavras. Há sempre alguém que acelera o relacionamento. Que agride antes de compreender, que julga antes de conviver, que pretende ler sem se aproximar da caligrafia. O amor não é suspeita, é superar a desconfiança. Todos se conhecem sem ao menos pedir permissão para entrar, licença para sentar e puxar a cadeira. Como se soasse um zumbido de "agora ou nunca?". Nunca será se não houve véspera, nunca será se não haverá tempo de ser depois.  <br /><br />Queremos um amor rápido, não um amor constante, não um amor com as medidas do corpo. Ou com as medidas da voz nos ouvidos, que não seja largo demais nos ombros, nem pesado demais para carregar de um lado para o outro da casa. Como o rádio de Alice. <br /><br />Pressa não é urgência. Pressa é pular para o final. Urgência é precisar todo momento e não deixar o começo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O RADINHO DE PILHA ENTRE OS OMBROS</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.masdearte.com/imagenes/fotos/Rdali_electivas.jpg"><br /><br />Uma senhora bem simples rodou e rodou a vitrine de uma loja, até que entrou. Pediu para "experimentar" um radinho de pilha. "Posso testar?". A atendente pensou que ligaria o rádio. Mas testar era colocar o aparelho nos ombros, para ver se pousava bem nos ouvidos. Mexeu-se muito até que encontrou uma posição confortável para o radinho. E amansou os olhos por alguns minutos como se ouvisse uma estação imaginária. Cerrou os olhos e rebolou o queixo devagar. Juro que ouvi a música que não existia apenas acompanhando seu rosto. <br /><br />A atendente irritou-se com a demora e perguntou se ela levaria o produto. "Vai pagar com cartão de crédito?". Ela respondeu que "mais ou menos" e saiu. <br /><br />Não gosto de chamá-la de senhora. Vou chamá-la de Alice. Alice experimentou o rádio como quem estava se vestindo, como quem prova comida, como quem testa um travesseiro ao dormir. Ela colocou seus longos cabelos de trigo ao lado para calçar o som. Abençoou a rua do seu pescoço. Como uma rosa que não se apequena com a água entre as pétalas. A água, uma pétala que não murcha. <br /><br />Não temos mais paciência para experimentar um amor. Colocar as roupas antes de tirar. Dentro da gente, há sempre uma pressa que aponta: "vai levar?" Não fechamos os lábios para lembrar ou mastigar as palavras. Há sempre alguém que acelera o relacionamento. Que agride antes de compreender, que julga antes de conviver, que pretende ler sem se aproximar da caligrafia. O amor não é suspeita, é superar a desconfiança. Todos se conhecem sem ao menos pedir permissão para entrar, licença para sentar e puxar a cadeira. Como se soasse um zumbido de "agora ou nunca?". Nunca será se não houve véspera, nunca será se não haverá tempo de ser depois.  <br /><br />Queremos um amor rápido, não um amor constante, não um amor com as medidas do corpo. Ou com as medidas da voz nos ouvidos, que não seja largo demais nos ombros, nem pesado demais para carregar de um lado para o outro da casa. Como o rádio de Alice. <br /><br />Pressa não é urgência. Pressa é pular para o final. Urgência é precisar todo momento e não deixar o começo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O RADINHO DE PILHA ENTRE OS OMBROS</b><br />Pintura de Salvador Dali<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.masdearte.com/imagenes/fotos/Rdali_electivas.jpg"><br /><br />Uma senhora bem simples rodou e rodou a vitrine de uma loja, até que entrou. Pediu para "experimentar" um radinho de pilha. "Posso testar?". A atendente pensou que ligaria o rádio. Mas testar era colocar o aparelho nos ombros, para ver se pousava bem nos ouvidos. Mexeu-se muito até que encontrou uma posição confortável para o radinho. E amansou os olhos por alguns minutos como se ouvisse uma estação imaginária. Cerrou os olhos e rebolou o queixo devagar. Juro que ouvi a música que não existia apenas acompanhando seu rosto. <br /><br />A atendente irritou-se com a demora e perguntou se ela levaria o produto. "Vai pagar com cartão de crédito?". Ela respondeu que "mais ou menos" e saiu. <br /><br />Não gosto de chamá-la de senhora. Vou chamá-la de Alice. Alice experimentou o rádio como quem estava se vestindo, como quem prova comida, como quem testa um travesseiro ao dormir. Ela colocou seus longos cabelos de trigo ao lado para calçar o som. Abençoou a rua do seu pescoço. Como uma rosa que não se apequena com a água entre as pétalas. A água, uma pétala que não murcha. <br /><br />Não temos mais paciência para experimentar um amor. Colocar as roupas antes de tirar. Dentro da gente, há sempre uma pressa que aponta: "vai levar?" Não fechamos os lábios para lembrar ou mastigar as palavras. Há sempre alguém que acelera o relacionamento. Que agride antes de compreender, que julga antes de conviver, que pretende ler sem se aproximar da caligrafia. O amor não é suspeita, é superar a desconfiança. Todos se conhecem sem ao menos pedir permissão para entrar, licença para sentar e puxar a cadeira. Como se soasse um zumbido de "agora ou nunca?". Nunca será se não houve véspera, nunca será se não haverá tempo de ser depois.  <br /><br />Queremos um amor rápido, não um amor constante, não um amor com as medidas do corpo. Ou com as medidas da voz nos ouvidos, que não seja largo demais nos ombros, nem pesado demais para carregar de um lado para o outro da casa. Como o rádio de Alice. <br /><br />Pressa não é urgência. Pressa é pular para o final. Urgência é precisar todo momento e não deixar o começo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38919502</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/17/2006 11:13:41 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b><a href="http://jbonline.terra.com.br/">Jornal do Brasil</a>, caderno dos Esportes, página 3C, 17/08/06</b><br /><br /><b>AQUELA ESTRELA BORDADA EM MEU PIJAMA</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Escritor, colorado, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/3x4_03.jpg"><br /><br />Era o último jogo do Falcão pelo Inter e a rara chance de conseguir o título de campeão da América. A tristeza de perder o ídolo diminuía com a possibilidade de vencer a Libertadores contra o Nacional. Tinha oito anos e só pensava em ser jogador do Inter, só pensava em futebol. Escutei o jogo pelo rádio. Uruguai nunca me pareceu tão longe. Entendia o jogo quando apareciam os nomes de Benitez, Mauro Galvão, Batista, Jair e Mário Sérgio.  Depois do zero a zero em Porto Alegre, restava vencer. Não suportei o nervosismo e apaguei o rádio aos 35m do segundo tempo. Adormeci com o coração entre a língua e os dentes. O coração mais dentes do que línguas. <br /><br />Acordei de manhãzinha, às 5h, para ver qual tinha sido o resultado. Cheirei o jornal antes de ver a manchete. Vitorino de cabeça. Inter havia perdido de um zero. A cidade vazia, deserta, os cães latiam entre si. As estrelas não tinham sentido e já se despediam. Sempre que busco o jornal, imagino que virá a manchete, que Falcão ficaria para jogar o Mundial, que seria centroavante, que não haveria escola de manhã, que meu pai e meus irmãos gremistas teriam medo de conversar comigo, que mexeria com a colher o leite para o achocolatado subir do fundo. <br /><br />Vinte e seis anos depois, duas libertadores do Grêmio, sou um menino de letras garrafais. Um menino de papel. Com os mesmos vincos de um travesseiro guardado. Com filhos colorados como eu, indecisos entre gritar e correr. Com minha mulher desesperadamente alegre, que me olha como se não fosse acreditar. Em 1980, nascia Bolívar, zagueiro do Inter, que completou aniversário justo ao enfrentar o time de São Paulo. Ele daria o presente para mim ou eu daria para ele? Quem torce mais: aquele que enxerga ou aquele que vira para não sofrer? Quem tem mais coragem?  Era a última partida de Tinga com a camisa vermelha. Ele fez o gol ontem. De cabeça. O gol que Falcão também sonhava. <br /><br />O pão velho volta a ser quente na boca. Aos 35 minutos do segundo tempo, desliguei novamente a tevê. Fui deitar, alheio às superstições. Hoje o jornal decidiu minha vida. Pela segunda vez. Como disse Abel, o técnico que já foi vice para vencer: "Não podemos mudar o início, mas podemos mudar o final". Sou o primeiro a acordar para nunca mais dormir.<br /></title>
<description><![CDATA[<b><a href="http://jbonline.terra.com.br/">Jornal do Brasil</a>, caderno dos Esportes, página 3C, 17/08/06</b><br /><br /><b>AQUELA ESTRELA BORDADA EM MEU PIJAMA</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Escritor, colorado, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/3x4_03.jpg"><br /><br />Era o último jogo do Falcão pelo Inter e a rara chance de conseguir o título de campeão da América. A tristeza de perder o ídolo diminuía com a possibilidade de vencer a Libertadores contra o Nacional. Tinha oito anos e só pensava em ser jogador do Inter, só pensava em futebol. Escutei o jogo pelo rádio. Uruguai nunca me pareceu tão longe. Entendia o jogo quando apareciam os nomes de Benitez, Mauro Galvão, Batista, Jair e Mário Sérgio.  Depois do zero a zero em Porto Alegre, restava vencer. Não suportei o nervosismo e apaguei o rádio aos 35m do segundo tempo. Adormeci com o coração entre a língua e os dentes. O coração mais dentes do que línguas. <br /><br />Acordei de manhãzinha, às 5h, para ver qual tinha sido o resultado. Cheirei o jornal antes de ver a manchete. Vitorino de cabeça. Inter havia perdido de um zero. A cidade vazia, deserta, os cães latiam entre si. As estrelas não tinham sentido e já se despediam. Sempre que busco o jornal, imagino que virá a manchete, que Falcão ficaria para jogar o Mundial, que seria centroavante, que não haveria escola de manhã, que meu pai e meus irmãos gremistas teriam medo de conversar comigo, que mexeria com a colher o leite para o achocolatado subir do fundo. <br /><br />Vinte e seis anos depois, duas libertadores do Grêmio, sou um menino de letras garrafais. Um menino de papel. Com os mesmos vincos de um travesseiro guardado. Com filhos colorados como eu, indecisos entre gritar e correr. Com minha mulher desesperadamente alegre, que me olha como se não fosse acreditar. Em 1980, nascia Bolívar, zagueiro do Inter, que completou aniversário justo ao enfrentar o time de São Paulo. Ele daria o presente para mim ou eu daria para ele? Quem torce mais: aquele que enxerga ou aquele que vira para não sofrer? Quem tem mais coragem?  Era a última partida de Tinga com a camisa vermelha. Ele fez o gol ontem. De cabeça. O gol que Falcão também sonhava. <br /><br />O pão velho volta a ser quente na boca. Aos 35 minutos do segundo tempo, desliguei novamente a tevê. Fui deitar, alheio às superstições. Hoje o jornal decidiu minha vida. Pela segunda vez. Como disse Abel, o técnico que já foi vice para vencer: "Não podemos mudar o início, mas podemos mudar o final". Sou o primeiro a acordar para nunca mais dormir.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b><a href="http://jbonline.terra.com.br/">Jornal do Brasil</a>, caderno dos Esportes, página 3C, 17/08/06</b><br /><br /><b>AQUELA ESTRELA BORDADA EM MEU PIJAMA</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><i>Escritor, colorado, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006)</i><br /><br /><img src="http://www.carpinejar.blogger.com.br/3x4_03.jpg"><br /><br />Era o último jogo do Falcão pelo Inter e a rara chance de conseguir o título de campeão da América. A tristeza de perder o ídolo diminuía com a possibilidade de vencer a Libertadores contra o Nacional. Tinha oito anos e só pensava em ser jogador do Inter, só pensava em futebol. Escutei o jogo pelo rádio. Uruguai nunca me pareceu tão longe. Entendia o jogo quando apareciam os nomes de Benitez, Mauro Galvão, Batista, Jair e Mário Sérgio.  Depois do zero a zero em Porto Alegre, restava vencer. Não suportei o nervosismo e apaguei o rádio aos 35m do segundo tempo. Adormeci com o coração entre a língua e os dentes. O coração mais dentes do que línguas. <br /><br />Acordei de manhãzinha, às 5h, para ver qual tinha sido o resultado. Cheirei o jornal antes de ver a manchete. Vitorino de cabeça. Inter havia perdido de um zero. A cidade vazia, deserta, os cães latiam entre si. As estrelas não tinham sentido e já se despediam. Sempre que busco o jornal, imagino que virá a manchete, que Falcão ficaria para jogar o Mundial, que seria centroavante, que não haveria escola de manhã, que meu pai e meus irmãos gremistas teriam medo de conversar comigo, que mexeria com a colher o leite para o achocolatado subir do fundo. <br /><br />Vinte e seis anos depois, duas libertadores do Grêmio, sou um menino de letras garrafais. Um menino de papel. Com os mesmos vincos de um travesseiro guardado. Com filhos colorados como eu, indecisos entre gritar e correr. Com minha mulher desesperadamente alegre, que me olha como se não fosse acreditar. Em 1980, nascia Bolívar, zagueiro do Inter, que completou aniversário justo ao enfrentar o time de São Paulo. Ele daria o presente para mim ou eu daria para ele? Quem torce mais: aquele que enxerga ou aquele que vira para não sofrer? Quem tem mais coragem?  Era a última partida de Tinga com a camisa vermelha. Ele fez o gol ontem. De cabeça. O gol que Falcão também sonhava. <br /><br />O pão velho volta a ser quente na boca. Aos 35 minutos do segundo tempo, desliguei novamente a tevê. Fui deitar, alheio às superstições. Hoje o jornal decidiu minha vida. Pela segunda vez. Como disse Abel, o técnico que já foi vice para vencer: "Não podemos mudar o início, mas podemos mudar o final". Sou o primeiro a acordar para nunca mais dormir.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38919312</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/17/2006 09:29:51 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ADORÁVEL CANALHA</b><br />Arte de Jasper Johns<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nga.gov/feature/artnation/johns/images/johns/johns_critic_brick_380x220.jpg"><br /><br />É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"<br /><br />Ser chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura. <br /><br />Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa. Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo. Não o canalha canalha, mas o <b>ca-na-lha</b>, sem repetição. Único. Irrepetível. Não o canalha que deixa a mulher, o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo. <br /><br />O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha". <br /><br />Bem diferente de <i>crápula</i>, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou do <i>cafajeste</i>, alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.<br /><br />Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais. <br /><br />É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi.  Imagino o cara sentado. Infantil, como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.  <br /><br />Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa. <br /><br />Não ficarei triste se esquecer meu nome, chame-me de canalha.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ADORÁVEL CANALHA</b><br />Arte de Jasper Johns<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nga.gov/feature/artnation/johns/images/johns/johns_critic_brick_380x220.jpg"><br /><br />É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"<br /><br />Ser chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura. <br /><br />Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa. Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo. Não o canalha canalha, mas o <b>ca-na-lha</b>, sem repetição. Único. Irrepetível. Não o canalha que deixa a mulher, o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo. <br /><br />O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha". <br /><br />Bem diferente de <i>crápula</i>, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou do <i>cafajeste</i>, alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.<br /><br />Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais. <br /><br />É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi.  Imagino o cara sentado. Infantil, como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.  <br /><br />Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa. <br /><br />Não ficarei triste se esquecer meu nome, chame-me de canalha.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ADORÁVEL CANALHA</b><br />Arte de Jasper Johns<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nga.gov/feature/artnation/johns/images/johns/johns_critic_brick_380x220.jpg"><br /><br />É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"<br /><br />Ser chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura. <br /><br />Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa. Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo. Não o canalha canalha, mas o <b>ca-na-lha</b>, sem repetição. Único. Irrepetível. Não o canalha que deixa a mulher, o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo. <br /><br />O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha". <br /><br />Bem diferente de <i>crápula</i>, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou do <i>cafajeste</i>, alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.<br /><br />Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais. <br /><br />É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi.  Imagino o cara sentado. Infantil, como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.  <br /><br />Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa. <br /><br />Não ficarei triste se esquecer meu nome, chame-me de canalha.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38896385</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/10/2006 11:33:12 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ESTAREI</b><br /><br /><b>12/8 (sábado) - <a href="http://www.salaodolivro.com.br/">7º Salão do Livro de Belo Horizonte</a> (MG) </b> <br />Palestra "Mário Quintana: o poeta de si mesmo diverso", às <b>19h30</b>, na Serraria Souza Pinto<br /><br /><b>14/8 (segunda) - <a href="http://www.enel2006.org.br/programacao.htm">XXVIII Encontro Nacional de Estudantes de Letras</a>, Universidade de Brasília, Brasília (DF)</b><br />Tema da mesa: <i>Cultura contemporânea, a redefinição da periferia e do centro</i>, com Afonso Romano de Sant´Anna e Sylvia Cyntrão (UnB), às <b>10h</b>, no Anfiteatro 9-ICC Sul<br /><br /><b>20 e 21/08 (sábado e domingo) - 7ª Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (CE)</b><br />20/8 - <b>16h </b>- Café Literário <br />21/08 - <b>19h30</b> - Arena do Escritor<br /></title>
<description><![CDATA[<b>ESTAREI</b><br /><br /><b>12/8 (sábado) - <a href="http://www.salaodolivro.com.br/">7º Salão do Livro de Belo Horizonte</a> (MG) </b> <br />Palestra "Mário Quintana: o poeta de si mesmo diverso", às <b>19h30</b>, na Serraria Souza Pinto<br /><br /><b>14/8 (segunda) - <a href="http://www.enel2006.org.br/programacao.htm">XXVIII Encontro Nacional de Estudantes de Letras</a>, Universidade de Brasília, Brasília (DF)</b><br />Tema da mesa: <i>Cultura contemporânea, a redefinição da periferia e do centro</i>, com Afonso Romano de Sant´Anna e Sylvia Cyntrão (UnB), às <b>10h</b>, no Anfiteatro 9-ICC Sul<br /><br /><b>20 e 21/08 (sábado e domingo) - 7ª Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (CE)</b><br />20/8 - <b>16h </b>- Café Literário <br />21/08 - <b>19h30</b> - Arena do Escritor<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ESTAREI</b><br /><br /><b>12/8 (sábado) - <a href="http://www.salaodolivro.com.br/">7º Salão do Livro de Belo Horizonte</a> (MG) </b> <br />Palestra "Mário Quintana: o poeta de si mesmo diverso", às <b>19h30</b>, na Serraria Souza Pinto<br /><br /><b>14/8 (segunda) - <a href="http://www.enel2006.org.br/programacao.htm">XXVIII Encontro Nacional de Estudantes de Letras</a>, Universidade de Brasília, Brasília (DF)</b><br />Tema da mesa: <i>Cultura contemporânea, a redefinição da periferia e do centro</i>, com Afonso Romano de Sant´Anna e Sylvia Cyntrão (UnB), às <b>10h</b>, no Anfiteatro 9-ICC Sul<br /><br /><b>20 e 21/08 (sábado e domingo) - 7ª Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (CE)</b><br />20/8 - <b>16h </b>- Café Literário <br />21/08 - <b>19h30</b> - Arena do Escritor<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38896139</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/10/2006 10:11:26 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SÓ ISSO</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mci.org.br/comofunciona/cassete_01.jpg"><br /><br />Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava.  Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic. <br /><br />Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo.  A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir. <br /><br />A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.   <br /><br />Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho. <br /><br />As canções diriam:<br /><br />Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.  <br /><br />Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. <br /><br />Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. <br /><br />Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar. <br /><br />Amar com coragem, só isso.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>SÓ ISSO</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mci.org.br/comofunciona/cassete_01.jpg"><br /><br />Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava.  Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic. <br /><br />Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo.  A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir. <br /><br />A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.   <br /><br />Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho. <br /><br />As canções diriam:<br /><br />Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.  <br /><br />Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. <br /><br />Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. <br /><br />Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar. <br /><br />Amar com coragem, só isso.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SÓ ISSO</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.mci.org.br/comofunciona/cassete_01.jpg"><br /><br />Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava.  Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic. <br /><br />Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo.  A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir. <br /><br />A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.   <br /><br />Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho. <br /><br />As canções diriam:<br /><br />Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.  <br /><br />Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. <br /><br />Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. <br /><br />Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar. <br /><br />Amar com coragem, só isso.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38888887</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/7/2006 11:13:10 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ESPERANÇA NÃO É ILUSÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_152540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thecityreview.com/s03ccong.jpg"><br /><br /><i>"Lancei-me numa grande empreitada: buscar a felicidade plena dentro de mim. Desisto, desisto, parece que quanto mais me relaciono mais me 'ferro', mais me angustio e mais acredito que todos os homens fazem parte de um bando de cafajestes com os hormônios borbulhando, de uma conspiração em alto escalão para destruir o gênero feminino e suas ambições líricas. O meu último relacionamento contribui forçosamente para que eu chegasse a essa conclusão. Primeiro descobri de cara que o 'meu príncipe' já tinha uma(s) princesa(s). Tentei contornar a situação e defini-lo apenas como um 'rolinho' sem importância, que fosse então o quebra-galho. Mas definitivamente não dá. Eu sou do tipo de pessoa que se entrega por completo e que se sente saciada, não preciso sair por aí experimentando um e outro. Basta o carinho, o amor e a atenção de um!<br /><br />O problema, Carpinejar, é que me sinto o patinho feio, sabe, não me acho nem um pouco suficiente para despertar a curiosidade dos espectadores, e quando encontro um cara que me enche de elogios e me satisfaz sexualmente já tá legal. Não sou tão exigente! Mas não consigo encontrar ninguém e estou num estado de dormência. A cada instante quero me apaixonar para o resto da minha vida, pelo porteiro, pelo motorista do ônibus, pelo operador de fotocopiadora, e assim por diante!<br /><br />Mas voltando ao dito cujo, não me livro dele porque não quero ficar sem essa esmola de afeto, sabe, não consigo me desvincular porque, mesmo sabendo dos seus interesses, ele me proporciona o mínimo de atenção que desejo. <br /><br />Não está legal assim, mas me sinto tão envolvida por meus sonhos, ultrapassados de tão românticos que são, que deposito nele a esperança de um dia ser amada monogamicamente. Eu me identifico por completo com a personagem Bridget Jones. Me diz algo por favor!<br /><br />Grande e ternuroso abraço pra você, te admiro demasiadamente!"</i><br /><br />Olá, Laura!<br /><br />Os homens não são um bando de cafajestes. Podem ser cafajestes, mas individualmente. Não estão associados a nenhum clube ou sindicato. Necessitamos tomar cuidado para que uma frustração não sirva para generalizar e que uma fobia não se transforme em paranóia. <br /><br />Acho que você foi apequenando sua expectativa: transformou o príncipe em rolinho e depois em quebra-galho. Reduziu sua própria vaidade. Hoje é capaz de aceitar qualquer coisa quando não é qualquer coisa que a satisfaz. Já tem bem resolvido qual é o sonho de companhia - e isso não se negocia: amar monogamicamente, continuar romântica, receber a dedicação de um olhar como se brincava na infância com lupa a queimar o mundo microscópio de ervas e formigas. Um homem, enfim, que tenha palavra para inventar o mundo contigo. <br /><br />É natural que, ao diminuir o desejo pelos outros, esteja diminuindo o desejo por si. Tornou-se um patinho feio, porque se viu encurralada e sem condições de decidir. O que vier é lucro, dessa forma virou sua vida. Não é uma esmola que a fará bonita. Mostra mais carência do que escolha. "Carência" aceita todo figurante e o promove a protagonista. Quer apenas aplacar a necessidade física e erótica. Aumenta o bocado de atenção que recebe com a fantasia. "Escolha" envolve compromisso e doação. Somos muito mais do que queríamos no início e não menos do que recebemos. <br /><br />Não insista nessa esperança com ele. Isso não é esperança, é ilusão. Vejo que tem chance de se apaixonar pelo resto de sua vida, desde que nunca seja um resto, como acontece hoje.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ESPERANÇA NÃO É ILUSÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_152540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thecityreview.com/s03ccong.jpg"><br /><br /><i>"Lancei-me numa grande empreitada: buscar a felicidade plena dentro de mim. Desisto, desisto, parece que quanto mais me relaciono mais me 'ferro', mais me angustio e mais acredito que todos os homens fazem parte de um bando de cafajestes com os hormônios borbulhando, de uma conspiração em alto escalão para destruir o gênero feminino e suas ambições líricas. O meu último relacionamento contribui forçosamente para que eu chegasse a essa conclusão. Primeiro descobri de cara que o 'meu príncipe' já tinha uma(s) princesa(s). Tentei contornar a situação e defini-lo apenas como um 'rolinho' sem importância, que fosse então o quebra-galho. Mas definitivamente não dá. Eu sou do tipo de pessoa que se entrega por completo e que se sente saciada, não preciso sair por aí experimentando um e outro. Basta o carinho, o amor e a atenção de um!<br /><br />O problema, Carpinejar, é que me sinto o patinho feio, sabe, não me acho nem um pouco suficiente para despertar a curiosidade dos espectadores, e quando encontro um cara que me enche de elogios e me satisfaz sexualmente já tá legal. Não sou tão exigente! Mas não consigo encontrar ninguém e estou num estado de dormência. A cada instante quero me apaixonar para o resto da minha vida, pelo porteiro, pelo motorista do ônibus, pelo operador de fotocopiadora, e assim por diante!<br /><br />Mas voltando ao dito cujo, não me livro dele porque não quero ficar sem essa esmola de afeto, sabe, não consigo me desvincular porque, mesmo sabendo dos seus interesses, ele me proporciona o mínimo de atenção que desejo. <br /><br />Não está legal assim, mas me sinto tão envolvida por meus sonhos, ultrapassados de tão românticos que são, que deposito nele a esperança de um dia ser amada monogamicamente. Eu me identifico por completo com a personagem Bridget Jones. Me diz algo por favor!<br /><br />Grande e ternuroso abraço pra você, te admiro demasiadamente!"</i><br /><br />Olá, Laura!<br /><br />Os homens não são um bando de cafajestes. Podem ser cafajestes, mas individualmente. Não estão associados a nenhum clube ou sindicato. Necessitamos tomar cuidado para que uma frustração não sirva para generalizar e que uma fobia não se transforme em paranóia. <br /><br />Acho que você foi apequenando sua expectativa: transformou o príncipe em rolinho e depois em quebra-galho. Reduziu sua própria vaidade. Hoje é capaz de aceitar qualquer coisa quando não é qualquer coisa que a satisfaz. Já tem bem resolvido qual é o sonho de companhia - e isso não se negocia: amar monogamicamente, continuar romântica, receber a dedicação de um olhar como se brincava na infância com lupa a queimar o mundo microscópio de ervas e formigas. Um homem, enfim, que tenha palavra para inventar o mundo contigo. <br /><br />É natural que, ao diminuir o desejo pelos outros, esteja diminuindo o desejo por si. Tornou-se um patinho feio, porque se viu encurralada e sem condições de decidir. O que vier é lucro, dessa forma virou sua vida. Não é uma esmola que a fará bonita. Mostra mais carência do que escolha. "Carência" aceita todo figurante e o promove a protagonista. Quer apenas aplacar a necessidade física e erótica. Aumenta o bocado de atenção que recebe com a fantasia. "Escolha" envolve compromisso e doação. Somos muito mais do que queríamos no início e não menos do que recebemos. <br /><br />Não insista nessa esperança com ele. Isso não é esperança, é ilusão. Vejo que tem chance de se apaixonar pelo resto de sua vida, desde que nunca seja um resto, como acontece hoje.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>ESPERANÇA NÃO É ILUSÃO</b><br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_152540.shtml">site da Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.thecityreview.com/s03ccong.jpg"><br /><br /><i>"Lancei-me numa grande empreitada: buscar a felicidade plena dentro de mim. Desisto, desisto, parece que quanto mais me relaciono mais me 'ferro', mais me angustio e mais acredito que todos os homens fazem parte de um bando de cafajestes com os hormônios borbulhando, de uma conspiração em alto escalão para destruir o gênero feminino e suas ambições líricas. O meu último relacionamento contribui forçosamente para que eu chegasse a essa conclusão. Primeiro descobri de cara que o 'meu príncipe' já tinha uma(s) princesa(s). Tentei contornar a situação e defini-lo apenas como um 'rolinho' sem importância, que fosse então o quebra-galho. Mas definitivamente não dá. Eu sou do tipo de pessoa que se entrega por completo e que se sente saciada, não preciso sair por aí experimentando um e outro. Basta o carinho, o amor e a atenção de um!<br /><br />O problema, Carpinejar, é que me sinto o patinho feio, sabe, não me acho nem um pouco suficiente para despertar a curiosidade dos espectadores, e quando encontro um cara que me enche de elogios e me satisfaz sexualmente já tá legal. Não sou tão exigente! Mas não consigo encontrar ninguém e estou num estado de dormência. A cada instante quero me apaixonar para o resto da minha vida, pelo porteiro, pelo motorista do ônibus, pelo operador de fotocopiadora, e assim por diante!<br /><br />Mas voltando ao dito cujo, não me livro dele porque não quero ficar sem essa esmola de afeto, sabe, não consigo me desvincular porque, mesmo sabendo dos seus interesses, ele me proporciona o mínimo de atenção que desejo. <br /><br />Não está legal assim, mas me sinto tão envolvida por meus sonhos, ultrapassados de tão românticos que são, que deposito nele a esperança de um dia ser amada monogamicamente. Eu me identifico por completo com a personagem Bridget Jones. Me diz algo por favor!<br /><br />Grande e ternuroso abraço pra você, te admiro demasiadamente!"</i><br /><br />Olá, Laura!<br /><br />Os homens não são um bando de cafajestes. Podem ser cafajestes, mas individualmente. Não estão associados a nenhum clube ou sindicato. Necessitamos tomar cuidado para que uma frustração não sirva para generalizar e que uma fobia não se transforme em paranóia. <br /><br />Acho que você foi apequenando sua expectativa: transformou o príncipe em rolinho e depois em quebra-galho. Reduziu sua própria vaidade. Hoje é capaz de aceitar qualquer coisa quando não é qualquer coisa que a satisfaz. Já tem bem resolvido qual é o sonho de companhia - e isso não se negocia: amar monogamicamente, continuar romântica, receber a dedicação de um olhar como se brincava na infância com lupa a queimar o mundo microscópio de ervas e formigas. Um homem, enfim, que tenha palavra para inventar o mundo contigo. <br /><br />É natural que, ao diminuir o desejo pelos outros, esteja diminuindo o desejo por si. Tornou-se um patinho feio, porque se viu encurralada e sem condições de decidir. O que vier é lucro, dessa forma virou sua vida. Não é uma esmola que a fará bonita. Mostra mais carência do que escolha. "Carência" aceita todo figurante e o promove a protagonista. Quer apenas aplacar a necessidade física e erótica. Aumenta o bocado de atenção que recebe com a fantasia. "Escolha" envolve compromisso e doação. Somos muito mais do que queríamos no início e não menos do que recebemos. <br /><br />Não insista nessa esperança com ele. Isso não é esperança, é ilusão. Vejo que tem chance de se apaixonar pelo resto de sua vida, desde que nunca seja um resto, como acontece hoje.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38881490</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/5/2006 08:26:18 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>AMOR NÃO É CARIDADE</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.snof.org/vue/imagesvision/modigliani.jpg"><br /><br /><br />Não ame um homem por compaixão. Não ame um homem porque ele ficou ao teu lado enquanto quem desejava ia. Não ame um homem para não ficar isolada. Não ame assim, sem amor, por uma segunda chance. Por tédio. Para passar o tempo. Por respeito. Para esperar acompanhada. <br /><br />Tenha coragem de deixá-lo sozinho, de encarar a verdade. Não maltrate sua esperança. Não o torture com a promessa de que pode dar certo. Não dá certo o que não pode dar errado.  <br /><br />Ame para conhecer, não conheça para amar. O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele. O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno. <br /><br />Não ame um homem porque ele foi leal, o único que a ouviu, a aconselhou, a compreendeu. Isso é amizade que pode estar no amor, mas não é amor. Amor tem mais pele do que osso. Osso se guarda na terra. Já a pele cheira-se com insistência para contrariar o esquecimento. <br /><br />Não ame um homem por recompensa, pois ele aguardou que os outros fossem embora. O final de festa é cansaço.  <br /><br />Não ame um homem por caridade (sua ou dele). O corpo não é uma esmola. <br /><br />Não ame um homem para dizer que os outros não prestam. Por vingança. Para mostrar o que é um homem. <br /><br />Não ame por educação. Um homem amado desse jeito se sentirá menos homem no futuro. É rebaixar o homem. Acovardá-lo com atenuantes. É conter a ambição dos braços, a curiosidade das pernas. <br /><br />Não ame um homem por acomodação. Perca a vida, mas não a chance do homem que procura. <br /><br />Amor não se convence. Não se enraíza com argumentos. Não começa pela cautela. Amor é a falta de prevenção. Não se faz discutindo, amor se faz precisando. <br /><br />Não ame um homem porque ele é o ideal e não a fará sofrer. Prevenir a dor é combater o que pode consolá-la. Não ame um homem pelo simples fato dele estar disponível e atender seus chamados com facilidade. Não ame por conveniência. Para se exibir. Para não pensar mais nisso. <br /><br />Ame um homem que não nasceu de uma consolação, que não partiu de indicação dos amigos, que não seja a cara do seu pai. O que é melhor para você nem sempre é amor. <br /><br />Ame um homem que seja apertado, como o jeans que se fecha apenas quando se deita. <br /><br />Que seja natural como uma distração, que não seja uma distração. <br /><br />Que seja Um homem brigado por dentro. Um homem duvidado, dividido. Um homem impossível. Posto sempre à prova. <br /><br />Não ame um amor que não seja inteiramente seu homem.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>AMOR NÃO É CARIDADE</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.snof.org/vue/imagesvision/modigliani.jpg"><br /><br /><br />Não ame um homem por compaixão. Não ame um homem porque ele ficou ao teu lado enquanto quem desejava ia. Não ame um homem para não ficar isolada. Não ame assim, sem amor, por uma segunda chance. Por tédio. Para passar o tempo. Por respeito. Para esperar acompanhada. <br /><br />Tenha coragem de deixá-lo sozinho, de encarar a verdade. Não maltrate sua esperança. Não o torture com a promessa de que pode dar certo. Não dá certo o que não pode dar errado.  <br /><br />Ame para conhecer, não conheça para amar. O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele. O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno. <br /><br />Não ame um homem porque ele foi leal, o único que a ouviu, a aconselhou, a compreendeu. Isso é amizade que pode estar no amor, mas não é amor. Amor tem mais pele do que osso. Osso se guarda na terra. Já a pele cheira-se com insistência para contrariar o esquecimento. <br /><br />Não ame um homem por recompensa, pois ele aguardou que os outros fossem embora. O final de festa é cansaço.  <br /><br />Não ame um homem por caridade (sua ou dele). O corpo não é uma esmola. <br /><br />Não ame um homem para dizer que os outros não prestam. Por vingança. Para mostrar o que é um homem. <br /><br />Não ame por educação. Um homem amado desse jeito se sentirá menos homem no futuro. É rebaixar o homem. Acovardá-lo com atenuantes. É conter a ambição dos braços, a curiosidade das pernas. <br /><br />Não ame um homem por acomodação. Perca a vida, mas não a chance do homem que procura. <br /><br />Amor não se convence. Não se enraíza com argumentos. Não começa pela cautela. Amor é a falta de prevenção. Não se faz discutindo, amor se faz precisando. <br /><br />Não ame um homem porque ele é o ideal e não a fará sofrer. Prevenir a dor é combater o que pode consolá-la. Não ame um homem pelo simples fato dele estar disponível e atender seus chamados com facilidade. Não ame por conveniência. Para se exibir. Para não pensar mais nisso. <br /><br />Ame um homem que não nasceu de uma consolação, que não partiu de indicação dos amigos, que não seja a cara do seu pai. O que é melhor para você nem sempre é amor. <br /><br />Ame um homem que seja apertado, como o jeans que se fecha apenas quando se deita. <br /><br />Que seja natural como uma distração, que não seja uma distração. <br /><br />Que seja Um homem brigado por dentro. Um homem duvidado, dividido. Um homem impossível. Posto sempre à prova. <br /><br />Não ame um amor que não seja inteiramente seu homem.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>AMOR NÃO É CARIDADE</b><br />Pintura de Modigliani<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.snof.org/vue/imagesvision/modigliani.jpg"><br /><br /><br />Não ame um homem por compaixão. Não ame um homem porque ele ficou ao teu lado enquanto quem desejava ia. Não ame um homem para não ficar isolada. Não ame assim, sem amor, por uma segunda chance. Por tédio. Para passar o tempo. Por respeito. Para esperar acompanhada. <br /><br />Tenha coragem de deixá-lo sozinho, de encarar a verdade. Não maltrate sua esperança. Não o torture com a promessa de que pode dar certo. Não dá certo o que não pode dar errado.  <br /><br />Ame para conhecer, não conheça para amar. O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele. O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno. <br /><br />Não ame um homem porque ele foi leal, o único que a ouviu, a aconselhou, a compreendeu. Isso é amizade que pode estar no amor, mas não é amor. Amor tem mais pele do que osso. Osso se guarda na terra. Já a pele cheira-se com insistência para contrariar o esquecimento. <br /><br />Não ame um homem por recompensa, pois ele aguardou que os outros fossem embora. O final de festa é cansaço.  <br /><br />Não ame um homem por caridade (sua ou dele). O corpo não é uma esmola. <br /><br />Não ame um homem para dizer que os outros não prestam. Por vingança. Para mostrar o que é um homem. <br /><br />Não ame por educação. Um homem amado desse jeito se sentirá menos homem no futuro. É rebaixar o homem. Acovardá-lo com atenuantes. É conter a ambição dos braços, a curiosidade das pernas. <br /><br />Não ame um homem por acomodação. Perca a vida, mas não a chance do homem que procura. <br /><br />Amor não se convence. Não se enraíza com argumentos. Não começa pela cautela. Amor é a falta de prevenção. Não se faz discutindo, amor se faz precisando. <br /><br />Não ame um homem porque ele é o ideal e não a fará sofrer. Prevenir a dor é combater o que pode consolá-la. Não ame um homem pelo simples fato dele estar disponível e atender seus chamados com facilidade. Não ame por conveniência. Para se exibir. Para não pensar mais nisso. <br /><br />Ame um homem que não nasceu de uma consolação, que não partiu de indicação dos amigos, que não seja a cara do seu pai. O que é melhor para você nem sempre é amor. <br /><br />Ame um homem que seja apertado, como o jeans que se fecha apenas quando se deita. <br /><br />Que seja natural como uma distração, que não seja uma distração. <br /><br />Que seja Um homem brigado por dentro. Um homem duvidado, dividido. Um homem impossível. Posto sempre à prova. <br /><br />Não ame um amor que não seja inteiramente seu homem.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38872582</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/3/2006 10:06:26 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>SOU QUANDO DEIXO DE SER</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lichtensteiger.de/Images/cornell.jpg"><br /><br />Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei. <br /><br />Quando amo cedo minhas convicções, meus preconceitos, minhas verdades. Abdico para dar lugar a quem chega com sua escova de dente e seus xampus. Abro espaço no armário, vinco as roupas prediletas. Renuncio a lonjura da cama. Capaz de dormir na esquerda, mudar os hábitos e ler o jornal por segundo. Deixo o jogo passar sem consultar o rádio. Quero agradar mesmo que signifique me desagradar. Eu me bajulo de contradições e censuras. Pergunto o que ela deseja para - se sobrar tempo - me perguntar. Antecipo-me nela para me atrasar em mim.   <br /><br />Ainda que ela me condene, seguirei a absolvendo e reincidindo. Ainda que ela me abandone, seguirei tentando e insistindo. Ainda que me destrate, inventarei motivos para procurá-la. Privo-me da vergonha, da reputação, da moralidade, para esmolar meu corpo de volta. Ou o que julgava corpo antes de encontrá-la.  O corpo é a generosidade de perdê-lo. O corpo é o espaço entre ela e eu. <br /><br />Amar e viver não são simultâneos. Diria até que são excludentes. Ambos exigem muito para coexistirem. Posso ter vivido e não amado, posso ter amado e não vivido. <br /><br />É impossível sarar de um amor. Escapo-me do que sou, mas não daquilo que preciso e que não encontro sozinho. <br /><br />O amor mostra que qualquer coisa é modificável, qualquer passado, qualquer temperamento, menos o amor. <br /><br />No amor, somos tudo, menos a gente.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>SOU QUANDO DEIXO DE SER</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lichtensteiger.de/Images/cornell.jpg"><br /><br />Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei. <br /><br />Quando amo cedo minhas convicções, meus preconceitos, minhas verdades. Abdico para dar lugar a quem chega com sua escova de dente e seus xampus. Abro espaço no armário, vinco as roupas prediletas. Renuncio a lonjura da cama. Capaz de dormir na esquerda, mudar os hábitos e ler o jornal por segundo. Deixo o jogo passar sem consultar o rádio. Quero agradar mesmo que signifique me desagradar. Eu me bajulo de contradições e censuras. Pergunto o que ela deseja para - se sobrar tempo - me perguntar. Antecipo-me nela para me atrasar em mim.   <br /><br />Ainda que ela me condene, seguirei a absolvendo e reincidindo. Ainda que ela me abandone, seguirei tentando e insistindo. Ainda que me destrate, inventarei motivos para procurá-la. Privo-me da vergonha, da reputação, da moralidade, para esmolar meu corpo de volta. Ou o que julgava corpo antes de encontrá-la.  O corpo é a generosidade de perdê-lo. O corpo é o espaço entre ela e eu. <br /><br />Amar e viver não são simultâneos. Diria até que são excludentes. Ambos exigem muito para coexistirem. Posso ter vivido e não amado, posso ter amado e não vivido. <br /><br />É impossível sarar de um amor. Escapo-me do que sou, mas não daquilo que preciso e que não encontro sozinho. <br /><br />O amor mostra que qualquer coisa é modificável, qualquer passado, qualquer temperamento, menos o amor. <br /><br />No amor, somos tudo, menos a gente.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>SOU QUANDO DEIXO DE SER</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.lichtensteiger.de/Images/cornell.jpg"><br /><br />Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros. <br /><br />Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei. <br /><br />Quando amo cedo minhas convicções, meus preconceitos, minhas verdades. Abdico para dar lugar a quem chega com sua escova de dente e seus xampus. Abro espaço no armário, vinco as roupas prediletas. Renuncio a lonjura da cama. Capaz de dormir na esquerda, mudar os hábitos e ler o jornal por segundo. Deixo o jogo passar sem consultar o rádio. Quero agradar mesmo que signifique me desagradar. Eu me bajulo de contradições e censuras. Pergunto o que ela deseja para - se sobrar tempo - me perguntar. Antecipo-me nela para me atrasar em mim.   <br /><br />Ainda que ela me condene, seguirei a absolvendo e reincidindo. Ainda que ela me abandone, seguirei tentando e insistindo. Ainda que me destrate, inventarei motivos para procurá-la. Privo-me da vergonha, da reputação, da moralidade, para esmolar meu corpo de volta. Ou o que julgava corpo antes de encontrá-la.  O corpo é a generosidade de perdê-lo. O corpo é o espaço entre ela e eu. <br /><br />Amar e viver não são simultâneos. Diria até que são excludentes. Ambos exigem muito para coexistirem. Posso ter vivido e não amado, posso ter amado e não vivido. <br /><br />É impossível sarar de um amor. Escapo-me do que sou, mas não daquilo que preciso e que não encontro sozinho. <br /><br />O amor mostra que qualquer coisa é modificável, qualquer passado, qualquer temperamento, menos o amor. <br /><br />No amor, somos tudo, menos a gente.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38865544</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/1/2006 10:56:23 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>POETA DO BRASIL</b><br />Julho de 2006, site do <a href="http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1964">Itaú Cultural</a><br /><br />por <b>Micheliny Verunschk</b><br /><br /><img src="http://www.itaucultural.org.br/bcodeimagens/imagens_publico/01202502701D.jpg"><br /><br /><br />Julho de 2006 marca o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana, gaúcho de Alegrete. Dono de uma voz singular em que mesclava um humor sutil a um questionamento sobre o sentido e os absurdos da vida, o poeta, que se considerava um eterno insatisfeito, estreou em livro em 1940, com A Rua dos Cataventos, no qual se encontra uma das passagens mais melancólicas da poesia brasileira: "da vez primeira em que me assassinaram / perdi um jeito de sorrir que eu tinha".<br /><br />Tradutor de Voltaire, Virginia Woolf e Marcel Proust, entre outros, rigoroso quanto à forma (mas não preso a fôrmas, como fazia questão de destacar), Quintana publicou poemas para crianças, crônicas e contos e foi traduzido para o inglês, o chinês, o russo, o italiano e o espanhol. O poeta faleceu em 1994.<br /><br />Confira entrevista sobre a presença de Quintana na literatura brasileira com o poeta e professor gaúcho <b>Fabrício Carpinejar</b>, autor de <i>As Solas do Sol</i>, <i>Um Terno de Pássaros ao Sul</i> e <i>Caixa de Sapatos</i>, entre outros.   <br /><br /><b>No ano em que se comemora o centenário de Mario Quintana, qual a relação do Brasil com a obra do poeta na sua opinião?</b><br />Antes do lançamento da obra completa de Quintana pela Nova Aguilar, o Brasil tinha uma imagem episódica do poeta, mais conhecido por alguns versos emblemáticos e jocosos, frases de efeito e aforismos do que pela sua unidade rigorosa e meditativa em torno da morte (o que explica a abundância de anjos e de investigação do "outro lado"). Um sentimento de morte que não é de adesão mística, mas de espanto, inconformismo e comicidade. Mario Quintana infelizmente foi reduzido a um poeta regional. Bem se vê que não era verdade.<br /><br /><b>A poesia de Quintana é, ao mesmo tempo, condensada e cheia de uma energia que, sem ser agressiva - pelo contrário, irônica e delicada - é capaz de desconstruir o leitor. Seria essa uma lição poética de Quintana? Existem outras, a seu ver?</b><br />Perfeito, mas antes disso ele se desconstruiu. A imagem que temos dele é a de um velhinho simpático, inofensivo. No fundo, é malicioso, robustamente irônico e ferozmente nostálgico. Tem o domínio do verso como Manuel Bandeira (tradutor como ele) e usou a autocrítica como ponto de partida para combater o engessamento da opinião e do senso comum e não poupar veneno e inversões. É um falso coitadismo: parece que exige compaixão, mas é um modo de pedir aproximação e intimidade para depois falar as verdades mais duras. Ele se fingia de morto para atacar bem. Tanto que sua poesia não mostra uma residência fixa, vive a caminho, num estar sendo entre hotéis, velhos sobrados e pousadas. Captou - como ninguém - o sentido do viajante em sua própria cidade. Era, ao mesmo tempo, turista e residente, o que o ajudou a incorporar uma estranheza pouco comum do significado da família.  <br /><br /><b>Quintana teve uma relação especial com a literatura infantil, como em Lili Inventa o Mundo. No artigo Meu Amor por Quintana, você afirma que o poeta via o leitor como criança. O que a contemporaneidade pode extrair de uma poesia e atitude poética dessas?</b><br />Sua literatura infantil ainda é adulta e sua poesia adulta ainda é infantil. Ele tem uma pureza de princípio, que não é ingenuidade, que só uma criança é capaz de mirabolar. Organizou suas virtudes com a disciplina dos vícios e soube procurar o deslumbramento no repertório mais simples (um copo d'água, legião de sapatos, gravatas, arroios, grilos etc.). Seu vocabulário não é nada rebuscado, resgata uma coloquialidade da necessidade de ser ouvido. É um autor da cidadezinha, do diminutivo, de propósito, como a nomear com ternura o que mais dói. Sopra as feridas antes de aplicar o medicamento. <br /><br /><b>Quintana influenciou sua poesia? </b><br />Sim, influenciou a soltar minha poesia. A soltar a poesia no tema, não na forma. A ser mais arriscado. Assumi a paternidade dos meus defeitos -  o de ser espontâneo e pagar o preço da comunicação. Escrever é ser legível. Incompreensão, no meu ponto de vista, não é mistério. Mistério é compreensão intuitiva, que nenhuma cultura é capaz de substituir. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>POETA DO BRASIL</b><br />Julho de 2006, site do <a href="http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1964">Itaú Cultural</a><br /><br />por <b>Micheliny Verunschk</b><br /><br /><img src="http://www.itaucultural.org.br/bcodeimagens/imagens_publico/01202502701D.jpg"><br /><br /><br />Julho de 2006 marca o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana, gaúcho de Alegrete. Dono de uma voz singular em que mesclava um humor sutil a um questionamento sobre o sentido e os absurdos da vida, o poeta, que se considerava um eterno insatisfeito, estreou em livro em 1940, com A Rua dos Cataventos, no qual se encontra uma das passagens mais melancólicas da poesia brasileira: "da vez primeira em que me assassinaram / perdi um jeito de sorrir que eu tinha".<br /><br />Tradutor de Voltaire, Virginia Woolf e Marcel Proust, entre outros, rigoroso quanto à forma (mas não preso a fôrmas, como fazia questão de destacar), Quintana publicou poemas para crianças, crônicas e contos e foi traduzido para o inglês, o chinês, o russo, o italiano e o espanhol. O poeta faleceu em 1994.<br /><br />Confira entrevista sobre a presença de Quintana na literatura brasileira com o poeta e professor gaúcho <b>Fabrício Carpinejar</b>, autor de <i>As Solas do Sol</i>, <i>Um Terno de Pássaros ao Sul</i> e <i>Caixa de Sapatos</i>, entre outros.   <br /><br /><b>No ano em que se comemora o centenário de Mario Quintana, qual a relação do Brasil com a obra do poeta na sua opinião?</b><br />Antes do lançamento da obra completa de Quintana pela Nova Aguilar, o Brasil tinha uma imagem episódica do poeta, mais conhecido por alguns versos emblemáticos e jocosos, frases de efeito e aforismos do que pela sua unidade rigorosa e meditativa em torno da morte (o que explica a abundância de anjos e de investigação do "outro lado"). Um sentimento de morte que não é de adesão mística, mas de espanto, inconformismo e comicidade. Mario Quintana infelizmente foi reduzido a um poeta regional. Bem se vê que não era verdade.<br /><br /><b>A poesia de Quintana é, ao mesmo tempo, condensada e cheia de uma energia que, sem ser agressiva - pelo contrário, irônica e delicada - é capaz de desconstruir o leitor. Seria essa uma lição poética de Quintana? Existem outras, a seu ver?</b><br />Perfeito, mas antes disso ele se desconstruiu. A imagem que temos dele é a de um velhinho simpático, inofensivo. No fundo, é malicioso, robustamente irônico e ferozmente nostálgico. Tem o domínio do verso como Manuel Bandeira (tradutor como ele) e usou a autocrítica como ponto de partida para combater o engessamento da opinião e do senso comum e não poupar veneno e inversões. É um falso coitadismo: parece que exige compaixão, mas é um modo de pedir aproximação e intimidade para depois falar as verdades mais duras. Ele se fingia de morto para atacar bem. Tanto que sua poesia não mostra uma residência fixa, vive a caminho, num estar sendo entre hotéis, velhos sobrados e pousadas. Captou - como ninguém - o sentido do viajante em sua própria cidade. Era, ao mesmo tempo, turista e residente, o que o ajudou a incorporar uma estranheza pouco comum do significado da família.  <br /><br /><b>Quintana teve uma relação especial com a literatura infantil, como em Lili Inventa o Mundo. No artigo Meu Amor por Quintana, você afirma que o poeta via o leitor como criança. O que a contemporaneidade pode extrair de uma poesia e atitude poética dessas?</b><br />Sua literatura infantil ainda é adulta e sua poesia adulta ainda é infantil. Ele tem uma pureza de princípio, que não é ingenuidade, que só uma criança é capaz de mirabolar. Organizou suas virtudes com a disciplina dos vícios e soube procurar o deslumbramento no repertório mais simples (um copo d'água, legião de sapatos, gravatas, arroios, grilos etc.). Seu vocabulário não é nada rebuscado, resgata uma coloquialidade da necessidade de ser ouvido. É um autor da cidadezinha, do diminutivo, de propósito, como a nomear com ternura o que mais dói. Sopra as feridas antes de aplicar o medicamento. <br /><br /><b>Quintana influenciou sua poesia? </b><br />Sim, influenciou a soltar minha poesia. A soltar a poesia no tema, não na forma. A ser mais arriscado. Assumi a paternidade dos meus defeitos -  o de ser espontâneo e pagar o preço da comunicação. Escrever é ser legível. Incompreensão, no meu ponto de vista, não é mistério. Mistério é compreensão intuitiva, que nenhuma cultura é capaz de substituir. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>POETA DO BRASIL</b><br />Julho de 2006, site do <a href="http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1964">Itaú Cultural</a><br /><br />por <b>Micheliny Verunschk</b><br /><br /><img src="http://www.itaucultural.org.br/bcodeimagens/imagens_publico/01202502701D.jpg"><br /><br /><br />Julho de 2006 marca o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana, gaúcho de Alegrete. Dono de uma voz singular em que mesclava um humor sutil a um questionamento sobre o sentido e os absurdos da vida, o poeta, que se considerava um eterno insatisfeito, estreou em livro em 1940, com A Rua dos Cataventos, no qual se encontra uma das passagens mais melancólicas da poesia brasileira: "da vez primeira em que me assassinaram / perdi um jeito de sorrir que eu tinha".<br /><br />Tradutor de Voltaire, Virginia Woolf e Marcel Proust, entre outros, rigoroso quanto à forma (mas não preso a fôrmas, como fazia questão de destacar), Quintana publicou poemas para crianças, crônicas e contos e foi traduzido para o inglês, o chinês, o russo, o italiano e o espanhol. O poeta faleceu em 1994.<br /><br />Confira entrevista sobre a presença de Quintana na literatura brasileira com o poeta e professor gaúcho <b>Fabrício Carpinejar</b>, autor de <i>As Solas do Sol</i>, <i>Um Terno de Pássaros ao Sul</i> e <i>Caixa de Sapatos</i>, entre outros.   <br /><br /><b>No ano em que se comemora o centenário de Mario Quintana, qual a relação do Brasil com a obra do poeta na sua opinião?</b><br />Antes do lançamento da obra completa de Quintana pela Nova Aguilar, o Brasil tinha uma imagem episódica do poeta, mais conhecido por alguns versos emblemáticos e jocosos, frases de efeito e aforismos do que pela sua unidade rigorosa e meditativa em torno da morte (o que explica a abundância de anjos e de investigação do "outro lado"). Um sentimento de morte que não é de adesão mística, mas de espanto, inconformismo e comicidade. Mario Quintana infelizmente foi reduzido a um poeta regional. Bem se vê que não era verdade.<br /><br /><b>A poesia de Quintana é, ao mesmo tempo, condensada e cheia de uma energia que, sem ser agressiva - pelo contrário, irônica e delicada - é capaz de desconstruir o leitor. Seria essa uma lição poética de Quintana? Existem outras, a seu ver?</b><br />Perfeito, mas antes disso ele se desconstruiu. A imagem que temos dele é a de um velhinho simpático, inofensivo. No fundo, é malicioso, robustamente irônico e ferozmente nostálgico. Tem o domínio do verso como Manuel Bandeira (tradutor como ele) e usou a autocrítica como ponto de partida para combater o engessamento da opinião e do senso comum e não poupar veneno e inversões. É um falso coitadismo: parece que exige compaixão, mas é um modo de pedir aproximação e intimidade para depois falar as verdades mais duras. Ele se fingia de morto para atacar bem. Tanto que sua poesia não mostra uma residência fixa, vive a caminho, num estar sendo entre hotéis, velhos sobrados e pousadas. Captou - como ninguém - o sentido do viajante em sua própria cidade. Era, ao mesmo tempo, turista e residente, o que o ajudou a incorporar uma estranheza pouco comum do significado da família.  <br /><br /><b>Quintana teve uma relação especial com a literatura infantil, como em Lili Inventa o Mundo. No artigo Meu Amor por Quintana, você afirma que o poeta via o leitor como criança. O que a contemporaneidade pode extrair de uma poesia e atitude poética dessas?</b><br />Sua literatura infantil ainda é adulta e sua poesia adulta ainda é infantil. Ele tem uma pureza de princípio, que não é ingenuidade, que só uma criança é capaz de mirabolar. Organizou suas virtudes com a disciplina dos vícios e soube procurar o deslumbramento no repertório mais simples (um copo d'água, legião de sapatos, gravatas, arroios, grilos etc.). Seu vocabulário não é nada rebuscado, resgata uma coloquialidade da necessidade de ser ouvido. É um autor da cidadezinha, do diminutivo, de propósito, como a nomear com ternura o que mais dói. Sopra as feridas antes de aplicar o medicamento. <br /><br /><b>Quintana influenciou sua poesia? </b><br />Sim, influenciou a soltar minha poesia. A soltar a poesia no tema, não na forma. A ser mais arriscado. Assumi a paternidade dos meus defeitos -  o de ser espontâneo e pagar o preço da comunicação. Escrever é ser legível. Incompreensão, no meu ponto de vista, não é mistério. Mistério é compreensão intuitiva, que nenhuma cultura é capaz de substituir. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38865541</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html</link>
<pubDate>8/1/2006 10:53:16 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CARTA PARA MARIANA</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://media.walkerart.org/2741480.jpg"><br /><br /><b>Você já mudou de casa, de cidade, mas agora muda de estado. Nunca fiquei tão longe. Nunca. É como sofrer um segundo divórcio. O primeiro, doloroso, aconteceu quando terminei o namoro com sua mãe há onze anos. Nos abraçamos como um dia qualquer. Uma despedida qualquer diante da escadinha de ônibus. E me cochichou no ouvido para voltar cedo do trabalho.<br /><br />E não consegui dizer que não voltaria porque o ônibus já acelerava e porque meu pulmão não encontrou paz entre as palavras. <br /><br />Antes disso, vivia contigo. Eu é que levava para a creche e permanecia no período de adaptação. Você grudava em minhas pernas querendo brincar comigo e chorava a cada tentativa de fuga. Devo ter entrado na folha de pagamento da escolinha. <br /><br />Não conseguia me despedir, como hoje. <br /><br />Você sofria horrores com a tosse. A pele do seu sopro era tão leve e tênue que me obrigava a cortar as unhas para não machucá-la. <br /><br />Você descansava com relutância, unicamente no colo. Eu cantava e cantava apoiando um pé no outro. Minha voz cansada tentava enganar disposição. Pegava meus cabelos com força para se ninar. Ainda encontrará meus fios em suas roupas. <br /><br />Ao ser alfabetizada e acertar as letras, levantava seu corpo na diagonal e fazia helicóptero pela casa. Há marcas de seus pés no alto das paredes. É possível enxergar do sofá.   <br /><br />Nós temos olhos caídos. Eu e você. O que será que observamos ao nascer para derrubar os olhos?  Viver é assustador, hein?<br /><br />Você não quer ser parecida comigo. Quer ser parecida com sua mãe. Que ironia. O que mais quero é que digam que sou parecido contigo.  <br /><br />Lembro que arrumava longos varais de bonecas pelas cercas do pátio. Os rostos cacheados ao sol, como cascas de tangerina. <br /><br />Seu cheiro está em minhas golas como tangerina. No lado de dentro. <br /><br />Não consegui colocar seus trabalhinhos de aula fora. Nem o jogo-da-velha. Nada. Não a vejo todo dia para ganhar novos e repor a coleção. Guardo pedras para riscar sozinho. Economizo o que encontro.  <br /><br />Lembro quando percebi que faltava um botão da colcha e fui correr até sua boca. Recolhi antes que engolisse e você riu do meu desespero como se fizesse teatro de graça. <br /><br />Lembro quando trocava suas fraldas de pano e me curei do nojo. Pai se cura do nojo nos primeiros meses.  <br /><br />Mas não me lembro de tudo. Você dormia de luz acesa ou era minha mão que não se desprendia de sua testa? <br /><br />A primeira vez que você segurou seu irmão no colo. Meu Deus, você não se mexeu. Seu coração deve ter parado como uma ave finge voar para deixar o vento voar nela. <br /><br />O mesmo medo que teve ao segurar seu irmão, eu enfrentei ao recebê-la no colo. Pegava com os dois braços ou com um? Como sustentar a cabeça? Torcia para que não chorasse, para que não me estranhasse. Minha família me observava para ver se levava jeito. Eu levo jeito, minha filha? Diz para mim?<br /><br />Você engatinhou nos seios da mãe para andar em minhas costas. <br /><br />Que minha nuca desemboque no mar. <br /><br />Eu sempre me preparei para ser pai. Treinei para ser pai, como quem ensaia frases no espelho. Não é como mãe que já é mãe mesmo sem ter feito nada. Pai tem que provar que é pai. Mãe é a primeira chance. O pai aguarda a segunda.  <br /><br />Deve ser por isso que só o homem pode ser daltônico. Só o pai pode nascer daltônico. <br /><br />Escolhia meus casacos pela cor de seus desenhos. Comparava sua infância com a minha infância. Talvez eu tenha sido meu próprio filho.  Meu erro é oferecer o que não recebi e esconder o que me falta. <br /><br />Fui injusto algumas vezes contigo, apressado noutras. Sou o pai do sábado e do domingo. Dois dias para somar uma vida inteira é muito pouco. Meu amor suportava uma semana para revê-la. E a semana demorava os livros que não lerei. <br /><br />Você parte para Brasília. Sua adolescência será em novo lugar. Logo agora que me pediu beijo de boa-noite. Nunca havia me pedido. Logo agora que você e a Ana são confidentes.  Logo agora que enchemos os telhados dos vizinhos com bolas de futebol. Logo agora que me dá conselhos do que vestir e do que falar.  <br /><br />Preciso confessar: eu não amava antes de seu nascimento. Não era possível amar antes de seu nascimento. Perto de tudo o que sinto hoje, aquilo que sentia antes de você nascer não era amor. Podia ser espera ou apreensão, amor não. <br /><br />Amor não cabe num final de semana.</b><br /><br /><i>P.S: Vou voltar cedo do trabalho. Prometo cumprir dessa vez.</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>CARTA PARA MARIANA</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://media.walkerart.org/2741480.jpg"><br /><br /><b>Você já mudou de casa, de cidade, mas agora muda de estado. Nunca fiquei tão longe. Nunca. É como sofrer um segundo divórcio. O primeiro, doloroso, aconteceu quando terminei o namoro com sua mãe há onze anos. Nos abraçamos como um dia qualquer. Uma despedida qualquer diante da escadinha de ônibus. E me cochichou no ouvido para voltar cedo do trabalho.<br /><br />E não consegui dizer que não voltaria porque o ônibus já acelerava e porque meu pulmão não encontrou paz entre as palavras. <br /><br />Antes disso, vivia contigo. Eu é que levava para a creche e permanecia no período de adaptação. Você grudava em minhas pernas querendo brincar comigo e chorava a cada tentativa de fuga. Devo ter entrado na folha de pagamento da escolinha. <br /><br />Não conseguia me despedir, como hoje. <br /><br />Você sofria horrores com a tosse. A pele do seu sopro era tão leve e tênue que me obrigava a cortar as unhas para não machucá-la. <br /><br />Você descansava com relutância, unicamente no colo. Eu cantava e cantava apoiando um pé no outro. Minha voz cansada tentava enganar disposição. Pegava meus cabelos com força para se ninar. Ainda encontrará meus fios em suas roupas. <br /><br />Ao ser alfabetizada e acertar as letras, levantava seu corpo na diagonal e fazia helicóptero pela casa. Há marcas de seus pés no alto das paredes. É possível enxergar do sofá.   <br /><br />Nós temos olhos caídos. Eu e você. O que será que observamos ao nascer para derrubar os olhos?  Viver é assustador, hein?<br /><br />Você não quer ser parecida comigo. Quer ser parecida com sua mãe. Que ironia. O que mais quero é que digam que sou parecido contigo.  <br /><br />Lembro que arrumava longos varais de bonecas pelas cercas do pátio. Os rostos cacheados ao sol, como cascas de tangerina. <br /><br />Seu cheiro está em minhas golas como tangerina. No lado de dentro. <br /><br />Não consegui colocar seus trabalhinhos de aula fora. Nem o jogo-da-velha. Nada. Não a vejo todo dia para ganhar novos e repor a coleção. Guardo pedras para riscar sozinho. Economizo o que encontro.  <br /><br />Lembro quando percebi que faltava um botão da colcha e fui correr até sua boca. Recolhi antes que engolisse e você riu do meu desespero como se fizesse teatro de graça. <br /><br />Lembro quando trocava suas fraldas de pano e me curei do nojo. Pai se cura do nojo nos primeiros meses.  <br /><br />Mas não me lembro de tudo. Você dormia de luz acesa ou era minha mão que não se desprendia de sua testa? <br /><br />A primeira vez que você segurou seu irmão no colo. Meu Deus, você não se mexeu. Seu coração deve ter parado como uma ave finge voar para deixar o vento voar nela. <br /><br />O mesmo medo que teve ao segurar seu irmão, eu enfrentei ao recebê-la no colo. Pegava com os dois braços ou com um? Como sustentar a cabeça? Torcia para que não chorasse, para que não me estranhasse. Minha família me observava para ver se levava jeito. Eu levo jeito, minha filha? Diz para mim?<br /><br />Você engatinhou nos seios da mãe para andar em minhas costas. <br /><br />Que minha nuca desemboque no mar. <br /><br />Eu sempre me preparei para ser pai. Treinei para ser pai, como quem ensaia frases no espelho. Não é como mãe que já é mãe mesmo sem ter feito nada. Pai tem que provar que é pai. Mãe é a primeira chance. O pai aguarda a segunda.  <br /><br />Deve ser por isso que só o homem pode ser daltônico. Só o pai pode nascer daltônico. <br /><br />Escolhia meus casacos pela cor de seus desenhos. Comparava sua infância com a minha infância. Talvez eu tenha sido meu próprio filho.  Meu erro é oferecer o que não recebi e esconder o que me falta. <br /><br />Fui injusto algumas vezes contigo, apressado noutras. Sou o pai do sábado e do domingo. Dois dias para somar uma vida inteira é muito pouco. Meu amor suportava uma semana para revê-la. E a semana demorava os livros que não lerei. <br /><br />Você parte para Brasília. Sua adolescência será em novo lugar. Logo agora que me pediu beijo de boa-noite. Nunca havia me pedido. Logo agora que você e a Ana são confidentes.  Logo agora que enchemos os telhados dos vizinhos com bolas de futebol. Logo agora que me dá conselhos do que vestir e do que falar.  <br /><br />Preciso confessar: eu não amava antes de seu nascimento. Não era possível amar antes de seu nascimento. Perto de tudo o que sinto hoje, aquilo que sentia antes de você nascer não era amor. Podia ser espera ou apreensão, amor não. <br /><br />Amor não cabe num final de semana.</b><br /><br /><i>P.S: Vou voltar cedo do trabalho. Prometo cumprir dessa vez.</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CARTA PARA MARIANA</b><br />Arte de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://media.walkerart.org/2741480.jpg"><br /><br /><b>Você já mudou de casa, de cidade, mas agora muda de estado. Nunca fiquei tão longe. Nunca. É como sofrer um segundo divórcio. O primeiro, doloroso, aconteceu quando terminei o namoro com sua mãe há onze anos. Nos abraçamos como um dia qualquer. Uma despedida qualquer diante da escadinha de ônibus. E me cochichou no ouvido para voltar cedo do trabalho.<br /><br />E não consegui dizer que não voltaria porque o ônibus já acelerava e porque meu pulmão não encontrou paz entre as palavras. <br /><br />Antes disso, vivia contigo. Eu é que levava para a creche e permanecia no período de adaptação. Você grudava em minhas pernas querendo brincar comigo e chorava a cada tentativa de fuga. Devo ter entrado na folha de pagamento da escolinha. <br /><br />Não conseguia me despedir, como hoje. <br /><br />Você sofria horrores com a tosse. A pele do seu sopro era tão leve e tênue que me obrigava a cortar as unhas para não machucá-la. <br /><br />Você descansava com relutância, unicamente no colo. Eu cantava e cantava apoiando um pé no outro. Minha voz cansada tentava enganar disposição. Pegava meus cabelos com força para se ninar. Ainda encontrará meus fios em suas roupas. <br /><br />Ao ser alfabetizada e acertar as letras, levantava seu corpo na diagonal e fazia helicóptero pela casa. Há marcas de seus pés no alto das paredes. É possível enxergar do sofá.   <br /><br />Nós temos olhos caídos. Eu e você. O que será que observamos ao nascer para derrubar os olhos?  Viver é assustador, hein?<br /><br />Você não quer ser parecida comigo. Quer ser parecida com sua mãe. Que ironia. O que mais quero é que digam que sou parecido contigo.  <br /><br />Lembro que arrumava longos varais de bonecas pelas cercas do pátio. Os rostos cacheados ao sol, como cascas de tangerina. <br /><br />Seu cheiro está em minhas golas como tangerina. No lado de dentro. <br /><br />Não consegui colocar seus trabalhinhos de aula fora. Nem o jogo-da-velha. Nada. Não a vejo todo dia para ganhar novos e repor a coleção. Guardo pedras para riscar sozinho. Economizo o que encontro.  <br /><br />Lembro quando percebi que faltava um botão da colcha e fui correr até sua boca. Recolhi antes que engolisse e você riu do meu desespero como se fizesse teatro de graça. <br /><br />Lembro quando trocava suas fraldas de pano e me curei do nojo. Pai se cura do nojo nos primeiros meses.  <br /><br />Mas não me lembro de tudo. Você dormia de luz acesa ou era minha mão que não se desprendia de sua testa? <br /><br />A primeira vez que você segurou seu irmão no colo. Meu Deus, você não se mexeu. Seu coração deve ter parado como uma ave finge voar para deixar o vento voar nela. <br /><br />O mesmo medo que teve ao segurar seu irmão, eu enfrentei ao recebê-la no colo. Pegava com os dois braços ou com um? Como sustentar a cabeça? Torcia para que não chorasse, para que não me estranhasse. Minha família me observava para ver se levava jeito. Eu levo jeito, minha filha? Diz para mim?<br /><br />Você engatinhou nos seios da mãe para andar em minhas costas. <br /><br />Que minha nuca desemboque no mar. <br /><br />Eu sempre me preparei para ser pai. Treinei para ser pai, como quem ensaia frases no espelho. Não é como mãe que já é mãe mesmo sem ter feito nada. Pai tem que provar que é pai. Mãe é a primeira chance. O pai aguarda a segunda.  <br /><br />Deve ser por isso que só o homem pode ser daltônico. Só o pai pode nascer daltônico. <br /><br />Escolhia meus casacos pela cor de seus desenhos. Comparava sua infância com a minha infância. Talvez eu tenha sido meu próprio filho.  Meu erro é oferecer o que não recebi e esconder o que me falta. <br /><br />Fui injusto algumas vezes contigo, apressado noutras. Sou o pai do sábado e do domingo. Dois dias para somar uma vida inteira é muito pouco. Meu amor suportava uma semana para revê-la. E a semana demorava os livros que não lerei. <br /><br />Você parte para Brasília. Sua adolescência será em novo lugar. Logo agora que me pediu beijo de boa-noite. Nunca havia me pedido. Logo agora que você e a Ana são confidentes.  Logo agora que enchemos os telhados dos vizinhos com bolas de futebol. Logo agora que me dá conselhos do que vestir e do que falar.  <br /><br />Preciso confessar: eu não amava antes de seu nascimento. Não era possível amar antes de seu nascimento. Perto de tudo o que sinto hoje, aquilo que sentia antes de você nascer não era amor. Podia ser espera ou apreensão, amor não. <br /><br />Amor não cabe num final de semana.</b><br /><br /><i>P.S: Vou voltar cedo do trabalho. Prometo cumprir dessa vez.</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38845504</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/26/2006 09:13:22 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>SERÁ QUE NÃO FUI GRUDENTO?</b><br />Do Consultório Poético <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_149859.shtml ">site da Superinteressante </a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Pensei muito sobre escrever pra você, durante muito e muito tempo, pode ter certeza. Não tinha certeza se gostaria de ver a minha história exposta no blog de um escritor tão competente e conhecido. Além do fato de a personagem principal desta história ser leitora assídua dos seus textos. Mas é um risco óbvio que vou correr, mesmo sabendo que isso causará profunda contrariedade nela. <br /><br />Falar dela é algo que me faz muito bem, sempre desperta minhas emoções. Ela tem 32 anos; eu, 20. Fui aluno dela, ainda na época do "colegial", e tinha uma admiração indescritível por aquela mulher tão linda e extrovertida, cheia de vida. Mas aos 16 anos esse tipo de reação é tão assídua que até desconsiderei, na época; mas guardei detalhes dela em minha memória, frases, sorrisos, e guardo-os até hoje. <br /><br />Os anos passaram, eu a reencontrei no orkut. Antes disso, havia tentado manter contato via e-mail com ela, sem sucesso. Somente após muitos meses com ela em minha lista de amigos do orkut é que decidi tentar um outro tipo de contato: como homem, não como ex-aluno. Uma frase despretensiosa e irresponsável e que surpreendentemente foi positivamente correspondida. Passamos a trocar dezenas de e-mails durante o dia, era uma irresponsabilidade para ela; para mim era um sonho. <br /><br />Era quase madrugada de uma sexta-feira qualquer quando o telefone toca e, ao ouvir minha voz, a pessoa do outro lado da linha desliga. Vi o número no bina, retornei: era ela. Foram 4 horas ao telefone e no dia seguinte, para minha surpresa, ela simplesmente pegou seu carro e veio até mim. Ao entrar no carro, antes mesmo que ela pudesse se manifestar, beijei-a. Passamos a noite juntos, e não tenho a menor dúvida em afirmar que foi a melhor noite da minha vida. <br /><br />As semanas se seguiram, nos vimos mais duas, talvez três vezes, entre dezenas de ligações diárias, cada vez mais românticas, ela é uma pessoa romântica e eu sempre fui exageradamente romântico. Mas creio que acabei sufocando-a, e ela, dividida entre o crescimento de um sentimento com o qual ela não estava preparada para lidar - ela própria alegava ter preconceito com relacionamentos com tal diferença de idade - e o medo de se ver compromissada com um garoto "inconseqüente", afastou-se de mim. <br /><br />Sofri muito, muito mesmo. Tentei não me envolver, mas não havia como, ela é fascinante, apaixonante, incrível. Hoje mal nos falamos, ela se afastou de vez, e eu ainda não sei ao certo o motivo. E às vezes sinto saudades demais dos momentos que vivi com ela, e, sobretudo, dos momentos que eu ainda poderia viver. <br /><br />Um sonho, de fato. Tão breve e intenso quanto um sonho. Que gostaria muito de ter de volta, mas sonhos não se repetem...<br /><br />Obrigado por ler minhas palavras. Você é muito competente no que faz, procuro sempre ler seus textos como inspiração aos meus."</i><br /><br /><br />Olá, Bruno!<br /><br />Uma mulher começa o relacionamento imaginando seu final. O homem começa o relacionamento para retardar o final. É uma operação nem boa nem ruim; a mulher já projeta o filme desde o seu início; o homem pretende assistir pouco a pouco, o que torna meio inconseqüente. <br /><br />Compreendo o seu sofrimento, mas vamos tentar esclarecer a situação. O namoro de vocês partiu de uma situação de admiração (professora-aluno). É evidente que a submissão inicial e a noção de proibido acentuaram a intensidade do encontro anos depois. Afinal, o desejo ficou em ti contido desde aquela época, aguardando uma chance de transgressão. <br /><br />A diferença de idade não conta tanto, por mais que o preconceito estivesse evidenciado por ela. O que talvez tenha complicado o namoro foi uma ausência de expectativa e perspectiva entre seu mundo e o dela, sua atuação profissional e a dela. Ela não o enxergou como alguém autônomo e seguro. Era o passo seguinte para sustentar o envolvimento, para superar o comprometimento episódico e onírico. <br /><br />Seu exagero romântico soou como um alarme de incêndio na casa dela. Será que você não pareceu irremediavelmente dependente? Nem nos damos conta quando ultrapassamos a cota. Há um limite entre ser um companheiro, que traz uma paridade, e ser filho, que pede controle e censura. Ela ficou com receio de adotá-lo e com vergonha social de continuar. Pode ser que o ame, mas amar significa não sufocar. Deve deixá-la à vontade inclusive para negá-lo. Assim ela terá condições de decidir e até voltar. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>SERÁ QUE NÃO FUI GRUDENTO?</b><br />Do Consultório Poético <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_149859.shtml ">site da Superinteressante </a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Pensei muito sobre escrever pra você, durante muito e muito tempo, pode ter certeza. Não tinha certeza se gostaria de ver a minha história exposta no blog de um escritor tão competente e conhecido. Além do fato de a personagem principal desta história ser leitora assídua dos seus textos. Mas é um risco óbvio que vou correr, mesmo sabendo que isso causará profunda contrariedade nela. <br /><br />Falar dela é algo que me faz muito bem, sempre desperta minhas emoções. Ela tem 32 anos; eu, 20. Fui aluno dela, ainda na época do "colegial", e tinha uma admiração indescritível por aquela mulher tão linda e extrovertida, cheia de vida. Mas aos 16 anos esse tipo de reação é tão assídua que até desconsiderei, na época; mas guardei detalhes dela em minha memória, frases, sorrisos, e guardo-os até hoje. <br /><br />Os anos passaram, eu a reencontrei no orkut. Antes disso, havia tentado manter contato via e-mail com ela, sem sucesso. Somente após muitos meses com ela em minha lista de amigos do orkut é que decidi tentar um outro tipo de contato: como homem, não como ex-aluno. Uma frase despretensiosa e irresponsável e que surpreendentemente foi positivamente correspondida. Passamos a trocar dezenas de e-mails durante o dia, era uma irresponsabilidade para ela; para mim era um sonho. <br /><br />Era quase madrugada de uma sexta-feira qualquer quando o telefone toca e, ao ouvir minha voz, a pessoa do outro lado da linha desliga. Vi o número no bina, retornei: era ela. Foram 4 horas ao telefone e no dia seguinte, para minha surpresa, ela simplesmente pegou seu carro e veio até mim. Ao entrar no carro, antes mesmo que ela pudesse se manifestar, beijei-a. Passamos a noite juntos, e não tenho a menor dúvida em afirmar que foi a melhor noite da minha vida. <br /><br />As semanas se seguiram, nos vimos mais duas, talvez três vezes, entre dezenas de ligações diárias, cada vez mais românticas, ela é uma pessoa romântica e eu sempre fui exageradamente romântico. Mas creio que acabei sufocando-a, e ela, dividida entre o crescimento de um sentimento com o qual ela não estava preparada para lidar - ela própria alegava ter preconceito com relacionamentos com tal diferença de idade - e o medo de se ver compromissada com um garoto "inconseqüente", afastou-se de mim. <br /><br />Sofri muito, muito mesmo. Tentei não me envolver, mas não havia como, ela é fascinante, apaixonante, incrível. Hoje mal nos falamos, ela se afastou de vez, e eu ainda não sei ao certo o motivo. E às vezes sinto saudades demais dos momentos que vivi com ela, e, sobretudo, dos momentos que eu ainda poderia viver. <br /><br />Um sonho, de fato. Tão breve e intenso quanto um sonho. Que gostaria muito de ter de volta, mas sonhos não se repetem...<br /><br />Obrigado por ler minhas palavras. Você é muito competente no que faz, procuro sempre ler seus textos como inspiração aos meus."</i><br /><br /><br />Olá, Bruno!<br /><br />Uma mulher começa o relacionamento imaginando seu final. O homem começa o relacionamento para retardar o final. É uma operação nem boa nem ruim; a mulher já projeta o filme desde o seu início; o homem pretende assistir pouco a pouco, o que torna meio inconseqüente. <br /><br />Compreendo o seu sofrimento, mas vamos tentar esclarecer a situação. O namoro de vocês partiu de uma situação de admiração (professora-aluno). É evidente que a submissão inicial e a noção de proibido acentuaram a intensidade do encontro anos depois. Afinal, o desejo ficou em ti contido desde aquela época, aguardando uma chance de transgressão. <br /><br />A diferença de idade não conta tanto, por mais que o preconceito estivesse evidenciado por ela. O que talvez tenha complicado o namoro foi uma ausência de expectativa e perspectiva entre seu mundo e o dela, sua atuação profissional e a dela. Ela não o enxergou como alguém autônomo e seguro. Era o passo seguinte para sustentar o envolvimento, para superar o comprometimento episódico e onírico. <br /><br />Seu exagero romântico soou como um alarme de incêndio na casa dela. Será que você não pareceu irremediavelmente dependente? Nem nos damos conta quando ultrapassamos a cota. Há um limite entre ser um companheiro, que traz uma paridade, e ser filho, que pede controle e censura. Ela ficou com receio de adotá-lo e com vergonha social de continuar. Pode ser que o ame, mas amar significa não sufocar. Deve deixá-la à vontade inclusive para negá-lo. Assim ela terá condições de decidir e até voltar. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>SERÁ QUE NÃO FUI GRUDENTO?</b><br />Do Consultório Poético <br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_149859.shtml ">site da Superinteressante </a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/d3b4b55b.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Pensei muito sobre escrever pra você, durante muito e muito tempo, pode ter certeza. Não tinha certeza se gostaria de ver a minha história exposta no blog de um escritor tão competente e conhecido. Além do fato de a personagem principal desta história ser leitora assídua dos seus textos. Mas é um risco óbvio que vou correr, mesmo sabendo que isso causará profunda contrariedade nela. <br /><br />Falar dela é algo que me faz muito bem, sempre desperta minhas emoções. Ela tem 32 anos; eu, 20. Fui aluno dela, ainda na época do "colegial", e tinha uma admiração indescritível por aquela mulher tão linda e extrovertida, cheia de vida. Mas aos 16 anos esse tipo de reação é tão assídua que até desconsiderei, na época; mas guardei detalhes dela em minha memória, frases, sorrisos, e guardo-os até hoje. <br /><br />Os anos passaram, eu a reencontrei no orkut. Antes disso, havia tentado manter contato via e-mail com ela, sem sucesso. Somente após muitos meses com ela em minha lista de amigos do orkut é que decidi tentar um outro tipo de contato: como homem, não como ex-aluno. Uma frase despretensiosa e irresponsável e que surpreendentemente foi positivamente correspondida. Passamos a trocar dezenas de e-mails durante o dia, era uma irresponsabilidade para ela; para mim era um sonho. <br /><br />Era quase madrugada de uma sexta-feira qualquer quando o telefone toca e, ao ouvir minha voz, a pessoa do outro lado da linha desliga. Vi o número no bina, retornei: era ela. Foram 4 horas ao telefone e no dia seguinte, para minha surpresa, ela simplesmente pegou seu carro e veio até mim. Ao entrar no carro, antes mesmo que ela pudesse se manifestar, beijei-a. Passamos a noite juntos, e não tenho a menor dúvida em afirmar que foi a melhor noite da minha vida. <br /><br />As semanas se seguiram, nos vimos mais duas, talvez três vezes, entre dezenas de ligações diárias, cada vez mais românticas, ela é uma pessoa romântica e eu sempre fui exageradamente romântico. Mas creio que acabei sufocando-a, e ela, dividida entre o crescimento de um sentimento com o qual ela não estava preparada para lidar - ela própria alegava ter preconceito com relacionamentos com tal diferença de idade - e o medo de se ver compromissada com um garoto "inconseqüente", afastou-se de mim. <br /><br />Sofri muito, muito mesmo. Tentei não me envolver, mas não havia como, ela é fascinante, apaixonante, incrível. Hoje mal nos falamos, ela se afastou de vez, e eu ainda não sei ao certo o motivo. E às vezes sinto saudades demais dos momentos que vivi com ela, e, sobretudo, dos momentos que eu ainda poderia viver. <br /><br />Um sonho, de fato. Tão breve e intenso quanto um sonho. Que gostaria muito de ter de volta, mas sonhos não se repetem...<br /><br />Obrigado por ler minhas palavras. Você é muito competente no que faz, procuro sempre ler seus textos como inspiração aos meus."</i><br /><br /><br />Olá, Bruno!<br /><br />Uma mulher começa o relacionamento imaginando seu final. O homem começa o relacionamento para retardar o final. É uma operação nem boa nem ruim; a mulher já projeta o filme desde o seu início; o homem pretende assistir pouco a pouco, o que torna meio inconseqüente. <br /><br />Compreendo o seu sofrimento, mas vamos tentar esclarecer a situação. O namoro de vocês partiu de uma situação de admiração (professora-aluno). É evidente que a submissão inicial e a noção de proibido acentuaram a intensidade do encontro anos depois. Afinal, o desejo ficou em ti contido desde aquela época, aguardando uma chance de transgressão. <br /><br />A diferença de idade não conta tanto, por mais que o preconceito estivesse evidenciado por ela. O que talvez tenha complicado o namoro foi uma ausência de expectativa e perspectiva entre seu mundo e o dela, sua atuação profissional e a dela. Ela não o enxergou como alguém autônomo e seguro. Era o passo seguinte para sustentar o envolvimento, para superar o comprometimento episódico e onírico. <br /><br />Seu exagero romântico soou como um alarme de incêndio na casa dela. Será que você não pareceu irremediavelmente dependente? Nem nos damos conta quando ultrapassamos a cota. Há um limite entre ser um companheiro, que traz uma paridade, e ser filho, que pede controle e censura. Ela ficou com receio de adotá-lo e com vergonha social de continuar. Pode ser que o ame, mas amar significa não sufocar. Deve deixá-la à vontade inclusive para negá-lo. Assim ela terá condições de decidir e até voltar. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38845113</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/26/2006 07:24:59 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O QUE EU ESTAVA PROCURANDO MESMO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_372_96227_Joseph-Cornell.jpg"><br /><br />Meu desespero não é calculado. Caso fosse, seria depressão. Um suicídio planejado com antecedência é assassinato. <br /><br />Eu não sei quando vou explodir, costuma acontecer no momento em que não estou preparada. Naquele instante em que controlei a respiração e restabeleci a paz, que baixei a guarda e me vi salva de mim, dos meus colapsos e iras infernais de dizer a verdade mesmo quando ela não me fará falta e diferença ao mundo. Uma frase que entra torta, um cumprimento dissimulado, uma pergunta maliciosa e gritei bobagem e queimei os manuais de geladeira. <br /><br />Nenhuma vontade de freqüentar o supermercado na sexta de noite, porque significa cozinhar no dia seguinte. Superei a fobia para não reclamar depois da geladeira vazia.  A fila me irritou um pouco, mas não foi isso que me irritou completamente. Irritou-me perceber que esquecerei duas ou três coisas que sempre esqueço de comprar e que só me lembro quando guardo os mantimentos no armário. Mas não foi isso que me irritou completamente. <br /><br />O que me irritou não tem nada a ver com quem disse. Não tem nada a ver com a tensão pré-menstrual. Nada tem a ver com o mercado, ou com as bolsas como bóias na esteira. Nada tem a ver. Ia tudo bem, havia assinado o cartão de crédito, deixava o balcão quando a atendente soltou o riso e perguntou: "Ah, encontrou tudo o que procurava?". <br /><br />Ela atrasou a fala automática na hora de passar todos os produtos e tentou recuperar o tempo perdido. Deve ter sofrido o pânico de contrariar a orientação do gerente. Ou o receio de uma cobrança dos colegas. Falou rapidinho, como quem diz tchau. Falou rapidinho, assim como se aprende na auto-escola a dar o pisca-alerta mesmo que já tenhamos dobrado a rua.  Já ouvi a frase tantas vezes e nunca me incomodei. O problema foi o atraso da pergunta, que acentou sua gratuidade. <br /><br />"Encontrou tudo o que procurava?". Retornei o rosto para ela e não menti: <b>não encontrei dois quilos a menos, não encontrei um namorado que não seja casado,  capaz de responder mensagens no final de semana, não encontrei algo de novo para entreter minha mãe e não escutar que está ficando tarde para que tenha filhos, não encontrei um trabalho que me pague mais e me inspire a trabalhar menos, não encontrei um livro que não me faça dormir, não encontrei uma calça 38 que me sirva, não encontrei minha infância quando não pedia permissão para ser mulher, não encontrei minha amiga que morreu cedo no acidente de carro, não encontrei um motivo fora de mim para que justificasse o esforço de ser bonita, não encontrei uma frase inteligente em nenhum pára-choque de caminhão, não encontrei o orgasmo vaginal, não encontrei gentileza quando chorava, não encontrei um par para dançar, não encontrei um vinho que melhorou depois de abrir a rolha na noite anterior, não encontrei um segredo que não se transformou em gripe mal-curada, não encontrei uma manicure que não tire lascas quando chego atrasada, não encontrei uma tristeza que arrume a cama, não encontrei um nome para pôr como beneficiado no seguro de vida, não encontrei paciência para cachorro ou gato, paciência para flores na jardineira, não encontrei um restaurante que o garçom olhe primeiro para mim, não encontrei uma vingança pontual (minha maldade demora a elaborar respostas), não encontrei uma forma de segurar meus seios, não encontrei uma foto que não me veja assustada.<br /><br />Aqui, ou na minha casa, não encontrei. Trinta e três anos sem reposição. Mas volto outro dia.</b> <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O QUE EU ESTAVA PROCURANDO MESMO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_372_96227_Joseph-Cornell.jpg"><br /><br />Meu desespero não é calculado. Caso fosse, seria depressão. Um suicídio planejado com antecedência é assassinato. <br /><br />Eu não sei quando vou explodir, costuma acontecer no momento em que não estou preparada. Naquele instante em que controlei a respiração e restabeleci a paz, que baixei a guarda e me vi salva de mim, dos meus colapsos e iras infernais de dizer a verdade mesmo quando ela não me fará falta e diferença ao mundo. Uma frase que entra torta, um cumprimento dissimulado, uma pergunta maliciosa e gritei bobagem e queimei os manuais de geladeira. <br /><br />Nenhuma vontade de freqüentar o supermercado na sexta de noite, porque significa cozinhar no dia seguinte. Superei a fobia para não reclamar depois da geladeira vazia.  A fila me irritou um pouco, mas não foi isso que me irritou completamente. Irritou-me perceber que esquecerei duas ou três coisas que sempre esqueço de comprar e que só me lembro quando guardo os mantimentos no armário. Mas não foi isso que me irritou completamente. <br /><br />O que me irritou não tem nada a ver com quem disse. Não tem nada a ver com a tensão pré-menstrual. Nada tem a ver com o mercado, ou com as bolsas como bóias na esteira. Nada tem a ver. Ia tudo bem, havia assinado o cartão de crédito, deixava o balcão quando a atendente soltou o riso e perguntou: "Ah, encontrou tudo o que procurava?". <br /><br />Ela atrasou a fala automática na hora de passar todos os produtos e tentou recuperar o tempo perdido. Deve ter sofrido o pânico de contrariar a orientação do gerente. Ou o receio de uma cobrança dos colegas. Falou rapidinho, como quem diz tchau. Falou rapidinho, assim como se aprende na auto-escola a dar o pisca-alerta mesmo que já tenhamos dobrado a rua.  Já ouvi a frase tantas vezes e nunca me incomodei. O problema foi o atraso da pergunta, que acentou sua gratuidade. <br /><br />"Encontrou tudo o que procurava?". Retornei o rosto para ela e não menti: <b>não encontrei dois quilos a menos, não encontrei um namorado que não seja casado,  capaz de responder mensagens no final de semana, não encontrei algo de novo para entreter minha mãe e não escutar que está ficando tarde para que tenha filhos, não encontrei um trabalho que me pague mais e me inspire a trabalhar menos, não encontrei um livro que não me faça dormir, não encontrei uma calça 38 que me sirva, não encontrei minha infância quando não pedia permissão para ser mulher, não encontrei minha amiga que morreu cedo no acidente de carro, não encontrei um motivo fora de mim para que justificasse o esforço de ser bonita, não encontrei uma frase inteligente em nenhum pára-choque de caminhão, não encontrei o orgasmo vaginal, não encontrei gentileza quando chorava, não encontrei um par para dançar, não encontrei um vinho que melhorou depois de abrir a rolha na noite anterior, não encontrei um segredo que não se transformou em gripe mal-curada, não encontrei uma manicure que não tire lascas quando chego atrasada, não encontrei uma tristeza que arrume a cama, não encontrei um nome para pôr como beneficiado no seguro de vida, não encontrei paciência para cachorro ou gato, paciência para flores na jardineira, não encontrei um restaurante que o garçom olhe primeiro para mim, não encontrei uma vingança pontual (minha maldade demora a elaborar respostas), não encontrei uma forma de segurar meus seios, não encontrei uma foto que não me veja assustada.<br /><br />Aqui, ou na minha casa, não encontrei. Trinta e três anos sem reposição. Mas volto outro dia.</b> <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O QUE EU ESTAVA PROCURANDO MESMO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.artnet.com/artwork_images_372_96227_Joseph-Cornell.jpg"><br /><br />Meu desespero não é calculado. Caso fosse, seria depressão. Um suicídio planejado com antecedência é assassinato. <br /><br />Eu não sei quando vou explodir, costuma acontecer no momento em que não estou preparada. Naquele instante em que controlei a respiração e restabeleci a paz, que baixei a guarda e me vi salva de mim, dos meus colapsos e iras infernais de dizer a verdade mesmo quando ela não me fará falta e diferença ao mundo. Uma frase que entra torta, um cumprimento dissimulado, uma pergunta maliciosa e gritei bobagem e queimei os manuais de geladeira. <br /><br />Nenhuma vontade de freqüentar o supermercado na sexta de noite, porque significa cozinhar no dia seguinte. Superei a fobia para não reclamar depois da geladeira vazia.  A fila me irritou um pouco, mas não foi isso que me irritou completamente. Irritou-me perceber que esquecerei duas ou três coisas que sempre esqueço de comprar e que só me lembro quando guardo os mantimentos no armário. Mas não foi isso que me irritou completamente. <br /><br />O que me irritou não tem nada a ver com quem disse. Não tem nada a ver com a tensão pré-menstrual. Nada tem a ver com o mercado, ou com as bolsas como bóias na esteira. Nada tem a ver. Ia tudo bem, havia assinado o cartão de crédito, deixava o balcão quando a atendente soltou o riso e perguntou: "Ah, encontrou tudo o que procurava?". <br /><br />Ela atrasou a fala automática na hora de passar todos os produtos e tentou recuperar o tempo perdido. Deve ter sofrido o pânico de contrariar a orientação do gerente. Ou o receio de uma cobrança dos colegas. Falou rapidinho, como quem diz tchau. Falou rapidinho, assim como se aprende na auto-escola a dar o pisca-alerta mesmo que já tenhamos dobrado a rua.  Já ouvi a frase tantas vezes e nunca me incomodei. O problema foi o atraso da pergunta, que acentou sua gratuidade. <br /><br />"Encontrou tudo o que procurava?". Retornei o rosto para ela e não menti: <b>não encontrei dois quilos a menos, não encontrei um namorado que não seja casado,  capaz de responder mensagens no final de semana, não encontrei algo de novo para entreter minha mãe e não escutar que está ficando tarde para que tenha filhos, não encontrei um trabalho que me pague mais e me inspire a trabalhar menos, não encontrei um livro que não me faça dormir, não encontrei uma calça 38 que me sirva, não encontrei minha infância quando não pedia permissão para ser mulher, não encontrei minha amiga que morreu cedo no acidente de carro, não encontrei um motivo fora de mim para que justificasse o esforço de ser bonita, não encontrei uma frase inteligente em nenhum pára-choque de caminhão, não encontrei o orgasmo vaginal, não encontrei gentileza quando chorava, não encontrei um par para dançar, não encontrei um vinho que melhorou depois de abrir a rolha na noite anterior, não encontrei um segredo que não se transformou em gripe mal-curada, não encontrei uma manicure que não tire lascas quando chego atrasada, não encontrei uma tristeza que arrume a cama, não encontrei um nome para pôr como beneficiado no seguro de vida, não encontrei paciência para cachorro ou gato, paciência para flores na jardineira, não encontrei um restaurante que o garçom olhe primeiro para mim, não encontrei uma vingança pontual (minha maldade demora a elaborar respostas), não encontrei uma forma de segurar meus seios, não encontrei uma foto que não me veja assustada.<br /><br />Aqui, ou na minha casa, não encontrei. Trinta e três anos sem reposição. Mas volto outro dia.</b> <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38830694</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/22/2006 10:10:37 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PROCURA-SE UM BRINCO</b><br />Pintura de Matisse<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.public.coe.edu/departments/Art/matisse.jpg"><br /><br />Uma professora de Dois Irmãos perdeu um dos brincos há três anos. Talvez em casa, talvez na rua, talvez no trabalho. Chegou a se agachar no tapete da sala para ver se descobria um sinal luminoso. Mexeu com as mãos por dentro das fibras, a exemplo de uma nuca, à procura de um caroço benigno. Não achou. Repetiu o procedimento na mesa do seu escritório. Insistiu e não encontrou, nem com ajuda de salve-rainha. Enraizou-se nas distrações. Os pés concentrados roçam as pedras com quem desce à nascente do rio.  <br /><br />Extraviar a tarraxa, tudo bem, rouba-se de um outro brinco. Mas o brinco escapuliu de sua orelha de repente. Sem nenhum esbarrão e aviso. Ela notou bem mais tarde, antes de dormir, quando já tinha esquecido da última vez que o viu e tocou. Não adianta comprar outro, pois o que fazer com o que ficou? <br /><br />Ainda hoje ela anda com olhar enviesado ao chão, na esperança de completar o par. Carrega o brinco solteiro na bolsa. Nunca mais tirou dali - nem pretende. Na conversa que entra, já traz a esperança de reaver o brinco. Como se fosse possível ele ressurgir em uma cidade diferente, numa casa estranha. Sua esperança transformou-se no próprio ouvido. <br /><br />A professora é a encarnação de toda mulher que espera encontrar um namorado, um marido dentro do namorado, um amigo dentro do marido. Se tivesse perdido a fé, teria posto o brinco solitário numa cômoda, numa gaveta do armário, para não mais costurar seus cabelos. Esqueceria o que ele foi. Mas ela não desiste. Não se entrega. Carrega a peça junto como um santinho, um prendedor de cordão umbilical, um broche de família. Não que precise de um homem ou de um brinco, precisa de si mais um pouco. <br /><br />Sei que é mais fácil dizer que não há nenhum interesse, que não se deseja relacionamentos sérios, que é o momento de viver a independência, que é cedo a firmar compromisso. Forma de diminuir a pressão e a expectativa, reduzir o sofrimento de uma futura ruptura. Só que é mentira. Ela continuará romântica como sua mãe, romântica como sua avó, romântica como sua bisavó. Não se começa uma história de amor para testar. Não se mergulha numa relação para simplesmente curtir. Qualquer encontro é decisivo, qualquer encontro que envolva linguagem e corpo já tem peso. Mesmo que seja uma bobagem, uma bebedeira, uma besteira. Mesmo que seja para se arrepender. Não dá para sair sem bater a porta. E entrar com hora certa a sair. <br /><br />Cada mulher tem uma jóia solteira na bolsa e vai conferir se não acha o conjunto para concluir o rosto. <br /><br />Até porque a orelha volta a fechar sem o brinco. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>PROCURA-SE UM BRINCO</b><br />Pintura de Matisse<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.public.coe.edu/departments/Art/matisse.jpg"><br /><br />Uma professora de Dois Irmãos perdeu um dos brincos há três anos. Talvez em casa, talvez na rua, talvez no trabalho. Chegou a se agachar no tapete da sala para ver se descobria um sinal luminoso. Mexeu com as mãos por dentro das fibras, a exemplo de uma nuca, à procura de um caroço benigno. Não achou. Repetiu o procedimento na mesa do seu escritório. Insistiu e não encontrou, nem com ajuda de salve-rainha. Enraizou-se nas distrações. Os pés concentrados roçam as pedras com quem desce à nascente do rio.  <br /><br />Extraviar a tarraxa, tudo bem, rouba-se de um outro brinco. Mas o brinco escapuliu de sua orelha de repente. Sem nenhum esbarrão e aviso. Ela notou bem mais tarde, antes de dormir, quando já tinha esquecido da última vez que o viu e tocou. Não adianta comprar outro, pois o que fazer com o que ficou? <br /><br />Ainda hoje ela anda com olhar enviesado ao chão, na esperança de completar o par. Carrega o brinco solteiro na bolsa. Nunca mais tirou dali - nem pretende. Na conversa que entra, já traz a esperança de reaver o brinco. Como se fosse possível ele ressurgir em uma cidade diferente, numa casa estranha. Sua esperança transformou-se no próprio ouvido. <br /><br />A professora é a encarnação de toda mulher que espera encontrar um namorado, um marido dentro do namorado, um amigo dentro do marido. Se tivesse perdido a fé, teria posto o brinco solitário numa cômoda, numa gaveta do armário, para não mais costurar seus cabelos. Esqueceria o que ele foi. Mas ela não desiste. Não se entrega. Carrega a peça junto como um santinho, um prendedor de cordão umbilical, um broche de família. Não que precise de um homem ou de um brinco, precisa de si mais um pouco. <br /><br />Sei que é mais fácil dizer que não há nenhum interesse, que não se deseja relacionamentos sérios, que é o momento de viver a independência, que é cedo a firmar compromisso. Forma de diminuir a pressão e a expectativa, reduzir o sofrimento de uma futura ruptura. Só que é mentira. Ela continuará romântica como sua mãe, romântica como sua avó, romântica como sua bisavó. Não se começa uma história de amor para testar. Não se mergulha numa relação para simplesmente curtir. Qualquer encontro é decisivo, qualquer encontro que envolva linguagem e corpo já tem peso. Mesmo que seja uma bobagem, uma bebedeira, uma besteira. Mesmo que seja para se arrepender. Não dá para sair sem bater a porta. E entrar com hora certa a sair. <br /><br />Cada mulher tem uma jóia solteira na bolsa e vai conferir se não acha o conjunto para concluir o rosto. <br /><br />Até porque a orelha volta a fechar sem o brinco. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PROCURA-SE UM BRINCO</b><br />Pintura de Matisse<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.public.coe.edu/departments/Art/matisse.jpg"><br /><br />Uma professora de Dois Irmãos perdeu um dos brincos há três anos. Talvez em casa, talvez na rua, talvez no trabalho. Chegou a se agachar no tapete da sala para ver se descobria um sinal luminoso. Mexeu com as mãos por dentro das fibras, a exemplo de uma nuca, à procura de um caroço benigno. Não achou. Repetiu o procedimento na mesa do seu escritório. Insistiu e não encontrou, nem com ajuda de salve-rainha. Enraizou-se nas distrações. Os pés concentrados roçam as pedras com quem desce à nascente do rio.  <br /><br />Extraviar a tarraxa, tudo bem, rouba-se de um outro brinco. Mas o brinco escapuliu de sua orelha de repente. Sem nenhum esbarrão e aviso. Ela notou bem mais tarde, antes de dormir, quando já tinha esquecido da última vez que o viu e tocou. Não adianta comprar outro, pois o que fazer com o que ficou? <br /><br />Ainda hoje ela anda com olhar enviesado ao chão, na esperança de completar o par. Carrega o brinco solteiro na bolsa. Nunca mais tirou dali - nem pretende. Na conversa que entra, já traz a esperança de reaver o brinco. Como se fosse possível ele ressurgir em uma cidade diferente, numa casa estranha. Sua esperança transformou-se no próprio ouvido. <br /><br />A professora é a encarnação de toda mulher que espera encontrar um namorado, um marido dentro do namorado, um amigo dentro do marido. Se tivesse perdido a fé, teria posto o brinco solitário numa cômoda, numa gaveta do armário, para não mais costurar seus cabelos. Esqueceria o que ele foi. Mas ela não desiste. Não se entrega. Carrega a peça junto como um santinho, um prendedor de cordão umbilical, um broche de família. Não que precise de um homem ou de um brinco, precisa de si mais um pouco. <br /><br />Sei que é mais fácil dizer que não há nenhum interesse, que não se deseja relacionamentos sérios, que é o momento de viver a independência, que é cedo a firmar compromisso. Forma de diminuir a pressão e a expectativa, reduzir o sofrimento de uma futura ruptura. Só que é mentira. Ela continuará romântica como sua mãe, romântica como sua avó, romântica como sua bisavó. Não se começa uma história de amor para testar. Não se mergulha numa relação para simplesmente curtir. Qualquer encontro é decisivo, qualquer encontro que envolva linguagem e corpo já tem peso. Mesmo que seja uma bobagem, uma bebedeira, uma besteira. Mesmo que seja para se arrepender. Não dá para sair sem bater a porta. E entrar com hora certa a sair. <br /><br />Cada mulher tem uma jóia solteira na bolsa e vai conferir se não acha o conjunto para concluir o rosto. <br /><br />Até porque a orelha volta a fechar sem o brinco. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38826516</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/21/2006 04:15:56 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title>Revista <a href="http://vidasimples.abril.uol.com.br/edicoes/044/08.shtml">Vida Simples</a>, edição de <b>agosto de 2006</b><br /><br /><b>POESIA PARA RECICLAR</b><br />Um dos melhores escritores brasileiros da nova geração escreve sobre seu mestre, o poeta Manoel de Barros <br /><br />por <b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://vidasimples.abril.uol.com.br/imagem/044_08_01m.jpg"><br /><br />Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma. <br /><br />Qualquer fresta é a festa do grafite. Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve. <br /><br />Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século 20. Durante 50 anos, desde o momento em que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as dela tinham o mesmo tamanho: até 25 letras.Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou na altura ideal do seu poema. "Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem", afirma o poeta. Ou, como ele mesmo confessa em um verso do seu mais recente livro, Poemas Rupestres: "Minha naturezinha particular: até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar". <br /><br />Não foi como advogado, profissão da qual desistiu por timidez e nervosismo ("Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia"), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do pai, João, que se tornou conhecido. Foi apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores. <br /><br />Natural de Cuiabá (MT), Barros completa 90 anos daqui a alguns meses. "Fui longe", afirma. Nasceu em 19 de dezembro. "Posso curtir o ano inteiro antes do aniversário", pontua. <br /><br />Seu amor pela mulher Stella, 84 anos, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 58 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais."Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: 'Sobe e vai trabalhar mais'. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom.Conhece meu estilo", diz. <br /><br />A cumplicidade e a telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como "alguém fora dele". "Ela é alguém dentro de mim." Do casamento, tem três filhos: Martha, 54, que mora no Rio de Janeiro e já ilustrou suas obras, Pedro, 57, e João, 50, que atualmente residem com ele, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande (MS). <br /><br /><b>Singeleza do orvalho</b><br /><br />Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida, diferente dos rótulos que recebeu de "poeta do Pantanal" e "ecológico". É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura. "Virei um fã da pura expressão de Charles Chaplin", lembra. Residiu 40 anos no Rio de Janeiro, tempo em que se casou e se formou em direito. Só voltou para o Centro-Oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. <br /><br />Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como o dicionarista Antonio Houaiss, o escritor Millôr Fernandes e o editor Ênio Silveira. <br /><br />Com 18 livros de poesia, dois infantis e um de prosa, hoje representa um dos poetas que mais vendem no país, editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). <br /><br /><b>O mínimo incomum</b><br /><br />Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, em vez de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos. <br /><br />Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade.Tudo o que não presta serve para sua lírica."Poesia não é para compreender, mas para incorporar", conceitua. Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família. <br /><br />Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhumas, pacus, graxas e beija-flores-de-rodas-vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância. Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. "É manso, não atrapalha e canta melhor livre", comenta Barros. <br /><br />Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos "inutensílios" (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos "nadifúndios"(latifúndios do nada). "O cisco tem agora para mim uma importância de catedral" ("Retrato do Artista quando Coisa"). <br /><br />Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo. <br /><br /><b>Menino aprendiz</b><br /><br />O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de "desaprender oito horas por dia ensina os princípios". <br /><br />O poeta faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. "Poesia é voar fora da asa" (O Livro das Ignorãças). <br /><br />O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá- la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade.Atua no espaço do "faz-de-conta". O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos. <br /><br />Sua poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de miniconto, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre os álbuns de fotografias da família. <br /><br /><b>Falar manoelês</b><br /><br />A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana, com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da "universidade do folclore" de Câmara Cascudo e do poeta Raul Bopp. <br /><br />Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados. <br /><br />Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. O que a sociedade de consumo preza ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá- lo. Um carro no ferro-velho, na sua teoria, tem mais valor que um novo. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. <br /><br />Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa. <br /><br /><b>Para saber mais</b><br />Livros:<br /><br /><b>º</b> O Livro das Ignorãças, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Poemas Rupestres, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Livro sobre Nada, Manoel de Barros, Record <br /></title>
<description><![CDATA[Revista <a href="http://vidasimples.abril.uol.com.br/edicoes/044/08.shtml">Vida Simples</a>, edição de <b>agosto de 2006</b><br /><br /><b>POESIA PARA RECICLAR</b><br />Um dos melhores escritores brasileiros da nova geração escreve sobre seu mestre, o poeta Manoel de Barros <br /><br />por <b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://vidasimples.abril.uol.com.br/imagem/044_08_01m.jpg"><br /><br />Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma. <br /><br />Qualquer fresta é a festa do grafite. Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve. <br /><br />Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século 20. Durante 50 anos, desde o momento em que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as dela tinham o mesmo tamanho: até 25 letras.Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou na altura ideal do seu poema. "Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem", afirma o poeta. Ou, como ele mesmo confessa em um verso do seu mais recente livro, Poemas Rupestres: "Minha naturezinha particular: até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar". <br /><br />Não foi como advogado, profissão da qual desistiu por timidez e nervosismo ("Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia"), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do pai, João, que se tornou conhecido. Foi apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores. <br /><br />Natural de Cuiabá (MT), Barros completa 90 anos daqui a alguns meses. "Fui longe", afirma. Nasceu em 19 de dezembro. "Posso curtir o ano inteiro antes do aniversário", pontua. <br /><br />Seu amor pela mulher Stella, 84 anos, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 58 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais."Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: 'Sobe e vai trabalhar mais'. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom.Conhece meu estilo", diz. <br /><br />A cumplicidade e a telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como "alguém fora dele". "Ela é alguém dentro de mim." Do casamento, tem três filhos: Martha, 54, que mora no Rio de Janeiro e já ilustrou suas obras, Pedro, 57, e João, 50, que atualmente residem com ele, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande (MS). <br /><br /><b>Singeleza do orvalho</b><br /><br />Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida, diferente dos rótulos que recebeu de "poeta do Pantanal" e "ecológico". É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura. "Virei um fã da pura expressão de Charles Chaplin", lembra. Residiu 40 anos no Rio de Janeiro, tempo em que se casou e se formou em direito. Só voltou para o Centro-Oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. <br /><br />Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como o dicionarista Antonio Houaiss, o escritor Millôr Fernandes e o editor Ênio Silveira. <br /><br />Com 18 livros de poesia, dois infantis e um de prosa, hoje representa um dos poetas que mais vendem no país, editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). <br /><br /><b>O mínimo incomum</b><br /><br />Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, em vez de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos. <br /><br />Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade.Tudo o que não presta serve para sua lírica."Poesia não é para compreender, mas para incorporar", conceitua. Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família. <br /><br />Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhumas, pacus, graxas e beija-flores-de-rodas-vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância. Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. "É manso, não atrapalha e canta melhor livre", comenta Barros. <br /><br />Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos "inutensílios" (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos "nadifúndios"(latifúndios do nada). "O cisco tem agora para mim uma importância de catedral" ("Retrato do Artista quando Coisa"). <br /><br />Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo. <br /><br /><b>Menino aprendiz</b><br /><br />O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de "desaprender oito horas por dia ensina os princípios". <br /><br />O poeta faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. "Poesia é voar fora da asa" (O Livro das Ignorãças). <br /><br />O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá- la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade.Atua no espaço do "faz-de-conta". O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos. <br /><br />Sua poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de miniconto, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre os álbuns de fotografias da família. <br /><br /><b>Falar manoelês</b><br /><br />A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana, com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da "universidade do folclore" de Câmara Cascudo e do poeta Raul Bopp. <br /><br />Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados. <br /><br />Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. O que a sociedade de consumo preza ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá- lo. Um carro no ferro-velho, na sua teoria, tem mais valor que um novo. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. <br /><br />Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa. <br /><br /><b>Para saber mais</b><br />Livros:<br /><br /><b>º</b> O Livro das Ignorãças, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Poemas Rupestres, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Livro sobre Nada, Manoel de Barros, Record <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[Revista <a href="http://vidasimples.abril.uol.com.br/edicoes/044/08.shtml">Vida Simples</a>, edição de <b>agosto de 2006</b><br /><br /><b>POESIA PARA RECICLAR</b><br />Um dos melhores escritores brasileiros da nova geração escreve sobre seu mestre, o poeta Manoel de Barros <br /><br />por <b>Fabrício Carpinejar </b><br /><br /><img src="http://vidasimples.abril.uol.com.br/imagem/044_08_01m.jpg"><br /><br />Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma. <br /><br />Qualquer fresta é a festa do grafite. Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve. <br /><br />Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século 20. Durante 50 anos, desde o momento em que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as dela tinham o mesmo tamanho: até 25 letras.Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou na altura ideal do seu poema. "Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem", afirma o poeta. Ou, como ele mesmo confessa em um verso do seu mais recente livro, Poemas Rupestres: "Minha naturezinha particular: até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar". <br /><br />Não foi como advogado, profissão da qual desistiu por timidez e nervosismo ("Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia"), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do pai, João, que se tornou conhecido. Foi apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores. <br /><br />Natural de Cuiabá (MT), Barros completa 90 anos daqui a alguns meses. "Fui longe", afirma. Nasceu em 19 de dezembro. "Posso curtir o ano inteiro antes do aniversário", pontua. <br /><br />Seu amor pela mulher Stella, 84 anos, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 58 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais."Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: 'Sobe e vai trabalhar mais'. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom.Conhece meu estilo", diz. <br /><br />A cumplicidade e a telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como "alguém fora dele". "Ela é alguém dentro de mim." Do casamento, tem três filhos: Martha, 54, que mora no Rio de Janeiro e já ilustrou suas obras, Pedro, 57, e João, 50, que atualmente residem com ele, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande (MS). <br /><br /><b>Singeleza do orvalho</b><br /><br />Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida, diferente dos rótulos que recebeu de "poeta do Pantanal" e "ecológico". É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura. "Virei um fã da pura expressão de Charles Chaplin", lembra. Residiu 40 anos no Rio de Janeiro, tempo em que se casou e se formou em direito. Só voltou para o Centro-Oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. <br /><br />Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como o dicionarista Antonio Houaiss, o escritor Millôr Fernandes e o editor Ênio Silveira. <br /><br />Com 18 livros de poesia, dois infantis e um de prosa, hoje representa um dos poetas que mais vendem no país, editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). <br /><br /><b>O mínimo incomum</b><br /><br />Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, em vez de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos. <br /><br />Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade.Tudo o que não presta serve para sua lírica."Poesia não é para compreender, mas para incorporar", conceitua. Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família. <br /><br />Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhumas, pacus, graxas e beija-flores-de-rodas-vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância. Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. "É manso, não atrapalha e canta melhor livre", comenta Barros. <br /><br />Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos "inutensílios" (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos "nadifúndios"(latifúndios do nada). "O cisco tem agora para mim uma importância de catedral" ("Retrato do Artista quando Coisa"). <br /><br />Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo. <br /><br /><b>Menino aprendiz</b><br /><br />O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de "desaprender oito horas por dia ensina os princípios". <br /><br />O poeta faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. "Poesia é voar fora da asa" (O Livro das Ignorãças). <br /><br />O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá- la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade.Atua no espaço do "faz-de-conta". O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos. <br /><br />Sua poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de miniconto, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre os álbuns de fotografias da família. <br /><br /><b>Falar manoelês</b><br /><br />A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana, com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da "universidade do folclore" de Câmara Cascudo e do poeta Raul Bopp. <br /><br />Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados. <br /><br />Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. O que a sociedade de consumo preza ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá- lo. Um carro no ferro-velho, na sua teoria, tem mais valor que um novo. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado. <br /><br />Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa. <br /><br /><b>Para saber mais</b><br />Livros:<br /><br /><b>º</b> O Livro das Ignorãças, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Poemas Rupestres, Manoel de Barros, Record<br /><b>º</b> Livro sobre Nada, Manoel de Barros, Record <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38820994</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/20/2006 09:23:23 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR</b><br /><br />"O amor e as mulheres pelas letras de Carpinejar" é o texto de <b>Adriana Baggio</b> no Digestivo Cultural. <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1993">Confira</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR</b><br /><br />"O amor e as mulheres pelas letras de Carpinejar" é o texto de <b>Adriana Baggio</b> no Digestivo Cultural. <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1993">Confira</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR</b><br /><br />"O amor e as mulheres pelas letras de Carpinejar" é o texto de <b>Adriana Baggio</b> no Digestivo Cultural. <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1993">Confira</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38820988</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/20/2006 09:20:45 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ACEITO ENCOMENDAS PARA DENTRO DE CASA</b><br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/4695a769.jpg"><br /><br />Você está diferente, você está estranho, você ri de qualquer coisa, arruma brechas para escapar do trabalho.  Todos dizem que você está amando. Não caía na cilada, não confirme a suspeita. Sei que é complicado não se envaidecer nessa hora. <br /><br />É uma tentação, mas não aceite, ainda que feliz sexualmente, ainda que disposto, ainda que brincalhão, não significa que está amando. Amar não guarda parentesco com os seus traços. Não nasceu contigo, nasceu em ti. <br /><br />Não devemos medir o amor pela nossa alegria. Mas pela alegria de quem nos acompanha. Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar. É falso confiar que a nossa felicidade é suficiente para se decretar o estado da paixão. Como é ilusório amar com a mesma independência do tempo que a gente não amava. A independência daquele período era desinteresse.  <br /><br />Quantos se enxergam felizes e se sentem resolvidos antes de trabalhar pelo amor?  Amor é aceitar encomendas para dentro de casa. <br /><br />Repare em sua mulher. Agora. Vê se ela está contente? Ela debruça em seus braços na cama? Ela conta tudinho o que pode se lembrar do trabalho? Ela esconde que comprou algumas roupas novas para aparecer de repente? Ela comenta um filme como se fosse parte dele? Ela usa sua gilete para pôr as pernas dela em seu rosto? Ela volta a falar do que esqueceu de lembrar? Ela telefona para perguntar se está tudo bem? Ela diz mais de uma vez como o filho é parecido com suas manias? Vê se ela está altiva mesmo cansada? Ela suspira como quem dá uma segunda chance para a janela? Ela provoca para que venha cobri-la de espantos e lábios? Ela segura sua mão quando a neblina se acumula no pára-brisa?  <br /><br />Vê. Vê você. Agora. Seu esforço de manhãzinha para não acordá-la, encardindo a ponta das meias para recolher suas roupas e sair contornando - sem escorregar - os travesseiros e chinelos no chão? Sempre tropeça e se apóia com o cotovelo logo nos joelhos dela. Vê seu cuidado em escolher os pratos menos pesados da cozinha para não provocar barulho na mesa? Sempre escapa uma colher na maldita hora.  Vê sua ânsia em animá-la quando o serviço a puxou para baixo, de evocar piadas e lembranças que só os dois entendem? Amor é esforço de compreensão, a consciência de nunca mais estar sozinho nem para morrer.  <br /><br />O amor não estará em você, por mais que confie que parte de você, que é você. O amor estará nela. Ela é o amor, que você destruiria se estivesse contigo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ACEITO ENCOMENDAS PARA DENTRO DE CASA</b><br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/4695a769.jpg"><br /><br />Você está diferente, você está estranho, você ri de qualquer coisa, arruma brechas para escapar do trabalho.  Todos dizem que você está amando. Não caía na cilada, não confirme a suspeita. Sei que é complicado não se envaidecer nessa hora. <br /><br />É uma tentação, mas não aceite, ainda que feliz sexualmente, ainda que disposto, ainda que brincalhão, não significa que está amando. Amar não guarda parentesco com os seus traços. Não nasceu contigo, nasceu em ti. <br /><br />Não devemos medir o amor pela nossa alegria. Mas pela alegria de quem nos acompanha. Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar. É falso confiar que a nossa felicidade é suficiente para se decretar o estado da paixão. Como é ilusório amar com a mesma independência do tempo que a gente não amava. A independência daquele período era desinteresse.  <br /><br />Quantos se enxergam felizes e se sentem resolvidos antes de trabalhar pelo amor?  Amor é aceitar encomendas para dentro de casa. <br /><br />Repare em sua mulher. Agora. Vê se ela está contente? Ela debruça em seus braços na cama? Ela conta tudinho o que pode se lembrar do trabalho? Ela esconde que comprou algumas roupas novas para aparecer de repente? Ela comenta um filme como se fosse parte dele? Ela usa sua gilete para pôr as pernas dela em seu rosto? Ela volta a falar do que esqueceu de lembrar? Ela telefona para perguntar se está tudo bem? Ela diz mais de uma vez como o filho é parecido com suas manias? Vê se ela está altiva mesmo cansada? Ela suspira como quem dá uma segunda chance para a janela? Ela provoca para que venha cobri-la de espantos e lábios? Ela segura sua mão quando a neblina se acumula no pára-brisa?  <br /><br />Vê. Vê você. Agora. Seu esforço de manhãzinha para não acordá-la, encardindo a ponta das meias para recolher suas roupas e sair contornando - sem escorregar - os travesseiros e chinelos no chão? Sempre tropeça e se apóia com o cotovelo logo nos joelhos dela. Vê seu cuidado em escolher os pratos menos pesados da cozinha para não provocar barulho na mesa? Sempre escapa uma colher na maldita hora.  Vê sua ânsia em animá-la quando o serviço a puxou para baixo, de evocar piadas e lembranças que só os dois entendem? Amor é esforço de compreensão, a consciência de nunca mais estar sozinho nem para morrer.  <br /><br />O amor não estará em você, por mais que confie que parte de você, que é você. O amor estará nela. Ela é o amor, que você destruiria se estivesse contigo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ACEITO ENCOMENDAS PARA DENTRO DE CASA</b><br />Pintura/Colagem de Joseph Cornell <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.miandn.com/files/4695a769.jpg"><br /><br />Você está diferente, você está estranho, você ri de qualquer coisa, arruma brechas para escapar do trabalho.  Todos dizem que você está amando. Não caía na cilada, não confirme a suspeita. Sei que é complicado não se envaidecer nessa hora. <br /><br />É uma tentação, mas não aceite, ainda que feliz sexualmente, ainda que disposto, ainda que brincalhão, não significa que está amando. Amar não guarda parentesco com os seus traços. Não nasceu contigo, nasceu em ti. <br /><br />Não devemos medir o amor pela nossa alegria. Mas pela alegria de quem nos acompanha. Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar. É falso confiar que a nossa felicidade é suficiente para se decretar o estado da paixão. Como é ilusório amar com a mesma independência do tempo que a gente não amava. A independência daquele período era desinteresse.  <br /><br />Quantos se enxergam felizes e se sentem resolvidos antes de trabalhar pelo amor?  Amor é aceitar encomendas para dentro de casa. <br /><br />Repare em sua mulher. Agora. Vê se ela está contente? Ela debruça em seus braços na cama? Ela conta tudinho o que pode se lembrar do trabalho? Ela esconde que comprou algumas roupas novas para aparecer de repente? Ela comenta um filme como se fosse parte dele? Ela usa sua gilete para pôr as pernas dela em seu rosto? Ela volta a falar do que esqueceu de lembrar? Ela telefona para perguntar se está tudo bem? Ela diz mais de uma vez como o filho é parecido com suas manias? Vê se ela está altiva mesmo cansada? Ela suspira como quem dá uma segunda chance para a janela? Ela provoca para que venha cobri-la de espantos e lábios? Ela segura sua mão quando a neblina se acumula no pára-brisa?  <br /><br />Vê. Vê você. Agora. Seu esforço de manhãzinha para não acordá-la, encardindo a ponta das meias para recolher suas roupas e sair contornando - sem escorregar - os travesseiros e chinelos no chão? Sempre tropeça e se apóia com o cotovelo logo nos joelhos dela. Vê seu cuidado em escolher os pratos menos pesados da cozinha para não provocar barulho na mesa? Sempre escapa uma colher na maldita hora.  Vê sua ânsia em animá-la quando o serviço a puxou para baixo, de evocar piadas e lembranças que só os dois entendem? Amor é esforço de compreensão, a consciência de nunca mais estar sozinho nem para morrer.  <br /><br />O amor não estará em você, por mais que confie que parte de você, que é você. O amor estará nela. Ela é o amor, que você destruiria se estivesse contigo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38817347</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/19/2006 09:08:20 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ESTAREI EM...</b><br /><br /><b>Curitiba (PR) - 25/7 (terça)</b>: Sou o convidado especial de julho da <b>Livrarias Curitiba</b>, no dia do escritor. Farei leitura de textos e autografarei meu novo livro <b>"O Amor Esquece de Começar"</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), <b>às 19h</b>, na Livrarias Curitiba, da <b>Megastore do Shopping Estação</b> (Shopping Estação - Loja 1108  - Centro Telefone: (41) 3330-5118).<br /><br /><b>Belo Horizonte (MG), 28/7 (sexta)</b>: Voltarei para a minha infância e contarei as dificuldades de dicção e de aprendizado no Ensino Fundamental durante o <b><a href="http://www.enefon.com.br">ENEFON</a></b> (Encontro Nacional de Estudantes de Fonoaudiologia), ao <b>meio-dia</b>, no <b>auditório do Instituto de Ciências Biológicas </b>(ICB) da UFMG. <br /> <br /><b>Brasília (DF), 29/7 (sábado)</b> - Palestra sobre o poeta <b>Mario Quintana</b>, ao lado do jornalista <b>Paulo Paniago</b>, às <b>18h</b>, dentro do projeto Literatura em Conjunto, na <b>Praça das Artes do shopping Conjunto Nacional</b>. Interpretação de poemas de Quintana pelos atores Adeilton Lima e Catarina Accioly.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>ESTAREI EM...</b><br /><br /><b>Curitiba (PR) - 25/7 (terça)</b>: Sou o convidado especial de julho da <b>Livrarias Curitiba</b>, no dia do escritor. Farei leitura de textos e autografarei meu novo livro <b>"O Amor Esquece de Começar"</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), <b>às 19h</b>, na Livrarias Curitiba, da <b>Megastore do Shopping Estação</b> (Shopping Estação - Loja 1108  - Centro Telefone: (41) 3330-5118).<br /><br /><b>Belo Horizonte (MG), 28/7 (sexta)</b>: Voltarei para a minha infância e contarei as dificuldades de dicção e de aprendizado no Ensino Fundamental durante o <b><a href="http://www.enefon.com.br">ENEFON</a></b> (Encontro Nacional de Estudantes de Fonoaudiologia), ao <b>meio-dia</b>, no <b>auditório do Instituto de Ciências Biológicas </b>(ICB) da UFMG. <br /> <br /><b>Brasília (DF), 29/7 (sábado)</b> - Palestra sobre o poeta <b>Mario Quintana</b>, ao lado do jornalista <b>Paulo Paniago</b>, às <b>18h</b>, dentro do projeto Literatura em Conjunto, na <b>Praça das Artes do shopping Conjunto Nacional</b>. Interpretação de poemas de Quintana pelos atores Adeilton Lima e Catarina Accioly.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ESTAREI EM...</b><br /><br /><b>Curitiba (PR) - 25/7 (terça)</b>: Sou o convidado especial de julho da <b>Livrarias Curitiba</b>, no dia do escritor. Farei leitura de textos e autografarei meu novo livro <b>"O Amor Esquece de Começar"</b> (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), <b>às 19h</b>, na Livrarias Curitiba, da <b>Megastore do Shopping Estação</b> (Shopping Estação - Loja 1108  - Centro Telefone: (41) 3330-5118).<br /><br /><b>Belo Horizonte (MG), 28/7 (sexta)</b>: Voltarei para a minha infância e contarei as dificuldades de dicção e de aprendizado no Ensino Fundamental durante o <b><a href="http://www.enefon.com.br">ENEFON</a></b> (Encontro Nacional de Estudantes de Fonoaudiologia), ao <b>meio-dia</b>, no <b>auditório do Instituto de Ciências Biológicas </b>(ICB) da UFMG. <br /> <br /><b>Brasília (DF), 29/7 (sábado)</b> - Palestra sobre o poeta <b>Mario Quintana</b>, ao lado do jornalista <b>Paulo Paniago</b>, às <b>18h</b>, dentro do projeto Literatura em Conjunto, na <b>Praça das Artes do shopping Conjunto Nacional</b>. Interpretação de poemas de Quintana pelos atores Adeilton Lima e Catarina Accioly.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38817340</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/19/2006 09:06:25 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ONDE É O FUNDO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell<br />Para Hamilton<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.moma.org/images/collection/FullSizes/00073090.jpg"><br /><br />Uma menina se distraiu ouvindo música numa grande livraria, sentiu falta da mãe e, de pronto, largou os fones e partiu para recuperar sua companhia. Pediu informações para uma moça, que tinha atendido a dupla naquela tarde. Com tranqüilidade, a funcionária mexeu com a mão esquerda nos cabelos encaracolados da criança enquanto apontava o caminho com a direita: "Sua mãe está no fundo da loja!". <br /><br />Ao invés de se acalmar, a menina saiu correndo entre as estantes, desesperada: "onde é o fundo? onde é o fundo? onde é o fundo?".<br /><br />O apelo me machucou porque percebi claramente que as mulheres perguntam desde o princípio onde é o fundo. Elas iniciam um relacionamento já questionando onde é o fundo. Não desejam o raso, não desejam passar o tempo, não desejam namoros temporários e esquecíveis. Por mais que o discurso seja o da liberação e do desprendimento, as mulheres, em sua maioria, procuram e temem o fundo. Nasceram e se fortalecem do fundo. <br /><br />Quando testemunhei a criança gritando, entendi tudo o que experimentei e julguei como bobagem, tudo o que ouvi e não fui atrás, tudo o que perdi e não me flagrei atrasado, tudo o que não entenderei sobre as mulheres. O fundo.  Simplesmente o fundo, que uma menina de quatro anos involuntariamente já buscava. O fundo que perguntou minha avó. O fundo que perguntou minha mãe. O fundo que perguntou minhas ex-namoradas. O fundo que perguntou minha esposa. O fundo que perguntou minha filha. O fundo que perguntará minhas netas. O fundo ancestral a perturbar minhas amigas. O fundo inalterado, que mais é ao não ser alcançado, que mais se percorre ao se duvidar dele. <br /><br />Na hora em que minha mulher brigava, ela me sugeria apenas, com outras palavras, se estava disposto a ir ao fundo. E não respondi, para permanecer no colo da espuma e não perder de vista a íris borbulhante do anzol, para não alterar a superfície e não me comprometer. O homem é capaz de doer, sim, mas não de doer investigando o fundo. O homem dói iletrado, o homem dói sem se misturar à dor. Uma mulher dói com coragem, questionando se vai doer ainda mais. Dói olhando a ferida, com a consciência da ferida. <br /><br />O homem persegue uma paixão que o modifique, uma mulher persegue uma paixão que a reafirme, que a empurre para o longe, o longe de sua própria boca.  O homem pretende se abandonar, a mulher quer se recuperar.<br /><br />Ela pode estar parada, acomodada, estável, satisfeita, morta num relacionamento, mas o fundo estará se movendo por dentro, imperceptível, desenhando conspirações.  <br /><br />O fundo não é o limite. Uma mulher pergunta onde é o fundo para continuar indo, não para deixar de ir. Como uma menina que só caminha se descobrir antes quantas quadras faltam para chegar. Ela irá perguntar ao seu homem se realmente a ama, muitas mais vezes do que o necessário. Não é para irritar; é para encontrar um amor que nunca a faça se satisfazer com seu fundo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ONDE É O FUNDO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell<br />Para Hamilton<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.moma.org/images/collection/FullSizes/00073090.jpg"><br /><br />Uma menina se distraiu ouvindo música numa grande livraria, sentiu falta da mãe e, de pronto, largou os fones e partiu para recuperar sua companhia. Pediu informações para uma moça, que tinha atendido a dupla naquela tarde. Com tranqüilidade, a funcionária mexeu com a mão esquerda nos cabelos encaracolados da criança enquanto apontava o caminho com a direita: "Sua mãe está no fundo da loja!". <br /><br />Ao invés de se acalmar, a menina saiu correndo entre as estantes, desesperada: "onde é o fundo? onde é o fundo? onde é o fundo?".<br /><br />O apelo me machucou porque percebi claramente que as mulheres perguntam desde o princípio onde é o fundo. Elas iniciam um relacionamento já questionando onde é o fundo. Não desejam o raso, não desejam passar o tempo, não desejam namoros temporários e esquecíveis. Por mais que o discurso seja o da liberação e do desprendimento, as mulheres, em sua maioria, procuram e temem o fundo. Nasceram e se fortalecem do fundo. <br /><br />Quando testemunhei a criança gritando, entendi tudo o que experimentei e julguei como bobagem, tudo o que ouvi e não fui atrás, tudo o que perdi e não me flagrei atrasado, tudo o que não entenderei sobre as mulheres. O fundo.  Simplesmente o fundo, que uma menina de quatro anos involuntariamente já buscava. O fundo que perguntou minha avó. O fundo que perguntou minha mãe. O fundo que perguntou minhas ex-namoradas. O fundo que perguntou minha esposa. O fundo que perguntou minha filha. O fundo que perguntará minhas netas. O fundo ancestral a perturbar minhas amigas. O fundo inalterado, que mais é ao não ser alcançado, que mais se percorre ao se duvidar dele. <br /><br />Na hora em que minha mulher brigava, ela me sugeria apenas, com outras palavras, se estava disposto a ir ao fundo. E não respondi, para permanecer no colo da espuma e não perder de vista a íris borbulhante do anzol, para não alterar a superfície e não me comprometer. O homem é capaz de doer, sim, mas não de doer investigando o fundo. O homem dói iletrado, o homem dói sem se misturar à dor. Uma mulher dói com coragem, questionando se vai doer ainda mais. Dói olhando a ferida, com a consciência da ferida. <br /><br />O homem persegue uma paixão que o modifique, uma mulher persegue uma paixão que a reafirme, que a empurre para o longe, o longe de sua própria boca.  O homem pretende se abandonar, a mulher quer se recuperar.<br /><br />Ela pode estar parada, acomodada, estável, satisfeita, morta num relacionamento, mas o fundo estará se movendo por dentro, imperceptível, desenhando conspirações.  <br /><br />O fundo não é o limite. Uma mulher pergunta onde é o fundo para continuar indo, não para deixar de ir. Como uma menina que só caminha se descobrir antes quantas quadras faltam para chegar. Ela irá perguntar ao seu homem se realmente a ama, muitas mais vezes do que o necessário. Não é para irritar; é para encontrar um amor que nunca a faça se satisfazer com seu fundo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ONDE É O FUNDO?</b><br />Pintura de Joseph Cornell<br />Para Hamilton<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.moma.org/images/collection/FullSizes/00073090.jpg"><br /><br />Uma menina se distraiu ouvindo música numa grande livraria, sentiu falta da mãe e, de pronto, largou os fones e partiu para recuperar sua companhia. Pediu informações para uma moça, que tinha atendido a dupla naquela tarde. Com tranqüilidade, a funcionária mexeu com a mão esquerda nos cabelos encaracolados da criança enquanto apontava o caminho com a direita: "Sua mãe está no fundo da loja!". <br /><br />Ao invés de se acalmar, a menina saiu correndo entre as estantes, desesperada: "onde é o fundo? onde é o fundo? onde é o fundo?".<br /><br />O apelo me machucou porque percebi claramente que as mulheres perguntam desde o princípio onde é o fundo. Elas iniciam um relacionamento já questionando onde é o fundo. Não desejam o raso, não desejam passar o tempo, não desejam namoros temporários e esquecíveis. Por mais que o discurso seja o da liberação e do desprendimento, as mulheres, em sua maioria, procuram e temem o fundo. Nasceram e se fortalecem do fundo. <br /><br />Quando testemunhei a criança gritando, entendi tudo o que experimentei e julguei como bobagem, tudo o que ouvi e não fui atrás, tudo o que perdi e não me flagrei atrasado, tudo o que não entenderei sobre as mulheres. O fundo.  Simplesmente o fundo, que uma menina de quatro anos involuntariamente já buscava. O fundo que perguntou minha avó. O fundo que perguntou minha mãe. O fundo que perguntou minhas ex-namoradas. O fundo que perguntou minha esposa. O fundo que perguntou minha filha. O fundo que perguntará minhas netas. O fundo ancestral a perturbar minhas amigas. O fundo inalterado, que mais é ao não ser alcançado, que mais se percorre ao se duvidar dele. <br /><br />Na hora em que minha mulher brigava, ela me sugeria apenas, com outras palavras, se estava disposto a ir ao fundo. E não respondi, para permanecer no colo da espuma e não perder de vista a íris borbulhante do anzol, para não alterar a superfície e não me comprometer. O homem é capaz de doer, sim, mas não de doer investigando o fundo. O homem dói iletrado, o homem dói sem se misturar à dor. Uma mulher dói com coragem, questionando se vai doer ainda mais. Dói olhando a ferida, com a consciência da ferida. <br /><br />O homem persegue uma paixão que o modifique, uma mulher persegue uma paixão que a reafirme, que a empurre para o longe, o longe de sua própria boca.  O homem pretende se abandonar, a mulher quer se recuperar.<br /><br />Ela pode estar parada, acomodada, estável, satisfeita, morta num relacionamento, mas o fundo estará se movendo por dentro, imperceptível, desenhando conspirações.  <br /><br />O fundo não é o limite. Uma mulher pergunta onde é o fundo para continuar indo, não para deixar de ir. Como uma menina que só caminha se descobrir antes quantas quadras faltam para chegar. Ela irá perguntar ao seu homem se realmente a ama, muitas mais vezes do que o necessário. Não é para irritar; é para encontrar um amor que nunca a faça se satisfazer com seu fundo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38803584</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/15/2006 11:34:56 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>TENHO MEDO DE SER INFANTIL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b><br />Pintura de Marc Chagall <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_146921.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://programmes.france3.fr/suivezlartiste/IMG/jpg/chagallgd.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Eu sou novo no seu consultório e esta é a primeira vez que escrevo uma carta para alguém me ajudar no meu relacionamento, pois desde que conheci o seu fórum estou lendo e relendo todos os textos e gostando muito do conteúdo. Mas lá vai o motivo da "carta".<br /><br />Bem, eu tenho uma namorada, já estamos fazendo seis meses de namoro. Não é muito tempo, eu sei, mas o problema é o seguinte, eu nunca namorei na minha vida e estou tendo várias crises em minha cabeça. Uma é por conta da rotina, eu gostaria de mudar os nossos programas e não tenho idéia de como fazer isso. Sempre quando penso que eu irei gostar, eu tenho certeza que ela não irá gostar porque somos muito diferentes. E outra coisa, ela é mais velha que eu, portanto, tem pensamentos além dos meus e sempre fico sentindo um certo tipo de pressão, entende? Ela quer demonstrar ser superior a mim por causa da idade. Isso me deixa um pouco triste e essa pressão me estressa. Tento ao máximo ser maduro e deixar esse lado moleque que eu sempre tive (para ela, é infantilidade). Eu não sei bem como agir em namoros, quando chega o fim de semana, por exemplo, fico sem jeito, na obrigação de chamá-la para algum lugar, fico impaciente, fico com receio de ligar 'Ei, tô indo para a tua casa, tá?' E se eu for esperar ela telefonar, nada acontece... Gostaria de saber: como eu devo agir nessa situação?"</i><br /><br />Olá, Beto!<br /><br />Não adianta bancar o mais velho - é o jeito mais rápido de ser infantil. Vejo sua preocupação em impressionar, que elimina a espontaneidade dos gestos. Está mais interessado em ser "o que pensa que ela pensa" do que em expressar as próprias fantasias. Vive emprestado. Abandona logo seu lado moleque. Ou seja, a alegria, a irreverência e o prazer. O preço é muito alto. Censurando as bobagens, sacrificamos também a criatividade.<br /><br />Ninguém é superior pela idade. Se há arrogância ou prepotência de uma das partes, não existe amor, mas dominação. <br /><br />Tudo é calculado, o que estressa. Sofre por antecipação. Não tenta adivinhar se ela vai se interessar ou não, diz de cara que ela não irá gostar. Não oferece a possibilidade de escolha. Decide por ela. <br /><br />Experimente convidá-la para fazer seus programas. Ensine à namorada os seus gostos, os lugares que costuma freqüentar, as músicas favoritas, o enredo emocional de seus colegas. Assim como pode circular e aprender com o mundo dela. Pensamentos diferentes enriquecem a experiência e ampliam as afinidades.<br /><br />Cuidado, dessa forma a passividade anulará seu temperamento. E não será nem o que a conquistou, nem o que ela desejaria que fosse. Numa relação verdadeira, agradar é ser sincero. Quem se esforça em ser sincero já está mentindo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>TENHO MEDO DE SER INFANTIL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b><br />Pintura de Marc Chagall <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_146921.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://programmes.france3.fr/suivezlartiste/IMG/jpg/chagallgd.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Eu sou novo no seu consultório e esta é a primeira vez que escrevo uma carta para alguém me ajudar no meu relacionamento, pois desde que conheci o seu fórum estou lendo e relendo todos os textos e gostando muito do conteúdo. Mas lá vai o motivo da "carta".<br /><br />Bem, eu tenho uma namorada, já estamos fazendo seis meses de namoro. Não é muito tempo, eu sei, mas o problema é o seguinte, eu nunca namorei na minha vida e estou tendo várias crises em minha cabeça. Uma é por conta da rotina, eu gostaria de mudar os nossos programas e não tenho idéia de como fazer isso. Sempre quando penso que eu irei gostar, eu tenho certeza que ela não irá gostar porque somos muito diferentes. E outra coisa, ela é mais velha que eu, portanto, tem pensamentos além dos meus e sempre fico sentindo um certo tipo de pressão, entende? Ela quer demonstrar ser superior a mim por causa da idade. Isso me deixa um pouco triste e essa pressão me estressa. Tento ao máximo ser maduro e deixar esse lado moleque que eu sempre tive (para ela, é infantilidade). Eu não sei bem como agir em namoros, quando chega o fim de semana, por exemplo, fico sem jeito, na obrigação de chamá-la para algum lugar, fico impaciente, fico com receio de ligar 'Ei, tô indo para a tua casa, tá?' E se eu for esperar ela telefonar, nada acontece... Gostaria de saber: como eu devo agir nessa situação?"</i><br /><br />Olá, Beto!<br /><br />Não adianta bancar o mais velho - é o jeito mais rápido de ser infantil. Vejo sua preocupação em impressionar, que elimina a espontaneidade dos gestos. Está mais interessado em ser "o que pensa que ela pensa" do que em expressar as próprias fantasias. Vive emprestado. Abandona logo seu lado moleque. Ou seja, a alegria, a irreverência e o prazer. O preço é muito alto. Censurando as bobagens, sacrificamos também a criatividade.<br /><br />Ninguém é superior pela idade. Se há arrogância ou prepotência de uma das partes, não existe amor, mas dominação. <br /><br />Tudo é calculado, o que estressa. Sofre por antecipação. Não tenta adivinhar se ela vai se interessar ou não, diz de cara que ela não irá gostar. Não oferece a possibilidade de escolha. Decide por ela. <br /><br />Experimente convidá-la para fazer seus programas. Ensine à namorada os seus gostos, os lugares que costuma freqüentar, as músicas favoritas, o enredo emocional de seus colegas. Assim como pode circular e aprender com o mundo dela. Pensamentos diferentes enriquecem a experiência e ampliam as afinidades.<br /><br />Cuidado, dessa forma a passividade anulará seu temperamento. E não será nem o que a conquistou, nem o que ela desejaria que fosse. Numa relação verdadeira, agradar é ser sincero. Quem se esforça em ser sincero já está mentindo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>TENHO MEDO DE SER INFANTIL</b><br />Do <b>Consultório Poético</b><br />Pintura de Marc Chagall <br />Confira outras consultas no <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_146921.shtml">site da Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://programmes.france3.fr/suivezlartiste/IMG/jpg/chagallgd.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Carpinejar!<br /><br />Eu sou novo no seu consultório e esta é a primeira vez que escrevo uma carta para alguém me ajudar no meu relacionamento, pois desde que conheci o seu fórum estou lendo e relendo todos os textos e gostando muito do conteúdo. Mas lá vai o motivo da "carta".<br /><br />Bem, eu tenho uma namorada, já estamos fazendo seis meses de namoro. Não é muito tempo, eu sei, mas o problema é o seguinte, eu nunca namorei na minha vida e estou tendo várias crises em minha cabeça. Uma é por conta da rotina, eu gostaria de mudar os nossos programas e não tenho idéia de como fazer isso. Sempre quando penso que eu irei gostar, eu tenho certeza que ela não irá gostar porque somos muito diferentes. E outra coisa, ela é mais velha que eu, portanto, tem pensamentos além dos meus e sempre fico sentindo um certo tipo de pressão, entende? Ela quer demonstrar ser superior a mim por causa da idade. Isso me deixa um pouco triste e essa pressão me estressa. Tento ao máximo ser maduro e deixar esse lado moleque que eu sempre tive (para ela, é infantilidade). Eu não sei bem como agir em namoros, quando chega o fim de semana, por exemplo, fico sem jeito, na obrigação de chamá-la para algum lugar, fico impaciente, fico com receio de ligar 'Ei, tô indo para a tua casa, tá?' E se eu for esperar ela telefonar, nada acontece... Gostaria de saber: como eu devo agir nessa situação?"</i><br /><br />Olá, Beto!<br /><br />Não adianta bancar o mais velho - é o jeito mais rápido de ser infantil. Vejo sua preocupação em impressionar, que elimina a espontaneidade dos gestos. Está mais interessado em ser "o que pensa que ela pensa" do que em expressar as próprias fantasias. Vive emprestado. Abandona logo seu lado moleque. Ou seja, a alegria, a irreverência e o prazer. O preço é muito alto. Censurando as bobagens, sacrificamos também a criatividade.<br /><br />Ninguém é superior pela idade. Se há arrogância ou prepotência de uma das partes, não existe amor, mas dominação. <br /><br />Tudo é calculado, o que estressa. Sofre por antecipação. Não tenta adivinhar se ela vai se interessar ou não, diz de cara que ela não irá gostar. Não oferece a possibilidade de escolha. Decide por ela. <br /><br />Experimente convidá-la para fazer seus programas. Ensine à namorada os seus gostos, os lugares que costuma freqüentar, as músicas favoritas, o enredo emocional de seus colegas. Assim como pode circular e aprender com o mundo dela. Pensamentos diferentes enriquecem a experiência e ampliam as afinidades.<br /><br />Cuidado, dessa forma a passividade anulará seu temperamento. E não será nem o que a conquistou, nem o que ela desejaria que fosse. Numa relação verdadeira, agradar é ser sincero. Quem se esforça em ser sincero já está mentindo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38802085</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/14/2006 07:55:13 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>CÍNTIA MOSCOVICH FAZ LEITURA DE INÉDITO</b><br />Arte de Mary Cassatt<br /><br /><img src="http://aam.waynesburg.edu/images/resized/3b47994t_Mary%20Cassatt.jpg"><br /> <br />"Entre nós...", a  série de debates mensais da Livraria Cultura que apresento ao lado do jornalista <b>Rodrigo Breunig</b>, incrementa suas atividades. A cada encontro, um escritor antecipa trechos de um livro inédito.  <br /> <br />A convidada é <a href="http://www.cintiamoscovich.com/">Cíntia Moscovich</a>, que fará leitura em primeira mão de capítulos da narrativa <b>"Por que sou gorda, mamãe?"</b>, a ser lançada pela <b>Record</b> em setembro. A obra investiga a natureza do afeto filial, no formato de epístola romanceada. Marcada pela franqueza, a personagem busca acertar as contas com o passado e entender as decisões da família. <br /> <br />A conversa com a autora acontece nesta <b>segunda (17/7)</b>, às <b>19h30</b>, no auditório da livraria no <b>Bourbon Shopping Country</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca. <br /> <br />Cíntia Moscovich nasceu em Porto Alegre, em 1958. É escritora, jornalista e Mestre em Teoria Literária pela PUCRS. Estréia na literatura em 1996 com o volume de contos "O Reino das Cebolas", indicado ao Prêmio Jabuti. Em 1998, publica o romance "Duas Iguais"; em 2000, o livro de contos "Anotações Durante o Incêndio", ambos vencedores do Prêmio Açorianos. Seu livro mais recente é "Arquitetura do Arco-íris", uma das três premiadas na categoria "conto e crônica" no Prêmio Jabuti. Sua novela "Duas Iguais" foi publicada em Portugal pela editora Pergaminho. Tem textos publicados em espanhol e inglês, e já conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Radio France Internationale. <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  É uma "meia-roda" viva, entrevista aberta com a participação do público.   <br /></title>
<description><![CDATA[<b>CÍNTIA MOSCOVICH FAZ LEITURA DE INÉDITO</b><br />Arte de Mary Cassatt<br /><br /><img src="http://aam.waynesburg.edu/images/resized/3b47994t_Mary%20Cassatt.jpg"><br /> <br />"Entre nós...", a  série de debates mensais da Livraria Cultura que apresento ao lado do jornalista <b>Rodrigo Breunig</b>, incrementa suas atividades. A cada encontro, um escritor antecipa trechos de um livro inédito.  <br /> <br />A convidada é <a href="http://www.cintiamoscovich.com/">Cíntia Moscovich</a>, que fará leitura em primeira mão de capítulos da narrativa <b>"Por que sou gorda, mamãe?"</b>, a ser lançada pela <b>Record</b> em setembro. A obra investiga a natureza do afeto filial, no formato de epístola romanceada. Marcada pela franqueza, a personagem busca acertar as contas com o passado e entender as decisões da família. <br /> <br />A conversa com a autora acontece nesta <b>segunda (17/7)</b>, às <b>19h30</b>, no auditório da livraria no <b>Bourbon Shopping Country</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca. <br /> <br />Cíntia Moscovich nasceu em Porto Alegre, em 1958. É escritora, jornalista e Mestre em Teoria Literária pela PUCRS. Estréia na literatura em 1996 com o volume de contos "O Reino das Cebolas", indicado ao Prêmio Jabuti. Em 1998, publica o romance "Duas Iguais"; em 2000, o livro de contos "Anotações Durante o Incêndio", ambos vencedores do Prêmio Açorianos. Seu livro mais recente é "Arquitetura do Arco-íris", uma das três premiadas na categoria "conto e crônica" no Prêmio Jabuti. Sua novela "Duas Iguais" foi publicada em Portugal pela editora Pergaminho. Tem textos publicados em espanhol e inglês, e já conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Radio France Internationale. <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  É uma "meia-roda" viva, entrevista aberta com a participação do público.   <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>CÍNTIA MOSCOVICH FAZ LEITURA DE INÉDITO</b><br />Arte de Mary Cassatt<br /><br /><img src="http://aam.waynesburg.edu/images/resized/3b47994t_Mary%20Cassatt.jpg"><br /> <br />"Entre nós...", a  série de debates mensais da Livraria Cultura que apresento ao lado do jornalista <b>Rodrigo Breunig</b>, incrementa suas atividades. A cada encontro, um escritor antecipa trechos de um livro inédito.  <br /> <br />A convidada é <a href="http://www.cintiamoscovich.com/">Cíntia Moscovich</a>, que fará leitura em primeira mão de capítulos da narrativa <b>"Por que sou gorda, mamãe?"</b>, a ser lançada pela <b>Record</b> em setembro. A obra investiga a natureza do afeto filial, no formato de epístola romanceada. Marcada pela franqueza, a personagem busca acertar as contas com o passado e entender as decisões da família. <br /> <br />A conversa com a autora acontece nesta <b>segunda (17/7)</b>, às <b>19h30</b>, no auditório da livraria no <b>Bourbon Shopping Country</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca. <br /> <br />Cíntia Moscovich nasceu em Porto Alegre, em 1958. É escritora, jornalista e Mestre em Teoria Literária pela PUCRS. Estréia na literatura em 1996 com o volume de contos "O Reino das Cebolas", indicado ao Prêmio Jabuti. Em 1998, publica o romance "Duas Iguais"; em 2000, o livro de contos "Anotações Durante o Incêndio", ambos vencedores do Prêmio Açorianos. Seu livro mais recente é "Arquitetura do Arco-íris", uma das três premiadas na categoria "conto e crônica" no Prêmio Jabuti. Sua novela "Duas Iguais" foi publicada em Portugal pela editora Pergaminho. Tem textos publicados em espanhol e inglês, e já conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Radio France Internationale. <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  É uma "meia-roda" viva, entrevista aberta com a participação do público.   <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38796450</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/13/2006 11:03:19 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>JABUTI</b><br /><br />"<b>Como no céu e Livro de Visitas</b>" (Bertrand Brasil, 2005) é um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti, a mais tradicional premiação literária no país. Foi o terceiro mais votado - durante a primeira fase - na categoria poesia, em que concorreram 113 obras.<br /><br />Confira <a href="http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/07/12/ult100u5314.jhtm">todos os finalistas</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>JABUTI</b><br /><br />"<b>Como no céu e Livro de Visitas</b>" (Bertrand Brasil, 2005) é um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti, a mais tradicional premiação literária no país. Foi o terceiro mais votado - durante a primeira fase - na categoria poesia, em que concorreram 113 obras.<br /><br />Confira <a href="http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/07/12/ult100u5314.jhtm">todos os finalistas</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>JABUTI</b><br /><br />"<b>Como no céu e Livro de Visitas</b>" (Bertrand Brasil, 2005) é um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti, a mais tradicional premiação literária no país. Foi o terceiro mais votado - durante a primeira fase - na categoria poesia, em que concorreram 113 obras.<br /><br />Confira <a href="http://diversao.uol.com.br/ultnot/2006/07/12/ult100u5314.jhtm">todos os finalistas</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38796422</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/13/2006 10:57:31 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UMA ESPERANÇA SEMI-ABERTA</b><br />Para Caroline, que me inspirou.<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.weinstein.com/chagall/MCH0278.jpg"><br /><br />Depois dos filhos, passei a adoecer de compaixão pelos sacos abertos de salgadinhos, dos abiscoitados, das bolachas. Antes, eu comia. A gula diminuiu com a paternidade. Hoje acredito que eles serão devorados na tarde seguinte e dou uma segunda chance. Não quero que estraguem e guardo. Há pouco para colocar em um pote, mas nem tão pouco para jogar fora. Estou parecendo minha mãe, esperançosa como as sobras do almoço. <br /><br />Ao invés dos arames brancos e elásticos, fecho com prendedores. Mania esquisita: a cesta de vime virou um varal. Nada a reclamar se fosse temporário, mas não é. Criei, de modo involuntário, um purgatório na despensa.  Um caldeirão de alimentos penados. As crianças abrem cada vez mais as novas embalagens e ninguém mexe nos antigos sacos, deduzindo que a quantidade é insuficiente para o entretenimento dos dentes.  Montei um depósito de restos e apenas me flagrei disso quando começou a faltar prendedores para as roupas. A maioria estava desviada de sua função original e exercia bicos na cozinha. <br /><br />Eu faço o mesmo - infelizmente - com os pensamentos de minha mulher. Acompanho uma idéia pela curiosidade, mastigo durante um período e deixo para o próximo dia que nunca chega. Não desejo perder, não tiro o olho, porém não desfruto até o fim. Não desperdiço e, ao mesmo tempo, não aproveito. Crio um cemitério de unhas na janela. Ela conta seu trabalho no almoço ou na janta e já a interrompo com outras distrações e não volto ao assunto. Não volto: maldito defeito do homem que se dedica a ir, não a regressar.  <br /><br />Não a escuto, sempre querendo a novidade. Desperto para as extravagâncias. Talvez o que mais a importe seja antigo e dito sem ênfase. Um estar ali, inteiro, descompromissado, sem fugas, sem pálpebras aéreas, sem bocas apressadas. Ultrapassar a monotonia pela dedicação. <br /><br />O que a incomoda - e que ela não diz - é a facilidade em me mostrar atento para me desinteressar em seguida.  Esqueço o que ela mencionou para fingir que me lembro e concordar no escuro.<br /><br />A intenção em proteger os saquinhos não serve. Eles vão estragar como se estivessem abertos.<br /><br />Para guardar, devo estar com o rosto de minha mulher permanentemente entre as mãos e não mais confiar em prendedores.    <br /></title>
<description><![CDATA[<b>UMA ESPERANÇA SEMI-ABERTA</b><br />Para Caroline, que me inspirou.<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.weinstein.com/chagall/MCH0278.jpg"><br /><br />Depois dos filhos, passei a adoecer de compaixão pelos sacos abertos de salgadinhos, dos abiscoitados, das bolachas. Antes, eu comia. A gula diminuiu com a paternidade. Hoje acredito que eles serão devorados na tarde seguinte e dou uma segunda chance. Não quero que estraguem e guardo. Há pouco para colocar em um pote, mas nem tão pouco para jogar fora. Estou parecendo minha mãe, esperançosa como as sobras do almoço. <br /><br />Ao invés dos arames brancos e elásticos, fecho com prendedores. Mania esquisita: a cesta de vime virou um varal. Nada a reclamar se fosse temporário, mas não é. Criei, de modo involuntário, um purgatório na despensa.  Um caldeirão de alimentos penados. As crianças abrem cada vez mais as novas embalagens e ninguém mexe nos antigos sacos, deduzindo que a quantidade é insuficiente para o entretenimento dos dentes.  Montei um depósito de restos e apenas me flagrei disso quando começou a faltar prendedores para as roupas. A maioria estava desviada de sua função original e exercia bicos na cozinha. <br /><br />Eu faço o mesmo - infelizmente - com os pensamentos de minha mulher. Acompanho uma idéia pela curiosidade, mastigo durante um período e deixo para o próximo dia que nunca chega. Não desejo perder, não tiro o olho, porém não desfruto até o fim. Não desperdiço e, ao mesmo tempo, não aproveito. Crio um cemitério de unhas na janela. Ela conta seu trabalho no almoço ou na janta e já a interrompo com outras distrações e não volto ao assunto. Não volto: maldito defeito do homem que se dedica a ir, não a regressar.  <br /><br />Não a escuto, sempre querendo a novidade. Desperto para as extravagâncias. Talvez o que mais a importe seja antigo e dito sem ênfase. Um estar ali, inteiro, descompromissado, sem fugas, sem pálpebras aéreas, sem bocas apressadas. Ultrapassar a monotonia pela dedicação. <br /><br />O que a incomoda - e que ela não diz - é a facilidade em me mostrar atento para me desinteressar em seguida.  Esqueço o que ela mencionou para fingir que me lembro e concordar no escuro.<br /><br />A intenção em proteger os saquinhos não serve. Eles vão estragar como se estivessem abertos.<br /><br />Para guardar, devo estar com o rosto de minha mulher permanentemente entre as mãos e não mais confiar em prendedores.    <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UMA ESPERANÇA SEMI-ABERTA</b><br />Para Caroline, que me inspirou.<br />Pintura de Marc Chagall<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.weinstein.com/chagall/MCH0278.jpg"><br /><br />Depois dos filhos, passei a adoecer de compaixão pelos sacos abertos de salgadinhos, dos abiscoitados, das bolachas. Antes, eu comia. A gula diminuiu com a paternidade. Hoje acredito que eles serão devorados na tarde seguinte e dou uma segunda chance. Não quero que estraguem e guardo. Há pouco para colocar em um pote, mas nem tão pouco para jogar fora. Estou parecendo minha mãe, esperançosa como as sobras do almoço. <br /><br />Ao invés dos arames brancos e elásticos, fecho com prendedores. Mania esquisita: a cesta de vime virou um varal. Nada a reclamar se fosse temporário, mas não é. Criei, de modo involuntário, um purgatório na despensa.  Um caldeirão de alimentos penados. As crianças abrem cada vez mais as novas embalagens e ninguém mexe nos antigos sacos, deduzindo que a quantidade é insuficiente para o entretenimento dos dentes.  Montei um depósito de restos e apenas me flagrei disso quando começou a faltar prendedores para as roupas. A maioria estava desviada de sua função original e exercia bicos na cozinha. <br /><br />Eu faço o mesmo - infelizmente - com os pensamentos de minha mulher. Acompanho uma idéia pela curiosidade, mastigo durante um período e deixo para o próximo dia que nunca chega. Não desejo perder, não tiro o olho, porém não desfruto até o fim. Não desperdiço e, ao mesmo tempo, não aproveito. Crio um cemitério de unhas na janela. Ela conta seu trabalho no almoço ou na janta e já a interrompo com outras distrações e não volto ao assunto. Não volto: maldito defeito do homem que se dedica a ir, não a regressar.  <br /><br />Não a escuto, sempre querendo a novidade. Desperto para as extravagâncias. Talvez o que mais a importe seja antigo e dito sem ênfase. Um estar ali, inteiro, descompromissado, sem fugas, sem pálpebras aéreas, sem bocas apressadas. Ultrapassar a monotonia pela dedicação. <br /><br />O que a incomoda - e que ela não diz - é a facilidade em me mostrar atento para me desinteressar em seguida.  Esqueço o que ela mencionou para fingir que me lembro e concordar no escuro.<br /><br />A intenção em proteger os saquinhos não serve. Eles vão estragar como se estivessem abertos.<br /><br />Para guardar, devo estar com o rosto de minha mulher permanentemente entre as mãos e não mais confiar em prendedores.    <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38788023</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/11/2006 09:01:24 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>Domingo, 9 julho de 2006</b>, <b>CULTURA</b>, <a href="http://www.estadao.com.br">O Estado de S. Paulo </a><br /> <br /><b>DESCULPAS DESNECESSÁRIAS </b><br />Aos 59 anos, Paulo Neves reúne em um só volume a poética contundente de toda a sua vida <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://www.companhiadasletras.com.br/Html/Images/Livros/12265.jpg"><br /><b>VIAGEM, ESPERA</b><br />- 40 poemas e outros escritos<br />Paulo Neves<br />Capa: Angelo Venosa<br />128 Páginas<br />Preço: R$ 29,00 <br /> <br />Há poetas que chegam pedindo desculpas, com um olho aberto na imaginação e outro na metalinguagem. Completamente inseguros da eternidade do livro. Falam baixo em seus versos, de mansinho, para não incomodar e chamar atenção. É o caso de Paulo Neves, de 59 anos, há 20 anos traduzindo obras, jornalista e letrista gaúcho, que decidiu abrir a guarda e reunir poemas de toda uma vida em <b>Viagem, Espera</b>. Em seus versos, nota-se uma mistura abúlica de culpa e despretensão, quase se mostrando, quase desistindo.<br /><br />"Que fazer dos talentos<br />que recebi e não multipliquei?<br />Escrever, ensinar, influir...<br />Vão passando os anos e nem sei<br />se eram talentos ou enganos.<br />Onde falhei? Que vontade faltou?<br />Cumprem-se os talentos à revelia?<br />É um penhor a minha magra poesia?<br />Mas eu sei o tormento que é seguir<br />devedor até o fim."<br /><br />É uma autocrítica que pode ser confundida com comiseração, mas sinaliza antes rigor e dúvida disciplinada. Mais adiante, ele dirá, novamente assumindo a desvalia crítica: "Ser poeta era belo e triste, mas não imaginava que fosse tão árduo." Não é jogo de cena, Paulo Neves não acredita mesmo em si ou na literatura, é esse o seu ponto forte, tornando seus poemas um caderno de observações irrelevantes e apontamentos miúdos, que geram uma meditação incessante. Não problematiza a morte, a esperança ou a fé, não versa sobre os grandes temas universais com ênfase maiúscula. Eles estão presentes de modo oblíquo, na captação de relances pictóricos (Na Estrada) e na capacidade de multiplicar o som como um tambor e se enfeitiçar unicamente com o ritmo (Filhos de Gandhi).<br /><br />Em sua proposta realmente modesta, <b>Viagem, Espera</b> é, além do livro, o que o autor pensa do livro e o que ele gostaria de ter escrito. Três seções, uma completa e interroga a outra. Têm-se os versos, um ensaio pedagógico sobre poesia e criação e os que não viraram poemas porque literalmente não obedeceram. Domina um bucolismo de pensamento, uma ânsia de se esparramar na natureza. Uma hesitação que já é existência. Em Pasto, demonstra sua falta de lugar, sempre contrastando sua posição inadequada e desconfortável, presa a um compromisso e objetivo, com a liberdade impetuosa do que enxerga: "O frio da relva é macio,/ dá vontade de ser um focinho/ e fechar os olhos./ Eu sei um segredo da terra./ Eu pasto."<br /><br />Quem não quis ser um focinho? Poética da vontade mais do que da realização. O fracasso é iminente, mas não interrompe a beleza. Cristaliza - com freqüência - a cisão entre vida prática e sonhada. Enquanto o lavrador pensa no preço do óleo diesel, pererecas saltam de onde brota o arroz. Troca a superficial raiva do protesto, que caracterizaria o panfleto, por uma nostalgia permanente combinada a uma visão aguçadíssima. Paulo Neves alterna um passo atrás nas lembranças e uma observação à frente do cotidiano, com a ciência de que algo escapa à compreensão e à memória.<br /><br />Do partido das coisas desprezadas, é um perdedor desde o começo, que o qualifica a observações curiosas e extravagâncias acertadas, como a reparar na generosidade do aceno da bananeira. Ou a questionar se as aves estão partindo ou voltando na migração. Ou de recolher a água da chuva confiando que assim está bebendo o céu.<br /><br />Existe uma pequeneza milagrosa operando o conteúdo lírico, que direciona sua pronúncia a um estado corriqueiro e instantâneo. Estabelece um pacto com leitor de ingenuidade e de partilha de perplexidades.<br /><br />Paulo Neves acomoda-se ao lado da turma do "deixa disso", formada em nossa poesia por Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Mario Quintana. Assume seu lado cômico como tragédia, sua insuficiência como método. Entre o poema pronto e a sensação do poema a fazer, fica com a segunda opção. "O que me encanta na prosa/ é sua cara desarrumada de poesia."<br /><br />Não pede muito, não promete. Gira ao redor de sua cidade, de seu Rio Guaíba e de seus passarinhos, como um São Francisco expulso da ordem. Revela uma religiosidade fecunda e espontânea, encontrável em uma criança antes da comunhão.<br /><br />Sua poética não transborda, retrai-se violentamente, ameaçando extinguir-se ao longo da leitura. Esterilizante no sentido de que o escritor acerta as contas, não apresenta um projeto ou uma insinuação de novos caminhos para sua poesia. Parece que o recado está dado - e bem dado. Sua contundência, porém, dispensava as desculpas.<br /><br />* <b>Fabrício Carpinejar </b>é poeta e jornalista, autor de <i>O Amor Esquecer de Começar</i> (Bertrand Brasil, 2006) <br /></title>
<description><![CDATA[<b>Domingo, 9 julho de 2006</b>, <b>CULTURA</b>, <a href="http://www.estadao.com.br">O Estado de S. Paulo </a><br /> <br /><b>DESCULPAS DESNECESSÁRIAS </b><br />Aos 59 anos, Paulo Neves reúne em um só volume a poética contundente de toda a sua vida <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://www.companhiadasletras.com.br/Html/Images/Livros/12265.jpg"><br /><b>VIAGEM, ESPERA</b><br />- 40 poemas e outros escritos<br />Paulo Neves<br />Capa: Angelo Venosa<br />128 Páginas<br />Preço: R$ 29,00 <br /> <br />Há poetas que chegam pedindo desculpas, com um olho aberto na imaginação e outro na metalinguagem. Completamente inseguros da eternidade do livro. Falam baixo em seus versos, de mansinho, para não incomodar e chamar atenção. É o caso de Paulo Neves, de 59 anos, há 20 anos traduzindo obras, jornalista e letrista gaúcho, que decidiu abrir a guarda e reunir poemas de toda uma vida em <b>Viagem, Espera</b>. Em seus versos, nota-se uma mistura abúlica de culpa e despretensão, quase se mostrando, quase desistindo.<br /><br />"Que fazer dos talentos<br />que recebi e não multipliquei?<br />Escrever, ensinar, influir...<br />Vão passando os anos e nem sei<br />se eram talentos ou enganos.<br />Onde falhei? Que vontade faltou?<br />Cumprem-se os talentos à revelia?<br />É um penhor a minha magra poesia?<br />Mas eu sei o tormento que é seguir<br />devedor até o fim."<br /><br />É uma autocrítica que pode ser confundida com comiseração, mas sinaliza antes rigor e dúvida disciplinada. Mais adiante, ele dirá, novamente assumindo a desvalia crítica: "Ser poeta era belo e triste, mas não imaginava que fosse tão árduo." Não é jogo de cena, Paulo Neves não acredita mesmo em si ou na literatura, é esse o seu ponto forte, tornando seus poemas um caderno de observações irrelevantes e apontamentos miúdos, que geram uma meditação incessante. Não problematiza a morte, a esperança ou a fé, não versa sobre os grandes temas universais com ênfase maiúscula. Eles estão presentes de modo oblíquo, na captação de relances pictóricos (Na Estrada) e na capacidade de multiplicar o som como um tambor e se enfeitiçar unicamente com o ritmo (Filhos de Gandhi).<br /><br />Em sua proposta realmente modesta, <b>Viagem, Espera</b> é, além do livro, o que o autor pensa do livro e o que ele gostaria de ter escrito. Três seções, uma completa e interroga a outra. Têm-se os versos, um ensaio pedagógico sobre poesia e criação e os que não viraram poemas porque literalmente não obedeceram. Domina um bucolismo de pensamento, uma ânsia de se esparramar na natureza. Uma hesitação que já é existência. Em Pasto, demonstra sua falta de lugar, sempre contrastando sua posição inadequada e desconfortável, presa a um compromisso e objetivo, com a liberdade impetuosa do que enxerga: "O frio da relva é macio,/ dá vontade de ser um focinho/ e fechar os olhos./ Eu sei um segredo da terra./ Eu pasto."<br /><br />Quem não quis ser um focinho? Poética da vontade mais do que da realização. O fracasso é iminente, mas não interrompe a beleza. Cristaliza - com freqüência - a cisão entre vida prática e sonhada. Enquanto o lavrador pensa no preço do óleo diesel, pererecas saltam de onde brota o arroz. Troca a superficial raiva do protesto, que caracterizaria o panfleto, por uma nostalgia permanente combinada a uma visão aguçadíssima. Paulo Neves alterna um passo atrás nas lembranças e uma observação à frente do cotidiano, com a ciência de que algo escapa à compreensão e à memória.<br /><br />Do partido das coisas desprezadas, é um perdedor desde o começo, que o qualifica a observações curiosas e extravagâncias acertadas, como a reparar na generosidade do aceno da bananeira. Ou a questionar se as aves estão partindo ou voltando na migração. Ou de recolher a água da chuva confiando que assim está bebendo o céu.<br /><br />Existe uma pequeneza milagrosa operando o conteúdo lírico, que direciona sua pronúncia a um estado corriqueiro e instantâneo. Estabelece um pacto com leitor de ingenuidade e de partilha de perplexidades.<br /><br />Paulo Neves acomoda-se ao lado da turma do "deixa disso", formada em nossa poesia por Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Mario Quintana. Assume seu lado cômico como tragédia, sua insuficiência como método. Entre o poema pronto e a sensação do poema a fazer, fica com a segunda opção. "O que me encanta na prosa/ é sua cara desarrumada de poesia."<br /><br />Não pede muito, não promete. Gira ao redor de sua cidade, de seu Rio Guaíba e de seus passarinhos, como um São Francisco expulso da ordem. Revela uma religiosidade fecunda e espontânea, encontrável em uma criança antes da comunhão.<br /><br />Sua poética não transborda, retrai-se violentamente, ameaçando extinguir-se ao longo da leitura. Esterilizante no sentido de que o escritor acerta as contas, não apresenta um projeto ou uma insinuação de novos caminhos para sua poesia. Parece que o recado está dado - e bem dado. Sua contundência, porém, dispensava as desculpas.<br /><br />* <b>Fabrício Carpinejar </b>é poeta e jornalista, autor de <i>O Amor Esquecer de Começar</i> (Bertrand Brasil, 2006) <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Domingo, 9 julho de 2006</b>, <b>CULTURA</b>, <a href="http://www.estadao.com.br">O Estado de S. Paulo </a><br /> <br /><b>DESCULPAS DESNECESSÁRIAS </b><br />Aos 59 anos, Paulo Neves reúne em um só volume a poética contundente de toda a sua vida <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b>*<br /><br /><img src="http://www.companhiadasletras.com.br/Html/Images/Livros/12265.jpg"><br /><b>VIAGEM, ESPERA</b><br />- 40 poemas e outros escritos<br />Paulo Neves<br />Capa: Angelo Venosa<br />128 Páginas<br />Preço: R$ 29,00 <br /> <br />Há poetas que chegam pedindo desculpas, com um olho aberto na imaginação e outro na metalinguagem. Completamente inseguros da eternidade do livro. Falam baixo em seus versos, de mansinho, para não incomodar e chamar atenção. É o caso de Paulo Neves, de 59 anos, há 20 anos traduzindo obras, jornalista e letrista gaúcho, que decidiu abrir a guarda e reunir poemas de toda uma vida em <b>Viagem, Espera</b>. Em seus versos, nota-se uma mistura abúlica de culpa e despretensão, quase se mostrando, quase desistindo.<br /><br />"Que fazer dos talentos<br />que recebi e não multipliquei?<br />Escrever, ensinar, influir...<br />Vão passando os anos e nem sei<br />se eram talentos ou enganos.<br />Onde falhei? Que vontade faltou?<br />Cumprem-se os talentos à revelia?<br />É um penhor a minha magra poesia?<br />Mas eu sei o tormento que é seguir<br />devedor até o fim."<br /><br />É uma autocrítica que pode ser confundida com comiseração, mas sinaliza antes rigor e dúvida disciplinada. Mais adiante, ele dirá, novamente assumindo a desvalia crítica: "Ser poeta era belo e triste, mas não imaginava que fosse tão árduo." Não é jogo de cena, Paulo Neves não acredita mesmo em si ou na literatura, é esse o seu ponto forte, tornando seus poemas um caderno de observações irrelevantes e apontamentos miúdos, que geram uma meditação incessante. Não problematiza a morte, a esperança ou a fé, não versa sobre os grandes temas universais com ênfase maiúscula. Eles estão presentes de modo oblíquo, na captação de relances pictóricos (Na Estrada) e na capacidade de multiplicar o som como um tambor e se enfeitiçar unicamente com o ritmo (Filhos de Gandhi).<br /><br />Em sua proposta realmente modesta, <b>Viagem, Espera</b> é, além do livro, o que o autor pensa do livro e o que ele gostaria de ter escrito. Três seções, uma completa e interroga a outra. Têm-se os versos, um ensaio pedagógico sobre poesia e criação e os que não viraram poemas porque literalmente não obedeceram. Domina um bucolismo de pensamento, uma ânsia de se esparramar na natureza. Uma hesitação que já é existência. Em Pasto, demonstra sua falta de lugar, sempre contrastando sua posição inadequada e desconfortável, presa a um compromisso e objetivo, com a liberdade impetuosa do que enxerga: "O frio da relva é macio,/ dá vontade de ser um focinho/ e fechar os olhos./ Eu sei um segredo da terra./ Eu pasto."<br /><br />Quem não quis ser um focinho? Poética da vontade mais do que da realização. O fracasso é iminente, mas não interrompe a beleza. Cristaliza - com freqüência - a cisão entre vida prática e sonhada. Enquanto o lavrador pensa no preço do óleo diesel, pererecas saltam de onde brota o arroz. Troca a superficial raiva do protesto, que caracterizaria o panfleto, por uma nostalgia permanente combinada a uma visão aguçadíssima. Paulo Neves alterna um passo atrás nas lembranças e uma observação à frente do cotidiano, com a ciência de que algo escapa à compreensão e à memória.<br /><br />Do partido das coisas desprezadas, é um perdedor desde o começo, que o qualifica a observações curiosas e extravagâncias acertadas, como a reparar na generosidade do aceno da bananeira. Ou a questionar se as aves estão partindo ou voltando na migração. Ou de recolher a água da chuva confiando que assim está bebendo o céu.<br /><br />Existe uma pequeneza milagrosa operando o conteúdo lírico, que direciona sua pronúncia a um estado corriqueiro e instantâneo. Estabelece um pacto com leitor de ingenuidade e de partilha de perplexidades.<br /><br />Paulo Neves acomoda-se ao lado da turma do "deixa disso", formada em nossa poesia por Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Mario Quintana. Assume seu lado cômico como tragédia, sua insuficiência como método. Entre o poema pronto e a sensação do poema a fazer, fica com a segunda opção. "O que me encanta na prosa/ é sua cara desarrumada de poesia."<br /><br />Não pede muito, não promete. Gira ao redor de sua cidade, de seu Rio Guaíba e de seus passarinhos, como um São Francisco expulso da ordem. Revela uma religiosidade fecunda e espontânea, encontrável em uma criança antes da comunhão.<br /><br />Sua poética não transborda, retrai-se violentamente, ameaçando extinguir-se ao longo da leitura. Esterilizante no sentido de que o escritor acerta as contas, não apresenta um projeto ou uma insinuação de novos caminhos para sua poesia. Parece que o recado está dado - e bem dado. Sua contundência, porém, dispensava as desculpas.<br /><br />* <b>Fabrício Carpinejar </b>é poeta e jornalista, autor de <i>O Amor Esquecer de Começar</i> (Bertrand Brasil, 2006) <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38780698</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/9/2006 11:54:01 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>PLANTAR ÁRVORES OU PLANTAR PÁSSAROS</b><br />Do Consultório Poético<br />Pintura de Marc Chagall<br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_144559.shtml">Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://yargerfineart.com/images/largeart/CHAG-Nature-morte-al-al-bou.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br />Tenho 22 anos e aos 19 conheci um cara mais velho que eu 14 anos. Foi muito legal, pois construímos uma amizade muito interessante, gostava de conversar com ele (acho que pelo fato de eu morar longe do meu pai), me sentia protegida perto dele. Com o passar do tempo acabamos nos envolvendo - isso tudo seria ótimo se não tivesse um problema: ele é comprometido, mais especificamente, casado há 16 anos. Eu ficava com ele, mas sentia muito remorso pelo fato de ele ter uma família, não achava justo, mas gostava muito dele. Já ele pensava diferente, dizia que o fato de ser comprometido não o impedia de gostar de mim e que tínhamos mais era que viver nossa história. Passado um bom tempo parei pra pensar no que eu estava fazendo da minha vida, então lembrei da minha família, que confia muito em mim, e que alguém poderia descobrir isso e não queria ser vista como a destruidora de lares. Resolvi dar um tempo. Passei uns 4 meses sem falar com ele.       <br /><br />Mas agora aconteceu uma coisa que vem me fazendo muito mal. Ele resolveu me dizer que está namorando outra garota. Caiu como uma bomba sobre minha cabeça, pois apesar de não termos mais nada, ainda gosto muito dele e fiquei com muito ciúme, brigamos feio, nos falamos coisas horríveis. Depois de tanto brigar fomos nos encontrar e acabamos fazendo as pazes. O problema é que aconteceu algo mais que isso (ele foi meu primeiro), eu me arrependi, nem eu mesma consigo entender, pois ficamos tanto tempo juntos e não rolou nada de íntimo e agora que ele me magoou tanto deixei acontecer, me culpo por isso, me sinto uma tremenda idiota. Estou muito magoada, ele não se preocupa com meus sentimentos, diz que gosta de mim, mas faz questão de dizer que essa tal namorada é importante para ele. Tenho muita pena da esposa dele e da garota (ela é mais nova que eu, deve ter uns 18 anos) que está entrando num barco furado. Além de tudo, a namorada dele (ou melhor, amante) descobriu meu e-mail e fica me escrevendo, e o pior, foi ele que permitiu que ela me escrevesse, isso dói muito, ele brinca com meus sentimentos. Estou muito magoada, às vezes me pergunto como alguém pode dormir tranqüilo sabendo que engana três pessoas (pensando bem engana duas, porque eu sei da existência das outras e elas não sabem de mim), eu que me enganei demais, me deixei levar por uma ilusão. O pior de tudo é que ele diz pra tal namorada que somos apenas bons amigos e que nunca rolou nada entre nós, faz isso porque sabe que a garota gosta dele e ficaria chateada se soubesse de alguma coisa, isso me chateia, pois ele nunca se preocupou se me magoaria me falando dela.<br /><br />Olho pra mim e vejo que não mereço isso, minha vontade é de passar uma borracha nisso tudo, mas é difícil, isso só vai acontecer com o tempo. Há outros rapazes interessados em me conquistar, há um até que se declarou esta semana (me disse que está apaixonado e me quer muito), mas eu estou muito decepcionada, acho que não estou preparada para amar novamente.<br /><br />Fabrício, gostaria de ler sua opinião, pois isso me ajuda, fico melhor quando leio o que você escreveu pra outras pessoas no Consultório Poético.<br /><br />Por favor, me responda.<br />Um abraço.Te admiro. <br /><br />Nena"</i><br /><br />Ele dorme tranqüilo porque acredita que não está enganando ninguém. Não consulta sua consciência. É amoral, nem imoral é. Não está na moralidade para ser julgado ou errar. Sua vaidade é o sofrimento de vocês. Não se dispõe a mudar - nem cogita. Diz que é assim e ponto final. Pula de uma casa para outra porque não suporta a continuidade. Nem adianta conversar. É um conquistador e a sedução é fechada e passageira como um jogo de pôquer entre os amigos. Ele não é capaz de cultivar o seu melhor, mas de fazê-la ficar presa a ele pelo seu pior. Vem torturando seus dias, vem eliminando sua ternura, vem incitando a raiva e a competição... Somente coisas ruins. Desde que está com ele, com certeza piorou, tornou-se mais amarga, incrédula e isolada. E o mais triste: todos os homens levam a culpa por um único sujeito. Ele apenas desencadeia tragédias em sua pequena vida. Bonito é quando alguém procura todos os pontos de vista na mesma mulher, sem violentá-la com comparações e invadi-la com duplicidades. <br /><br />Eu acabei de dizer para uma amiga hoje de manhã: queremos no amor plantar uma árvore, afofamos a terra para depositar a semente, amparamos seu crescimento diante da vizinhança, planejamos o espaço de que ela depende para crescer. <br /><br />Mas esquecemos que também somos árvores. Queremos plantar uma árvore para ter sombra. Para mostrar aos outros. Para nos apoiar. Para aprofundar a boca com o açúcar dos frutos. Esquecemos que devemos ser cuidadas e zeladas senão não vamos segurar o chapéu de folhas, algodão e ninhos quando o vento passar apressado e furioso, quando a tempestade mostrar nossa vulnerabilidade de outono. <br /><br />Como árvores, nossa vocação é para cima. Plantar pássaros. Plantar vôos. Aceitamos até um balanço para empurrar a infância. Nunca deixar que o tronco apodreça ao ir para o lado.<br /><br />Não tente, portanto, mais salvá-lo, pois está no momento de se salvar dele.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>PLANTAR ÁRVORES OU PLANTAR PÁSSAROS</b><br />Do Consultório Poético<br />Pintura de Marc Chagall<br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_144559.shtml">Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://yargerfineart.com/images/largeart/CHAG-Nature-morte-al-al-bou.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br />Tenho 22 anos e aos 19 conheci um cara mais velho que eu 14 anos. Foi muito legal, pois construímos uma amizade muito interessante, gostava de conversar com ele (acho que pelo fato de eu morar longe do meu pai), me sentia protegida perto dele. Com o passar do tempo acabamos nos envolvendo - isso tudo seria ótimo se não tivesse um problema: ele é comprometido, mais especificamente, casado há 16 anos. Eu ficava com ele, mas sentia muito remorso pelo fato de ele ter uma família, não achava justo, mas gostava muito dele. Já ele pensava diferente, dizia que o fato de ser comprometido não o impedia de gostar de mim e que tínhamos mais era que viver nossa história. Passado um bom tempo parei pra pensar no que eu estava fazendo da minha vida, então lembrei da minha família, que confia muito em mim, e que alguém poderia descobrir isso e não queria ser vista como a destruidora de lares. Resolvi dar um tempo. Passei uns 4 meses sem falar com ele.       <br /><br />Mas agora aconteceu uma coisa que vem me fazendo muito mal. Ele resolveu me dizer que está namorando outra garota. Caiu como uma bomba sobre minha cabeça, pois apesar de não termos mais nada, ainda gosto muito dele e fiquei com muito ciúme, brigamos feio, nos falamos coisas horríveis. Depois de tanto brigar fomos nos encontrar e acabamos fazendo as pazes. O problema é que aconteceu algo mais que isso (ele foi meu primeiro), eu me arrependi, nem eu mesma consigo entender, pois ficamos tanto tempo juntos e não rolou nada de íntimo e agora que ele me magoou tanto deixei acontecer, me culpo por isso, me sinto uma tremenda idiota. Estou muito magoada, ele não se preocupa com meus sentimentos, diz que gosta de mim, mas faz questão de dizer que essa tal namorada é importante para ele. Tenho muita pena da esposa dele e da garota (ela é mais nova que eu, deve ter uns 18 anos) que está entrando num barco furado. Além de tudo, a namorada dele (ou melhor, amante) descobriu meu e-mail e fica me escrevendo, e o pior, foi ele que permitiu que ela me escrevesse, isso dói muito, ele brinca com meus sentimentos. Estou muito magoada, às vezes me pergunto como alguém pode dormir tranqüilo sabendo que engana três pessoas (pensando bem engana duas, porque eu sei da existência das outras e elas não sabem de mim), eu que me enganei demais, me deixei levar por uma ilusão. O pior de tudo é que ele diz pra tal namorada que somos apenas bons amigos e que nunca rolou nada entre nós, faz isso porque sabe que a garota gosta dele e ficaria chateada se soubesse de alguma coisa, isso me chateia, pois ele nunca se preocupou se me magoaria me falando dela.<br /><br />Olho pra mim e vejo que não mereço isso, minha vontade é de passar uma borracha nisso tudo, mas é difícil, isso só vai acontecer com o tempo. Há outros rapazes interessados em me conquistar, há um até que se declarou esta semana (me disse que está apaixonado e me quer muito), mas eu estou muito decepcionada, acho que não estou preparada para amar novamente.<br /><br />Fabrício, gostaria de ler sua opinião, pois isso me ajuda, fico melhor quando leio o que você escreveu pra outras pessoas no Consultório Poético.<br /><br />Por favor, me responda.<br />Um abraço.Te admiro. <br /><br />Nena"</i><br /><br />Ele dorme tranqüilo porque acredita que não está enganando ninguém. Não consulta sua consciência. É amoral, nem imoral é. Não está na moralidade para ser julgado ou errar. Sua vaidade é o sofrimento de vocês. Não se dispõe a mudar - nem cogita. Diz que é assim e ponto final. Pula de uma casa para outra porque não suporta a continuidade. Nem adianta conversar. É um conquistador e a sedução é fechada e passageira como um jogo de pôquer entre os amigos. Ele não é capaz de cultivar o seu melhor, mas de fazê-la ficar presa a ele pelo seu pior. Vem torturando seus dias, vem eliminando sua ternura, vem incitando a raiva e a competição... Somente coisas ruins. Desde que está com ele, com certeza piorou, tornou-se mais amarga, incrédula e isolada. E o mais triste: todos os homens levam a culpa por um único sujeito. Ele apenas desencadeia tragédias em sua pequena vida. Bonito é quando alguém procura todos os pontos de vista na mesma mulher, sem violentá-la com comparações e invadi-la com duplicidades. <br /><br />Eu acabei de dizer para uma amiga hoje de manhã: queremos no amor plantar uma árvore, afofamos a terra para depositar a semente, amparamos seu crescimento diante da vizinhança, planejamos o espaço de que ela depende para crescer. <br /><br />Mas esquecemos que também somos árvores. Queremos plantar uma árvore para ter sombra. Para mostrar aos outros. Para nos apoiar. Para aprofundar a boca com o açúcar dos frutos. Esquecemos que devemos ser cuidadas e zeladas senão não vamos segurar o chapéu de folhas, algodão e ninhos quando o vento passar apressado e furioso, quando a tempestade mostrar nossa vulnerabilidade de outono. <br /><br />Como árvores, nossa vocação é para cima. Plantar pássaros. Plantar vôos. Aceitamos até um balanço para empurrar a infância. Nunca deixar que o tronco apodreça ao ir para o lado.<br /><br />Não tente, portanto, mais salvá-lo, pois está no momento de se salvar dele.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>PLANTAR ÁRVORES OU PLANTAR PÁSSAROS</b><br />Do Consultório Poético<br />Pintura de Marc Chagall<br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_144559.shtml">Superinteressante</a><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://yargerfineart.com/images/largeart/CHAG-Nature-morte-al-al-bou.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br />Tenho 22 anos e aos 19 conheci um cara mais velho que eu 14 anos. Foi muito legal, pois construímos uma amizade muito interessante, gostava de conversar com ele (acho que pelo fato de eu morar longe do meu pai), me sentia protegida perto dele. Com o passar do tempo acabamos nos envolvendo - isso tudo seria ótimo se não tivesse um problema: ele é comprometido, mais especificamente, casado há 16 anos. Eu ficava com ele, mas sentia muito remorso pelo fato de ele ter uma família, não achava justo, mas gostava muito dele. Já ele pensava diferente, dizia que o fato de ser comprometido não o impedia de gostar de mim e que tínhamos mais era que viver nossa história. Passado um bom tempo parei pra pensar no que eu estava fazendo da minha vida, então lembrei da minha família, que confia muito em mim, e que alguém poderia descobrir isso e não queria ser vista como a destruidora de lares. Resolvi dar um tempo. Passei uns 4 meses sem falar com ele.       <br /><br />Mas agora aconteceu uma coisa que vem me fazendo muito mal. Ele resolveu me dizer que está namorando outra garota. Caiu como uma bomba sobre minha cabeça, pois apesar de não termos mais nada, ainda gosto muito dele e fiquei com muito ciúme, brigamos feio, nos falamos coisas horríveis. Depois de tanto brigar fomos nos encontrar e acabamos fazendo as pazes. O problema é que aconteceu algo mais que isso (ele foi meu primeiro), eu me arrependi, nem eu mesma consigo entender, pois ficamos tanto tempo juntos e não rolou nada de íntimo e agora que ele me magoou tanto deixei acontecer, me culpo por isso, me sinto uma tremenda idiota. Estou muito magoada, ele não se preocupa com meus sentimentos, diz que gosta de mim, mas faz questão de dizer que essa tal namorada é importante para ele. Tenho muita pena da esposa dele e da garota (ela é mais nova que eu, deve ter uns 18 anos) que está entrando num barco furado. Além de tudo, a namorada dele (ou melhor, amante) descobriu meu e-mail e fica me escrevendo, e o pior, foi ele que permitiu que ela me escrevesse, isso dói muito, ele brinca com meus sentimentos. Estou muito magoada, às vezes me pergunto como alguém pode dormir tranqüilo sabendo que engana três pessoas (pensando bem engana duas, porque eu sei da existência das outras e elas não sabem de mim), eu que me enganei demais, me deixei levar por uma ilusão. O pior de tudo é que ele diz pra tal namorada que somos apenas bons amigos e que nunca rolou nada entre nós, faz isso porque sabe que a garota gosta dele e ficaria chateada se soubesse de alguma coisa, isso me chateia, pois ele nunca se preocupou se me magoaria me falando dela.<br /><br />Olho pra mim e vejo que não mereço isso, minha vontade é de passar uma borracha nisso tudo, mas é difícil, isso só vai acontecer com o tempo. Há outros rapazes interessados em me conquistar, há um até que se declarou esta semana (me disse que está apaixonado e me quer muito), mas eu estou muito decepcionada, acho que não estou preparada para amar novamente.<br /><br />Fabrício, gostaria de ler sua opinião, pois isso me ajuda, fico melhor quando leio o que você escreveu pra outras pessoas no Consultório Poético.<br /><br />Por favor, me responda.<br />Um abraço.Te admiro. <br /><br />Nena"</i><br /><br />Ele dorme tranqüilo porque acredita que não está enganando ninguém. Não consulta sua consciência. É amoral, nem imoral é. Não está na moralidade para ser julgado ou errar. Sua vaidade é o sofrimento de vocês. Não se dispõe a mudar - nem cogita. Diz que é assim e ponto final. Pula de uma casa para outra porque não suporta a continuidade. Nem adianta conversar. É um conquistador e a sedução é fechada e passageira como um jogo de pôquer entre os amigos. Ele não é capaz de cultivar o seu melhor, mas de fazê-la ficar presa a ele pelo seu pior. Vem torturando seus dias, vem eliminando sua ternura, vem incitando a raiva e a competição... Somente coisas ruins. Desde que está com ele, com certeza piorou, tornou-se mais amarga, incrédula e isolada. E o mais triste: todos os homens levam a culpa por um único sujeito. Ele apenas desencadeia tragédias em sua pequena vida. Bonito é quando alguém procura todos os pontos de vista na mesma mulher, sem violentá-la com comparações e invadi-la com duplicidades. <br /><br />Eu acabei de dizer para uma amiga hoje de manhã: queremos no amor plantar uma árvore, afofamos a terra para depositar a semente, amparamos seu crescimento diante da vizinhança, planejamos o espaço de que ela depende para crescer. <br /><br />Mas esquecemos que também somos árvores. Queremos plantar uma árvore para ter sombra. Para mostrar aos outros. Para nos apoiar. Para aprofundar a boca com o açúcar dos frutos. Esquecemos que devemos ser cuidadas e zeladas senão não vamos segurar o chapéu de folhas, algodão e ninhos quando o vento passar apressado e furioso, quando a tempestade mostrar nossa vulnerabilidade de outono. <br /><br />Como árvores, nossa vocação é para cima. Plantar pássaros. Plantar vôos. Aceitamos até um balanço para empurrar a infância. Nunca deixar que o tronco apodreça ao ir para o lado.<br /><br />Não tente, portanto, mais salvá-lo, pois está no momento de se salvar dele.<br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38774341</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/7/2006 11:47:02 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>EXPRESSO BEM ESPUMOSO</b><br /><br /><br />Dei entrevista para <b>Fernanda Garrafiel</b> no site de notícias <b>Armazém Literário</b>. <a href="http://www.cafeliterario.jor.br/article.php3?id_article=118">Confira</a>.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>EXPRESSO BEM ESPUMOSO</b><br /><br /><br />Dei entrevista para <b>Fernanda Garrafiel</b> no site de notícias <b>Armazém Literário</b>. <a href="http://www.cafeliterario.jor.br/article.php3?id_article=118">Confira</a>.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>EXPRESSO BEM ESPUMOSO</b><br /><br /><br />Dei entrevista para <b>Fernanda Garrafiel</b> no site de notícias <b>Armazém Literário</b>. <a href="http://www.cafeliterario.jor.br/article.php3?id_article=118">Confira</a>.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38774331</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/7/2006 11:44:15 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>EMPRESTANDO ROUPAS AO MARIDO</b><br />Ilustração do "Pequeno Príncipe" e pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nenpl.org/courtyard/saintexupery/Little-Prince-Man-blurred.gif"><br /><img src="http://www.a-r-t-asso.org/ully/dubuffet_campagne/campagne_miniat.jpg"><br /><br />Ana fica possessa, mas inventei de usar seus casacos. Ela escondeu os melhores na parte inferior do guarda-roupa. Encontrei-os em longa investigação, sufocados pelo edredom. Já tomei para mim dois casacos de couro. Estão nos meus cabides, felizes com a troca rápida e indolor de sexo. <br /><br />No início, fazia para provocar. Depois, surgiu com uma alegre possibilidade de ampliar meu repertório sem custo algum. <br /><br />Hoje saí com uma peça dela de veludo. Antes de bater a porta, ela amaldiçoou que é um vestido. Bem disfarçado, dá para enganar que é um casaco. Não mergulhei em sua conversa. Acreditei que me constrangia para não estragá-lo. Tática de intimidação. Entre o trinco e sua boca, ouvi seu grito: <br /><br />- Tem certeza que vai sair assim? <br /><br />É óbvio que os botões prateados complicam as explicações. Examinado com rigor, diante do espelho, é parente da túnica acinturada que cobre o Pequeno Príncipe. Não penso mais no assunto para não sentir calor. <br /> <br />Não deve ser fácil para uma mulher suportar o marido roubando suas roupas. Eu a entendo e sou solidário com a desgraça. Os casacos justos e conservados tornam-se grandalhões e largos depois que devolvo. Imprestáveis. Ao casar e se ver livre dos furtos da irmã mais nova, apareço na maturidade para completar a tragédia familiar. <br /><br />Com a caçula, ela sofria horrores. A mãe sempre dava razão para a menor, insistia que emprestasse e ainda a chamava de avarenta. Quem não passou por isso? Toda aquela combinação bolada durante horas de noite fracassava de manhã. Sumia algo do conjunto. Nem pedir, ela pedia. Caso ela pedisse, Ana não emprestaria, mas a educação é fundamental para o ódio.  <br /><br />A impunidade irritava. Incerta se não achava a saia pela pressa ou se a dileta tratou de arrancar sorrateiramente dali. O azar dela era contar com uma irmã com o mesmo número de sapato e idêntico manequim - não desejo a ninguém. <br /><br />E quando a irmã quebrava o pacto de vizinhança e surgia desfilando na escola com seu modelo transado, diante do riso da turma. A vontade era a de se esconder e vender a confecção a um brechó. <br /><br />Pior que isso é se deparar com um colega no trabalho trajando a camisa igual a sua, adquirida numa promoção. São raros meus impulsos homicidas. Com certeza, esse é o primeiro deles. A ânsia de eliminar a concorrência, mesmo que seja começando por mim. <br /><br />Ponho com orgulho os casacos de minha mulher. Só nos momentos em que não posso vestir seu corpo. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>EMPRESTANDO ROUPAS AO MARIDO</b><br />Ilustração do "Pequeno Príncipe" e pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nenpl.org/courtyard/saintexupery/Little-Prince-Man-blurred.gif"><br /><img src="http://www.a-r-t-asso.org/ully/dubuffet_campagne/campagne_miniat.jpg"><br /><br />Ana fica possessa, mas inventei de usar seus casacos. Ela escondeu os melhores na parte inferior do guarda-roupa. Encontrei-os em longa investigação, sufocados pelo edredom. Já tomei para mim dois casacos de couro. Estão nos meus cabides, felizes com a troca rápida e indolor de sexo. <br /><br />No início, fazia para provocar. Depois, surgiu com uma alegre possibilidade de ampliar meu repertório sem custo algum. <br /><br />Hoje saí com uma peça dela de veludo. Antes de bater a porta, ela amaldiçoou que é um vestido. Bem disfarçado, dá para enganar que é um casaco. Não mergulhei em sua conversa. Acreditei que me constrangia para não estragá-lo. Tática de intimidação. Entre o trinco e sua boca, ouvi seu grito: <br /><br />- Tem certeza que vai sair assim? <br /><br />É óbvio que os botões prateados complicam as explicações. Examinado com rigor, diante do espelho, é parente da túnica acinturada que cobre o Pequeno Príncipe. Não penso mais no assunto para não sentir calor. <br /> <br />Não deve ser fácil para uma mulher suportar o marido roubando suas roupas. Eu a entendo e sou solidário com a desgraça. Os casacos justos e conservados tornam-se grandalhões e largos depois que devolvo. Imprestáveis. Ao casar e se ver livre dos furtos da irmã mais nova, apareço na maturidade para completar a tragédia familiar. <br /><br />Com a caçula, ela sofria horrores. A mãe sempre dava razão para a menor, insistia que emprestasse e ainda a chamava de avarenta. Quem não passou por isso? Toda aquela combinação bolada durante horas de noite fracassava de manhã. Sumia algo do conjunto. Nem pedir, ela pedia. Caso ela pedisse, Ana não emprestaria, mas a educação é fundamental para o ódio.  <br /><br />A impunidade irritava. Incerta se não achava a saia pela pressa ou se a dileta tratou de arrancar sorrateiramente dali. O azar dela era contar com uma irmã com o mesmo número de sapato e idêntico manequim - não desejo a ninguém. <br /><br />E quando a irmã quebrava o pacto de vizinhança e surgia desfilando na escola com seu modelo transado, diante do riso da turma. A vontade era a de se esconder e vender a confecção a um brechó. <br /><br />Pior que isso é se deparar com um colega no trabalho trajando a camisa igual a sua, adquirida numa promoção. São raros meus impulsos homicidas. Com certeza, esse é o primeiro deles. A ânsia de eliminar a concorrência, mesmo que seja começando por mim. <br /><br />Ponho com orgulho os casacos de minha mulher. Só nos momentos em que não posso vestir seu corpo. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>EMPRESTANDO ROUPAS AO MARIDO</b><br />Ilustração do "Pequeno Príncipe" e pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.nenpl.org/courtyard/saintexupery/Little-Prince-Man-blurred.gif"><br /><img src="http://www.a-r-t-asso.org/ully/dubuffet_campagne/campagne_miniat.jpg"><br /><br />Ana fica possessa, mas inventei de usar seus casacos. Ela escondeu os melhores na parte inferior do guarda-roupa. Encontrei-os em longa investigação, sufocados pelo edredom. Já tomei para mim dois casacos de couro. Estão nos meus cabides, felizes com a troca rápida e indolor de sexo. <br /><br />No início, fazia para provocar. Depois, surgiu com uma alegre possibilidade de ampliar meu repertório sem custo algum. <br /><br />Hoje saí com uma peça dela de veludo. Antes de bater a porta, ela amaldiçoou que é um vestido. Bem disfarçado, dá para enganar que é um casaco. Não mergulhei em sua conversa. Acreditei que me constrangia para não estragá-lo. Tática de intimidação. Entre o trinco e sua boca, ouvi seu grito: <br /><br />- Tem certeza que vai sair assim? <br /><br />É óbvio que os botões prateados complicam as explicações. Examinado com rigor, diante do espelho, é parente da túnica acinturada que cobre o Pequeno Príncipe. Não penso mais no assunto para não sentir calor. <br /> <br />Não deve ser fácil para uma mulher suportar o marido roubando suas roupas. Eu a entendo e sou solidário com a desgraça. Os casacos justos e conservados tornam-se grandalhões e largos depois que devolvo. Imprestáveis. Ao casar e se ver livre dos furtos da irmã mais nova, apareço na maturidade para completar a tragédia familiar. <br /><br />Com a caçula, ela sofria horrores. A mãe sempre dava razão para a menor, insistia que emprestasse e ainda a chamava de avarenta. Quem não passou por isso? Toda aquela combinação bolada durante horas de noite fracassava de manhã. Sumia algo do conjunto. Nem pedir, ela pedia. Caso ela pedisse, Ana não emprestaria, mas a educação é fundamental para o ódio.  <br /><br />A impunidade irritava. Incerta se não achava a saia pela pressa ou se a dileta tratou de arrancar sorrateiramente dali. O azar dela era contar com uma irmã com o mesmo número de sapato e idêntico manequim - não desejo a ninguém. <br /><br />E quando a irmã quebrava o pacto de vizinhança e surgia desfilando na escola com seu modelo transado, diante do riso da turma. A vontade era a de se esconder e vender a confecção a um brechó. <br /><br />Pior que isso é se deparar com um colega no trabalho trajando a camisa igual a sua, adquirida numa promoção. São raros meus impulsos homicidas. Com certeza, esse é o primeiro deles. A ânsia de eliminar a concorrência, mesmo que seja começando por mim. <br /><br />Ponho com orgulho os casacos de minha mulher. Só nos momentos em que não posso vestir seu corpo. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38766589</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/5/2006 12:03:13 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>AQUELE GOL QUE NINGUÉM VIU</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.iespana.es/RonaldinhoWeb/ARCHIVES/NOTICIAS/9roniegerman.jpg"><br /><br />Jurei não escrever sobre futebol por enquanto. Mas devo. Preciso bater as costas para engolir o desgosto. Assim como já engoli meu próprio dente em uma briga na infância. Engoli meu dente como uma aspirina, sem água. A seco. A garganta agüentou. <br /><br />Eu perdi muitas Copas: 74 foi a minha primeira. Ainda lembro de um jogador polonês Lato atravessando todo o campo sem marcação para fazer o gol e nos colocar em quarto lugar. <br /><br />Rememoro 78, o Brasil não conheceu a derrota e o Peru levou seis quando poderia levar quatro. É inacreditável o que acontece nos bastidores. <br /><br />A de 82 tornou-se a mais dolorida. Com dez anos, só querendo bater bola nos campinhos, guardo intacto o rosto do Falcão, as veias da testa de Falcão explodindo e comemorando o gol de empate que nos classificava. Um anjo de Leonardo da Vinci retocado pelo desespero de Munch. E, em seguida, a ruína da defesa. Rossi, Rossi, Rossi. Três vezes Rossi. Sócrates cabeceou um cruzamento no final que - por pouquinho - não entrou. Eu imaginei durante décadas a bola entrando e vencendo Dino. Décadas: no chuveiro, no carro, no supermercado, na escola, meus cabelos boiavam na reprise do que não houve, do que não deu.  Encontrei Sócrates em uma choperia em Ribeirão Preto, vinte anos transcorrida a copa, e não consegui conversar. Observava sua testa com teimosia. Como se houvesse um hematoma, uma bolha, um caroço. Pensava unicamente na cabeçada que não entrou, o que seria sua trajetória depois da cabeçada, o que seria minha biografia com aquela vitória. O que uma bola sente no outro lado do mundo interfere em sua vida. Aquela vitória poderia ter me entusiasmado a beijar a menina que eu gostava na escola. Ela havia prometido um beijo se a seleção fosse à final.  <br /><br />A de 86 não tinha chance, França nos tirou nos pênaltis, até Zico errou e o goleiro Carlos tomou uma bola nas costas, após bater na trave, para estufar as redes. Muito azar na perícia. Em 90, caímos precoce, nas oitavas, nem senti o gostinho dos feriados.<br /><br />As de 94, 98 e 2002, sou muito velho para lembrar e a alegria encurta as goleiras. <br /><br />Voltei a contar com dez anos no sábado. Talvez porque tenha um filho, 4, e uma adolescente, 12. De repente, virei o filho do meio. E nem pude ficar triste na hora, nem chorei como antes. Nenhum sinal visível. Exercitei derrames em silêncio. <br /><br />Vicente me animou: "agora iremos voltar a assistir o Inter". Mariana brincou com sua idade na próxima Copa: 16 anos... Quando os filhos consolam, fazendo o que deveria fazer, é que alguma coisa está errada comigo. Não me saía da cabeça a cobrança derradeira de falta de Ronaldinho Gaúcho. Estou no trabalho, estou em festas, não importa, recordo Ronaldinho batendo a falta e comemorando. Batendo a falta e empatando a partida no finalzinho. Hipnose exaustiva. Enquanto escrevo este texto, olho para o chão e a barreira anda para a frente. Minha memória só aceita a reversão do resultado. Empacou. Não deixo o lugar na frente da televisão. <br /><br />O discernimento não é maior do que a ingenuidade. <br /><br />Não vou dizer que merecíamos perder, não vou dizer que era melhor sair antes, que a seleção teve um plantel de mercenários, não vou culpar um ou outro, não tomarei uma posição intelectual a menosprezar o futebol e reduzi-lo a um esporte, não gritarei que a vida segue, que o ano começa, que agora é torcer para Portugal, não vou. O futebol é quando meus olhos são as minhas pernas. Não sei caminhar de outro jeito. O juiz ainda não apitou aquela cobrança de Ronaldinho. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>AQUELE GOL QUE NINGUÉM VIU</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.iespana.es/RonaldinhoWeb/ARCHIVES/NOTICIAS/9roniegerman.jpg"><br /><br />Jurei não escrever sobre futebol por enquanto. Mas devo. Preciso bater as costas para engolir o desgosto. Assim como já engoli meu próprio dente em uma briga na infância. Engoli meu dente como uma aspirina, sem água. A seco. A garganta agüentou. <br /><br />Eu perdi muitas Copas: 74 foi a minha primeira. Ainda lembro de um jogador polonês Lato atravessando todo o campo sem marcação para fazer o gol e nos colocar em quarto lugar. <br /><br />Rememoro 78, o Brasil não conheceu a derrota e o Peru levou seis quando poderia levar quatro. É inacreditável o que acontece nos bastidores. <br /><br />A de 82 tornou-se a mais dolorida. Com dez anos, só querendo bater bola nos campinhos, guardo intacto o rosto do Falcão, as veias da testa de Falcão explodindo e comemorando o gol de empate que nos classificava. Um anjo de Leonardo da Vinci retocado pelo desespero de Munch. E, em seguida, a ruína da defesa. Rossi, Rossi, Rossi. Três vezes Rossi. Sócrates cabeceou um cruzamento no final que - por pouquinho - não entrou. Eu imaginei durante décadas a bola entrando e vencendo Dino. Décadas: no chuveiro, no carro, no supermercado, na escola, meus cabelos boiavam na reprise do que não houve, do que não deu.  Encontrei Sócrates em uma choperia em Ribeirão Preto, vinte anos transcorrida a copa, e não consegui conversar. Observava sua testa com teimosia. Como se houvesse um hematoma, uma bolha, um caroço. Pensava unicamente na cabeçada que não entrou, o que seria sua trajetória depois da cabeçada, o que seria minha biografia com aquela vitória. O que uma bola sente no outro lado do mundo interfere em sua vida. Aquela vitória poderia ter me entusiasmado a beijar a menina que eu gostava na escola. Ela havia prometido um beijo se a seleção fosse à final.  <br /><br />A de 86 não tinha chance, França nos tirou nos pênaltis, até Zico errou e o goleiro Carlos tomou uma bola nas costas, após bater na trave, para estufar as redes. Muito azar na perícia. Em 90, caímos precoce, nas oitavas, nem senti o gostinho dos feriados.<br /><br />As de 94, 98 e 2002, sou muito velho para lembrar e a alegria encurta as goleiras. <br /><br />Voltei a contar com dez anos no sábado. Talvez porque tenha um filho, 4, e uma adolescente, 12. De repente, virei o filho do meio. E nem pude ficar triste na hora, nem chorei como antes. Nenhum sinal visível. Exercitei derrames em silêncio. <br /><br />Vicente me animou: "agora iremos voltar a assistir o Inter". Mariana brincou com sua idade na próxima Copa: 16 anos... Quando os filhos consolam, fazendo o que deveria fazer, é que alguma coisa está errada comigo. Não me saía da cabeça a cobrança derradeira de falta de Ronaldinho Gaúcho. Estou no trabalho, estou em festas, não importa, recordo Ronaldinho batendo a falta e comemorando. Batendo a falta e empatando a partida no finalzinho. Hipnose exaustiva. Enquanto escrevo este texto, olho para o chão e a barreira anda para a frente. Minha memória só aceita a reversão do resultado. Empacou. Não deixo o lugar na frente da televisão. <br /><br />O discernimento não é maior do que a ingenuidade. <br /><br />Não vou dizer que merecíamos perder, não vou dizer que era melhor sair antes, que a seleção teve um plantel de mercenários, não vou culpar um ou outro, não tomarei uma posição intelectual a menosprezar o futebol e reduzi-lo a um esporte, não gritarei que a vida segue, que o ano começa, que agora é torcer para Portugal, não vou. O futebol é quando meus olhos são as minhas pernas. Não sei caminhar de outro jeito. O juiz ainda não apitou aquela cobrança de Ronaldinho. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>AQUELE GOL QUE NINGUÉM VIU</b><br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.iespana.es/RonaldinhoWeb/ARCHIVES/NOTICIAS/9roniegerman.jpg"><br /><br />Jurei não escrever sobre futebol por enquanto. Mas devo. Preciso bater as costas para engolir o desgosto. Assim como já engoli meu próprio dente em uma briga na infância. Engoli meu dente como uma aspirina, sem água. A seco. A garganta agüentou. <br /><br />Eu perdi muitas Copas: 74 foi a minha primeira. Ainda lembro de um jogador polonês Lato atravessando todo o campo sem marcação para fazer o gol e nos colocar em quarto lugar. <br /><br />Rememoro 78, o Brasil não conheceu a derrota e o Peru levou seis quando poderia levar quatro. É inacreditável o que acontece nos bastidores. <br /><br />A de 82 tornou-se a mais dolorida. Com dez anos, só querendo bater bola nos campinhos, guardo intacto o rosto do Falcão, as veias da testa de Falcão explodindo e comemorando o gol de empate que nos classificava. Um anjo de Leonardo da Vinci retocado pelo desespero de Munch. E, em seguida, a ruína da defesa. Rossi, Rossi, Rossi. Três vezes Rossi. Sócrates cabeceou um cruzamento no final que - por pouquinho - não entrou. Eu imaginei durante décadas a bola entrando e vencendo Dino. Décadas: no chuveiro, no carro, no supermercado, na escola, meus cabelos boiavam na reprise do que não houve, do que não deu.  Encontrei Sócrates em uma choperia em Ribeirão Preto, vinte anos transcorrida a copa, e não consegui conversar. Observava sua testa com teimosia. Como se houvesse um hematoma, uma bolha, um caroço. Pensava unicamente na cabeçada que não entrou, o que seria sua trajetória depois da cabeçada, o que seria minha biografia com aquela vitória. O que uma bola sente no outro lado do mundo interfere em sua vida. Aquela vitória poderia ter me entusiasmado a beijar a menina que eu gostava na escola. Ela havia prometido um beijo se a seleção fosse à final.  <br /><br />A de 86 não tinha chance, França nos tirou nos pênaltis, até Zico errou e o goleiro Carlos tomou uma bola nas costas, após bater na trave, para estufar as redes. Muito azar na perícia. Em 90, caímos precoce, nas oitavas, nem senti o gostinho dos feriados.<br /><br />As de 94, 98 e 2002, sou muito velho para lembrar e a alegria encurta as goleiras. <br /><br />Voltei a contar com dez anos no sábado. Talvez porque tenha um filho, 4, e uma adolescente, 12. De repente, virei o filho do meio. E nem pude ficar triste na hora, nem chorei como antes. Nenhum sinal visível. Exercitei derrames em silêncio. <br /><br />Vicente me animou: "agora iremos voltar a assistir o Inter". Mariana brincou com sua idade na próxima Copa: 16 anos... Quando os filhos consolam, fazendo o que deveria fazer, é que alguma coisa está errada comigo. Não me saía da cabeça a cobrança derradeira de falta de Ronaldinho Gaúcho. Estou no trabalho, estou em festas, não importa, recordo Ronaldinho batendo a falta e comemorando. Batendo a falta e empatando a partida no finalzinho. Hipnose exaustiva. Enquanto escrevo este texto, olho para o chão e a barreira anda para a frente. Minha memória só aceita a reversão do resultado. Empacou. Não deixo o lugar na frente da televisão. <br /><br />O discernimento não é maior do que a ingenuidade. <br /><br />Não vou dizer que merecíamos perder, não vou dizer que era melhor sair antes, que a seleção teve um plantel de mercenários, não vou culpar um ou outro, não tomarei uma posição intelectual a menosprezar o futebol e reduzi-lo a um esporte, não gritarei que a vida segue, que o ano começa, que agora é torcer para Portugal, não vou. O futebol é quando meus olhos são as minhas pernas. Não sei caminhar de outro jeito. O juiz ainda não apitou aquela cobrança de Ronaldinho. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38761974</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/4/2006 09:26:47 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>UM LITRÃO DE AMOR</b><br />Arte de Andy Warhol<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.carolinaarts.com/colma18.jpeg"><br /><br />Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento. <br /><br />Entendeu que eu me aposentava aos 35 anos, quando ainda renderia muito em campo. Largava a possibilidade de vir a ser de outra em igualdade de condições. Escolhia sua comodidade; ela deixaria de ser a culpada pela gravidez (sim, o homem sempre culpa a mulher e esquece que também é responsável) e de se preocupar com camisinha estourada, anticoncepcional ou cogitar métodos alternativos como DIU. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Fui conversar com os amigos para tirar a teima do assunto. Eles brindaram meu nome com efusão, pagaram a bebida e me carregaram nos ombros como um ídolo no bar. A tese deles é que poderia trair sem me comprometer com amantes caçadoras de filhos. E seria até engraçado ser informado por uma mulher que era o pai de sua criança e responder: - Não fui eu, fiz vasectomia. Fiquei perplexo com a imaginação diabólica da rapaziada. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Inventei de contar para a minha mãe, que não escondeu a felicidade. Elogiou a inteligência da iniciativa, agarrou-me como se fosse agenda de adolescente e esclareceu -entre suspiros e bênçãos - que agora só pagaria pensão para o passado.  "Finalmente, ele não é mais ingênuo", me confidenciou, com a impessoalidade de uma terceira pessoa. <br /><br /><b>***</b><br /><br />Nada de mesa de operações, cirurgias complexas, a vasectomia foi simples como exame de clube de natação. Pude sair dirigindo no mesmo dia e a única precaução era não carregar peso e comprimir uma bolsa de água fria nas bolas.  Minha mulher enfrentou três subidas, sozinha, com as compras do supermercado nos quatro vãos de escadas. Fazia tempo que não me sentia adoentado - a última vez aconteceu na 5ª série, quando cai em febre para não cumprir a prova de Máximo Denominador Comum. Aproveitei o luxo do descanso mais pelo folclore do que pela realidade.  Menti as recomendações do consultório, como se eu precisasse mais do que pedras de gelo em meu uísque. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas.  Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo. <br /><br />PUBLICADO EM <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Home">ZERO HORA</a>, <b>CADERNO DONNA </b><br /><b>Coluna de Luis Fernando Verissimo - Interino</b> <br /><b>Porto Alegre, 02 de julho de 2006. Edição nº 14920</b><br /></title>
<description><![CDATA[<b>UM LITRÃO DE AMOR</b><br />Arte de Andy Warhol<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.carolinaarts.com/colma18.jpeg"><br /><br />Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento. <br /><br />Entendeu que eu me aposentava aos 35 anos, quando ainda renderia muito em campo. Largava a possibilidade de vir a ser de outra em igualdade de condições. Escolhia sua comodidade; ela deixaria de ser a culpada pela gravidez (sim, o homem sempre culpa a mulher e esquece que também é responsável) e de se preocupar com camisinha estourada, anticoncepcional ou cogitar métodos alternativos como DIU. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Fui conversar com os amigos para tirar a teima do assunto. Eles brindaram meu nome com efusão, pagaram a bebida e me carregaram nos ombros como um ídolo no bar. A tese deles é que poderia trair sem me comprometer com amantes caçadoras de filhos. E seria até engraçado ser informado por uma mulher que era o pai de sua criança e responder: - Não fui eu, fiz vasectomia. Fiquei perplexo com a imaginação diabólica da rapaziada. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Inventei de contar para a minha mãe, que não escondeu a felicidade. Elogiou a inteligência da iniciativa, agarrou-me como se fosse agenda de adolescente e esclareceu -entre suspiros e bênçãos - que agora só pagaria pensão para o passado.  "Finalmente, ele não é mais ingênuo", me confidenciou, com a impessoalidade de uma terceira pessoa. <br /><br /><b>***</b><br /><br />Nada de mesa de operações, cirurgias complexas, a vasectomia foi simples como exame de clube de natação. Pude sair dirigindo no mesmo dia e a única precaução era não carregar peso e comprimir uma bolsa de água fria nas bolas.  Minha mulher enfrentou três subidas, sozinha, com as compras do supermercado nos quatro vãos de escadas. Fazia tempo que não me sentia adoentado - a última vez aconteceu na 5ª série, quando cai em febre para não cumprir a prova de Máximo Denominador Comum. Aproveitei o luxo do descanso mais pelo folclore do que pela realidade.  Menti as recomendações do consultório, como se eu precisasse mais do que pedras de gelo em meu uísque. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas.  Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo. <br /><br />PUBLICADO EM <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Home">ZERO HORA</a>, <b>CADERNO DONNA </b><br /><b>Coluna de Luis Fernando Verissimo - Interino</b> <br /><b>Porto Alegre, 02 de julho de 2006. Edição nº 14920</b><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>UM LITRÃO DE AMOR</b><br />Arte de Andy Warhol<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.carolinaarts.com/colma18.jpeg"><br /><br />Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento. <br /><br />Entendeu que eu me aposentava aos 35 anos, quando ainda renderia muito em campo. Largava a possibilidade de vir a ser de outra em igualdade de condições. Escolhia sua comodidade; ela deixaria de ser a culpada pela gravidez (sim, o homem sempre culpa a mulher e esquece que também é responsável) e de se preocupar com camisinha estourada, anticoncepcional ou cogitar métodos alternativos como DIU. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Fui conversar com os amigos para tirar a teima do assunto. Eles brindaram meu nome com efusão, pagaram a bebida e me carregaram nos ombros como um ídolo no bar. A tese deles é que poderia trair sem me comprometer com amantes caçadoras de filhos. E seria até engraçado ser informado por uma mulher que era o pai de sua criança e responder: - Não fui eu, fiz vasectomia. Fiquei perplexo com a imaginação diabólica da rapaziada. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Inventei de contar para a minha mãe, que não escondeu a felicidade. Elogiou a inteligência da iniciativa, agarrou-me como se fosse agenda de adolescente e esclareceu -entre suspiros e bênçãos - que agora só pagaria pensão para o passado.  "Finalmente, ele não é mais ingênuo", me confidenciou, com a impessoalidade de uma terceira pessoa. <br /><br /><b>***</b><br /><br />Nada de mesa de operações, cirurgias complexas, a vasectomia foi simples como exame de clube de natação. Pude sair dirigindo no mesmo dia e a única precaução era não carregar peso e comprimir uma bolsa de água fria nas bolas.  Minha mulher enfrentou três subidas, sozinha, com as compras do supermercado nos quatro vãos de escadas. Fazia tempo que não me sentia adoentado - a última vez aconteceu na 5ª série, quando cai em febre para não cumprir a prova de Máximo Denominador Comum. Aproveitei o luxo do descanso mais pelo folclore do que pela realidade.  Menti as recomendações do consultório, como se eu precisasse mais do que pedras de gelo em meu uísque. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias. <br /><br /><b>* * *</b><br /><br />O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas.  Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo. <br /><br />PUBLICADO EM <a href="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Home">ZERO HORA</a>, <b>CADERNO DONNA </b><br /><b>Coluna de Luis Fernando Verissimo - Interino</b> <br /><b>Porto Alegre, 02 de julho de 2006. Edição nº 14920</b><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html#38755314</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_07_01_archive.html</link>
<pubDate>7/2/2006 05:22:39 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>AVISE-ME DO COMEÇO DO FILME</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.cornell.edu/HFJ/permcoll/euro/img_20c/bouche_l.jpg"><br /><br />Minha avó pedia para avisar quando o filme começava. Confundia o filme com o próprio trailer, não tinha costume de ir ao cinema. Jurava que os resumos de outros títulos já correspondiam à história que iria assistir. Respirava aliviada quando os créditos e o cutucão apareciam; daí colocava os óculos e mergulhava na hipnose das mãos na cadeira. <br /><br />Eu me porto assim diante do amor. Preciso do cotovelo no meu braço dos amigos quando ele começa, apesar de ser o protagonista. Não que eu não saiba, terei que confessar: não sei mesmo, amor não se sabe, amor se pressente. É uma indefinição contente e, ao mesmo tempo, assustadora. Acontece um descuido ao segurar a cintura dela, algum feitiço no olor do pescoço, um pressentimento longo e duradouro na correnteza dos cabelos, uma pressa em se despedir que é desejo de permanecer mais um pouco. O que era passageiro, o que era para ser mais um esquecimento, o que era para ser mais uma noite para dormir transforma-se em obsessão de acordar, cuidar e voltar, em obsessão de estar presente e arrumar todos os motivos e subterfúgios para não pensar em outra coisa. <br /><br />Aperta uma vontade de conversar sobre a história com todo mundo que se encontra, com o carteiro, com o bancário, com o jornaleiro, com os passageiros do trem. Buscar conselhos até na embalagem do chocolate. Falar do amor para que ele aumente ou para que diminua. Para que ele suma ou nos dê confiança de tomar atitudes improváveis e delicadas. Vamos atrás de um fiador. Só que o amor não aceita caução. <br /><br />É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos <i>nossa vida</i>, ao que acreditávamos <i>nosso lar</i>, ao que confiávamos como <i>nossas convicções</i> e <i>nossa ordem</i>. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?  <br /><br />Antes impessoal, o amor se agarra a um nome e não mais nos pertence. É irrecuperável porque depende de um sim ou de um não. Quando dito, irá embora sem acenar. Não descobriremos que estamos doentes, descobriremos que não temos cura. Amor não nos fortalece, enfraquece. Ficamos indigentes à espera de um beijo, de um telefonema, de uma mensagem. O amor muda o nosso passado. <br /><br />Sofreremos com a incerteza do que a pessoa dirá ou fará. Usam-se palavras emprestadas para não ser direto. Encontram-se motivos alheios à verdade para não se entregar. O amor não seria tão sério se não houvesse a possibilidade dele se converter em uma comédia. Mas a comédia não é levar um fora, comédia é a covardia de não se declarar e antecipar sozinho os risos que seriam bem melhores acompanhado.  <br /><br />Minha avó é que conhecia de cinema. O filme começa bem antes do filme. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>AVISE-ME DO COMEÇO DO FILME</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.cornell.edu/HFJ/permcoll/euro/img_20c/bouche_l.jpg"><br /><br />Minha avó pedia para avisar quando o filme começava. Confundia o filme com o próprio trailer, não tinha costume de ir ao cinema. Jurava que os resumos de outros títulos já correspondiam à história que iria assistir. Respirava aliviada quando os créditos e o cutucão apareciam; daí colocava os óculos e mergulhava na hipnose das mãos na cadeira. <br /><br />Eu me porto assim diante do amor. Preciso do cotovelo no meu braço dos amigos quando ele começa, apesar de ser o protagonista. Não que eu não saiba, terei que confessar: não sei mesmo, amor não se sabe, amor se pressente. É uma indefinição contente e, ao mesmo tempo, assustadora. Acontece um descuido ao segurar a cintura dela, algum feitiço no olor do pescoço, um pressentimento longo e duradouro na correnteza dos cabelos, uma pressa em se despedir que é desejo de permanecer mais um pouco. O que era passageiro, o que era para ser mais um esquecimento, o que era para ser mais uma noite para dormir transforma-se em obsessão de acordar, cuidar e voltar, em obsessão de estar presente e arrumar todos os motivos e subterfúgios para não pensar em outra coisa. <br /><br />Aperta uma vontade de conversar sobre a história com todo mundo que se encontra, com o carteiro, com o bancário, com o jornaleiro, com os passageiros do trem. Buscar conselhos até na embalagem do chocolate. Falar do amor para que ele aumente ou para que diminua. Para que ele suma ou nos dê confiança de tomar atitudes improváveis e delicadas. Vamos atrás de um fiador. Só que o amor não aceita caução. <br /><br />É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos <i>nossa vida</i>, ao que acreditávamos <i>nosso lar</i>, ao que confiávamos como <i>nossas convicções</i> e <i>nossa ordem</i>. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?  <br /><br />Antes impessoal, o amor se agarra a um nome e não mais nos pertence. É irrecuperável porque depende de um sim ou de um não. Quando dito, irá embora sem acenar. Não descobriremos que estamos doentes, descobriremos que não temos cura. Amor não nos fortalece, enfraquece. Ficamos indigentes à espera de um beijo, de um telefonema, de uma mensagem. O amor muda o nosso passado. <br /><br />Sofreremos com a incerteza do que a pessoa dirá ou fará. Usam-se palavras emprestadas para não ser direto. Encontram-se motivos alheios à verdade para não se entregar. O amor não seria tão sério se não houvesse a possibilidade dele se converter em uma comédia. Mas a comédia não é levar um fora, comédia é a covardia de não se declarar e antecipar sozinho os risos que seriam bem melhores acompanhado.  <br /><br />Minha avó é que conhecia de cinema. O filme começa bem antes do filme. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>AVISE-ME DO COMEÇO DO FILME</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.museum.cornell.edu/HFJ/permcoll/euro/img_20c/bouche_l.jpg"><br /><br />Minha avó pedia para avisar quando o filme começava. Confundia o filme com o próprio trailer, não tinha costume de ir ao cinema. Jurava que os resumos de outros títulos já correspondiam à história que iria assistir. Respirava aliviada quando os créditos e o cutucão apareciam; daí colocava os óculos e mergulhava na hipnose das mãos na cadeira. <br /><br />Eu me porto assim diante do amor. Preciso do cotovelo no meu braço dos amigos quando ele começa, apesar de ser o protagonista. Não que eu não saiba, terei que confessar: não sei mesmo, amor não se sabe, amor se pressente. É uma indefinição contente e, ao mesmo tempo, assustadora. Acontece um descuido ao segurar a cintura dela, algum feitiço no olor do pescoço, um pressentimento longo e duradouro na correnteza dos cabelos, uma pressa em se despedir que é desejo de permanecer mais um pouco. O que era passageiro, o que era para ser mais um esquecimento, o que era para ser mais uma noite para dormir transforma-se em obsessão de acordar, cuidar e voltar, em obsessão de estar presente e arrumar todos os motivos e subterfúgios para não pensar em outra coisa. <br /><br />Aperta uma vontade de conversar sobre a história com todo mundo que se encontra, com o carteiro, com o bancário, com o jornaleiro, com os passageiros do trem. Buscar conselhos até na embalagem do chocolate. Falar do amor para que ele aumente ou para que diminua. Para que ele suma ou nos dê confiança de tomar atitudes improváveis e delicadas. Vamos atrás de um fiador. Só que o amor não aceita caução. <br /><br />É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos <i>nossa vida</i>, ao que acreditávamos <i>nosso lar</i>, ao que confiávamos como <i>nossas convicções</i> e <i>nossa ordem</i>. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?  <br /><br />Antes impessoal, o amor se agarra a um nome e não mais nos pertence. É irrecuperável porque depende de um sim ou de um não. Quando dito, irá embora sem acenar. Não descobriremos que estamos doentes, descobriremos que não temos cura. Amor não nos fortalece, enfraquece. Ficamos indigentes à espera de um beijo, de um telefonema, de uma mensagem. O amor muda o nosso passado. <br /><br />Sofreremos com a incerteza do que a pessoa dirá ou fará. Usam-se palavras emprestadas para não ser direto. Encontram-se motivos alheios à verdade para não se entregar. O amor não seria tão sério se não houvesse a possibilidade dele se converter em uma comédia. Mas a comédia não é levar um fora, comédia é a covardia de não se declarar e antecipar sozinho os risos que seriam bem melhores acompanhado.  <br /><br />Minha avó é que conhecia de cinema. O filme começa bem antes do filme. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38746518</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/30/2006 10:40:53 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>IRUAN</b><br /><br />A filhota Mariana, 12 anos, perdeu seu hamster. Escreveu uma carta emocionante em seu blog. <a href="http://pontacabeca.zip.net/index.html">Confira</a>. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>IRUAN</b><br /><br />A filhota Mariana, 12 anos, perdeu seu hamster. Escreveu uma carta emocionante em seu blog. <a href="http://pontacabeca.zip.net/index.html">Confira</a>. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>IRUAN</b><br /><br />A filhota Mariana, 12 anos, perdeu seu hamster. Escreveu uma carta emocionante em seu blog. <a href="http://pontacabeca.zip.net/index.html">Confira</a>. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38746515</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/30/2006 10:39:55 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>PAINEIRA OU UM AMOR ATRASADO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.pasqualeart.com/september2004/Dubuffet.jpg"><br /><br /><br />Ansiava em subir numa paineira. Meu desejo irrealizado de telhado, mas ela tinha espinhos avantajados, que não davam para dobrar como os da roseira. Espinhos fortes, agudos, medievais. Observava a árvore na praça, como um órfão admira o pai de um colega ou como quem esconde da professora o atraso da mãe na saída da escola. Tocava-me a nostalgia do que nunca poderia fazer. A paineira, intransponível com suas pontas de lança. Os galhos muito acima da minha capacidade de encurtá-los. <br /><br />Deixei esse sonho de lado, como muitos outros, sem mexer ou importuná-los, fingindo que não me conheciam. Ao empurrar meu filho no balanço, na mesma praça que freqüentava quando pequeno, assusto-me com a mobilidade de uma criança alçando justamente a paineira impossível. Não havia percebido, o que ela propôs foi simples: usava os espinhos como degraus. A paineira ficava mais fácil de subir, porque naturalmente apresentava os grampos do alpinista em sua crosta. A criança se elevava com ligeireza e alegria, ainda gritou de cima. Avistava um continente estranho. <br /><br />Não havia insistido. Muito menos ensaiado vôos pelas cordas das mãos. Sondava somente o langor dos espinhos, concentrado na dor que eles poderiam me provocar, no ferimento que ainda não existia, nos joelhos esfolados que deveria levar para casa. Não cogitei os espinhos como os ombros que me conduziriam ao alto, como um modo de me proteger. <br /><br />Uma amiga esperou três anos para que um amor se resolvesse por ela. Viveram juntos, se separaram. Faltava cumplicidade, não ser esquecida pelo seu olfato. Faltava que ele dissesse que não conseguiria ficar sem ela, que ao menos sentia saudades. Ela praguejou escondida, suportou as olheiras, encabulou meses de convívio, tentou ser forte, mudou de planos, pensou que enlouqueceria caso não se abrisse para alguém, não se abriu e enlouqueceu, arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria. <br /><br />Na última semana, ela se reencontrou novamente com o ex. Num ônibus, entre passageiros que nada tinham com isso, ele finalmente declarou sua paixão e expressou todas as palavras que ela queria ouvir. Todas. Até aquelas que não ouviria, pois era vaidade demais imaginá-las. Perguntou inclusive se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela riu: "Sim, eu não mudei de perfume." Talvez tenha mudado de corpo, de perfume não. Ele riu, acreditou que ainda era tempo, que ela o aceitaria de volta.<br /><br />Ela afastou os braços dele dos seus ombros. Com ternura. Uma ternura de quem soube avançar pelos espinhos e enxerga a vida da copa das árvores, com mais altura do que o vento. Com mais discernimento.  <br /><br />A paineira me ensinou a não temê-la.   <br /><br />Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>PAINEIRA OU UM AMOR ATRASADO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.pasqualeart.com/september2004/Dubuffet.jpg"><br /><br /><br />Ansiava em subir numa paineira. Meu desejo irrealizado de telhado, mas ela tinha espinhos avantajados, que não davam para dobrar como os da roseira. Espinhos fortes, agudos, medievais. Observava a árvore na praça, como um órfão admira o pai de um colega ou como quem esconde da professora o atraso da mãe na saída da escola. Tocava-me a nostalgia do que nunca poderia fazer. A paineira, intransponível com suas pontas de lança. Os galhos muito acima da minha capacidade de encurtá-los. <br /><br />Deixei esse sonho de lado, como muitos outros, sem mexer ou importuná-los, fingindo que não me conheciam. Ao empurrar meu filho no balanço, na mesma praça que freqüentava quando pequeno, assusto-me com a mobilidade de uma criança alçando justamente a paineira impossível. Não havia percebido, o que ela propôs foi simples: usava os espinhos como degraus. A paineira ficava mais fácil de subir, porque naturalmente apresentava os grampos do alpinista em sua crosta. A criança se elevava com ligeireza e alegria, ainda gritou de cima. Avistava um continente estranho. <br /><br />Não havia insistido. Muito menos ensaiado vôos pelas cordas das mãos. Sondava somente o langor dos espinhos, concentrado na dor que eles poderiam me provocar, no ferimento que ainda não existia, nos joelhos esfolados que deveria levar para casa. Não cogitei os espinhos como os ombros que me conduziriam ao alto, como um modo de me proteger. <br /><br />Uma amiga esperou três anos para que um amor se resolvesse por ela. Viveram juntos, se separaram. Faltava cumplicidade, não ser esquecida pelo seu olfato. Faltava que ele dissesse que não conseguiria ficar sem ela, que ao menos sentia saudades. Ela praguejou escondida, suportou as olheiras, encabulou meses de convívio, tentou ser forte, mudou de planos, pensou que enlouqueceria caso não se abrisse para alguém, não se abriu e enlouqueceu, arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria. <br /><br />Na última semana, ela se reencontrou novamente com o ex. Num ônibus, entre passageiros que nada tinham com isso, ele finalmente declarou sua paixão e expressou todas as palavras que ela queria ouvir. Todas. Até aquelas que não ouviria, pois era vaidade demais imaginá-las. Perguntou inclusive se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela riu: "Sim, eu não mudei de perfume." Talvez tenha mudado de corpo, de perfume não. Ele riu, acreditou que ainda era tempo, que ela o aceitaria de volta.<br /><br />Ela afastou os braços dele dos seus ombros. Com ternura. Uma ternura de quem soube avançar pelos espinhos e enxerga a vida da copa das árvores, com mais altura do que o vento. Com mais discernimento.  <br /><br />A paineira me ensinou a não temê-la.   <br /><br />Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>PAINEIRA OU UM AMOR ATRASADO</b><br />Pintura de Jean Dubuffet<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.pasqualeart.com/september2004/Dubuffet.jpg"><br /><br /><br />Ansiava em subir numa paineira. Meu desejo irrealizado de telhado, mas ela tinha espinhos avantajados, que não davam para dobrar como os da roseira. Espinhos fortes, agudos, medievais. Observava a árvore na praça, como um órfão admira o pai de um colega ou como quem esconde da professora o atraso da mãe na saída da escola. Tocava-me a nostalgia do que nunca poderia fazer. A paineira, intransponível com suas pontas de lança. Os galhos muito acima da minha capacidade de encurtá-los. <br /><br />Deixei esse sonho de lado, como muitos outros, sem mexer ou importuná-los, fingindo que não me conheciam. Ao empurrar meu filho no balanço, na mesma praça que freqüentava quando pequeno, assusto-me com a mobilidade de uma criança alçando justamente a paineira impossível. Não havia percebido, o que ela propôs foi simples: usava os espinhos como degraus. A paineira ficava mais fácil de subir, porque naturalmente apresentava os grampos do alpinista em sua crosta. A criança se elevava com ligeireza e alegria, ainda gritou de cima. Avistava um continente estranho. <br /><br />Não havia insistido. Muito menos ensaiado vôos pelas cordas das mãos. Sondava somente o langor dos espinhos, concentrado na dor que eles poderiam me provocar, no ferimento que ainda não existia, nos joelhos esfolados que deveria levar para casa. Não cogitei os espinhos como os ombros que me conduziriam ao alto, como um modo de me proteger. <br /><br />Uma amiga esperou três anos para que um amor se resolvesse por ela. Viveram juntos, se separaram. Faltava cumplicidade, não ser esquecida pelo seu olfato. Faltava que ele dissesse que não conseguiria ficar sem ela, que ao menos sentia saudades. Ela praguejou escondida, suportou as olheiras, encabulou meses de convívio, tentou ser forte, mudou de planos, pensou que enlouqueceria caso não se abrisse para alguém, não se abriu e enlouqueceu, arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria. <br /><br />Na última semana, ela se reencontrou novamente com o ex. Num ônibus, entre passageiros que nada tinham com isso, ele finalmente declarou sua paixão e expressou todas as palavras que ela queria ouvir. Todas. Até aquelas que não ouviria, pois era vaidade demais imaginá-las. Perguntou inclusive se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela riu: "Sim, eu não mudei de perfume." Talvez tenha mudado de corpo, de perfume não. Ele riu, acreditou que ainda era tempo, que ela o aceitaria de volta.<br /><br />Ela afastou os braços dele dos seus ombros. Com ternura. Uma ternura de quem soube avançar pelos espinhos e enxerga a vida da copa das árvores, com mais altura do que o vento. Com mais discernimento.  <br /><br />A paineira me ensinou a não temê-la.   <br /><br />Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38737560</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/27/2006 07:36:29 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>NO PONTO REMOTO DA ESTRADA</b><br />Pintura de André Derain<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.jewishmuseum.cz/images/newsletter/013_1.jpg"><br /><br />Ao viajar de carro para o interior do estado, eu me fixo na casinha ao sopé do morro, isolada, sem nenhuma vizinhança aparente por perto. Casinha de madeira, com uma pobreza de barco. <br /><br />Cachorros jogam <i>escravos de jó</i> com as pedras, galos e galinhas pulam corda transparente, os pássaros piam como se fosse sempre inverno e úmido. <br /><br />A casinha encravada entre dois mundos: a estrada cheia, intensa de tráfego, e a cidade do outro lado da mata. São alguns minutos para absorvê-la, o bastante para que a curiosidade me faça projetar como seria a minha vida lá. Com quem estaria, o que teria para consumar ao longo do dia? <br /><br />O varal com peças de pijama e toalhas está estendido na varanda. Os panos cruzam a extensão da porta com a janela principal. Pressumo que seja temor de assalto, porque quintal não falta. As roupas molhadas são as cortinas. Vejo uma senhora, de saia floreada e andar trôpego, com balde de ferro. Quanto tempo não me encontrava com um balde de ferro! Balde de poço, fundo, niqueleira de chuva. <br /><br />O balde segue na altura dos seus joelhos como uma perna mecânica. <br /><br />A vaca é o portão do terreno. O que delimita a geografia da família, o tamanho da posse. Ela se esquiva do animal cheirando a grama. Chora. Ou faz uma careta para a estrada. Passa pela cabeça que ela está me enxergando e pensando como é estar em meu lugar. Trocamos de corpo em uma breve coincidência e aperto de lábios.<br /><br />Um homem barbudo, com dois bebês no colo, grita para que ela volte. Segura as crias como se fossem pacotes - têm uma leveza insuportável, uma leveza de galho. Respiro uma pungência no espaço, até que duas crianças mais velhas correm em direção ao que julgo ser a mãe. Juro que elas vão abraçá-la e não deixá-la caminhar. Mas a rodeiam como obstáculo do <i>pega-pega</i>. Nem estão interessadas no drama. E correm soltas para os fundos do terreno, em que uma parreira estoca névoa e vinho. A casinha esparsa tosse gripada.<br /><br />Vejo a mulher avançando para o meio-fio da estrada, senta na parada de ônibus, posso cristalizar seu rosto. É grave, sem alça para carregar. O homem não desiste da raiva. São grunhidos, não mais palavras. Entendo que está desesperado e os bebês apresentam a cintura arredondada e engraçada de fraldas. <br /><br />No conteúdo do balde, consigo discernir roupas femininas. Roupas secas, não molhadas. Já que não estão prensadas, e sim afofadas de vento, com mangas para fora. <br /><br />Concluo que o balde é sua mala. Ela entra no primeiro ônibus e parte como eu.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>NO PONTO REMOTO DA ESTRADA</b><br />Pintura de André Derain<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.jewishmuseum.cz/images/newsletter/013_1.jpg"><br /><br />Ao viajar de carro para o interior do estado, eu me fixo na casinha ao sopé do morro, isolada, sem nenhuma vizinhança aparente por perto. Casinha de madeira, com uma pobreza de barco. <br /><br />Cachorros jogam <i>escravos de jó</i> com as pedras, galos e galinhas pulam corda transparente, os pássaros piam como se fosse sempre inverno e úmido. <br /><br />A casinha encravada entre dois mundos: a estrada cheia, intensa de tráfego, e a cidade do outro lado da mata. São alguns minutos para absorvê-la, o bastante para que a curiosidade me faça projetar como seria a minha vida lá. Com quem estaria, o que teria para consumar ao longo do dia? <br /><br />O varal com peças de pijama e toalhas está estendido na varanda. Os panos cruzam a extensão da porta com a janela principal. Pressumo que seja temor de assalto, porque quintal não falta. As roupas molhadas são as cortinas. Vejo uma senhora, de saia floreada e andar trôpego, com balde de ferro. Quanto tempo não me encontrava com um balde de ferro! Balde de poço, fundo, niqueleira de chuva. <br /><br />O balde segue na altura dos seus joelhos como uma perna mecânica. <br /><br />A vaca é o portão do terreno. O que delimita a geografia da família, o tamanho da posse. Ela se esquiva do animal cheirando a grama. Chora. Ou faz uma careta para a estrada. Passa pela cabeça que ela está me enxergando e pensando como é estar em meu lugar. Trocamos de corpo em uma breve coincidência e aperto de lábios.<br /><br />Um homem barbudo, com dois bebês no colo, grita para que ela volte. Segura as crias como se fossem pacotes - têm uma leveza insuportável, uma leveza de galho. Respiro uma pungência no espaço, até que duas crianças mais velhas correm em direção ao que julgo ser a mãe. Juro que elas vão abraçá-la e não deixá-la caminhar. Mas a rodeiam como obstáculo do <i>pega-pega</i>. Nem estão interessadas no drama. E correm soltas para os fundos do terreno, em que uma parreira estoca névoa e vinho. A casinha esparsa tosse gripada.<br /><br />Vejo a mulher avançando para o meio-fio da estrada, senta na parada de ônibus, posso cristalizar seu rosto. É grave, sem alça para carregar. O homem não desiste da raiva. São grunhidos, não mais palavras. Entendo que está desesperado e os bebês apresentam a cintura arredondada e engraçada de fraldas. <br /><br />No conteúdo do balde, consigo discernir roupas femininas. Roupas secas, não molhadas. Já que não estão prensadas, e sim afofadas de vento, com mangas para fora. <br /><br />Concluo que o balde é sua mala. Ela entra no primeiro ônibus e parte como eu.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>NO PONTO REMOTO DA ESTRADA</b><br />Pintura de André Derain<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.jewishmuseum.cz/images/newsletter/013_1.jpg"><br /><br />Ao viajar de carro para o interior do estado, eu me fixo na casinha ao sopé do morro, isolada, sem nenhuma vizinhança aparente por perto. Casinha de madeira, com uma pobreza de barco. <br /><br />Cachorros jogam <i>escravos de jó</i> com as pedras, galos e galinhas pulam corda transparente, os pássaros piam como se fosse sempre inverno e úmido. <br /><br />A casinha encravada entre dois mundos: a estrada cheia, intensa de tráfego, e a cidade do outro lado da mata. São alguns minutos para absorvê-la, o bastante para que a curiosidade me faça projetar como seria a minha vida lá. Com quem estaria, o que teria para consumar ao longo do dia? <br /><br />O varal com peças de pijama e toalhas está estendido na varanda. Os panos cruzam a extensão da porta com a janela principal. Pressumo que seja temor de assalto, porque quintal não falta. As roupas molhadas são as cortinas. Vejo uma senhora, de saia floreada e andar trôpego, com balde de ferro. Quanto tempo não me encontrava com um balde de ferro! Balde de poço, fundo, niqueleira de chuva. <br /><br />O balde segue na altura dos seus joelhos como uma perna mecânica. <br /><br />A vaca é o portão do terreno. O que delimita a geografia da família, o tamanho da posse. Ela se esquiva do animal cheirando a grama. Chora. Ou faz uma careta para a estrada. Passa pela cabeça que ela está me enxergando e pensando como é estar em meu lugar. Trocamos de corpo em uma breve coincidência e aperto de lábios.<br /><br />Um homem barbudo, com dois bebês no colo, grita para que ela volte. Segura as crias como se fossem pacotes - têm uma leveza insuportável, uma leveza de galho. Respiro uma pungência no espaço, até que duas crianças mais velhas correm em direção ao que julgo ser a mãe. Juro que elas vão abraçá-la e não deixá-la caminhar. Mas a rodeiam como obstáculo do <i>pega-pega</i>. Nem estão interessadas no drama. E correm soltas para os fundos do terreno, em que uma parreira estoca névoa e vinho. A casinha esparsa tosse gripada.<br /><br />Vejo a mulher avançando para o meio-fio da estrada, senta na parada de ônibus, posso cristalizar seu rosto. É grave, sem alça para carregar. O homem não desiste da raiva. São grunhidos, não mais palavras. Entendo que está desesperado e os bebês apresentam a cintura arredondada e engraçada de fraldas. <br /><br />No conteúdo do balde, consigo discernir roupas femininas. Roupas secas, não molhadas. Já que não estão prensadas, e sim afofadas de vento, com mangas para fora. <br /><br />Concluo que o balde é sua mala. Ela entra no primeiro ônibus e parte como eu.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38729415</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/25/2006 05:13:54 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>DEBAIXO DA MESA</b><br />Pintura de Philip Guston<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/Guston.backview.jpg"><br /><br />Vamos a um restaurante, Vicente come, brinca um pouco com as latinhas de refrigerante e, de uma hora para outra, desaparece para debaixo da mesa. Arrasta os cílios e sua corda de casaco aos subterrâneos da refeição. É sempre assim. O hábito da criança em exercitar esconderijos.<br /><br />Emplumado na toalha, mexe nos nossos pés e brinca em adivinhar o ponto de vista de um cachorro. Se ele não fizesse isso, nunca me lembraria de que sou igual. Jeito engraçado de arrumar às pressas um quarto para dormir e de fugir das comparações; bastava deslizar pela cadeira e a solidão nos aguardava. A barraca já estava montada e se escutava o trololó dos adultos com a displicência de ervas. <br /><br />Toda estrada é uma espada - dependemos do sol para diferencial o metal da pedra. Meu olhar é meio ao chão, não por ser deprimido, muito menos por vergonha. Ele é resultado do tempo que via o mundo debaixo da mesa. Para uma criança, sua altura não é medida por régua, e sim pelas pernas dos pais. Recordo dos sapatos encerados que a minha mãe usava para sair ou das meias de cores trocadas de meu pai (sem graça de avisá-lo da gafe). Procurava objetos tutelares. Sempre alguém esquecia algo. Havia um grampo, uma borrachinha de cabelo, um prendedor de gravata, uma moeda, um brinco. Ninharias exuberantes para quem não esperava encontrá-las. A criança é sincera, pois permanece em contato com o solo. Não se acredita dono de uma conversa, dono de uma vida, dono de um nome. Sua boca é o prato, os talheres são os dentes e o resto é movimento. <br /><br />Em encontros animados, é comum desaparecer. Os amigos pensam que fui ao banheiro. Ou que me antecipei para pagar a conta. Ou que me ofendi com um assunto. Estranhamente me escondo debaixo da mesa. Mudo a perspectiva do relacionamento quando me sinto muito alto e confiante, muito invulnerável e exibido, muito senhor de si. Quando minha vaidade de ser observado é mais forte do que a vaidade de abrir os olhos. Uma reação de desapego, de reinício. <br /><br />Não é necessário lavar os pés de quem se ama. Mas ficar perto deles para amarrá-los às mãos.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>DEBAIXO DA MESA</b><br />Pintura de Philip Guston<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/Guston.backview.jpg"><br /><br />Vamos a um restaurante, Vicente come, brinca um pouco com as latinhas de refrigerante e, de uma hora para outra, desaparece para debaixo da mesa. Arrasta os cílios e sua corda de casaco aos subterrâneos da refeição. É sempre assim. O hábito da criança em exercitar esconderijos.<br /><br />Emplumado na toalha, mexe nos nossos pés e brinca em adivinhar o ponto de vista de um cachorro. Se ele não fizesse isso, nunca me lembraria de que sou igual. Jeito engraçado de arrumar às pressas um quarto para dormir e de fugir das comparações; bastava deslizar pela cadeira e a solidão nos aguardava. A barraca já estava montada e se escutava o trololó dos adultos com a displicência de ervas. <br /><br />Toda estrada é uma espada - dependemos do sol para diferencial o metal da pedra. Meu olhar é meio ao chão, não por ser deprimido, muito menos por vergonha. Ele é resultado do tempo que via o mundo debaixo da mesa. Para uma criança, sua altura não é medida por régua, e sim pelas pernas dos pais. Recordo dos sapatos encerados que a minha mãe usava para sair ou das meias de cores trocadas de meu pai (sem graça de avisá-lo da gafe). Procurava objetos tutelares. Sempre alguém esquecia algo. Havia um grampo, uma borrachinha de cabelo, um prendedor de gravata, uma moeda, um brinco. Ninharias exuberantes para quem não esperava encontrá-las. A criança é sincera, pois permanece em contato com o solo. Não se acredita dono de uma conversa, dono de uma vida, dono de um nome. Sua boca é o prato, os talheres são os dentes e o resto é movimento. <br /><br />Em encontros animados, é comum desaparecer. Os amigos pensam que fui ao banheiro. Ou que me antecipei para pagar a conta. Ou que me ofendi com um assunto. Estranhamente me escondo debaixo da mesa. Mudo a perspectiva do relacionamento quando me sinto muito alto e confiante, muito invulnerável e exibido, muito senhor de si. Quando minha vaidade de ser observado é mais forte do que a vaidade de abrir os olhos. Uma reação de desapego, de reinício. <br /><br />Não é necessário lavar os pés de quem se ama. Mas ficar perto deles para amarrá-los às mãos.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>DEBAIXO DA MESA</b><br />Pintura de Philip Guston<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/Guston.backview.jpg"><br /><br />Vamos a um restaurante, Vicente come, brinca um pouco com as latinhas de refrigerante e, de uma hora para outra, desaparece para debaixo da mesa. Arrasta os cílios e sua corda de casaco aos subterrâneos da refeição. É sempre assim. O hábito da criança em exercitar esconderijos.<br /><br />Emplumado na toalha, mexe nos nossos pés e brinca em adivinhar o ponto de vista de um cachorro. Se ele não fizesse isso, nunca me lembraria de que sou igual. Jeito engraçado de arrumar às pressas um quarto para dormir e de fugir das comparações; bastava deslizar pela cadeira e a solidão nos aguardava. A barraca já estava montada e se escutava o trololó dos adultos com a displicência de ervas. <br /><br />Toda estrada é uma espada - dependemos do sol para diferencial o metal da pedra. Meu olhar é meio ao chão, não por ser deprimido, muito menos por vergonha. Ele é resultado do tempo que via o mundo debaixo da mesa. Para uma criança, sua altura não é medida por régua, e sim pelas pernas dos pais. Recordo dos sapatos encerados que a minha mãe usava para sair ou das meias de cores trocadas de meu pai (sem graça de avisá-lo da gafe). Procurava objetos tutelares. Sempre alguém esquecia algo. Havia um grampo, uma borrachinha de cabelo, um prendedor de gravata, uma moeda, um brinco. Ninharias exuberantes para quem não esperava encontrá-las. A criança é sincera, pois permanece em contato com o solo. Não se acredita dono de uma conversa, dono de uma vida, dono de um nome. Sua boca é o prato, os talheres são os dentes e o resto é movimento. <br /><br />Em encontros animados, é comum desaparecer. Os amigos pensam que fui ao banheiro. Ou que me antecipei para pagar a conta. Ou que me ofendi com um assunto. Estranhamente me escondo debaixo da mesa. Mudo a perspectiva do relacionamento quando me sinto muito alto e confiante, muito invulnerável e exibido, muito senhor de si. Quando minha vaidade de ser observado é mais forte do que a vaidade de abrir os olhos. Uma reação de desapego, de reinício. <br /><br />Não é necessário lavar os pés de quem se ama. Mas ficar perto deles para amarrá-los às mãos.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38721275</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/23/2006 10:55:27 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title>Jornal <a href="http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&lista=&secao=25&subsecao=0&ordem=903&submenu=0&semlimite=todos">Rascunho</a>, <b>edição de junho/2006, número 74</b><br /><br /><b>Críticas e Resenhas </b><br />    <br /><b>IDIOMA SEM PALAVRAS </b><br />Primeiro livro de Carpinejar como prosador é mistura de crônica, confissão e manual de sobrevivência <br /><br /><b>Moacyr Godoy Moreira - São Paulo - SP</b><br />Fotografia de Renata Stoduto <br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/carpinejar__livro.jpg"><br /><br /> <br /><i>O amor esquece de começar<br />Fabrício Carpinejar<br />Bertrand Brasil<br />286 págs.</i><br /><br />"Para amar, basta seguir a água." Assim, simples. Em <b>O amor esquece de começar</b>, Fabrício Carpinejar, cujas publicações anteriores trazem poemas, estréia em prosa com um formato diverso, algo de crônica, algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa neste mundo de pedregulhos. A simplicidade dá o tom das relações e, para o autor, os que conseguem perceber as verdadeiras dimensões dos problemas, sem estereótipos ou lugares-comuns, vivem mais intensamente e podem, quiçá, almejar o que se classifica ordinariamente como felicidade.<br /><br />Há, no livro, textos que beiram o aconselhamento, como os que falam sobre os filhos para pais separados, ou mesmo, momentos em que se sugere a entrega à profundidade e aos instintos como uma das poucas saídas possíveis. Porém, o que se destaca no conjunto das crônicas é a poesia. Em meio a um episódio mais corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica de Carpinejar a ecoar no texto, a torná-lo mais elegante. Na tradição da crônica brasileira, notava-se semelhante efeito no texto preciso de Paulo Mendes Campos, poeta também, e em Rubem Braga, que não publicou versos, mas os derramava em meio às crônicas, invariavelmente.<br /><br />Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio - dos gestos que falam por si - e a grandiosidade que há nos detalhes imperceptíveis, nos fragmentos: "o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços". Os cacos que, juntos, emitem uma luz multicolorida e fascinante, recolhem-se dos acidentes domésticos, do ex-marido que se percebe mais solitário que nunca, da ex-mulher que suprime sua dor com chocolates e filmes românticos. No homem que lava os cabelos da mulher amada, no amigo que se deixa abraçar para que, através daquele corpo sem nome, materialize-se a dor da perda de um filho. Em Seis meses, uma frase quase chinesa, que poderia figurar no I Ching, fecha a crônica: "Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada". <br /><br />Com isso, o autor retoma nas crônicas uma temática comum a sua poesia, a busca de uma essência que não é perfeita, mas que, quando encarada de forma verdadeira, ajuda a fixar as tortuosas raízes, que compõem o caráter e viabilizam as relações. Há no livro uma forma sutil de descrever o mergulho na dor, como a mulher que se vê só, depois de tempos casada: "Deixará a samambaia sofrer como ela. Será capaz de comprar cactos por causa das pedrinhas brancas. Entende o estado mineral. [...] Agora já abre os potes de pepino e constata o quanto é fácil girar a tampa com o pano de prato".<br /><br />Um gesto singelo, como perceber hábitos do companheiro, a mulher que desabotoa a blusa do umbigo para os seios, e não ao contrário como se faz usualmente; a delicada descrição das sutilezas que pode ter uma cadeira de balanço; coisas assim aparecem ao longo de O amor esquece de começar, dispersas nos textos, demonstrando a sensibilidade para os silêncios do outro, para a respiração mais espaçada ou mais densa, cada qual com significados particulares. Em Para dois: "A falta de palavras é também um idioma".<br /><br />Lygia Fagundes Telles, no belo e pouco conhecido A disciplina do amor, livro composto de inúmeros fragmentos, abre assim o volume: <br /><br />"Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."<br /><br />Fabrício Carpinejar pisou o terreno sagrado e agora sabe. Por meio das crônicas de seu mais recente livro, este saber é aspergido como o pólen nos tempos da primavera, pólen repleto de cotidiano e salpicado de poesia.<br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/fabricio_carpinejar.jpg"><br /><i><b>Fabrício Carpinejar</b>: poesia e simplicidade.</i><br /></title>
<description><![CDATA[Jornal <a href="http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&lista=&secao=25&subsecao=0&ordem=903&submenu=0&semlimite=todos">Rascunho</a>, <b>edição de junho/2006, número 74</b><br /><br /><b>Críticas e Resenhas </b><br />    <br /><b>IDIOMA SEM PALAVRAS </b><br />Primeiro livro de Carpinejar como prosador é mistura de crônica, confissão e manual de sobrevivência <br /><br /><b>Moacyr Godoy Moreira - São Paulo - SP</b><br />Fotografia de Renata Stoduto <br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/carpinejar__livro.jpg"><br /><br /> <br /><i>O amor esquece de começar<br />Fabrício Carpinejar<br />Bertrand Brasil<br />286 págs.</i><br /><br />"Para amar, basta seguir a água." Assim, simples. Em <b>O amor esquece de começar</b>, Fabrício Carpinejar, cujas publicações anteriores trazem poemas, estréia em prosa com um formato diverso, algo de crônica, algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa neste mundo de pedregulhos. A simplicidade dá o tom das relações e, para o autor, os que conseguem perceber as verdadeiras dimensões dos problemas, sem estereótipos ou lugares-comuns, vivem mais intensamente e podem, quiçá, almejar o que se classifica ordinariamente como felicidade.<br /><br />Há, no livro, textos que beiram o aconselhamento, como os que falam sobre os filhos para pais separados, ou mesmo, momentos em que se sugere a entrega à profundidade e aos instintos como uma das poucas saídas possíveis. Porém, o que se destaca no conjunto das crônicas é a poesia. Em meio a um episódio mais corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica de Carpinejar a ecoar no texto, a torná-lo mais elegante. Na tradição da crônica brasileira, notava-se semelhante efeito no texto preciso de Paulo Mendes Campos, poeta também, e em Rubem Braga, que não publicou versos, mas os derramava em meio às crônicas, invariavelmente.<br /><br />Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio - dos gestos que falam por si - e a grandiosidade que há nos detalhes imperceptíveis, nos fragmentos: "o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços". Os cacos que, juntos, emitem uma luz multicolorida e fascinante, recolhem-se dos acidentes domésticos, do ex-marido que se percebe mais solitário que nunca, da ex-mulher que suprime sua dor com chocolates e filmes românticos. No homem que lava os cabelos da mulher amada, no amigo que se deixa abraçar para que, através daquele corpo sem nome, materialize-se a dor da perda de um filho. Em Seis meses, uma frase quase chinesa, que poderia figurar no I Ching, fecha a crônica: "Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada". <br /><br />Com isso, o autor retoma nas crônicas uma temática comum a sua poesia, a busca de uma essência que não é perfeita, mas que, quando encarada de forma verdadeira, ajuda a fixar as tortuosas raízes, que compõem o caráter e viabilizam as relações. Há no livro uma forma sutil de descrever o mergulho na dor, como a mulher que se vê só, depois de tempos casada: "Deixará a samambaia sofrer como ela. Será capaz de comprar cactos por causa das pedrinhas brancas. Entende o estado mineral. [...] Agora já abre os potes de pepino e constata o quanto é fácil girar a tampa com o pano de prato".<br /><br />Um gesto singelo, como perceber hábitos do companheiro, a mulher que desabotoa a blusa do umbigo para os seios, e não ao contrário como se faz usualmente; a delicada descrição das sutilezas que pode ter uma cadeira de balanço; coisas assim aparecem ao longo de O amor esquece de começar, dispersas nos textos, demonstrando a sensibilidade para os silêncios do outro, para a respiração mais espaçada ou mais densa, cada qual com significados particulares. Em Para dois: "A falta de palavras é também um idioma".<br /><br />Lygia Fagundes Telles, no belo e pouco conhecido A disciplina do amor, livro composto de inúmeros fragmentos, abre assim o volume: <br /><br />"Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."<br /><br />Fabrício Carpinejar pisou o terreno sagrado e agora sabe. Por meio das crônicas de seu mais recente livro, este saber é aspergido como o pólen nos tempos da primavera, pólen repleto de cotidiano e salpicado de poesia.<br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/fabricio_carpinejar.jpg"><br /><i><b>Fabrício Carpinejar</b>: poesia e simplicidade.</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[Jornal <a href="http://rascunho.ondarpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&lista=&secao=25&subsecao=0&ordem=903&submenu=0&semlimite=todos">Rascunho</a>, <b>edição de junho/2006, número 74</b><br /><br /><b>Críticas e Resenhas </b><br />    <br /><b>IDIOMA SEM PALAVRAS </b><br />Primeiro livro de Carpinejar como prosador é mistura de crônica, confissão e manual de sobrevivência <br /><br /><b>Moacyr Godoy Moreira - São Paulo - SP</b><br />Fotografia de Renata Stoduto <br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/carpinejar__livro.jpg"><br /><br /> <br /><i>O amor esquece de começar<br />Fabrício Carpinejar<br />Bertrand Brasil<br />286 págs.</i><br /><br />"Para amar, basta seguir a água." Assim, simples. Em <b>O amor esquece de começar</b>, Fabrício Carpinejar, cujas publicações anteriores trazem poemas, estréia em prosa com um formato diverso, algo de crônica, algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa neste mundo de pedregulhos. A simplicidade dá o tom das relações e, para o autor, os que conseguem perceber as verdadeiras dimensões dos problemas, sem estereótipos ou lugares-comuns, vivem mais intensamente e podem, quiçá, almejar o que se classifica ordinariamente como felicidade.<br /><br />Há, no livro, textos que beiram o aconselhamento, como os que falam sobre os filhos para pais separados, ou mesmo, momentos em que se sugere a entrega à profundidade e aos instintos como uma das poucas saídas possíveis. Porém, o que se destaca no conjunto das crônicas é a poesia. Em meio a um episódio mais corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica de Carpinejar a ecoar no texto, a torná-lo mais elegante. Na tradição da crônica brasileira, notava-se semelhante efeito no texto preciso de Paulo Mendes Campos, poeta também, e em Rubem Braga, que não publicou versos, mas os derramava em meio às crônicas, invariavelmente.<br /><br />Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio - dos gestos que falam por si - e a grandiosidade que há nos detalhes imperceptíveis, nos fragmentos: "o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços". Os cacos que, juntos, emitem uma luz multicolorida e fascinante, recolhem-se dos acidentes domésticos, do ex-marido que se percebe mais solitário que nunca, da ex-mulher que suprime sua dor com chocolates e filmes românticos. No homem que lava os cabelos da mulher amada, no amigo que se deixa abraçar para que, através daquele corpo sem nome, materialize-se a dor da perda de um filho. Em Seis meses, uma frase quase chinesa, que poderia figurar no I Ching, fecha a crônica: "Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada". <br /><br />Com isso, o autor retoma nas crônicas uma temática comum a sua poesia, a busca de uma essência que não é perfeita, mas que, quando encarada de forma verdadeira, ajuda a fixar as tortuosas raízes, que compõem o caráter e viabilizam as relações. Há no livro uma forma sutil de descrever o mergulho na dor, como a mulher que se vê só, depois de tempos casada: "Deixará a samambaia sofrer como ela. Será capaz de comprar cactos por causa das pedrinhas brancas. Entende o estado mineral. [...] Agora já abre os potes de pepino e constata o quanto é fácil girar a tampa com o pano de prato".<br /><br />Um gesto singelo, como perceber hábitos do companheiro, a mulher que desabotoa a blusa do umbigo para os seios, e não ao contrário como se faz usualmente; a delicada descrição das sutilezas que pode ter uma cadeira de balanço; coisas assim aparecem ao longo de O amor esquece de começar, dispersas nos textos, demonstrando a sensibilidade para os silêncios do outro, para a respiração mais espaçada ou mais densa, cada qual com significados particulares. Em Para dois: "A falta de palavras é também um idioma".<br /><br />Lygia Fagundes Telles, no belo e pouco conhecido A disciplina do amor, livro composto de inúmeros fragmentos, abre assim o volume: <br /><br />"Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."<br /><br />Fabrício Carpinejar pisou o terreno sagrado e agora sabe. Por meio das crônicas de seu mais recente livro, este saber é aspergido como o pólen nos tempos da primavera, pólen repleto de cotidiano e salpicado de poesia.<br /><br /><img src="http://rascunho.ondarpc.com.br/imagemanager/images/rascunho74/fabricio_carpinejar.jpg"><br /><i><b>Fabrício Carpinejar</b>: poesia e simplicidade.</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38721269</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/23/2006 10:51:48 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A ÚLTIMA REFEIÇÃO</b><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.arteinc.org/Botero/images/botero%20brindis.jpg"><br /><br />Comida de mãe é outra coisa. Talvez seja porque envelhecemos e a saudade aperta os dentes. Minha vontade é recuperar o guisadinho posto de canto, o feijão amontoado nos lados, as batatas que deixava no prato da infância, o arroz sequinho que nunca dei valor. Comeria hoje todas as minhas sobras com vigor. Nenhum restaurante se compara aos temperos cultivados na própria horta.  <br /><br />Eu peço para que a mãe cozinhe - ela avisou que já cumpriu o tempo de serviço. Ninguém insistiu para que cozinhasse. Aliás, tenho que me oferecer, o que significa o quanto sou um fracasso perto do fogão. Eu aprendi a fazer cordeiro. Meus filhos não me solicitam. No mercado, encontram maneiras de me distrair para que não chegue ao açougue. Quando ofereço meus préstimos, não há um pingo de entusiasmo, mudam de assunto, pedem outras iguarias, perdem a fome. Eu também aprendi a fazer panqueca, com direito a jogar ao alto e tomar rapidamente a massa com a frigideira. Eu, na verdade, praticava panqueca. Mas a Ana inventou de competir comigo e prepará-las, como um jeito educado de mostrar minha inapetência. Ao invés de comer fingindo que gostava da refeição, antecipou-se para não sofrer. Assumia meu lugar para salvar o casamento.  Não tenho como me comparar a sua arte: a massa fina e o recheio abundante me desmoralizam diante das crias. <br /><br />Assim como os condenados à pena de morte têm direito a escolher sua última refeição, a mãe criou um método de entusiasmar seus filhos na superação de exames. Em todo vestibular ou provação mais severa, ela se prontificava a elaborar o prato predileto do candidato da família. Perguntava o que se desejava comer com a naturalidade de quem diz boa-noite. De manhãzinha, sumia para catar os ingredientes. Voltava arrebanhada de sacolas. Poderia exigir comida tailandesa, que lá vinha. Lamento não ter me inscrito em mais concursos. Perdi diversas chances de renovar o paladar e saciar as fantasias de grávido de minha vida. Na seleção da UFRGS, desejei quibe frito. Recebi porções generosas com um detalhe: unicamente destinadas para mim. Os irmãos me suportavam comendo e suspirando... Era uma realeza gastronômica. Ainda oferecia um pedacinho a eles para debochar. Não aceitavam por orgulho. Em represália, intensificava meus suspiros de limonada. <br /><br />Claro que comia demais e passava mal nas provas. Mas isso minha mãe não precisa saber. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>A ÚLTIMA REFEIÇÃO</b><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.arteinc.org/Botero/images/botero%20brindis.jpg"><br /><br />Comida de mãe é outra coisa. Talvez seja porque envelhecemos e a saudade aperta os dentes. Minha vontade é recuperar o guisadinho posto de canto, o feijão amontoado nos lados, as batatas que deixava no prato da infância, o arroz sequinho que nunca dei valor. Comeria hoje todas as minhas sobras com vigor. Nenhum restaurante se compara aos temperos cultivados na própria horta.  <br /><br />Eu peço para que a mãe cozinhe - ela avisou que já cumpriu o tempo de serviço. Ninguém insistiu para que cozinhasse. Aliás, tenho que me oferecer, o que significa o quanto sou um fracasso perto do fogão. Eu aprendi a fazer cordeiro. Meus filhos não me solicitam. No mercado, encontram maneiras de me distrair para que não chegue ao açougue. Quando ofereço meus préstimos, não há um pingo de entusiasmo, mudam de assunto, pedem outras iguarias, perdem a fome. Eu também aprendi a fazer panqueca, com direito a jogar ao alto e tomar rapidamente a massa com a frigideira. Eu, na verdade, praticava panqueca. Mas a Ana inventou de competir comigo e prepará-las, como um jeito educado de mostrar minha inapetência. Ao invés de comer fingindo que gostava da refeição, antecipou-se para não sofrer. Assumia meu lugar para salvar o casamento.  Não tenho como me comparar a sua arte: a massa fina e o recheio abundante me desmoralizam diante das crias. <br /><br />Assim como os condenados à pena de morte têm direito a escolher sua última refeição, a mãe criou um método de entusiasmar seus filhos na superação de exames. Em todo vestibular ou provação mais severa, ela se prontificava a elaborar o prato predileto do candidato da família. Perguntava o que se desejava comer com a naturalidade de quem diz boa-noite. De manhãzinha, sumia para catar os ingredientes. Voltava arrebanhada de sacolas. Poderia exigir comida tailandesa, que lá vinha. Lamento não ter me inscrito em mais concursos. Perdi diversas chances de renovar o paladar e saciar as fantasias de grávido de minha vida. Na seleção da UFRGS, desejei quibe frito. Recebi porções generosas com um detalhe: unicamente destinadas para mim. Os irmãos me suportavam comendo e suspirando... Era uma realeza gastronômica. Ainda oferecia um pedacinho a eles para debochar. Não aceitavam por orgulho. Em represália, intensificava meus suspiros de limonada. <br /><br />Claro que comia demais e passava mal nas provas. Mas isso minha mãe não precisa saber. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A ÚLTIMA REFEIÇÃO</b><br />Pintura de Fernando Botero<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.arteinc.org/Botero/images/botero%20brindis.jpg"><br /><br />Comida de mãe é outra coisa. Talvez seja porque envelhecemos e a saudade aperta os dentes. Minha vontade é recuperar o guisadinho posto de canto, o feijão amontoado nos lados, as batatas que deixava no prato da infância, o arroz sequinho que nunca dei valor. Comeria hoje todas as minhas sobras com vigor. Nenhum restaurante se compara aos temperos cultivados na própria horta.  <br /><br />Eu peço para que a mãe cozinhe - ela avisou que já cumpriu o tempo de serviço. Ninguém insistiu para que cozinhasse. Aliás, tenho que me oferecer, o que significa o quanto sou um fracasso perto do fogão. Eu aprendi a fazer cordeiro. Meus filhos não me solicitam. No mercado, encontram maneiras de me distrair para que não chegue ao açougue. Quando ofereço meus préstimos, não há um pingo de entusiasmo, mudam de assunto, pedem outras iguarias, perdem a fome. Eu também aprendi a fazer panqueca, com direito a jogar ao alto e tomar rapidamente a massa com a frigideira. Eu, na verdade, praticava panqueca. Mas a Ana inventou de competir comigo e prepará-las, como um jeito educado de mostrar minha inapetência. Ao invés de comer fingindo que gostava da refeição, antecipou-se para não sofrer. Assumia meu lugar para salvar o casamento.  Não tenho como me comparar a sua arte: a massa fina e o recheio abundante me desmoralizam diante das crias. <br /><br />Assim como os condenados à pena de morte têm direito a escolher sua última refeição, a mãe criou um método de entusiasmar seus filhos na superação de exames. Em todo vestibular ou provação mais severa, ela se prontificava a elaborar o prato predileto do candidato da família. Perguntava o que se desejava comer com a naturalidade de quem diz boa-noite. De manhãzinha, sumia para catar os ingredientes. Voltava arrebanhada de sacolas. Poderia exigir comida tailandesa, que lá vinha. Lamento não ter me inscrito em mais concursos. Perdi diversas chances de renovar o paladar e saciar as fantasias de grávido de minha vida. Na seleção da UFRGS, desejei quibe frito. Recebi porções generosas com um detalhe: unicamente destinadas para mim. Os irmãos me suportavam comendo e suspirando... Era uma realeza gastronômica. Ainda oferecia um pedacinho a eles para debochar. Não aceitavam por orgulho. Em represália, intensificava meus suspiros de limonada. <br /><br />Claro que comia demais e passava mal nas provas. Mas isso minha mãe não precisa saber. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38712391</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/20/2006 08:20:39 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>HOMEM CHEQUE EM BRANCO</b><br />Pintura de Juan Gris<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_140777.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.euskonews.com/0315zbk/argazkiak/gaia31504_02.jpg"><br /><br /><i>"Ao iniciar um novo emprego, conheci um colega que mexeu muito comigo. Foi encantamento à primeira vista. Com o passar do tempo, nos tornamos muito próximos e em nenhum momento ele mencionou a existência de alguma namorada. Em uma viagem que fizemos por exigência de nosso trabalho, acabamos ficando juntos. Logicamente, acabei me apaixonando. <br /><br />Após alguns encontros, entretanto, percebi que a ênfase maior sempre era colocada no aspecto sexual, não existiam muitas demonstrações de carinho da parte dele. Comecei a me chatear com isso. Pois bem, apesar de não ser fácil para mim, visto que me considero uma pessoa um tanto introvertida, tentei algumas vezes conversar, saber o que ele realmente pensava e sentia por mim. Expressei meu descontentamento com aquela situação. Como nada disso surtiu o efeito desejado e ele não se mostrava nem um pouco disposto ao diálogo, resolvi acabar com a brincadeira, pois, por mais que o amasse, não gostaria de ficar com alguém que apenas desejasse uma boa noite de sexo comigo (para mim, ao menos, a configuração da historia parecia ser esta). Ele reagiu dizendo que gostava de mim, que não era apenas sexo (como muitos homens dizem, aliás), mas que o fato de trabalharmos juntos atrapalhava muito o nosso romance.Nunca mais ficamos juntos desde então, pois não houve nenhum movimento da parte dele em busca de um resgate. Um vez, tomando um café em um bar perto do trabalho, consegui retomar o assunto, pois tudo ainda estava muito mal resolvido para mim: ele repetiu tudo o que dissera na ocasião anterior. Ainda assim, não retomamos o contato. Mas, Fabrício, o que me intriga e me incomoda MUITO é que até hoje ele me olha diferente, me trata com carinho, repara nas roupas que estou vestindo, tem crises de ciúmes quando desconfia que estou saindo com algum outro homem e, de uns tempos pra cá, tem feito muitas insinuações e comentários (sempre em tom de brincadeira, convenientemente) que interpreto como sendo um convite a um novo envolvimento. Mas nunca sai disso. Jamais recebo um chamado concreto para conversar, um convite para jantar, ir ao cinema, seja lá o que for. Fabrício, por que será que ele age assim? Para mim, parece evidente que ele não quer nenhum compromisso comigo. Mas por que me provoca, afinal? Eu suponho que ele saiba que ainda tenho sentimentos por ele (não arriscaria certezas, pois sou boa em esconder o que sinto). Então, por que estimular algo em mim que para ele não haverá reciprocidade? Não acredito que um homem de trinta e poucos anos tenha medo de se envolver... Será simplesmente maldade? Neurose? Sei que o ideal seria confrontá-lo com as minhas perguntas, mas sinto que é quase certo que as respostas não viriam. O que pensar disso tudo? Pior: o que fazer? Será que poderias me fornecer algum vislumbre da alma masculina?"</i><br /><br />Oi, Cláudia<br /><br />Ele não quer ficar contigo, mas deseja que você não fique com mais ninguém. É o egoísta sádico. Tem o domínio da situação e a faz sofrer de propósito, sempre terminando e reiniciando o jogo com insinuações. Com o artifício da brincadeira, seduz sem se comprometer. Deixa subentendido para depois pular fora. Sugere para responsabilizá-la pelo envolvimento. É o "homem cheque em branco". Põe o valor, mas não assina. <br /><br />O cenário é claro: ele parece que tem vergonha de namorá-la. Mantém o elo unicamente para o sexo ou como segredo. Busca uma relação fugaz, o entretenimento, e evita o estresse da doação. Qual é o problema de trabalhar junto? Nenhum; não ficarão dando beijinhos no serviço. Para variar, ele recusa toda exposição social em sua companhia, preocupado com a aparência. Se ele a olha diferente, não poderia ser indiferente depois. A paixão não repara os lados para falar. Que a convide para ir ao cinema e jantar, que proponha bobagens e criancices na rua. Que seja infantil ao acordar e adulto para dormir. <br /><br />Ele ficará esperando que retorne, porque já entregou o jogo e afirmou que o amava. É dispensável confrontá-lo com as questões. Ele teria que se desculpar, esclarecer as indelicadezas e mudar de atitude. <br /><br />Eu o enterraria com o desdém - vivo mesmo, não precisa matar e sujar as mãos. A memória dele será uma cova por demais espaçosa. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br /></title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>HOMEM CHEQUE EM BRANCO</b><br />Pintura de Juan Gris<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_140777.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.euskonews.com/0315zbk/argazkiak/gaia31504_02.jpg"><br /><br /><i>"Ao iniciar um novo emprego, conheci um colega que mexeu muito comigo. Foi encantamento à primeira vista. Com o passar do tempo, nos tornamos muito próximos e em nenhum momento ele mencionou a existência de alguma namorada. Em uma viagem que fizemos por exigência de nosso trabalho, acabamos ficando juntos. Logicamente, acabei me apaixonando. <br /><br />Após alguns encontros, entretanto, percebi que a ênfase maior sempre era colocada no aspecto sexual, não existiam muitas demonstrações de carinho da parte dele. Comecei a me chatear com isso. Pois bem, apesar de não ser fácil para mim, visto que me considero uma pessoa um tanto introvertida, tentei algumas vezes conversar, saber o que ele realmente pensava e sentia por mim. Expressei meu descontentamento com aquela situação. Como nada disso surtiu o efeito desejado e ele não se mostrava nem um pouco disposto ao diálogo, resolvi acabar com a brincadeira, pois, por mais que o amasse, não gostaria de ficar com alguém que apenas desejasse uma boa noite de sexo comigo (para mim, ao menos, a configuração da historia parecia ser esta). Ele reagiu dizendo que gostava de mim, que não era apenas sexo (como muitos homens dizem, aliás), mas que o fato de trabalharmos juntos atrapalhava muito o nosso romance.Nunca mais ficamos juntos desde então, pois não houve nenhum movimento da parte dele em busca de um resgate. Um vez, tomando um café em um bar perto do trabalho, consegui retomar o assunto, pois tudo ainda estava muito mal resolvido para mim: ele repetiu tudo o que dissera na ocasião anterior. Ainda assim, não retomamos o contato. Mas, Fabrício, o que me intriga e me incomoda MUITO é que até hoje ele me olha diferente, me trata com carinho, repara nas roupas que estou vestindo, tem crises de ciúmes quando desconfia que estou saindo com algum outro homem e, de uns tempos pra cá, tem feito muitas insinuações e comentários (sempre em tom de brincadeira, convenientemente) que interpreto como sendo um convite a um novo envolvimento. Mas nunca sai disso. Jamais recebo um chamado concreto para conversar, um convite para jantar, ir ao cinema, seja lá o que for. Fabrício, por que será que ele age assim? Para mim, parece evidente que ele não quer nenhum compromisso comigo. Mas por que me provoca, afinal? Eu suponho que ele saiba que ainda tenho sentimentos por ele (não arriscaria certezas, pois sou boa em esconder o que sinto). Então, por que estimular algo em mim que para ele não haverá reciprocidade? Não acredito que um homem de trinta e poucos anos tenha medo de se envolver... Será simplesmente maldade? Neurose? Sei que o ideal seria confrontá-lo com as minhas perguntas, mas sinto que é quase certo que as respostas não viriam. O que pensar disso tudo? Pior: o que fazer? Será que poderias me fornecer algum vislumbre da alma masculina?"</i><br /><br />Oi, Cláudia<br /><br />Ele não quer ficar contigo, mas deseja que você não fique com mais ninguém. É o egoísta sádico. Tem o domínio da situação e a faz sofrer de propósito, sempre terminando e reiniciando o jogo com insinuações. Com o artifício da brincadeira, seduz sem se comprometer. Deixa subentendido para depois pular fora. Sugere para responsabilizá-la pelo envolvimento. É o "homem cheque em branco". Põe o valor, mas não assina. <br /><br />O cenário é claro: ele parece que tem vergonha de namorá-la. Mantém o elo unicamente para o sexo ou como segredo. Busca uma relação fugaz, o entretenimento, e evita o estresse da doação. Qual é o problema de trabalhar junto? Nenhum; não ficarão dando beijinhos no serviço. Para variar, ele recusa toda exposição social em sua companhia, preocupado com a aparência. Se ele a olha diferente, não poderia ser indiferente depois. A paixão não repara os lados para falar. Que a convide para ir ao cinema e jantar, que proponha bobagens e criancices na rua. Que seja infantil ao acordar e adulto para dormir. <br /><br />Ele ficará esperando que retorne, porque já entregou o jogo e afirmou que o amava. É dispensável confrontá-lo com as questões. Ele teria que se desculpar, esclarecer as indelicadezas e mudar de atitude. <br /><br />Eu o enterraria com o desdém - vivo mesmo, não precisa matar e sujar as mãos. A memória dele será uma cova por demais espaçosa. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>HOMEM CHEQUE EM BRANCO</b><br />Pintura de Juan Gris<br />Do <b>Consultório Poético</b> <br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_140777.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.euskonews.com/0315zbk/argazkiak/gaia31504_02.jpg"><br /><br /><i>"Ao iniciar um novo emprego, conheci um colega que mexeu muito comigo. Foi encantamento à primeira vista. Com o passar do tempo, nos tornamos muito próximos e em nenhum momento ele mencionou a existência de alguma namorada. Em uma viagem que fizemos por exigência de nosso trabalho, acabamos ficando juntos. Logicamente, acabei me apaixonando. <br /><br />Após alguns encontros, entretanto, percebi que a ênfase maior sempre era colocada no aspecto sexual, não existiam muitas demonstrações de carinho da parte dele. Comecei a me chatear com isso. Pois bem, apesar de não ser fácil para mim, visto que me considero uma pessoa um tanto introvertida, tentei algumas vezes conversar, saber o que ele realmente pensava e sentia por mim. Expressei meu descontentamento com aquela situação. Como nada disso surtiu o efeito desejado e ele não se mostrava nem um pouco disposto ao diálogo, resolvi acabar com a brincadeira, pois, por mais que o amasse, não gostaria de ficar com alguém que apenas desejasse uma boa noite de sexo comigo (para mim, ao menos, a configuração da historia parecia ser esta). Ele reagiu dizendo que gostava de mim, que não era apenas sexo (como muitos homens dizem, aliás), mas que o fato de trabalharmos juntos atrapalhava muito o nosso romance.Nunca mais ficamos juntos desde então, pois não houve nenhum movimento da parte dele em busca de um resgate. Um vez, tomando um café em um bar perto do trabalho, consegui retomar o assunto, pois tudo ainda estava muito mal resolvido para mim: ele repetiu tudo o que dissera na ocasião anterior. Ainda assim, não retomamos o contato. Mas, Fabrício, o que me intriga e me incomoda MUITO é que até hoje ele me olha diferente, me trata com carinho, repara nas roupas que estou vestindo, tem crises de ciúmes quando desconfia que estou saindo com algum outro homem e, de uns tempos pra cá, tem feito muitas insinuações e comentários (sempre em tom de brincadeira, convenientemente) que interpreto como sendo um convite a um novo envolvimento. Mas nunca sai disso. Jamais recebo um chamado concreto para conversar, um convite para jantar, ir ao cinema, seja lá o que for. Fabrício, por que será que ele age assim? Para mim, parece evidente que ele não quer nenhum compromisso comigo. Mas por que me provoca, afinal? Eu suponho que ele saiba que ainda tenho sentimentos por ele (não arriscaria certezas, pois sou boa em esconder o que sinto). Então, por que estimular algo em mim que para ele não haverá reciprocidade? Não acredito que um homem de trinta e poucos anos tenha medo de se envolver... Será simplesmente maldade? Neurose? Sei que o ideal seria confrontá-lo com as minhas perguntas, mas sinto que é quase certo que as respostas não viriam. O que pensar disso tudo? Pior: o que fazer? Será que poderias me fornecer algum vislumbre da alma masculina?"</i><br /><br />Oi, Cláudia<br /><br />Ele não quer ficar contigo, mas deseja que você não fique com mais ninguém. É o egoísta sádico. Tem o domínio da situação e a faz sofrer de propósito, sempre terminando e reiniciando o jogo com insinuações. Com o artifício da brincadeira, seduz sem se comprometer. Deixa subentendido para depois pular fora. Sugere para responsabilizá-la pelo envolvimento. É o "homem cheque em branco". Põe o valor, mas não assina. <br /><br />O cenário é claro: ele parece que tem vergonha de namorá-la. Mantém o elo unicamente para o sexo ou como segredo. Busca uma relação fugaz, o entretenimento, e evita o estresse da doação. Qual é o problema de trabalhar junto? Nenhum; não ficarão dando beijinhos no serviço. Para variar, ele recusa toda exposição social em sua companhia, preocupado com a aparência. Se ele a olha diferente, não poderia ser indiferente depois. A paixão não repara os lados para falar. Que a convide para ir ao cinema e jantar, que proponha bobagens e criancices na rua. Que seja infantil ao acordar e adulto para dormir. <br /><br />Ele ficará esperando que retorne, porque já entregou o jogo e afirmou que o amava. É dispensável confrontá-lo com as questões. Ele teria que se desculpar, esclarecer as indelicadezas e mudar de atitude. <br /><br />Eu o enterraria com o desdém - vivo mesmo, não precisa matar e sujar as mãos. A memória dele será uma cova por demais espaçosa. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38712374</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/20/2006 08:18:39 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>TROCADO NO HOSPITAL</b><br />Pintura de Francis Bacon<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.marlboroughgallery.com/ARCHIVE_PAGES_n_JPGS/bacon-2002/selfportrait.jpg"><br /><br />Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração. <br /><br />Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado. <br /><br />Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo. <br /><br />Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade. <br /><br />Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado.  Era a minha cara, entretanto, não era eu.  <br /><br />- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família. <br /><br />Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:<br /><br />- Coitado, ele também foi trocado. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>TROCADO NO HOSPITAL</b><br />Pintura de Francis Bacon<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.marlboroughgallery.com/ARCHIVE_PAGES_n_JPGS/bacon-2002/selfportrait.jpg"><br /><br />Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração. <br /><br />Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado. <br /><br />Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo. <br /><br />Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade. <br /><br />Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado.  Era a minha cara, entretanto, não era eu.  <br /><br />- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família. <br /><br />Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:<br /><br />- Coitado, ele também foi trocado. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>TROCADO NO HOSPITAL</b><br />Pintura de Francis Bacon<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.marlboroughgallery.com/ARCHIVE_PAGES_n_JPGS/bacon-2002/selfportrait.jpg"><br /><br />Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração. <br /><br />Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado. <br /><br />Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo. <br /><br />Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade. <br /><br />Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado.  Era a minha cara, entretanto, não era eu.  <br /><br />- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família. <br /><br />Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:<br /><br />- Coitado, ele também foi trocado. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38702440</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/18/2006 10:25:00 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>Carla Rodrigues</b> me entrevistou para seu <a href="http://contemporanea.nominimo.com.br/">blog </a>no site No Mínimo. Confira.<br /><br /><b>TRÊS PERGUNTAS PARA FABRÍCIO CARPINEJAR</b><br /><br /><img src="http://contemporanea.nominimo.com.br/wp-content/carpinejar_01.jpg"align=right> Poeta premiado, o jovem gaúcho Fabrício Carpinejar acaba de se aventurar no campo da prosa, com o lançamento de "O Amor Esquece de Começar", uma coletânea de crônicas. Aqui, ele fala sobre o lugar da poesia no mundo de hoje e alerta: "Confundimos o que é maduro com o que é podre". <br /><br /><b>Qual o papel da poesia no mundo contemporâneo?</b><br />Intrigar, provocar, emocionar e não deixar que a palavra seja somente palavra. A palavra é muito ambiciosa, acredita que é mais importante do que aquilo que nomeia. A palavra serve ao poder quando é no despoder que abrimos a guarda. Exerce hipnose de dicionário e enreda poetas na metalinguagem. A palavra é a vaidade de dizer, mas só existe porque o silêncio ainda não é paz. Sou desconfiado com a palavra. Um poema se faz pela falta de palavras. Quanto mais próximos chegamos do toque, do afago, mais estaremos dizendo. <br /><br />Poesia é abraçar o invisível, aquecer o invisível para que ele se torne pouco a pouco corpo. Uma ausência aquecida já é carne. Poesia nunca se contenta em ser memória ou ficção, ela quer ser a ligaçäo entre as duas. Cultivo meus vivos como fantasmas, tudo o que eles fazem na minha direção é um milagre. <br /><br /><b>O que significa ser escritor num mundo em que as narrativas se fragmentaram completamente?</b><br />Temos o compromisso de reunir os cacos, varrer os cacos de vidro e montar outros objetos luminosos com eles. Talvez uma parede com porcelana quebrada ou uma mesa com asas de xícara. Nosso problema é que falamos como adultos e sofremos como crianças. Nossa língua não entende o que sentimos. Sinônimos demais. Empregamos palavras desnecessárias, que não são amadas, para preencher a fala. Com medo da repetição, mentimos. Para falar bonito, mentimos. O excesso serve para esconder a emoção, não expressá-la. A mentira é palavrosa, a sinceridade é quase lacônica. Melhor seria ter um repertório diminuto de criança, pois a criança usa todas as possibilidades de cada palavra antes de aprender outra. Nossa boca está pesada demais. Confundimos o que é maduro com o que é podre. <br /><br /><b>Você acha que a Internet vai mudar também a nossa forma de fazer ficção?</b><br />Já está mudando, tanto a ficção como a imprensa, que está aderindo aos blogs. Não há colunista que não expanda seu território para a virtualidade. Há uma maior variedade e espaço para o debate. Cartas são trocadas a todo minuto. Estamos mais opinativos, inventariando a própria vida em outras vidas e personagens. Meu único receio é que a leitura seja trocada pela informação. Estar informado não significa se aprofundar. Saber não é duvidar. <br /><br />Vejo que os novos autores têm mais chance de mostrar seus trabalhos. As gavetas são públicas, não fechadas na madeira de uma escrivaninha ou de uma casa. É mais difícil morrer anônimo com a internet. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>Carla Rodrigues</b> me entrevistou para seu <a href="http://contemporanea.nominimo.com.br/">blog </a>no site No Mínimo. Confira.<br /><br /><b>TRÊS PERGUNTAS PARA FABRÍCIO CARPINEJAR</b><br /><br /><img src="http://contemporanea.nominimo.com.br/wp-content/carpinejar_01.jpg"align=right> Poeta premiado, o jovem gaúcho Fabrício Carpinejar acaba de se aventurar no campo da prosa, com o lançamento de "O Amor Esquece de Começar", uma coletânea de crônicas. Aqui, ele fala sobre o lugar da poesia no mundo de hoje e alerta: "Confundimos o que é maduro com o que é podre". <br /><br /><b>Qual o papel da poesia no mundo contemporâneo?</b><br />Intrigar, provocar, emocionar e não deixar que a palavra seja somente palavra. A palavra é muito ambiciosa, acredita que é mais importante do que aquilo que nomeia. A palavra serve ao poder quando é no despoder que abrimos a guarda. Exerce hipnose de dicionário e enreda poetas na metalinguagem. A palavra é a vaidade de dizer, mas só existe porque o silêncio ainda não é paz. Sou desconfiado com a palavra. Um poema se faz pela falta de palavras. Quanto mais próximos chegamos do toque, do afago, mais estaremos dizendo. <br /><br />Poesia é abraçar o invisível, aquecer o invisível para que ele se torne pouco a pouco corpo. Uma ausência aquecida já é carne. Poesia nunca se contenta em ser memória ou ficção, ela quer ser a ligaçäo entre as duas. Cultivo meus vivos como fantasmas, tudo o que eles fazem na minha direção é um milagre. <br /><br /><b>O que significa ser escritor num mundo em que as narrativas se fragmentaram completamente?</b><br />Temos o compromisso de reunir os cacos, varrer os cacos de vidro e montar outros objetos luminosos com eles. Talvez uma parede com porcelana quebrada ou uma mesa com asas de xícara. Nosso problema é que falamos como adultos e sofremos como crianças. Nossa língua não entende o que sentimos. Sinônimos demais. Empregamos palavras desnecessárias, que não são amadas, para preencher a fala. Com medo da repetição, mentimos. Para falar bonito, mentimos. O excesso serve para esconder a emoção, não expressá-la. A mentira é palavrosa, a sinceridade é quase lacônica. Melhor seria ter um repertório diminuto de criança, pois a criança usa todas as possibilidades de cada palavra antes de aprender outra. Nossa boca está pesada demais. Confundimos o que é maduro com o que é podre. <br /><br /><b>Você acha que a Internet vai mudar também a nossa forma de fazer ficção?</b><br />Já está mudando, tanto a ficção como a imprensa, que está aderindo aos blogs. Não há colunista que não expanda seu território para a virtualidade. Há uma maior variedade e espaço para o debate. Cartas são trocadas a todo minuto. Estamos mais opinativos, inventariando a própria vida em outras vidas e personagens. Meu único receio é que a leitura seja trocada pela informação. Estar informado não significa se aprofundar. Saber não é duvidar. <br /><br />Vejo que os novos autores têm mais chance de mostrar seus trabalhos. As gavetas são públicas, não fechadas na madeira de uma escrivaninha ou de uma casa. É mais difícil morrer anônimo com a internet. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Carla Rodrigues</b> me entrevistou para seu <a href="http://contemporanea.nominimo.com.br/">blog </a>no site No Mínimo. Confira.<br /><br /><b>TRÊS PERGUNTAS PARA FABRÍCIO CARPINEJAR</b><br /><br /><img src="http://contemporanea.nominimo.com.br/wp-content/carpinejar_01.jpg"align=right> Poeta premiado, o jovem gaúcho Fabrício Carpinejar acaba de se aventurar no campo da prosa, com o lançamento de "O Amor Esquece de Começar", uma coletânea de crônicas. Aqui, ele fala sobre o lugar da poesia no mundo de hoje e alerta: "Confundimos o que é maduro com o que é podre". <br /><br /><b>Qual o papel da poesia no mundo contemporâneo?</b><br />Intrigar, provocar, emocionar e não deixar que a palavra seja somente palavra. A palavra é muito ambiciosa, acredita que é mais importante do que aquilo que nomeia. A palavra serve ao poder quando é no despoder que abrimos a guarda. Exerce hipnose de dicionário e enreda poetas na metalinguagem. A palavra é a vaidade de dizer, mas só existe porque o silêncio ainda não é paz. Sou desconfiado com a palavra. Um poema se faz pela falta de palavras. Quanto mais próximos chegamos do toque, do afago, mais estaremos dizendo. <br /><br />Poesia é abraçar o invisível, aquecer o invisível para que ele se torne pouco a pouco corpo. Uma ausência aquecida já é carne. Poesia nunca se contenta em ser memória ou ficção, ela quer ser a ligaçäo entre as duas. Cultivo meus vivos como fantasmas, tudo o que eles fazem na minha direção é um milagre. <br /><br /><b>O que significa ser escritor num mundo em que as narrativas se fragmentaram completamente?</b><br />Temos o compromisso de reunir os cacos, varrer os cacos de vidro e montar outros objetos luminosos com eles. Talvez uma parede com porcelana quebrada ou uma mesa com asas de xícara. Nosso problema é que falamos como adultos e sofremos como crianças. Nossa língua não entende o que sentimos. Sinônimos demais. Empregamos palavras desnecessárias, que não são amadas, para preencher a fala. Com medo da repetição, mentimos. Para falar bonito, mentimos. O excesso serve para esconder a emoção, não expressá-la. A mentira é palavrosa, a sinceridade é quase lacônica. Melhor seria ter um repertório diminuto de criança, pois a criança usa todas as possibilidades de cada palavra antes de aprender outra. Nossa boca está pesada demais. Confundimos o que é maduro com o que é podre. <br /><br /><b>Você acha que a Internet vai mudar também a nossa forma de fazer ficção?</b><br />Já está mudando, tanto a ficção como a imprensa, que está aderindo aos blogs. Não há colunista que não expanda seu território para a virtualidade. Há uma maior variedade e espaço para o debate. Cartas são trocadas a todo minuto. Estamos mais opinativos, inventariando a própria vida em outras vidas e personagens. Meu único receio é que a leitura seja trocada pela informação. Estar informado não significa se aprofundar. Saber não é duvidar. <br /><br />Vejo que os novos autores têm mais chance de mostrar seus trabalhos. As gavetas são públicas, não fechadas na madeira de uma escrivaninha ou de uma casa. É mais difícil morrer anônimo com a internet. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38698586</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/17/2006 09:37:40 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>Jornal <a href="http://www.clicrbs.com.br">Zero Hora</a>, Caderno Cultura<br />Sábado, 17/06/06</b><br /><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/CT20060617.jpg"><br /> <br /><b>CONTINUAR QUINTANA</b> <br /><br />Um sujeito está sozinho velando um amigo morto. Dá uma escapada para molhar a garganta e, quando volta, surpreende o cadáver em pleno ato de... Essa pequena história, de autoria de Mario Quintana, publicada originalmente em 1946, ganha uma nova série de finais. A convite de Zero Hora, no centenário de nascimento do poeta alegretense, escritores brasileiros de diferentes gerações aceitaram o desafio de apresentar uma continuação para <i>Tableau</i>! <br /> <br />Literatura <br /><b>A sós com uma desconcertante criatura</b> <br /><br /><i>Parece sacrilégio, mas é antes uma homenagem, ou ainda un divertissement, como bem definiu o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan, amigo próximo de Mario Quintana. Ele e outros escritores brasileiros contemporâneos foram convidados pelo Cultura a escrever um final alternativo ou uma continuação para Tableau!, um dos textos mais saborosos do mestre alegretense - nosso "poeta-mor", ainda segundo Trevisan. Tableau! apareceu pela primeira vez no número 5 da revista Província de São Pedro (confira na contracapa deste caderno). Chegou em livro em 1948, em Sapato Florido, e hoje está incluído na Poesia Completa de Mario Quintana, editada pela Nova Aguilar.</i><br /><br /><b>Versão original de Mario Quintana<br /><br />Tableau! <br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos</b>. <br /><br /><br /><b>por Flávio Moreira da Costa</b><br /><br />Até os postes morrem. Sei disso porque escrevi a história de um poste que se chamava Espia Só. Natural que eu morra também. Os poetas, como os postes, também morrem. Espia só! <br /><br />Morto eu. Mas eu já estava acostumado, desde "a vez primeira que me assassinaram", e depois, "cada vez que me mataram" quando "foram levando qualquer coisa minha". Morto. Pelo menos na hora em que percebi , em pleno velório meu que estava morto - e despertei. <br /><br />Isso posto, ninguém no meu último e final poema, a confirmar nossa solidão em vida. A posteridade, por definição - e se chegar - chega depois. Tarde demais. Ansioso, senti fome, muita fome. Se flores houvesse - as flores que outro poeta pediu em vida - eu as comeria. Não havia; mastiguei as quatro velas que alguém - por simples desencargo de consciência, suponho - colocou ao lado do meu caixão. Talvez as velas me iluminassem por dentro, como a poesia me iluminou em vida, a poesia agora vela apagada. <br /><br />Mais eis que alguém entra no meu velório inopinadamente (não gosto desta palavra mas acho que já a usei por escrito) - e ali, na minha frente, olhos abertos de espanto, a tal pessoa mal consegue esconder seu susto, seu sorriso amarelo e... <br /><br />Alguém - quem mesmo? Mas... <br /><br />Fiquei aterrorizado, e reagi com um sorriso branco de cera, quando vi que ele se parecia com o poeta Mario Quintana: meu Deus, ele era o poeta Mario Quintana ! <br /><br />Talvez Mario Quintana desmaiasse se soubesse, como eu percebi na hora, que Mario Quintana era eu. <br /><br /><i>Escritor gaúcho radicado no Rio, Flávio Moreira da Costa, 64 anos, é tido como um dos pioneiros da literatura policial no Brasil. Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti, por O Equilibrista do Arame Farpado (1998) e Nem todo Canário É Belga (1999). Também é autor de uma biografia do compositor Nelson Cavaquinho e publicou mais de uma dezena de antologias de contos, como Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal (2001) e Cem Melhores Contos de Crime & Mistério da Literatural Universal (2002)</i><br /><br /><b>por Marcelino Freire</b><br /><br />Onde você aprendeu? Hein? A morder velas? Comer? Lamber? Esse fogo veio de onde? Da vida eterna? Quem ensinou essa fome? Diz, fala. Você que sempre foi um cara sem graça. Uma existência tão limitada. Chama apagada. Sei não. Eu mesmo queria esse tipo de ressurreição. Voltar diferente. Se quiser, vou ali de novo, no bar do seu João. Trago vela de todo tamanho. De toda cor. Para você morder. Como nunca vi você morder. Até o fim do pavio, meu amor. <br /><br /><i>Escritor pernambucano radicado em São Paulo, Marcelino Freire, 39 anos, é autor de eraOdito (2002) e BaléRalé (2003), entre outros livros. Edita a revista de literatura PS:SP</i> <br /><br /><b>por Moacyr Scliar</b><br /><br />Uma súbita suspeita o assaltou e ele perguntou: tu achas que as velas podem me fazer mal? Acho que não, respondi, e expliquei: <br /><br />- As velas são, basicamente, compostas por parafina e estearina. A parafina, obtida pela destilação fracionada de petróleo, é uma matéria sólida, incolor, inodora e insípida, constituída principalmente de hidrocarbonetos saturados. Dificilmente combina-se com outros produtos, como aliás o sugere o próprio termo parafina, que vem do latim "parum affinis", pouca afinidade, e portanto inocuidade: evidência disto é o fato de que a parafina está presente até na goma de mascar. Quanto à estearina, é uma substância que, devido às suas características físicas peculiares, substitui com vantagem diversas gorduras hidrogenadas na indústria de alimentos, mesmo porque, não tendo sido submetida a processos de hidrogenação artificial, está livre de certos nocivos ácidos graxos. Pode, portanto, comer à vontade - e bom proveito. <br /><br /><i>Escritor e médico sanitarista gaúcho, Moacyr Scliar, 69 anos, é colunista de ZH, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Publicou mais de 50 livros. O mais recente é Os Vendilhões do Templo (2005). </i><br /><br /><b>por Cíntia Moscovich</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. <br /><br />Quando voltei, entrei inopinadamente na sala. Lá estava o defunto, sentado no caixão. Desfolhava distraído uma flor arrancada a uma coroa. Ao me ver, o coitado tomou um susto ainda maior do que o meu. Pediu-me desculpas pela insolência de quebrar o protocolo das exéquias, morto tinha mais que ficar deitado, mas tinha se chateado com aquele marasmo. <br /><br />Meio catatônico, afirmei que eu é que tinha de pedir desculpas - falta de educação deixar um morto sem ninguém para fazer companhia. Ele fez um gesto de deixa-disso com a mão lívida e, animado, disse que morria de vontade de fumar: o médico havia proibido, fazia um tempão que não fumava. Eu, que havia comprado duas carteiras de cigarro no bar, ofereci um dos meus, ele que se servisse, não ia mesmo fazer a mínima diferença àquela altura do campeonato. <br /><br />Ficamos ali, fumando e proseando, até que se ouviu barulho de gente que chegava. O morto apagou o cigarro no cinzeiro que lhe alcancei e voltou a se deitar no caixão. Cruzou as mãos ao peito e, antes de fechar os olhos para a eternidade, agradeceu-me a camaradagem e o maço de cigarros ainda fechado que coloquei no bolso de seu paletó de enterro. Sabia-se lá que marca fumavam no Outro Mundo. <br /><br />Foi enterrado com uma expressão de viva felicidade. <br /><br /><i>Escritora e jornalista gaúcha, Cíntia, 48 anos, é autora de, entre outros livros, Arquitetura do Arco-Íris (finalista dos Prêmios Portugal Telelcom e Jabuti, 2005)</i><br /><br /><b>por Armindo Trevisan</b><br /><br />Nunca se deve imaginar um defunto como uma desconcertante criatura. O defunto é um vivo que se esqueceu de viver. Tão logo o acondicionam num ataúde, assume poses irreconciliáveis com suas atitudes anteriores. Se era um pândego, fica sério. Se era uma mundana, junta as mãos sobre o peito. Se era um político, revela as primeiras intenções de suas segundas intenções. Quando morri, esforcei-me por não fechar os olhos. Já fora informado de que alguns defuntos eram velados com os olhos abertos. Pude assistir ao meu velório, um velório sem defunto, já que eu estava e não estava no caixão. Noutras palavras, coçava-me, e ninguém o percebia. Ignorado pelos circunstantes (que bebiam café e lanchavam nas cercanias), não precisei comer toco de vela, nem trocar sorrisos amarelos com ninguém. Prevenira de que não me velassem à noite. Para saber, pois, que eu estava realmente morto, bastava-me ver a cara dos presentes. Suas lágrimas eram maravilhosamente falsas. Diante disso, chorei com pena deles. Acho que isso me garantiu o sepultamento. Isto é: escapei à cremação porque: na última hora, na hora H, um neném chorou. Os meus entes queridos lembraram-se da criança que eu fora - uma criança realmente amorosa! <br /><br /><i>Poeta, professor e crítico de arte, doutor em Estética pela Universidade de Friburgo (Suíça), autor de, entre outros livros, O Rosto de Cristo (2003). Acaba de publicar o livro Mario Quintana Desconhecido</i><br /><br /><b>por Ivana Arruda Leite</b> <br /><br />Foi então que o ex-defunto perguntou-me com seus olhões recém-abertos: "Está servido?". Percebendo que o homem estava a fim de conversa, resolvi matar minha curiosidade: "Amigo, você que esteve na outra margem, me responde: como são as coisas do lado de lá?". Ao que ele respondeu com visível desagrado: "Mário, essa história de imortalidade é um engodo. O que há é a mesma paisagem, com os mesmos burros e as mesmas vacas pastando". Abracei-o comovido e convidei-o para uma cerveja, mas ele disse que estava tarde. <br /><br />Escritora e socióloga. Paulista de Araçatuba, Ivana Arruda Leite, 55 anos, é autora de Histórias da Mulher do Fim do Século (1997) e Falo de Mulher (2002)<br /><br /><b>por Celso Gutfreind</b><br /><br />E foi bem aí que meu olhar em direção ao morto abalou, novamente, a calma daquele começo de eternidade. E disse uma verdade, pois os olhares não mentem, sobretudo para um morto entre velas roídas até o sabugo. A criatura, sem olhar, como é comum com defuntos, respondeu com palavras como se fosse um vivo: <br /><br />- Tens certeza ? <br /><br />Antes do fim da pergunta, ele se preparava para partir, já que tinha conquistado o raro direito de ir embora. Segurei-o por um instante infinitamente menor do que o tempo que agora lhe cabia: <br /><br />- Estou vivo; como posso ter alguma certeza nesta vida? <br /><br />Mortos raramente olham na cara, mas aquele defunto de araque me olhou. E me lançou ao dever de um vivo, o de encarar a verdade. Sim, eu o amava. Era isso o que o silêncio mortal de nossas vidas encobrira durante a vida toda. Foi isso o que eu, morto em vida, disse finalmente para aquele vivo em morte. <br /><br />A cena só não ficou ridícula, porque declarações de amor, diante da morte, tornam-se profundas, convincentes e originais. <br /><br />E, desde então, nunca mais fomos os mesmos. <br /><br /><i>Escritor, professor e psiquiatra gaúcho, Celso Gutfreind, 43 anos, é autor de 17 livros, entre infantis, ensaios e poesias. Tem doutorado e pós-doutorado em Psiquiatria Infantil pela Universidade de Paris</i><br /><br /><b>por Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! Parecia um mendigo engolindo a barba junto. Não queria atrapalhar sua refeição. Não gosto de interromper uma solidão jantando. Mas o defunto começou a soluçar chamas, desesperadamente. Aproximei-me com medo de que eu estivesse morto. Afinal, quando um morto o cumprimenta, pode ser que ele esteja mais vivo do que você que não responde. Bati levemente em suas costas, para desentupi-lo de morte. Ele sorriu com cinismo: <br /><br />- Havia esquecido de fazer a refeição. <br /><br />Deitou de vez e, quando acreditava que era uma alucinação, teimou em sentar. A boca contorcia-se em careta, uma criança descobrindo um novo som. Encheu as bochechas e soltou com galhardia um imenso arroto, que ressoou no São Miguel e Almas. <br /><br />Saí gritando pelos corredores: <br /><br />- Fogo-fátuo, fogo-fátuo, fogo-fátuo. <br /><br /><i>Poeta e jornalista gaúcho, Fabrício Carpinejar, 33 anos, é autor de, entre outros livros, Terceira Sede (2001). Seu trabalho mais recente é o volume de crônicas O Amor Esquece de Começar (2006)</i><br /></title>
<description><![CDATA[<b>Jornal <a href="http://www.clicrbs.com.br">Zero Hora</a>, Caderno Cultura<br />Sábado, 17/06/06</b><br /><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/CT20060617.jpg"><br /> <br /><b>CONTINUAR QUINTANA</b> <br /><br />Um sujeito está sozinho velando um amigo morto. Dá uma escapada para molhar a garganta e, quando volta, surpreende o cadáver em pleno ato de... Essa pequena história, de autoria de Mario Quintana, publicada originalmente em 1946, ganha uma nova série de finais. A convite de Zero Hora, no centenário de nascimento do poeta alegretense, escritores brasileiros de diferentes gerações aceitaram o desafio de apresentar uma continuação para <i>Tableau</i>! <br /> <br />Literatura <br /><b>A sós com uma desconcertante criatura</b> <br /><br /><i>Parece sacrilégio, mas é antes uma homenagem, ou ainda un divertissement, como bem definiu o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan, amigo próximo de Mario Quintana. Ele e outros escritores brasileiros contemporâneos foram convidados pelo Cultura a escrever um final alternativo ou uma continuação para Tableau!, um dos textos mais saborosos do mestre alegretense - nosso "poeta-mor", ainda segundo Trevisan. Tableau! apareceu pela primeira vez no número 5 da revista Província de São Pedro (confira na contracapa deste caderno). Chegou em livro em 1948, em Sapato Florido, e hoje está incluído na Poesia Completa de Mario Quintana, editada pela Nova Aguilar.</i><br /><br /><b>Versão original de Mario Quintana<br /><br />Tableau! <br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos</b>. <br /><br /><br /><b>por Flávio Moreira da Costa</b><br /><br />Até os postes morrem. Sei disso porque escrevi a história de um poste que se chamava Espia Só. Natural que eu morra também. Os poetas, como os postes, também morrem. Espia só! <br /><br />Morto eu. Mas eu já estava acostumado, desde "a vez primeira que me assassinaram", e depois, "cada vez que me mataram" quando "foram levando qualquer coisa minha". Morto. Pelo menos na hora em que percebi , em pleno velório meu que estava morto - e despertei. <br /><br />Isso posto, ninguém no meu último e final poema, a confirmar nossa solidão em vida. A posteridade, por definição - e se chegar - chega depois. Tarde demais. Ansioso, senti fome, muita fome. Se flores houvesse - as flores que outro poeta pediu em vida - eu as comeria. Não havia; mastiguei as quatro velas que alguém - por simples desencargo de consciência, suponho - colocou ao lado do meu caixão. Talvez as velas me iluminassem por dentro, como a poesia me iluminou em vida, a poesia agora vela apagada. <br /><br />Mais eis que alguém entra no meu velório inopinadamente (não gosto desta palavra mas acho que já a usei por escrito) - e ali, na minha frente, olhos abertos de espanto, a tal pessoa mal consegue esconder seu susto, seu sorriso amarelo e... <br /><br />Alguém - quem mesmo? Mas... <br /><br />Fiquei aterrorizado, e reagi com um sorriso branco de cera, quando vi que ele se parecia com o poeta Mario Quintana: meu Deus, ele era o poeta Mario Quintana ! <br /><br />Talvez Mario Quintana desmaiasse se soubesse, como eu percebi na hora, que Mario Quintana era eu. <br /><br /><i>Escritor gaúcho radicado no Rio, Flávio Moreira da Costa, 64 anos, é tido como um dos pioneiros da literatura policial no Brasil. Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti, por O Equilibrista do Arame Farpado (1998) e Nem todo Canário É Belga (1999). Também é autor de uma biografia do compositor Nelson Cavaquinho e publicou mais de uma dezena de antologias de contos, como Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal (2001) e Cem Melhores Contos de Crime & Mistério da Literatural Universal (2002)</i><br /><br /><b>por Marcelino Freire</b><br /><br />Onde você aprendeu? Hein? A morder velas? Comer? Lamber? Esse fogo veio de onde? Da vida eterna? Quem ensinou essa fome? Diz, fala. Você que sempre foi um cara sem graça. Uma existência tão limitada. Chama apagada. Sei não. Eu mesmo queria esse tipo de ressurreição. Voltar diferente. Se quiser, vou ali de novo, no bar do seu João. Trago vela de todo tamanho. De toda cor. Para você morder. Como nunca vi você morder. Até o fim do pavio, meu amor. <br /><br /><i>Escritor pernambucano radicado em São Paulo, Marcelino Freire, 39 anos, é autor de eraOdito (2002) e BaléRalé (2003), entre outros livros. Edita a revista de literatura PS:SP</i> <br /><br /><b>por Moacyr Scliar</b><br /><br />Uma súbita suspeita o assaltou e ele perguntou: tu achas que as velas podem me fazer mal? Acho que não, respondi, e expliquei: <br /><br />- As velas são, basicamente, compostas por parafina e estearina. A parafina, obtida pela destilação fracionada de petróleo, é uma matéria sólida, incolor, inodora e insípida, constituída principalmente de hidrocarbonetos saturados. Dificilmente combina-se com outros produtos, como aliás o sugere o próprio termo parafina, que vem do latim "parum affinis", pouca afinidade, e portanto inocuidade: evidência disto é o fato de que a parafina está presente até na goma de mascar. Quanto à estearina, é uma substância que, devido às suas características físicas peculiares, substitui com vantagem diversas gorduras hidrogenadas na indústria de alimentos, mesmo porque, não tendo sido submetida a processos de hidrogenação artificial, está livre de certos nocivos ácidos graxos. Pode, portanto, comer à vontade - e bom proveito. <br /><br /><i>Escritor e médico sanitarista gaúcho, Moacyr Scliar, 69 anos, é colunista de ZH, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Publicou mais de 50 livros. O mais recente é Os Vendilhões do Templo (2005). </i><br /><br /><b>por Cíntia Moscovich</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. <br /><br />Quando voltei, entrei inopinadamente na sala. Lá estava o defunto, sentado no caixão. Desfolhava distraído uma flor arrancada a uma coroa. Ao me ver, o coitado tomou um susto ainda maior do que o meu. Pediu-me desculpas pela insolência de quebrar o protocolo das exéquias, morto tinha mais que ficar deitado, mas tinha se chateado com aquele marasmo. <br /><br />Meio catatônico, afirmei que eu é que tinha de pedir desculpas - falta de educação deixar um morto sem ninguém para fazer companhia. Ele fez um gesto de deixa-disso com a mão lívida e, animado, disse que morria de vontade de fumar: o médico havia proibido, fazia um tempão que não fumava. Eu, que havia comprado duas carteiras de cigarro no bar, ofereci um dos meus, ele que se servisse, não ia mesmo fazer a mínima diferença àquela altura do campeonato. <br /><br />Ficamos ali, fumando e proseando, até que se ouviu barulho de gente que chegava. O morto apagou o cigarro no cinzeiro que lhe alcancei e voltou a se deitar no caixão. Cruzou as mãos ao peito e, antes de fechar os olhos para a eternidade, agradeceu-me a camaradagem e o maço de cigarros ainda fechado que coloquei no bolso de seu paletó de enterro. Sabia-se lá que marca fumavam no Outro Mundo. <br /><br />Foi enterrado com uma expressão de viva felicidade. <br /><br /><i>Escritora e jornalista gaúcha, Cíntia, 48 anos, é autora de, entre outros livros, Arquitetura do Arco-Íris (finalista dos Prêmios Portugal Telelcom e Jabuti, 2005)</i><br /><br /><b>por Armindo Trevisan</b><br /><br />Nunca se deve imaginar um defunto como uma desconcertante criatura. O defunto é um vivo que se esqueceu de viver. Tão logo o acondicionam num ataúde, assume poses irreconciliáveis com suas atitudes anteriores. Se era um pândego, fica sério. Se era uma mundana, junta as mãos sobre o peito. Se era um político, revela as primeiras intenções de suas segundas intenções. Quando morri, esforcei-me por não fechar os olhos. Já fora informado de que alguns defuntos eram velados com os olhos abertos. Pude assistir ao meu velório, um velório sem defunto, já que eu estava e não estava no caixão. Noutras palavras, coçava-me, e ninguém o percebia. Ignorado pelos circunstantes (que bebiam café e lanchavam nas cercanias), não precisei comer toco de vela, nem trocar sorrisos amarelos com ninguém. Prevenira de que não me velassem à noite. Para saber, pois, que eu estava realmente morto, bastava-me ver a cara dos presentes. Suas lágrimas eram maravilhosamente falsas. Diante disso, chorei com pena deles. Acho que isso me garantiu o sepultamento. Isto é: escapei à cremação porque: na última hora, na hora H, um neném chorou. Os meus entes queridos lembraram-se da criança que eu fora - uma criança realmente amorosa! <br /><br /><i>Poeta, professor e crítico de arte, doutor em Estética pela Universidade de Friburgo (Suíça), autor de, entre outros livros, O Rosto de Cristo (2003). Acaba de publicar o livro Mario Quintana Desconhecido</i><br /><br /><b>por Ivana Arruda Leite</b> <br /><br />Foi então que o ex-defunto perguntou-me com seus olhões recém-abertos: "Está servido?". Percebendo que o homem estava a fim de conversa, resolvi matar minha curiosidade: "Amigo, você que esteve na outra margem, me responde: como são as coisas do lado de lá?". Ao que ele respondeu com visível desagrado: "Mário, essa história de imortalidade é um engodo. O que há é a mesma paisagem, com os mesmos burros e as mesmas vacas pastando". Abracei-o comovido e convidei-o para uma cerveja, mas ele disse que estava tarde. <br /><br />Escritora e socióloga. Paulista de Araçatuba, Ivana Arruda Leite, 55 anos, é autora de Histórias da Mulher do Fim do Século (1997) e Falo de Mulher (2002)<br /><br /><b>por Celso Gutfreind</b><br /><br />E foi bem aí que meu olhar em direção ao morto abalou, novamente, a calma daquele começo de eternidade. E disse uma verdade, pois os olhares não mentem, sobretudo para um morto entre velas roídas até o sabugo. A criatura, sem olhar, como é comum com defuntos, respondeu com palavras como se fosse um vivo: <br /><br />- Tens certeza ? <br /><br />Antes do fim da pergunta, ele se preparava para partir, já que tinha conquistado o raro direito de ir embora. Segurei-o por um instante infinitamente menor do que o tempo que agora lhe cabia: <br /><br />- Estou vivo; como posso ter alguma certeza nesta vida? <br /><br />Mortos raramente olham na cara, mas aquele defunto de araque me olhou. E me lançou ao dever de um vivo, o de encarar a verdade. Sim, eu o amava. Era isso o que o silêncio mortal de nossas vidas encobrira durante a vida toda. Foi isso o que eu, morto em vida, disse finalmente para aquele vivo em morte. <br /><br />A cena só não ficou ridícula, porque declarações de amor, diante da morte, tornam-se profundas, convincentes e originais. <br /><br />E, desde então, nunca mais fomos os mesmos. <br /><br /><i>Escritor, professor e psiquiatra gaúcho, Celso Gutfreind, 43 anos, é autor de 17 livros, entre infantis, ensaios e poesias. Tem doutorado e pós-doutorado em Psiquiatria Infantil pela Universidade de Paris</i><br /><br /><b>por Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! Parecia um mendigo engolindo a barba junto. Não queria atrapalhar sua refeição. Não gosto de interromper uma solidão jantando. Mas o defunto começou a soluçar chamas, desesperadamente. Aproximei-me com medo de que eu estivesse morto. Afinal, quando um morto o cumprimenta, pode ser que ele esteja mais vivo do que você que não responde. Bati levemente em suas costas, para desentupi-lo de morte. Ele sorriu com cinismo: <br /><br />- Havia esquecido de fazer a refeição. <br /><br />Deitou de vez e, quando acreditava que era uma alucinação, teimou em sentar. A boca contorcia-se em careta, uma criança descobrindo um novo som. Encheu as bochechas e soltou com galhardia um imenso arroto, que ressoou no São Miguel e Almas. <br /><br />Saí gritando pelos corredores: <br /><br />- Fogo-fátuo, fogo-fátuo, fogo-fátuo. <br /><br /><i>Poeta e jornalista gaúcho, Fabrício Carpinejar, 33 anos, é autor de, entre outros livros, Terceira Sede (2001). Seu trabalho mais recente é o volume de crônicas O Amor Esquece de Começar (2006)</i><br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>Jornal <a href="http://www.clicrbs.com.br">Zero Hora</a>, Caderno Cultura<br />Sábado, 17/06/06</b><br /><br /><br /><img src="http://www.clicrbs.com.br/jornais/zerohora/imgcapa/CT20060617.jpg"><br /> <br /><b>CONTINUAR QUINTANA</b> <br /><br />Um sujeito está sozinho velando um amigo morto. Dá uma escapada para molhar a garganta e, quando volta, surpreende o cadáver em pleno ato de... Essa pequena história, de autoria de Mario Quintana, publicada originalmente em 1946, ganha uma nova série de finais. A convite de Zero Hora, no centenário de nascimento do poeta alegretense, escritores brasileiros de diferentes gerações aceitaram o desafio de apresentar uma continuação para <i>Tableau</i>! <br /> <br />Literatura <br /><b>A sós com uma desconcertante criatura</b> <br /><br /><i>Parece sacrilégio, mas é antes uma homenagem, ou ainda un divertissement, como bem definiu o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan, amigo próximo de Mario Quintana. Ele e outros escritores brasileiros contemporâneos foram convidados pelo Cultura a escrever um final alternativo ou uma continuação para Tableau!, um dos textos mais saborosos do mestre alegretense - nosso "poeta-mor", ainda segundo Trevisan. Tableau! apareceu pela primeira vez no número 5 da revista Província de São Pedro (confira na contracapa deste caderno). Chegou em livro em 1948, em Sapato Florido, e hoje está incluído na Poesia Completa de Mario Quintana, editada pela Nova Aguilar.</i><br /><br /><b>Versão original de Mario Quintana<br /><br />Tableau! <br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos</b>. <br /><br /><br /><b>por Flávio Moreira da Costa</b><br /><br />Até os postes morrem. Sei disso porque escrevi a história de um poste que se chamava Espia Só. Natural que eu morra também. Os poetas, como os postes, também morrem. Espia só! <br /><br />Morto eu. Mas eu já estava acostumado, desde "a vez primeira que me assassinaram", e depois, "cada vez que me mataram" quando "foram levando qualquer coisa minha". Morto. Pelo menos na hora em que percebi , em pleno velório meu que estava morto - e despertei. <br /><br />Isso posto, ninguém no meu último e final poema, a confirmar nossa solidão em vida. A posteridade, por definição - e se chegar - chega depois. Tarde demais. Ansioso, senti fome, muita fome. Se flores houvesse - as flores que outro poeta pediu em vida - eu as comeria. Não havia; mastiguei as quatro velas que alguém - por simples desencargo de consciência, suponho - colocou ao lado do meu caixão. Talvez as velas me iluminassem por dentro, como a poesia me iluminou em vida, a poesia agora vela apagada. <br /><br />Mais eis que alguém entra no meu velório inopinadamente (não gosto desta palavra mas acho que já a usei por escrito) - e ali, na minha frente, olhos abertos de espanto, a tal pessoa mal consegue esconder seu susto, seu sorriso amarelo e... <br /><br />Alguém - quem mesmo? Mas... <br /><br />Fiquei aterrorizado, e reagi com um sorriso branco de cera, quando vi que ele se parecia com o poeta Mario Quintana: meu Deus, ele era o poeta Mario Quintana ! <br /><br />Talvez Mario Quintana desmaiasse se soubesse, como eu percebi na hora, que Mario Quintana era eu. <br /><br /><i>Escritor gaúcho radicado no Rio, Flávio Moreira da Costa, 64 anos, é tido como um dos pioneiros da literatura policial no Brasil. Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti, por O Equilibrista do Arame Farpado (1998) e Nem todo Canário É Belga (1999). Também é autor de uma biografia do compositor Nelson Cavaquinho e publicou mais de uma dezena de antologias de contos, como Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal (2001) e Cem Melhores Contos de Crime & Mistério da Literatural Universal (2002)</i><br /><br /><b>por Marcelino Freire</b><br /><br />Onde você aprendeu? Hein? A morder velas? Comer? Lamber? Esse fogo veio de onde? Da vida eterna? Quem ensinou essa fome? Diz, fala. Você que sempre foi um cara sem graça. Uma existência tão limitada. Chama apagada. Sei não. Eu mesmo queria esse tipo de ressurreição. Voltar diferente. Se quiser, vou ali de novo, no bar do seu João. Trago vela de todo tamanho. De toda cor. Para você morder. Como nunca vi você morder. Até o fim do pavio, meu amor. <br /><br /><i>Escritor pernambucano radicado em São Paulo, Marcelino Freire, 39 anos, é autor de eraOdito (2002) e BaléRalé (2003), entre outros livros. Edita a revista de literatura PS:SP</i> <br /><br /><b>por Moacyr Scliar</b><br /><br />Uma súbita suspeita o assaltou e ele perguntou: tu achas que as velas podem me fazer mal? Acho que não, respondi, e expliquei: <br /><br />- As velas são, basicamente, compostas por parafina e estearina. A parafina, obtida pela destilação fracionada de petróleo, é uma matéria sólida, incolor, inodora e insípida, constituída principalmente de hidrocarbonetos saturados. Dificilmente combina-se com outros produtos, como aliás o sugere o próprio termo parafina, que vem do latim "parum affinis", pouca afinidade, e portanto inocuidade: evidência disto é o fato de que a parafina está presente até na goma de mascar. Quanto à estearina, é uma substância que, devido às suas características físicas peculiares, substitui com vantagem diversas gorduras hidrogenadas na indústria de alimentos, mesmo porque, não tendo sido submetida a processos de hidrogenação artificial, está livre de certos nocivos ácidos graxos. Pode, portanto, comer à vontade - e bom proveito. <br /><br /><i>Escritor e médico sanitarista gaúcho, Moacyr Scliar, 69 anos, é colunista de ZH, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Publicou mais de 50 livros. O mais recente é Os Vendilhões do Templo (2005). </i><br /><br /><b>por Cíntia Moscovich</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. <br /><br />Quando voltei, entrei inopinadamente na sala. Lá estava o defunto, sentado no caixão. Desfolhava distraído uma flor arrancada a uma coroa. Ao me ver, o coitado tomou um susto ainda maior do que o meu. Pediu-me desculpas pela insolência de quebrar o protocolo das exéquias, morto tinha mais que ficar deitado, mas tinha se chateado com aquele marasmo. <br /><br />Meio catatônico, afirmei que eu é que tinha de pedir desculpas - falta de educação deixar um morto sem ninguém para fazer companhia. Ele fez um gesto de deixa-disso com a mão lívida e, animado, disse que morria de vontade de fumar: o médico havia proibido, fazia um tempão que não fumava. Eu, que havia comprado duas carteiras de cigarro no bar, ofereci um dos meus, ele que se servisse, não ia mesmo fazer a mínima diferença àquela altura do campeonato. <br /><br />Ficamos ali, fumando e proseando, até que se ouviu barulho de gente que chegava. O morto apagou o cigarro no cinzeiro que lhe alcancei e voltou a se deitar no caixão. Cruzou as mãos ao peito e, antes de fechar os olhos para a eternidade, agradeceu-me a camaradagem e o maço de cigarros ainda fechado que coloquei no bolso de seu paletó de enterro. Sabia-se lá que marca fumavam no Outro Mundo. <br /><br />Foi enterrado com uma expressão de viva felicidade. <br /><br /><i>Escritora e jornalista gaúcha, Cíntia, 48 anos, é autora de, entre outros livros, Arquitetura do Arco-Íris (finalista dos Prêmios Portugal Telelcom e Jabuti, 2005)</i><br /><br /><b>por Armindo Trevisan</b><br /><br />Nunca se deve imaginar um defunto como uma desconcertante criatura. O defunto é um vivo que se esqueceu de viver. Tão logo o acondicionam num ataúde, assume poses irreconciliáveis com suas atitudes anteriores. Se era um pândego, fica sério. Se era uma mundana, junta as mãos sobre o peito. Se era um político, revela as primeiras intenções de suas segundas intenções. Quando morri, esforcei-me por não fechar os olhos. Já fora informado de que alguns defuntos eram velados com os olhos abertos. Pude assistir ao meu velório, um velório sem defunto, já que eu estava e não estava no caixão. Noutras palavras, coçava-me, e ninguém o percebia. Ignorado pelos circunstantes (que bebiam café e lanchavam nas cercanias), não precisei comer toco de vela, nem trocar sorrisos amarelos com ninguém. Prevenira de que não me velassem à noite. Para saber, pois, que eu estava realmente morto, bastava-me ver a cara dos presentes. Suas lágrimas eram maravilhosamente falsas. Diante disso, chorei com pena deles. Acho que isso me garantiu o sepultamento. Isto é: escapei à cremação porque: na última hora, na hora H, um neném chorou. Os meus entes queridos lembraram-se da criança que eu fora - uma criança realmente amorosa! <br /><br /><i>Poeta, professor e crítico de arte, doutor em Estética pela Universidade de Friburgo (Suíça), autor de, entre outros livros, O Rosto de Cristo (2003). Acaba de publicar o livro Mario Quintana Desconhecido</i><br /><br /><b>por Ivana Arruda Leite</b> <br /><br />Foi então que o ex-defunto perguntou-me com seus olhões recém-abertos: "Está servido?". Percebendo que o homem estava a fim de conversa, resolvi matar minha curiosidade: "Amigo, você que esteve na outra margem, me responde: como são as coisas do lado de lá?". Ao que ele respondeu com visível desagrado: "Mário, essa história de imortalidade é um engodo. O que há é a mesma paisagem, com os mesmos burros e as mesmas vacas pastando". Abracei-o comovido e convidei-o para uma cerveja, mas ele disse que estava tarde. <br /><br />Escritora e socióloga. Paulista de Araçatuba, Ivana Arruda Leite, 55 anos, é autora de Histórias da Mulher do Fim do Século (1997) e Falo de Mulher (2002)<br /><br /><b>por Celso Gutfreind</b><br /><br />E foi bem aí que meu olhar em direção ao morto abalou, novamente, a calma daquele começo de eternidade. E disse uma verdade, pois os olhares não mentem, sobretudo para um morto entre velas roídas até o sabugo. A criatura, sem olhar, como é comum com defuntos, respondeu com palavras como se fosse um vivo: <br /><br />- Tens certeza ? <br /><br />Antes do fim da pergunta, ele se preparava para partir, já que tinha conquistado o raro direito de ir embora. Segurei-o por um instante infinitamente menor do que o tempo que agora lhe cabia: <br /><br />- Estou vivo; como posso ter alguma certeza nesta vida? <br /><br />Mortos raramente olham na cara, mas aquele defunto de araque me olhou. E me lançou ao dever de um vivo, o de encarar a verdade. Sim, eu o amava. Era isso o que o silêncio mortal de nossas vidas encobrira durante a vida toda. Foi isso o que eu, morto em vida, disse finalmente para aquele vivo em morte. <br /><br />A cena só não ficou ridícula, porque declarações de amor, diante da morte, tornam-se profundas, convincentes e originais. <br /><br />E, desde então, nunca mais fomos os mesmos. <br /><br /><i>Escritor, professor e psiquiatra gaúcho, Celso Gutfreind, 43 anos, é autor de 17 livros, entre infantis, ensaios e poesias. Tem doutorado e pós-doutorado em Psiquiatria Infantil pela Universidade de Paris</i><br /><br /><b>por Fabrício Carpinejar</b><br /><br />Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! Parecia um mendigo engolindo a barba junto. Não queria atrapalhar sua refeição. Não gosto de interromper uma solidão jantando. Mas o defunto começou a soluçar chamas, desesperadamente. Aproximei-me com medo de que eu estivesse morto. Afinal, quando um morto o cumprimenta, pode ser que ele esteja mais vivo do que você que não responde. Bati levemente em suas costas, para desentupi-lo de morte. Ele sorriu com cinismo: <br /><br />- Havia esquecido de fazer a refeição. <br /><br />Deitou de vez e, quando acreditava que era uma alucinação, teimou em sentar. A boca contorcia-se em careta, uma criança descobrindo um novo som. Encheu as bochechas e soltou com galhardia um imenso arroto, que ressoou no São Miguel e Almas. <br /><br />Saí gritando pelos corredores: <br /><br />- Fogo-fátuo, fogo-fátuo, fogo-fátuo. <br /><br /><i>Poeta e jornalista gaúcho, Fabrício Carpinejar, 33 anos, é autor de, entre outros livros, Terceira Sede (2001). Seu trabalho mais recente é o volume de crônicas O Amor Esquece de Começar (2006)</i><br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38698578</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/17/2006 09:34:04 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>ASSIS BRASIL ANTECIPÁ FRAGMENTOS DE SEU NOVO ROMANCE</b><br />Público terá chance de conhecer atmosfera do próximo livro do autor no "Entre nós..."<br /> <br /><img src="http://assisbrasil.org/laab.jpg"align=left>Leitores e fãs de <a href="http://laab.com.br ">Luiz Antonio de Assis Brasil</a>, autor de romances como "O Pintor de Retratos" e "A Margem Imóvel do Rio" (ambos da L&PM), poderão conhecer trechos de seu livro inédito nesta <b>segunda (19/6)</b>, às <b>19h30</b>, na <b>Livraria Cultura</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS).  O romancista fará  leitura em primeira mão da sua nova produção no "Entre nós...", série de debates mensais que apresento ao lado do jornalista Rodrigo Breunig. A entrada é franca. <br /> <br />Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, em 1945, onde reside atualmente. Traduzido na França e editado em Portugal, já teve mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros. Em 2005, recebeu o Prêmio Fato Literário pelos 20 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS. É Doutor em Letras e Pós-doutor em Literatura Açoriana (Universidade dos Açores), detentor de inúmeras premiações, entre eles o Portugal Telecom 2004, com "A Margem Imóvel do Rio", único romance classificado entre os três vencedores. Também recebeu o prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (1988); o Erico Verissimo (1988), pelo conjunto de sua obra, concedido por unanimidade da Câmara de Vereadores de Porto Alegre; o Açorianos de Literatura (1994/1995); Prêmio Pégaso de Literatura Latino-americana de Bogotá (1994); Prêmio Machado de Assis (2001), da Biblioteca Nacional; Livro do ano, pela Associação Gaúcha de Escritores (2004) e Prêmio Jabuti (2004). <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  A entrevista é aberta e conta com a participação do público.  <br /></title>
<description><![CDATA[<b>ASSIS BRASIL ANTECIPÁ FRAGMENTOS DE SEU NOVO ROMANCE</b><br />Público terá chance de conhecer atmosfera do próximo livro do autor no "Entre nós..."<br /> <br /><img src="http://assisbrasil.org/laab.jpg"align=left>Leitores e fãs de <a href="http://laab.com.br ">Luiz Antonio de Assis Brasil</a>, autor de romances como "O Pintor de Retratos" e "A Margem Imóvel do Rio" (ambos da L&PM), poderão conhecer trechos de seu livro inédito nesta <b>segunda (19/6)</b>, às <b>19h30</b>, na <b>Livraria Cultura</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS).  O romancista fará  leitura em primeira mão da sua nova produção no "Entre nós...", série de debates mensais que apresento ao lado do jornalista Rodrigo Breunig. A entrada é franca. <br /> <br />Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, em 1945, onde reside atualmente. Traduzido na França e editado em Portugal, já teve mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros. Em 2005, recebeu o Prêmio Fato Literário pelos 20 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS. É Doutor em Letras e Pós-doutor em Literatura Açoriana (Universidade dos Açores), detentor de inúmeras premiações, entre eles o Portugal Telecom 2004, com "A Margem Imóvel do Rio", único romance classificado entre os três vencedores. Também recebeu o prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (1988); o Erico Verissimo (1988), pelo conjunto de sua obra, concedido por unanimidade da Câmara de Vereadores de Porto Alegre; o Açorianos de Literatura (1994/1995); Prêmio Pégaso de Literatura Latino-americana de Bogotá (1994); Prêmio Machado de Assis (2001), da Biblioteca Nacional; Livro do ano, pela Associação Gaúcha de Escritores (2004) e Prêmio Jabuti (2004). <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  A entrevista é aberta e conta com a participação do público.  <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>ASSIS BRASIL ANTECIPÁ FRAGMENTOS DE SEU NOVO ROMANCE</b><br />Público terá chance de conhecer atmosfera do próximo livro do autor no "Entre nós..."<br /> <br /><img src="http://assisbrasil.org/laab.jpg"align=left>Leitores e fãs de <a href="http://laab.com.br ">Luiz Antonio de Assis Brasil</a>, autor de romances como "O Pintor de Retratos" e "A Margem Imóvel do Rio" (ambos da L&PM), poderão conhecer trechos de seu livro inédito nesta <b>segunda (19/6)</b>, às <b>19h30</b>, na <b>Livraria Cultura</b> (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS).  O romancista fará  leitura em primeira mão da sua nova produção no "Entre nós...", série de debates mensais que apresento ao lado do jornalista Rodrigo Breunig. A entrada é franca. <br /> <br />Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, em 1945, onde reside atualmente. Traduzido na França e editado em Portugal, já teve mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros. Em 2005, recebeu o Prêmio Fato Literário pelos 20 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS. É Doutor em Letras e Pós-doutor em Literatura Açoriana (Universidade dos Açores), detentor de inúmeras premiações, entre eles o Portugal Telecom 2004, com "A Margem Imóvel do Rio", único romance classificado entre os três vencedores. Também recebeu o prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (1988); o Erico Verissimo (1988), pelo conjunto de sua obra, concedido por unanimidade da Câmara de Vereadores de Porto Alegre; o Açorianos de Literatura (1994/1995); Prêmio Pégaso de Literatura Latino-americana de Bogotá (1994); Prêmio Machado de Assis (2001), da Biblioteca Nacional; Livro do ano, pela Associação Gaúcha de Escritores (2004) e Prêmio Jabuti (2004). <br /> <br />"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano.  A entrevista é aberta e conta com a participação do público.  <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38698559</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/17/2006 09:22:31 AM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A FRUTA INVENTOU O DESEJO.<br />SUA BOCA ME DESENHOU A FRUTA</b><br />Para a única Teresa de minha vida<br />Pintura de Bronzino<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bergerfoundation.ch/Jardin/images/rouge/IMG_SMALL44.jpg"><br /><br />Não desista Teresa, não desista da vida, mesmo que seja mais um dia nublado, com os pés da chuva doendo. Não desista, ainda que tenha trocado o sono pelo cansaço, que a distância ao quarto seja uma colméia exasperante de pássaros. Cansada de argumentar a seu favor. Cansada de defender seus pontos de vista. Cansada de explicar o que estava passeando em seus ouvidos. Cansada de ser vista como bruxa só porque pressente, ser vista como estranha porque se antecipa, ser vista diferente porque escreve, ser vista como perigosa porque ama sem a ênfase da recompensa. Cansada, cansada, cansada do excesso de sensibilidade, de fechar as cortinas para permanecer nua. Cansada de não adoecer porque, desde a infância, precisa justificar seu nascimento para os olhos azuis da mãe. Porque precisou se levantar cedo para ir à escola, para ir à igreja, para ir ao trabalho, para ir. E quando não ia, fugia. Fugia da ditadura, da resistência, do preconceito. Sempre havia um lugar para mantê-la fora de casa. O que é vício nos cala, o que é virtude também. Acenda as pedras. Cubra as rachaduras dos livros com cuspe e argila. As regras não são os limites. Desobedeça mais uma vez as normas. Faça de conta que não ouviu. <br /><br />O mar passa ao lado do sangue. Não desista, nade com um único braço, voe com uma única perna. Passe a manteiga nos telhados, a mão fica menos dura com a manteiga, a faca fica menos ofensiva. Não desista, seu tornozelo é uma ostra que desliza melhor do que os peixes. Não desista. Se há um pouco de sede, há raiva dentro do amor. Se há um pouco de fome, ainda lavará a boca do travo cinza da despedida. Não dê por encerrada a vida, não espere ser levada, use as unhas dos cabelos para não deixar seu lugar no mundo. Chore, mas não desista. Já bebeu a luz como vidro, já bebeu a luz como vinho, já bebeu a luz como vespas. Mas a luz ainda não a bebeu toda. Não desista, Teresa. Ontem não foi seu grande dia. Não deixe a cama tirar as medidas de seu vestido. Bebe o inverno dos armários, o inverno das gavetas, sua mãos estarão alisando as próprias costas. Aperte as cordas da guitarra, a guitarra tentou se matar cortando os pulsos. Vamos enfaixar as mãos da música e fazê-la dormir em nossos braços. A guitarra é uma criança mais bonita de tranças. Eu não sei fazer tranças, Teresa. <br /> <br />Não desista Teresa, a dor é anônima e não nos pertence, a dor assusta para nos proteger. Põe a língua no selo para mandar uma carta, amarre os sapatos do pacote, mas não vá. Eu não sei chegar em mim sem que esteja me esperando.<br /></title>
<description><![CDATA[<b>A FRUTA INVENTOU O DESEJO.<br />SUA BOCA ME DESENHOU A FRUTA</b><br />Para a única Teresa de minha vida<br />Pintura de Bronzino<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bergerfoundation.ch/Jardin/images/rouge/IMG_SMALL44.jpg"><br /><br />Não desista Teresa, não desista da vida, mesmo que seja mais um dia nublado, com os pés da chuva doendo. Não desista, ainda que tenha trocado o sono pelo cansaço, que a distância ao quarto seja uma colméia exasperante de pássaros. Cansada de argumentar a seu favor. Cansada de defender seus pontos de vista. Cansada de explicar o que estava passeando em seus ouvidos. Cansada de ser vista como bruxa só porque pressente, ser vista como estranha porque se antecipa, ser vista diferente porque escreve, ser vista como perigosa porque ama sem a ênfase da recompensa. Cansada, cansada, cansada do excesso de sensibilidade, de fechar as cortinas para permanecer nua. Cansada de não adoecer porque, desde a infância, precisa justificar seu nascimento para os olhos azuis da mãe. Porque precisou se levantar cedo para ir à escola, para ir à igreja, para ir ao trabalho, para ir. E quando não ia, fugia. Fugia da ditadura, da resistência, do preconceito. Sempre havia um lugar para mantê-la fora de casa. O que é vício nos cala, o que é virtude também. Acenda as pedras. Cubra as rachaduras dos livros com cuspe e argila. As regras não são os limites. Desobedeça mais uma vez as normas. Faça de conta que não ouviu. <br /><br />O mar passa ao lado do sangue. Não desista, nade com um único braço, voe com uma única perna. Passe a manteiga nos telhados, a mão fica menos dura com a manteiga, a faca fica menos ofensiva. Não desista, seu tornozelo é uma ostra que desliza melhor do que os peixes. Não desista. Se há um pouco de sede, há raiva dentro do amor. Se há um pouco de fome, ainda lavará a boca do travo cinza da despedida. Não dê por encerrada a vida, não espere ser levada, use as unhas dos cabelos para não deixar seu lugar no mundo. Chore, mas não desista. Já bebeu a luz como vidro, já bebeu a luz como vinho, já bebeu a luz como vespas. Mas a luz ainda não a bebeu toda. Não desista, Teresa. Ontem não foi seu grande dia. Não deixe a cama tirar as medidas de seu vestido. Bebe o inverno dos armários, o inverno das gavetas, sua mãos estarão alisando as próprias costas. Aperte as cordas da guitarra, a guitarra tentou se matar cortando os pulsos. Vamos enfaixar as mãos da música e fazê-la dormir em nossos braços. A guitarra é uma criança mais bonita de tranças. Eu não sei fazer tranças, Teresa. <br /> <br />Não desista Teresa, a dor é anônima e não nos pertence, a dor assusta para nos proteger. Põe a língua no selo para mandar uma carta, amarre os sapatos do pacote, mas não vá. Eu não sei chegar em mim sem que esteja me esperando.<br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A FRUTA INVENTOU O DESEJO.<br />SUA BOCA ME DESENHOU A FRUTA</b><br />Para a única Teresa de minha vida<br />Pintura de Bronzino<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.bergerfoundation.ch/Jardin/images/rouge/IMG_SMALL44.jpg"><br /><br />Não desista Teresa, não desista da vida, mesmo que seja mais um dia nublado, com os pés da chuva doendo. Não desista, ainda que tenha trocado o sono pelo cansaço, que a distância ao quarto seja uma colméia exasperante de pássaros. Cansada de argumentar a seu favor. Cansada de defender seus pontos de vista. Cansada de explicar o que estava passeando em seus ouvidos. Cansada de ser vista como bruxa só porque pressente, ser vista como estranha porque se antecipa, ser vista diferente porque escreve, ser vista como perigosa porque ama sem a ênfase da recompensa. Cansada, cansada, cansada do excesso de sensibilidade, de fechar as cortinas para permanecer nua. Cansada de não adoecer porque, desde a infância, precisa justificar seu nascimento para os olhos azuis da mãe. Porque precisou se levantar cedo para ir à escola, para ir à igreja, para ir ao trabalho, para ir. E quando não ia, fugia. Fugia da ditadura, da resistência, do preconceito. Sempre havia um lugar para mantê-la fora de casa. O que é vício nos cala, o que é virtude também. Acenda as pedras. Cubra as rachaduras dos livros com cuspe e argila. As regras não são os limites. Desobedeça mais uma vez as normas. Faça de conta que não ouviu. <br /><br />O mar passa ao lado do sangue. Não desista, nade com um único braço, voe com uma única perna. Passe a manteiga nos telhados, a mão fica menos dura com a manteiga, a faca fica menos ofensiva. Não desista, seu tornozelo é uma ostra que desliza melhor do que os peixes. Não desista. Se há um pouco de sede, há raiva dentro do amor. Se há um pouco de fome, ainda lavará a boca do travo cinza da despedida. Não dê por encerrada a vida, não espere ser levada, use as unhas dos cabelos para não deixar seu lugar no mundo. Chore, mas não desista. Já bebeu a luz como vidro, já bebeu a luz como vinho, já bebeu a luz como vespas. Mas a luz ainda não a bebeu toda. Não desista, Teresa. Ontem não foi seu grande dia. Não deixe a cama tirar as medidas de seu vestido. Bebe o inverno dos armários, o inverno das gavetas, sua mãos estarão alisando as próprias costas. Aperte as cordas da guitarra, a guitarra tentou se matar cortando os pulsos. Vamos enfaixar as mãos da música e fazê-la dormir em nossos braços. A guitarra é uma criança mais bonita de tranças. Eu não sei fazer tranças, Teresa. <br /> <br />Não desista Teresa, a dor é anônima e não nos pertence, a dor assusta para nos proteger. Põe a língua no selo para mandar uma carta, amarre os sapatos do pacote, mas não vá. Eu não sei chegar em mim sem que esteja me esperando.<br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38696213</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/16/2006 06:14:52 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CARA OU COROA?</b><br />Pintura de Stuart Davis<br />Do <b>Consultório Poético</b><br /><br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_139419.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><img src="http://www.ocma.net/img/large_current610_large_current461_Davis--Portrait-of-Man-sm.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br /><br />Gostaria muito de saber o que acontece com os homens depois de um certo tempo de relacionamento, por que se distanciam, esfriam desse jeito. Namoro um homem de 42 ano - eu tenho 26. No começo tudo era uma delícia, ele me dizia coisas que eu sempre sonhei em ouvir, me fazia sentir muito especial, amada de verdade. Faz três anos apenas que estamos juntos, e ele está diferente... Não diz mais as coisas que dizia, anda esquisito comigo. Quando ligo pra ele digo que sinto saudade, que o amo, mas ele parece que nem tá aí, logo desconversa ou então só resmunga um "eu também" do outro lado da linha. Outro dia vi na agenda dele (ele vende perfumes) o nome de uma mulher anotado com "bonitona" escrito do lado. Quis saber quem era e ele se enrolou todo. Primeiro disse que era uma coroa, que só tinha escrito aquilo porque ela se vestia bem e depois que ele saiu não lembrava mais o sobrenome dela. Mas no outro dia, disse que anotou aquilo pra fazer um agradinho, "puxar o saco" pra ver se ela comprava mais perfumes dele. O problema é que essa indiferença toda dele somada com esse tipo de coisa tá me deixando muito confusa, insegura e ciumenta. Já conversei com ele sobre isso, mas ele diz que eu sou boba, muito criança e que não preciso ter ciúme porque ele me ama. Já não sei mais como agir porque não quero pressioná-lo com perguntas, mas também não entendo esse afastamento dele. Obrigada pela tua atenção!" </i><br /><br />Olá, Lia<br /><br />Não acho que ele a está traindo, não seria absolutamente descarado a ponto de colocar na agenda "bonitona" ao lado de outro telefone. É amadorismo demais. Quando o homem trai, a última coisa que ele faz é deixar algum sinal por escrito. É lógico que a desculpa dele é esfarrapada. Mas a sinceridade costuma ser bem menos elaborada do que a mentira. Às vezes, a verdade é desengonçada. Não duvido que ele tenha escrito na frente da mulher para impressionar, elogiar e até garantir uma venda. Mas como namorado, nota-se que ele é um péssimo vendedor. <br /><br />O que me preocupa é o desinteresse geral, o desânimo estabelecido agora no namoro, e que é difícil interromper. Falta maturidade por parte dele para enfrentar o assunto. Coloca suas perguntas como suspeitas ou neurose, quando são indicativos consistentes da ausência de ternura. Ele não está mais a fim, acredita que não precisa se esforçar para conquistá-la, assim como ocorreu no início. Acostumou-se com a companhia. Concordo com seu receio: é irritante falar sozinha e receber um "eu também" para a maioria das declarações. Melhor é comprar um ursinho de pelúcia, que aquece e não atende celular nos melhores momentos. Seja dura, histérica e convincente. Seu parceiro não entenderá nada com o bom senso. <br /><br />Outra coisa: quando o homem diz que não precisa ter ciúme, você tem todos os motivos para sentir. Ele não está fazendo nada de errado, só que parece disposto a fazer. Já desligou a censura e o alarme do corpo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />   </title>
<description><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CARA OU COROA?</b><br />Pintura de Stuart Davis<br />Do <b>Consultório Poético</b><br /><br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_139419.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><img src="http://www.ocma.net/img/large_current610_large_current461_Davis--Portrait-of-Man-sm.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br /><br />Gostaria muito de saber o que acontece com os homens depois de um certo tempo de relacionamento, por que se distanciam, esfriam desse jeito. Namoro um homem de 42 ano - eu tenho 26. No começo tudo era uma delícia, ele me dizia coisas que eu sempre sonhei em ouvir, me fazia sentir muito especial, amada de verdade. Faz três anos apenas que estamos juntos, e ele está diferente... Não diz mais as coisas que dizia, anda esquisito comigo. Quando ligo pra ele digo que sinto saudade, que o amo, mas ele parece que nem tá aí, logo desconversa ou então só resmunga um "eu também" do outro lado da linha. Outro dia vi na agenda dele (ele vende perfumes) o nome de uma mulher anotado com "bonitona" escrito do lado. Quis saber quem era e ele se enrolou todo. Primeiro disse que era uma coroa, que só tinha escrito aquilo porque ela se vestia bem e depois que ele saiu não lembrava mais o sobrenome dela. Mas no outro dia, disse que anotou aquilo pra fazer um agradinho, "puxar o saco" pra ver se ela comprava mais perfumes dele. O problema é que essa indiferença toda dele somada com esse tipo de coisa tá me deixando muito confusa, insegura e ciumenta. Já conversei com ele sobre isso, mas ele diz que eu sou boba, muito criança e que não preciso ter ciúme porque ele me ama. Já não sei mais como agir porque não quero pressioná-lo com perguntas, mas também não entendo esse afastamento dele. Obrigada pela tua atenção!" </i><br /><br />Olá, Lia<br /><br />Não acho que ele a está traindo, não seria absolutamente descarado a ponto de colocar na agenda "bonitona" ao lado de outro telefone. É amadorismo demais. Quando o homem trai, a última coisa que ele faz é deixar algum sinal por escrito. É lógico que a desculpa dele é esfarrapada. Mas a sinceridade costuma ser bem menos elaborada do que a mentira. Às vezes, a verdade é desengonçada. Não duvido que ele tenha escrito na frente da mulher para impressionar, elogiar e até garantir uma venda. Mas como namorado, nota-se que ele é um péssimo vendedor. <br /><br />O que me preocupa é o desinteresse geral, o desânimo estabelecido agora no namoro, e que é difícil interromper. Falta maturidade por parte dele para enfrentar o assunto. Coloca suas perguntas como suspeitas ou neurose, quando são indicativos consistentes da ausência de ternura. Ele não está mais a fim, acredita que não precisa se esforçar para conquistá-la, assim como ocorreu no início. Acostumou-se com a companhia. Concordo com seu receio: é irritante falar sozinha e receber um "eu também" para a maioria das declarações. Melhor é comprar um ursinho de pelúcia, que aquece e não atende celular nos melhores momentos. Seja dura, histérica e convincente. Seu parceiro não entenderá nada com o bom senso. <br /><br />Outra coisa: quando o homem diz que não precisa ter ciúme, você tem todos os motivos para sentir. Ele não está fazendo nada de errado, só que parece disposto a fazer. Já desligou a censura e o alarme do corpo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />   ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<img src="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/imagem/consultorio.gif"><br /><br /><b>CARA OU COROA?</b><br />Pintura de Stuart Davis<br />Do <b>Consultório Poético</b><br /><br />Confira outras consultas no site da <a href="http://super.abril.com.br/super/colunas/consultorio/conteudo_139419.shtml">revista Superinteressante</a> <br /><br /><img src="http://www.ocma.net/img/large_current610_large_current461_Davis--Portrait-of-Man-sm.jpg"><br /><br /><i>"Olá, Fabrício<br /><br />Gostaria muito de saber o que acontece com os homens depois de um certo tempo de relacionamento, por que se distanciam, esfriam desse jeito. Namoro um homem de 42 ano - eu tenho 26. No começo tudo era uma delícia, ele me dizia coisas que eu sempre sonhei em ouvir, me fazia sentir muito especial, amada de verdade. Faz três anos apenas que estamos juntos, e ele está diferente... Não diz mais as coisas que dizia, anda esquisito comigo. Quando ligo pra ele digo que sinto saudade, que o amo, mas ele parece que nem tá aí, logo desconversa ou então só resmunga um "eu também" do outro lado da linha. Outro dia vi na agenda dele (ele vende perfumes) o nome de uma mulher anotado com "bonitona" escrito do lado. Quis saber quem era e ele se enrolou todo. Primeiro disse que era uma coroa, que só tinha escrito aquilo porque ela se vestia bem e depois que ele saiu não lembrava mais o sobrenome dela. Mas no outro dia, disse que anotou aquilo pra fazer um agradinho, "puxar o saco" pra ver se ela comprava mais perfumes dele. O problema é que essa indiferença toda dele somada com esse tipo de coisa tá me deixando muito confusa, insegura e ciumenta. Já conversei com ele sobre isso, mas ele diz que eu sou boba, muito criança e que não preciso ter ciúme porque ele me ama. Já não sei mais como agir porque não quero pressioná-lo com perguntas, mas também não entendo esse afastamento dele. Obrigada pela tua atenção!" </i><br /><br />Olá, Lia<br /><br />Não acho que ele a está traindo, não seria absolutamente descarado a ponto de colocar na agenda "bonitona" ao lado de outro telefone. É amadorismo demais. Quando o homem trai, a última coisa que ele faz é deixar algum sinal por escrito. É lógico que a desculpa dele é esfarrapada. Mas a sinceridade costuma ser bem menos elaborada do que a mentira. Às vezes, a verdade é desengonçada. Não duvido que ele tenha escrito na frente da mulher para impressionar, elogiar e até garantir uma venda. Mas como namorado, nota-se que ele é um péssimo vendedor. <br /><br />O que me preocupa é o desinteresse geral, o desânimo estabelecido agora no namoro, e que é difícil interromper. Falta maturidade por parte dele para enfrentar o assunto. Coloca suas perguntas como suspeitas ou neurose, quando são indicativos consistentes da ausência de ternura. Ele não está mais a fim, acredita que não precisa se esforçar para conquistá-la, assim como ocorreu no início. Acostumou-se com a companhia. Concordo com seu receio: é irritante falar sozinha e receber um "eu também" para a maioria das declarações. Melhor é comprar um ursinho de pelúcia, que aquece e não atende celular nos melhores momentos. Seja dura, histérica e convincente. Seu parceiro não entenderá nada com o bom senso. <br /><br />Outra coisa: quando o homem diz que não precisa ter ciúme, você tem todos os motivos para sentir. Ele não está fazendo nada de errado, só que parece disposto a fazer. Já desligou a censura e o alarme do corpo. <br /><br /><i>Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br</i><br />   ]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38694952</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/15/2006 09:46:17 PM</pubDate>
</item>

<item>
<title><b>A GAIOLA E AS FLORES</b><br />Pintura de Magritte<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.viaggimagazine.it/IMG/jpg/magritte.jpg"><br /><br />Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular.  Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados. <br /><br />Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras.<br /><br />Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido.<br /><br />Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte. <br /><br />Ao chegar em casa,  abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra. <br /><br />O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura. <br /><br />Suas raízes são as asas. <br /><br />Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação. <br /></title>
<description><![CDATA[<b>A GAIOLA E AS FLORES</b><br />Pintura de Magritte<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.viaggimagazine.it/IMG/jpg/magritte.jpg"><br /><br />Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular.  Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados. <br /><br />Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras.<br /><br />Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido.<br /><br />Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte. <br /><br />Ao chegar em casa,  abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra. <br /><br />O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura. <br /><br />Suas raízes são as asas. <br /><br />Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação. <br />]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<b>A GAIOLA E AS FLORES</b><br />Pintura de Magritte<br /><br /><b>Fabrício Carpinejar</b><br /><br /><img src="http://www.viaggimagazine.it/IMG/jpg/magritte.jpg"><br /><br />Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular.  Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados. <br /><br />Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras.<br /><br />Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido.<br /><br />Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte. <br /><br />Ao chegar em casa,  abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra. <br /><br />O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura. <br /><br />Suas raízes são as asas. <br /><br />Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação. <br />]]></content:encoded>
<author>carpinejar@terra.com.br (Fabro)</author>
<guid>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html#38683783</guid>
<link>http://carpinejar.blogger.com.br/2006_06_01_archive.html</link>
<pubDate>6/12/2006 09:04:50 PM</pubDate>
</item>

</channel>
</rss>

