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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Setembro 28, 2003

Pílulas:

* Viajo para São Paulo. Volto na quarta (1º/10).

* Estou dando uma oficina em Lajeado (RS), em dois sábados (27/9 e 4/10). Podia ser controlado, sereno, traçar mapas e cálculos sonoros. Mas não sou assim: me denuncio com facilidade, me troco pelos reféns. É difícil não se expor. Não consigo falar de poesia sem me doar, dilatar as veias da boca, apresentar o que tenho de pessoal e insano.
Contar os segredos é o modo mais certo de preservá-los.

* Quando penso que escapei de minha timidez, há um gesto inesperado que me faz corar e regressar, rendido, para a ausência de lugar. O corpo não é um esconderijo seguro.

* É necessário derrubar o pedágio entre a poesia e a poesia encadernada. Os leitores mudam o olhar quando alguém diz: "vou ler um poema?". Ninguém deve se preparar para viver. Vive-se em desconcerto. O poema deve ser dito sem solenidade, em uma mesa de bar, em uma parada de ônibus, ao localizar uma rua ou uma lembrança extinta.

* Conheci Rodrigo Rosa, um dos mais talentosos cartunistas do Brasil. Ele desenha palavras na vidraça. O fundo vivo.

12:32 PM :: Comentários:

O MEL DO MELHOR:
O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil está com novo romance: A margem imóvel do rio (L&PM, 176 páginas), que será lançado na quarta (1º/10) , às 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre. Voltarei a tempo de São Paulo para buscar meu autógrafo. O autor completa a série Os visitantes do sul, iniciada com O Pintor de retratos. Antecipo: não é apenas um livro, mas um assombro de narração e delicadeza. Mais não digo porque a obra ainda está me lendo. E vai me ler por muito tempo. O bom romance é aquele que, ao ser fechado, nos abre as mãos por toda a vida.

9:00 AM :: Comentários:

Deu no jornal Zero Hora, Porto Alegre, 28 de setembro de 2003, Edição nº 13917:

Artigo
Algo está mudando
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL/ Escritor

Talvez seja o momento de reavaliarmos algumas idéias acerca de nossas relações culturais com o eixo Rio-São Paulo. Lembram da tediosa reclamação "eles não nos entendem, eles têm má vontade"? É possível que essa lamúria tivesse seu fundo de verdade: um autor, para ganhar o público nacional e "abrasileirar-se", precisava buscar outras paragens, e isso aconteceu com Caio Fernando Abreu, para ficarmos com apenas um caso. Outros há, e importantes.

Dois fatos, contudo, aconteceram numa sucessão significativa: Luis Fernando Verissimo há mais tempo, mas nos últimos meses tivemos Letícia Wierzchowski e Lya Luft com livros figurando no topo da lista dos mais vendidos da Veja. Se atentarmos para a natureza dessas obras, percebe-se que apenas uma diz do Rio Grande do Sul; mesmo assim, não trata das tradicionais personagens-homens, mas de mulheres, o que faz pensar em uma saudável alteração de enfoque. Os demais são livros de humor ou de natureza intimista, gêneros que prescindem de qualquer registro geográfico.

O segundo fato foi o apoio público à eleição de Moacyr Scliar para a Academia Brasileira de Letras, episódio largamente festejado que, significando merecido apreço pela obra do escritor, indica também um contrapor-se à nossa auto-suficiente arrogância. O Brasil, representado pela Academia, passa a ser importante para nós. E lá já temos, além de Moacyr, Carlos Nejar.

Deixamos de ser os segregados do Sul, somos lidos e conhecidos. Não posso omitir outros indícios que apenas comprovam o que disse. Novos escritores e consagrados ganham ressonância "brasileira": João Gilberto Noll há muito ultrapassou as fronteiras; Eduardo Bueno, com seus livros históricos, ganhou um público fiel; o poeta Fabrício Carpinejar - que acaba de lançar um livro enxuto e essencial, Caixa de Sapatos -, recebe o crescente apoio da crítica e do público; Walter Galvani, premiado com o Casa de Las Américas, vendeu como água o seu Nau Capitânia. A relação seguiria até o fim desta página, mas quero ainda dizer uma coisa.

Esses autores, por opção pessoal e respeitável, publicam por editoras do eixo - o que poderia induzir a conclusões apressadas; pese-se entretanto a existência de outros que, embora cortejados por eminentes casas editoriais paulistas e cariocas, não vêem problema em seguir publicando no Rio Grande; isso não os impede de fazer uma carreira inclusivamente internacional, o que se demonstra por seus prêmios no estrangeiro e por seus livros traduzidos.

O interessante é constatar que todos os nomes citados ou pensados são de escritoras e escritores que vivem no Sul. Sergio Faraco e Armindo Trevisan, apenas como exemplo. Há muitos mais, de igual quilate. Trocar de endereço não alteraria em nada a invejável ressonância de suas literaturas. Explico a obstinada persistência em viver aqui: é que no Sul são felizes. Como diziam os latinos, ubi bene, ibi patria, ou: onde está o nosso bem, aí é a nossa pátria. E isso não os impede de alcançar leitores para além do Mampituba, e inumeráveis.

8:58 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 26, 2003

SAMPA:
Na próxima terça (30/9), às 19h, estarei autografando Caixa de sapatos no Canto Madalena, em São Paulo.


10:35 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 25, 2003

Mais um motivo:

Walter Galvani acaba de ser anunciado como patrono da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre.

10:24 AM :: Comentários:

Porto Alegre: O escritor Walter Galvani lança hoje, às 19h, na Livraria Cultura no Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80), o romance Anacoluto do princípio ao fim (Record). Antes dos autógrafos, farei uma apresentação da nova obra, ao lado de Alcy Cheuiche. Transcrevo abaixo matéria sobre Galvani publicada nesta quinta (25/9) no jornal Zero Hora:

Nome igual a destino
Walter Galvani autografa hoje "Anacoluto do Princípio ao Fim"
CÍNTIA MOSCOVICH

Pode um nome condicionar o destino? E pode uma figura de construção gramatical baseada na quebra do ordenamento lógico de uma frase - o anacoluto - resultar em um romance? A resposta a ambas as perguntas pode ser encontrada em Anacoluto do Princípio ao Fim, livro que o jornalista e escritor Walter Galvani autografa hoje, às 19h, na Livraria Cultura.

Primeiro romance do canoense - a novela A Noite do Quebra-Quebra, de 1993, é considerada pelo próprio autor uma tentativa frustrada de ficção -, Anacoluto do Princípio ao Fim (Record, 255 páginas, R$ 30) é o depoimento da vida de Anacoluto Camargo Neves, um ruralista nascido na cidade uruguaia de Colônia do Sacramento, outrora possessão portuguesa às margens do Rio da Prata. De naturalidade ambígua, o protagonista inicia o relato lamentando seu realmente lamentável nome de batismo - que, sabe-se depois, condiciona-lhe de forma definitiva o destino.

Vivendo em Pelotas à custa de terras arrendadas, Anacoluto é um homem medíocre: passa os dias a dormir, a caminhar pelas redondezas, a sestear e a escrever seu diário. A horas tantas, recebe em casa Rosa Pigafé, filha de um fazendeiro plenipotenciário da região, com quem passa a viver. E como prova de seu amor por Rosa - mesmo que tenha sido infiel, mantendo um romance com uma mulher de nome tão estranho quanto o seu, Frahia -, Anacoluto escreve seu diário. Mas há outro motivo, e dramático, para que mantenha o registro escrito de sua vida: vendo seu nome transformar-se em vaticínio, Anacoluto descobre-se vítima de Alzheimer, doença degenerativa que lhe rouba pouco a pouco as memórias, fragmentando-as ao ponto de fazer pó a lógica que molda sua própria identidade. Debatendo-se para fugir das brumas da inconsciência, Anacoluto, e seu leitor, embretam-se numa espiral narrativa exasperante, em que todos os fatos parecem ser comandados por lógica canhestra, verdadeiro deus ex machina a interceder no andamento da trama, como se a vida e a morte pudessem, de fato, ser imitados pela ficção.

Aos 69 anos, 49 deles dedicados ao jornalismo, um dos 10 patronáveis da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, Galvani é um dos mais respeitados e atuantes profissionais da imprensa gaúcha. Trabalhando no Correio do Povo, da Companhia Jornalística Caldas Júnior, Galvani foi diretor de redação da Folha da Tarde, além de comandar de 1991 até janeiro deste ano o programa Guaíba Revista. Autor de Nau Capitânia, livro que, resultado de um intenso trabalho de pesquisa junto à mulher, a também jornalista Carla Irigaray, rendeu ao autor o prestigiado Casa de Las Américas, além de outros importantes prêmios nacionais, Galvani conta no currículo com mais seis livros, todos de crônicas jornalísticas.

A sessão de autógrafos na Livraria Cultura será precedida pela leitura de trechos do livro realizada pelo poeta Fabrício Carpinejar e pelo escritor Alcy Cheuiche.

8:05 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 23, 2003

SOU MARLY DANIEL

De onde vem o poema? Onde ele cresce, arrebenta, germina? Primeiro pensei que escrever era sair da infância. Escrever era ficar acordado depois das 22h, escutar a conversa dos adultos, o sigilo dos sons, testemunhar a fogueira de São João até as cinzas do amanhecer. Depois de menino, pensei que escrever fosse voltar à infância. Mas a infância nada mais é do que a espontaneidade da língua, sem os dentes da frente. Não importa, não importa mais. Meu peso soletra o vôo, os braços estão calcificados no que segurei. Mais vale ser o fogo e suas asas repentinas. Ninguém questiona a fome ou o desejo. As dúvidas sabem melhor o endereço do que as respostas. Curiosidade não é insuficiência. Avidez não é incompletude. O que nos faz trabalhar tanto apenas para ocupar os dias? Acordamos com a idéia de que precisamos concluir alguma coisa. Algum trabalho momentâneo ou encomenda são artifícios. Haverá tudo de novo em seguida. A igual remessa de papéis com um carimbo das unhas. Quanto vale o reconhecimento se não nos reconhecemos na estranheza? Substituímos o ver pelo ser visto. Aquilo que foi sonhado passa a ser calculado. Os anos vão nos tendo, nos amortecendo, nos acomodando em uma idade parada. Concluir o quê? Sempre estamos mais entusiasmados em acabar do que começar. Parece que o final da tarde é a manhã. E quando sentimos emparedados em si, esgotados, procuramos algum culpado perto da gente. Um colega, uma esposa, um amigo. Um culpado para nos aliviar da responsabilidade de estar vivendo. Isso: a consciência de estar vivendo. O mundo é uma provocação e se busca surpreender o mundo quando basta compreendê-lo. Hoje recebi uma mensagem de Cândido Bueno Jr., que entrou em contato depois de ler meus livros. Transcrevo:

Olá poeta
Hoje após dias sem ler meus e-mails, vi uma mensagem encaminhada dizendo de
seu livro (antologia), que será lançado pela Companhia das Letras. Parabéns.

Tal mensagem foi enviada por uma amiga pouco antes de sua morte, dia 12 de
setembro. Sinto-me órfão de não mais tê-la para falarmos de poesias, do
incentivo em não me deixar de escrever, da insistência em ler meus textos.
Mas sinto-me imensamente feliz por ter apresentado seus livros a ela. Como
ela se emocionou com o "Terceira Sede", leu-o várias e várias vezes e sentia
feliz e dizia estar próxima da personagem do livro. Ela já era uma senhora.
Senhora sim, mas para mim uma menina que sentirei falta demais.
Ela deve ter lhe escrito algum dia, seu nome é Marly Daniel.
um abraço.
Continuamos aqui admirando, aguardando e espalhando seus livros.

Cândido Bueno Jr.


Lembrava-me de Marly Daniel e reproduzo a mensagem que recebi dela, em julho de 2002:

Caro poeta,
não tenho o hábito de escrever para escritores quando leio suas obras, pois acho que às vezes fico meio encabulada e também seu tempo deve ser corrido. Mas mesmo assim senti que deveria lhe mandar esse e-mail. Semana passada, quando abri a caixa dos correios havia algo mais do que minha enfadonha correspondência, havia também um presente: um livro. Um amigo (Cândido), que pouco vejo, mas muito o estimo, havia enviado-me com carinho. Dentro, na primeira página, ele apenas escreveu: "Alumbre-se como eu". Dito e feito. Como o seu livro encantou-me. Era o seu livro "Terceira Sede" que recebi de presente. Senti-me encantada com seus versos, porque caminho bem próximo da idade da personagem. E como você tem a sensibilidade para lidar com a beleza da velhice sendo ainda tão menino. Lindo livro. Confesso que leio poucos autores novos, mas esse meu amigo é que me dá dicas, pois ele é professor de literatura há quase quinze anos, ele começou a dar aulas muito jovem, com dezesseis anos ele já dava aulas. É um apaixonado pela literatura e revela-me verdadeiras pérolas, como o seu livro. Meu amigo escreve, mas é com muita peleja e quase que preciso implorar para que ele me mostre seus belos poemas. Espero que um dia eles venham à tona. Caro Carpinejar, espero que continue nesse seu "carpir" da poesia.
Até mais poeta. Um forte abraço.
De uma leitora encantada.
Marly A. S. Daniel


Agradeço Cândido Bueno Jr.. Ele me fez adiar tudo agora, menos a intensidade em falar. Nunca conheci Marly Daniel. Não sei o que significam as iniciais A. e S. de seu batismo. Não sei se tinha o rosto angulado de um pássaro ou a elegância de um pessegueiro. Não sei se deixou filhos, amores, paixões ou qual a entonação de seu timbre. Não sei se era tímida e se a timidez a fazia caminhar mais quadras para fugir de antipáticos. Não sei se a água encrespava em suas mãos. O que sei: hoje sou Marly Daniel. Eu me reli nela. Ela me dá esperança. Em seu nome, ouço a luz dormir. Escrever não é pensar longe. É pensar perto.

11:01 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 21, 2003


Lembro de uma cena da infância que não tive tempo de inventar. Havia um desfile religioso em Guaporé, cidade de meus avós. Sentada de lado na montaria, uma morena balançava suave na ladeira de chapéus. A procissão dos seios.

10:02 PM :: Comentários:


Há momentos que não posso me visitar, que fico recolhido. Nem triste nem feliz. Uma serenidade capaz de entender o amor se não houvesse uma segunda-feira para dispersá-lo.

10:01 PM :: Comentários:

Sebo I:

O que mais me comoveu ao ler um livro usado é ter encontrado um cílio marcando os versos, perfilado como um colchete.

9:58 PM :: Comentários:

Sebo II:

O abajur do escritório ainda aceso. Meu rosto adormecido na almofada de um livro. O cavanhaque ruivo: um cálice de vinho pela metade.


9:57 PM :: Comentários:


"A memória inventa, mesmo quando quer ser fiel ao passado"

Milton Hatoum, Dois Irmãos

8:46 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 19, 2003



De Budapeste (Companhia das Letras), novo romance de Chico Buarque:

"Tenho esse ouvido infantil que pega e larga as línguas com facilidade, se perseverasse poderia aprender o grego, o coreano, até o vasconço."

"Cortei o som, me fixei nas legendas, e observando em letras pela primeira vez palavras húngaras, tive a impressão de ver seus esqueletos: ö az álom elötti talajon táncol."

"O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela."

"Fui abrindo as palavras letra a letra como jogador de pôquer filando cartas."

10:41 AM :: Comentários:


Aqui jaz o jazz:

Largue o filho no berço. Busque agora o Coletiva seletiva (Ciência do Acidente, 54 páginas), material reciclado das agruras familiares e convenções sociais, do mineiro Sérgio Fantini (foto). Manoel de Barros leu e recomendou: "não me lembro de outro poeta que brinque tanto a sério com a tragédia. Há quem veja o mundo por um olhar de pássaro; e ele enxerga o mundo com olhar de Satã". Poemas que dizem as verdades sem dó nem piedade e não ficam para esperar a resposta. Algo como insultos da rua, que chegam anônimos pela janela. Fantini, ficcionista da realidade bruta, é um poeta do refugo, do lixo orgânico, dos restos de comida, com talento de desfazer frase e encontrar a cumplicidade no ridículo. Remanescente da geração do mimeógrafo e marginal, demonstra que seus integrantes amadureceram, procriaram e nem todos pularam do último andar. Não é um livro de versos, mas uma coletânea de epígrafes, letras tiradas de ouvido, minicontos furtados nas paradas de ônibus, decupagem dos minutos que envelhecem os hábitos. Há uma pressa pela verdade, urgência em passar a limpo os conflitos e não se demorar nas preliminares . "Terminar um poema sequer iniciado." As influências são sufocadas e asfixiadas pelo terror doméstico. De Sartre, o autor faz uma versão ainda melhor: "o pior da morte/ não é o morto/ são os outros". De Fernando Pessoa, ajuda a dar porrada no perfil acomodado. Não é poesia da resistência, mas da desistência do mundo. "Minha última esperança/ é o suicídio coletivo." Pertence a uma estirpe que desenvolveu o cinismo com sinceridade para se defender das certezas. Insatisfeito mesmo no prazer, articula contradições, humanizando o texto. Não esperem encontrar delicadezas, sugestões, subentendidos, educação. Fantini confessa amor palitando os dentes. Lirismo masculino, preconceituoso e comovido. Nesse sentido, representa um anti-Adélia Prado. Fala antes de pensar, porque falar já é sentir. Seu alter-ego poético é a figura vaidosamente anacrônica, bebendo para ganhar coragem e amando confuso com as amarras de nascença. O escritor verseja doenças crônicas em crônicas doentes. Elimina o essencial e valoriza fatos esporádicos e fugazes. Lista os pequenos acontecimentos, como receber a sogra no domingo, que não estarão no inventário e serão consumidos em papel-jornal. "Da poesia/ espero grana/ mulheres fama/ nada além." Quem quiser o contrário, pegue o filho no berço - ele está chorando.

10:37 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 18, 2003

Da série "Nunca vi nada igual":

Notando o portão entreaberto,
avancei ao condomínio
cinzento do sol.
Caminhava como uma pedra
caminha quando o pássaro
pousa na pedra.

Às sextas,
como de costume,
ia cedo ao jazigo
trocar a roupa de cama
de minha avó.

11:42 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 17, 2003

VOANDO ALTO:

Ele fez sucesso na Jornada Nacional de Passo Fundo. Marcelino Freire, autor de BaleRalé (leia crítica abaixo), um dos melhores livros de contos do ano, agora foi convidado para representar o Brasil no III Encontro de Novos Narradores da América Latina e da Espanha, que acontece em Bogotá, na Colômbia, de 3 a 9/11. A novíssima geração vai com ele na babagem. O autor também é uma das presenças confirmadas na Feira do Livro de Porto Alegre, onde lançará sua obra e a coleção infantil 5 minutinhos nos dias 1º e 2/11.

5:22 PM :: Comentários:


RENUNCIAI ÀS ESPERANÇAS, VÓS QUE ENTRAIS


Essa é advertência da Divina Comédia, de Dante Aligheri, que sacode o poeta antes de sua entrada no inferno. O escritor pernambucano, radicado em São Paulo, Marcelino Freire, não paga passagem para dar um rolê no submundo. Passa por debaixo da roleta. Os contos de BaléRalé (Ateliê Editorial, 127 páginas), primeiro título da coleção Lê Prosa, podem ser qualificados de tudo, menos de belos. São terrivelmente humanos - duros, pungidos, tristes. É a sinfonia feita em serrote, sons agudos que ferem os ouvidos mais resistentes com verdades melódicas, retirando provérbios do seu lugar original. O título já faz aliteração com o Balé Real. É um dos melhores livros de contos do ano e uma das piores experiências de aniquilamento da inocência. Anuncia aos seus passageiros o desconforto em ficar de pé todo o trajeto. Como diz João Gilberto Noll na apresentação: "ali estão essas criaturas da deriva social, é certo; só que com elas, reforçamos nossa própria biologia, seja no riso, na excitação, seja na soma dos arrepios..."

Marcelino Freire não corta os pulsos, porém os pés, assumindo os dizeres de um de seus vultos: "é preciso pisar o chão, cortar a sola do dedo". Dilacera as palavras em fraseados, as frases em fases do grito. Somatiza fracassos, esfolando-se em vidros de muro, brasas, grades. Hipnose desencadeada em relâmpagos do cordel, em guinchos, em uivos. Crueldade assobiada, repetindo-se para se confirmar, para se conformar, como uma criança que busca sua casa e só vai se distanciando dela. Marcelino Freire visualiza a letra de perto, portando uma espécie de hipermetropia verbal. É como se o alfabeto estivesse em tamanho 48 em sua frente. Da sua lente de aumento, parte sua concisão, o enxugamento rimado, dizer quase estertor, quase extinção. Ela desenha o traço, borda, desarruma clichês, extraindo mensagens ocultas em citações populares. Sua composição sublinha o deslocamento, a fratura, o deslugar. Transplantar algo familiar para o inusitado, ampliando os efeitos dos contrastes. A oralidade poética manda no passo, compulsiva, com um coloquial apressado, enfatizando as vogais. Música natural contra o naturalismo.

Em BaléRalé, são dezoito improvisos, com personagens sujeitos ao mais paciente masoquismo. Mesmo ao cabo dos textos, ainda não se tem noção exata da gravidade dos efeitos colaterais. Como cantar uma letra em inglês sem entender a baixaria que ela expressa. Que mundo é esse, de Marcelino Freire, autor de Angu de Sangue e EraOdito, um dos nomes expressivos da geração de transgressores? Nijinski, que lhe serve de epígrafe, diz que sua dança é contra a morte. Aqui, a dança é com a morte. As figuras são solitárias, de medos clandestinos, revelando aos poucos as atormentadas personalidades. Desabafos derradeiros que cobiçam apenas a danação completa, que não deixa de ser uma forma de ansiar pela salvação. O pior é que o sofrimento unicamente alarga os limites e parece que não tem fim o túnel. Apesar do escritor tematizar o fundo do desespero, a linguagem é alegre, solta, viva, resultando um estado ambíguo de prazer e repulsa.

Da galeria insana de criaturas, um homem paga um travesti para ser comido. Em Phoder, o mais bem acabado, um velho com Mal de Parkinson (ou seria Alzheimer?) recebe uma prostituta, que recorda acidentalmente dos abusos paternos. Uma mulher transa com o assassino de sua filha. A neta atende aos pedidos insanos do avô. Um pai toma banho com filho quando a mãe vai trabalhar (e nunca há tempo para o futebol). Em outra seqüência, a mãe tenta declarar ao filhote que é homossexual. Um poeta pederasta adota um rapaz para seus passeios líricos. E assim Marcelino não poupa ninguém e nenhum personagem poupa Marcelino. Os algozes também são as vítimas. Não há hierarquia para julgar ou separar o bem do mal, a culpa do desejo. Não existe terapia individual, qualquer catarse será em grupo (cada pessoa é um condomínio, carrega nos atos mais banais uma fileira de parentes e traumas).

O sexo que conduz a maioria das narrativas não significa intimidade, mas a pura falta dela. A felação termina sendo a relação mais recorrente, especialmente com idosos dispostos a suspirar a carne. O sexo não influencia a solidão; produz um estouro animal, apenas isso. Quem conduz as histórias é justamente os que sofrem. Ferrados, sem nomes próprios, segurando-se com apelidos da hora, aproveitam o impulso público da dor. Falam para falir. Falam para si.

Estranho ainda que a homossexualidade surja em BaléRalé como um desvio negativo, um individualismo excludente e fóbico, feito às escuras, ilícito, pouco se lixando para as engrenagens sociais. É possível que seja um sintoma de que amadurecemos somente para fora de casa.

5:17 PM :: Comentários:

Recebi o livro Outono & Inferno (Topbooks, 107 páginas, 2002), do poeta Frederico Gomes. A obra é recomendada por Leonardo Fróes ("Ao contrário de certa poesia débil, que, sendo bordada com palavras, apenas contribui para aumentar a desordem, a deste livro ousa dizer o que quer") e Ivan Junqueira ("Frederico Gomes escreve uma poesia antes da existência do que da essência"). Deixo os versos iniciais e finais da coletânea, que bem definem a poesia:

"Não o escrevo,
o poema me escreve.
Não fala de mim,
fala em mim."

"Escrever
é apenas mais uma forma de silêncio."

1:39 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 16, 2003

Pátio:

Na minha rua, havia duas turmas de meninos: a que matava gatos e a que derrubava passarinhos. Não pertencia a nenhuma delas. Recolhia, velava e enterrava os bichos com direito a cruz amarrada por panos. Minha casa da infância guarda um cemitério de animais no subsolo. Os latidos da semente assustam as visitas.

9:18 AM :: Comentários:

Na mesa:


A pressa tem cheiro de café.
A paciência tem gosto de chá.



9:15 AM :: Comentários:

Cativeiro:

Eu tenho a mania de seqüestrado. Explico: estou sempre pronto para passar dias no cativeiro. Carrego uns três ou quatro livros na pasta mesmo tendo a certeza que não irei ler nenhum deles. Não posso sair de casa sem uma biblioteca portátil. Sofro da ânsia de me desperdiçar.

9:14 AM :: Comentários:

Deu no jornal Diário do Pará, caderno D, Belém, terça (16/09/2003):

As "conficções" de Fabrício Carpinejar

A sétima edição da Feira do Livro trouxe, na quarta-feira, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, supracitado por escritores como João Gilberto Noll, Marcelino Freire e o paraense Vicente Cecim. Carpinejar faz parte de uma nova safra de escritores brasileiros a se revelar nos últimos anos.
Ele diz ter muita afinidade com autores dessa mesma geração, principalmente os do Rio Grande do Sul, como Daniel Pellizzari e Daniel Galera, mas que também gosta muito dos de São Paulo, Nelson Oliveira, Marcelino Freire, Marçal Aquino etc. Para citar alguns nomes atuais, ele recorre aos paraenses Age de Carvalho, Benedito Nunes, Vicente Cecim e Max Martins.
Filho de poetas (Carlos Nejar e Maria Carpi), ele acredita que os pais possam ter influenciado sua escolha de forma indireta, mas que descobriu seu caminho através da poesia, que a define como "conficcional" - confissões inventadas.
Sobre a sua geração de escritores, ele fala: "Acho que é uma literatura que veio para ficar. Há um dirigente novo que é a solidariedade, são autores que se lêem e que não têm medo de errar. Eles não estão interessados em falsificar a história, em travestir a realidade. Eles são a realidade. Eles tem esse talento para o contágio, de se misturar, de retratar o dia a dia com voracidade, ser visceral, cômico".
Carpinejar entrou na mesma leva destes autores sobressaindo-se num gênero que passou a ser olhado com desconfiança ultimamente: a poesia. Ele percebe que os poetas estão mudando sua postura, que não estão mais se portando como indigentes dentro das histórias, estão mais confiantes. Sobre sua analise ao gênero que escolheu, ele afirma que "eles não estão mais usando aquela metalinguagem chata, excessiva. Estão mais abertos, mais preocupados em comunicar do que mostrar uma certa erudição. Nisso a poesia avançou. O poeta está descobrindo que essa generosidade é possível porque se um poeta valorizar outro contemporâneo, está abrindo espaço para a poesia. E é esse principio agregador que está mudando a mentalidade".

Marcelo Damaso

9:10 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 15, 2003

Cabelos brancos e barba grisalha:

Minha infância queria limo no pátio. As escadas ficavam esverdeadas, um tapete de frutas, esponja úmida. Mas não adiantava. Toda semana, a mãe lavava a calçada, varria com aço os azulejos e os degraus. Raspava o fervor do chão. Ela não entendia que o limo enobrecia a pedra. Uma pedra com limo parece inteligente, parece que pensa.

10:33 PM :: Comentários:

Sedex 10:

Greve dos carteiros é como não ter ônibus. Eu ando mais com as cartas do que com os pés. Meus dias terminam sem remetente.

10:32 PM :: Comentários:



Alguém dentro de mim
mente para me proteger.



10:18 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 14, 2003

Recomendo O doido da garrafa (Planeta, 130 páginas), de Adriana Falcão. A autora já tinha provado sua imaginação com A Máquina. São crônicas publicadas na revista Veja Rio. Nesse livro, não se fica com saudades de Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. A ficcionista é tão boa quanto. Seu humor é poesia. Sua poesia é humor. Um volume reversível: shampoo e condicionador. Ele expõe os impasses das relações, a comédia dos costumes de casais, velhos, loucos e crianças que vivem se escondendo atrás de fachadas, brincadeiras, mentiras e marquises. Sua fluência de contadora de histórias facilita o embarque. Tal como letra de música, a melodia dá carona. A escrita curta nunca diz demais, mostra um enlace hipnótico e o encaixe poético dos pensamentos. As fábulas contemporâneas fazem rir até doer a risada e a verdade dentro do riso. O doido da garrafa, utilizando uma imagem de Adriana, é como um biscoito fino que se come as bordas para preservar a figura. Numa frase ou mordida, a escritora resolve meio século: "Casa de Júlia. Locadora. Farmácia. Ia ter que deixar o enfarte e o banho para mais tarde." Ela tem a percepção do contrário, da surpresa, desfazendo as perspectivas comuns e os desfechos previsíveis, como o casal que se separa para ser feliz para sempre. O calendário ostenta graça em suas folhinhas. "Toda segunda-feira começa cedo mesmo que se acorde tarde." Destaco ainda Ramsés Terceiroe A babá. A obra é dividida em cinco seções: de amor, de pensamentos e divagações, doidos e afins, criação e cartas. A cronista atinge o clímax do erro ou do desastre, reconstituindo como as pessoas são levadas à deriva. Perita, cola os cacos, os fragmentos dos copos partidos e pratos quebrados. Decodifica os amantes em "grandes e pequenos". O pequeno ama, o grande se permite amar. Adriana se deixa amar. Em sua leveza, as palavras não mudam de idéia, são as próprias idéias. Luis Fernando Verissimo avisa no prefácio: "A grande aventura humana é essa mesma que começa na mesa do café, o êxtase e a glória estão juntos com o pão e a manteiga".

10:57 AM :: Comentários:

O suplemento Rascunho (Curitiba/PR) aborda Caixa de sapatos em sua edição de setembro. Há uma crítica de Luís Augusto Fischer, uma entrevista e poemas inéditos.

Biografia das solas de um pássaro com sede
A voz narrativa na poesia de Fabrício Carpinejar


Luís Augusto Fischer
Porto Alegre - RS

Caixa de sapatos
Fabrício Carpinejar
Companhia das Letras
76 págs.

Quem não é poeta e se mete a fazer versos meio por acaso, talvez nem se ocupe de pensar na grande quantidade e na não desprezível qualidade da poesia em língua portuguesa já existente. Nem falemos na poesia em outras línguas, que excede até nossa capacidade de imaginação e portanto é inabarcável em uma vida; fiquemos apenas com a poesia de nossa língua mesmo. Pois para aquele poeta despreocupado, essa massa de coisas escritas não aborrece, não constrange, não atrapalha, porque ele quer é dizer umas coisas, desabafar, chorar suas particulares pitangas. É um direito seu, tão certo quanto seus escritos não terem direito à condição de poesia.

Agora vamos pensar no candidato a poeta que cultive certo grau de informação em poesia. Trata-se se um sujeito leitor, que acompanha o fluxo da língua ao largo dos séculos, que freqüenta seu Camões, seu Cláudio, seu Cabral, seu Carlos, seu Castro, seu Chico, seu Caetano, seu Campos (que Deus o tenha) - para ficarmos apenas na letra c. O cara pensa em ser poeta, lê um tanto e descobre, aterrado, que tanto já se fez. Tanto que tonteia, paralisa e pode mesmo matar a vocação. Candidato a poeta com autocrítica e leitura é um infeliz.

Vamos ao grau máximo do problema: consideremos um candidato a poeta que tenha não apenas leitura, e portanto saiba do tamanho da encrenca que é achar um lugar para sua voz no meio do vasto coro da poesia já existente, mas que tenha simultaneamente um pai e uma mãe poetas, cada qual com vários livros publicados, leitores e dicção reconhecível. Pessoalmente, não consigo quantificar o quanto deve pesar isso tudo, que deve ser muito.

Algum otimista dirá que ter pais poetas facilita as coisas, e terá alguma dose de razão. Porque se os pais lêem o menino já tem ali, à mão, os livros, a tradição, o exercício de mexer em palavras, tudo isso que para quem não tem tal berço soa como raridade, como utopia. Mas o que me interessa aqui é sublinhar o lado negativo da equação: ser filho de um pai e de uma mãe poetas deve pesar uma enormidade.

Ocorreu isso com Fabrício Carpi Nejar - ele aglutinou os dois sobrenomes, um italiano e relacionado ao trabalho do carpinteiro (se bem que "carpire", como informa o dicionário, é bem outra coisa: surrupiar, extorquir), e outro com cara de médio-oriental e ar de verbo de ação, para formar seu nome de guerra, Carpinejar. Filho de um dos bons poetas brotados no calor dos anos 60, Carlos Nejar, e de uma poeta sensível, de revelação tardia, Maria Carpi, Fabrício veio ao mundo da poesia com esses encargos, a que se soma a maldição do nome, que traz nas entranhas a memória do "fabbro", fazedor. Sina pouca é besteira.

Tenho vários motivos para não postular distanciamento crítico em relação ao Fabrício. Nos cruzamos na faculdade, quando ele foi meu aluno num curso brevíssimo de literatura, era quieto e ainda não tinha nada publicado. Conheço seus pais há algum tempo (e fui professor de sua irmã antes de tudo isso). Para culminar, o Fabrício teve o pouco juízo de me tomar como orientador em seu mestrado, um belo trabalho sobre Manoel de Barros e João Cabral. Somos amigos, em suma, e isso certamente diminui as condições de frieza que um julgamento sereno requer.

Mas nada disso impede de falar sobre sua ótima antologia, recém-lançada, Caixa de sapatos. Ali, o poeta reúne o que lhe parece ser uma súmula de percurso, com poemas de seus quatro livros de até agora: As solas do sol (1998); Um terno de pássaros ao sul (2000); Terceira sede (2001); e Biografia de uma árvore (2002). Obra pouca, compacta e próxima no tempo, como se vê. Mas é uma obra respeitável, que tem a seu favor, antes de mais nada, um temperamento definido: é poesia que mistura auto-exame com comentário sobre o mundo. Talvez se possa mesmo falar de certa linguagem característica.

Vendo a coisa panoramicamente, Carpinejar parece ter desempenhado, na sucessão do tempo, um caminho que saiu do surrealismo para o realismo. O primeiro livro tinha muitas passagens obscuras, muitas e deliberadas inversões de sentido, tudo convergindo para uma sensação de leitura próxima do enigma, da opacidade. Os poemas não se entregavam, o sentido parecia estar em outro lugar, e o leitor (este leitor, ao menos) se sentia quase expulso do jogo.

Que a poesia não se entregue facilmente, é respeitável e mesmo desejável, ainda mais se tomamos a vigência da poesia-piada, que dilui as obscuridades no trocadilho simples. Fabrício estaria, assim, reposicionando as coisas ¿ de resto, nisso ele parece associar-se a uma vigorosa família contemporânea, de poetas relativamente jovens, com grande cultura letrada e por vezes grande ousadia, que parecem dispostos a batalhas de fôlego largo: tendo abandonado as facilidades semipropagandísticas da poesia como efeito imediato, é um pessoal que parece disposto a medir forças com a tradição exigente, de índole formalista mais que qualquer outra coisa. (Estava pensando em gente como o já provado Carlito Azevedo ou como o novato Eduardo Sterzi.)

Mas nos livros sucessivos, Carpinejar ajustou as tarraxas de sua lira em favor de mais comunicação. Seus livros passaram a permitir a leitura linear, como quase-narrativas que eram: apresentado um personagem, ou ao menos uma voz, os poemas iam-se sucedendo diante dos olhos de um leitor mais e mais inteirado da intimidade de uma história, de uma biografia, naturalmente inventada. No segundo livro, a Voz era de uma primeira pessoa que tinha acabado de rasgar suas vestes, em desespero, e se dispunha a argüir o Pai ausente. Nem precisa dizer que essa voz e esse pai são a cara de nós todos, que alguma vez precisamos pagar o preço da individuação pela medição de forças contra alguém maior. No terceiro livro, a voz era a de um velho, a dar balanço de sua vida; no quarto, já o título indica algo, Biografia de uma árvore.

Na antologia, Fabrício deu um jeito de realmente buscar o seu melhor. Numa obra, como se disse, de dicção narrativa, ele teve o discernimento de buscar mais os poemas autônomos, ainda que tenha mantido um mínimo das informações de conjunto sobre aquelas vozes. De tal maneira está articulada a seleção que se pode dizer de Caixa de sapatos que é realmente um novo livro. (Ainda esses dias, Marcelino Freire comentava que o recente livro é simultaneamente uma seleção mesmo, espécie de recapitulação da carreira, e uma novidade, porque permite leitura consistente apenas nos limites sua extensão, em suas restritas 76 páginas, sem precisar conhecer os livros originais.)

Do primeiro livro, preservou os poemas menos obscuros, e nisso agiu bem, a meu juízo. Em vários sentidos, o que foi antologizado é a autobiografia de um tímido. Versos como "Aprendeu a se deslocar parado" e "O homem mínimo/ pressentia-se mirado" estão aí para mostrar. Também ficaram alguns poemas com a volúpia da grandiloqüência, que é um mérito e talvez um limitador de sua poesia. Tome-se um poema assim:

A roldana palitava
a boca da cisterna

e o pescoço da luz vestia
o poncho do vento.

O verbo no imperfeito é narrativo, o gosto pelas imagens está claro, assim como a habilidade no flagrante descritivo, que quer deslocar o leitor, obrigando-o a deslizar os significantes e os significados habituais uns sobre os outros, nisso se aparentando com Manoel de Barros, uma sua admiração.

Do segundo livro, a vários títulos mais maduro que o primeiro, ficaram poemas que só se consegue ler com certo travo de mágoa e infelicidade. Em poema que denuncia a ausência do amado pai, lemos o seguinte desfecho:

Vestia tua camisa.
copiando o ritmo
dos teus braços,

a respiração copiosa,
sendo meu próprio
e definitivo pai.

Também aí aparecem as virtudes e o preço da busca pela sentença, traço de sua linguagem em todos os livros, traço que alguém explicará por certa proximidade que sua poesia tem (ou procura) com os textos de sabedoria, em sentido amplo, e com poetas dessa família, de Pablo Neruda a, claro, Carlos Nejar. "Herdei tua solidão// e não posso humanizá-la./ Um segredo compreendido/ é um segredo morto", diz a voz inventada por Fabrício no mesmo Um terno de pássaros ao sul, num desfecho que é também a moral da história.

Os dois livros mais recentes forneceram para a antologia um punhado de poemas ótimos. Para meu gosto, são particularmente felizes aqueles em que a poesia se expressa em forma de perplexidade e mesmo de paradoxo, indo além da inversão de sentidos e do mencionado deslizamento, que se faz por analogias mas também em chave alegórica. Pode parecer singelo, mas é consistente que um homem se pergunte, num poema que quer entender o preço da separação, assim: "Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço./ Como povoá-lo após tua partida?". Da mesma maneira, faz sentido alguém se olhar no espelho e apelar para certo irracionalismo confessional, como ao fim de outro poema: "Até quando serei o que compreendo?".

É de coisas assim, imagino, que Fabrício Carpinejar vai encontrando leitores, num tempo complicado para uma poesia como a dele, que tem afinidades com a tradição imagética e que precisa competir com a vastidão da oferta de imagens nos meios eletrônicos. Que ele venha se saindo bem nesta arena, desembotando a percepção de seus leitores e instilando neles um sopro de renovado lirismo, é uma notícia auspiciosa, para sua poesia e para a força da língua em que nos expressamos.

LUÍS AUGUSTO FISCHER é professor de Literatura Brasileira na UFRGS, crítico literário e escritor. Seu mais recente livro é Literatura Brasileira - modos de usar, pela editora Abril.


ENTREVISTA: FABRÍCIO CARPINEJAR


"Minha paranóia é me perseguir"
Rogério Pereira
Curitiba - PR

Fabrício Carpinejar tem apenas 31 anos e é hoje uma das principais vozes poéticas da literatura brasileira. Seus poemas carregam a marca da conversa. Sem hermetismos e experimentalismos, descarrega em sua poesia traços indeléveis de vida, aproxima-se do leitor e luta para que a poesia brasileira ganhe força pelos mais longínquos grotões.

Uma antologia aos 31 anos prova o quê?
Não preciso provar nada. Só quem prova é culpado. Minha única culpa é ter nascido e já desisti de me livrar dela. Aceito essa condicional. Estou disposto a quebrar expectativas. Chega de preconceitos e planos de viagem. Quem me espera lá no final vai me encontrar antes. Antologia costuma ser publicada quando o poeta está no estertor da carreira. Como não é uma profissão para mim, mas vocação e fome, publiquei a seleta na minha juventude. Algo a menos para pensar depois (risos). Ninguém precisa envelhecer para reler o que escreveu ou para dizer a que veio. A juventude não depende de uma hierarquia etária para opinar. Há duas formas de medir a idade: por aquilo que deixamos de viver ou por aquilo que amamos em demasia. Prefiro a segunda hipótese. Pecar pelo excesso de afeto. Caixa de sapatos não é a substituição de meus livros anteriores, mas uma outra obra, de invólucro inédito, sem o contexto narrativo, que pode agregar valor ao que disse antes.

Você sempre diz que a poesia não pode ser crime premeditado. Por quê?
É passional, livrando-me dos condicionamentos intelectuais, morais e religiosos, das implicâncias da vaidade. É fúria, não há meios de requentar a paixão. Não sou de ficar fiando álibis e forjando cúmplices para justificar minha escrita. Ser escutado depende do entusiasmo do timbre. Uma voz que não se entusiasma não levanta nem a si mesma. Minha solidão é grande o suficiente para assumir a responsabilidade. Intensifico tudo o que vivi imaginando. Não há totalidade de um sentimento, mas a lembrança que nos remete ao que poderia ser essa totalidade. Há poetas tão perfeitos tecnicamente que não se acha a emoção, muito menos o poema. É construção civil. Cimento ao invés de semente. Sou do erro, dos nervos estalando, do pensamento que se desmente no meio da fala, da contradição, da loucura desorganizada que é minha única forma de chegar perto das pessoas. Nunca fui bom de dicção, fazia desenho para dizer onde a palavra estava, me esforcei em reconstituir a imagem pela sinuosidade da caligrafia.

A prosa está em seus planos literários?
Não tenho planos, muito menos jazigo antecipado. Plano é para quem faz seguro de vida. Minha poesia não me salvaguarda dos riscos, das apostas. Em cada poema, ponho o que já ganhei e posso falir em um único verso. Essa sensação derradeira me comanda. Ensaio sempre um aceno quando começo a digitar. A poesia não é rascunho do ficcionista, uma preliminar, é a própria ficção em carne viva. O que faço são fábulas. Na infância, escutava as lendas de Leonardo da Vinci e de Simões Lopes Neto. Essa mistura foi explosiva. Meus ouvidos puxaram mais a tempestade do que a brisa. Curava verrugas com o leite das folhas das figueiras. Nunca tive medo das cicatrizes. É a única pele que rivaliza com a longevidade do osso.

Como se constrói o seu projeto poético?
Destruindo. Todo o texto tem que sobreviver ao esquecimento. Ninguém é pai de um poema sem ter sido filho dele antes, sem ter o esperado na janela. A humildade serve ao amor e à literatura. Quando se está a fim de um mulher, o homem é capaz de ser extremamente patético, se rebaixar e sacrificar o orgulho. O mesmo funciona para a poesia. Não se deve se importar com o que já foi feito, mas com o que pode ser dito. Nunca olhei para trás para ver se estou sendo seguido. Minha paranóia é me perseguir.

Quem é o grande poeta brasileiro atual?
Não vivemos em uma monarquia para venerar um único rei, para eleger um único poeta. A pluralidade nos salva de nossos defeitos. Há essa mania crítica de querer encontrar uma única realeza literária para dispensar a procura e a leitura de nossos contemporâneos. É mais preguiça do que profecia. O grande poeta pode estar onde menos se espera.

O fardão da Academia Brasileira de Letras e a pilcha gaúcha combinam?
Nem o cantor Falcão faria essa combinação. Isso é redundância.

O Rio Grande do Sul é o seu país?
Não sabia que eu vivia no Uruguai (risos). Quando nasci, me falaram que era um poeta brasileiro e nunca fui notificado da dupla nacionalidade. Acredito que meu olhar começa no Rio Grande do Sul, mas minha voz não está regrada a uma geografia. O poeta não reproduz um mundo, mas cria o seu mundo. Minha pátria, minha bagagem, é o corpo. Quando me tirarem dela, pensarei no exílio.

Os compadres poéticos vão vencer a guerra?
Minha guerra é a trégua. Chega de guetos e tribos, de bandos e bandas, de pensar que a poesia é uma competição própria de hipódromo. Os poetas podem e se ajudam mais do que é visto. Traduzem e doam sangue para que seus textos preferidos de outros autores ganhem o devido destaque. É estranho que essa solidariedade espontânea não seja identificada. Quanto maior o espaço para a poesia, maior será a predisposição dos leitores com o gênero. Conheci a carência quando pequeno e posso dizer que ela, ao invés de me tornar avarento, me ensinou a repartir. Reparto o que não tenho, mas aquilo que posso me tornar. A poesia passou as últimas décadas se negando e negando a vida. É o momento de ser afirmativa, bem humorada e com a coragem de suscitar um mundo compatível com o cotidiano e a verdade da imaginação.

Ser filho de poetas é nascer rimado?
É quebrar a rima. Quebrei o soneto do pai e a elegia da mãe. Nasci para incomodá-los com um poema conversado. Sou órfão de vôo. Eles não merecem minha culpa. Tem coisas que só sei contar ao texto, a mais ninguém. A poesia é minha confidente, onde me calo para falar. Escrever por necessidade é a minha liberdade.

A crítica literária brasileira é anêmica ou medrosa?
Machado de Assis já advertia: "melhor cair das nuvens do que do terceiro andar". Os críticos brasileiros ainda não desceram das nuvens, festejam os clássicos ao invés de respirar os novos. Têm uma dificuldade congênita de desafiar previsões e modismos. São canônicos, passam a idéia de que já nasceram centenários. Outra coisa: nota-se uma ausência de ensaístas que não sejam ficcionistas ou poetas, que não tenham essa ligação com a própria criação, com um distanciamento salutar para opinar no descompromisso. Falta-nos puros críticos, fascinados unicamente pela alegria da leitura.

Que tipo de poesia te desagrada?
A que fez o leitor acreditar que era burro, que partia do princípio de que o mais complicado é o melhor. Da mesma forma, não gosto da poesia de realismo publicitário, de trocadilhos infames feitos para vender espuma, de brincadeiras inconseqüentes. Respeito a linguagem e é ridículo testar sua força. Ela é tudo o que posso.

Você tem medo de que sua vida caiba numa caixa de sapatos?
Não. Uma caixa de sapatos nos prepara a aceitar os limites. Ela é o pátio das mãos, onde se coloca os objetos e recordações que nunca pararam de nos visitar e de nos reinventar. A vida é intensa em seus pequenos espaços. Quero cada vez mais o mínimo, desescrever, aquecer os olhos com o vento, sentir a delícia da simplicidade.

Que ausências te assustam mais?
As distrações que nunca serão poemas, nunca serão amores, nunca serão filhos, nunca voltarão a ser.


10:42 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 13, 2003

OUVIDOS MUSICAIS:
Nem sempre poemas refeitos ficam melhores. Algumas vezes eles perdem a própria espontaneidade, o som da faísca, a sensação inigualável no leitor de que foram criados exatamente no momento em que estão sendo lidos. O poeta deve saber o momento de se retirar. Perfeição atrapalha. Isso pode acontecer com grandes autores. Até com Carlos Drummond de Andrade. O romancista Autran Dourado, em Poética de romance/Matéria de carpintaria, chama atenção para a revisão drummondiana feita nos versos de A boca.

O original, publicado em Brejo das Almas (1931-1934), começava e terminava dessa forma:

Boca que nunca beijarei
boca de ouro, que ri de mim.(...)


ri sem beijo para mim,
beija outro, com seriedade.


A segunda versão, publicada trinta anos depois pela Nova Aguilar, traz a seguinte formulação:

Boca: nunca te beijarei.
Boca de ouro, que ris de mim,(...)


ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade


Qual é o melhor? Eu concordo com Autran Dourado. Aprecio mais o primeiro modelo pela sua "graça séria". O segundo peca pela formalidade ao tratar a boca na segunda pessoa. Ris tira o desejo de qualquer um. A música inicial puxava o som para perto da realidade.

7:21 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 12, 2003

Os comentários não funcionaram nos dois últimos dias. O problema já está resolvido com a ajuda do amigo Charles Pilger, o verdadeiro responsável por ter começado esse blog.
11:19 AM :: Comentários:

VER-O-PESO, VER-O-RIO



Voltei de Belém, cidade que já entrou em meu imaginário. Fui destaque do Café Literário da Feira Pan-Amazônica (confira matéria). Público solto, animado, sequioso. Toda palavra era sorvida ainda em pensamento. Tudo lotado. Autografei Caixa de sapatos para muita gente. Não esperava essa correspondência elétrica, imediata. Conversei com o grande Vicente Cecim e sua fabulosa mãe, Yara, também contadora de histórias. Conheci Nicodemos Sena, Linda Ribeiro, entre tantos feições inscritas nas pedras de meu rosário. Soltei a palavra sem pedir reembolso postal. Participei de programas em rádios, tevês, professei poesia ao vivo no Sem Censura na TV Cultura local. Dormi pouco (o hóspede anterior de meu quarto me fez o "favor" de deixar o rádio-relógio marcado para cinco horas da madrugada), levitei distrações pelo Rio Amazonas, que não tem o hálito de fumante do Guaíba. Dá para enxergar os joelhos do sol na Estação das Docas, onde aconteceu a feira. O céu é mais baixo, aproveitando a inclinação da ilha. Todo relâmpago conversa dentro dos ouvidos. A luz não sussurra em Belém.

Calor danado. Deixei Porto Alegre com 6º e aterrissei em um Pará de 38º. Adorei o nome da feira de frutas, roupas e artesanato: Ver-o-peso. Enxergar o peso é gesto lírico. Estive na Feira do Açaí, onde pescadores vendem e cortam seus peixes na hora, ainda tontos das redes. Crianças se banhavam em um trampolim improvisado de caixotes de madeira. Vi uma provisão de pássaros, como as pombas da prefeitura e da Praça da Alfândega na capital gaúcha. Fiquei, a princípio, emocionado, com as cordas dos veleiros trançadas na plumagem negra das aves. Depois me dei conta que era uma centena de urubus. Nunca vi tanto urubu. Mas são urubus civilizados, que te cumprimentam na rua e até assobiam para tomar um táxi. Passei ainda no Forte do Presépio, com aqueles canhões de 1856, antigamente municiados por 12 homens e que atingiam uma distância de 4 mil metros. Os muros do castelo foram untados com óleo de peixe (óbvio, não havia cimento na época). Impressionante a história indígena do local. Espíritos dos tupinambás continuam escalando o vento. A maioria das casas do centro é do século retrasado. Muitas residências estão sendo usadas para mecânica e oficinas de conserto. A vida tomba os casebres, não a história. Passei pela IAP (Instituto de Artes do Pará), conversei com Regina e Lana, amáveis. Os pássaros tocam mais alto do que os telefones. Ficam no alto dos galhos, perto das mangas e frutas. Como diz o gaúcho Izquierdo, o viveiro faz parte do silêncio. Deixei um livro de Lorca em uma padaria, seguindo instruções do terrorismo poético. Escutei alguém gritando que havia esquecido alguma coisa, mas não olhei para trás. Caminhei pelas ruas longe de ter um destino - toda esquina pode ser teu destino. Fartei-me de bombons de Cupuaçu, Açaí e castanha do Pará. Água de coco custava 0,50. Costumes são diferentes. As pessoas colocam o refrigerante para tomar em um saco plástico, tal gasolina em carros apagados, deixando os cascos de lado. Quando elas gostam de alguma coisa, exclamam: - égua. Todas as palavras têm muito erre sozinho no meio das palavras. Eu me enrolava na hora de dizer. Falei rápido para escapar da dicção da infância. Arara ainda não sei dizer. É bom deixar algo para depois.

10:13 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 09, 2003


Hoje é o dia. Nesta terça (9/9), estarei autografando Caixa de sapatos às 19h30, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country), em Porto Alegre. Te espero lá. Na quarta (10/9), parto para a VII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém (Pará), onde participo de um café literário e sessão de autógrafos de meu livro.

Lançamento mexe comigo. Fica-se vulnerável, exposto, tímido. Esqueço o meu nome no meio do caminho. Ansiedade, arrebatamento, tudo misturado. É como o primeiro dia de aula. Tanto faz que cresci, nossas pupilas nunca são adultas o suficiente para a alegria. Não se tem certeza qual será a nossa turma, se seremos aceitos ou não, amados ou não. Amigos que a gente não vê há tempo, amigos que ainda não conheço, amigos que tanto necessito. Cada rosto que se aproxima é a roldana de um pátio, o sol sorvido aos poucos. Lançamento é a despedida dos meus poemas. Eles que ficaram tanto tempo comigo agora são do leitor. Nunca sei quando parar o aceno. Fico com a mão estendida até o trem cansar de partir. Não faço dedicatória, coloco na primeira página cartas e poemas que nunca foram escritos. Me desperdiço, me doou, me comovo, me arrebento de existir. "A claridade não se repete. A vida estala uma única vez."

11:33 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Porto Alegre, 09 de setembro de 2003, Edição nº 13898:

Literatura
Poesia reunida, metáfora da vida
Carpinejar autografa hoje "Caixa de Sapatos", antologia pessoal de poemas
CÍNTIA MOSCOVICH

Foto(s): Antônio Pacheco, Banco de Dados/ZH

Carpinejar firmou-se no cenário brasileiro em apenas cinco anos

Um dos expoentes da nova geração de poetas brasileiros, o gaúcho Fabrício Carpinejar autografa hoje, às 19h30min, na Livraria Cultura do Bourbon Country (Tulio de Rose, 80, fone 3028-4033), Caixa de Sapatos, antologia pessoal que reúne poemas de seus quatro livros publicados nos últimos cinco anos.

Selecionando material de As Solas do Sol (1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (2000), Terceira Sede(2001) e Biografia de uma Árvore (2002), Caixa de Sapatos foge do esquema épico-narrativo que norteava o trabalho de Carpinejar - o arquétipo familiar e o personagem Avalor, voz que unificava seus livros anteriores, desaparecem. Partindo da paisagem urbana do Rio Grande do Sul, com uma nova estrutura lírica, os poemas ganham autonomia, interligados pela atmosfera de descoberta e interrogação, todos trazendo a marca das inversões semânticas e exploração sonora. Na nova obra, o autor compõe uma fábula contemporânea, que discute as relações familiares, a velhice, o sentimento amoroso e a própria poesia.

Aos 30 anos, formado em Jornalismo, trabalhando como assessor de imprensa da Unisinos, Carpinejar colhe precocemente o reconhecimento que, pela ordem de praxe, demandaria anos e anos de intenso trabalho. Protagonizando uma carreira meteórica e ascendente, além de lançar uma antologia, o poeta já virou nome de prêmio de incentivo literário em São Leopoldo, onde mora, e já colheu importantes distinções literárias, como o Prêmio Nacional Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, duas vezes o Açorianos de Literatura nos anos de 2001 e 2002, os prêmios Cecília Meireles e Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores, o Marengo D´Oro, em Gênova, na Itália, além de merecer o Destaque Literário da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Depois da sessão de autógrafos de hoje, Carpinejar lança Caixa de Sapatos em outros Estados. Amanhã, o autor é um dos destaques da 7ª Feira Pan-Americana do Livro em Belém do Pará e, no dia 30 de setembro, autografa a obra em São Paulo.

Poema do livro "Caixa de Sapatos"

Cumprias distâncias em mim.
Madrugada não alcançaria.
Venho de tua lonjura, os braços eram remos
no barco e aço da âncora.

Acostumado à extensão das raízes,
não sobrevivo no vaso dos pés.

Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço.
Como povoá-lo após tua partida?

Serviço
O QUE: lançamento de Caixa de Sapatos, de Fabrício Carpinejar (Companhia das Letras, 76 páginas)
QUANDO: hoje, às 19h30min
ONDE: Livraria Cultura do Bourbon Country (Tulio de Rose, 80, fone 3028-4033)


11:29 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 08, 2003

Os dois morros não se falavam mais. Levantaram uma neblina entre eles. Nasceram da mesma erupção vulcânica. Não têm o mesmo pai, mas a mesma mãe. Um ficou sentado do lado do mar toda a vida. O outro repara eternamente o corredor. Nunca trocaram de lugar. Os dois morros aindam disputam alturas. Ninguém queria ficar embaixo no beliche. A águia é a única que ainda tenta reuni-los. Os dois morros ventilam as trilhas; são tamancos abandonados. Ambos do pé esquerdo.
8:03 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 07, 2003

Fui para Eldorado, em Guaíba. Comi ameixas. Fazia anos que não comia ameixas. Fruta de minha infância. Nos galhos, as bolas de futebol hibernavam durante o inverno. A ameixeira era escada que me levava até o telhado do vizinho, onde descobri a primeira menina nua. Minha vizinha estava saindo do banho. Era linda de perder o olhar de vista. Não tive coragem de continuar olhando, fiquei imaginando. Foi uma espiadela, breve e longa. A ameixeira foi cortada de repente pela mãe. Virou tronco de São Sebastião, cabide de chapéu. Deixei de subir no telhado e de espionar minha vizinha nua. Deixei de me deixar.

10:24 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 06, 2003

Quem procura as melhores palavras, ainda não está certo. Devemos procurar o melhor silêncio. O silêncio exato. Ninguém precisa provar o que o sangue entende. Não me esqueço o dia em que não fizemos nada, nada mesmo, parados, nos olhando como cúmplices, rindo a esmo, abraçados, olhando a janela como um vinho aberto. O futuro passeava pela janela. Talvez tenha me visto de mãos dadas com ela na velhice ou na infância. Não importa em que tempo estávamos. No nosso idioma, as pequenas gentilezas, como empurrar a cadeira para sentar ou amarrar os cadarços um do outro, já são suficientes para nunca esquecer os dias.
9:24 PM :: Comentários:

Eu vim morar em São Leopoldo por uma mulher. São Leopoldo é também uma mulher. Não apenas uma cidade em que fiquei, mas uma mulher que eu escolhi. Escolhi amar a cidade não para exibir suas qualidades, mas porque tenho consciência que faço parte dos seus defeitos. Os defeitos são virtudes que estão amadurecendo. Assim como a mentira é apenas uma verdade ganhando tempo para dizer a verdade. A cidade cresce comigo, habitando-me, dando o que comer para minhas distrações. Sou o que imagino além do que vejo. Poderia dizer que aqui faltam praças, cinemas, teatros, é óbvio que faltam; vou me esforçar para não reclamar do tempo feio, aproveitar a chuva para exercitar meus ouvidos e imaginar que podemos ter teatro, cinemas, praças. As calhas são minhas confidentes. Minha tristeza é charme para pedir algo. Supero as aparências. A vida é mais simples do que se supõe, desde que se compreenda que a leveza é inesperada e a alegria atenta. Desde que se compreenda que não precisamos ficar preocupados com que poderemos ser, porém em oferecer o que temos. A cidade é uma mulher. Minha cidade é Ana. Para outros homens, pode ser Teresa, Natália, Cláudia, Angela. Cada um escolhe um nome secreto para economizar Deus. Da minha janela, há pessoas que determinam meu destino, mesmo elas não sabendo. Vejo agora Sady e sua casa verde, meu vizinho da José Bonifácio. Não sei muito dele, além que tem gnomos e anões de jardim e uma casa com um teto alto. Deve usar escadas para trocar lâmpadas. Uma simples cadeira não serve. Ele sempre está sorrindo, puxando papo com as crianças e com que ainda não foi atropelado pela pressa. Nunca o vi ranzinza. Já o reparei entregando um buquê de rosas para sua esposa, escondendo atrás dos braços e pensando que ninguém iria notar aquelas pétalas esvoaçantes. Acho que ele trata a cidade como sua esposa.
Quem a gente conhece pouco, pode ter muito a nos completar, mesmo que na forma de um silêncio generoso. Lembro da feijoada baiana da Maria da Conceição. Comi prendendo a respiração, em algum canto da Feitoria. Estou sempre perdido. Perder-se é se encontrar; tudo se torna destino. Passeio pela rua Independência como se ela conhecesse mais de mim do que eu próprio. Vicente quer descer à rua para enxergar o cachorro preto. Mariana prefere subir es árvores para ganhar altura. Cada um encontra seus motivos. Parafraseando Italo Calvino, "pode ser que eu tenha medo de repentinamente perder São Leopoldo, se falar a respeito dela. Ou pode ser que, falando de outras cidades, já a tenha perdido pouco a pouco". Talvez a resposta de São Leopoldo esteja numa rua que ainda não foi pavimentada.

9:24 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 05, 2003

Hoje não estou no trabalho, em casa ou em mim. Minha sogra, que não vejo como sogra. Mais do que tudo, a avó dos meus filhos, a avó amiga, com seus cabelos crespos que me agradam como moldura de olhos fortes, com suas mãos lentas de orvalho esbravejado, com sua pele funda de umidade contida, com seu vestido de evaporação de aves. Essa avó teve um derrame. De uma hora para outra, esqueceu tudo. Nenhuma lembrança subia nem pelas escadas muito menos pelos elevadores. O apagamento da escrita, da assinatura, do miolo da voz. Ela poderá se recuperar - precisará de dias para dobrar a maçaneta novamente e corresponder os nomes que vão dentro dos nomes. Passei a noite em claro no hospital. Vi um jovem menino esperando seu primeiro filho nascer, arfando um medo alegre de seu próprio medo. Vi um homem baleado, que viria a morrer, após reagir a um assalto. Vi sua mãe em prantos, não encontrando assento ao peso do seu rosto, e o filho chegando tarde demais. Vi uma indigente que filava cigarros de todos e estava ali para fugir do frio e assistir a novela na recepção. Vi um carroceiro estacionar no saguão sua máquina de papel com dois cds de faróis. Vi um funcionário me reconhecer como poeta e recitar seus versos sem me perguntar se havia gente dentro dos ouvidos para falar. Eu sei que o mundo me assistia também. Escrevo para me livrar da dor, mas a dor é que se livra lentamente de mim. Amanhã tentarei levantar, preciso que me puxes.
9:06 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 03, 2003

Meu novo livro Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 80 páginas) está na seleção da revista Bravo! de setembro (Ano 6, N.º 72) Por Almir de Freitas.

Por que ler: A obra poética de Carpinejar é uma boa surpresa no panorama literário brasileiro, especialmente por sua independência, que destoa do ambiente de "panelinhas" que domina a área

Preste atenção: Em como, ao longo da antologia, a obra do autor vai do poema curto à elegia longa, com versos que sempre exploram o potencial das palavras, com concisão e imagens fortes.

10:03 AM :: Comentários:

Trote II
7h, horário da Ceasa
Toca o telefone. Ainda estou dormindo. Para variar ou eu me levanto e atendo ou o pequeno Vicente acorda de vez. A paternidade não te deixa escolha.

- Alô? Foste sorteado...
- Eu?
- Com uma cesta de frutas da Feira de Produtores.
- Feira de Produtores?
- De São Leopoldo. Não é o Derli?
- Não sou nem parente dele.
- Desculpe foi engano.
- E a cesta de frutas?

10:01 AM :: Comentários:

Trote I

Cheguei de madrugada em casa e havia um bilhete na porta de entrada avisando que eu não teria água por uma medida de limpeza da caixa do prédio. Medida de limpeza que não me incluía.

10:00 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 02, 2003




Meu avô Leônida me ensinou a ficar de pé. Eu ainda espero devolver seus olhos no final do corredor.



11:43 AM :: Comentários:




Vou convencer a eternidade a envelhecer junto. A semente explode sem nunca saber que havia uma árvore contraída nela.



11:41 AM :: Comentários:

Uma das mensagens mais comoventes que recebi sobre meu novo livro Caixa de sapatos (que será lançado na Livraria Cultura, em Porto Alegre, no dia 9/9, às 19h30) foi de Ivo Barroso:
"Você consegue surpreender sempre: espera-se de uma antologia a reunião de toda a obra do poeta, geralmente num volume grosso: você conseguiu extratificá-la num volumezinho menor do que cada um dos seus livros individuais. A essência! Ave, poeta! Eu, em vez de chamá-la Caixa de sapatos, tive a impressão de que estava diante de uma Caixa de Lápis de Cor, que era o encanto de minha meninice. Um sol guardado na pasta do colégio, a paleta do deslumbramento."

11:40 AM :: Comentários:

Nas manhãs dos sábados (27/9 e 4/10) , faço uma oficina de poesia, intitulada "O verso de bom humor", em Lajeado (RS). Estou no local apropriado: no 2º Salão de Humor da Univates. Abaixo a poesia mortuária! Melhor companhia impossível. Rodrigo Rosa conduzirá uma oficina de cartum. O homenageado dessa edição é Edgar Vasques. Informações: (51) 3714-7000
11:38 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 01, 2003


Fui tantos
que não sou capaz de me reconhecer na rua.





10:44 AM :: Comentários:

Frase do dia:

"Quanto perco em luz
conquisto em sombra"
Carlos Pena Filho

8:00 AM :: Comentários:

Da série "Nunca vi nada igual":

A respiração é o ouvido do inverno.


7:59 AM :: Comentários:

Estarei lá: O sarau Palavra Nova, da AGEs (Associação Gaúcha de Escritores), recebe a poeta Maria Carpi, autora de "A Força de não Ter Força", para leitura de seus poemas. Haverá um convidado-surpresa que fará a análise crítica da obra. O encontro acontece nesta terça (2/09), às 18h30, no 5ºandar da Casa de Cultura Mario Quintana. O público é convidado a ler textos da escritora em destaque.




7:55 AM :: Comentários:

Marly de Oliveira fez uma homenagem ao Caixa de sapatos com um poema:

Já se aproxima a primavera
e um novo livro de Fabrício
alvoroça a leitura,
pássaros e árvores
na sua biografia,
o leitor desafia
e se pergunta como pode
sempre a invenção
em poeta tão jovem

sempre a surpresa desmentindo
o retorno do mesmo no outro,
em sua concisão
intensa e tão precisa
que não se acham as entrelinhas
para qualquer descobrimento,
para que não se esgote de uma vez
o que cresceu na noite,
no silêncio, como hera.

7:52 AM :: Comentários: