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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Outubro 31, 2003

VOLTAS NA QUADRA
Fabrício Carpinejar

Ninguém lê por obrigação. Ninguém vai procurar o que o autor pensa. Toda leitura é feita pela vaidade de se descobrir ou de se aniquilar. Sim, parece estranho, mas muita gente procura nas obras argumentos e pretextos para o seu pessimismo. O que seria da adolescência sem uma frase de Nietzsche para assustar definitivamente os pais? Da mesma forma, há outros leitores que procuram um livro como quem vai ao terapeuta. O terapeuta permanece calado toda consulta, o leitor é que fala. Não difere muito a situação. Não existe livro puro. Sempre que alguém folheia o recinto, já despeja sua vida de imediato. A facilidade também seduz. O livro ideal é aquele que diz tudo no título, a exemplo de "Como atingir o orgasmo em três toques", dispensando maiores compromissos. É mais fácil seguir as instruções de um livro de auto-ajuda com suas dicas maleáveis do que os dez mandamentos (não cobiçar a mulher ou o livro do próximo é praticamente impossível!). Para os esportistas literários, a leitura não é um destino, mas um desejo. Exercita-se os músculos da memória. É como um cooper contra o esquecimento. Três páginas lidas equivalem a uma volta na quadra. Queima-se alguma coisa, não sei se são as calorias. Imaginamos o enredo, os personagens, os versos com nossa cara. Personificamos a trama. Na verdade, o autor não existe, nem precisava existir. Em um poema com o título "Escrito num livro abandonado em viagem", Fernando Pessoa, poeta português dos maiores, se auto-exclui: "Fui, como ervas, e não me arrancaram." Afora toda piedade que emana de tal afirmação, ele tem razão ao comparar o escritor com a discrição das ervas. Planta tão modesta que não serve para ser jogada fora. Fica fazendo fundo na horta, no quintal ou nas beiras e eiras da calçada. Para quem acredita em libertação pela leitura, deve pensar melhor no sentido daquele lugar comum: o livro me prendeu, não conseguia parar. Livro prende, permanecemos seus reféns o resto dos dias. Descobre-se, enfim, que a sabedoria não vem da erudição, do conhecimento acumulado, da decoreba e do catálogo telefônico de citações. Sabedoria acontece quando coincidimos o que lemos com o que vivemos.
(Texto publicado no libreto Leituras Obrigatórias, da Editora Unisinos, que será distribuído na 49ª Feira do Livro de Porto Alegre)

7:25 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 30, 2003

* Era Dia de Finados e dois amigos, sentados no meio-fio, entre os túmulos, conversavam sobre seus limites. Com ares proféticos, um deles afirmou: "a morte é a memória de tudo o que esqueci". O outro, rebateu, nem esperando as palavras terminarem de sair do som. "É estranho que as pessoas que voltam do além sempre contam que viram uma luz maravilhosa. Mas se é tão maravilhosa por que elas voltaram?" Atento, o primeiro novamente disse: "Só converso com Deus se tenho carona de volta".

10:18 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 29, 2003

Da série Nunca vi nada igual:

* A água é muito influenciável. Toma a forma do que vê.

8:44 AM :: Comentários:

POESIA
Uma caixa-oração
Poesia de Age de Carvalho propõe o despedaçamento da escrita e a autonomia dos fragmentos
Caveira 41
Age de Carvalho
7Letras / Cosac & Naify
105 págs.

Engana-se quem pensa que a realidade é dada - é adquirida com esforço. Percebe-se essa apreensão extenuada do real em Caveira 41, de Age de Carvalho, publicado pela coleção Ás de colete (o nome homenageia Zuca Saldanha), da 7Letras e Cosac & Naif, editada por Carlito Azevedo e que vem trazendo à tona poetas de força e pluma, leveza e autoridade de vôo. Esse novo livro tem unhas cortadas, polidas (as pontas das folhas são curvas), diferente das primeiras edições da série, de capa dura, que apresentaram as antologias de Adília Lopes e Cacaso.

Age de Carvalho, 45 anos, ainda é um culto para poucos amigos. Um caminho diferenciado na poesia brasileira, que o isola quando o deveria destacar. Escavador de correntes subterrâneas, oferece textos cifrados, misteriosos, que não aceitam a elucidação imediata e o código de barras. Paraense (como os geniais Benedito Nunes, Haroldo Maranhão e Vicente Cecim), radicado em Viena, fazia tempo que não publicava. Sua produção inicial saiu por editoras locais em Belém. Sua última obra, a antologia Ror, veio a lume em 1990 pela coleção Claro Enigma (Duas Cidades). Significa uma oportunidade de matar a saudade, coletânea de escritos de 1991 a 2000.

A realidade de seus versos é conquistada, apanhada aos sorvos, aos corvos. É uma peça de oratório, poesia tão pura que se assemelha a um transe. Age de Carvalho faz uma lírica do ainda, da duração, da permanência grave e atordoante que abre e fecha segredos. Todo poema é um ato de difícil escolha, de definição de vida e de imersão na voz. Lírica das margens da estrada, onde até a árvore é portátil e se carrega junto ao paletó. A pedra se movimenta, mas o rio é paralítico. Breviário do relance, não do olhar demorado nas coisas, pois o relance estranha as coisas em uma outra intimidade. É um olhar a esmo, não perdido, confiante no ato de ciscar. Quanto mais rápido o olhar, mais a ordem se desestabiliza. Há um estranhamento cultural e biológico, talvez derivada da estada do escritor no exterior e que gera uma posição deslocada de fora para o cerne. Tanto que a expressão "turista terminal", presente em Caveira 41, sintetiza essa duplicidade e valorização de um angulamento novo. O crítico Júlio Castañon Guimarães observou tal impulso externo-interno: "A poesia de Age de Carvalho caminha num sentido em que, mais do que se valer da linguagem, revela estar penetrando na linguagem". O atrito é exercido na imposição de falhas e na criação de uma mudez característica do teatro de Becket. De uma hora para outra, sente-se que a luz vai cair, algo vai quebrar entre os diálogos. Um poema do livro de estréia, A arquitetura dos ossos, anunciava esse mandamento: "serei inacabado e breve". Domina um sentimento depois da esperança, uma serenidade que é a maturidade e que pode ser caracterizada como fé dos desastres. O acaso não será mais abolido. /A cantar: a trans-/ ferida faca n' água/ a nos abençoar/ de mão em mão." As palavras são fraturadas, como pedras de um colar desfeito que ganham um outro brilho e velocidade quando isoladas. As assonâncias reforçam a miniaturização lírica, um enredo feito de fragmentos, com pouquíssimos adjetivos, disposto à autodestruição e ao despedaçamento. Sobressai uma linha de justaposição, um detalhamento sem a camisa-de-força narrativa hierárquica. As palavras aqui são menos palavras e mais sombras. Identifica-se uma economia melódica, uma unidade interna (rítmica e temática) que encordoa os versos (sempre esticados, prestes a se romperem). Nem tudo merece ser entendido, mas pressentido. Cada linha conceitua um autoconhecimento, um virar-se para dentro. Desde Arena, areia (1986), Age incorpora o título dos poemas como início ou extensão dos versos, dando uma idéia de continuidade e de baque.

As imagens são concentradas e tensionadas em descrições intensas, desarrumando perspectivas tradicionais e o quadro temporal. Nota-se a influência generosa de Max Martins, outro grande poeta paraense, co-autor de Fala entre parêntesis (1982) de Age de Carvalho, uma espécie de renga entre os dois autores. Martins é também ritualístico e propõe o poema como "fome de si mesmo" (O risco subscrito, 1980). Essa fome de leitura, intertextual, norteia a produção de Age de Carvalho, que lê Salvador Espriu e Jorge Guillén no bojo de Caveira 41. Lê para transmudar, citando e incorporando destinos e referências cruzadas. Um cruzamento de desperdícios, de carências, de outros escritores no corpo do texto. "'Acumulando destino',/ diz o amigo-ego/ repetindo Guillén". Em outro poema, a seguir, Age enfatiza o sentido de acúmulo: "Ser era/ não-estar, sete, os sinais/ acumulando ausência". Nada é esquecido, a memória rumina lembranças, presságios, sinais. A busca autoral não é feita fora de si, mas de livros já metabolizados pelo sangue. Em A arquitetura dos ossos, há um dístico que funciona como revelação: "Espero reaver-me em mim mesmo". Ou seja, desde o princípio, vinga-se um desejo de resgate, de reabilitação, de recuperação da unidade perdida.

O estilo curto pressupõe a contenção, aproveitando um despojamento oriental, herdade de Bashô e Lao Tsé. Fala-se como quem se cala. Falta-se como quem fala. Não é uma poesia de pensamento, mas pensamento de poesia. "É/ tempo de dizer: aqui,// sim,/ estou pronto". Sua fala está impregnada de lacunas vorazes, de silêncios sequiosos, de bagagens extraviadas entre um aeroporto e outro, entre o quintal e a casa dos pais. "Já não me chamavas/ Filho,/ vivias/ e era tarde". Firma-se uma postura judaica de exílio, que comove pela densidade dos apelos familiares. Os poemas exultam a carga dramática de conselhos, afirmações interrogativas ao pé da cama e do testamento. Isso reforça a genealogia dos contadores de histórias, da preservação da memória pela oralidade. Em Arena, areia, o poeta antecipava: "esta página, gueto da letra." A palavra, reduzida pela experiência, firma-se como o único espólio possível. O resto foi perdido. As perguntas tornam-se respostas. "E/ então veio,/ baixamos,/ perguntei: posso?" No deslizar de sussurros e sigilos, a linguagem é confiada de boca a boca, em uma proximidade criminosa. "Sim,/ ainda sem Deus/ teu nome está perto,/ filho - o anel/ submerso, salvo."

Age não está provocando o indizível como o alemão Paul Celan, não está perto do que não pode ser dito. Está rente do que deve ser dito. O autor suporta o peso da consciência além dos limites vocabulares, além das cercanias do mundo, e caça justamente o nome inadmissível, pronunciável mas relutante, o que o verso não quer dizer porque talvez seja o seu fim.

No andamento de Caveira 41, corre uma tristeza suave, uma música religiosa ("uma caixa-oração"), reconhecendo a evocação como um ato mágico de escutar a terra e seus mortos-vivos. "Ouves?/ Tudo pede perdão." Perdoemos, portanto, o silêncio que não é poesia.

(Artigo publicado no suplemento Rascunho, edição de outubro/2003)

8:42 AM :: Comentários:

Começa a 49º Feira do Livro de Porto Alegre na sexta (31/10), na Praça da Alfândega. O patrono é Walter Galvani, autor de "Anacoluto do princípio ao fim" (Record). Vários amigos pousam em Porto Alegre durante a quinzena, como Livia Garcia-Roza, Marcelino Freire, Joca Terron, Luiz Felipe, entre tantos. A sessão de autógrafos de Caixa de sapatos (Companhia das Letras) será no dia 8/11, às 19h.
8:39 AM :: Comentários:

Vende-se árvore, à vista
Cava tua casa - esse é o epitáfio que planejava para convencer o futuro de que existi. Sou o último sobrevivente do sétimo círculo do inferno de Dante, do bosque de árvores densas, da floresta onde até as corujas não enxergavam. Sofri lacerações inimagináveis das bestas. A madeira era amputada e o orvalho escorria sem pausa para cicatrizar. Já fui homem, o que não me dá nenhuma vantagem. O homem se esquece de si enquanto é homem. Depois, se arrepende e não adianta, torna-se memória atrasada. Envelheci aqui, florescendo vértebras e telhas, espalhando raízes mais do que poderia recolher. Camuflado com minha barba de limo, poucos tocam em meu tronco. Existe o medo de ser contaminado de pássaros. Não há outro exemplar de jacarandá capaz de me reconhecer. Não fui recenseado, não tenho idade aparente e meu lenho não clareia com os relâmpagos. Nem sempre foi assim. Nem sempre. Cintila uma cicatriz no joelho esquerdo, de uma adolescente que talhou seu coração entre iniciais do desejo. Servi de leme para crianças subirem e balançarem a tempestade dos galhos. Engoli vento no inverno. Cães enterraram os melhores ossos em meus pés. Apaixonei-me por uma puta quando inclinei sombra para sua beleza falida. Vi um assassino tremer com o canivete nas mãos. Flagrei Deus pedindo desculpas. Viajei mais do que o corpo. É tempo agora de partir e desfazer as bagagens, diminuir a folhagem e emparelhar os ombros.

Começo a ruminar alvoradas, diante de um General Osório em sua arrogância de bronze. Como todo livro folheado com a saliva, a despedida demora. Aceno para baixo. Penso em dizer uma frase de efeito, como voar é uma forma de rastejar, mas minha voz é outra. Apenas penso e vacilo. A Feira está cheia. O timbre cede, embarco. Esqueço onde ia, lendo o leitor. Ele me leva, leve. Lava meus olhos.

8:38 AM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 28, 2003

* Um momento em especial me emocionou ontem (27/10), em meu debate com Armindo Trevisan na Livraria Cultura. Quando o poeta lembrou seu pai falecido neste ano. Disse que demorou para se dar conta que sua velhice era contemporânea da velhice de seu pai. "Ao me dirigir a ele, ainda me pensava como uma criança mesmo com 70 anos. De repente, percebi que eu era ele".

* A vizinha bate seu tapete no varal. Golpeia com fúria. Como um cão que mijou dentro de sua casa.

* Minha cultura é imprecisa, fragmentada, guardo experiências para entender depois, leio e nem sempre lembro, vejo um rosto e procuro desesperadamente seu nome. Aceito devagar as lacunas, os lapsos, uma vontade de viver que tem medo de jantar sozinha. Minhas palavras estão evoluindo para o silêncio.

8:13 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 27, 2003


9:59 PM :: Comentários:

* Minha sobrinha Nana, 4 anos, viu um livro sobre a vida de Jesus e pediu para comprar na Feira de São Leopoldo. Ela pegou a obra com determinação e gritou: "quero esse, sobre o Tarzan"

* Perco as palavras para não me perder nelas.

* O violino, um porão de cordas. Desço as escadas no escuro.

9:50 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Gazeta do Povo, Caderno G, Curitiba (PR), 27/10/03:

LITERATURA- Melhor de Carpinejar é reunido na antologia Caixa de Sapatos

Meio mar e meio bússola
A memória é tema central na obra do poeta gaúcho

Carpinejar é um poeta que faz o coração disparar. De ansiedade, encantamento ou saudade - do passado, do que nunca fomos e do que jamais vamos ser. Considerado uma revelação da literatura brasileira da última década, ele agora pode ser degustado numa única dose. A Companhia das Letras reuniu alguns de seus poemas mais significativos, espalhados em quatro obras, na antologia Caixa de Sapatos, já à venda nas melhores lojas do ramo. Mas, fique atento: o volume é sério candidato a livro de cabeceira.

Espécie de antídoto anticoncretismo, Carpinejar é filho da poeta Maria Carpi e do poeta Carlos Nejar, integrante da Academia Brasileira de Letras. A partir dos sobrenomes italiano (da mãe) e sírio-libanês (do pai), cunhou sua persona literária.

Quem acompanha a carreira de Fabrício (seu nome de batismo), percebe que, ao mesmo tempo em que burila a forma de maneira requintada, ele é, acima de tudo, um artista da existência, tamanho o sentido embutido em suas palavras. Seus poemas transcendem e transportam o leitor a territórios do eu que podem ser perigosos - facilmente capazes de encapsular discussões suficientes para encher as páginas de uma lista telefônica.

Nascido em 1972, Carpinejar - façam as contas - é muito jovem para conter tanto em tão pouco tempo. Utilizando-se da memória como tema, ele, em determinados momentos, parece ter mil anos e, em outros, a inocência de quem nasceu ontem e pode ter um vasto futuro pela frente, um porvir de fatos possíveis e de improbabilidades. Por isso, sua poesia é, ao mesmo tempo, mar e bússola.

O interessante da antologia é permitir a montagem, ainda que precária, de um quebra-cabeças que nos permite tentar compreender quem seja Carpinejar. Ao contrário do que costuma acontecer com quem nasce em berço tão esplêndido e busca a todo custo provar sua individualidade, Fabrício fez um caminho meio inverso. Embaralhou os nomes dos pais, virou a biblioteca doméstica de referências pelo avesso, sendo um pouco (ou muito) de cada um deles e, talvez por isso, tão único e original na terra das capitanias hereditárias. Sua poesia aponta nesse sentido.

Esse mergulho é evidenciado no requinte das referências contidas na sua poesia, aparentemente desprovida de uma erudição vaidosa, mas repleta de reflexões filosóficas e existenciais, que deixam claro os quilômetros de leitura do autor. É o poeta de sua geração.

Paulo Camargo

7:58 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 26, 2003


Nesta segunda (27/10), às 19h, vou conversar com Armindo Trevisan, poeta premiado e crítico de arte, autor de livros como "A dança do fogo" e "A surpresa do ser", na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso, Tel.: 30284033). O encontro tem entrada franca e é meu pontapé inicial no Varal de Letras. Trevisan completou 70 anos e está lançando o imperdível "O rosto de Cristo" (AGE), que fornece um panorama da formação do imaginário cristão, a partir de cinco grandes imagens de Jesus, de acordo com o período histórico ou artístico: o Cristo do Cosmos da Arte Bizantina no Oriente (séculos V-XV); o Cristo do Juízo Final no Ocidente (séculos V-XII); o Cristo da Luz ou os Belos Cristos das Catedrais Góticas; o Cristo Renascentista da História; e o Cristo da Emoção dos Séculos XVII e XVIII.

Varal de Letras consiste num bate-papo descontraído sobre a vida da poesia, buscando formas possíveis de despertar o gosto pela leitura e de explicar o processo de criação.

2:30 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 25, 2003

Deu no Jornal do Brasil, caderno Idéias, Rio de Janeiro (RJ), 25/10:

Os rastros do poeta
Caixa de sapatos reúne a produção do gaúcho Fabrício Carpinejar

Cyana Leahy
Escritora e tradutora


Caixa de sapatos
Fabrício Carpinejar
Companhia das Letras, 80 páginas
R$ 24

''O que ansiava achar não acho e esbarro em objetos despossuídos de lógica que me encontram antes de qualquer pretensão. O que fiz cabe numa caixa de sapatos.'' (Carpinejar)

Terceira sede me chegou às mãos em 2002, presente de um amigo poeta. ''Nada pergunte, apenas flua na leitura. Há surpresas'', recomendou. Experiente em grandes expectativas e maiores decepções, ainda assim obedeci. Antes de dormir, resolvi folhear o livro. O impacto da leitura me guiou, seguiu e vigiou até a última página. Perdi o sono. O que fazer depois disso, da palavra justa, do sentido pleno? Eu ouvia a voz do protagonista de 72 anos que antecipava a consciência da velhice afirmando a juventude da poesia. Homem, invenção do tempo.

''Só na velhice conheci o brio/ de viver com vagar./ O rosto não tem mais residência, move-se a cada/ sorvo das sombras./ [...]''

Então as orelhas me sopraram informações sobre o poeta: gaúcho, 23/10/1972, filho de Maria e Carlos, poetas cujos sobrenomes justapôs para se recriar, inaugurando linhagem poética. Fabrício Carpinejar, nessa dança da vida ainda breve, levanta brindes no Brasil e no mundo. Diversas premiações reverenciaram sua arte, sua palavra. E porque nomeia concurso literário, Carpinejar é sinônimo oficial de poesia.

As solas do sol (Ed. Bertrand, 1998), Um terno de pássaros ao sul (Escrituras, 2000), A terceira sede (Escrituras, 2001) e Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002) agora estão reunidos na antologia Caixa de sapatos.

''Ser inteiro custa caro./ Endividei-me por não me dividir./
Atrás da aparência, há uma reserva de indigência,/
a volúpia dos restos. [...]''

Para Platão, a poesia era retórica enganosa ou frívola que desencaminhava cidadãos, provocando desejos extravagantes. Salvou-nos a inspiração protopsicanalítica de Aristóteles, que ratificou o valor da poesia como saída segura para a liberação de emoções intensas. Retórica expandida, metáforas e efeitos sobre os modos de pensar o mundo nos transportam da ignorância ao conhecimento, quando somos dominados pela experiência poética. E nesse dominar está a libertação, o mergulho essencial nos significados e sentidos mais profundos.

Leio e releio Caixa de sapatos. Minha decisão interpretativa é nomeá-la poesia de perplexidades. Leitores perplexos são unânimes na evocação do prazer estético e do impacto ético que emprenham esses versos e essas palavras, sem gratuidade. Carpinejar não recorre a etimologias intrincadas, pirotecnias mitológicas, estilhaços e torpedos lingüístico-literários. Inútil questionar o poema em interrogatório implacável e assustador, subtraindo credibilidade da leitura. Ler e reler poesia é interrogar as próprias vísceras.

''Uma cidade/ reparando a outra,/ no trocar do vivente,/ como o caranguejo/
pinçando os objetos/ do afogado.''

Os poemas curtos narram um cotidiano passado e presente e revelam o olhar do menino assustado com a vida (''Às costas do tanque,/ o irmão derretia/ formigas no pote de manteiga./ Ficavam encadernadas,/ rezas empilhadas/ na cera da igreja./ O homem mínimo/ pressentia-se mirado.''), com a natureza e seus mistérios (''O céu esférico,/ cinzento./ Aves copiando o traçado/ da migração,/ o caule da chuva.''), e relêem cicatrizes na alma da iniciação (''Na claridade povoada,/ acendi tua nudez./ Ágil, ovo sem clara.''). Sentenças breves, com a concisão de epigramas gregos. Tempo.

Um terno de pássaros ao sul é acerto de contas com dores incertas em palavras contundentes. A contenção agora parece mais aflita, soma de Édipo, mito, imitação.

''Nasci vingativo, negando/ o que deveria perdoar, omitindo/ o que deveria mencionar,/ exagerando para soar falso/ o que de verdade sinto./ Falsifiquei-me para que fosses/ próximo do real./ Ao escapar de tua figura/ me tornei igual./ Tudo está perdido, então/ tudo é necessário./ Sou a barca que fica/ afiando as águas.''

E então, a vingança, cruel, profunda e dolorosa:

''Eu alterei/ a ordem do teu ódio./ Fiz fretes de obras/ na estante./ Mudava os títulos/ de endereço/ em tua biblioteca/ e rasteavas, ensandecido,/ aquele morto encadernado/ que ressuscitou/ quando havias enterrado/ a leitura,/ aquele coração insistente,/ deixando atrás uma cova/ aberta na coleção./(...) Cheguei tarde/ para a ceia./ Preparava o jantar/ com as sobras do almoço./ Lia o que lias, lia o que a mãe lia./ Era o último a sair da luz.''

A morte e a ressurreição de um pai se constroem, realizam e fundem em 27 versos-punhal. Primitivos e refinados. Rascantes e conturbados:

''Nenhuma ferida/ separava teus pesadelos. Quando vagaste em meia-idade/ pela selva escura, fiquei/ a conversar com tuas camisas,/ aprumando boinas/ que afogavam os cabelos./ Tinha sete anos ao certo/ e uma lua vadia disputando/ corridas comigo./ [...]/ Vestia tua camisa,/ copiando o ritmo/ dos teus traços,/ a respiração copiosa,/ sendo meu próprio/ e definitivo pai.''

Família é a construção de desastres, onde aprendemos a discordar do sangue e do vento. Brincar com o tempo na poesia, diz Carpinejar, é ''ilusionismo cronológico, uma bússola contorcida, um falso distanciamento que reforça a autenticidade das situações. Avanço para recuar, e busco, com a poesia, nomear novamente a vida. Zerar as dívidas.''

O poema Biografia de uma árvore dura um dia inteiro, o indeciso 23 de outubro de 2045, não mais libra e nem tanto escorpião. A poética da imanência confere a concentração do tempo: Avalor, o protagonista de quase 73 anos, recém-viúvo, desiludido, está descrente de Deus, que demite por justa causa, criando o Novíssimo Testamento. Sob a aparente linguagem sombria, há irreverência, humor e ironia. A lírica surge do desenho verbal, propõe enigmas, esgrima facilidades. Como afirma o poeta, ser espontâneo custa muito ensaio.

''Envelheci,/ tenho muita infância pela frente.
A morte me perturba,/terei o sofrimento/ de não corrigi-la antes de ser publicada.
Apagado em laje fria,/ quem trocará a minha roupa de cama?
Acordarei impessoal,/ desprovido do alarme das pálpebras?
Até quando serei o que compreendo?''

Cada livro de Caixa de sapatos tem um tempo próprio, exercitando modos de ser. São quatro, e cada um deve ser lido assim, como roupa no varal, como os móveis da sala, como rostos na multidão. Consta que Carpinejar espera desaparecer. E se alfabetizar lentamente desescrevendo. Quer apagar os rastros, desconfiar do próprio talento, esperando que a terra se abra como um livro. Que seja poética essa abertura. Brindemos.

11:52 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 24, 2003

O BOCEJO CONTAGIA MAIS DO QUE O RISO

As pessoas que fingem trabalhar sempre dão mais certo do que aquelas que trabalham duro. As que trabalham duro, não necessitam ficar fingindo e usam a descontração para respirar e alegrar a si para continuar trabalhando duro. As que fingem, ficam sérias no computador ou no telefone, moscas mortas, pouco falam, não atrapalham a paisagem nem incomodam a sopa. Não chamam atenção, o que impede de serem demitidas. As que trabalham pesado, puxam a bola para perto, se livram da marcação, discordam e terminam cobradas mais do que as outras. Os departamentos de recursos humanos costumam gritar que buscam profissionais com liderança, autonomia e iniciativa. Pregam isso, mas valorizam o oposto: a mosca morta. É estranho pensar que o ócio criativo funcione apenas na diretoria - e olhe lá! Há empresas que proíbem até qualquer chegada de e-mail pessoal no trabalho, como se fosse possível separar a intimidade de quem presta serviços 8 horas por dia (mais 2 horas para chegar ao expediente, mais 8 horas de sono, mais 2 horas para comer: meu Deus, quanta ventura, sobram 4 horas para se divertir). A intimidade do cara é pública. Imagine a situação: "não posso responder essa mensagem, porque eu não sou uma pessoa agora, sou um funcionário". O mesmo acontece com telefonemas e visitas. Se o filho está doente, por favor, ligue quando ele melhorar. Claro, os filhos apenas têm o direito de adoecer no final do expediente e os empregados no período de férias. Todas as empresas se orgulham de humanização, criaram prêmios para tudo. Vejo o contrário. Responsabilidade social acontece apenas fora do prédio. É complicado não enfartar antes dos 50. Qualquer um pode se matar de êxitos, fazer grandes resultados, aumentar a produtividade da marca, realizar o que antes não tinha sido efetuado, que será fatalmente esquecido. No trabalho, a memória dos feitos dura quinze minutos. Ou seja, o funcionário é capaz de desfrutar de um passado de 15 minutos (aproveite!) e de um futuro sombrio. Em seguida, voltará a ser um completo anônimo, um desconhecido, que ainda terá que provar por que está ali e não na fila do seguro-desemprego. O tédio é a hierarquia do bocejo.

10:18 AM :: Comentários:

Faixa de segurança:

* A desvalia é um egoísmo solidário, a pessoa presta atenção nos outros para se desqualificar. A arrogância é um egoísmo solitário, a pessoa presta atenção nos outros para desqualificá-los.

10:17 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 23, 2003


31 anos - 13 anos

Há lendas sobre meu nascimento. Dizem que fui trocado. De repente eu surgi cheio de pintas no berçário, quando antes não apresentava nenhuma (meu avô materno também foi trocado, por isso é parecido comigo). Dizem que fiz minha mãe ensaiar duas vezes para não errar o caminho do hospital. Era prevenido. Hoje eu faço aniversário. Complicado dizer isso: faço aniversário. Não soa natural. Se há um dia no ano que fico tímido é justamente hoje. Ando com receio, ansioso, medo de ser pego em flagrante. Parece que o mundo te olha com indisfarçável ironia. É o dia em que serás o último a saber o que farão contigo. Ao receber cumprimentos, não sei se digo "obrigado" ou "não precisava" ou "ainda não é hoje". Não adianta: o rubor toma as orelhas, o rumor os olhos. A alegria é maior do que os lugares na mesa. Encabulo-me em concentrá-la. A veneta é sair na rua distribuindo alegria. "Queres um pouco?" "Tomas um pouco de minha alegria? É de graça? Não venho de nenhuma associação?" Exposto, vulnerável, qualquer assobio penso que é comigo. Qualquer aceno no trem. Se bem que ninguém acena no trem. O trensurb acabou com as despedidas. Caso pudesse fazer um pedido, gostaria de ser do tamanho de meus filhos para ver a surpresa deles. Materializado na mesma estatura, na mesma inconsciência. Um instante para brincar ali, sem pensar que as tarefas anoitecem. Será que eles me reconheceriam? Acho que sim. Agiria um pouco assustado com a confiança deles, logo eu que fui tão agarrado nas pernas maternas, no portão, nas árvores. Confiança que eu mesmo dei. Estranho. Não parei para descobrir o que deixei de herança. Nem preciso. Herança não é para amontoar, mas perder de vista. Os filhotes talvez estranhassem um rosto tão parecido com o deles que acreditariam que eu era um irmão bastardo. Meu próprio filho bastardo. Aniversário é quando disciplinamos a estima. É o dia em que ela mais trabalha, prevendo amigos e surpresas, premonições e desvalias, tentando vencer algo que não foi absorvido ou devorar as sobras de outros aniversários. Hoje sou capaz de rezar. Verdade. Não há maior loucura do que envelhecer e ainda contar os anos. Somos masoquistas, sem dúvida da sombra. Quando criança, recebi uma Barsa. Um dos volumes. Meu vô disse que em cada aniversário receberia um. Vinha de corcel entregar. Não sei quantos volumes eram. Cessou aos 18 anos. Virei uma enciclopédia incompleta. Minha iniciação sexual começou na Barsa. Não poderia dar certo (risos). Hoje é meu aniversário. Essa data não poderia acabar sozinha. Juntei com o aniversário de meu casamento com Ana. Cinco anos no papel, sete com horas não-remuneradas. A Ana termina mais ansiosa do que eu. Conhece minhas histórias. Algumas já descobriu que são fábulas, mas ela me disse que não se preocupa em definir se minhas lembranças aconteceram ou não. "O sentimento é verdadeiro e é ele que me interessa". Depois do meu aniversário, sei que comerei uma fatia de torta por toda semana. Nas festas da escola, contava os presentes que meus amigos recebiam em suas datas. Tinha um caderninho para competir. Nunca consultei para ver se superei a marca. Não havia festas para fora, mas para dentro de casa. Até os treze anos, ninguém errava meu presente: bola de futebol. Guardava umas oito, que terminariam em alguma arbusto no mato do Vera Cruz ou na casa proibida da vizinha. Hoje não sei se receberei bola de futebol. Duvido muito. Vou me disfarçar de Fabrício. Serei o que sempre fui para ninguém me reconhecer.

8:34 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 22, 2003


* Depois que o amor acaba, somente os erros são devolvidos.

* Conversava com João Gilberto Noll ontem e eu dizia: "podemos contestar tudo: dados, informações, lembranças, versões, menos a fé. Ninguém pode contestar a fé do outro". Em um tom emocionado, quase sibilino, ele completou: "todo livro é a história de uma fé. O homem pode ser explicado - mais do que aquilo que viveu ou pensou - pela história de sua fé".

9:17 AM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 21, 2003


* Os enganos e desamores são descontados em folha.

* Cada um é o segredo da vida do outro. Daí que todo encontro é uma denúncia anônima.

* Passei um tempo enorme para fazer um estilo. Agora o trabalho maior é desfazê-lo.

* Não fui avisado que estava vivo. Como uma corrida que começou e se perdeu a contagem.

9:14 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 20, 2003


* É impraticável não gastar mais do que se recebe, não amar mais do que se deve, não errar mais do que o necessário para aprender, falar onde começa a doer a fala.

* Minha liberdade é estar preso dentro de mim. Eu me acumulo durante anos até jogar tudo fora.

* Diante da beleza, viro o rosto para não ser percebido.

* A solidão é uma saudade sem destinatário.

12:59 PM :: Comentários:


Domingo, Outubro 19, 2003

* Sinfonia é um pensamento mais rápido do que o pensamento.

* Ignorar Deus é ainda um jeito de permiti-lo.

* Meu filho, Vicente, 1 ano, não se conformava que seu carrinho havia quebrado. Expliquei e ele não aceitou. Ligou o velho toca-disco e percebeu que a esteira girava. Colocou ali seu carrinho. Concertou o que não tinha conserto.

11:19 AM :: Comentários:


Sábado, Outubro 18, 2003


* Minha mulher faz a frase que eu respiro. Ela vê o vento.

* Não confie nos objetos do antiquário. Eles mentem sua idade.

* A fome não aceita herança de outra fome.

* Arrumo os poemas como um álbum de fotografias de uma família que não tive.

* A felicidade não é tolerância.

* Ainda escuto que a poesia não funciona. Não é para funcionar mesmo. Quando os aparelhos estragam é que eles se tornam poéticos.

8:18 AM :: Comentários:

Estou me engajando na Campanha da Sede Própria da Casa Aberta, que busca construir, com o apoio da comunidade de São Leopoldo, um local próprio para a entidade, hoje instalada em um prédio da Prefeitura Municipal. Farei a doação de 100 agendas 2004 para serem revendidas em prol da instituição. A entrega será feita na abertura da 18ª Feira do Livro Ramiro Frotas Barcelos neste sábado (18/10), às 10h15, no Largo do Museu do Trem. A doação se refere a exemplares da agenda 2004, da editora Escrituras, que desde 1996 desenvolve a série Retratos Poéticos. A edição traz meus versos no rodapé das páginas.
A intenção da campanha da Casa Aberta, única entidade da cidade que atende crianças de rua e vítimas de maus-tratos por 24 horas, é conseguir verbas, o mais rapidamente, para a construção de um prédio para a instituição. A nova sede possibilitará que o limite de crianças atendidas passe de 40 para 150. A campanha teve início há três meses e vem se consolidando com uma possibilidade de tutela e recuperação de jovens em risco social. A compra dos produtos doados auxiliarão em 100% na mobilização.

Abaixo texto de apresentação de Ignácio de Loyola Brandão, que abre a agenda:
CARPINEJAR: POESIA NOSSA DE CADA DIA

Cada dia pode ser um dia com poesia. Independente do que aconteça. Em qualquer situação. Porque para ter a poesia basta abrir essa publicação e se deixar tomar por ela. Está em cada página pronta a nos invadir, dominar, fazer refletir. Como não pensar numa verdade simples como: "O que o fogo já leu de cartas. É o derradeiro confidente". Ou não ficar a pensar no enigma: "Não tenho coragem de discordar do meu nascimento". E a verdade rude de: "Ser inteiro custa caro. Endividei-me por não me dividir". São versos colhidos em um livro como Terceira sede. Carpinejar é aquele que nos obriga a voltar sobre o lido, reler, parar, voltar a ler. O que parece simples e fácil tem dois, três sentidos. Você imagina que está tranqüilo e ele desfere a seta: "A claridade não se repete. A vida estala uma única vez". Não nos poupa: "Misturei as verdades com as mentiras. Mas a verdade, essa, não aceita companhia". A agenda com poesia pode ser um jogo, motivo de sedução, um presente para enviar aos amigos, uma contínua peregrinação. Os versos que cito podem nem estar nessa agenda. Mas conduzem pelos mesmos caminhos que constituem a busca de Carpinejar: o sentido da vida, do amor, do corpo, da mente, do pensamento, da árvore, da flor, da nuvem, da memória, do sonho. Porque ele pergunta em Biografia de uma árvore: "Até quando serei o que compreendo?". Poeta de instantes, de dardos chamejantes, dúvidas intrigantes: "A loucura exige disciplina para não ser vista". Ou: "Folheava os textos, contornando as pedras de tuas anotações". Penetre no mundo desse poeta jovem que tem a força de todos os poetas jovens e velhos, de todas as idades, todos os tempos e Brasis. Cada dia será um dia novo com a poesia de Carpinejar.

Ignácio de Loyola Brandão
Escritor e jornalista, dirige Vogue e é cronista de O Estado de S.Paulo

8:13 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 17, 2003

* Chega um momento em que não existe mais a leitura pura. Não deixo o autor concluir a frase, vou me procurando em tudo o que leio. Chega um momento em que não existe mais uma hora para a criação. Não deixo acabar o pensamento, vou me desperdiçando em tudo o que escrevo. Minha paciência é a amizade de duas pressas.

* Busquei disciplinar o mar, mas ele continua a falar com a boca cheia

* Eu moro no centro de São Leopoldo justamente para não depender de carro para passar na padaria ou sair de mim.

*O prazer é severo, apesar das aparências da facilidade. O prazer tem disciplina. Exige a antecipação de movimentos, aumentar a insegurança do corpo.

* É necessário ter um espírito excessivamente folgado para amar o tédio.

* Quem não tem peso não voa.

* Meus irmãos cortavam o rabo da lagartixa para vê-la correr em pedaços. Eu tentava ressuscitá-la com durex.

10:11 AM :: Comentários:


Vinicius de Moraes completaria 90 anos em 19 de outubro. Flávio Pinheiro fez um ensaio especial sobre sua obra no no mínimo e pediu para poetas e compositores escolherem o melhor poema de Vinicius. Eu selecionei o meu favorito e justifiquei o voto. Está lá.

10:04 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 15, 2003


*Por que temos a impressão de que o tempo passa rápido mas o que ocorreu na semana passada parece ter sido algo de outro século?

* Perto de meu edifício, chama atenção uma casa com uma placa amarela: "compra-se cabelos, à vista". O proprietário não fez pesquisa de público, senão escolheria um pouco melhor seus vizinhos.

*Diante das pessoas amargas, frustradas e que não se permitem ao menos levantar as sobrancelhas para acenar, penso em verso de D.H. Lawrence como uma maldição: "Até o ferro germina. Até o ferro"

*Quando não há ninguém para incomodar, arruma-se encrenca com a própria estima.

11:22 PM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 14, 2003

CONTÁGIO DE DEUS NO PARQUE DA REDENÇÃO
UMA LEITURA LIVRE E INCONSEQÜENTE DA OBRA DE IBERÊ CAMARGO

O gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), visceral e original pintor brasileiro do século XX, ainda é um mistério na luz, um segredo em plena visibilidade. Conseguiu redimensionar o real segundo a gula da imaginação. A série de guaches e gravuras instaura uma perplexidade: assim como suas pinturas, parece uma arte inconclusa de propósito. Uma arte nunca encerrada, como se o pintor ainda estivesse diante dela, pronta a mudar qualquer ordem. Vinga-se um perpétuo julgamento, mas o julgado é o observador, nunca o quadro. Como uma resina escura no vidro, os personagens de Iberê não enxergam, estão apartados do desperdício, com olhares maternais, lácteos, no excesso baldio da vida. A organização em Iberê Camargo é sinônimo de coerência, antônimo de disciplina. Uma difícil harmonia na passionalidade inexplicável das coisas, porque a incerteza é como a dor, com uma diferença: não cicatriza. Daí o alheamento obsessivo, a perdição enraizada, a serenidade do pânico. Corrente de iluminações carregadas da eletricidade do traço, há o pressentimento de que o autor não quer representar. Transborda significação ao recusar a própria representação. Não ambiciona estar, mas ser um movimento interrompido. Os gestos não dormem.

Aparentemente bufônicas, as figuras ultrapassam o patamar satírico. O riso nervoso vem de uma solidão envergonhada, da malícia contida. E no clima descontraído, percebe-se a densidade da tragédia, de algo a explodir. O pintor descobriu o alto drama na comédia. É o mais cômico dos pintores, por isso o mais sério. Nada irrita tanto do que uma risada gratuita, a interrogação despretensiosa, o insulto do destino. Os "idiotas" reverberam uma insatisfação autônoma, uma espontaneidade cortante, convulsionados pela ingenuidade, não permitindo fingimentos e falsificações. Pintura escavando pintura. Os narizes sempre salientes, como bicos de pássaros lascados, são de máscaras que melhor serviram do que o rosto. A fealdade não condiz à fatalidade, agressiva, mas improviso generoso de uma pose que se pretende eterna. Iberê é um Goya diurno: a caridade do grotesco.

Toda linha é tratada de cima para baixo, em direção à sucção do solo. Não há homens ali no "rede-moinho". O melhor é definir como criaturas, assim como Iberê acentuava, no sentido abissal do termo, indefinido. Criaturas não são domésticas como os homens. Não procuram a salvação pessoal, decidir o presente, porém aceitam a imperfeição. A verdade é rápida demais para permanecer. As dúvidas são longas dívidas.

O espaço abarca uma espera de tempo, do amaino. O território vazio já é memória ocupada. Ciclistas, carretéis, tudo tem uma roda, um ato em execução. A roda é do tear, de uma máquina de costura amputada. Tal uma teia em proporções gigantescas, o pintor se destaca como uma aranha que extrai o novelo de tinta do ventre. Talvez crie realmente marionetes, evocando à Commedia dell'arte, como sintetizou Paulo Ribeiro. De qualquer modo, sejam fios elétricos, sejam fios das mãos, a corda expande uma duração biológica, um bordar característico das mortalhas. O carretel funciona como um relógio sempre adiantado.

Os viventes metaforizam lembranças do osso, reduzidos a agulhadas secas, precisas, pontuais. Uma recordação apenas do que são. A robustez cilíndrica é aérea, vagante, de ferro líquido. Nem vegetal, nem animal, absolutamente mineral. A carne da luz está sempre ao derredor, fora do corpo. A carne da luz é azulada, enferruja, com um exagero essencial da matéria. O fundo protagoniza. Os retratados de Iberê significam esculturas pintadas, a mesma fusão do metal, a mesma solda implacável entre o mundo e o imundo, entre o remissivo e a catarse, entre o rural de Restinga Seca e o urbano do Parque da Redenção.

Iberê se contagia de Deus, o progresso do homem é recolher-se a um pátio, a liberdade deflagrada na topografia ancestral e primitiva da infância. A morte não é um luxo religioso, a pacificação dos costumes, e sim fluxo. Se Velázquez nos ensinou a ver de novo (Carlos Fuentes), Iberê Camargo nos ensina a ler as pinturas. Com o talento único de narrador e o jeito imutável de soprador de borrascas.

(Artigo publicado na revista Porto & Vírgula, número 50, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, outubro/2003)

10:52 PM :: Comentários:

Palavras solteiras:

Nunca fui de palavras cruzadas, uma espécie de dicionário de praia, mas admiro quem se confia a esse papel de estrategista vocabular. Fica-se diante dos quadrados como uma ciência. O pescoço virado ao lado para escutar melhor o vento. Um desinteresse que lembra sabedoria. É esperança demais aguardar a edição do dia seguinte para conferir os acertos.

11:08 AM :: Comentários:

Prevenção:

Todas as xícaras de minha avó, porcelana francesa, tinham a asa quebrada. Ela ria sozinha. Não havia sido um acidente, mas desfalque premeditado. Encerrava as asas amontoadas em uma gaveta. "Assim as xícaras nunca serão roubadas", me dizia.

11:06 AM :: Comentários:

Desconcentração:

A poesia pura é impossível.
Ninguém suporta falar sério por muito tempo.

11:05 AM :: Comentários:

Trilha ecológica:

Subia no penhasco não para descer, mas para mastigar alturas. Fazia isso no Morro do Chapéu. Carregava um sanduíche e olhava aquela roda de aves jogando "cinco marias". Voltava para casa de noite, saciado de céu.

11:03 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 13, 2003

Covardia:

Finjo que não me aproximo do rio.
Ele está cansado de levar pedrada.


11:26 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 12, 2003

Além da imaginação:
Encontro Degas e Mallarmé em uma parada de ônibus, em São Leopoldo. Conversam animadamente. Escuto, com o olhar disfarçado aos corredores. "Não sei como não consigo escrever poemas: tenho tantas idéias boas!", diz Degas. Mallarmé responde: "Meu caro, poemas não se escrevem com idéias, escrevem-se com palavras". Eu me meto, como quem pergunta se alguma linha passa naquele ponto: "Caros senhores, poemas não são escritos com palavras, mas com a falta delas. Poemas são imagens". Mallarmé e Degas anotam meu rosto com desprezo e entram no ônibus. A subida é rápida e não tive tempo de avisar ao poeta que ele esqueceu sua bengala no banco de pedra.

8:56 PM :: Comentários:

Tamanho do mundo:
Toda intimidade é ódio economizado. Vamos entender. Há doação, partilha. Esvazia-se o relicário, armários, gavetas, lembranças. Parte-se do princípio de que se ficará com o par a vida inteira. Conta-se até o que não se tinha consciência. De repente, surge a briga. Em um desaforo, a leal companhia passa a envenenar o que havia sido confiado em segredo. A sinceridade vira fraqueza. Não existe jeito de readquirir os desabafos, os livros emprestados. Começa o julgamento. Não, volta um pouco atrás. O julgamento começava antes nos almoços e jantas com casais amigos. A mulher ou homem casado adora contar o que um ou o outro apresenta de patético: que ele ronca, que ela grita, que ele mija sentado, que ela fuma escondido, que ele adora ninfetas, que ela adora velhos. O lazer é espezinhar, aos golpes de risadas. O amor converte sua autoridade em autoritarismo. A proximidade inspira a maldade. É de se entender que a maior força da mão está em não usar sua força.

12:06 PM :: Comentários:

A dama e o vagabundo
Estive ontem na Orquestra de Panelas, cozinha contemporânea na Padre Chagas, em Porto Alegre. Eu e a Ana chegamos cedo. Não havia nenhum cliente. É como se tivessémos alugado o restaurante para nossa noite. Comemos devagar, um banquete, vitelo e capeletoni. Ainda não saí de lá. Ainda vejo a Ana e seus braços estendidos no lugar dos talheres. O vinho nos cumprimentava com intimidade.

12:04 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 11, 2003

Deu no jornal Diário Catarinense, Caderno Cultura, Florianópolis (SC), 11/10/03 Edição nº 6390:

Literatura
Gerações e dessemelhanças

ADALBERTO MÜLLER/ Poeta e professor de Literatura na UnB (Universidade de Brasília)


Carpinejar produz versos impactantes que tangenciam a linguagem da prosa
Foto(s): Antonio Pacheco, Agência RBS/DC


No final dos anos 80, o poeta José Paulo Paes anunciava ironicamente a morte da poesia em A poesia está morta, mas juro que não fui eu. Tratava-se, na verdade, de um livro de poemas publicado na coleção Claro Enigma, dirigida por Augusto Massi, que empenhou parte de uma herança de família numa empreitada destinada a mostrar a vitalidade da poesia brasileira de então. Vitalidade subterrânea, pois durante a década de 80 a crise era sensível: "As editoras restringiram-se aos nomes monumentais, como os de Drummond e Cabral; a poesia político-engajada dos anos 60 virou pó; a poesia marginal dos anos 70 marginalizou-se de vez", apregoava a Veja em dezembro de 1988. Tudo isso sem contar com a crise já sentida do concretismo, que continuou a ser feita para uma minoria cada vez menor, embora influente nos meios da política literária (sobretudo nos jornais paulistas).

A Claro Enigma foi um marco. Nos anos 90, a poesia voltaria a conquistar lugar no mercado, impulsionada pelos nomes de Adélia Prado e Manoel de Barros, verdadeiros fenômenos editoriais (que a crítica acadêmica digeriu mal) vindos de fora da ponte aérea Rio-São Paulo. Ambos apontavam, a seu modo, para a permanência da tradição modernista, ainda não de todo absorvida pelo grande público.

Surgem então pequenas editoras como a 7Letras e a Iluminuras, que publicam novos poetas, em tiragens limitadas, mas sempre disponíveis nas boas livrarias do país. Para aquecer o clima, na segunda metade da década proliferam revistas de poesia bem editadas e de circulação nacional, como a Inimigo Rumor, que há pouco chegou ao 14º número, com qualidade, coisa rara na nossa história literária.

Não é de estranhar que agora uma grande casa editorial como a Cia. das Letras aposte, ainda que timidamente, em livros de poesia. Entre os lançamentos de 2003 dessa editora estão Caixa de sapatos, de Carpinejar, e Macau, de Paulo Henriques Britto, dois livros bem diferentes, de autores bem distintos entre si, mas que poderiam servir, cada um a seu modo, como vetores para se pensar a produção novíssima de poesia no Brasil.


O cristal e o fogo
Dois poetas que podem ser analisados de acordo com o modelo teórico proposto por Italo Calvino


Paulo Henriques Britto é carioca, pertenceu à geração mimeógrafo, publicou mais tarde na Claro Enigma, e seu penúltimo livro, Trovar claro, já havia saído pela Cia. das Letras, editora para a qual tem traduzido numerosos títulos de poesia e de narrativa de língua inglesa (Stevens, Naipaul, De Lillo, entre outros). Fabrício Carpinejar nasceu quase duas décadas depois de Paulo Henriques, em Caxias do Sul, e adotou o nome de Carpinejar fundindo o nome de seus pais, dois importantes poetas: Maria Carpi e Carlos Nejar. Jornalista, com quatro livros publicados entre 1998 e 2002, recebeu numerosos prêmios e tornou-se, rapidamente, um dos nomes mais comentados recentemente nos círculos literários, tanto pela carreira vertiginosa quanto pelo caráter inusitado de seus versos.

Para falar aqui de dois livros tão diversos, peço a complacência do leitor para usar um modelo teórico um pouco batido, mas ainda válido. Italo Calvino, ao falar dos diferentes tipos de escritores do século 20, usa um modelo da biologia para classificá-los e às suas obras. Segundo esse modelo, o processo de formação dos seres vivos seguiria ou o modelo do cristal (invariância, regularidade das estruturas) ou o da chama (tentativa de organizar uma "incessante agitação interna"). Assim, certos escritores tenderiam para a "perfeição serena do cristal", enquanto outros estariam marcados pela "ordem do rumor", que é a da chama. O modelo é discutível, mas também confortável. Fiquemos com o conforto, e passemos às obras, sem deixar de dizer que Paulo Henriques se adequaria ao modelo do cristal, enquanto Carpinejar, ao da chama.

Paulo Henriques é um escritor atormentado com a expressão de uma desordem interior e exterior. Mas quanto maior a desordem, mais ele busca apoiar-se na regularidade das estruturas (chegando a usar formas como o soneto e a sextina), como ele bem expressa em "fisiologia da composição": "É preciso que haja uma estrutura, / uma coisa sólida, consistente, / artificial, capaz de ficar / sozinha em pé (p. 17). Seu ponto de partida intelectual como pode ser entendido a partir do título de um de seus poemas dos anos 80, escrito em inglês, que eu aqui traduzo: Da consciência como um tipo de dor de dente. Consciência significa, antes de mais nada, abertura para a realidade, para as coisas (inclusive a coisa social, que desperta seu veio satírico). Ao mesmo tempo, nessa poesia, a consciência significa a fuga da temática sentimental, sobretudo daquela de cunho pessoal: "Nada de mergulhos. É na superfície / que o real, minúsculo plâncton, se trai. / Sentidos, sentimentos e outros moluscos // não passam pela finíssima peneira / do funcional". Esses versos fazem do segundo soneto de uma série de sonetos intitulada Doze sonetóides mancos. Mancos porque lhes faltam quatro versos, e porque são escritos em versos hendecassílabos, com rimas irregulares. Além disso, a linguagem é coloquial, na melhor tradição modernista, beirando o vulgar em alguns momentos, abrindo brecha para a gíria, em outros. Curiosamente, se despreza o sentimental ("só o raso é cool, a dor é kitsch", é o fecho do soneto), elege o eu ou a subjetividade como fundamento de toda a sua reflexão poética (o nome é mais que apropriado, pois sua poesia não deixa um instante de ser reflexiva).

O próprio título deve ser entendido nessa clave, a da subjetividade. O que é Macau? Claro, o pequeno entreposto português na China. Mas aqui é uma metáfora que aos poucos se explica, num dos poemas de uma série que não por acaso se chama Sete sonetos simétricos (voltamos ao cristal): é o "limitado" de estar "dentro de si", "dentro de um espaço mínimo que mal / se consegue explorar, esse minúsculo / império sem território, Macau // sempre à mercê do latejar de um músculo (p. 42). Pequeno território, mas nosso: não há como deixá-lo, embora se tente, e até "com asco". Na verdade, é impossível, "porque nenhum descobridor na história // (e algum tentou?) jamais se desprendeu / do cais úmido e ínfimo do eu" (p. 42).

Então não há saída de Macau? Sim, o poeta nos responde alhures, não sem ironia: a língua é a ponte. Já que não se pode nem pegar a "coisa delicada" (p.18) que é a realidade, nem deixar-se o "cais" da subjetividade, resta-nos (e ao poeta) falar, falar muito: "São as palavras que suportam o mundo, / não os ombros" (p. 18), responde ele, a ninguém menos que Drummond. Ainda que as palavras não nos salvem, elas ajudam. Mais do que isso: mesmo ficar quieto, nu, num quarto, já é estar com o mundo nas mãos. Desde que se concorde, é claro, em simplesmente "deixar-se estar no tempo" (p. 25). Ou você leva o mundo "pra viagem", diz ele a um interlocutor imaginário (p. 59), ou desiste dele, o que é a pior saída, como a do casal bíblico desiludido que toma formicida num quarto de Cafarnaum (p. 53). O bom materialista sabe que é preciso aceitar a vida. Essa lhe é uma questão, desculpem-me a redundância, vital. Então, ele responde, seco, quase com desprezo: "O mundo é teu. Toma aí. Pode pegar." (p. 59). Com Paulo Henriques estamos no domínio da Razão, mas de uma razão minúscula, e debochada, que usa jeans e cabelo comprido (embora não abandone um tom didático de quem sabe do que se está falando).

Outra é a extração da poesia de Carpinejar. A coletânea de versos de seus quatro livros anteriores, que é Caixa de sapatos, já inicia com um verso-epígrafe desolador: "A literatura não prestou para me entender". Pode parecer um contra-senso, no início de um livro de literatura. Mas quem lê Carpinejar sabe que ele quer, não quer ou finge não querer é justamente o entendimento (a razão), pois descobriu que é ele mesmo um estranho para si: "Atendi o pedido dos pais / de não conversar com estranhos / e deixei de me escutar" (p. 64). No poema que talvez melhor o defina até aqui, de A terceira sede, ele confirma: "O que ansiava achar não acho / e esbarro em objetos despossuídos de lógica (p. 46) Pouco antes, ele confessara: "Ser inteiro custa caro. / Endividei-me por não me dividir. / Atrás da aparência, há uma reserva de indigência, / a volúpia dos restos (p. 46). Na busca dessa "inteireza", ele percorre as memórias da infância, visita a casa paterna, recolhe-se nas águas uterinas do passado familiar. O que lá descobre é o extravio de si já na fonte, na origem. Também não pretende ordenar o passado, porque ele é exatamente como o presente: "O passado tem sentido se permanecer desorganizado. / A verdade ordenada é uma mentira." (id.).

Essa constatação ajuda a entender o que é a Caixa de sapatos. Não se trata, na verdade, de uma antologia de poemas, mas de uma recolha de fragmentos, de ruínas, de seus outros livros. É um convite, ou melhor, uma porteira aberta para uma obra de dimensões épicas. Mas uma epopéia que o próprio autor admite caber numa caixa de sapatos, porque o seu enredo é tecido de pequenas confissões: "As confissões são inventadas. / Meus personagens foram maiores / do que o enredo" (p. 73).

O tom de confissão já era, aliás, o motivo central de sua obra anterior, Biografia de uma árvore. Nesse livro, publicado no ano passado, Carpinejar incendiara definitivamente as pontes da razão. Ali encontramos todo o poeta da chama, de que fala Calvino, inclusive no que diz respeito às imagens: "O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos. / A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessando" (p. 16). Estamos longe aqui da idéia de ordem e razão, e bem mais próximos de uma filosofia do Absurdo. O próprio autor adverte: "Pareço convincente, mas é um engano" (p. 24). A memória da infância está presente também na Biografia, mas não se trata apenas de abrir velhos álbuns ou de pregar retratos na parede, não se trata de resgatar uma infância feliz no passado. Pelo contrário, a voz que fala agora chega a libertar-se do peso do Pai, e (por que não) da Mãe (algo visível nos livros anteriores). O caminho da libertação passa pela aceitação do Absurdo da condição humana: "Meus pais estão no futuro, / ainda não nasceram. / / Nascer antes pouco é / diante de quem parte primeiro. / Herdei os traços de meu filho".

Se não busca recompor a "sepultada e merencória infância" (segundo Drummond), Carpinejar também não vê razão nenhuma para aceitar a realidade imposta ao indivíduo pela sociedade: "Casar, ter filhos e assumir emprego fixo / fora o máximo exigido de mim, não é o máximo que poderia exigir. // Fundei meu mundo para contar / com a possibilidade de afundar nele." Biografia de uma árvore se coloca como a confissão de um fracasso, e por isso se concilia com uma certa tradição existencialista, sobretudo com a filosofia camusiana do Absurdo. A consciência do fracasso leva ao sentimento do Absurdo, diz Camus, e abre as portas para a necessidade íntima da Revolta. Só nessa clave é que se pode entender a força negativa e paradoxalmente positiva de versos como estes: "A culpa fermenta a salvação. / O joio sabe mais do trigo que o pão" (p. 24).

O impacto dos versos de Carpinejar parece então derivar dessa revolta interior que o leva a abandonar os limites, o que implica também num certo abandono da forma, sobretudo das formas clássicas da poesia, tangenciando a linguagem da prosa (o que torna possível, aliás, os cortes drásticos em poemas anteriores para compor estes da Caixa de sapatos). Nada de contenção, ou de limites rígidos, como na poesia de Macau. "Não sei fechar um livro / ou vedar uma frase" (p. 93). A expressão de Carpinejar é assumidamente estentórica, exatamente na contramão do comedimento cool do poeta carioca: "O vôo sai da garganta, e não das asas" (Biografia, p. 51). O fogo, como a chuva, não se organiza em arquitetura, como o cristal. Se o cristal da poesia de Paulo Henriques quer durar, resistir à força de estiolagem do tempo ou às armadilhas da percepção, ou então perdurar em meio ao caos social, ainda que numa perdida Macau, o fogo da poesia de Carpinejar quer consumir, quer crescer, quer perturbar. Mas, não esqueçamos, o fogo também tem a sua ordem, como ensina o poeta maior das coisas, Francis Ponge: "O fogo estabelece uma classificação: primeiro, todas as chamas tomam uma certa direção". O fogo tem também seu método. Mas, diz Ponge, ao final, quando se apaga, "os gases que se escapam vão aos poucos se transformando numa única ribalta de borboletas". Tal é o fogo que arde nos versos de Carpinejar.

Mas, enfim, Macau e Caixa de sapatos não são apenas obras cujas "propostas estéticas" estariam em divergência programada e programática. Há muito do descomportamento e da desordem de Carpinejar no interior dos versos de Paulo Henriques (sobretudo o tom de deboche, e deboche com a própria poesia), há muitas imagens alucinatórias e delirantes em Macau (ver a série de variações sobre um tema de Jim Morrison), assim como sempre há um grão de razão nos versos mais soltos de Carpinejar. Na verdade, os dois livros estão aí pra provar que o que acontece de interessante na poesia brasileira, no início deste século, não é a adesão a grandes programas coletivos, mas a diversidade dos estilos.

10:46 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 10, 2003

* Abolir o dever e as pessoas que acompanho se transformam. Hoje só vejo o dever. Necessito esquecê-lo. Uma criança que retorna de férias e entra em seu quarto como se tudo fosse novo e impossível de brincar em uma única tarde. Quando não damos conta do mundo, estamos vivos.

* Não escrevo por esporte.

* Basta a verdade conviver comigo e ela aprende a mentir.

9:40 AM :: Comentários:

Faixa de segurança:
"Aos olhos de quem, como se diz, se dedica à prática de perseguir interesses, de quem tem planos para realizar, as pessoas com as quais entra em contato transformam-se automaticamente em amigas e inimigas. Na medida em que ele as examina quanto à maneira pela qual elas se enquadram nas suas intenções, ele as reduz de antemão a objetos: umas são utilizáveis, outras são um obstáculo."
Theodor Adorno, Minima Moralia

9:37 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 09, 2003


* Um casal que se une pelos vícios e falhas tem uma vida mais longa do que o casal aproximado pelas virtudes (esse deseja tudo, arde, vive na inconseqüência das opiniões). O marido e a mulher se convertem em álibis, dependentes, ligados pela fraqueza: um escolta o outro, um omite o pior do outro. Há uma complacência que não é nem compaixão nem perdão. Já estão separados, por isso não podem mais se apartar. Não estranham o prazo de validade, muito menos aguçam o sentido da ausência. Sem estranheza, não há intimidade. São imitadores do que deixaram de ser. As brigas e os elogios são feitos no mesmo tom. Até o cachorro da casa se torna monótono. Não experimentam começos, mas apenas dão prosseguimento. Preservam as semelhanças, não perseverando as diferenças. Ao invés de pedir licença para falar, pedem licença para silenciar. Carecendo de capacidade de tomar decisões, representam, se exploram para não ir a compromissos ou para alegar o que não querem. Não há surpresas, e sim sobressaltos. Perde-se a companhia para se ganhar um porta-voz. Esses casais não protegem o amor, porém o segredo que destruiu o amor.

9:58 AM :: Comentários:

* Minha alegria demora dias a descer a si mesma.

* Duas infelicidades não conseguem dialogar. Uma quer ser maior do que a outra. Na hora em que se conta uma tristeza, aumenta-se a história para evitar a concorrência.

9:57 AM :: Comentários:

Da série Correspondências tardias:

Carta do poeta Hölderlin ao irmão, Hamburgo, 4 de junho de 1799:
"Querido Karl, nada me entusiasma mais do que poder dizer a uma vida: eu acredito em ti."

9:55 AM :: Comentários:

"É na extravagância
que as crianças acertam,
comparando
a idade do pão
à idade da água"

Fragmento do poema publicado na Vida Simples, edição 9, setembro. Versos de meu livro inédito Cinco Marias aparecem mensalmente na revista, com belas ilustrações de Meire Oliveira.

9:54 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 08, 2003


* Queria não conhecer minha cidade para reparar cada esquina com o assombro de detalhes. Sou capaz de chegar em casa sem olhar para os lados. Uma oração que nunca se pensa a letra, decorada desde sempre. Cavalo vendado. Já nas cidades em que visito, reparo o mínimo, a arquitetura, o disforme, com generosa paciência. Os varais, os vasos nas varandas, os porões e seus gatos desconfiados. Ando a esmo. Fecho quadras com passos miúdos. Toda dobra é um lugar a ser adivinhado. Intensifico o pressentimento de desaparecer por completo.

* O pessegueiro é o carvão do vento.

* O homem procura se sentir culpado para se diferenciar.

* Minha avó ficava horas a bordar. Levantava o pano e se fazia entre as agulhas. Parecia fechar uma ferida, que só ela via. Daí meu desejo de escrever com as unhas, raspando a terra.

10:41 AM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 07, 2003

Deu na Agência Carta Maior, Arte e Cultura, seção TXT, 07/10/03:


A fome alheia aos dentes
Em Caixa de Sapatos, Fabrício Carpinejar reúne poemas de seus quatro primeiros livros

Moacyr Moreira


Na caixa de sapatos, guarda-se invariavelmente preciosidades: objetos e recordações que não são pequenos o suficiente para um porta-jóias, mas ainda preciosidades.
Há os que encerram cartas e bilhetes secretos, os que depositam ali retratos dos que se foram, há até os que amontoam medicamentos, deixando a caixa num alto de armário ou prateleira, para que as crianças não os tomem como balas. Há os que guardam insetos asquerosos também, à guisa de criá-los. Há as revestidas com esmero, as rotas quase em processo de decomposição, mas sempre receptáculos de mistérios.

Nesta antologia, lançada recentemente pela Companhia das Letras, Fabrício Carpinejar expõe ao grande e respeitável público o que há de melhor de sua poesia, publicada em seus quatro primeiros livros: As solas do sol, Um terno de pássaros ao sul, Terceira sede e Biografia de uma árvore.

Logo de cara, percebe-se um verso enxuto, sem revolteios: peripécias ziguezagueantes que muitos autores utilizam par disfarçar a ausência de conteúdo.

Converteu-se em vapor
o espelho,
seguindo
a névoa da bacia.


Com o correr dos poemas, observações e imagens belas, por vezes curiosas aparecem:

As laranjas prematuras,
lâmpadas queimadas,
boiavam no esgoto
do pátio,
com o suco parado,
isoladas da eletricidade.


Já na segunda parte do volume, destinada a poemas do livro Um terno de pássaros ao sul, nota-se intensa presença da recordação, de imagens oriundas de um passado remoto ou nem tanto e a figura paterna ganha destaque ali. Muitos dos poemas trazem pétalas ressequidas, porém armazenadas cuidadosamente em meio a páginas de diários, caros ao autor:

É uma violência não
te olhar. O mesmo jeito
de menear a cabeça no abraço,

o mesmo vinco
enobrecido pelo viço,
o mesmo arrecife nas olheiras.

Não sei o que procuro,
Mas quem me procura.
Volta, pai, memorizei

O que não foi falado.


Em Terceira Sede está o mais impressionante verso do livro:

Ao conversar com minha filha, às vezes me dói
a responsabilidade de conduzir sua inocência


Dia desses, observando o filho de quatro anos de um amigo, um sorriso amoroso indescritível, doeu-me também esta responsabilidade. Os versos do poeta resumem infinidades de tratados sobre o comportamento humano, o lidar com o desenvolvimento e crescimento de um filho sem destruir-lhe a inocência, sem aviltar-lhe a pureza dos sentimentos. Na verdade, é quase uma queixa da própria poesia: como, num mundo repletos de estupros morais, de negligências emocionas, de incoerências administrativas manter um veio profundo que resiste às contaminações do solo putrefato que é o próprio existir?

Há na poesia de Carpinejar também o olho atento às intempéries dos relacionamentos, das imagens que remetem à cidade de Porto Alegre,

Refaço teu roteiro preferido, as ladeiras
se espreguiçando no rio, o chalé da Praça XV, o museu,
o viaduto da Borges. A luz dá voltas na quadra
buscando uma vaga em meu jeito vago.


ou às constatações, nem sempre entusiasmantes, da vida a dois:

Ter se acostumado um com outro
não significa que avançamos.

somos residências germinadas
se correspondendo pelos muros.


Dentro da poesia de Fabrício Carpinejar, muitos universos se amalgamam, outros se dissolvem indistintamente. Ler este livro é um primeiro passo para conhecer a obra do autor, que aos trinta anos, deixa claro que os anos e décadas vindouros vão apenas confirmar sua longevidade criativa e sua indiscutível força poética.

CAIXA DE SAPATOS - Antologia
Fabrício Carpinejar
Companhia das Letras
80 Páginas
R$ 24,00

9:27 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 06, 2003



ESTE LADO PARA CIMA:

* Não entendo como algumas pessoas podem ser tão agressivas, sem ao menos dar a chance de conhecer quem estão agredindo. Decididas a fechar a sentença, a carta, a pontuação de sua respiração, explicando o que não foi perguntado, respondendo somente ao interesse da visibilidade. Incapazes até de sentir um ódio por inteiro. Fiéis aos seus enganos, defendendo algo que não faz parte do sangue, mais preocupadas em ouvir seus pensamentos do que escutá-los fora. Ranzinzas no trânsito dos talheres, chateadas, de vaidade nervosa, com um medo de perceber que estão irremediavelmente sozinhas, com horror da simplicidade e complicando o que não precisa pedir licença. A literatura não é feita para isolar. Lembro de uma frase de Calderon de la Barca: "que farão pelo que ignoro/ se pelo que sei me enterram".


* O elogio da modéstia é a pior vaidade.


* Os justos são discretos. Eles não dependem do troco para contar o que foram.


* Minha incompetência é ficar sozinho no quarto, com o guarda-roupa aberto. Sou favorável à eutanásia das roupas.


* Tenho dificuldades em decorar telefones e nomes. Meu catálogo é folhear um rosto umedecendo os dedos.


11:40 PM :: Comentários:

Ronda:
Na segunda (6/10), às 9h30, faço palestra na XIV Feira do Livro de Dois Irmãos, no Centro Evangélico. Na terça (7/10), às 17h30, debato meu novo livro Caixa de sapatos no projeto Sala de Leitura, do Instituto Humanitas. Haverá apresentação da obra, depoimento crítico sobre a criação e leitura de trechos, com a participação especial de Maria Carpi. O encontro acontece na Sala 1G 119, na Unisinos, com entrada franca.

12:27 AM :: Comentários:

Cidade-livro:

Nei Duclós, autor de No Mar, Veremos, Outubro e No Meio da Rua, compôs um poema-resenha sobre Biografia de uma árvore. Receber essa homenagem de um poeta de minha predileção é como emprestar o nome a uma rua. A poesia não deixa de ser mesmo uma rua esculpida, uma escultura aberta. Esses versos poderão ser percorridos dentro do próximo livro (ou melhor, da cidade-livro) de Nei. Antecipo:

FOLHA DE VIDRO
(sobre o livro Biografia de uma árvore, de Carpinejar)
Nei Duclós

O sol sem sapatos
molha-se no surdo
orvalho

Deus rabisca e
esquece. O vidro
mastiga a pedra

O pátio desfolha
insetos. Musgos
passeiam na sesta

A vela espalha
raízes no quarto.
Frutos sopram janelas

A estrela amarra
um torto alfabeto
na caligráfica esfera

O joelho inventa
a súplica do sino.
Pombas quebram

A cúpula do verbo
gira em direção
ao terraço

Há uma árvore que tomba
enquanto, silencioso, berro

12:24 AM :: Comentários:

Deu no jornal Correio Braziliense, caderno Pensar, Brasília (DF), sábado (04/10/2003):

Poesia

Novo velho poeta
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Gustavo Lisboa
Especial para o Correio


Caixa de sapatos
De Fabrício Carpinejar. Companhia das Letras, 80 páginas, R$ 24,00.


"O que fiz cabe numa caixa de sapatos." Assim, Fabrício Carpinejar sintetiza a sua obra, selecionada e transfigurada por um talento que se manifesta em silêncio pampeiro. É o nome do livro: Caixa de sapatos, antologia poética de Carpinejar, editada com elegância pela Companhia das Letras, uma editora sabidamente para poucos.

A pressa da imprensa, a lentidão da leitura: como conciliar? Resignei-me a cheirar o livro, como quem cheira uma caixa de sapatos saída da loja. Sentei-me na cama, acariciei o papel novo, funeral de árvores que nunca conheci. Antologia poética. (Já morreu? Já envelheceu? Estaria esquecido?) Sim, será o último, pensei. Mas deve ser o primeiro, a voz do outro lado me alerta: para ontem, para anteontem.

A roldana palitava/ a boca da cisterna// e o pescoço de luz vestia/ o poncho do vento

O autor é jovem. Trinta e um anos. Mas é velho, muito velho, da idade de uma araucária solitária no meio do cerro, apontando o seu candelabro em meio à mata invernal, da mesma idade de uma figueira à beira da Lagoa dos Patos, mais velho que o minuano que veio das bandas dos Andes. Mas não, não existem ecos costumeiros do regionalismo gaúcho que campeia em determinadas poéticas sulinas: há a dor de uma ausência paterna, para sempre retrabalhada,

Nenhuma ferida/ separava teus pesadelos./ Quando vagaste em meia-idade// pela selva escura, fiquei/ a conversar com tuas camisas,/ aprumando boinas// que afogavam os cabelos./ Tinha sete anos ao certo/ e uma lua vadia disputando corridas comigo.


Existe igualmente a reflexão do tempo devorador, do espaço entre a infância e a velhice, tempo que deixa rastros nas mais comezinhas coisas cotidianas, nos lençóis do amor e na confusão do dia-a-dia, nas odes de Terceira sede (2001). Odes construídas com rigor como há tempos não se via em nosso panorama poético. Poderia citar mais e mais exemplos: o livro todo bastaria.

Vale a indagação: uma antologia ou uma nova obra? Sim, posto que a escolha do autor foi a de organicamente alinhavar os poemas. Dos quase epigramas imagéticos de As solas do sol (1998) ao longo poema de Biografia de uma árvore (2002), passando pelas odes de uma dor arquiserena - mas ainda dor, pungente como um cisco no olho - de Terceira sede e através da ausência paterna transfigurada pela arte de Um terno de pássaros ao sul (2000), Fabrício Carpinejar constrói na leitura de sua obra essa antologia, um novo livro e uma porta de entrada para a sua poética, deveras premiada (Olavo Bilac 2003 - ABL; Cecília Meireles 2002 - UBE, dentre vários outros).

Poética sólida, sóbria, concisa até. Com novo livro em andamento (Cinco Marias), Fabrício Carpinejar trabalha e retrabalha o verso, decerto com influxos tênues de um ou outro autor (arriscaria Manoel de Barros, em As solas do sol, não obstante esse influxo ser um fiapo de sopro), em uma lição serena da carpintaria do verso, de sua oralidade (a poesia é irmã da música; experimentem ler em voz alta as odes de Terceira sede ou o longo poema de Biografia de uma árvore para perceber o resultado). Sim, não é uma melopéia clássica, visto que os poemas não são rimados; aliterados sim, alguns. Da fanopéia de As solas do sol à logopéia de Biografia de uma árvore (para usarmos as categorias de Pound para a poesia, de acordo com a ênfase nas imagens, no som e nas idéias), Carpinejar ensina aos novos e aos velhos poetas que não há uma receita para a poesia: existe sim sinceridade, esforço e trabalho, muito trabalho. Além da difícil beleza da oficina da poesia.

Afirmei - no desvão do entusiasmo? - que Fabrício Carpinejar é velho. Reafirmo: é velho. Que o leitor não se espante: somente um velho poeta, mas não cansado, poderia perguntar: "Apagado em laje fria,/ quem trocará a minha roupa de cama?// Acordarei impessoal, desprovido do alarme das pálpebras?// Até quando serei o que compreendo?" Alguém saberia responder?

Um pequeno livro, um grande universo poético, feito de dores prosaicas e universais, matéria-prima de qualquer poética que se preze desde a Suméria, essa Caixa de Sapatos merece com toda a razão essa avalanche de prêmios e homenagens. Entretanto, que não se tolham os novos, novíssimos, inéditos poetas que urgem o funeral de árvores para que venham ao mundo literário (e como é selva selvaggia esse mundo!) com as suas pequeníssimas verdades: para os que estão imersos ainda no silêncio criativo, com as suas vozes trancadas nas gavetas, leiam Fabrício Carpinejar, leiam e releiam.


Entardeço sem ênfase.
Não sei fechar um livro
Ou vedar uma frase.

As confissões são inventadas.
Meus personagens foram maiores
Do que o enredo.

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O poeta Gustavo Lisboa é formado em Letras pela Universidade de Brasília

12:16 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 05, 2003


* Minha lembrança mais remota: na casa amarela de esquina, de meu avô paterno, dez gaiolas balançavam nas janelas fundas. Era impraticável conversar na sala. Os pássaros ligavam alto o volume de suas pálpebras diante das patas do pátio. Eu comia bolachas com sal em latas de alumínio para afinar os ouvidos. As bolachas nasciam quebradas. Farelos entravam nas unhas. Aos poucos, os pássaros desapareceram. O vazio ardia. O cheiro de alpiste aumentou na escassez. Os pássaros não têm ossos para virar fantasmas, meu irmão avisava. Quase acreditei. Meu avô foi ficando calado. Não tirou as gaiolas, como um terno no cabide, como um chapéu na mesa, como uma bíblia em sua gaveta esquerda, como um revólver em sua gaveta direita. As gaiolas eram os ossos da casa amarela da esquina. E eu nunca aprendi a assobiar.

* A poesia faz com que os objetos familiares sejam estranhos, como pertences que furtamos de nossa própria residência.

* Ao rever cartas e cadernos antigos, espanto-me com o que deixei de ser, mas que por um momento era tudo o que eu ambicionava. Vivemos em idades paralelas. Como argumentava Bachelard, "a imaginação poética não tem passado".

* Minha letra hoje se encolhe para guardar lugar para minha mulher. Não sei assistir minha vida sozinho.

* "Até com as pedras tu farás concerto"
Livro de Jó

10:11 AM :: Comentários:


Preste atenção na poesia da escritora pernambucana Micheliny Verunschk. A jovem entende de reencarnação de violino. Seus poemas são destaque do número 6 da revista Coyote. Ela está lançando Geografia íntima do deserto (120 páginas), seu livro de estréia, publicado pela Landy, na coleção Alguidar, conduzida por Frederico Barbosa.






10:09 AM :: Comentários:


Sábado, Outubro 04, 2003

Deu no jornal Estado de Minas, caderno Pensar, Belo Horizonte (MG), 04/10/2003:

Jasmins em desarranjo
Antologia de poemas de Fabrício Carpinejar, Caixa de Sapatos recupera momentos de memória e arquivo da cuidadosa arte do poeta
Lyslei Nascimento *

Foto Renata Stoduto

Lirismo - Fabrício Carpinejar fez de sua antologia uma obra criativa

Uma antologia é, sobretudo, uma coleção, um florilégio, uma crestomatia. A poesia de Fabrício Carpinejar, no entanto, selecionada para compor o livro Caixa de Sapatos, para além dessa concepção tradicional, inaugura espaços em que a palavra é celebrada, não em sua ostentação, mas nos restos que se impõem à memória do artista, do leitor.

Além da volúpia dos restos, do retrocesso da letra ao seu estado de garrancho e da revisão do testamento poético, a poesia que ali floresce apresenta-se em estado de estudada desorganização. Nesse sentido, essa antologia é um mosaico que não forma um único desenho ou se fecha num frio planejamento esquemático de um quebra-cabeças. Esse mosaico, de fragmentação esparsa, é, diga-se de passagem, de poeta, ou seja, voluntária, hipotética e permeada de imagens, signos, sinais, tal como um caleidoscópio.

Se, para o poeta, a verdade ordenada é uma mentira, uma falácia, o que cabe na caixa de sapatos da poesia só pode ser catalogado como memórias de textos lidos e vividos, lembranças pessoais e alheias, genealogias que se avizinham de cacos e objetos furtivos, incontornáveis e, aparentemente, despossuídos de lógica.

O poeta, em fingida confissão autobiográfica, afirma: "Meus irmãos colecionavam selos, moedas,/ borboletas e revistas./ Eu, silêncios." Então, nesses intervalos, colecionados sob o signo do silêncio, Carpinejar pode, como poucos, fazer da palavra, relíquias continuamente reinventadas no exercício da escrita.

A antologia e a coleção apresentam-se, na caixa de sapatos da poesia, como biografia e arquivo. O registro terno das marcas familiares denuncia a vida entremeada de poesia e, em rua de mão dupla, a poesia entretecida à vida. Estão, portanto, presentes, os pais, neste e em outros lúcidos versos: "Atendi o pedido dos pais/ de não conversar com estranhos/ e deixei de me escutar"; os irmãos, colecionadores de selos, moedas, borboletas e revistas; e a filha, na belíssima estrofe: "Ao conversar com minha filha, às vezes me dói/ a responsabilidade de conduzir sua inocência./ Se ela soubesse o desaviso da encruzilhada,/ que aceitei uma trilha ao léu, entrei numa rua,/ no casamento, pela idéia de seguir o fluxo"; ou o verso-chamado: "Volta ao pai, pampa."

A poesia torna-se, assim, corpo vivo que se oferece ao olhar e ao coração

Nos dados biográficos, afiança o poeta, nunca foi possível largar o hospício. "Os apontamentos listavam apenas o vegetar dos cílios e a gradação dos antibióticos". Sendo assim, entre a loucura - da palavra que se multiplica em tantos sentidos - e a tentativa de arquivamento daquilo que se julga importante para se guardar, a poesia cumpre um solene dever: deixar pensar o corpo e o corpo pensar, como a cálida poesia e a vida, registrada em família, dia após dia.

A coleção instaura, então, um outro domínio, uma outra força, viva, sob a poesia: o corpo do poeta que se abre, se expõe e se deixa ler. A poesia torna-se, assim, corpo vivo que se oferece ao olhar e ao coração. Corpo fragmentado, desfiado como um maço de jasmins, o corpo da poesia se apresenta em confissão: "Eu alterei a ordem do teu ódio"; "Mudava os títulos de endereço"; e nos versos: "Sou também um livro/ que levantou/ os teus olhos deitados".

Corpo-livro, corpo-encaixotado, a poesia denuncia esses arquivamentos impossíveis. O grafite da escrita, assim, fino como uma agulha, vai cerzindo corpo e palavra. Nos poemas, as metáforas do confinamento são, portanto, ilusórias: moldura, caixa, aquário, antologia... Sabe bem o poeta: "Um segredo compreendido/ é um segredo morto". Daí que o arquivo de Carpinejar não é a revelação de objetos em petrificação, nem a calcificação de pequenos esqueletos da memória, fósseis de esquecidos amores, mas corpo-vivo que se encena no palco da página do papel.

Ao encenar-se, a palavra adquire vida e força, e, na poesia, afiança o poeta, "Viver é o máximo que te prometo./ No espaço miúdo entre as duas datas/ que te definem./ Haverá um homem afastado da esposa,/ um filho dos pais, os pais dos pais, Deus de Deus. Haverá uma ausência e o terror de não ser atento o suficiente."

Entre a caixa - esse terrível e solitário esquife que se entreabre ao sentimento - e o seu interior, suas entranhas - desmistificação da impossível memória -, talvez pairem enevoadas, como os desenhos das asas das borboletas, duas únicas certezas: é preciso viver, além do espaço miúdo do enclausuramento do corpo, da palavra, e é preciso reconhecer-se na ausência e no terror de não ser/estar atento aos pequenos detalhes de que somos constituídos, e percebê-los, e abrir espaços.

. Caixa de sapatos
. De Fabrício Carpinejar
. Companhia das Letras, 77 páginas, R$ 24

* Lyslei Nascimento é professora de literatura da UFMG

9:52 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 02, 2003

SAMPA, SAMBA

Mergulhei em São Paulo durante três dias. O lançamento de Caixa de sapatos (Companhia das Letras) no bar Canto Madalena foi um sucesso. Mais de cinqüenta pessoas. A geração 90 estava lá em peso, comandada pelo mano Marcelino Freire. Recebi o abraço de Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, Michel Laub, Mirisola, Mariana Ianelli, Heitor Ferraz, Nei Duclós, Bruno Zeni, Moacir Godoy Moreira, Luiz Roberto Guedes, Ivana Arruda Leite (que fez até uma moqueca para me receber), Celso de Alencar, Joca Terron, Ronaldo Bressane, Tarso de Melo, dos pintores Valdir Rocha, Constança Lucas e Sérgio Lucena, de editores e amigos. Meu rosto fino de pão árabe se abriu ruidosamente. O mais bonito foi ver uma senhora de 70 anos, toda bonita e arrumada, chegar com um recorte de um poema que publiquei na revista Época. Os versos secando em clipes. Ela vinha de Campinas, sozinha, e disse: "desde que li esses versos, que são a minha vida, passei a lhe procurar em tudo o que é lugar para recolher mais de minha vida. Aqui estou para buscar o que é meu em você". Eu abracei ela como quem não deixa ir. Fiquei hospedado na casa de um amigo de infância, Vinicius Pessin. Ele mora no Morumbi, defronte ao Cemitério da Paz. Vizinhança silenciosa. Gaúcho sofre de compulsão de almanaque. Quer sempre definir a cidade no primeiro dia ou encontrar correspondências nervosas com sua cidade. Talvez não defini-la seja o modo adequado de entender São Paulo. Ela é tudo o que podemos (não o que queremos). Nela, ninguém é famoso. O fluxo dá uma bebedeira de anonimato até na mais alta celebridade. Tomei um café com o poeta Álvaro Alves de Faria. Ele chispou uma frase emblemática: "sou vítima de Sampa, fora daqui não sei viver, dentro vivo com animado medo". Álvaro completa 40 anos de poesia. É um dos poetas mais entranhados na metrópole paulista. Aloja uma bala na cabeça, seqüela de um assalto em que defendeu a irmã. Deixou a barba e os cabelos crescerem. A poesia germinou junto nas roupas, bilhetes e mangas de ipês floridos. Andei pela avenida Paulista com a escolta de uma garoa e me senti dentro de um poema de Mario de Andrade. Pela primeira vez, comi rã (estatelada, sensual, no prato) no bar Platibanda. Dei uma de Bukowski e tive que encontrar serenidade no desequilíbrio. Almocei com Ruffato e sua mulher Simone, em ancestral encontro. Escutei baladas francesas, fados modernos e música italiana da última safra. Ri bastante, estiquei meus olhos da prosa avoando sem rede de proteção. Conheci a maravilhosa cantora Fabiana Cozza. É a melhor intérprete de samba que já passou pela minha memória, incluindo minha memória do futuro. Clara Nunes iria concordar. Todas segundas-feiras, a partir das 22h30, ela arrebenta no bar Ó do Borogodó. Aliás, o espaço é um pavilhão improvisado, também defronte ao cemitério da Vila Madalena. Entre os dois cemitérios que margeei, amarrei os carretéis de estrelas. Fabiana canta em uma mesa, cheia de sambistas. A sensação é que o público espia um ensaio. Sua voz tem mãos, distribuídas generosamente em impecável charme cênico. Ela narra as canções, não somente as interpreta. Emoção suspirada de bossa e projeção alegre de carnaval. Contida, afinada, ideal. Jovem e precisa. Saí de lá gemendo diferente, egresso de uma seita de eleitos e afortunados. Nada sobra em seus lábios. Vive intensamente cada letra, seja com "Louco", seja com "Você vai ver". O samba é seu dom. Levíssima. Assim que lançar seu CD (ela já está gravando!), vira residência em meu headphone.

11:33 PM :: Comentários: