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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Novembro 30, 2003

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:


Nossa emancipação na infância foi montar um time de futebol com camisas. Não faríamos mais pelada, mas algo profissional. Conseguimos uma ponta de estoque de uma loja. Um fardamento horrível, que poderia servir de sinalizador no escuro. A camisa amarela ovo casca de banana maracujá, brilhante, com bordados em azul, que deixava uma asa acumulada e sem jeito de limpar. Era mais perto da seleção colombiana do que da brasileira, apesar da gente acreditar no contrário. O primeiro jogo seria a turma da rua Lageado (nosso time) contra a rua Larvas. Eu fiquei com dor de barriga antes do estréia, que seria feita com redes (imagine só!) no colégio Vera Cruz. Tínhamos até técnico, que era um motorista de lotação. Ele dirigia a equipe como o trânsito de Porto Alegre. Eu vestia a camisa 10, intocável, e imaginei ser cadeira cativa. A bola era minha, mas isso não fazia diferença com a turma da Larvas - ela sempre roubava a bola no final. O treinador pediu para eu sair. O jogo estava empatado sem gols. Aquela rede até o momento não mostrava utilidade. Achei uma ofensa. Sair no meio da partida significava que não jogava bem. Um fracassado. Vi quem iria me substituir. Era meu irmão caçula Miguel, dois anos mais novo. Pode parecer bobagem, mas representou minha primeira crise de consciência. Fominha, me interessava unicamente em permanecer em campo. Ao mesmo tempo, olhava seus cabelos encaracolados como um anjo, o corpo magro, com a cara colada na cerca, na expectativa de minhas palavras, de um gesto afirmativo, de uma compreensão súbita. Só eu poderia confiar em sua entrada. Nunca doeu tanto, fiz força, dobrei o egoísmo. Ele entrou, nervoso com suas chuteiras luzindo e as meias que cobriam os joelhos. Me beijou na testa, pouco se importando com a coloração do suor. Dei minha camisa. Na primeira bola que recebeu, foi correndo como uma locomotiva de cabeça baixa, tricotando, cerzindo a si mesmo, e houve um silêncio maior de todos ao redor para escutar somente a bola estourando no gol.


9:18 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 28, 2003


Mínimas:


O desejo é um medo que não tem cura.

10:21 AM :: Comentários:

Deu no Jornal VS, Contracapa, 28/11/03, Grupo Editorial Sinos, São Leopoldo (RS):

Biblioteca da Paul Harris ganha nome de Carpinejar

Dentro das atividades de aniversário de seus 35 anos, a Escola Municipal Paul Harris (Rua Montevidéu, 50), localizada no bairro Santa Teresa, em São Leopoldo, vai batizar sua biblioteca de Carpinejar, homenageando o poeta gaúcho que vive na cidade. Com apenas 31 anos e cinco livros publicados, o escritor passa a dar nome ao espaço de leitura de 486 alunos, da pré-escola a quinta série. A solenidade acontece no sábado (29/11), às 9h30, com descerramento de placa e apresentação dos estudantes.

Natural de Caxias do Sul, radicado há oito anos em São Leopoldo, Fabrício Carpinejar é também nome de prêmio no município, instituído pela Câmara de Vereadores. O autor se torna o mais jovem gaúcho - e um dos mais jovens brasileiros - a receber essa forma de reconhecimento, que costuma ser concedida na maturidade. A idéia da escola é aproveitar a identificação do aluno com o poeta novo e consolidado, além de se mostrar que não é necessário um escritor morrer para se fazer vivo.

Carpinejar acaba de lançar a antologia Caixa de sapatos (Companhia das Letras), reunião de sua trajetória poética. Recebeu diversas premiações como o Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; Prêmio da AGEs 2003; Açorianos de Poesia em 2001 e 2002; Prêmio Nacional Cecília Meireles (UBE); Marengo D´Oro, em Gênova (Itália); Destaque Literário (júri oficial) da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre; e Fernando Pessoa (UBE), categoria Revelação e Estréia.

10:20 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 27, 2003

Meu sapato virou beato
Fabrício Carpinejar*


Eu acredito mais em mim quando estou mentindo. Não faço por mal. Deus até finge que não repara. Minha mentira começa e termina em uma verdade. No meio do caminho, é que ela se perde, demora para retornar. Toma outras ruas e nomes, acrescenta dados, aumenta o que foi imaginado. Tem dó de deixar uma imagem brincando sozinha. Faz que a imaginação se torne memória do que não aconteceu. O que não aconteceu também tem memória, não sabia? A mentira pode ser honesta, se feita para proteger. Essa eu gosto. Como meu avô, que mascava hortelã para dourar a lenha. Nunca entendi essa relação, mas não questionei. Há leituras que a gente pensa que não entende e faz sentido assim mesmo. Não quero pedir desculpas por estar mentindo. Não quero medir meu desejo pela culpa. Quero medir meu desejo a partir de outro desejo. Na infância, estamos a cada meia-hora pedindo desculpas. Depois de certa idade, o cacoete volta piorado. Pedimos desculpas por existir, por pensar alto, por querer ficar sozinho. Na maturidade, estamos sempre nos desculpando e se antecipando a possíveis preconceitos. Algum colega mal tenta nos elogiar e não admitimos e nos colocamos defeitos. Simplesmente porque não aceitamos o fato de estarmos bem. A velhice deveria ser mais improvável. Demora-se um bocado para não fazer nada, para cumprir infâncias remotas. É de se reconhecer que atulhamos a estante com metade do que não serve. Entope-se a criança de brinquedos e ela vai deixar os mimos para se entreter com um simples novelo, carretel, pedaço de vassoura ou um pião. Será que Deus sabe que ele não existe fora da gente? Há pessoas que odeiam sua fé. Odeiam acreditar com medo de se arrepender. Viver é o risco de se perdoar. Meu ouvido não escuta o batimento, mas sei que a ave cardíaca está lá. Não controlo se fechei bem a porta ou apaguei as luzes. Minha superstição é ao contrário, me distrair ao máximo. Espanto-me com a vida que não tive e fico até com preguiça. Todo dia minha coragem é se enfrentar. Não deixo o ódio distrair as palavras. É preciso tomar cuidado - elas podem sentir ciúmes uma das outras. Converso com todas as palavras inclusive com as que não aprendi. Leio braile com os ouvidos. Coloco minha mão sobre o dicionário como quem escolhe uma maçã. Intuir o significado é uma forma de entender o vocábulo. Amo o som, convenço-me do significado bem mais tarde. Na infância, eu apenas recebia maçã de merenda. Elas ficavam amontoadas na merendeira. Ficava com vergonha de discordar de minha mãe. Meus cadernos cheiravam a maçã. A polpa enegrecendo como uma letra manchada. Não as comia. O recreio era o jejum de meus joelhos. Minha arcada cheirava a maçã, meus olhos cheiravam a maçã, minhas roupas cheiravam a maçã. Posava como natureza-morta. Acho que nunca me livrei do olor. Meu nariz, um talo que sobrevoou o inverno. Fumei vários tipos de neblina e cerração. Não podia cuspir ou tragar. Traguei o rio enevoado e cuspi barcas para testar a altura da água. A menina mais dada da escola tinha cabelos no sovaco. Os guris a levavam para a escadaria para brincar de médico. Nunca fiquei doente para estar com ela. Ela suava tanto na aula que desidratou minha boca. Um dia quis agradá-la e pulei o muro e roubei uma roseira rubra. Vi que alguém me via pela janela. Não acreditei que estava furtando o jardim da minha professora. Passei a me furtar - era mais seguro. Ela não comentou nada na hora ou no dia seguinte. O segredo me amaldiçoou o ano inteiro. Sofria de fazer perguntas. Minha imaginação, tão sozinha, que nem amigos imaginários criou. No banheiro da escola, havia uma ala proibida. Permaneci preso um dia inteiro escutando o som da descarga. A faxineira me salvou no final do expediente. A faxineira era mãe de um colega. O colega ardia de vergonha de ser filho da faxineira da escola. Fazia de conta que era filho de ninguém. A criança é cruel quando tomada de medo. Ela acenava com seu uniforme azul e ele virava para o lado. Com raiva de sua filiação, empurrou um amigo em direção à janela da secretaria. Quebrou os óculos da secretaria, que - míope - não enxergou bem os corredores por semanas. Meninos adoravam puxar as calças dos colegas na frente das meninas. Fiquei três vezes pelado para a menina que suava (não se comoveu). Eu usava abrigo com remendos de couro. Na época, comprava-se uniforme para um filho e os irmãos usavam aquelas peças até arrebentar. O sapato que meu irmão mais velho usou na primeira comunhão, eu usei na primeira comunhão e o mais novo usou na primeira comunhão. O sapato virou beato. Foi para algum convento com os cadarços amarrando o hábito. Curioso como nada era posto fora. Um par de calçado esperava três anos para corrigir caminhos. Meu lazer consistia em recolher penas de galinhas para atiçar as velas e promessas das igrejas. As plumas faziam a chama crescer cabelos. Eu cresci desajeitado. Não me ajeitei. Não quero morrer impessoal como um quarto de hotel, gotejar a luz miúda de um soro. Ou apertar o botão para garantir ar, tevê e paisagem. Ainda bato palmas para saber se alguém está em casa ou em meu passado. Viver é juntar duas camas de solteiros, duas alegrias solteiras, para fazer uma de casal. Fui exato nos horários para meus filhos terem folga. Não mudo de cara, de passaporte, de bairro. Primeiro pensei que escrever era sair da infância, que escrever significava a permissão de permanecer acordado depois das 22h, escutar a conversa dos adultos, o sigilo dos sons, testemunhar a fogueira de São João até o engasgo do amanhecer. Depois de menino, pensei que escrever fosse voltar à infância. Mas a infância nada mais é do que a espontaneidade da língua, sem os dentes da frente. Não importa, não importa mais. Meu peso soletra o vôo, os braços estão calcificados no que segurei. Mais vale ser o fogo e suas asas repentinas. As dúvidas sabem melhor o endereço do que as respostas. Curiosidade não é insuficiência. Avidez não é incompletude. O que nos faz trabalhar tanto apenas para ocupar os dias? Acorda-se com a idéia de que se deve concluir alguma coisa. Algum trabalho momentâneo ou encomenda são artifícios. Haverá tudo de novo em seguida. A igual remessa de papéis com um carimbo das unhas (Não, não contorno as cutículas, as patas cavam mais fundo). Quanto vale o reconhecimento se não há a capacidade de se reconhecer na estranheza? Substituímos o ver pelo ser visto. Aquilo que foi sonhado passa a ser calculado. Os anos vão nos tendo, nos amortecendo, nos acomodando em uma idade parada. Concluir o quê? Sempre estamos mais entusiasmados em acabar do que começar. Parece que o final da tarde é a manhã. E quando nos sentimos emparedados em si, esgotados, procuramos algum culpado perto da gente. Uma esposa, um amigo. Um culpado para nos aliviar da responsabilidade de estar vivendo. Isso: a consciência de estar vivendo. O mundo é uma provocação e se busca surpreender o mundo quando basta compreendê-lo. Eu acredito mais em mim quando estou mentindo.

(Texto publicado no Caderno de Idéias, revista de Curitiba, PR, Travessa dos Editores, novembro 2003)

* Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003), Biografia de uma árvore (Escrituras, 2002), Terceira Sede (Escrituras, 2001), Um terno de pássaros ao sul (Escrituras, 2000) e As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998).

6:22 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 26, 2003

Zumbido intermitente das cigarras
Fabrício Carpinejar*

Em A margem imóvel do rio, Luiz Antonio de Assis Brasil faz uma impecável fábula sobre o silêncio, o esquecimento e a identidade cultural.

É curioso notar que boa parte da narrativa brasileira recente está se voltando às viagens para fora do país, à procura da estranheza e do confronto cultural. São os casos de Mongólia, de Bernardo Carvalho, Budapeste, de Chico Buarque, e Berkeley em Bellagio, de João Gilberto Noll. Todos esses escritores grifam o nome das localidades exploradas nos títulos e partem da compulsão de universalizar a experiência. A língua estranha cumpre a metáfora de algo remoto e desconhecido. O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil caminha na contramão da caravana. Em seu novo livro A margem imóvel do rio(L&PM, 128 páginas, R$ 28), completa um díptico com o "Pintor de retratos", prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em série chamada de "Visitantes do sul". Ao invés de sair do Brasil, o autor entra nele como uma geografia misteriosa. Articula um olhar livre sobre o que se julgava conhecido, mostrando que o Brasil está longe da unidade e de se perceber com nitidez.

Em O Pintor de Retratos (2001), Assis Brasil acompanhava a chegada do artista italiano Sandro Lanari ao Rio Grande do Sul, onde ele enfrentava a ascensão da fotografia, um ambiente passional de guerras e fraturas políticas do século XIX e a influência de Nadar, o mais célebre fotógrafo francês do período.

Em A Margem Imóvel do Rio, oferece a história do cronista oficial de Dom Pedro II, que precisa checar a promessa imperial de transformar em barão o estancieiro Francisco da Silva. A palavra da Corte havia sido empenhada há vinte e um anos e a tarefa não é a das mais fáceis, já que Francisco da Silva era tão comum quanto o chimarrão e o toucinho. O historiador deixa o Rio de Janeiro para suportar o inverno rigoroso das estâncias, cavando pistas a partir das anotações da expedição anterior. Essa é uma das virtudes da obra. Se antes era mais visível a imersão de um estrangeiro, na figura de um italiano descobrindo Porto Alegre, agora esse estrangeiro é - paradoxalmente - um brasileiro, da sede do governo, que ruma ao sul como quem é designado a um forçado exílio. O primeiro choque surge do exacerbação das diferenças regionais. Com agudeza crítica, Assis Brasil coloca as idéias fora do lugar. "Revoadas de aves migratórias subiam para o Norte. 'Só eu venho para o sul e para o frio'", diz o personagem.

Com mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros publicados, Luiz Antonio de Assis Brasil não está brincando. Seu texto prima pela transparência narrativa. Uma jóia radiofônica sem arestas e desperdício. Não é forçoso dizer que se trata de seu melhor texto, tanto tecnicamente como pela sua capacidade de atordoar. A densidade psicológica se expressa na ambientação externa, nas lacunas dos fatos. Os rompantes líricos são combinados harmoniosamente para atuar como contrapeso à objetividade. "Tivesse ouvidos sadios, já poderia escutar o caminhar macio dos lobos- guarás em seus hábitos crepusculares."

Nada é gratuito e aleatório, os fios vocabulares e cordões de pensamento atendem unicamente à necessidade da história. O historiador sofre de Tinnitus Aurium, ou seja, o zumbido intermitente de cigarras nos ouvidos que não permite sequer estar em silêncio. Essa doença contagia a própria operação das frases: curtas, elípticas e letais. Em um lance machadiano, o romancista internaliza o tema a ponto de ele virar o próprio epicentro do estilo, evidenciado nos sobressaltos, nas obsessões descritivas e na fixação dos cenários. A narração provém da irritação do personagem de não escutar o silêncio, de precisar se distrair para calar a si mesmo. O romance pode ser visto como um tratado sobre a imobilidade da fala. Fala-se para não se ouvir. "O silêncio completo não existe, pois jamais um som poderá ser fracionado até o fim, sempre restará algo dele." O silêncio aqui não é líquido, como sugere o título, mas empedrado, imutável, inaudível. Os outros personagens fortalecem a caracterização da trama.

O historiador encontra a surda-muda Dona Augusta, esposa de um dos possíveis Francisco da Silva. Ele ambiciona não escutar como ela. Sua deficiência total é vista como uma cura. Pior é ter uma deficiência parcial como a dele, que o coloca entre dois mundos e nunca integralmente em um único. Outro dado: Francisco da Silva, que ficou viúvo justamente no momento em que retornava de sua primeira viagem do Rio Grande do Sul, vai despertando sua sexualidade adormecida à medida que avança em sua missão. As mulheres vão se avolumando uma nas outras: a esposa falecida na criada Cecília, a criada na jovem e atormentada pianista Lisabel, Lisabel na índia Cândida. As mulheres vão se completando para consumar a mudança de personalidade do historiador. De temperamento distante e impessoal, converte-se em um homem frágil e presente, duvidando da infalibilidade de sua memória, instrumento de seu trabalho. "De que idade estou falando, se tenho em mim todas as minhas idades?".

Da encruzilhada feminina, emerge o outro pulmão do enredo: o esquecimento, que não deixa de ser um modo áspero de silêncio. O historiador questiona suas lembranças e pior, suas anotações de viagem, documentos que constituem a história brasileira, sem espaço para a subjetividade. Sente vontade de preencher o espaço com suas vivências, mudando o foco de observador e testemunha distanciada dos fatos para uma posição autoral. Acostumado a servir quer ser servido. Presente na antiga expedição onde a promessa de título de barão fora feita, tenta reconstituir os lugares que passou e as pessoas que viu, mas não os reconhece. "O que é uma lembrança, senão a lembrança de uma história?" No ponto em que sua memória começa a trai-lo, age mais livre para viver fora dos cadernos. Não nasce mais unicamente de sua letra, admitindo improvisar e dispensando a consulta dos roteiros. "Seu passado começava a tornar-se mais imprevisível que o próprio futuro."

O objetivo da procura termina sendo secundário. Catalogando os Francisco da Silva em falso ou verdadeiro, percebe que esses critérios não representam o passado, feito de impressões e não acontecimentos. Assim como quando se procura uma coisa não se acha e quando não se procura é que se encontra.

Na verdade, o cronista caça provas de que existiu e passa a aceitar o esquecimento como um destino mais generoso do que a morte, essa sim, a forma mais extremada de quietude, onde se escuta, porém não se pode comunicar o que se ouve. A desmemória crescente não é exclusividade do protagonista. A História costuma também se esquecer e se apagar violentamente, como prova o Epílogo. Não serei eu a denunciar e estragar o prazer da leitura.

(Publicado no Jornal Rascunho, Curitiba, PR, novembro de 2003)

* Jornalista e poeta, autor de Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003), entre outros.

6:30 PM :: Comentários:

Mínimas:

* Quando se tem razão é aconselhável negar. Em seguida, o interlocutor admite a verdade e repete aquilo que havíamos dito como se fosse dele.

* Não desisto de me encontrar onde não estou.

5:56 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 25, 2003

CADERNO DE GEOGRAFIA

Meu filho Vicente, 1 anos e 9 meses, desperta de manhã, vai na gaveta, pega a sunga, sobe a escada caracol e espera que a chuva não tenha se acordado para tomar banho de piscina. Ele entende tudo e adora falar o "não". Às vezes, acho que fala "não" apenas para se exercitar. Eu deito em seu colo e ele faz carinho na cabeça. Sinto responsabilidade no jeito como enrola meus poucos cabelos. A mão pequena e, ao mesmo tempo, enorme. É como se não houvesse nada tão importante no mundo do que aquilo. Eu não sei desistir com ele perto. Eu não sei desistir porque a vida se aproxima com intimidade e conhece o que está dentro do nome. Ele grita cada vez que o trem parte da estação. Aponta o dedo e diz "trem", sua primeira palavra pronunciada, destino e estação. Bate três vezes nas costas em todo abraço. O que mais gosta de receber é um par de sandálias. Solta uma ladainha de batismo dos pés. Dança com desenvoltura, mexendo os quadris e dando voltas e giros, como alguém que poda a planta do vento para crescer mais. Escolhe os próprios cds que pretende ouvir. Prefere assistir MTV do que desenhos. Os passeios começam com a visita ao cão preto do bairro, adormecido no carpete da padaria. Quando está com fome, desenha círculos nas folhas. Quando está com sono, coloca os pés sobre os meus, uma escada. Meus ouvidos se ajoelham para erguê-lo.

9:11 AM :: Comentários:

Menino-estrela
Recebi de presente um poema da filha Mariana, 9 anos, nesta segunda (24/11). Transcrevo:

Por que eu sou assim?
E por que sempre fui o que sou?
O mesmo de sempre.
Eu acho que sou o que sou.
Mesmo sendo ou não sendo,
eu sou.
Eu sou o maior.
E às vezes o mais solitário.
Solitário como uma estrela
que não brilhou.
Eu quero ser o que sou
e pode ter certeza
que tudo o que eu disse
eu sou um pouquinho!

9:03 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 24, 2003

Jornal Zero Hora, caderno ZH Escola, Porto Alegre, 24/11/ 2003, Edição nº 13974

Ensino
"Nunca me separei do mundo de Mariana"

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Poeta, autor de Caixa de Sapatos (Companhia das Letras)


Tenho dois filhos. Vicente, um ano, vive ao meu lado e de minha mulher; Mariana, nove anos, mora com a mãe. Sou filho de pais separados e achei que não ia acontecer comigo. O começo sem Mariana foi difícil. Era como respirar com um pulmão a menos.

Se qualquer pai fica preocupado quando sua criança dorme uma noite fora, imagina como ele sofre com uma seqüência de noites até o final de semana? No início, eu me sentia culpado. Minha imaginação cogitava o pior: logo seria esquecido e substituído. Aos poucos, me libertei da culpa, que nada mais é do que um egoísmo.

Harmonia é conviver com a verdade, não com as aparências. Ser sincero até nos próprios erros. Nunca me separei do mundo de Mariana. Separação de casal não é privação, mas uma nova forma de chegar para abraçar. É fazer da janela (em que a filha espera) uma porta. Levar o mundo para dentro de seu apartamento.

Sempre que minha menina apresentava uma dificuldade, inventava um personagem para ajudá-la a resolver a situação.

Assim apareceram o Canal, guri que mudava de assunto toda hora e que sinalizava o desconforto da dispersão, o Sussurro, que só falava baixo nos ouvidos e não gritava, e o Caramujo, professor com capuz de cantor de rap, que a ensinou a escrever.

Não compenso os dias que não a vejo com permissividade. O importante é a doação, dedicar-se a ouvir, totalmente concentrado em seus movimentos, dúvidas e inquietações. Nada de trabalhar ao mesmo tempo. Participar de sua intensidade de narrar. Brincar sem medo do contágio da infância. Mostrar que o humor e a autocrítica resolvem a tosse. Acompanhar a mudança de sua voz e a emancipação de seus olhos. Importar-se com os detalhes, com seus pequenos pensamentos e sua deliciosa rotina. Adivinhar em algum desenho ou frase o que ainda não sabe dizer. Contar histórias não para dormir, e sim para acordar. Ela é uma árvore que seguro entre as mãos. A diferença é que está dentro do sangue.

7:40 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 23, 2003

Um careca em Curitiba
Texto Fabrício Carpinejar
Série de fotos de Cristovão Tezza

Curitiba é cinza. Como um terno azul dobrado. Cidade que muda seu tempo de repente, ficando somente entre a neblina e o nublado. As mulheres parecem não rir. Não é fácil furtar um riso. Encolhidas, fazem com que o outro seja insignificante perto delas. Demonstram uma infelicidade funda e determinada, pássaros obcecados a seguir a migração, sem alterar um milímetro sua rota. Não sei se a infelicidade é minha ou delas.

Curitiba é uma cidade inventada para se correr, mas o engarrafamento não deixa. As ruas usam roupas de grávida, largas e diagonais. Os ônibus têm preferência para abrir as artérias. Paga-se passagem no terminal. Não dá para passar debaixo na roleta ou descer por trás. Isso mata a infância sem querer. As pessoas esquadram o vazio, introvertidas. São funcionais, não perdem atenção com informações desnecessárias. Nada parece ser importante o suficiente para que elas possam sair de casa (ou de si mesmas). Ser caseiro em Curitiba é uma missão. Pode vir o Papa, que será observado pela janela. Amigos se encontram se forçados por visita de família distante. Encomendar uma pizza é obrigatório como levar o cachorro para passear.

Quem escolhe Curitiba nunca adere de paixão. Não vi nenhum adesivo como "Eu amo Curitiba" nos carros ou em lojas. É um amor discreto, platônico, que não se declara nem sob tortura. Curitibano só começa a ser valorizado se fizer sucesso fora. Morar em Curitiba é ficar a duas quadras das convicções. Não é possível se sentir inteiramente no seu território, nem fora dele. Cidade de autores, não de leitores. Ninguém vai parar um escritor e solicitar um autógrafo, ainda que seja Paulo Coelho. Residir em seus limites é exercitar a invisibilidade. Sinto atração pelas suas dificuldades de relacionamento, mas levaria mais do que minha literatura para investigá-la.

A cidade é bonita e fosca quando se atravessa as sinaleiras. Equilibrada, ordenada em excesso, perfeita a ponto do caminhante pensar que ele é o erro. Uma maquete para se investir. Não tem fundo. Não empresta beleza, acabada e embrulhada para a viagem. Maçanetas para pendurar chaves. O rio Belém espia com seus obituários e velhos conhecidos. Passa receoso de incomodar e reprime suas histórias. Os moradores esnobam obediência ecológica. Não pisam na grama e nas certezas.

De acordo com Cristovão Tezza, as obras em Curitiba foram feitas para caber num selinho: Jardim Botânico, Ópera do Arame, Museu Niemeyer. Lerner viciou a fórmula, envolvida em verde, água e estruturas metálicas e de vidro. O modelo é sempre igual, transposto de bairro. Japoneses e chineses aparecem das moitas para fotografar. Nunca encontrei tantos parques arborizados de nuvens. Poucas bicicletas, o hábito é fazer caminhadas e leves corridas. A casa de Dalton Trevisan é cinza como Curitiba. Fechada para dentro. Nunca abre as janelas. Ele mora numa esquina. As corruíras são correias de seus telhados. Anônimas como as pombas. E fugazes.


Coisas estranhas: Bar do Victor, um dos melhores restaurantes de frutos do mar, fechado na sexta durante o almoço.


José Castello fala sobre seu novo livro "Melhores crônicas", lançado pela Global, com seleção e prefácio de Leyla Perrone-Moisés


Jardim de estátuas no Museu Niemeyer


Sou parte do mobiliário ecológico. Diante da rampa, não subo nem desço.


Chego a conclusão de que Niemeyer assistia Enterprise.


6:36 PM :: Comentários:


Radar:

Meu site está atualizado, com cerca de 80 textos críticos e 10 entrevistas. Trabalho de Roberto Schmitt-Prym. Confira.

6:31 PM :: Comentários:

Lavando e secando a poesia:

A Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033) vem firmando um novo espaço em Porto Alegre para discutir poesia. É o Varal de Letras, série de debates mensais com entrada franca. Nesta segunda (24/11), às 19h, converso com o poeta e publicitário Ricardo Silvestrin, duas vezes Prêmio Açorianos de Literatura (Poesia e Literatura Infantil), autor de Viagem dos olhos (1985); Bashô um santo em mim (1988); O baú do Gogó (1988); Quase eu (1992); Palavra Mágica (1995); Pequenas observações sobre a vida em outros planetas (1998). Silvestrin está lançando É tudo invenção, pela Editora Ática, reunindo vinte e cinco poemas ilustrados por Luiz Maia. Inspirado em situações aparentemente banais, o livro mostra um jeito diferente e puro de explicar a origem das palavras.

Varal de Letras consiste num bate-papo descontraído e coloquial sobre a vida da poesia, buscando formas possíveis de despertar o gosto pela leitura e de explicar o processo de criação. Quer valorizar o humor, a espontaneidade e a naturalidade na exposição de textos.

7:12 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 22, 2003


(Ado Malagoli, MARGS, Gato preto, 1954, óleo sobre tela, 82,3 cm x 71,2 cm)


(Carpinejar, Monturo, 1972, tela sobre azeite de oliva, 1,76 m x 70 kg)

Totalmente igual:

Eu posso ser visto em uma das nobres paredes do Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O pintor Ado Malagoli me copiou para concluir seu auto-retrato. A comparação já é pública. Ninguém contesta as semelhanças, apesar do quadro datar de 1954 e eu ter nascido em 1972 (detalhe irrelevante). O gato também foi meu. Morreu em um acidente no telhado. Uma antena caiu enquanto ele olhava Porto Alegre de cima.

10:41 AM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)
Mínimas:

* Escrevo com medo, mas um medo alegre, o mesmo que pressentia quando criança diante do desconhecido ou das sombras do quarto. Medo de que algo aconteça e falte voz. Um medo proibido e sedutor. Um medo curioso, que se provoca para acontecer.

* O poema é uma mão tremendo. Seguro no poema não para aliviar o tremor, mas para ser contagiado por ele.

9:58 AM :: Comentários:


UMA POESIA COM ENDEREÇO FIXO NA PROSA
(Texto publicado no site Weblivros, novembro 2003)
Fabrício Carpinejar*

Sabe aquele mormaço que não permite nem sair de casa nem ficar à vontade entre quatro paredes? Essa é a atmosfera da novela As Mãos, lançamento da coleção Rocinante (7 letras, 46 páginas), de Manoel Ricardo de Lima. O livro relata o gradual desaparecimento externo, da rua e da cidade, para um casal internado em sua residência. Oferece a construção laboriosa e arquitetônica de uma prosa que se interroga do início ao fim, sem se permitir a trégua de uma resposta. Intimista? Pode ser, mas não é hermético, não apresenta uma teia vocabular difícil e metáforas inacessíveis. Ocorre um desfalque da realidade, uma simplicidade característica da carência. A pequena narrativa evoca os diálogos interrompidos do pernambucano Osman Lins (Avalovara), onde pensamento fala mais alto do que a voz e ninguém quase se escuta.

A primeira frase do livro - "vivo no confinamento do tempo, tudo é dentro de casa" - remete em uma cadeia rítmica à última - "é que Lá fora, custa-me dizer, não existe mais". O dentro residencial é o passeio mais desgastante. O espaço descritivo se passa, antes mesmo de uma casa, na miudeza das mãos, entre o que se pode pegar e o que se é necessário. Tanto que as seções sinalizam a contagem dos dedos ("Um", Dois", "Três", "Quatro" e novamente "Um"). O casamento funciona como uma cidade sitiada, roupas e objetos postos em módulos e lados estanques. Cada um na sua, desconhecendo até que ponto se desconhecem. A convivência apagou as próprias distrações da intimidade. O livro é um ato de recuperação da liberdade, ainda que destrutiva, perante o choque dos costumes.

É curioso como Manoel Ricardo de Lima, em sua primeira incursão na prosa, amplia perplexidades de sua poesia. Em Embrulho (7 Letras, 2000), delicado catálogo de observações, já enfatizava a importância de uma contemplação espacial, pictórica, analisando os mesmos arquétipos que agora prossegue a deslindar como os aposentos, os corredores, as figuras do pátio e os quartos. Há, portanto, uma unidade de pensamento autoral, que não se encerra em uma obra, mas se propõe a se refazer progressivamente. No poema Olear, antecipava: "Não saber o/ quê/ dentro/ da janela/ dói". A poesia aqui não contamina e complica a prosa, porém cura a ausência de enredo. A linguagem funciona como um personagem onisciente, que não parte dos protagonistas, mas de fora para dentro, como que orquestrando os medos e as fobias recalcadas.

A primeira pedra no caminho é definir se a mulher está diante dele ou se ele reconstitui minuciosamente uma ausência e busca entender (absorver) a separação. À deriva de cinco concentrados capítulos, o amante se enclausura em seu apartamento e vai tornando real o que é irreal e alucinatório. Em elipses e inversões, o excesso de consciência do lugar abstrai o peso da cadeira, da mesa, dos móveis. Percebe-se um escoamento da consciência, uma hemorragia das palavras sem que uma ação a estanque. Manoel isola devaneios, que deslocados do mundo, viram ilusões. O movimento segue uma flutuação involuntária, como os casos espíritas de quem levita e flagra seu corpo de cima. A única conversa possível é com as paredes e com o esquadro da janela. "Lá fora" é mais do que uma expressão coloquial, acentuada em maiúscula torna-se o mito da socialização definitivamente abandonado pelo sujeito.

Nada mais interessa a aquele que vê, a não ser colecionar e zelar pelo seu fantasma e abrir as moradas de uma carne memorizada, se isso é possível. O monólogo, a princípio explicativo, assume unicamente a forma musical, levado mais pela correnteza sonora do que pelo seu sentido. A fala é de uma umidade seca, como um mormaço. Talvez o divórcio não tenha acontecido com a mulher, mas com a realidade dela. E não há chuva para desafogar o tempo cheio.

*Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Caixa de sapatos (Companhia das letras, 2003), entre outros.

As Mãos, de Manoel Ricardo de Lima. 7 Letras, Rio de Janeiro, 2003, tel. (21) 2540-0037, 46 p., formato 13 x 20cm.


9:52 AM :: Comentários:

Quase igual:

Minha irmã Carla, na época do lançamento do filme O Feitiço da Lua (1987), tentou me elogiar. Fez o possível para aumentar minha estima. Ela comentou que eu era muito parecido com Nicolas Cage, desde que providenciasse uma plástica no queixo, desde que afinasse o nariz, desde que meus olhos fossem claros, desde que não perdesse os cabelos.


9:48 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 21, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

Mínimas:

* Contesto meu gosto, não o meu gosto no gosto dos outros .

* Antes sem modos do que seguir moda.

* Quero morrer sem sobrar vida para contar.

* Agradeço meus limites. Não me suportaria infinito. Os limites são vantagens.

* Toda arrogância é excludente e moralista. O moralismo nunca me ensinou a me comportar.

* O crítico não deve escrever para o autor, muito menos para si mesmo.

7:15 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 19, 2003

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Dia da bandeira. 1979. Foi a primeira data em que usei gravata e a única vez em que a combinei com uma bermuda e uniforme escolar. Minha mãe deu o nó na peça emprestada do pai e a colocou solenemente em meu pescoço. Lembrava uma manta enorme. Era colorida, listrada, com tons vermelho e azul. Cheguei no colégio atrasado, alegre com a novidade que tanto insisti em botar. Os colegas esperavam no pátio. Ao me enfileirar, talvez em função da gravata gigantesca, a diretora me chamou para hastear a bandeira. Maldita hora em que me vesti como um adulto. Não sabia fazer aquilo. Minhas pernas tremiam como um fantoche. Tinha duas linhas de pescar e necessitava levantar uma delas. O hino começava a ser executado por um velho toca-discos da sala do audiovisual, mas algo deu errado. O som ficou estacado no mesmo refrão. O toca-discos havia esquecido o próprio hino. Respirei aliviado, já que não era só eu que padecia de dificuldades de decorá-lo. Ganhei tempo para entender como fazer a flâmula imitar pandorga. A música voltou e todos, até os pássaros mais remotos, me fitavam com civismo. A bandeira não subia e o hino estava pela metade. Ouvi risos retraídos ao fundo. Era complicado fingir movimentos dos lábios e disciplinar o elevador do poste. Estava desistindo quando me lembrei do gesto materno durante a manhã. Imitei. Puxei as cordas da bandeira como quem puxa as línguas da gravata. Fiz um nó entre o vento e minha respiração.

8:30 AM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

O sim é um não apressado. Digo sim e penso não. Digo não e penso sim. Seria mais fácil escrever em números. Os números são os ossos das palavras. Os números são os caroços das frutas. Prefiro frutas com caroço. A árvore em segredo explodindo nos dentes.

8:28 AM :: Comentários:

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Os santos em cima da televisão não trocavam de canal.
Todos os santos tinham um olhar suspeito. Cheiravam a cachimbo e loção pós-barba.


8:25 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 18, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)
Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

O pai de um amigo do colégio partiu para uma viagem de negócios. Negócios que duraram mais do que uma vida para esperar. Não deixou previsão de retorno. Não deixou o retorno.

9:00 AM :: Comentários:

Paraná: Participo da mesa-redonda "Crítica literária" na quinta (20/11), às 19h, em Curitiba(PR), dentro da programação de lançamento da nova Livrarias Curitiba Megastore, no Parkshopping Barigüi (Rua Professor Viriato Parigot de Souza, 600 Loja T17 - Mossunguê Tel.: 41 330-5000). Ao meu lado, estará José Castello e Paulo Polzonoff Jr, em encontro mediado por Rogério Pereira. Em seguida, às 20h30, faço sessão de autógrafos de minha antologia Caixa de sapatos (Companhia das Letras).
8:58 AM :: Comentários:

Deu no site Verdes Trigos:

Carpintanejaria poética
Ronaldo Cagiano*

Embora tenha escrito literalmente a "Biografia de uma árvore", Fabrício Carpinejar jamais viveu nas suas sombras. Nem na dos pais. É um autor no batente, na forja, na usinagem da palavra, procurando encontrar o ponto de liga: sua a camisa, arregaça as mangas e não vive às expensas do pedigree familiar (apenas a fusão patronímica dos sobrenomes da mãe Maria e do pai Carlos lhe serve de referência nominal, não de muleta para absorção pelos leitores ou críticos). A sua herança poética é uma compilação de sua experiência de carpintaria, na vida e na poesia. Uma antologia precoce apenas na hierarquização temporal, mas suficientemente madura para respaldar a sua compreensão do universo humano a partir de si. Seus parâmetros visuais, auditivos, olfativos e táticos mobilizam seu estilete interior. Carpinejar sabe tocar a pele das coisas, a epiderme do mundo, as vísceras da consciência, o fluxo dinâmico das emoções que caminham num leito pressuroso rumo ao mar - como ele que antes dos trinta anos já sabia de cor as outras margens do rio existencial, a terceira e a que está por ser desvendada, margens que levam aos setenta anos nessa adolescência poética a intencionar outras idades sem queimar etapas.

Se não carrega o peso da procedência, muito menos se vale do rescaldo das luzes poéticas da casa. Fabrício tem sua própria incandescência, cujo facho muitas vezes flexiona-se para a retaguarda, com aquela mesma sutileza semântica de que um dia nos falou Pedro Nava, a propósito da experiência (seja ela literária ou humana), como sendo um "automóvel com os faróis voltados para trás".

Há dois temas recorrentes em toda sua poesia: a memória afetiva e a relação familiar, principalmente esboçada na figura do pai, que merece, ao longo de suas expansões (entre o onírico e o poético), um certo ritual de (re)conhecimento, em que ambos se apresentam e se desnudam. E é a partir dos encontros & desencantos, da recuperação do herói devolvido em suas deambulações semânticas que se instaura um forte testemunho de quem, tão jovem ainda, viveu todas as épocas e tem tutano para regurgitar fantasmas e estofo para o exorcismo dos demônios da caminhada.

Com espírito aguçado a olhar o futuro com a sensação metafísica de já ter curtido tudo, o autor lança sua antologia precoce. Em "Caixa de sapatos" reúne o que recolheu de seus livros anteriores ("As solas do sol", "Um terno de pássaros ao Sul", "Terceira sede" e "Biografia de uma árvore"), depois de mergulhar sua bateia no amplo aluvião de uma produção poética que traz a contundência das descobertas e a sutileza das sentenças filosóficas . O resultado não poderia ser melhor: o mosaico de uma obra que vem num crescendo, que insiste (e por isso vai longe) em libertar-se, a cada livro, dos cânones, dos ismos, dos cacoetes, impregnada que está de uma autonomia que só compreende as dissidências e detestas a unanimidades.

"Caixa de sapatos" é uma pequena artilharia contra o tédio e uma esperança na vitalidade de uma nova dicção da poesia brasileira.

* Ronaldo Cagiano: De Cataguases, cidade mineira berço de tradições culturais e importantes movimentos estéticos, surgiu Ronaldo Cagiano. Escritor premiado, jornalista e advogado, radicado em Brasília desde 1979.

8:57 AM :: Comentários:


(Esse é o bolo temático feito para o meu aniversário de casamento. O boneco foi generoso comigo, senão dava bolo. A Ana, ao meu lado, tenta decifrar minha letra. A autora da arte deliciosa é Rosana Sperotto, dos Confeitos (51) 588-3793)

Mínimas:

* Estilo é quando se passa a ler o próprio texto como se fosse de outro autor.

* O cansaço aumenta meu rosto. Reduzo os olhos com a boca. Aos goles, recupero o riso, o tom, a respiração líquida.

8:45 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 17, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)
Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Nossa residência esmolava uma segunda mão de tinta. Escura e discreta diante da vizinhança barulhenta e dos jardins podados. Eu espiava os rumores da calçada. A fresta na parede, a festa lá fora. Era um pássaro retraído em sua verdura de asas. Odiava a sesta. Cansava mais fingindo dormir do que correndo. O quarto fechado como uma loja no domingo.

7:39 AM :: Comentários:

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Tinha medo de rã, da indefinição da rã, de sua indecisão entre a chuva e a torneira. A rã e suas pálpebras imensas. Parece um pulmão à mostra, soluçando, à espera de um transplante. Uma folha sem talo para acompanhar o vento ou para permanecer na árvore.

7:37 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 16, 2003

Deu Estado de São Paulo no Caderno 2/Cultura, domingo (16/11/2003), página 03, São Paulo (SP):

Coluna de Daniel Piza
A semana
(tópico O estado das letras)

Escrevi na semana passada sobre os bons lançamentos de ficção (romance e conto) deste ano, mas e a poesia? Voltarei ao assunto; enquanto isso você pode ir lendo a antologia Caixa de sapatos, de Fabrício Carpinejar, que reúne quatro livros anteriores, publicados entre 1998 e 2002. Carpinejar, 31 anos, é o melhor poeta de sua geração, e a antologia serve para ver como sua evolução foi se dando de uma poesia que abusava das metáforas e sinestesias (ou seja, das imagens que se misturavam com sensações como cheiro, tato e audição) para uma linguagem mais direta e meditativa: "A verdade ordenada é uma mentira"; "Somos residências geminadas/ se correspondendo pelos muros", "Atendi o pedido dos pais/ de não conversar com estranhos/ e deixei de me escutar". Poeta bom é o que nos deixa versos na mente, latejando durante dias.

2:49 PM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

Sou teimoso, deve ser isso. Vou fundo na alegria ou na dor. Não guardo sobras de amores para outros amores. Eu me esqueço completamente quando vivo. Eu apenas me lembro quando quero viver. Sou distraído, deve ser isso. O distraído não é aquele que passa como se nada acontecesse, mas o que exagera na observação. Repara na vida como se tudo tivesse acontecendo para ele. Me apetece confiar em todos e não acreditar em mim. Penso no mundo com tamanha ternura que só posso me repartir com violência.

8:12 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 15, 2003


ACHADOS E PERDIDOS
Fabrício Carpinejar*

A agência de correios tem sua seção de achados e perdidos. Biblioteca também. Trem, rodoviária, em todo ponto, existe sempre uma estante com pertences alheios, identidades amassadas como panquecas, bolsas extraviadas, celulares mudos e pentes que escorregaram dos bolsos. Um cemitério de objetos vivos. No mês de novembro, a Praça da Alfândega assume a condição de achados e perdidos de Porto Alegre. Uma grande sala a céu aberto onde amigos desaparecidos voltam a nos achar. Com certeza, se não falas com uma pessoa há anos, basta se dirigir para dentro da 49ª Feira do Livro, permanecer perto do pavilhão central, fazer cara de comprometido com compras ou de autor às vésperas de autógrafos, e surgirá, no estalo, em tua frente, quem fazia uma década que não conversava. Não é exagero dizer que a Feira funciona como um túnel do tempo, um triângulo das bermudas entre o ter sido e o porvir. Contrariando as probabilidades matemáticas, tem gente que se vê uma vez por ano e somente lá, apesar de viver na mesma cidade e talvez até no mesmo bairro e rua. Já paraste para pensar que não é coincidência? Colegas de primeiro grau, professores antigos, ex-namoradas, credores, paraninfos, amores que sumiram de repente aparecem sem explicação, sem apertar a campainha e avisar. É como receber um telefonema por engano e reconhecer a voz. Se há um Juízo Final, em que se torna possível reunir os conhecidos, acontece justamente na praça, entre a ala dos jacarandás e a torcida dos ipês floridos. Momento de reatar laços, desfazer mal-entendidos, matar a saudade, sofrer recaídas afetivas e trocar sacolas na hora do abraço. Representa também o melhor lugar para preparar uma festa de aniversário surpresa. Enxerga-se tudo o que se viveu, só que mais por dentro. Cada passo vira uma reza reprisada. Os parentes estão preparados para acordar e desfiar a genealogia de nomes. Tios e primos, irreconhecíveis, tomam o ombro e recontam detalhes da infância que se pretendia esquecer. Assobios carregam o vento na garupa. Amigos da mais remota pré-história do futebol gritam um apelido infame da meninice e denunciam à esposa que, sim, existe um passado que ela ainda não conhece. Tantos nomes, tantos rostos - nem decorando a lista telefônica se daria conta. Feira do Livro é o achados e perdidos da amizade, onde se procura livros de ficção e se encontra a autobiografia.

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de "Caixa de sapatos"(Companhia das Letras).

4:46 PM :: Comentários:


Álbum de figurinhas: A Feira do Livro de Porto Alegre possibilitou encontrar com autores que gosto, leio e freqüento, moradores de diferentes paragens e mapas rodoviários, como Flávio Moreira da Costa, Moacir Japiassu, Domingos Pellegrini, Lourenço Cazarré e Livia Garcia-Roza (tudo o que eu dizia, ela ria. Ou sou mesmo engraçado ou ela é generosa demais. Aposto na segunda opção). Tive sintonia e me diverti com o romancista Cristovão Tezza, autor de Trapo, Suavidade do vento e A noite em Curitiba. Marcamos um chope em uma tarde de chuva. Ele apareceu com uma máquina fotográfica no pescoço. Disse que era trabalho de campo, que estava fazendo uma ficção sobre um personagem fotógrafo. Foi logo se explicando... Na verdade, acho que era pretexto para ele não se sentir ridículo e culpado como um turista. Não havia nexo para pescar imagens no meio da tempestade. O público o ficava olhando de lado. Um excêntrico pregando verdades sem depender da bíblia. Com um jeito maroto, Tezza é formidável. Defende que a "literatura é arte de cegos": "num extremo, Homero, e no outro, Borges". Doa franqueza. Para se ter idéia, ficamos duas horas conversando e não falamos mal de ninguém. Quase virei santo. Me recuperei a tempo para contar a história e mentir um pouco. Mostro abaixo variações fotográficas de Tezza pelas alamedas porto-alegrenses.


Santidade e mesa de bar: Cristovão Tezza. Garçom entra na roda de capoeira.


Domingos Pellegrini, ao lado de Nóia Kern, no balcão de informações. Não o reconheci. Parecia um empresário, uma atração internacional, com direito a mala e terno.


Estalo para imagem: Lourenço Cazarré não disfarça o susto.


Parada para ouvir Ruy Carlos Ostermann. Obcecado em cumprimentar o professor, observador cronometra a cena.


Ilustrador e cartunista Rodrigo Rosa capricha no autógrafo de "O quadro da Andréa" (WS Editor, infantil), livro com texto de Christina Dias.

3:50 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 14, 2003

Uma manhã diferente como todas as manhãs

Estive na quinta (13/11) no Centro de Internação Provisória Carlos Santos/ FASE (ex-Febem), em Porto Alegre. São casas de várias cores. Passei pela rosa, pela verde, até chegar à azul. Entrei na cor como quem reencontra um desenho feito na infância. Conversei sobre literatura com uma turma de cerca de 20 adolescentes. A poeta Célia Maria Maciel fez um exercício a partir de uma caixa de sapatos. Cada um retirava um verso de meu livro, interpretava em grupo e o substituía por um poema criado por eles. Fiquei tocado pela serenidade e calma das árvores sentadas para ouvir a chuva. Todas enraizadas em minha boca. Fitavam as palavras com intensidade. Dançaram rap, apresentaram acrobacias e letras de músicas. Recebi de presente uma pulseira trançada com meu nome e um cartão, com a assinatura dos alunos. Agradeceram "a manhã diferente", a falta de medo de nossa visita. Jó, apelido bíblico que criei para um deles, me dedicou uma poesia fortíssima, azul, como a residência em que vivi quando pequeno. Ninguém faria melhor:

"Até mesmo meus sonhos
aqui dentro
são lentos."

8:38 AM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 14/11/03, Edição nº 13964:

Inéditos de Noll na praça: um prato de fome
FABRÍCIO CARPINEJAR*


João Gilberto Noll não precisava ter passado. Tudo o que já fez é como um clássico. Não precisava ter futuro. Tudo o que poderá fazer para assombrar a si mesmo. Bastava Mínimos Múltiplos Comuns, em edição caprichada e impecável da W11, para fincar seu corpo nesta margem remota da história. Ele extrapola a condição de observador. Surge como um aedo, um mensageiro da terceira margem do Guaíba. Sua contenção significa arrebatamento. Apresenta uma fúria orgânica, própria da carnação dos sonhos. Dos sonhos trocando a pele. Parece que Noll ficou anos e anos jejuando. Justamente porque sua literatura é vida em estado bruto. Ele come o alimento de pé, sem medo dos modos, com o prato próximo dos dentes. Lê-lo é levitar. É descobrir que a estranheza recém começou. Experimentar sua prosa é não se acomodar, convertendo o ato mais fútil em adoração alucinada da memória. O escritor pára o tempo para buscar água. É um romancista destilando contos. Centenas deles, com enredos que poderiam render novelas, mas que saltam mínimos, concentrados, acabados, quase um por página, sem uma palavra fora do lugar, fora do seu osso, da vértebra da imagem.

Selecionados de sua antiga coluna na Folha de S. Paulo, intitulada relâmpagos, os textos têm uma unidade acachapante. Rasgos, chispas, irrupção da chuva por baixo da terra. As frases escapam do subterrâneo, do inconsciente coletivo, desfazendo a insidiosa normalidade. Noll troca a falsa estabilidade emocional por uma verdadeira harmonia, que não é composta de preconceitos familiares, que não segue credos sexuais, religiosos e idiomáticos. Sabedoria de mostrar e nunca julgar, de dar à face a uma mão fechada, abrindo o punho pouco a pouco apenas com a força do rosto. Uma umidade de suor, realidade exalada, de chão e cama revirados. Cheiro áspero da beleza. Nota-se uma santidade sensual, o contágio da euforia e da celebração, a alegria súbita, a ferocidade que impele à ação. Não há maior motor do que se doar para a linguagem. Noll esvaziou a si mesmo para se tomar dos outros. O inferno é não ser os outros. Transpõe o sangue, o pulmão, as vísceras em cada cena. Ama com o que não enxerga. Sua cegueira vem tomada de luz. Traz uma poesia narrativa como nunca antes, como nunca depois. Pede para ser lido de pé como quem recebe um prato de comida. Ritualístico, cênico, colhe os anônimos em transe, apanhando, de modo definitivo, seus pensamentos provisórios, ofensivos, ofendidos. Monta uma colagem de situações na rua, no meio do redemoinho da banalidade e da banca de frutas. Executa uma contemplação musical, uma ladainha hipnótica, cantochão, canto gregoriano. Ler Noll é escrever com ele. É ser ele.

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003)

Mínimos, Múltiplos, Comuns
João Gilberto Noll
Autógrafos na 49ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega, nesta sexta (14/11), às 20h

8:36 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 13, 2003

PRÊMIO:
A Associação Gaúcha de Escritores (AGEs) realizou na noite de quarta (12/11) a entrega dos prêmios de Melhores Livros do Ano, publicados em 2002. Minha obra Biografia de uma Árvore (Escrituras) venceu na categoria poesia. Os outros vencedores foram Claudia Tajes com Dores, Amores e Assemelhados em Narrativa Longa, Jane Tutikian com A rua dos secretos amores e Aconteceu também comigo em Contos e Juvenil, Valesca de Assis e Ana Maldonado com Todos os meses em Crônica, Celso Gutfreind com Fera domada em Infantil, e Sergio Faraco com Lágrimas na chuva em Não-ficção. A cerimônia aconteceu no Chalé da Praça XV, no centro da capital, dentro da programação da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre. Essa é a primeira edição do concurso, destinado a valorizar a produção literária do Rio Grande do Sul. Todos os associados da entidade tiveram direito a votar pela internet. A primeira fase escolheu três finalistas de todos os livros publicados no ano passado. Na segunda votação, houve a definição de um grande vencedor em cada categoria.

12:27 AM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

A poesia pode ser a realidade (mais do que transformá-la). Em maio desse ano, recebi um e-mail da poeta Célia Maria Maciel, que conduz uma oficina na FASE (ex-Febem). Ela me contou que utilizou, como criação coletiva, o Novíssimo testamento, de meu livro Biografia de uma árvore(2002). Os adolescentes remontaram os mandamentos poéticos, dando-lhes significado para seus dias. Nesta quinta (13/11), às 9h, falarei com a turma. Será meu primeiro encontro com os alunos. Reproduzo abaixo a mensagem enviada por Célia:

querido fabrício,
fui para a fase (ex-febem) ontem cedo. preparando alguma coisa para os guris
(a idade varia, 14, 15 por aí) pensei em algo que mexesse com eles. no ano
passado, levei poesias leves, de fácil compreensão (eles são
semianalfabetos). peguei a tua árvore e levei para os meninos infratores, da
casa de passagem carlos santos. de que forma eles teriam acesso à tua
poesia? optei pelo novíssimo testamento. sim, trabalharia com o teu
testamento. cheguei lá e eles foram entrando desconfiados porque três
monitores ficaram de guarda na porta da biblioteca e duas monitoras ficaram
comigo. unhas roídas, cabeças enterradas nos bonés, barba por fazer, os dez
escolhidos para a oficina de poesia pareciam dez bichos enormes, olhos
baixos, troncos fortes, como a tua árvore. mas sem nenhum indício de algum
interior, de algum sumo.
falei sobre graciliano ramos, sua prisão e as "memórias do cárcere", citei
antonio gramsci que escreveu sua obra na prisão e que o juiz se referiu como
aquele que tinham de fazer o cérebro parar de pensar, porque as idéias
revolucionárias incomodavam, apesar de estar preso. finalmente, lembrei o
negro, pobre e louco artur bispo do rosário, artista plástico que viveu num
sanatório no rio e deixou uma obra considerada em vários países.
e surgiu a idéia de eles escreverem um testamento. teria o nome de artur
bispo do rosário (simpatizaram pelo fato de ser pobre, negro e louco). não
seria o novíssimo pois já estava escrito. seria o deles, pois reconheciam a
sua capacidade de sonhar, imaginar e inventar. relutaram em começar. li o
teu versículo: "nascer póstumo". discutimos o que seria nascer póstumo.
surgiu a frase "nascer depois do portão". então esta foi a primeira idéia.
"jejuar para doar o sangue" quiseram igual, pois sabem bem o que é isso.
"eleger tristezas para concorrer com as tuas" provocou nos meninos a
interpretação "repartir com o amigo o abalo do sistema" que significa o
mesmo que o amigo estar deprimido por não receber visita da família. depois,
vieram idéias simples, como:
- o sonho acaba quando dizem "acabou a visita"
- as grades nunca prenderão o nosso pensamento
- só deus sabe a minha hora
- do outro lado da porta da cela tem um outro mundo que me espera
no final, os meninos encerraram o testamento dizendo "fechamos este
testamento com fé em deus só ele pode nos livrar e com a força que existe em
nós"

fabrício, eles repetiram o teu nome e ficaram atentos quando disse que eras
jovem e que gostarias de saber do nosso encontro de hoje. tive de prometer
que te contaria. me perdoa se tomo o teu tempo, estou cumprindo parte do
testamento que não escrevemos hoje de manhã. o sofrimento dos meninos é
profundo. mas eles sonham e esperam, mesmo que passem pelo "abalo do
sistema". sei que estás acostumado a receber comentários, análises,
críticas sobre a tua obra. esse foi o jeito de te dizer o quanto gosto de
tua poesia, do quanto sei que ela serve para vestir a alma desses meninos. e
a nossa que estamos fora dos limites do portão.
obrigada, beijos,

celia maria
ah fabrício, os meninos têm sumo em seus interiores


NOVÍSSIMO TESTAMENTO
Biografia de uma árvore

Legendar a conversa dos pássaros ao amanhecer,
esticar o arame do violino,
restaurar o som dos peixes com o veludo dos pés,
acolher o elogio dos defeitos,
prender em gaiolas os livros de leitura avoada,
trocar mensalmente a terra do rosto,
agradecer a quem te cumprimenta por engano,
empregar as ervas como escolta das flores,
desaparecer na visibilidade,
interromper a sesta do vento,
repor as telhas do fogo,
esperar o porão subir com os frutos,
conhecer-te na medida em que me ignoro,
repetir os erros para decorar os caminhos,
ressuscitar a brasa das cinzas,
saber uma chama de ouvido,
afiar a faca na compra para que seja leal na despedida,
levantar atrasado, com a solidão ao lado,
distanciar o desespero e alegrá-lo com a saudade,
reverenciar o muro que nos permite imaginar uma vida diferente da nossa,
escolher as melhores maçãs pelo assédio dos insetos,
assobiar estrelas entre os telhados,
partir os cabides ao arrumar as malas,
pensar baixo para não ser escutado,
avisar das falhas na calçada,
seguir quem está perdido,
gritar nos ouvidos da claridade até surgir relâmpagos,
estreitar as vigas da face com a rede do riso,
tragar o vapor do inverno na véspera de ser vidro,
ter a infância assistida pelas parreiras,
ser a primeira roupa do teu dia,
nascer póstumo,
identificar o corredor do hospital nos arbustos podados,
correr na contramão do rio,
desafiar as cigarras, desafinando mais alto,
transpor a aparência do inferno,
converter o ódio em curiosidade do amor,
acelerar o passo para a névoa não encurtar o dia,
arrancar do fruto o que voava do coração parado da ave,
revezar com o pessegueiro a guarda da porta,
jejuar para doar o sangue,
enredar teus joelhos como forquilhas da fogueira,
enervar a vela com um lance de olhos,
cobrir com jornais a pedra fria,
buscar um confidente fora da consciência,
barbear a insônia com a lâmina dos seios,
descobrir o irmão mais velho no silêncio do caçula,
obedecer a intuição das dúvidas,
abandonar teu corpo antes da luz depor o peso,
morar no clarão exilado,
respeitar o mar quando está rezando,
curvar-se no violão como uma violeta cansada,
compensar a forte dose da fala com os gestos,
imitar a elegância de objetos esquecidos,
espantar o pó com a lâmpada dos dedos,
desfrutar do feriado das tranças,
deixar a música se inventar sozinha,
desperdiçar o fôlego fingindo trabalhar,
ouvir o sol de noite,
segurar no braço da cerração para atravessar a rua,
procurar minha voz em outros autores,
retribuir o aceno das sobrancelhas,
presenciar da janela a palestra da chuva,
espreguiçar a camisa dormida de espuma,
eleger tristezas para concorrer com as tuas,
puxar a cadeira na saída
(e observar tuas pernas roçando a toalha da mesa),
engolir de volta as palavras que te agrediram,
cortar a artéria de um beco e sangrar a saída,
medir a altura do poço com uma moeda,
entender que meus livros são parecidos comigo
(demoram a fazer amigos),
verificar o pulso da madeira,
desconfiar das superstições confiando nelas,
achar no pesadelo um quarto para dormir,
conservar a imagem da casa quando criança,
arder como um musgo na soleira da porta,
descer o fecho do vestido e vestir o quarto,
caminhar com a sandália de teus lábios,
ajustar o cavalo na cintura da estrada,
rebobinar o pulmão com a asma,
morrer tentando não morrer,
golpear o tambor com a força dos pés,
compreender sem concordar,
combinar encontros e desencontrar-se consigo no meio do trajeto,
desistir de compor o diário porque não existe segredo quando escrito,
anotar na agenda as reuniões que não quero ir,
apiedar-se da vocação fúnebre do guarda-chuva,
falir na memória preservando a imaginação,
acautelar-se das paredes velhas, o cimento armado,
carregar o sobretudo como uma garrafa vazia,
comemorar o que desconhecemos um do outro.

12:14 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 12, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

* Contradição:
O pêssego é uma fruta que não podia ser pesada, já que pesa todo o pomar.

* Crime passional:
Um fio de cabelo e inventa-se o corpo.

* Infelicidade:
Quando os sapatos se moldam aos pés, são jogados fora.

9:06 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 11, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

Da série "A poesia está viva e juro que não fui eu": Dois jovens poetas para avivar a linguagem, dois lançamentos de 2003 que garantiram prazer na leitura. Um é paulista, Marcelo Montenegro, 32 anos, com "Orfanato portátil" (Atrito Art Editorial). O outro é gaúcho, Marlon de Almeida, 37 anos, com "Malabares ou clube dos incomparáveis" (Age).

"Algo em mim que eu nem suspeito
amadurece mais um pouco."
Marcelo Montenegro

"Morrer é meu medo de ser para sempre discreto."
Marlon de Almeida

7:54 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 10, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

Não sei me agradecer. Não sei receber presentes. Não sei amarrar os sapatos. Sei pouco, tão pouco, que nem serve para a vaidade. Tenho dificuldades de ser aceito por mim. Conspiro contra o que falo. Me sinto gordo para vestir o silêncio - ele é sempre um número menor do que eu uso. Ainda sou muito desconfiado de que realmente existo.

10:19 AM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)
Dá série "Explica de novo?":

A luz é cicatriz.
A laranja bebe seu sumo antes do sol.
E a tempestade espia, como um galo.

10:15 AM :: Comentários:

Dica: A poeta gaúcha Maria Carpi autografa seu novo livro A força de não ter Força, da editora Escrituras, nesta segunda (10/11), às 19h, no Pavilhão Central da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega. Em seguida, às 20h, acompanhada do músico Castañera e de Luiz Coronel e Jaime Vaz Brasil, Maria lê seus poemas no Centro Cultural CEE Erico Verissimo, dentro da programação da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre.

"Tenho dois grandes amores:
aquele que amo e aquele que

não amo. Um sustenta-se da
existência do outro. O amado

tem zelos daquele que não
amo, em guarda, à espreita.

E o não amado dá guarida
à intensidade do outro em mim.

E me alivia do tumulto do vinho
nas vides, com olhos de musgo."
(A Força de não ter Força, Maria Carpi)

10:11 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 09, 2003

Deu no jornal Zero Hora, coluna de Martha Medeiros, caderno Donna, 09/11/03:

Lista da Feira
Martha Medeiros

Não são os melhores livros do mundo, tenho certeza, mas são, posso garantir, os que mais gostei entre os que eu tive nas mãos em 2003. Venha, vamos dar uma volta

Nesta época, costumo listar alguns livros que li durante o ano e que podem servir de sugestão para quem circula pela Feira. Não que sejam os melhores livros do mundo, mas são os que mais gostei entre os que tive em mãos em 2003. E deixei de ter em mãos muita coisa boa, sei disso.

Quando Nietzsche Chorou, de Irvin Yalom, merece ser mencionado antes de todos, é um livro espetacular que narra a criação da psicanálise em forma de ficção, daqueles livros que você não pára de sublinhar passagens. A Marca Humana, de Philip Roth, é outro romance indispensável, um tratado sobre a hipocrisia. Ainda entre os gringos, recomendo O Livro das Ilusões, de Paul Auster, e Stupid White Man, de Michael Moore - este, você sabe, não é ficção, e sim uma crítica inteligente, bem-humorada e implacável dos Estados Unidos de hoje. Leia mesmo que você seja um americanófilo - ainda assim você vai se sentir gratificado por ver alguém escrever o que pensa sem pisar em ovos.

Não se Mexa é um romance sentimental muito bem escrito pela italiana Margaret Mazzantini. E Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, do moçambicano Mia Couto, é uma beleza de livro escrito num português com inesperadas sutilezas. Destaco ainda Uma Questão Pessoal, de Kenzaburo Oe, e o livro de contos Dançarinas, de Margaret Atwood. Na categoria pequeninho-porém-cumpridor, Monogamia, de Adam Philips. E os pockets com relançamentos do John Fante.

Li os brasileiros mais divulgados do ano: O Diário de um Fescenino, de Rubem Fonseca, Valsa Negra, de Patricia Melo, e Budapeste, de Chico Buarque. Gostei muito de todos, mas comoção não senti. O que não quer dizer nada, a gente não lê apenas para se comover, mas para se distrair, conferir, curtir um trabalho bem feito. Entre os livros de que pouco se ouviu falar, destaco Fomos Maus Alunos, de Gilberto Dimenstein e Rubem Alves, uma excelente reflexão sobre didática e currículos escolares, e seus desserviços.

Em dezembro passado, me encantei com Vésperas, de Adriana Lunardi, e com as Cartas de Caio Fernando Abreu: não entraram na lista de 2002 por questões cronológicas, já que os li depois da Feira. Sugiro também as crônicas de Adriana Falcão (O Doido das Garrafas) e as dos nossos conterrâneos Kledir Ramil (Tipo Assim) e Zé Pedro Goulart (Confissões de um Comedor de Xis). O livro Cristal Polonês revela uma Leticia Wierzchovski mais enxuta e tocante. E quem ainda não leu os poemas do Fabrício Carpinejar pode começar pela coletânea Caixa de Sapatos.

Gostaria de lembrar que a Feira termina dia 16, mas o que não falta na cidade são novas livrarias: Palavraria, no Bom Fim, Ao Pé da Letra, na Tristeza, Botequim das Letras, no Moinhos de Vento... procure uma no seu bairro e prolongue a festa. Por fim, saudações à livraria Cultura do Bourbon Country, assim como a todas as que conseguem se manter neste país que, segundo consta, não lê, mas que ainda há de sucumbir ao vício.

2:15 PM :: Comentários:


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

A sessão de autógrafos de "Caixa de sapatos" na Feira do Livro de Porto Alegre me emocionou. Tanta gente. Ao fundo, Frida, 92 anos. Apoiando-se com muletas, ficou na fila o tempo todo ("não queria ter vantagem"). Veio mansa com quem entra pelos fundos de um rosto, acostumada a pelagem dos cães e das árvores, aos latidos das estrelas. Queria me abraçar e puxar uma dedicatória. Olhou-me tão feliz de ter chegado, que fingi não estar chorando. Ela era um rio de riso. Meus pés pedalando em seus olhos azuis. Sem freios. Lomba de água, lombada de um livro aberto por toda a vida.

10:12 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 08, 2003

Hoje é o dia. Ou a quase noite. Esse menino loiro, franzino, que precisava segurar na mão do irmão para não voar, com cabelos ao vento (atualmente, dados ao vento) estará autografando "Caixa de sapatos" (Companhia das Letras, R$ 24 - por R$ 19,20, com 20% de desconto) neste sábado (8/11), às 19h, no pavilhão central da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre (Praça da Alfândega). Ele te espera lá. Momento dele, que virou escritor apesar das dificuldades de falar e escrever, apesar da alfabetização aos trancos. Momento do guri que fazia sua caixa de sapatos coberta de papel-presente, onde guardava bonecos de madeira com nomes dos amigos que não tinha. Momento do piá ficar vermelho de timidez alegre, como se fosse uma festa para sua infância.
7:33 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Porto Alegre (RS), 08/11/03. Edição nº 13958:

Artigo
Feira de sapatos
MARCELINO FREIRE/ Escritor, autor de BaléRalé

Pois é. Hoje tem sapatos na Feira, quem quer? Dos bons, com desconto. Para todo tipo de pé. Torto, porco. Ensolarado de chulé. Leve quatro e compre um. Explico: trata-se aqui da Caixa de Sapatos (80 páginas, R$ 24 sem o desconto), uma antologia saída pela Companhia das Letras e que reúne poemas de quatro livros do Fabrício Carpinejar. Uma boa companhia para você levar para casa. A passear por aí, sei lá. "Não ter para onde ir é uma forma de sempre chegar." Não há como negar. Doa no calo de quem doer, a poesia deste baita gaúcho é uma das mais originais e melhores do "mercado". É claro, se por "mercado" você entender tudo aquilo que se ganha no grito. Costumo dizer: a geração do Carpinejar é a mesma que a minha. Geração teimosa, que não deixa a língua morrer à míngua. Vai à luta. Quem disse que poeta vive mais sozinho? Poeta, hoje, mora cercado de computador e passarinho. A palavra de Carpinejar, saravá, conquistou merecidamente o Brasil de Norte a Sul Maravilha. E que palavra! Há quem diga que foi a mídia que agarrou nas esporas do cara e não quer mais largar. Seria? Bah! Será que não foram os versos do Carpinejar que fincaram na nossa alma, onde quer que ela vá? A saber: "As moscas são os anjos da miséria". Ou "Minha vontade de abraçar esgana". Ou ainda "A noite urinava nas paredes do quarto" et cetera. Há tempo que esperávamos pela chegada de uma poesia assim. De um poeta que, além de um grande poeta, é uma figura sem par: "O que fiz cabe numa caixa de sapatos". Pois é. Hoje, esta caixa vai estar ali, na Praça da Alfândega, esperando você sair do lugar.


Autógrafos
Hoje, às 19h


7:31 AM :: Comentários:

Deu no Correio do Povo, Variedades, 8/11, Porto Alegre (RS):

Carpinejar e sua poesia do cotidiano

Provar que poesia não é difícil, muito menos uma coisa para poucos é a intenção de Fabrício Carpinejar, em 'Caixa de sapatos' (Companhia das Letras). O escritor autografa sua primeira antologia neste sábado, a partir de 19h, no Pavilhão Central da 49a Feira do Livro.

Carpinejar usou a metáfora de um recipiente de papelão, em que se guarda o que tem significado especial, como cartas, fotografias e objetos pessoais. Nesta obra, que fala de relações familiares, velhice e amores, ele sintetiza sua trajetória nos quatro livros publicados ('As solas do sol', 'Um terno de pássaros ao sul', 'Terceira sede' e 'Biografia de uma árvore').

7:30 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 07, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

* Não há maior violência do que a suavidade.
Só a suavidade é capaz de provocar o estremecimento.

9:54 AM :: Comentários:

UM MILAGRE TORTO
Fabrício Carpinejar


Intrigante pensar que um dos grandes personagens da literatura gaúcha surgiu de um único poema, uma única página, em menos de 40 linhas, alheio ao metabolismo de vultos ficcionais obrigados a mastigar romances inteiros para convencer os leitores de que são de carne e osso. E a figura surpreendente aparece somente na derradeira folha de "Sapato florido", sendo necessário flagrar sua existência na fileira indiana do índice. É como um relâmpago avulso, uma aparição fantasmagórica, um gol nos descontos, quando as pessoas já deixavam o estádio. Qual é o mistério do Anjo Malaquias, de Mario Quintana? Um dos indícios é cogitar a transformação do autor em protagonista. Não foram poucos os escritores que o definiram como a encarnação perfeita do Anjo Malaquias, um querubim para lá de estranho e malandro, algo como um Macunaíma do céu de Porto Alegre. Erico Verissimo foi um deles, no prefácio de "Pé de Pilão": "Descobri outro dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora. (Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias)...". A simbiose entre vida e obra é sempre explosiva, transformando toda biografia em repentino folclore. O afeto dos gaúchos pelo frasista Quintana, capaz de converter recalques em chistes e bravatas, favoreceu o crescimento da penugem das asas. A fama de Malaquias descende de uma projeção coletiva da imagem do poeta mais do que uma façanha interna do texto. Dificilmente o autor seria representado por Lili, outra de suas personagens. Precisava ser um protótipo eterno, masculino, que transitasse com desenvoltura da distração etérea à comoção mundana. Malaquias é símbolo de um mundo falível, imperfeito e, na soma das falhas, engraçado. Suas características se encaixam perfeitamente na silhueta de um poeta que foi negado pela Academia Brasileira de Letras, dito como injustiçado, que nunca trocou seu Rio Grande por nenhum hectare de bronze em vida e que se proclamava - com orgulho - um provinciano cosmopolita.

"O Anjo Malaquias", o poema, tem o encadeamento de prosa, como uma fábula escrita para jornal. O início cheira à paródia dos quadros terrificantes de Goya, como o de Saturno. O que tende a virar tragédia, toma o caminho do deboche. O Ogre - um dos grandes vilões da infância, assim como o 'Velho do saco' - está prestes a fazer sua refeição. Prato do dia: um inocente gordinho, posicionado na mesa com a barriga para baixo. Quintana tira seu primeiro curinga, satirizando a agressividade do monstro: "esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte". O poeta alivia a solenidade da cena, como que demonstrando que nada pode ser levado a sério. Avisa da encenação, onde os atores reconhecem seus papéis e sobrecarregam os tipos caricaturais para reconhecimento imediato do público. Após colocar o guardanapo ao pescoço, imitando o suspense das tramas infantis, o Monstro é surpreendido pela intervenção da Nossa Senhora, que faz um milagre para salvar o Malaquias do comensal de "beiços grossos". Devido à urgência da operação, as asas de Malaquias são criadas em sua bunda. Trata-se do primeiro caso literário de uma traseiro voador. O que significa uma salvação para o novo anjo, logo passa a ser tormento, já que toda a cidade escuta o lamento dolorido de Malaquias, com o dote nada confortável. Constrangido, o escritor tenta abafar a algazarra com o ruído da página. O milagre é torto, circunstancial, mostrando que até a santidade não é de toda competente. O que sobraria, portanto, aos homens? Viver com suas saudáveis limitações.

Quintana conduz a trama poética como um adulto que conta a história para os sobrinhos, enfatizando o diminutivo ("inocentinho", "piquinininho", "barriguinha") e persuadindo pela intimidade. A linguagem coloquial reforça a ingenuidade. Esse é um diferencial, o narrador não se porta como uma criança, mas fala para uma criança, como bem observou a crítica Regina Zilberman. A relação paternal permite um esfriamento adulto dos fatos, tirando proveito da credulidade do interlocutor e detalhando para confundir. Instala-se o encantamento para ser desfeito em ceticismo. Há o domínio cínico do tempo de cada seqüência, desorientando progressivamente o final do texto, desde a refeição cancelada do Ogre à reação apavorada dos espectadores (pai de família, orador, tenor, escritor, etc) diante da lamúria de Malaquias. Como diretor da peça cumprindo uma ponta de coadjuvante, Quintana diz: "e então, para disfarçar, a gente faz literatura..." , ironizando a função terapêutica de sua arte, que existiria somente para abafar o tormento do seu personagem. Segundo Zilberman, "esta transmudação para a interioridade - o pintor converte em si mesmo o objeto de pintura - determina o individualismo irremediável de sua poética". Quintana fala de si pelos outros, absorvendo observações cotidianas e externas em material confessional. Carregado de uma nostalgia insaciável, encontra na metalinguagem seu bode expiatório ao real que nunca atende suficientemente suas aspirações. A poesia é autoconfiante, narcisística e inabalável. Sofre de um desespero otimista. Fala dos outros que estão nele. Os outros acabam sendo uma forma dele continuar falando de si.

O livro "Sapato florido", terceiro da trajetória de Quintana, lançado em 1948, emplacou como um dos vôos surreais - e solitários - da poesia brasileira. Naquele ano, não houve uma obra com tanta imaginação descontrolada. Podemos dizer que o modernismo descobriu seu mais fiel simbolista. De tez urbana, léguas de distância da antropofagia amazônica do conterrâneo Raul Bopp, traz um conto de fadas adulto, uma parábola contra o sucesso fácil. Um equivalente do período é o romance do paulista Campos de Carvalho (que estreou em 1941) e seu humor fantástico. Basta recobrar o primeiro e inesquecível parágrafo de "A lua vem da Ásia" (1956), de Carvalho, para se ter uma garantia da aproximação: "Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenho estado em Paris". Sim, a gratuidade impera solta tanto em Campos de Carvalho como em Quintana, desencadeando resultados imprevisíveis e saborosos. Quintana imprime um realismo (quase) fantástico no verso, gérmen de obras posteriores como "Apontamentos da História Sobrenatural" (1976), carregado de simultaneísmos, contrastes e trocadilhos. Em "O Anjo Malaquias", percebe-se a leveza do traço e os arquétipos aéreos que impregnariam mais adiante seu repertório. Recusando compromissos e o engajamento social da escrita, o imaginário anímico é dominado por estrelas, nuvens (caracterizadas como 'cágados das alturas"), noite morta, cabelos de afogado e anjos deslocados (resquícios simbolistas). Por que isso acontece? Uma das fobias do Quintana é a morte. Enclausura-se no mundo onírico para despistar essa velha senhora. Diferente de Manuel Bandeira e Drummond, que recorreram à sexualidade para enfrentá-la.

Sonetista prosificado, Quintana pincela uma crônica do absurdo e de permanente desconforto. A idealização não é possível, muito menos a realidade. Os defeitos estão nas virtudes; a religiosidade, no ateísmo. O niilismo vira um jeito extremado de arrumar a casa. Qualquer vantagem pressupõe um sacrifício. Cômico e extravagante, Anjo Malaquias ganha o jogo e perde o campeonato. As vitórias morais comovem a torcida.

Da série Grandes Personagens Gaúchos - Revista Aplauso (Publicado em coletânea pela Copesul, 2003)

9:50 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 06, 2003


(Fotografia inédita de Renata Stoduto)

* Vivo me espalhando, o único modo de me concentrar.

* Não há chama que não queira ser água encolhida.

* Procuro uma rua sem saída. Para subir os olhos.

* As fotografias são fiéis ao que ficou fora delas.

* Atravessar a casa de madrugada para um copo de água e beber todo o escuro por engano.

7:51 AM :: Comentários:

Feira do Livro de Porto Alegre: Participo da mesa-redonda "Psicanálise e Literatura" nesta quinta (6/11), às 18h, no auditório Barbosa Lessa do CCCEV, debatendo o silêncio e os processos de criação ao lado de Armindo Trevisan, Donaldo Schüler, Luciano Fialkovski e Luiz-Olyntho Telles da Silva. Na sexta (7/11), às 20h, dou um depoimento sobre autoria, intitulado "Literatura de ouvido", para o público jovem na Casa do Pensamento.
7:48 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 05, 2003


(A partir de hoje, mostro aqui imagens inéditas da fotógrafa gaúcha Renata Stoduto)

* Já não sentiste que tinha uma história original e, ao contar ou escrever, ela perde a graça? Entre a imaginação e a linguagem, há um silêncio pirata que vende nossas idéias e não paga direitos autorais.

* O figo se esforça como o fogo,
se dobra ao sol, se ajoelha para a boca.

* Os botões atrasam a nudez para não perder nada.

* Meu avô dormia com sapatos. Ele me aconselhava: "Dessa forma, parece que adormeci sem querer e não me sinto culpado de descansar"

* De vez em quando, faço amizade comigo para tomar uma cerveja.

9:44 AM :: Comentários:


Acaba de sair o novo romance de Marcelo Mirisola: "Bangalô"(Editora 34, 125 páginas). Faço apresentação da obra:

Marcelo Mirisola assombra em cada novo livro. Quem pensava que havia esgotado as forças com O Azul do filho morto, agora terá que pagar a cerveja. Ele está violento e irresistível. Skinhead com roupas de Popeye. Descobre sempre um novo lençol subterrâneo para desmentir o fundo do poço. Tem o dom de confundir com a simplicidade, de desnortear com um humor fóbico, de arrancar do sofrimento um sarcasmo lírico. Cria uma prosa antisocial, que mobiliza traumas para jantar em família e faz o leitor "comparecer mansamente ao sacrifício". É um autor insuportável e absolutamente necessário. Não queria ler, bem que tentei manter a distância regulamentar. Assim que botei os olhos na primeira frase de Bangalô, "o vento mudou", larguei qualquer outro objetivo da vida e distração comercial pela frente. É uma narrativa que usa o tom biográfico para aumentar a tensão. Fica-se com a impressão de que o Mirisola conta sua vida. O protagonista menciona os três livros publicados (como Mirisola), demonstra a consciência de estar escrevendo sua melhor obra, elege o que não o influenciou, descreve sua precária existência a partir da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (como Mirisola), emite opiniões literárias em meio a putas voadoras, churros, pesadelos com codornas, kichutes e orgias com Sol e irmãs gêmeas. Mas nada é fácil assim. Somente é Mirisola por aquilo que é capaz de destruir, deformar, não por aquilo que viveu. Entenda-se aqui que "a memória só funciona no futuro dos desejos falidos". É uma história do que poderia ter acontecido, ou do que talvez tenha acontecido na imaginação.

E não me venha comparar o escritor com Bukowski. Não há desleixo para representar a vida em estado epilético, porém descuidos cuidadosos. Pensamentos na mais serena tensão. Sufocamento de rancores. Ou outro alguém pensaria em "consultar o horóscopo para entrar na câmara de gás"? A prosa é densa como um bilhete antes de entrar na loucura (a loucura não deixa de ser um teste vocacional ao suicídio). O epíteto está no meio da trama: "ninguém enlouquece sem explicação". Monólogo em primeira pessoa, o sujeito não quer provar nada, e sim destruir as provas. Descobre que o homem unicamente amadurece depois que apodreceu. Inapto para esquecer, essa única forma de perdão. Há pessoas que se esforçam tanto por se integrar à sociedade que acabam se desintegrando. É o caso do personagem central, ilhado na bangalô de Frank, sobrevivendo às dispensas da mãe e de favores, cronometrando os malditos barquinhos da orla. "Ou estava fudendo quem me amava ou amando quem me fudia". Um cara tão cheio de preconceitos, que paradoxalmente parece não ter preconceitos. Qualificá-lo de selvagem triste ainda é pouco. Não existe senso comum para enquadrá-lo. Diante dos analistas, Bangalô não receberia alta. Mas como é alta literatura, ninguém vai perder tempo decifrando letra de médico em prontuários. Eu só fiquei com uma curiosidade depois de morto: afinal, quem é o Frank?

Fabrício Carpinejar
(Quem diria? Um poeta fazendo as orelhas de Mirisola...)

9:31 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Porto Alegre, 5/11/2003. Edição nº 13955:

Alô, meninos
Cláudia Laitano

O negócio começa com bandas de rock. De um dia para o outro, aqueles guris da melhor-banda-do-mundo-desta-semana são obviamente mais novos do que você. Depois são as top models da sua idade que começam a se aposentar, em seguida os jogadores de futebol, daqui a pouco é a bonitona da sua geração fazendo mãe de adolescente na novela. E então a coisa não pára mais.

Minha mais recente perplexidade é a seguinte: os escritores começaram a ficar mais novos do que eu. Todos aqueles gregos na estante me esperando há séculos e agora mais essa. Você olha para o lado e lá vem o Fabrício Carpinejar, 31 aninhos recém-completos, lançando uma antologia poética.

Carpinejar autografa sábado na Feira do Livro, depois de um fim de semana especialmente pródigo de jovens autores. Autografaram nesses primeiros dias Daniel Pellizzari (29) e Daniel Galera (24), editores da superbacana Livros do Mal, mais Gustavo Fischer (29) e João Paulo Cuenca (25), para ficar apenas no pessoal com menos de 30. Todos, de uma forma ou de outra, inseridos precocemente no circuito literário graças às facilidades oferecidas pela Internet.

Quando livros, discos e filmes ocupam boa parte da sua vida, é preciso decidir, à certa altura, que relação pretendemos manter com as novidades. A quantidade de informação a que estamos expostos e o limite de tempo para usufruir todas as possibilidades disponíveis nos obrigam a esboçar um percurso individual nesse oceano de ofertas.

Cada vez que termino um livro, olho para os volumes que me esperam na cabeceira e hesito entre todas as coisas que eu já devia ter lido e todo o catálogo de recém-chegados. E aqui não se trata apenas de mérito literário, de escolher entre Shakespeare e o cara que vende poesias na Cidade Baixa, a questão é definir o que você espera da literatura ou da arte em geral.

Lembro de uma amiga me contando, entre resignada e melancólica, que havia desistido de acompanhar as novidades da música pop. Conheço milhares de exemplos desse tipo. O professor que só lê os gregos, o garoto que jura que a literatura começou com John Fante e terminou com Charles Bukowski, a menina que não lê nada que não tenha passado antes por um blog. Acho muito estranha essa forma de lidar com a arte desde uma perspectiva cronológica, seja para qual lado penda a ampulheta - para um interminável mergulho no passado ou para o delírio de que só os autores da nossa geração têm algo a nos dizer.

Meu sobressalto ao perceber que há uma geração Y já publicando provavelmente tem a ver com a tendência de encarar a literatura como uma forma de arte mais sagrada do que o rock ou o cinema, em que jovens talentos despertam menos desconfiança. Mas a verdade é que, seja qual for o resultado estético obtido, a chegada de novas vozes à literatura sempre oferece um olhar fresco sobre a nossa época e, nos casos mais estimulantes, sobre a tradição que a precede. Para mim, só essa possibilidade já vale a leitura. Bem-vindos à estante, meninos.

9:30 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 04, 2003



A sombra é apressada
para