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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Agosto 31, 2003

Era um Natal chuvoso, não havíamos preparado nada, presépios, árvore ou luzinhas nas janelas. Uma residência no inverno em pleno verão. Escura e discreta diante da vizinhança barulhenta e dos fogos de artifício. Minha mãe estava doente. Tudo para dar errado. Tinha uns oito a nove anos, não me lembro bem. O pai havia se separado e partiu para uma viagem sem previsão de retorno. A memória guarda o essencial e elimina as datas. A memória é também uma espécie de imaginação. Sempre que a casa desanimava, eu e meus irmãos encontrávamos uma força de nossa própria infância. Uma coragem que pouco conhecíamos. Uma coragem adulta que os adultos esquecem por indiferença ao mundo. Decidimos fazer a festa para a mãe, já que todos os anos ela havia preparado nosso contentamento. Nem aí para o Papai Noel, brinquedos e sua promessa de telhas castigadas. Arrumamos a mesa, colocamos velas, nozes, compramos panetone no mercado e um chocolate divido em barras. Ela estava triste e não perguntamos. Nossa educação não permite perguntar no momento em que a sensibilidade sabe a resposta. Seu cansaço agravava o rosto. Demos um banho nela, escolhemos sua roupa. Colocamos em seu pescoço o melhor colar. Ampliamos seus olhos com as nossas bocas. Aos poucos, ela recuperava o riso, o tom. O mesmo riso de quando ela me buscava na escola, surpresa com o ventre amadurecido em filho. Cantamos a noite inteira. Se faço silêncio hoje, ainda escuto nossas vozes misturadas ao barulho dos copos. A gritaria incontida, o abraço interminável como um corredor de arbustos. Mesmo sem presentes, naquele Natal, aprendi que não precisamos de muito para celebrar. Basta improvisar com o que somos, não com o que temos.
3:31 PM :: Comentários:


Sábado, Agosto 30, 2003

Da série Nunca vi nada igual:









A feição envelheceu
com unidade.
Até os óculos
acompanharam.















10:15 AM :: Comentários:

Deu no jornal Correio do Povo, Folha da Tarde, sábado (30/08/03):
Carpinejando pelos campos do Senhor

Com a antologia 'Caixa de Sapatos' (Cia. das Letras), o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar resguarda sua nuvem no Olimpo poético tropical. Confira ainda obras de Marco Lucchesi, Luciano Fialkowski e Sérgio Capparelli, que se destacam no caldeirão poético do país. Todo o Brasil carpineja, ou quer carpinejar, como prova a atual ebulição do gênero. 'Caixa de Sapatos' é a reunião dos quatro volumes publicados por Carpinejar (filho de Maria Carpi e Carlos Nejar), um mergulho no passado e no futuro do autor, que se joga fundo na persona do filho ainda muito influenciado pelos pais.

'Sphera' (Record), de Lucchesi, exibe a poesia depurada de um autor que revela um imaginário marginal estranho e belo. 'A Revolução Silenciosa' (AGE) é a primeira coletânea de poemas do psicanalista Fialkowski, cujo tema são os encantos e os desencantos da vida, a partir da infância, amor ou paixão, revelando ainda um ângulo erótico, bastante sensual.

A L&PM lança '11 Poemas para Crianças', de Capparelli, com ilustrações e projeto gráfico de Ana Cláudia Gruszinski. A obra comemora o aniversário de 20 anos da edição de 'Boi da Cara Preta', seu primeiro livro de poemas infantis. São dez capítulos abordando temas relevantes do universo infantil, como animais, casas, cidades, jogos, música, dias e noites.

Na ala feminina, confira a poesia de Maria Carpi e Yêda Schmaltz. Prado é uma autora com autocrítica tão forte que, mesmo escrevendo poesia desde os 14 anos, só foi publicá-las a partir de 1976. O universo da emoção e a religiosidade são seus temas; seu livro 'Bagagem' (Record) teve edição recomendada por um entusiasmado Carlos Drummond de Andrade. 'A Força de Não Ter Força' (Escrituras), da premiada Carpi, demorou 23 anos para ser concluído e mantém seu tema persistente, o amor, dividido em três partes. A primeira, 'Do Amado e do Não Amado'; depois, 'A Vertigem sem Abismo'; e 'Elegias à Vastidão de um Epílogo'.

Falecida em maio último, Yêda Schmaltz escreveu 'Urucum e Alfenis', que reúne seus melhores poemas. A autora agora é nome de um concurso nacional de poesia. Pela Ática, confira 'A Teus Pés', de Ana Cristina César, e, pela Ediplay, 'Trechos da Vida', de Nelsi Prestes de Matos. Textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário criam o jogo poético de Ana Cristina, uma autora na vanguarda de seu tempo. Na sua obra, Nelsi apresenta o leitor a uma pesquisa histórico-poética, retratando a vida e a obra de Euclydes da Cunha e o surgimento do município de Sapucaia do Sul.


10:12 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 29, 2003

Bola preta: Neste sábado (30/8), às 13h, o quadro Conficções da TV Unisinos apresenta uma entrevista com o escritor Sérgio Faraco, autor de Lágrimas na chuva (leia matéria abaixo), prosseguindo o quadro de conversas com autores fora do estúdio, em lugares pouco convencionais. O marco escolhido dessa vez foi numa mesa de sinuca em sua casa no bairro Ipanema. Eu tinha até a esperança de não fazer feio na partida, mas demonstrei que sou um amador que não conhece direito nem as regras oficiais do jogo. Errei feio as tacadas, assisti mais ao jogo do que participei, aprendi muito com a sabedoria discreta do ficcionista, que não costuma dar depoimentos à televisão. Convenhamos: perder para Faraco é uma espécie de vitória. Com direção de Daniel Pedroso e imagens de Denise Tassi, o programa é transmitido dentro do Uni News, no canal 30 UHF no Vale do Sinos e também no sistema da NET em Novo Hamburgo.



8:30 AM :: Comentários:

Uma estadia no inferno russo

Lágrimas na chuva (LP&M, 171 páginas), eleito o melhor livro de 2002 pelo jornal Zero Hora, é um breviário doloroso de dois anos (1963-1965) de Sergio Faraco na União Soviética, onde cursou o Instituto Internacional de Ciências Sociais, de Moscou. Poderia ser catalogada como uma curiosidade o fato de um dos melhores contistas brasileiros, autor de Rondas de escárnio e loucura, se propor a fazer uma biografia. Mas não foi uma extravagância. A obra demorou trinta e cinco anos para ser externada. O escritor relutou em transpor suas experiências, ensaiou o início várias vezes, até que aceitou publicar capítulos semanais no jornal A Notícia, de São Luís Gonzaga. O compromisso semanal o obrigou a disciplinar as recordações. A demora também ganhou um maior sentido com a frase de personagem de Juan José Morosoli, que reluz como epígrafe na narrativa: "as viagens só começam depois que a gente volta". Na literatura, os desembarques demoram a acontecer. Volta-se o corpo, mas não as bagagens. O livro retrata o perfeito caso de extravio de pertences.

Faraco é filho da serenidade e não faz outra coisa senão deixar a narração a cargo dos próprios acontecimentos. Ele torna-se um espectador silencioso de seu percurso. Tudo é posto no devido lugar, cada fraseado, sem excessos literários, fluxo desordenado de consciência e achaques de estilo. Conta-se o que se ouviu, ainda que os pensamentos queiram opinar. A escrita fecha a letra em linha seca e reta, impiedosa como cortes de estilete em papel grosso. Os riscos ao drama folhetinesco eram enormes. A história oferecia elementos para chorar ritmado. O que se encontra é a maturidade objetiva e a contenção de quem não faz juízos morais ou recrimina culpados (e motivos não faltavam para isso). O enredo mostra o convite aceito de um jovem escritor, aos 24 anos, para estudar na União Soviética, em 1963. A provável aventura desemboca em uma tragédia. Simpatizante do comunismo, o rapaz está disposto a conhecer o mundo e juntar currículo, atendendo a avidez de seu futuro em aberto. A viagem acontece no momento errado do jeito errado. Lá chegando, no frio russo, entre o romance com Nina e o aprendizado áspero da língua, descobre que o regime não admite nenhum desvio e discordância. Ocorre o aniquilamento da individualidade em nome de uma hipnose coletiva. A ironia é que o protagonista passa a ser denunciado pelos colegas brasileiros e termina em uma clínica psiquiátrica para correção de comportamento. Voltar ao Brasil é quase impossível, já que começava um regime militar no país e ele carregava o antecedente de uma viagem à URSS. Estava definitivamente exilado entre dois mundos, sendo que num deles seria visto como comunista e no outro, como anti-comunista. Nenhuma das paragens o permitia existir.

Apesar da ênfase memorialística, Lágrimas na chuva (o título é pop, inspirado em frase do filme Blade Runner) estabelece uma carga extra de fabulação e tensão ficcional. São confissões generosas, que não levam à amargura, e afirmativas, apesar do contexto de trevas e solidão. Revelam um alto grau de compreensão dos limites. Servem também como alerta ao totalitarismo que cresce na covardia moral individual. Talvez seja um livro feito para a memória, não da memória. Não é de se estranhar que grandes romances no país, como bem observou Luís Augusto Fischer, tenham essa ligação uterina com a evocação das lembranças, seja contemporaneamente com Carlos Heitor Cony (Quase memória), seja em outras eras com Raul Pompéia (O Ateneu). O visionário memorialista mineiro, Pedro Nava, completou o quebra-cabeça sobre as diferenças entre o vivido e o inventado. A peça que faltava está em seu terceiro volume autobiográfico, intitulado Chão de ferro: "Que é a verdade? É com essa pergunta que entro nesta fase de minhas memórias, fase tão irreal e mágica e adolescente como se tivesse sido inventada e não vivida. Se eu fosse historiador, tudo se resolveria. Se ficcionista, também. A questão é que o memorialista é a forma anfíbia dos dois e ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação". Nesse sentido, Lágrimas na chuva é um romance real. O que vale é o impacto psicológico que proporciona. Se a emoção não serve ao historiador, ao ficcionista é tudo. Faraco fez ficção da realidade. O tempo virou engenho da memória. O escritor encontrou a sua verdade, diferente de todas as outras verdades e, portanto, tornou possível e suportável a vida, que nunca dá mesmo maiores explicações.

8:27 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 28, 2003


Mulheres com sobrancelhas grossas me passam um ar de tristeza impossível. Frida Kahlo marcou meu jeito de ver. Uma beleza selvagem, súplica, ardor adotivo, vento de dia que já é uma espécie de noite.















8:25 AM :: Comentários:

Jogo cartas e dominó apenas na praia. A infância combina mais com o mar do que com nossa idade.
8:23 AM :: Comentários:

Metade do que vivo é imaginação
A outra metade é conseqüência dela.

8:22 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 27, 2003

Do lado esquerdo: Morei durante muito tempo, mais tempo do que o tempo, ao lado de um terreno baldio. O sonho de minha mãe era transformá-lo em campo de futebol. Meu sonho consistia que ele nunca fosse tocado. Um muro baixo o separava de minha janela. Eu podia pular direto para o matagal e fazer minha inspeção com facão de cana que recebi de presente do avô. Fugia da sesta, colocando antes travesseiros na cama em meu lugar. Havia até uma bananeira que funcionava generosamente como escada para descer. O terreno baldio me influenciou para a poesia. Meu pátio proibido. Uma floresta enferrujada. Eu adivinhava quando um bicho morria pela ronda baixa dos urubus. Todos os gatos do bairro padeciam naquele chão. Posso dizer que serviu como cemitério clandestino de felinos. Sete mortes dentro de cada saco de lixo. O cheiro insuportável cerrava as venezianas. Os vizinhos jogavam fora o que temiam, o que não prestava, o que denunciava intimidade, e eu fuçava, sem medo do contágio das lembranças que não eram minhas nem mais dos outros. Encontrei uma mala velha com uma centena de pentes novos dentro. Não entendi o que eles faziam ali. Não entender é próprio do terreno baldio. Já colei farelos de cartas de amantes e achei livros de sacanagem. Senti excitação pouco entendendo o que fazer com ela na infância. Conservei as imagens para amar depois. O terreno baldio fez meu rosto se inclinar definitivamente para o lado esquerdo. Preparei brinquedos a partir dos escombros de bosque. Roupas femininas arremessadas da calçada cobriram um pessegueiro durante muito tempo, mais tempo do que o tempo. A árvore germinou os panos e ninguém percebeu a diferença.
9:34 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 26, 2003

Deu no jornal VS, quarta (20/08), Opinião:
Poesia em Carpinejar
Wagner Coriolano de Abreu*

O poeta e a poética se misturam em Carpinejar, a exemplo da boa poesia de todos os tempos. Em seu trabalho com as palavras, Carpinejar mostra muito domínio da arte de fazer poesia. A prova primeira já aparece em seu nome de escritor, a mistura de duas cores, Carpi e Nejar, na formação de uma terceira tonalidade.
Do neologismo Carpinejar, o termo mais próximo é carpintejar, verbo intransitivo que significa ¿trabalhar como carpinteiro¿. Por sua vez, carpinteiro é o operário que trabalha em madeiras e especialmente na construção de carros ou madeiramentos, ou o carcoma, bicho que rói a madeira. Em teatro, se usa chamar de carpinteiro aquele que arma o cenário no palco. Assim, o leitor encontra um estatuto de poeta a partir da etimologia: o poeta é como roedor das carnes da palavra e como criador de cenários para a manifestação de fantasmas, que passam a existir apenas no palco do poema.
Dos fantasmas de Fabrício, a origem e a velhice chamam logo a atenção. O fantasma da origem ronda o longo poema Um Terno de Pássaros ao Sul. Contudo, o poeta avisa de cara da natureza ficcional de sua obra. Ainda que o poema esteja muito colado a fatores biográficos, não se pode cair na armadilha do confessional, sob o risco de perder a riqueza da arte presente. O fantasma da velhice aparece em Terceira Sede, o terceiro livro com o qual nos brinda. Ao transportar-se através da voz de um velho, o jovem poeta surpreende pela sensibilidade com que vê o mundo dos homens. A velhice, segundo o poeta, só trouxe coisas boas: a paciência e a narrativa estão entre elas.
Na flor da idade, o Fabrício tem a realização sui generis de ser poeta. Aliou-se aos princípios do fazer da poesia na possibilidade de roer as palavras dadas e na dimensão do seu plano de entendimento de mundo e pôs mãos à obra. Como as palavras não podem sozinhas armarem-se em unidades de sentido, pois há um ritmo que está para além delas e da própria circunstância de cada poeta, porque diz respeito ao tempo e à expansão do mundo, inventou a si mesmo como Carpinejar e poeta no pátio do pampa.

* Wagner Coriolano de Abreu
doutorando em teoria literária
professor de literatura e língua portuguesa.


7:02 PM :: Comentários:

Bossa Nova: Recomendo Desassombro (7 Letras, 116 páginas), do poeta carioca Eucanaã Ferraz, Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional. lançado em 2001 em Portugal e no ano seguinte no Brasil. "Beber as árvores do outro lado". A densidade de sua poética está no espaçamento de uma emoção da outra, na caligrafia oral, na mancha que esclarece. A perfeição aparece na impureza, no desconforto real do desejo, que nunca se dá por concluído. Ao longo do livro, não se tem certeza de onde colocar a alegria ou como terminá-la. A pequena euforia é expectativa, aguardar o "vazio da página seguinte". Desassombro extrai encanto da mais dura perda, confiando na transitoriedade para se revelar por inteiro. A beleza se despede na culminância. "Toda palavra é defeito", avisa. Em seguida, o autor diz: (as amendoeiras) "estão perfeitas como estão: erradas". Silviano Santiago acerta ao mencionar no prefácio a ligação do poeta com a bossa nova. A circularidade metafórica ajuda a manutenção do tom, do timbre baixo, sussurrado. O impulso não é dado para fora, porém para mais dentro da música, ilustrado nos movimentos de repetição (aliterações) em versos como "pérolas paradas, espantadas" e "cetim entre cigarras". A força desse conjunto de poemas pousa "na minúcia", no discreto ardor que se mastiga lentamente com os olhos até se esquecer a dor de ver.

"Pudesse um poema, um amor,
pudesse qualquer esperança
viver assim o engano:

beleza, beleza,
beleza,
mais nada."
(Desassombro)

10:56 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 25, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":



Nunca foi bom em matemática.
Morreu de cálculo renal.
















11:35 AM :: Comentários:

Da série "Nunca vi nada igual":

A professora me chamou
ao quadro negro.
Derrapei o vaso
da caligrafia.
As risadas contidas dos colegas
também eram de porcelana.









11:31 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 24, 2003

Nas mãos, tenho a mesma pressão dos pés quando deixei o ventre. Hoje chove, parto natural. As paredes dormem com a chuva (o sol é insônia). Silêncio morno, a voz se prolonga mesmo depois das palavras. A voz não depende mais das palavras. Falar sobre o tempo é a ignição da intimidade. Lembro que um senhor se aproximou em uma parada de ônibus e disse que estava muito frio. Concordei. E logo em seguida, falou que acabou de perder o neto. Gelei. A meteorologia funciona melhor do que qualquer abordagem. Em cartas, escritores costumavam comentar o tempo para perder a frieza. É como dizer onde o corpo começa. Sou de um tempo em que as pessoas batiam palmas para ver se havia alguém em casa. Nenhum som invasivo. Ó de casa.

9:57 AM :: Comentários:


Sábado, Agosto 23, 2003

É mais difícil arrastar uma pessoa desmaiada, morta, tudo é bem mais pesado. É necessário que tenha vida para conseguir carregar. Assim eu penso os livros.
10:03 PM :: Comentários:

Publico mensalmente poemas do meu inédito Cinco Marias na revista Vida Simples, da Superinteressante. Conduzida por Otávio Rodrigues, a revista é leve, inteligente e tentar tirar o melhor proveito do humor sem danificar o ambiente. É uma casa cheia de espíritos. A edição de agosto aborda yoga, pomares caseiros, a ecologista Vandana Shiva, entre outros temas.




10:02 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 22, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":

Nem eu sou meu discípulo.
Não suporto o próprio timbre.

9:40 AM :: Comentários:


Flutuante:
O programa Conficções apresenta neste sábado (23/8), às 13h, na TV Unisinos, uma entrevista com a poeta, cronista e romancista Martha Medeiros. Conversei com a autora no Flutuante, da Usina do Gasômetro, com o rio Guaíba fazendo ponta. Trata-se de mais uma seqüência da série que aborda a literatura em trânsito, a céu aberto, de uma maneira informal. O quadro do Uni News tem direção de Daniel Pedroso e imagens de Denise Tassi e é transmitido no canal 30 UHF no Vale do Sinos e também no sistema da NET em Novo Hamburgo (RS).

Em cada encontro, há uma locação diferente como trem e pedalinho. Martha Medeiros fala sobre sua primeira incursão no romance com Divã (Objetiva, 152 páginas, 2002), misto entre crônica e ficção, uma comédia de costumes que traz a catarse de Mercedes diante de seu psicanalista. Livro lírico sobre mulheres, não unicamente para mulheres, a personagem descobre que, quando tudo está muito certo, algo está errado. Com 40 anos, filhos e um casamento acomodado, tenta se investigar e derrubar as aparências e promessas já cumpridas. Uma de suas revelações: a felicidade não é sinônimo de estabilidade. O pior é que pode ser até antônimo.

Autora gaúcha de sucesso, com 12 títulos publicados, Martha Medeiros já vendeu mais de 80 mil exemplares (30 mil só com o Divã) e recebeu acolhida de grandes nomes como Millôr Fernandes e Caio Fernando Abreu. Entre suas obras, destacam-se: Strip-tease; Meia-Noite e Um Quarto; Geração Bivolt; Topless; Trem-Bala; Non-Stop e Cartas extraviadas e outros poemas.

Para colocar na geladeira:

Toda mulher romântica é uma idosa.
Deixo escorrer o rímel que não estou usando.
O silêncio não me deixa dormir.
Sobraram-lhe nove dedos sem aliança alguma.
Há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto.

(Divã)






9:08 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 21, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":

A brasa dorme
sempre com a chave
do lado de fora.

8:28 AM :: Comentários:

"Deus não imagina
o quanto existimos"


Ainda escuto que a poesia brasileira não se renova. Nego e provo. Recomendo As Horas do Mundo (97 páginas, Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, 2001), do jovem poeta baiano Henrique Wagner. O autor tem espontaneidade, expressão particular, pesando as próprias palavras como em feira de frutas num domingo. Desarticula o visto com uma forte rajada de pensamento. Ele se expõe para logo se esconder dentro do poema. Destaco pedras garimpadas do mar: "talvez eu seja só o que eu não digo" ou "penso que talvez não chegue a ser um momento esta unha". Os versos de Outono são exemplos da riqueza de se antecipar às expectativas. O final justifica o acúmulo de tensão da carta enviada aos pais, pouco interessados em saber das novidades, de como está o filho, se está feliz ou não, "querem apenas notícias do seu regresso".

8:21 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 20, 2003

Minha casa estava em reforma. Arrumar o apartamento, pintar, exigir que as salas sejam alçadas à perfeição é uma loucura. Sim, é uma briga que se entra por impulso mas que se pressente de saída de que iremos apanhar feio. É como enxergar um amigo em apuros, promovido a tênis de mesa de um bando, e não ter a escolha de não ajudar. O máximo que se pode fazer é dividir as agressões. Reformar a casa é prestar mais atenção ao que não foi arrumado do que naquilo que foi feito. Começam a surgir falhas e defeitos que não se percebia antes, que não estavam no orçamento, que não serão solucionados. A nova ordem muda também a vontade das coisas. O melhor proprietário é o esquecimento.
10:08 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 19, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":


Trocou um amor novo
por um velho,
o abraço descia ajustado
nas mangas.


7:44 PM :: Comentários:

Da série "Nunca vi nada igual":


A morte desobedece Deus em segredo.





7:42 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 18, 2003


Poema em prosa inédito que está na Inimigo Rumor n.º 14:
Assobio da âncora
Carpinejar

O rio baixava os olhos de vergonha: não sabia ler o alfabeto das aves. As estrelas nos fitavam com afinco, como se houvesse outros olhos além dos meus. Os vaga-lumes não acenderam o guizo. Os bois enviesaram as narinas. O nevoeiro aquecia o mundo. O bosque dos seios, sem saída. A cintura quebrada, a porta, comigo dentro. Não controlamos a fúria, baixando o escudo dos dentes. A espuma cobiçava teus cabelos, as tranças continuavam crescendo. A água é mais veloz no corpo da mulher. Os insetos de grave som corriam no varal dos ouvidos. Os pés sorrateiros, incansáveis, cavavam o tambor. Arrisquei tudo o que eu não era. O limo folheava os contornos da nuca. Do quadril ao pescoço, avançavas o fio elástico da foice. As unhas afundavam a pele ao rumor do osso. Eu cheirava ervas, musgo, urina do mato. Não havia consciência a sangrar naquele momento. Pálido, pão dormido. O relógio ficou cego às 23:30.

( Revista Inimigo Rumor, Parceria entre as editoras brasileiras Cosac & Naify e 7 Letras e a portuguesa Cotovia, 248 páginas. Coordenação de Carlito Azevedo. Junto ao volume, em formato "bolso", o leitor recebe uma edição bilíngüe de "O gueto", reunião de poemas da argentina Tamara Kamenszain)



8:37 AM :: Comentários:

Promoção relâmpago: todo guarda-sol é um guarda-chuva aposentado. Em Novo Hamburgo, participo na noite dessa segunda (18/8) da 21ª Feira do Livro. Farei palestra na Feevale, às 19h45. Uma chance de ver meu irmão gêmeo falando por mim.
8:34 AM :: Comentários:

ONDE BATE MAIS SOL: Maria Carpi, minha mãe, me alfabetizou duas vezes: a primeira me ensinando a ler o que estava escrito; a segunda, a ler o que não estava escrito. Hoje (18/8) ela está autografando seu novo livro A Força de não ter Força , às 19h, na Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre. Deixo um poema de sua obra e a matéria do jornal Zero Hora. Maria Carpi nunca termina de me ensinar.

Depois que te vi, vi que o dia
não era o dia, vi que o ar não
sustinha o ar. Vi que não via.

Para que não te vás, não movo
os lábios; para que não te vás,
não tremo as pálpebras; para

que não te vás, a respiração
é tênue, em quietude as plumas
do sangue a que não amanheça

nem anoiteça. E a água aguarde
regalada, absorta, embebendo-se
na própria boca. As coisas não

decifradas é onde bate mais sol.

(A Força de não ter Força)

Porto Alegre, 18 de agosto de 2003. Zero Hora, edição nº 13876

Literatura
A potência amorosa do verso
Poeta Maria Carpi autografa hoje seu sétimo livro, "A Força de Não Ter Força"

Livro que esperou 23 anos para ficar pronto, A Força de Não Ter Força é a obra que a poeta gaúcha Maria Carpi autografa hoje, às 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Country (Tulio de Rose, 80, fone 3028-4033). A sessão de autógrafos será antecedida por um sarau, com leitura de poemas feita pela própria Maria Carpi, acompanhada dos escritores Luiz Coronel e Jaime Vaz Brasil e do violão de Eduardo Castañera.

Sétima obra da autora, A Força de Não Ter Força (Escrituras, 112 páginas, R$ 20) reúne versos motivados pelo sentimento amoroso, tema que já se impunha desde sua estréia, com Os Gerais da Dor, de 1990. Dividida em três partes ou livros (Do Amado e do Não Amado, A Vertigem do Abismo e Elegias à Vastidão de um Epílogo), a obra foi publicada graças à insistência dos filhos Carla, Rodrigo, Miguel e Fabricio - este último também poeta. Explorando a sonoridade e as inversões semânticas, escapando do tom sentimentalista, o volume resulta numa verdadeira ode ao amor. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que assina a contracapa da obra, anota: "Aqui a linguagem manda mais do que o sangue do ser. O livro é belo".

Natural de Guaporé, professora, advogada e defensora pública, Maria já recebeu várias distinções literárias, como a da Associação Paulista dos Críticos de Arte, de 1990, na categoria Revelação, Menção Honrosa no Casa de las Américas, de Cuba, além de ter sido finalista do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 2001.

Saiba mais
A Força de Não Ter Força, de Maria Carpi
O QUE: lançamento de A Força de Não Ter Força, de Maria Carpi (Escrituras, 112 páginas, R$ 20)
QUANDO: hoje, às 19h
ONDE: Livraria Cultura do Bourbon Country (Tulio de Rose, 80, fone 3028-4033)
QUANTO: o livro custa R$ 20

8:23 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 17, 2003

Mar de permeio: fiz uma entrevista com a poeta Marly de Oliveira. Está no suplemento Rascunho.
8:31 PM :: Comentários:

Deu no jornal O Popular, caderno Magazine, de Goiânia (Goiás), domingo (17/8), uma reportagem sobre a renovação da poesia brasileira, de autoria de Rogério Borges. Confira.
10:19 AM :: Comentários:

Deu no jornal Diário do Nordeste, caderno Cultura, Fortaleza (Ceará), Domingo (17/08):
LITERATURA
Puxador de Sinos
Ruy Câmara*

Acaba de sair pela Companhia das Letras o quinto livro do jovem poeta Fabrício Carpinejar, cujo título, não menos estranho que os quatro anteriores, logo me tornou refém da própria curiosidade. Atento à originalidade da concepção gráfica, apropositou-se-me o azo de averiguar o seu conteúdo e, num virar de folha, descobri se tratar de uma antologia, ou melhor, de um livro-arte, portador de uma possante voz poética, das mais férteis na atualidade.

Em seu recente Caixa de Sapatos, Carpinejar reúne tudo o que julgava disperso nas obras anteriores: Solas do Sol (um canto de apego aos pampas gaúchos); Um Terno de Pássaros ao Sul (um acerto de contas com o vulto paterno); Terceira Sede (um longo tempo com o ´eu-essencial´); e pinça do seu festejado, Biografia de Uma Árvore, a seiva vital de uma poesia que clama pelo restabelecimento dos afetos perdidos.

Quem aos 30 anos de vida se torna antológico, merece, sem dúvida, a severidade de um juízo. Contudo, quando se tem vocação e gênio, o tempo matemático da criação não conta, pois se dilata num piscar de olhos e se contrai no despregar de uma folha morta, como vimos em Biografia de uma árvore. E que obra, autorizada pelos pássaros, pelas raízes e pelos frutos. São nove elegias em folhas apartadas por três blocos poéticos e um epílogo igualmente perturbador, intitulado, novíssimo testamento, no qual o poeta antecipa o ano 2045, dizendo: Não sei reconstituir os últimos dias de meu pai... Há muito não o via, viveu longe mesmo perto. Passou a vida costurando poemas em um terno usado. Morreu rindo, lembro que cobri seu rosto com o paletó de seus versos.

Fabrício Carpinejar não é um poeta naturalista como se presume pelos seus títulos, mas um puxador de sinos que sozinho conseguiu acordar toda a cúpula patricial da literatura brasileira com apenas quatro badaladas, já que esta última ainda não começou a estrondear. Compositor de uma poesia enxuta, refinada, potente e rarefeita na amplitude e no sentido, seus versos não coagulam em nenhum poema e suas metáforas escorrem como a seiva numa árvore golpeada.

Fui lançado cedo demais às cinzas.../ Minha conversão é pelo medo,/ orando de joelhos diante do revolver/ e o gatilho rodando próximo do tambor dos dentes. Derramado em Deus, junto meu desperdício. Aqui ele abre caminho para uma rebelião intimista sem consumar a tragédia planejada e acalma-se na inquietação do silêncio, tal uma folha que o vento descola, deixando a árvore sem esse ouvido de orvalho.

A mansuetude com que encara a morte, reflete bem o seu desapego formal às estéticas ensinadas e realça a superioridade amadurecida de um jovem que se deixa corromper pela pureza da infância. Nas raízes da árvore biografada ou no espaço simbólico de uma Caixa de Sapatos, morre aquilo que não posso conversar, porque depois de morto, tudo pode ser lido. Claro está que esses objetos simbolizam a idéia aflita de um poeta que não se liberta da suas próprias contingências. Parece que a contingência do ser (Carpinejar) que se incrusta à arvore e à caixa, é o enigma de uma idéia aflita que o liga às raízes que outrora nutriram sua infância entre dois grandes poetas: Carlos Nejar, seu pai, e Maria Carpi, sua mãe.

Contudo, ser herdeiro de uma dupla de bons poetas não implica ostentar um diploma de nobreza em nossas letras, mas, certamente, essa fusão cromossomial é o elo dramático de quem vivenciou, alguma vez, a impossibilidade da felicidade conjugal dos pais, um drama bem contemporâneo de todas as gerações, filhas do divórcio.

Carpinejar está condenado a não prestar contas na velhice, pois já deixou seu testamento poético em plena juventude. Na escola zombavam de minha pronúncia torta... Preparei a vingança pelas palavras. Os versos de polifonia dissonante, denotam que a sua poesia se presta no mínimo à excentricidade da linguagem. A sonoridade e a pulsação são as pancadas de uma consciência enraizada nos pampas gaúchos, onde o poeta, precocemente, se tornou póstumo, pois em São Leopoldo batizaram um importante prêmio literário com seu nome.

A árvore biografada, agora transfigurada em Caixa de Sapatos, é antes a semente germinada no solo fértil de uma mente que lavra, rega e aduba uma ousada experiência de linguagem. Nessa belíssima antologia, Carpinejar faz das suas publicações anteriores um desafio às cigarras de La Fontaine, cantando mais alto que todas. Descontextualizando o poema que brotou num momento anterior, faz o poema ressurgir como ocorre na esperada aparição de um pássaro sobre o fruto maduro. Nesse aspecto ele conserva intacta a sua primitividade, e não cai nas ciladas do tempo real. Aqui e ali o poeta desloca o tempo e dele se apropria como se o passado, o presente e o futuro fossem apenas uma elipse no seu pensamento. Meus pais estão no futuro, / ainda não nasceram./ Herdei os traços do meu filho. O recurso da imaginação transplantada para o objeto, Caixa de Sapatos, alude, de algum modo, a idéia de Ponge, para quem o homem não pode fugir de si próprio.

As cascas ou a infância que o poeta guardou na Caixa de Sapatos, podem ser a noção de lugar e de tempo, mas antes é a metáfora que ele arrepanha para alcançar o ser de uma coisa que está ali, e que só pode ser compreendida quando o ser entra em contato com a coisa mesma, ou seja, quando o ser pode sentir a súplica muda da coisa. A Caixa transmite o que a árvore sente, portanto revela o estado do ser que a coisa representa para o poeta, como a castanheira de Sartre, em A Náusea.

O poeta ousa questionar Deus como quem consumiu a linguagem para expressar todo o masoquismo humano. Deus, quem é o teu Deus? A quem estavas suplicando? De um salto, numa distração do leitor, o verso alcança a incógnita maior do pensamento teológico e cai prostrado como a síntese máxima do pensamento dogmático. Esse questionamento filosófico, a mudança de tom, as alusões imagéticas que esvoaçam como folhas mortas, podem arremessar a inocência do leitor contra o outono das vertigens.

Caixa de Sapatos, enquanto metáfora do ser, vem lembrar, imperiosamente, que na vida do ser (Carpinejar) quase tudo é linguagem. Sua linguagem é também uma proteção contra as coisas replicantes da automatização da idéia, e se presta, inclusive, de antioxidante para o enferrujado dogmatismo. Nesse aspecto Carpinejar está próximo a ultrapassar seus mestres.

É um poeta sem complexos, que não se apieda nem de si próprio: Quando pequeno, eu era feio como uma assombração. Falava torto, sem o erre. Recebi tudo o que é apelido. Meu irmão, Rodrigo, me convenceu a enterrar meus bonecos no jardim. Prometeu que eles voltariam com cabelos compridos e unhas afiadas, e desafia-nos a reconhecê-lo segundo a descrição de um certo Dr. Ossian: seu rosto tem o formato de um pássaro, o nariz acentuado, a barba ruiva, queimada pelo vento e um olhar de louco.

Ele, que teve a infância assistida pelas parreiras, entendeu muito precocemente que sabedoria e conhecimento são coisas distintas na formação de um poeta de ofício. Entender o que é distinto, é sabedoria, e tem a ver com a experiência vivida, com a forma de entender as coisas em relação ao mundo.

A oposição arte X vida encontrada em Rimbaud pode ser percebida em: ...Dentro de minha mulher/ esquecia de ouvir o desabamento... Seu sentimento não está destituído de pessimismo. É um pessimismo convincente, mas sem ênfase. Admiro os poetas pessimistas porque no mundo há sangue suficiente derramando-se das artérias do cotidiano e isso é motivo sobrante para uma atitude pessimista.

Carpinejar vive a experiência poética até nos objetos, mas não se prende a sua utilidade. Conversando com as roupas do pai no armário da infância, ele quer buscar um confidente fora da consciência. Nas esquinas da sua infância ele, temendo se extraviar, toma o braço da cerração para atravessar a rua. Seu universo real é um espaço fragmentário, como o dos vitrais, onde a luz se estilhaça na passagem, no meio dos seus pesadelos.

Só um poeta de ofício sabe que o impulso genesíaco da poesia ocorre no preciso instante em que um sentimento salta do íntimo para se materializar nas aflições do amanhã ou do jamais. Biografar uma árvore com a autorização dos pássaros, é a metáfora de quem aprendeu com os pássaros da infância a escolher as melhores maçãs pelo assédio dos insetos. A alusão aos pássaros é a noção de liberdade total da arte-poética de Carpinejar. Essa consciência libertária infunde no leitor a necessidade de prender em gaiolas os livros de leitura avoada, ou ainda, de seguir quem está perdido entre as relíquias poéticas de uma obra definitiva e consagradora que é Caixa de Sapatos.


* Poeta, ficcionista dramaturgo e sociólogo, autor de Cantos de Outono, o romance da vida de Lautréamont

10:13 AM :: Comentários:


Sábado, Agosto 16, 2003

Minuto de silêncio: Morreu Haroldo de Campos, uma galáxia.

já fiz de tudo com as palavras



agora eu quero fazer de nada


(Minima moralia, de Educação dos cinco sentidos)

6:41 PM :: Comentários:

Ricardo Silvestrin
Deu no jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Sábado (16/08) :

O carpinejarismo
Ricardo Silvestrin

Estamos vivendo o auge do carpinejarismo. Na próxima segunda, tem um envento importante carpinejarista: o lançamento do livro novo de Maria Carpi, A Força de não Ter Força. Ela é mãe do poeta Fabrício Carpinejar. O pai do Fabrício é o Carlos Nejar, que há anos faz parte da Academia Brasileira de Letras. Lançou há pouco uma importante reunião de sua obra. Fabrício, depois de quatro livros de sucesso, lança agora uma antologia pela Cia. das Letras, chamada Caixa de Sapatos.

Nejar seguia sua vida e sua poesia, morando no Espírito Santo. Maria Carpi vivia em Porto Alegre, lançando também seus livros de tempos em tempos. Até que o filho começou a lançar um livro após o outro, cada um fazendo mais barulho e tendo mais repercussão. Uniu os pais no seu nome e na sua poesia. E recolocou nas cabeças das pessoas o interesse pela poesia, dele, do pai e da mãe. Cada vez em que se fala de Carpinejar também se fala Carpi e Nejar.

O carpinejarismo tem alguns pontos em comum, aprendidos num provável convívio familiar. Como um pai ou uma mãe podem ensinar poesia para o seu filho? Drummond dizia no poema Procura da Poesia: "chega mais perto e contempla as palavras / cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra". Teria sido então esse o grande ensinamento desse pai e dessa mãe? Enquanto os outros pais ensinam a atravessar a rua, a dar bom-dia, a dizer obrigado, Carlos e Maria ensinaram Fabrício a contemplar as palavras?

Uma vez fui com a Maria Carpi dizer uns poemas para os operários da Albarus. Depois da apresentação, comentei com a poeta que antes eu estava preocupado se haveria ou não comunicação. Fiquei feliz por termos conseguido passar uma hora lendo nossos textos para eles, que ouviram com muito interesse. Carpi disse que comunicação em poesia não é como casamento. Não precisa ser total. Alguma coisa comunica.

Essa afirmação dela é, para mim, definidora de uma vertente da história da poesia. Mais do que isso, é um traço fundamental que une os três, Carpi, Nejar e Carpinejar. Há uma forte predominância de imagens, de metáforas. O sentido se entremostra, some por um momento e aparece ali adiante. Há uma gravidade que ajuda o ar de penumbra. Em Drummond, por exemplo, há gravidade, profundidade, mas há também mais clareza, o sentido está mais à mão. Em Quintana, também. O carpinejarismo vem por outros caminhos. E como vem em bloco, em trio, também coloca na poesia brasileira contemporânea a afirmação de uma estética.

De uma poesia menos coloquial, menos cotidiana e mais filosófica, mais grave.

Os que adoram contrapor uma coisa à outra logo se arvoram a valorar, a dizer que isso é mais do que aquilo. Eu prefiro receber essa família de poetas na minha sala, assim como recebo a família dos poetas Paulo Leminski, Alice Ruiz e a filha deles, Estrela Ruiz Leminski, que logo vai estrear com seu primeiro livro. Esse último trio é daquela poesia mais clara, mais comunicativa. Descanso do claro no escuro. E vice-versa.


9:44 AM :: Comentários:

Deu no Estado de São Paulo, Caderno 2, Sábado (16/08):

Carpinejar e a memória do presente
O jovem escritor gaúcho publica a antologia de poemas 'Caixa de Sapatos'
Moacir Amâncio

Carpinejar: "O livro exibe uma memória diferente da do autor"

Fabrício, filho da poetisa Maria Carpi e do poeta Carlos Nejar, também é poeta a partir do nome que seus pais lhe deram. Fabrício quer dizer aquele que faz, ou seja, um sinônimo para poeta. Ao publicar seus livros, juntou os sobrenomes italiano e árabe-libanês chegando ao Carpinejar. Nejar quer dizer carpinteiro. É o carpir do carpinteiro, eu moro numa metáfora, comenta o escritor, que acaba de publicar uma antologia a partir dos quatro volumes de poemas lançados até agora. Trata-se de Caixa de Sapatos (Cia das Letras, 80 págs., R$ 24).
Quem segue suas publicações sabe que Fabrício, embora tenha assumido o ofício dos pais, não é uma redundância. Abriu caminho próprio na literatura, sem intenção de apagar ingenuamente um passado que ele transforma em busca de novas metas poéticas e existenciais. Nascido em 1972 - à primeira vista com tão pouco passado -, ele faz da memória o seu tema, mas sem se submeter a ela, abrindo uma brecha nas recordações para, por exemplo, trabalhar experiências futuras, do que nunca ocorrerá mas existe: Meus pais estão no futuro, / ainda não nasceram. / Nascer antes pouco é / diante de quem parte primeiro. / Herdei os traços de meu filho. É o poeta fundando o presente.
Como ele explica a coletânea: O livro exibe uma memória diferente da do autor. Uma seleção própria de lembranças. Sua memória é composta de detalhes, de indícios, de pequenos versos, não se prendendo ao quadro completo. A antologia são os gestos ínfimos que explicam e justificam a intimidade de uma existência. Minha vida, assim como minha biblioteca, é feita na desordem alfabética. Procuro um autor e encontro outro. Sempre que me procuro, acho um novo Fabrício.
E como sugerem os poemas das páginas 31 e 35, entre os mais fortes do volume. Na verdade formam um só texto: Esses versos estão interligados, gêmeos da mesma chama, como todo o livro. Tematizam a relação filial. O primeiro mostra o filho retirando obras da estante enquanto a figura paterna procura com raiva onde está o livro desaparecido. O segundo apresenta o filho conversando com as roupas paternas. Em ambos os casos há uma memória imaginada de minha própria biografia. Em casa, todos os livros que eu pegava estavam sublinhados pelo pai (a caneta) e pela mãe (a lápis). As anotações funcionavam como cartas. Eu li o que eles tinham lido só para depois fazer minha leitura. Eu entendi mais minha família por aquilo que ela deixava grifado em outros autores, por aquilo que ela não dizia.
Esse passado recriado não diz, evidentemente, mais respeito apenas ao autor, é aí, na percepção íntima que ele instala a ponte de comunhão com o leitor e o mundo que tenta decifrar, embora saiba de início, não deve esperar bom sucesso na empreitada: Folheava os textos, / contornando as pedras / de tuas anotações. / Retraído, / como um arquipélago / nas fronteiras azuis. O que descobre é a solidão necessária do começo e do fim: Lia o que lias, / lia o que a mãe lia. / Era o último a sair da luz.

POEMAS

A loucura exige
disciplina
para não ser vista.
Por que me chamas
se estás completo?
A morte apara os excessos.

******

Herdei tua solidão
e não posso humanizá-la.
Um segredo compreendido
é um segredo morto.

******

Converteu-se em vapor,
o espelho,
seguindo
a névoa da bacia.

9:39 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 15, 2003

Na própria voz: Leio três poemas do meu livro inédito Cinco Marias na rádio do Instituto Moreira Salles.



7:27 PM :: Comentários:

Cartaz: a escritora Cíntia Moscovich, autora de Anotações durante o incêndio e Duas Iguais, é recomendada por - nada mais nada menos - Luis Fernando Verissimo. Jazz puro. Confira no site Portal Literal.






7:23 PM :: Comentários:

Estojo de primeiros-socorros:
O mercado literário brasileiro vive em um processo de autofagia. Escritores lêem escritores, médicos ou outros profissionais mergulham em tomos de obras especializadas em suas respectivas áreas. A maioria dos leitores praticantes tem um perfil utilitário. Ou seja, as pessoas estudam pela necessidade de suas obrigações. Luís Augusto Fischer busca alterar esse quadro, procurando escutar e chamar para dentro da literatura brasileira os leitores não profissionais, os que pretendem viajar unicamente pelo instinto do conhecimento e prazer das desobrigações. Seu livro Modos de usar, vendido em bancas de jornais, funciona como um estojo de primeiros-socorros para os leigos interessados em retomar o gosto pela literatura mas que não sabem por onde começar. O título faz uma homenagem ao escritor francês Georges Perec e seu romance A Vida Modo de usar, uma série de retratos de um condomínio em Paris.

Em noventa páginas, o autor de A Rua desconhecida e Dicionário de porto-alegrês empreende um pequeno milagre, armando provocações temáticas e montando um breviário de nomes, observações de movimentos e tendências da nossa produção literária. Espécie de manual de bordo, tem a capacidade de reavivar também o interesse dos iniciados. O livro, na verdade, é escrito a quatro mãos. Nelson Rodrigues aparece como advogado do diabo, leal conselheiro por todo o percurso, indicando polêmicas e ajustando os textos à rotina da vida. Fischer não deixa de fazer chamadas a cobrar ao dramaturgo, colocando na linha suas impagáveis frases de efeito e teorias de recepção. A linguagem alegre, enxuta, com digressões e comentários, ajuda na compreensão das linhas de força do legado ficcional, contrariando o esquema linear dos resumos de vestibular. Texto com o frescor de palpites, com a leveza das conversas de fim de dia. Como diz Homero Araújo, os ensaios apresentam dezenas de argumentos para dissertações e teses. Chega a ser um desperdício de idéias concentradas, prontas para presente. O propósito é mais questionar do que responder, repassando a responsabilidade de escolha ao interlocutor. Algumas de suas polêmicas aguçam o debate para fora da sala de aula como a percepção da vocação dos escritores brasileiros para gêneros ditos menores como crônicas e canções (desdobrando hipótese de Leandro Sarmatz) ou a percepção de um grande número de personagens que não deixam sucessores como Brás Cubas, de Machado de Assis, e a forte presença do memorialismo na melhor ficção brasileira.

Trechos de Modos de usar:
Poderia ser um raciocínio baseado num belo palpite de João Cabral de Mello Neto. Em entrevista, ele lembrou uma consideração de um tio-avô seu sobre a diferença entre as tarefas das duas juntas de bois dos carros pernambucanos. Havia um par de bois de cambão, que puxavam o carro para diante, e outro de bois de coice, que o freavam, nas descidas; não havia superioridade ou inferioridade, porque os dois tipos eram importantes. O poeta extraiu daqui uma equação para as gerações de escritores: há os de cambão, que puxam para a frente, e os de coice, que preferem parar; os primeiros ousam, os segundos travam. A comparação rende bem, estendida sobre a história da poesia brasileira.

É de espantar a quantidade de relatores de memórias, nessa linhagem, que quer ter filhos e não têm. Os maiores personagens de Machado, todos; Paulo Honório, de São Bernardo; Riobaldo silencia a respeito; Macunaíma brinca com dezenas de mulheres mas acaba sem descendência. E outros, e outros. (E os que lutam com a imagem paterna, representando o lado inverso do mesmo aspecto: isso está em Graciliano, em Cony, em Raduan Nassar.) Matéria para pensar.

10:24 AM :: Comentários:

Quando o pedalinho é um esporte radical
Neste sábado (16/8), às 13h, vai ao ar um novo quadro de Conficções, programa de entrevistas com escritores em trânsito, exibido pela TV Unisinos no canal 30 UHF no Vale do Sinos e também no sistema da NET em Novo Hamburgo. O convidado é o crítico e ficcionista Luís Augusto Fischer, que está lançando o delicioso livro Modos de usar: literatura brasileira pela coleção Saber Mais da revista Superinteressante. Foi uma gravação particularmente engraçada, no pedalinho do Parque da Redenção, em Porto Alegre, provando que esporte e literatura não se ajudam muito. Para quem passeava com os filhos na pacata tarde de quinta, assistiu a um espetáculo de trapalhadas e colisões. Nosso pedalinho foi de encontro a um arbusto de espinhos, arrancando-me do assento e criando uma nova textura em minha camisa. Quase naufragamos. O diretor Daniel Pedroso fez trapézio em um tronco de árvore e por detalhe não conheceu a temperatura da água. A cinegrafista Denise Tassi era obrigada a salvar a câmera e filmar. A entrevista acabou se tornando um making off cheio de gafes. Vale a pena assistir.

10:22 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 14, 2003

Minha irmã mais velha sofreu comigo. Eu contava seus namorados e amigos em um caderno de caligrafia. Quando via um sujeito novo perto dela, podia ser um mero conhecido ou alguém pedindo informações, perguntava o nome e constrangia o rapaz dizendo que ele não constava na minha lista. Minha irmã era uma mãe mais jovem.


1:04 PM :: Comentários:

Na esquina entre as ruas Lageado e Guaporé, em Porto Alegre, onde há um edifício, existia um armazém. Minha infância dependia dele para amadurecer o dia, parada obrigatória no caminho da escola. Lembro que tínhamos uma caderneta. O barulho da porta de metal se desenrolando era tão importante quanto os sinos da igreja. Tambor, latidos. Ninguém acordava antes do estampido. Com um jeito sonâmbulo, os proprietários (que moravam nos fundos do prédio) atendiam de pijama ou de chambre, com as feições ainda recentes e marcadas do mapa de lençóis. Até hoje guardo o cheiro sufocado dos sacos de feijão, de milho, de farinha (a concha de alumínio ao lado, uma pia batismal). Uma vez por ano, podia enxergar um espetáculo particular, com a expectativa de um circo: o uso da mão mecânica para puxar lá de cima, da última estante, a conserva de pêssegos. Minha família comprava essa lata apenas no Natal. Eu me detia naqueles movimentos firmes do dono, de gancho e altura. Suas mãos andavam em pernas-de-pau.
1:02 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 13, 2003

a paisagem muda com a cigarra muda
10:25 AM :: Comentários:

Aviso de inutilidade pública:
De vez em quando, eu me isolo em algum lugar que não sou eu. Não sei se sentes algo parecido. É uma necessidade de não abrir a correspondência, de preservar segredos e confidências, de ficar absolutamente calado, de não se deixar levar pela ânsia de que tudo deve ser esclarecido. Minha mão é trêmula, há a escolta da outra que me ajuda a escrever. Sou ambidestro por falta de opção. É horrível quando se está quieto e a barriga começa a conspirar e procurar briga com o corpo. Isso costuma acontecer especialmente em reuniões. Senta-se de todo jeito na poltrona, mas o ronco parece decidido a chamar atenção. Olha-se para o lado e nunca sabemos ao certo se ele é audível fora do sangue. E a educação não me deixa perguntar. A poesia não me salva do vexame de viver.

10:24 AM :: Comentários:

Na roda:
Um belo poema de Paulo Henriques Britto, em seu novo livro Macau (Companhia das Letras, 2003, 79 páginas). O título da obra já é sedutor. Macau é uma cidade chinesa onde se fala o português, íntima na estranheza:

Também já estive aí, no não-lugar
onde você agora não se encontra.
Também não me encontrei.

Aliás, foi justamente contra
a tal necessidade de seguir alguma
rota que jurei lutar. Lutei, perdi,

e pronto: agora estou aqui,
a alguns centímetros do meu próprio umbigo.

Se tudo correr bem, também a tua derrota
vai ser de bom tamanho. Pode contar comigo.

10:22 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 12, 2003

Dica
Nesta terça (12/8), haverá o V Sarau Filô, promoção do DA de Filosofia da Unisinos. Minha poesia é o tema da noite. O encontro acontece no pub Rua Grande (Independência, 1055, São Leopoldo), às 22h. Os convidados musicais são Néia Botelho e Carlinhos Mosmann.

8:40 AM :: Comentários:

Da série Nunca vi nada igual:

De tanto ler
o que não estava escrito,
o livro pode sair
de si mesmo.

8:37 AM :: Comentários:

Aviso de inutilidade pública
Estive no sábado (9/8) no zoológico de Sapucaia, acompanhado de Ana, Vicente e Mariana. Pouquíssima gente enfrentou uma manhã cerrada de vento. O Vicente comia mais lã de sua luva do que as bolachas. Mariana nos guiava e ria do hipopótamo fazendo mímica de rochedo na água. As galerias do local são intermináveis. Em uma das celas, encontrei um casal de babuínos. O macho ficava limpando a fêmea com lentidão, demora, generosidade. Ela, de costas, imóvel e receptiva. Ele, com o olhar concentrado de águia, puxava os fios grisalhos dela, penteava o pêlo de floresta avançada, escurecia suas palmas brancas, quase avermelhadas, em sua companheira. Ali, ele era um desejo cumprindo seu destino.

8:36 AM :: Comentários:

Deu no Jornal do Commercio, Caderno C, Recife (PE), 12/08/03
Livro
Poesia é para incomodar mesmo
12/Ago/2003

Revelação literária, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar lança sua primeira antologia, Caixa de Sapatos, pela Companhia das Letras
SCHNEIDER CARPEGGIANI

Aos 30 anos, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar já empresta o seu nome para um prêmio literário na sua cidade, São Leopoldo. Um mérito que em geral atrela qualidade literária e um bom número de anos nas costas ¿ ou em muitos casos, que só chega como homenagem póstuma. Além do reconhecimento local, Carpinejar ostenta em seu currículo diversas premiações, como o Olavo Bilac 2003, concedido pela Academia Brasileira de Letras, e o Cecília Meireles 2002, da União Brasileira dos Escritores. Nada mal para quem só estreou há cinco anos, com a coleção de poemas As Solas do Sol.
A carreira meteórica de Carpinejar recebe agora novo impulso com o lançamento da antologia Caixa de Sapatos (R$ 25, preço médio), pela Companhia das Letras. Minha vida não é programada, toda feita no improviso e na generosidade dos desvios. Não acredito em hierarquia etária para ser conhecido ou lido. Há a necessidade de desfazer as expectativas, os preconceitos, o que projetamos de escritor ideal. O jovem não precisa envelhecer para sentar à mesa e ser ouvido, afirmou o autor em entrevista ao JC, todo certo de que, em termos literários, a idade é pouco mais do que um número.
Caixa de Sapatos reúne textos dos livros As Solas do Sol, Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma Árvore. Neles, Carpinejar toma como ponto de partida suas reminiscências da infância e da adolescência e as universaliza. O Rio Grande do Sul é representado como pano de fundo do seu fazer poético, sem que isso acarrete em uma dicção puramente regionalista.
Para o autor, poesia é incomodar e não confortar. É a partir desse mote que Carpinejar se inspira para dar forro às histórias dos seus livros. Minha inspiração é contar a história do que é jogado fora. Os detalhes determinam uma trajetória, não são as grandes decisões. Alguns minutos valem horas e dias. Caixa de Sapatos são esses minutos. Valorizo a comunicação das experiências. Para escrever, presto atenção nas distrações, no que as pessoas escondem, nos atos falhos. Poesia é incomodar, não confortar. Mostrar aquilo que pensamos em segredo e não tínhamos coragem de pronunciar, mudando o senso comum de endereço, atesta.
Repleto de lutas travadas com a memória, Caixa de Sapatos parece trazer uma fórmula, em forma de poesia, de como melhor lidar com o passado. O título resume o que penso do livro: uma casa a ser habitada pela leitor, além de dar noção de que tudo o que guardamos um dia volta a nos visitar.

8:34 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 11, 2003

Deu no jornal Zero Hora, Caderno ZH Escola, Porto Alegre, 11 de agosto de 2003. Edição nº 13869

O filho que falava com as roupas do pai
Na busca por histórias entre pais e filhos, para homenagear o Dia do Pais, ZH Escola chegou a dois poemas. O poeta Fabrício Carpinejar conta que, aos sete anos, costumava falar com as roupas do pai, Carlos Nejar, quando o escritor se ausentava viajando. Ao saber, Carlos fez um poema a respeito. Era 1979. - É uma das grandes lições de paternidade em minha vida, além de demonstrar todo o amor pela literatura - conta Fabrício, que mais tarde retribuiu com outro poema.

Ritual (ao Fabrício)
Carlos Nejar

Sabias que as minhas roupas
conservavam a epiderme
de meu sonho
e estavam ali,
não viajaram comigo,
estavam ali,
guardiãs da primavera
na gaveta
de um retorno pródigo
ao pai inconsolável.
Sabias, filho,
e conversavas longamente
com as roupas,
conversavas entardeceres muitos
com minha longa ausência.

Havia rumor nelas:
peixes num aquário
de flanela e linho.
Um subterrâneo ritmo
as removia.
O mundo vegetal e animal
eram rabiscos
no embaralhar
ocioso das sombras.

O que procuravas
entre as roupas:
algum amor banido,
a lágrima, o instinto
de me sobreviver?
(Os Viventes, Record, 1999)

Um terno de pássaros ao sul
Fabricio Carpinejar

Nenhuma ferida
separava teus pesadelos.
Quando vagaste em meia-idade

pela selva escura, fiquei
a conversar com tuas camisas,
aprumando boinas

que afogavam os cabelos.
Tinha sete anos ao certo
e uma lua vadia disputando

corridas comigo.
Fiquei a entreter
os tecidos alinhados,

como um exército em revista,
procurando convencer
uma peça ao menos

a delatar tua deserção.
Quando vagaste em meia-idade
pela selva escura, fiquei

alimentando o aquário
das gravatas.
Pedia privacidade às traças.

Vestia tua camisa,
copiando o ritmo
dos teus traços,

a respiração copiosa,
sendo meu próprio
e definitivo pai.
(Caixa de Sapatos, Companhia das Letras, 2003)

8:39 AM :: Comentários:

Um pensamento que é mais do que tolerância:
Convivo com sua dúvida
sem nada dizer.

Soila Schreiber

8:37 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 10, 2003

Deu na revista Época, Edição 273, 11/08/03
Razões do coração
Carpinejar contraria sisudez dominante e se impõe como um dos grandes poetas atuais
José Castello
A coragem para enfrentar seu tempo levou o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, de 30 anos, a se tornar um dos melhores, senão o melhor, poeta de sua geração. Os quatro livros que lançou entre 1998 e 2002 bastaram para isso. Caixa de sapatos é uma coletânea desses quatro livros, organizados pelo próprio Carpinejar. O título vem do verso de Terceira Sede, livro de 2001: O que fiz cabe numa caixa de sapatos.
A delicadeza é uma das marcas de sua poesia. O misterioso nome que adota para assinar os poemas é a união dos sobrenomes Carpi e Nejar - herdados dos pais poetas, Maria Carpi e Carlos Nejar. Não foi tarefa simples superar a influência desses dois. Luta angustiada, que ele narra assim: Vesti tua camisa,/ copiando o ritmo/ dos teus traços,/ a respiração copiosa,/ sendo meu próprio/ e definitivo pai.
Para chegar a ser pai de si mesmo, e poder assim digerir e superar a herança familiar, teve de ultrapassar uma tradição poética que dá as cartas na poesia brasileira. Ele, que cresceu no legado do formalismo, escreve versos fortes e úmidos. Que se formou numa poesia que valoriza a elipse e a síntese, precisou de coragem para apostar na plenitude da palavra. No lugar da atitude seca, que faz da palavra um objeto, reencontrou na poesia o veio narrativo, de modo que seus poemas podem ser lido como ficções.
Numa geração de poetas apegados a preceitos e preconceitos, Carpinejar, ao contrário, partiu para uma poesia que aposta na liberdade. Tornar-se poeta, no caso de Carpinejar, é uma experiência que se desenrola na esfera da incompreensão, quase da traição. O poeta, sugere, não pode ser fiel a nada, já que a fidelidade se converte em infidelidade. Pergunta: Será a fidelidade uma forma de trair?. No lugar da novidade a qualquer preço, detém-se no existente. Aposta numa poesia regida pela surpresa: Atendi o pedido dos pais/ de não conversar com estranhos/ e deixei de me escutar. É um poeta que tem o que dizer. O estranhamento, e não o dogma, o move. Não sou unânime para te dizer sim./ Dissidências me governam, confessa. Não pode haver atitude mais viva, e por isso sua poesia agarra o leitor pelo coração.

Título : Caixa de sapatos
Autor : Carpinejar
Editora : Companhia das Letras
Preços e páginas : R$ 24/76

2:30 PM :: Comentários:

Paternidade é ser filho da audição. Festejo o que ultrapassa meu próprio entendimento. O riso improvisa um pátio mesmo na falta de espaço. Recebi hoje um envelope com história de Mariana, minha filha de 9 anos, que ao lado de Vicente (1 ano), convertem neblina em espuma de sol. Partilho a fábula dela, que tem o título sugestivo de Poesia cortada ao meio:

UMA MENINA CHAMADA ADRIANA TINHA GANHO DO PAI E DA MÃE UM LIVRO DE POESIA, MAS ELA FOI LER A PRIMEIRA POESIA E TAVA ESCRITO UM DIA. A MENINA FICOU ASSUSTADA POIS A POESIA ESTAVA INCOMPLETA E, ENTÃO, ELA TOCOU NA POESIA E ENTROU DENTRO DO LIVRO, POIS AGORA ELA ERA UM DESENHO QUE PERTENCIA A UMA FOLHA! A ADRIANA CAMINHOU NA FOLHA E NO FUNDO DA FOLHA, ACHOU UMAS PALAVRAS E FOI PEGAR AS PALAVRAS PARA SALVAR A POESIA E NÃO CONSEGUIU: ERA MUITO PESADO . E DE TANTO TENTAR ACABOU DORMINDO. ELA SONHOU QUE TINHA QUE SALVAR A POESIA E ACORDOU E PENSOU QUE, SE ESTAVA NUM OUTRO MUNDO, PODERIA USAR SUA IMAGINAÇÃO. ADRIANA IMAGINOU QUE TODAS AS PALAVRAS DALI ERAM LEVES E PEGOU UMA PALAVRA DALI E A PALAVRA ESTAVA LEVINHA E LEVOU TODAS AS PALAVRAS E COLOCOU NO INÍCIO DA FOLHA E USOU A IMAGINAÇÃO DE NOVO. DESTA VEZ, PENSOU EM OUTRA COISA. PENSOU QUE A POESIA TAVA COMPLETA COM TODAS AS PALAVRAS E FOI ISSO QUE ACONTECEU. COM MEDO DE NOVO, A ADRIANA PENSOU: COMO EU VOU SAIR DAQUI? E PENSOU NA IMAGINAÇÃO E PENSOU QUE ELA TAVA EM CASA E SAIU DO LIVRO. E JÁ QUE ELA TINHA SAÍDO DO LIVRO FOI IDENTIFICAR SE DEU CERTO O QUE ELA FEZ E ATÉ DEU PRA LER TODA A POESIA.



8:44 AM :: Comentários:


Sábado, Agosto 09, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":
Uma pedra queimada
e já é inverno.

6:02 PM :: Comentários:

UM HOMEM QUE PRETENDIA SER INVISÍVEL:
As melhores narrativas são as que não precisam provar sua técnica. Anacoluto do princípio ao fim (254 páginas, R$ 30), lançamento da Record, é uma leitura leve, mas nunca passageira. Enquanto vivemos uma época de gula pela fama, o livro descreve as emoções primordiais de alguém que deseja justamente o contrário, o anonimato. Enquanto autores buscam singularizar o desvio e a aberração, Galvani se debruça na biografia pacata e comum de alguém que pode estar ao alcance de um esbarrão na rua. Não há malabarismo, pirotecnia verbal, fluxo desordenado de passagens, mas uma simplicidade essencial e linear que rumina meio século da memória de um homem que sempre ambicionou se ausentar da lista de chamada. Seu nome já é uma maldição. Ninguém mereceria ser chamado de uma figura de sintaxe. O cartório vira, na perspectiva do personagem-narrador, uma espécie de cemitério inaugural. Anacoluto Camargo Neves torna-se um fantasma desde o seu nascimento, mergulhado no impasse de desaparecer por inteiro ou se vingar de virtudes. Não quer trabalhar, não quer ter sucesso, nada que possa levantar sua graça um pouco mais alto. Tudo dá errado, nunca errado o suficiente para mudar de trajeto. Ele se acomoda na herança de seu pai, o latifundiário Neves, e toca a casa com rendas. O excesso de sorte acaba o prejudicando e ele nunca é cobrado pela temeridade do fim do mês. Passeia, joga dominó, pensa demais. O que se lê é seu diário e fica-se com a impressão de que podemos ser enganados a toda hora: será que ele escreve aquilo que viveu ou pretende corrigir sua vida perante os familiares à medida que a descreve? Essa pergunta não é dissipada com o final. Não é de estranhar que sua mulher Rosa Pigafé seja o eixo da trama, contribuindo para o jogo de espelhos: o marido amarga vergonha de sua inutilidade aos olhos dela, nem tanto por ele.
A literatura brasileira está acostumada à malandragem, ao tipo macunaíma, que tira vantagens das mentiras e dos simulacros, da encenação do herói bastardo, das sinuosas linhas da maldade ou dos tipos depressivos, afundados em si (Um copo de cólera, Raduan Nassar, e São Bernardo, de Graciliano Ramos). O romance de Galvani apresenta algo diferente e, portanto, mais difícil: um otimismo cético, a honestidade do princípio ao fim do personagem, uma lucidez que o faz compreender suas limitações (apesar de não combatê-las), uma fé pelo porvir que adia as decisões ao dia seguinte. Não acredito em nada destas coisas, mas, pelo sim pelo não, achei melhor achar alguma crença para me agarrar e reencontrar o equilíbrio. Resplandece a retidão sedutora de Anacoluto. A autocrítica o impede de ser um canalha (bem que poderia, mas até a maldade exige talento). Sente-se culpado quando trai sua esposa em escapadas com a criada. Sente-se culpado e fracassa ao se libertar das pequenas culpas. Somatiza decepções como a derrota do Brasil na Copa de 50, o autoritarismo paternal e o fato de se deixar levar pelo destino. E se o protagonista queria se livrar do nome, isso enfim acontece de modo trágico e doloroso (mostrando a coesão da história e a profecia do batismo). Sua vitória é, na verdade, uma derrota. Passa a sofrer de mal de Alzheimer, perdendo gradualmente a memória e o domínio narrativo, quebrando os parágrafos e misturando reminiscências. O destino cobra alto para fazer seus milagres. Galvani, prêmio Casa de las Américas, autor do sucesso de crítica e público Nau Capitânia sobre Pedro Álvares Cabral, deixa a pesquisa histórica de lado para livre romancear, demonstrando que a covardia em viver pode ser maior do que a vida.

5:41 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 08, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":
A poesia é como os pedais do piano,
o leitor presta atenção nas mãos do pianista.

11:21 AM :: Comentários:

Quando pequeno, eu sempre tive problemas de dicção. Falava torto e precisava andar com meu irmão a tiracolo para que ele pudesse traduzir o que dizia. Permaneço falando errado, mas com um entusiasmo que abafa as dificuldades. Quem diria que neste sábado (9/8), às 13h, faço minha estréia como apresentador de programa de tevê? É na TV Unisinos, transmitida no canal 30 UHF no Vale do Sinos (RS) e também no sistema da NET em Novo Hamburgo. A emissora cobre 16 cidades da região. Com o título de Conficções, direção de Daniel Pedroso e imagens de Denise Tassi, será um quadro dentro do noticiário Uni News, aos sábados. A proposta é sair do estúdio e da formalidade das cadeiras para conversar com autores em trânsito. Haverá sempre um cenário diferente, dependendo da obra literária, como ônibus, parque de diversões, barco, cartório, entre outros. O primeiro entrevistado é o escritor João Gilberto Noll (foto ao lado) em uma viagem de Trensurb, de Porto Alegre a São Leopoldo.
Noll é um dos maiores escritores brasileiros, três vezes premiado com o Jabuti e autor de nove livros. Natural de Porto Alegre, onde reside atualmente, formado em Letras, foi bolsista da Universidade de Iowa, da Fundação Rockefeller e Guggenheim e professor da Universidade de Califórnia em Berkeley. Seus livros estão sendo todos relançados pela editora W 11. Atualmente, três obras do escritor estão sendo adaptadas ao cinema. A que deve chegar logo às salas de exibição é Harmada, longa de Maurício Capovilla e que conta com Paulo César Pereio no papel principal. Hotel Atlântico está sendo trabalhado por Suzana Amaral e O Quieto Animal da Esquina deverá ganhar versão por Marta Biavaschi. O ficcionista criou uma cosmogonia do homem sem nome, que atinge o capítulo derradeiro e febril com Berkeley em Bellagio (Objetiva), seu romance mais recente, no qual o protagonista esquece o próprio idioma depois de passar uma temporada no exterior.


11:19 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 07, 2003

Minha amiga Cláudia está sem telefone. Mudou-se de Novo Hamburgo para São Leopoldo. Ainda não instalaram o aparelho. Ela diz que passa os dias pensando o que vai falar para as pessoas e o que as pessoas vão responder. O diálogo imaginário a ocupa bem mais do que o real. Na hora em que ela pode falar, perde a vontade. A janela voltou a ser valorizada como uma porta chuvosa. Seus três filhos esperam o pai ali, diante do vidro noturno, capturando com ansiedade o nariz da lomba, as silhuetas na curva da ladeira. Só a convivência com o silêncio afasta o medo da solidão.
1:00 PM :: Comentários:

Pedra branca marcando o mundo
Recomendo Caveira 41(105 páginas), de Age de Carvalho, publicado pela coleção Ás de Colete, da 7Letras e Cosac & Naif, que vem trazendo à tona poetas de força e pluma, leveza e autoridade de vôo. Esse novo livro tem unhas cortadas, polidas (as pontas das folhas são curvas). É uma peça de oratório, poesia de tão pura que se assemelha a um transe. Age de Carvalho, paraense (como os geniais Benedito Nunes e Vicente Cecim) radicado em Viena, faz uma lírica do ainda, da duração, da permanência grave e atordoante que abre e fecha segredos. Fazia tempo que ele não publicava. Sua última obra, a antologia Ror, saiu em 1990 pela coleção Claro Enigma. Significa, portanto, um feixe de luz e mistério para matar a saudade, coletânea de escritos de 1991 a 2000. Todo poema é um ato de difícil escolha, de definição de vida e de imersão no rio da voz. Lírica das margens da estrada, onde até a árvore é portátil e se carrega junto ao paletó. Breviário do relance, não do olhar demorado nas coisas, pois o relance estranha as coisas em uma outra intimidade. "A cantar: a trans-/ferida faca n´água/ a nos abençoar/ de mão em mão." As palavras são fraturadas, como pedras de um colar desfeito que ganham um outro brilho e velocidade quando isoladas. "É/ tempo de dizer: aqui,// sim,/ estou pronto". Sua fala está impregnada de lacunas vorazes, de silêncios sequiosos, de bagagens extraviadas entre um aeroporto e outro, entre o quintal e a casa dos pais. "Já não me chamavas/ Filho,/ vivias/ e era tarde". Há um sentimento judaico de exílio, que comove pela densidade dos apelos familiares, pela carga dramática de cada conselho. Ele não está provocando o indizível como o alemão Paul Celan, não está perto do que não pode ser dito. Entretanto, está rente do que deve ser dito. O autor suporta o peso da consciência além dos limites vocabulares, além das cercanias do mundo, e caça justamente o nome inadmissível, pronunciável mas relutante, o que o verso não quer dizer porque talvez seja o seu fim. No andamento de Caveira 41, corre uma tristeza alegre, uma música religiosa ("uma caixa-oração"), reconhecendo a evocação como um ato mágico de escutar a terra e seus mortos-vivos. "Ouves?/ Tudo pede perdão."

8:01 AM :: Comentários:

Da série "Nunca vi nada igual":
O porão é o estômago da casa.

7:57 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 06, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":
Dificilmente o vento encontra
um tradutor competente
que não o transforme em brisa
ou em dilúvio.

10:18 AM :: Comentários:

Da série "Nunca vi nada igual":
Conheci uma beata que espantava os demônios
com os mistérios gozosos.

8:47 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 05, 2003

Não sei os motivos da lembrança. Talvez um vento de bambu. Ou um estilhaço de metal. Os ruídos ancestrais nos convocam em qualquer momento. Cessamos tudo. Recordo de um cavalo que tombou no calçadão do Mercado Público de Porto Alegre. Tinha treze anos. Nenhuma barba cobria meus traços de pintura de El Greco foragida. O cavalo desmaiou de tanto apanhar. Seu corpo virou um casco ultrapassado de insetos. Uma figueira de pernas para o ar. Uma jibóia de narinas largas. E o seu dono, alheio a queda, continuava batendo com o chicote e batia e batia uma desesperança que nunca chegava ao fim. Sua fúria só foi controlada por dois brigadianos, que o gravataram e o derrubaram no chão. Ele, prostrado, enfim olhou o animal de igual para igual.
10:29 PM :: Comentários:

Há dois meses que meu criado-mudo está com Gênio (Objetiva), de Harold Bloom, quase novecentas páginas onde o erudito crítico americano escolhe seus 100 escritores fora de série. Isso significa que nas últimas noites demorei um bocado para encontrar o fio do abajur. À minha frente, no escuro, minha mão atravessava uma montanha intransponível. O livro é bom, sem sombra de dúvida, apesar das pessoas lerem menos para descobrir novos aspectos dos autores citados e mais para encontrar em si indícios de genialidade. Poderia ter ao final algo como aqueles testes de revista: Veja se você também é superdotado? O que me irrita na obra é o jeito didático de Bloom, a escrita cheia de repetições, como um professor que soletra e ainda avisa (para chamar a atenção) que sua fala vai cair na próxima prova. Transformou o cabedal de autores em gênios domesticados, caseiros, enquadrados, contidos, com a distância regulamentar de uma coleira. Os versos transpostos, de Shakespeare a Lorca, perdem sutilezas com a tradução. Prefiro a ignorância selvagem, aquela que não pode ser medida, apenas insinuada. O curioso é recordar versos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos/Tabacaria), um dos alunos transgressores na classe de Bloom:

Gênio?
Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonhos gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe? Nem um,
Não haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.

9:10 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 04, 2003

Caixa de sapatos
Esse é meu novo livro (Companhia das Letras). Voltei ao passado da minha escritura, apedrejando esculturas e descobrindo que as ervas enobrecem os sapatos. Desde pequeno, eu tropeçava em meus cadarços. Nunca soube amarrar bem. Descobri que minha mãe também não sabe. Herdei a soltura do mundo. Essa obra relê os poemas de quatro livros: As Solas do Sol, Um terno de pássaros ao sul, Terceira sede e Biografia de uma árvore. O livro nos completa quando o leitor nos imagina diferente do que realmente somos. Em minha caixa de sapatos, há fotos sem datas nas costas, uma gaita de boca, o broche dado pela avó, um escapulário, a bússola desligada da hélice, o relógio de bolso furado, um amor não usado e a permanente amizade com as coisas que nunca cessam de nos despertar. E o que há em teu esconderijo do tempo?

1:09 PM :: Comentários:

Sempre procuro um outro ângulo para me espiar de longe. Não é aconselhável permanecer muito perto do que se conhece. Tenho olhos maiores do que o rosto. Meus olhos crescem quando estou com fome. A fome cresce sem olhos. Meus pés são chatos. Talvez tudo o seja também. Minha maior vantagem é a de estar vivo para me discordar. Vim de trem, de pé, de Porto Alegre a São Leopoldo, acomodado em meu cansaço. Um cara tentou puxar conversa. Disse que o trem estava cheio em função do Lula. Não entendi a aproximação. Fiz de conta que o mundo não dependia de minha resposta.
Até! Amanhã me estranho mais um pouco.


12:24 PM :: Comentários: