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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Dezembro 30, 2003

2004
Fabrício Carpinejar

Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que a fé não seja o cartão furado da lotérica. Que eu faça o medo amadurecer em esperança. Que meus amigos desempregados deixem de comprar o jornal pelos classificados. Que a única corrente que use seja a do balanço para embalar meu filho. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que São Leopoldo perca seu complexo de cidade-dormitório. Que eu ligue mais para meus irmãos para falar menos dos outros. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu cumprimente meu vizinho sem temer a resposta. Que eu possa usar o terno azul pinho sol em alguma festa fantasia. Que eu faça fantasia mesmo acordado. Que minha letra aprenda a montar no cavalo das linhas. Que eu ande de bicicleta para enxergar a cidade diferente. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não fique cobrando para me aliviar do trabalho. Que eu aprenda a guardar segredos sem jurar por Deus. Que eu tenha menos vaidade e mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para deixar as verdades com ciúmes. Que eu perca o pavor de supermercado. Que eu não pense na morte antes de dormir. Que eu volte a rezar sem querer. Que eu possa nadar na neblina. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amigos falando do tempo. Que eu pare de fumar. Que os ex-fumantes parem com os sermões. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que o trânsito não seja sauna. Que eu passe a xingar o pai do juiz no estádio. Que meu time não me engane na última hora. Que eu possa assistir shows com meus filhos na garupa. Que eu atinja o segundo andar das ameixeiras. Que eu abra o capô apenas do piano. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu visite mais minha sogra. Que o domingo não termine com o futebol. Que eu deixe crescer o musgo dos olhos. Que eu possa caminhar a esmo em minha respiração. Que eu me levante de bom humor. Que eu leve a cama até o café. Que o inverno seja uma garrafa de vinho e vaga-lumes dentro. Que o governo seja suficientemente competente para não ser pivô das conversas. Que eu faça aniversário de criança nos meus 32 anos. Que o verão seja se afogar em dunas. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu repare nas unhas pintadas e nos cabelos mudados de minha esposa um dia depois, melhorando minha média. Que eu me lembre dos nomes dos filmes que assisti. Que eu não cante em público. Que a eternidade possa sentir saudades da vida.

11:06 PM :: Comentários:

Deu no Observatório da Imprensa, coluna Armazém Digital, Melhores de 2003, 30/12/03:

BALANÇO 2003
Boas lembranças e duas mancadas

Deonísio da Silva

Primeiramente, realcemos alguns dos muitos livros que fazem por merecer a atenção dos leitores. Por título, autor e editora seguem algumas boas lembranças do ano que finda.

1. A margem imóvel do Rio, de Luiz Antonio de Assis Brasil, LPM - Um romance que mostra o Brasil meridional do século 19, visto por um alto funcionário da Corte que sai do Rio em busca de misterioso personagem. Luiz Antonio de Assis Brasil deixa evidentes as marcas que o consagraram como um de nossos melhores romancistas. A margem imóvel do Rio evidencia o encanto da leitura que se faz por prazer.

2. As ilusões armadas, de Elio Gaspari, especialmente o volume A ditadura derrotada, Companhia das Letras - Você pensava que o governo Geisel tinha sido de distensão lenta, segura e gradual, como apregoaram sempre? Não. O Sacerdote (Geisel) e o Feiticeiro (Golbery), dois poderosos com quepes e fardas estreladas, têm seus perfis iluminados no meio das trevas do período por um jornalista que pesquisou seriamente para nos revelar outros lados da escuridão.

3. O amante brasileiro, de Betty Milan, A Girafa - Num romance edificado sobre troca de mensagens eletrônicas, o amor, o sexo e a solidão, vistos de Paris e de São Paulo. A autora tem obsessão por definir o novo lugar do amor e da amizade nos tempos modernos. Mas jamais foi tão feliz em tal persistência como neste livro repleto de maravilhosas declarações de duplas que se amam de verdade.

4. Concerto para paixão e desatino, de Moacir Japiassu, W11 Editores - Em A Santa do Cabaré, o autor já se mostrara um craque, apresentando-nos Ladislau, personagem fascinante, que tudo desarruma, principalmente os conceitos do Bem e do Mal. E neste segundo romance, o contexto e o pretexto para um romance histórico que inova o gênero são a Revolução de 1930 e seus vultos inesquecíveis. Sua linguagem: "um aluvião poético na aridez", como definiu Rogério Pereira, de Rascunho [jornal dedicado a autores e livros, editado em Curitiba e encartado no Jornal do Estado, na primeira sexta-feira do mês; ]. Lembro que Rascunho passa a limpo autores e livros com ousadia e sinceridade raríssimas nas páginas literárias de nossa imprensa.

5. Gosto de uva, de Frei Betto, Garamond - Um livro de ensaios marcado por suave erotismo e grande clarividência, revelando as utopias do Richelieu do presidente Lula. O autor não tem autoridade e nem vestes cardinalícias, é um simples frade dominicano que, por coerência, pagou caro por suas idéias, passando larga temporada no temível presídio Carandiru, já desativado.

Boas lembranças

Em segundo lugar, realcemos autores que se destacaram por livros, artigos, entrevistas, conferências. Foram muitos, mas à semelhança do item anterior, lembremos alguns, como quem sublinha nomes com lápis vermelho para não perder de vista tais referências. Alberto da Costa e Silva, poeta de reconhecidos méritos e o ensaísta competente de A manilha e o libambo, marcou presença com sua dicção segura.

Affonso Romano de Sant'Anna, poeta, cronista e ensaísta admirável. Nunca saberemos o gênero que ele mais aprecia, mas o leitor sempre encontra em seus textos, seja qual for o escolhido, um autor que tem o que dizer e sabe como fazê-lo. No ano de 2003, ele esbanjou talento, competência, coragem e invenção em livros e na imprensa, submetendo ícones como Ezra Pound e Marcel Duchamps a um olhar armado desconcertante pelos mirantes em que se pôs a contemplar a modernidade com grande lucidez.

No time, impossível esquecer o escritor e professor Menalton Braff, gaúcho transplantado para o interior de São Paulo, que segue um caminho admirável com livros - bem conhecidos - e crônicas - ainda sem gozar da atenção que merecem. É um autor que escreve apoiado em conceitos muito claros do que vem a ser o que chamamos Brasil.

Sempre se fez boa poesia no Brasil meridional. E este ano Fabrício Carpinejar, pagando o alto preço de ter pai e mãe poetas, voltou com os versos deslumbrantes que contribuíram para a consolidação de seu inegável prestígio: é um de nossos melhores poetas. Cometeu livros e artigos imperdíveis. Quem ainda não tem Caixa de sapatos, por exemplo, precisa providenciar rapidinho.

Antonio Torres, o memorável autor de tantos romances, vários deles publicados também em outros países, voltou com O nobre seqüestrador, apoiado em fato histórico rico por sua complexidade e desdobramentos: o seqüestro do Rio de Janeiro por um corsário francês.

Dalton Trevisan sempre no batente de narrativas curtas cada vez mais abreviadas, de que é exemplo o imperdível Capitu sou eu.

Nomes como Plínio Cabral, Anna Maria Martins e Domingos Pellegrini, na ficção. Neide Archanjo, Mário Chamie e Alberto Cunha Melo, na poesia. Os prêmios Portugal Telecom, Talentos da Maturidade e Jorge Amado de Literatura e Arte foram grandes acontecimentos e reconhecimentos literários. Enfim, há um caudal volumoso de boas lembranças para memorar e comemorar 2003.

O governador disse, os jornalistas não entenderam

Duas mancadas literárias do ano. Primeiro, a eleição de Marco Maciel para a Academia Brasileira de Letras. Que autor é esse, qual sua obra? Se ele fosse eleito para alguma agremiação política que destacasse seu desempenho como governador de Pernambuco, senador, ministro da Educação, vice-presidente da República, tudo bem! Mas como autor eleito para a ABL!

Em segundo lugar, a gafe dos repórteres que entrevistavam Geraldo Alckmin e quando - é muito raro um político referir leituras - ele disse que "para homenagear o poeta", a escolha do candidato de seu partido a prefeito de São Paulo seria "em março ao findar das chuvas e logo à entrada do outono" - eles disseram que o governador tinha evocado Águas de março, de Tom Jobim (Folha de S.Paulo, pág. A 9, 23/12/03). Evidentemente a referência era Olavo Bilac, com os versos iniciais de O caçador de esmeraldas, presente em muitas antologias escolares:

"Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada/ do outono..."

Já que o nome de Tom Jobim é sempre uma boa lembrança, mesmo nos equívocos, foi ele quem, comentando as dificuldades de se entender nossa pátria, disse que "o Brasil não é para principiantes".

10:58 PM :: Comentários:

Política e literatura

Ao contrário de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, autor de Invenção de Orfeu, se candidatou e se elegeu. Foi vereador do Distrito Federal pela União Democrática Nacional em 1947, permanecendo na Câmara até 1950. Bandeira não conseguiu mandato na política, mas venceu a corrida por uma vaga na Academia Brasileira de Letras em 1940. Jorge de Lima, por sua vez, amargou derrota na ABL em 1936. A imortalidade deles chegou de outra forma.

6:20 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 29, 2003

Manuel Bandeira, poeta,

e Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, candidato a deputado federal

Manuel Bandeira nasceu para a discrição, a delícia das coisas simples. Contra a vaidade e os papagaios de pirata gritando ao fundo das fotos, o autor de Libertinagem ofereceu uma amostra de humildade em seu tempo. Apesar da fama de grande poeta, nunca misturou política com versos. Chegou a se candidatar a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Poucos ficaram sabendo, nem sequer seus alunos da Literatura Hispano-Americana, da Faculdade de Letras. Discreto, apresentava-se como Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, professor, dificultando qualquer ligação literária. A história é contada em O pardal na janela (ABL, 2002) pelo poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, um dos cem eleitores que não elegeram o poeta, mas não esquecem do legado.

11:09 PM :: Comentários:

De mão trocada

A mão com que escrevo trai a calada que ampara o caderno. A direita dirige; a esquerda diz a direção do sangue. A direita bate o tambor do cigarro; a esquerda cuida das sobras. A direita fecha a porta; a esquerda abre as janelas. A direita é vinho branco; a esquerda, vinho tinto. A direita é a primeira a acordar; a esquerda, a primeira a dormir. A direita abandona a casa; a esquerda faz horta nos calos da mala. A direita é vista em excesso; a esquerda lava as costas da destra, esfrega o piso das unhas. A mão direita mata; a esquerda confessa o crime. A direita promete; a esquerda cumpre o casamento. A direita entoa fardos do fardo vivido pela esquerda. A mão direita passa a limpo os bilhetes e telefones anotados na esquerda. A direita seduz; a esquerda resvala na despedida. A direita aparta estranhos; a esquerda convida amigos. A direita ofende; a esquerda elogia. A direita sofre de insônia; a esquerda acalma o pesadelo. A direita corta os pulsos da esquerda, mas só a direita pode fechar a gaiola das veias.

7:50 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, matéria sobre os destaques do ano, Porto Alegre, 29/12/03, Edição nº 14008

Literatura
O ano chega ao fim, a literatura se renova
Em 2003, o mercado editorial viu recordes serem batidos, novos autores se afirmarem, veteranos se consagrarem e Paulo Coelho ser best-seller no mundo
CÍNTIA MOSCOVICH

O ano que se encerra foi pródigo para o mercado livreiro. Embora alguns editores se queixem de que as vendas tenham caído, nunca, como em 2003, tantos recordes foram quebrados. A editora Rocco ultrapassou duas vezes sua própria marca: primeiro com a tiragem de 200 mil volumes para o romance Onze Minutos, de Paulo Coelho, e depois com Harry Potter e a Ordem da Fênix, quinto livro da série da escocesa J. K. Rowling, que chegou à casa dos 300 mil exemplares - recorde nacional absoluto. Paulo Coelho também ultrapassou suas próprias marcas: segundo a revista inglesa Publishing Trends, o mago é o autor mais vendido de 2003 em todo o mundo.

Este também foi ano de acontecimentos significativos para as letras gaúchas. Além de um novo prêmio para a literatura, também se realizou a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que, em agosto, chegou à sua 10ª edição, enquanto que a 49ª Feira do Livro de Porto Alegre foi a grande atração de novembro. Confira alguns eventos marcantes de 2003.

Jovem depois de velho


Nem bem completou 30 anos, o poeta Fabrício Carpinejar já se tornou um clássico. Filho de dois poetas, Maria Carpi e Carlos Nejar - coincidentemente ambos com livros novos neste ano - Carpinejar tornou-se nome de biblioteca em São Leopoldo e batiza um concurso de poesia. Também foi o ano em que lançou uma antologia - coisa que costumeiramente é reservada a autores mais vetustos. Lançado em setembro pela Companhia das Letras, uma das maiores editoras nacionais, Caixa de Sapatos reúne poemas de seus quatro livros publicados nos últimos cinco anos. Selecionando material de As Solas do Sol (1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (2000), Terceira Sede (2001) e Biografia de uma Árvore (2002), Caixa de Sapatos fundou definitivamente o lugar do poeta na literatura nacional.

Leia a matéria completa com os outros destaques.

7:48 AM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 27, 2003

Impostor

Não tiro a barba há sete anos. Não uso óculos de propósito. Só os cabelos conspiraram e voaram antes do disfarce. Não toco clarinete e, se recebesse convite, iria ao Oscar. Faço o possível para que ninguém me reconheça no Woody Allen, apelido da minha adolescência.


7:47 AM :: Comentários:

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Tinha que fazer um trabalho sobre Princesa Isabel para 3ª série. Fui pesquisar na Barsa. Achei rapidinho o nome dela. No centro das folhas, vi uma Isabel que não era princesa. Um encarte colorido com uma loira de quatro. A mulher me olhava por debaixo das pernas. A vida arregalada. A mulher ainda acenava, sorridente. Ao virar a folha, sem tempo para coçar, vejo meu irmão chegando rápido e retirando a revista de minhas mãos. "Isso não é teu (pausa). Nem meu (ele pensou melhor). Não vais entender agora". Com voracidade, eu me dediquei religiosamente à biblioteca naquela semana. Explorei um por um dos verbetes. Revirei todos os volumes, mas nenhum fazia mais referência a minha abolição.

7:22 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 26, 2003

Quero-quero

Mariana, minha filhota, está de aniversário. Dez anos. Ela se entrega em risos nas fotos. É uma doação inteira. Ela encabula a máquina fotográfica com tamanha alegria. Quando ela tinha três anos, passamos por um dos perigos de sua infância. Passeávamos no Grêmio Náutico União, no bairro Petrópolis (POA). Havíamos dado comida aos peixes, como todas as manhãs. Atalhamos o caminho pela grama alta. Uma legião de quero-quero nos estranhou e pensei que fosse apenas mau humor passageiro. O quero-quero tem uma postura marcial, metálica, com penacho de milico. Continuei avançando, de mãos dadas com os passos miúdos dela. Ao lado de uma criança, a gente troca nossos passos pela metade deles. Dia de ventaneira, o vento podia trançar a si mesmo. Como balanços se enrolando em voltas e giros. Mariana observava o céu, indiferente aos gritos histéricos dos pássaros. Em um movimento inesperado, três quero-queros começaram a sobrevoar nossas cabeças. Um linchamento de patas. Tomei a Mariana no colo e a protegi com meu corpo. Um dos bichanos puxou com fúria minha folgada bermuda, que ficou como pano abandonado no local. Corri de cuecas no descampado, com as aves atazanando os olhos, roendo em rasantes os fios dos cabelos. Voltei para a casa com as roupas mínimas. Atravessei oito quadras assim. Mariana, percebendo meu nervosismo, apenas tocava no meu rosto e imitava minhas palavras depois de algum pesadelo: - Passou, passou, passou.

9:34 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 25, 2003

Vaga-lumes

A Ana disse que faz tempo que não vê vaga-lumes. O tempo de piscar entre entre um livro e outro, o que é uma eternidade. Não é fácil encontrar a floração da grama como antes. Na sua infância, a Ana caçava vaga-lumes com uma pequena rede. Ela e os irmãos colocavam o pequeno bicho em um vidro de conserva, com a tampa decorada de flores de pano. Ele ficava alumiando, fogo saltando de um lado para outro no frasco. Era o abajur que eles não tinham. Luz respirando. Sol da noite.

10:14 AM :: Comentários:

Escapulário

Menino, eu não duvidava do Natal. Era o único dia em que as famílias se encontravam. Na casa amarela de esquina dos avós paternos. Juntavam todas as mesas existentes nos cômodos e uma toalha de mesa branca uniformizava os troncos desparelhos. Até criado-mudo entrava na parada. Lembro que eu não podia beber nada até comer tudo, o que nunca acontecia. Eu transportava, discretamente, metade da comida ao prato de meu irmão. Era uma operação arriscada, meu guindaste não podia ser visto. Dezenas de tios mexiam nos meus cabelos e não decorei o nome de qualquer um deles. Eu cheguei a pensar que todos em minha cidade eram meus tios. Meu pai e minha mãe exageraram em irmãos. Minhas primas não me davam bola. Eu jogava bola no pátio com os primos. Até jogar a bola no vizinho e acabar o jogo. Saíamos de madrugada para o Papai Noel deixar os presentes. Eu levitava, juro que é uma sensação entre nascer e morrer, a sensação de que seria decorado pela vida, que havia vida além da minha casa. Ao chegar, correndo, alvoroço de cabeças espiando a porta, multiplicando os braços, eu ganhava a bola que havíamos perdido no vizinho e a partida continuava. Eu aparecia como um salvador para a turma dos guris. Ao longo dos anos, a casa foi aumentando de tamanho, porque os familiares não vinham com a mesma regularidade. Não havia arrecadação das mesas. O Natal foi sumindo. Os casacos rarearam nos cabides da entrada. Os adultos começaram a brigar, acompanhei discussões ridículas e tapas pelo pretexto de trocar o canal de tevê. Os avós morreram, meus pais se separaram. Aprendi a manter a aparência, não demonstrar que participava da confusão. O escapulário enredou sua corda. Conservar a harmonia era mais árduo do que comer tudo sem beber nada. Vontade de chorar enquanto se ia. O Natal voltou a existir quando me tornei pai. Passei a assistir o som surgindo de dentro da boca da minha criança com três dentes, como se faz ao espreitar as cordas de um violino. A língua encontrando seu pedal. Voltei a ter fé. Levito, mas agora sou muito mais atento. Quando surgir o capítulo da discórdia, quero tomar uma outra atitude. Talvez levar meus filhos e minha mulher ao telhado para mostrar o mundo de cima.

10:13 AM :: Comentários:

Berlinda: Amilcar Bettega Barbosa ganhou o Prêmio Açorianos 2003, categoria conto, com "Deixe o quarto como está" (Cia das Letras, 2002). Merecido.

REFLUXO DO OLHAR
"Deixe o quarto como está" apresenta um escritor maduro, de estilo próprio.

Fabrício Carpinejar

É moeda corrente definir o autor justamente por aquilo que ele não é. Cobrar sua produção a partir de referenciais autorizados e efígies avalizadas pela história literária. O novo livro de Amilcar Bettega Barbosa, escritor gaúcho, 38 anos, corre o risco de ser falsamente interpretado. "Deixe o quarto como está" (Companhia das Letras, 124 págs.) pode ser visto como parente do realismo fantástico de José J. Veiga, os contos "Crocodilo I e II" taxados superficialmente de kafkianos, Julio Cortázar apareceria em "O rosto", no qual um homem persegue a si mesmo dentro de sua casa, Albert Camus talvez fosse usado para "A Cura", que lembraria a catástrofe coletiva que assola o povoado do romance "A Peste". A obra deixaria de ser de Amilcar para se constituir numa antologia de clássicos. O que não é coerente. O importante é encontrar nela o que a separa dos escritores consagrados. Tudo bem que se pretenda decodificar a genealogia, mas não se deve reduzi-la à própria cultura e ao tamanho da bagagem. Antes da celebração de antepassados, o grande escritor se faz pelas ausências que cria, até que se tornem ausências necessárias no futuro.

"Deixe o quarto como está" tem como subtítulo "Estudos para a composição do cansaço". O nome é emblemático, implica em aceitação do caos, de uma realidade bruta, sem filtros e hierarquia. Amilcar apresenta uma singularidade no cenário do conto brasileiro: transformou a objetividade em alta subjetividade. Não interfere, apenas coleciona contrastes. Do adensamento das observações, verifica-se a expansão simbólica. Monta uma coreografia sonâmbula, reproduzindo o "barulho da cidade dormindo". Ocorre a predominância de ambientes noturnos, espaços abertos mas claustrofóbicos, aguçados pela vigilância e mal-estar dos habitantes.

Seus personagens adoecem de um excesso de lugar, um excesso de presente, talvez mostrando que não há maior doença hoje em dia do que não conseguir se distrair, de aceitar passivamente o bombardeio de informações e solicitações, de querer acompanhar todos os canais ao mesmo tempo. Os protagonistas não tomam decisões, são atentos em demasia para formular algum juízo ou sentença. A inércia decorre da riqueza de possibilidades, que intimida a escolha. Presos demais aos detalhes, ao desperdício da vida, não reparam no conjunto. "A casa jamais se entrega totalmente", diz uma das narrativas. Desconfiam da esperança ou da memória ("não há nada mais inquietante do que não poder confiar nas lembranças"). Não conseguem enxergar a totalidade do cotidiano, porque se refletem no que vêem. São narcisos subtraídos do espelho, solitários, absortos, na maioria das vezes perseguindo ou fugindo das verdades. Estão decifrando uma individualidade que não compreendem e nem vão compreender. O "Hereditário" sintetiza as permanentes dúvidas. Filho herda uma esfera, parecida com uma geléia, que se torna extensão de seu corpo e o isola da convivência.

A naturalidade com que o escritor conta as histórias termina por apagar o estranho e o sobrenatural. Nada mais real e assombroso do que seres entranhados na rotina. Um comerciante tenta fechar a loja em "O exílio", porém não consegue sair de sua cidade. O trem que embarca nunca atravessa as fronteiras. Assim como pivetes buscam assaltar uma casa em "Auto-retrato", apanham do morador, são expulsos e o cenário em instantes volta a absoluta tranqüilidade inicial. As ações desistem do movimento, os homens de seus projetos. "Enlouqueceria dentro da mais pura normalidade", avisa o personagem de "O Crocodilo I". Identifica-se um terrorismo psicológico, onde Amilcar atua como perito dos desvios, fomentando as alucinações de olhos abertos. Privilegia a sonoplastia, o ritmo, mais do que a imagem. De uma linhagem sonora, não visual, demonstra talento em explorar o suspense pelos ruídos, optando pela caracterização mediante a respiração, a tosse, o alarido e a música. "Fico sem saber se a sua voz está de fato distante ou se é ela que está cantando a própria distância."

Predomina a estabilidade narrativa inclusive no estopim da violência, exemplificada de modo corriqueiro em "Insistência". Um jovem entra na briga pelo domínio de um espaço nunca sabendo os motivos de estar ali. Segue os comandos da tribo e mesmo se negando a participar arruma sempre encrenca pela frente. Independente do lado e da turma que aderir, precisará superar a resistência. A morte também não traz alternância de quadro emocional, seja em "A cura", em que os pacientes terminais são cobaias em nome de uma pesquisa salvadora, ou em "Aprendizado", que o rapaz assiste à chuva negra de uma cafeteira pouco interessado no obituário da mãe.

O livro traz um conjunto homogêneo, compacto e que se sustenta da primeira à última página. Os contos obedecem um movimento inverso do tradicional: partem do ápice em direção ao esvaziamento. Os primeiros parágrafos dos 14 textos antecipam o desfecho e o clímax. Com rara habilidade, mantém a surpresa na falta de surpresa, a tensão na monotonia. Autor de Vôo do Trapezista" (WS Editor, 1995), premiado com Açorianos e com a Bolsa da Fundação Biblioteca Nacional, Amilcar não merece ser reboque dos figurões ou receber os adereços de "jovem" e " promissor". Ele já aconteceu faz tempo. Basta escutar o que tem a dizer.

"Não sei quanto tempo disporei dessa sala. Assim como alguns cômodos brotam da noite para o dia, outros desaparecem sem explicação nenhuma, numa espécie de balanceamento que a casa faz, como que possuída por um rigor matemático. Já pensei em encarcerar o rosto em uma das peças condenadas ao desaparecimento. Mas como descobrir quais são essas peças? Tenho intuição, mas não basta."
Fragmento do conto O rosto do livro "Deixe o quarto como está", de Amilcar Bettega Barbosa.

10:09 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 23, 2003

Outra idade

Poema de Fabrício Carpinejar
Desenho de Mariana


Entendo a metade das frases
e adivinho o resto.
O homem nunca é pedra.
O homem nunca é perda.
Era um Natal chuvoso.
Esfregava o vidro
como quem termina uma carta.
O rio encostava na parede
para se ouvir.
A memória guarda o essencial
e elimina as datas.
A memória não decora sua rua.
Arrumamos a mesa.
Colocamos velas e nozes.
Provocamos o fogo
como quem amola facas.
Cantamos a noite inteira.
Se faço silêncio hoje,
ainda escuto o trincar
dos copos, dos dentes,
a gritaria dispersa,
o abraço sem fechar o pouso, o pouco.
Improvisava o que eu seria.
Minhas roupas viveram demais
para voltar ao meu corpo.

(Revista Vida Simples, dezembro de 2003)


6:55 PM :: Comentários:


Auto-retrato
(um desenho inacabado de um autor inacabado)

- Poesia é fruta roubada do pé da linguagem.

- Mais se faz um poema rejeitando as palavras erradas do que escolhendo as certas.

- Cassiano Ricardo comparava a poesia com o desenho animado. O que é inverossímil fora do livro é perfeitamente adequado dentro. Fusão dos contrários, transfusão da natureza-morta para a viva, casamento entre dois vocábulos viúvos. Os poemas se encaixam pela fluxo de quadros e cenas, por uma lógica emotiva, além do alcance da objetividade. Uma imagem sem sentido imediato pode se abrir na companhia de outra. A sucessão é a chave da leitura.

6:46 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 22, 2003

Obrigado

O blog atingiu a marca de 10 mil visitantes em cinco meses, desde seu início em agosto. O que começou como brincadeira permanece como brincadeira. Sempre nos enganamos a respeito das crianças e com que restou de nosso passado. No Natal, procuramos dar brinquedos sofisticados, caros e dispendiosos. Mas a geringonça colorida que custou parte significativa do salário vai prender a atenção da criança durante o dia da estréia e nunca mais. Na verdade, elas vão se divertir com o ínfimo, algo ridículo, uma folha, um pedaço de madeira, uma gaiola torta, um carretel, um prato quebrado, um disco riscado. Inventam a intimidade nas pequenas coisas abandonadas, numa canção, numa conversa de limo, num dicionário de rio, num soluço de ervas. As palavras são brinquedos de amar. Encontro as palavras no ermo, lustro e faço delas um tambor de chuva. Erro a esmo para nunca ser o mesmo.

11:04 PM :: Comentários:


Garrancho: Quem tem letra ilegível passa a complicar todo o resto.

Pequenas causas: Nunca chego a um trato com quem deixei de ser. Os outros que fui pedem sempre indenização para falir meu futuro.

Abandono de carro: Desisto de me concluir. Não será agora nem em 2004.

Otimismo: Ao receber excremento de aves na roupa branca, chamo a sujeira de sorte.

Faça barulho: Ninguém nasce para não perturbar.

8:50 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 21, 2003


DE PERNAMBUCO:

"A luz é quem chega
falando demais"

Deborah Brennand
Maçãs negras (Edições Bagaço, 2001)


7:31 PM :: Comentários:

Deus e o futebol

Meu grande amigo era o Iraji. Ele chegava em casa às 11h30 e ficava esperando no muro até as 13h, horário da aula. Não apertava a campainha, como um pintassilgo recolhendo cisco. Ele também não havia almoçado, descobri isso na terceira visita. Passamos a convidar a comer com a gente. Usava sempre a mesma roupa. Vinha não sei da onde. Não sei da onde parecia longe. Ele passava por debaixo da roleta. Era miúdo, moreno, cabelos encaracolados e um talento para o futebol fora do normal. Armou um dos principais lances do colégio: um chapéu no goleiro alemão da 8ª série quando estava na 4ª. A bola subiu três andares para escorrer macia no elevador do peito. O edifício mais alto do bairro tinha três andares. O gol o consagrou entre os pequenos. Não era de briga, mas do imã da bola. O melhor jogador é aquele que não pensa, mas faz a bola pensar. Um olheiro do Internacional assistiu suas jogadas na escola. A escola tinha o muro pichado com nomes feios. A primeira vez que li 'pau no cu' foi lá. Não entendi e falei para o meu pai. Meu pai me xingou violento. Iraji foi para o Inter. Largou a escola pelo Beira-Rio. Resolveu a vida. Eu carecia de sua amizade. Suportava a falta ao imaginá-lo feliz, com almoço e descendo pela porta da frente. Um dia, já no 2º Grau, o encontrei e ele me disse que uma lesão séria o proibiu de continuar jogando. Seus olhos mancavam ao subir cada palavra. Não sabia fazer outra coisa. Deus não gosta de futebol.

9:46 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 19, 2003


A loira ao lado da amiga Aline

O dia em que eu traí minha esposa ...

Alguns me viram com uma loira no motel no último sábado. Foi assim. Combinei com a Ana de buscá-la no salão antes da festa à fantasia. Em encontro desse tipo, não coloco adereços. Tenho duas explicações. A primeira é a minha exuberância natural ao disfarce. A segunda é que, quando me arrumo, acabo sendo o único que aparece fantasiado. Cheguei no cabeleireiro e não vi a Ana. Minha Ana, de cabelos negros curtos, de olhos egípcios e seus 1m75cm de elegância. Havia apenas uma loira na cadeira. Cabelos brilhantes como chão encerado. Ela me olhou e vi dentro dela a Ana. A loira engoliu minha Ana. Devorou rapidamente. E ria, absoluta em seu trançado de bombril. Gargalhava, com os dentes sobrando em boca pincelada, como quem vai dizendo que estava casada comigo e eu teria que honrar as obrigações em curto espaço de tempo. A Ana loira, doida, usava botas dos anos 70 e um casacão de Audrey Hepburn. Os botões eram maiores do que minhas unhas. Eu dei carona para ela. Não falamos nada, como estranhos que pretendem mostrar inteligência com a falta de palavras. Ao descer do carro, ela explodiu em alegria solteira. Os braços giravam rápidos. Dançava olhando ao teto, zunindo, elegendo o ar como o único par possível. Ela se enamorou de si por uma noite. Comovida por não ser ela. Por ser todas as outras que não poderia ser. Ao fim, fartou-se da estranheza, deixou a peruca na cabeceira da cama e a desligou com a delicadeza de um abajur.

...com minha esposa.


9:18 AM :: Comentários:

Primeira frase


Existe uma mística diante da primeira frase de um romance. Ela precisa ser definitiva, arrebatadora. Há autores que entram em coma improdutivo diante da linha inicial, tal a expectativa confiada ao início. Como se o romance fosse perder ou ganhar o leitor na ante-sala, no capacho da porta. Camus, por exemplo, retratou o pânico em um personagem de A peste, que tenta escrever seu pórtico durante todo o livro e não consegue avançar ou recuar. Já a entrada de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é exemplar, elétrica, explosiva. Faz valer a apreensão dos demais escritores. Demonstra a volubilidade do narrador logo de cara: "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e novo.". Como não continuar a leitura? Impossível até para quem está dopado. O melhor começo da literatura brasileira - acredito - ainda é o de Campos de Carvalho, mineiro que viveu em São Paulo, em A lua vem da Ásia (José Olympio, 1956). Eu estava em uma livraria para procurar uma obra e de repente encontrei um livro azul. Abri e estranhei o título do primeiro capítulo: Vida sexual dos perus. Esqueci a obra que procurava. De roldão, perdi também o meu CPF. Prossegui para ganhar tempo e me lembrar de alguma coisa útil. Roçei o parágrafo inicial: "Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris". O sangue não mastigou as palavras e levitava. Eu que levava bomba em matemática, achei o fragmento delicioso. Seduzido por completo. Nunca havia lido uma narração tão irresponsável e gratuita, carregada de humor, novidade e contradições, de alguém que morava na ponte do Sena e não estava em Paris. Fiquei viciado e fui procurar entender a conexão com a vida sexual dos perus. Releio Campos de Carvalho com igual nervosismo de minha estréia. Sua imaginação é mais descontrolada do que a minha.

9:13 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 18, 2003

Feliz Natal não, e sim Pagoda

A vida está instável, cada vez mais tensa. No Natal, que era para ser época de abraços, basta tocar no braço de alguma pessoa e ela pula assustada. As interferências não são aceitas. Experimenta-se o canal de ofertas, do leilão, dos contracheques, dos descontos em folha, do seguro-desemprego. Todos correm para comprar presentes, fazer tabuadas dos gastos, se arrumar para festas e praguejar a falta de tempo. Consumistas dos próprios defeitos. Um formigueiro pensando que é colméia. Isso não é mais um período de exceção. Ninguém mais goza da imputabilidade papal, assegurado no emprego. Ninguém está salvo de uma mudança repentina. Sair de férias pode significar entrar de férias 2004 inteiro. Nem eu, muito menos um PHd. Nessas horas, eu só penso em uma coisa para me tranqüilizar: PA-GO-DA. Qual a relação do restaurante da Protásio Alves de Porto Alegre com o nascimento de Cristo? Nada e, portanto, tudo. O restaurante chinês deve ter outros santos. Não adianta: eu só penso em Pagoda como sinônimo de estabilidade e de algo que posso ir sem nenhuma transformação visível. Estou farto de revoluções, inovações, mudanças, metas, power point. Quero ter o que sempre fui. No Pagoda, as mesmas mulheres que me atendiam quando pequeno continuam me atendendo. Nunca foram demitidas. Nunca saíram de lá. Elas não envelhecem, porque tenho a imagem da primeira vez que as vi. Elas me assistem desde os cinco anos. Viram eu chegar com namorada, depois casado, depois com filhos, e devem acompanhar também meu final. No Pagoda, a vantagem é que posso voltar.

9:52 AM :: Comentários:

Deu no site Filho da Letra, na seção Além das Estantes:

Poeta traz à tona os sapatos da caixa de cada um

Foto Renata Stoduto

Descobrir a poesia que passa despercebida como a formiga e se assustar com sua força. Eis a poesia de Fabrício Carpinejar.
Aos 31 anos, o poeta é autor de As solas do sol (1998), Um terno de pássaros ao sul (2000), Terceira sede (2001), Biografia de uma árvore (2002), e o recém-lançado Caixa de Sapatos (2003).
Filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar, Carpinejar teve em seus pais seus primeiros leitores. Sobre o pai, lembra: "Eu colecionava as pausas dele. Eu sabia identificar, pelo silêncio do meu pai, se o poema era bom ou não". Mas sabia que não podia se ater a sua ascendência: "eu tinha que ser influenciado por aquilo que não foi escrito". Em seu segundo livro, Um terno de Pássaros ao Sul, fala da ausência do pai em longo poema de estrofes de três versos, com métrica variada.
Já em Biografia de uma Árvore, seus "poemas abandonados" são "um livro que guarda a voz de Deus", segundo o poeta Avalor, personagem que criou e que entrega para um certo dr. Ossian a orelha de uma árvore, dizendo que é um livro. O poeta, vestido com um casaco bordado de frases, tem "nariz acentuado e barba ruiva" (auto-referência?), traz "fragmentos de heras no pescoço" e "olhar de louco" - "o mesmo que atinge as pessoas quando estão com fome", segundo o prefácio.
Morando há sete na cidade de São Leopoldo, embora tenha passado a maior parte da vida em Porto Alegre, Fabrício Carpinejar é assessor de imprensa da Unisinos e possui um programa chamado Conficcções, no qual escritores são entrevistados em locações incomuns como pedalinhos ou estações de trem. O quadro é transmitido no canal 30 UHF no Vale do Sinos, e também no sistema da NET em Novo Hamburgo.
Carpinejar conta que começou a se disciplinar para a poesia com 16 anos, fazendo letras para a banda do irmão. E é assim, com uma poesia que se aproxima de muitas letras de canções nos quesitos coloquialidade, alcance do público, que o poeta definitivamente opta por não ficar exibindo sua habilidade em complicar a palavra. Está ali para criar metáforas que a renovem, para bagunçar as certezas dos significados e conferir-lhe outras dimensões. Como ele mesmo escreve: "Compreender é estar ocupado da morte./ Não sou unânime para te dizer sim./Dissidências me governam".
Como deveria ser toda poesia, a sua não aparenta uma exclusão do leitor, mas o convida para puxar suas próprias imagens-recordações junto dos poemas "narrativos-sussurrados". Ele próprio explica: "Eu gosto do poema como conversa".
As conversas de Carpinejar chamam da memória de nossas leituras, a poesia de Manoel de Barros. E não são poucas as comparações dos críticos entre a poesia dos dois. O poeta chegou até a defender sua tese de mestrado sobre o pantaneiro. Mas suas diferenças não se resumem ao cenário (as tintas do gaúcho são para o pampa). O próprio Carpinejar explica: "Sua estética reproduz o nível da criança enquanto está aprendendo". Já o "pampaneiro" prefere se colocar no futuro, como em Biografia de uma Árvore e Terceira Sede, livros nos quais o narrador está no ano de 2045, aos 72 anos. "Como posso ter morrido antes decidi antecipar a velhice", justifica o autor, em poema-prólogo às elegias de Terceira Sede.
Já seu último livro, lançado nesse 2003, conta com uma reunião de poemas das obras anteriores. A delicadeza e o tom por vezes terno e triste da poesia de Carpinejar, contudo, chega a lembrar a de outro gaúcho: Mário Quintana. A Caixa de Sapatos de Carpinejar parece conter o Sapato Florido do poeta, incluindo o tom coloquial e breve de certos poemas, bem como sua narratividade e as imagens que cria. Carpinejar bem poderia ter dito, como Quintana, que "As únicas coisas eternas são as nuvens" (Epígrafe) ou "O cotidiano é o incógnito do mistério" (Da humilde verdade). Semelhanças dialogando através dos tempos. Sobre esse último livro, o autor explica: "a intenção era fazer uma caixa de sapatos dos meus versos, esse estojo miúdo, a mesma que elaboramos na infância e que mostra que os objetos demoram mais para nos esquecer do que a gente deles". Depois de quatro livros, cada um dos poemas recolhidos traz em si seus próprios caminhos de histórias e surpresas. Que cabem numa caixa de sapatos, é verdade. Mas, na dúvida, também vale a pena procurar seus pares, nas caixas originais.


Vista 1: Nascer, crescer e reproduzir-se em obra

FL: Onde nasceu? Onde morou e quando foi para São Leopoldo?
Carpinejar: Nasci em Caxias do Sul, na serra gaúcha. Meu pai era promotor de Justiça. Cada irmão nasceu em alguma comarca. Morei praticamente toda minha vida em Porto Alegre. Resido há sete anos em São Leopoldo. Espio a estação do trem de minha janela. Sou um atirador de elite (meus olhos captam a poesia com a tensão das águias)

FL: Quando você começou a escrever e por que começou?
C: Eu comecei a escrever de uma maneira orquestrada, aos dezesseis, dezessete anos, mais por influência do meu irmão que fazia letras para uma banda no RS, uma banda de garagem, a banda não seguiu carreira. E isso me aproximou muito da poesia, da poesia mais coloquial. Eu não queria ser poeta. Até porque em casa já tinha uma figura de poeta muito forte, que era o pai, e uma informal, que ainda não tinha publicado nada, que era minha mãe. Tentei fugir pelas artes plásticas, comecei a fazer colagem, comecei a organizar as imagens que faziam parte da minha poesia depois. Mas eu fui pela imagem mesmo: pela pintura, pelas artes plásticas, pela colagem. Só com 21, 22 anos eu realmente assumi uma disciplina, de escrever e de tentar passar uma visão de mundo. Ou seja, passar um algo a mais, uma história com o poema.

Vista 2: Eu sabia identificar, pelo silêncio do meu pai, se o poema era bom ou não

FL: E tua mãe ou teu pai entraram nesse processo de convencimento para virar um poeta ou você até que tentou fugir um pouco?
Carpinejar: Não, acho que a grande virtude na minha relação com eles é que eles nunca forçaram nada. Eles nunca chegaram e falaram: "ah, vai virar um poeta", nunca colocaram palavras na minha boca, alimento na minha boca. Eles sempre tiveram essa despreocupação com o meu futuro. E não é que descobriram, perceberam que pelo que eu escrevi que eu era poeta. Aí, realmente, eles foram os meus primeiros leitores. Nesse sentido eu trabalhei, eu mostrava para ele, eu colecionava as pausas deles. Eu sabia identificar, por exemplo, pelo silêncio do meu pai se o poema era bom ou não. Ele nem precisava falar. E para mim foi muito importante porque eu tinha dois caminhos: ou eu fugia, ou eu assumia essa responsabilidade. Mas eu tinha que ser influenciado por aquilo que não foi escrito. Não adiantava eu ter sido influenciado só pelo que foi escrito. O escritor é aquele que trabalha com aquilo que não foi escrito.

Vista 3: O poema sempre esteve à paisana em casa

FL: Você tem filhos? Quantos? Você conta histórias para eles (ou elas) antes de dormir? Contavam para você quando era criança?
Carpinejar: Tenho dois filhos: Mariana (9 anos) e Vicente (um ano). Conto histórias sem dizer que estou contando. Não gosto de pegar um livro e dizer que a história começa e termina ali. Venho da tradição oral. As fábulas correm em qualquer canto como infiltrações em nossa memória. Literatura não é feita para acriança dormir, mas para a criança acordar. Minha mulher Ana parte desse princípio. Isso herdei de minha infância, onde desfrutei de um ambiente lírico muito intenso. O poema sempre esteve à paisana em casa, solto nas conversas ao tronco do alvorecer. Quando faltava água na minha residência,sobrava luz. A luz é água da leitura. No início, pensava que poesia vinha da erudição. Poesia acontece quando não mais dependemos da cultura para se afirmar. Basta a fala cotidiana e algumas música para dizer o necessário. Virei assim um erudito da chuva, do idioma dos rios, das ervas, das tensões familiares. Minha orquestra é um assobio. Aprendi a desescrever. Tenho a ambição de ser um homem invisível, anônimo, como uma árvore de estrada, que ninguém repara mas faz parte do caminho.

Vista 4: Eu não sou um poeta do cisco

FL: E o primeiro livro você decidiu fazer quando e por quê?
Carpinejar: Aos 27 anos... destruí o livro... teve três livros até o primeiro livro. Porque toda obra é feita de escombros, de ruínas. A gente não pode acreditar que acertamos de primeira, ninguém toca um violino de primeira, ninguém toca um violão de primeira, ninguém escreve um poema de primeira. Eu não confio na inspiração, eu confio na convivência com a sensibilidade.

FL: E como é esse processo de disciplina que você adotou? Você escreve todos os dias? Quanto e quando?
C: O meu processo é meio insano. Eu, na hora que começo o livro decoro todo o livro, eu não coloco no papel. Eu fico com 110, 120 páginas na minha cabeça, rodando, e eu vou ajustando a melodia, vou ajustando as frases... Numa caminhada eu sou capaz de evocar todo o meu livro. Ele fica na minha cabeça um ano, um ano e meio, até que ele fica pronto e eu coloco ele no papel. Aí eu me despeço dele. Mas toda a minha gaveta é memória. E se o poema é bom, ele sobrevive ao esquecimento, ele volta. Se ele não vinga, então ele realmente não tinha que ficar.

FL: Então você não faz observações em papeizinhos...?
C: Não, eu não sou um poeta do cisco, um poeta do guardanapo, um poeta do avental.

FL: Você tentou já fazer ficção em outras formas que não seja a poesia?
C: Eu faço ficção com a poesia. Eu não acho que a poesia tenha que servir como preliminar para fazer um romance. Eu acredito na poesia naquela feição primitiva de repassar uma história. Drummond tinha um fio narrativo. Eu acho que muitas poesias tinham esse fio narrativo. Só que é um fio narrativo que, ao invés de ser épico, a gente é lírico. Então, ao invés de ter aquela grandiloqüência, os meus poemas são narrativos mas são sussurrados. Eu gosto daquela conversa derramada, daquela conversa no chão. Eu gosto do poema como conversa. O poema mais trivial, mais fútil, mais frugal, a gente tem a capacidade de soltar uma metáfora no meio de uma conversa, que a gente vive de metáforas. Só que as metáforas estão mortas...

Vista 5: O poema tornou-se meu amigo imaginário

FL: Segundo Luis Augusto Fischer, foi antologizada, em Caixa de Sapatos, "a autobiografia de um tímido". Você concorda?
Carpinejar: Concordo. Fischer sintetizou meu temperamento. Fiz a minha vingança pelas palavras. Sou tão tímido que tenho medo da timidez e acabo parecendo expansivo. Sempre falei pela mudez do papel. Tinha problemas de dicção na infância. O poema tornou-se meu amigo imaginário. Ele me defende da vergonha de nunca saber onde colocar os braços.

FL: Você comenta num texto publicado no diário de Santa Maria que hoje em dia os "originais na gaveta" estão sendo substituídos por livros na "estante", que vir a público já não é tão difícil. Como você fez, primeiro, para ser publicado e, depois, para "vir a público"?
C: Meu primeiro livro só existe na lembrança. Eu o destruí. Organizei meus escritos com severidade. Não podemos ser complacentes com as palavras, senão elas desconfiam e nos tratam mal. Mandei para a Bertrand Brasil e foi publicado. Foi um golpe de sorte. Não, foi um golpe de fé. Quem não confia em si não é capaz de falar nem seu nome. Depois, passei a receber convites para ser publicado. Tudo ficou mais fácil, mas meu nível de exigência é quase absurdo. Todo livro é atravessar a loucura e voltar para contar a história.

FL: Você fala nesse mesmo artigo em começar a literatura como adolescente, na crença ingênua de que poesia é para vaidade. Você também passou por essa fase?
C: Claro que passei. Depois fui perdendo a vaidade, deixando o excesso das bagagens e das lembranças, me emprestando para ser diferente, escrevendo como quem conversa, até passar a enxergar a literatura como verdade, o pátio onde meu corpo começa.

Vista 6: Sempre desconfio do que escrevo

FL: Quando você sente que nasceu um livro, o que faz você crer que aqueles poemas constituem um livro?
Carpinejar: Eu memorizo todo o livro antes de colocar no papel. Ele fica rodando em minha boca como salmos. Está pronto quando ele não depende mais de mim. Como diz Valéry, abandono o livro, nunca o termino.

FL: Você tem a preocupação de ficar trabalhando o texto por um tempo? Até quando?
C: O texto me trabalha até o momento em que ele se torna um estranho em meu corpo. Quando ganha distanciamento, ele está na temperatura certa. Ele usa minha intimidade para criar a sua.

FL: Em seu texto "Antecedentes Criminais Poéticos", divulgado no seu site, você diz que não é capaz de dizer: vou escrever um poema. Como é sua relação com a inspiração, sua disciplina?
C: Não sou de esperar o verso sentado na estação. Antes é preciso pastar as palavras para depois cultivar o campo. Exercito o invisível descobrindo onde o vento corre. Não acredito em inspiração, mas no trabalho que me faça compreender o que vivo e transcrever o que entendo. Não procuro também soluções formais. Meu verso é livre. É possível se expressar com personalidade em métrica, tanto que o faço com Um Terno de Pássaros ao Sul, em tercetos, e Terceira Sede, com elegias. Em meus últimos livros, realmente chego ao limite da poesia, na fronteira da prosa. Um passo em falso ou uma palavra fora do lugar e mudo de gênero e desapareço na neblina. Busco uma música rugosa, áspera, o pensamento da partitura, composto de pancadas da consciência. O equivalente a uma ópera sussurrada no mesmo tom, sem tenores. A intenção é fazer versículos quebrados, uma bíblia desfalcada, com páginas arrancadas. É um épico da intimidade, que aproveita o lirismo para esticar as cordas e sua permanência. Minhas obras são interligadas como capítulos de um romance versificado. Há um liame, um motor narrativo. Vejo a poesia como um ato de raspagem, de limpeza do palimpsesto. Tudo o que eu queria dizer estava soterrado na minha estréia, As Solas do Sol. A cada nova obra, vou raspando e descobrindo o que estava oculto, abrindo as imagens e encorpando a comunicação. Às vezes, o livro esconde o que ele quer do próprio autor. Sempre desconfio do que escrevo.

Vista 7: Influências

FL: Quem são os poetas que você mais leu, que mais te impressionaram, te influenciaram, que você foi beber neles.
Carpinejar: O Jorge de Lima. O Jorge de Lima eu acho que é um dos poetas que eu considero mais inconseqüente na literatura brasileira, na poesia brasileira. Ele é capaz dos mais altos acertos e dos mais baixos erros, ele possui uma poesia metafísica, uma poesia de pensamento, capaz de conciliar imagem e música. Ele ainda é pouco conhecido e possui dois livros maravilhosos que são Invenção de Orfeu, que é súmula de toda uma febre, gosto muito do José Gomes Ferreira, que é um poeta português, tenho uma afinidade muito grande com a poesia italiana, Ungaretti, Montale, com o chileno Nicanor Parra, com o cubano Nicolás Guillén, e assim vai. Eu sou um leitor pontual de poesia, eu vivo sempre revelando a palha, eu sempre fico revirando o telhado, eu sou compulsivo.

FL: Seus poemas são substantivos e trazem imagens fortes, mas muitas vezes a concisão quase de haikai. Você tem alguma relação com essa técnica de poesia?
C: Tenho uma ligação muito forte com os aforismos, da poesia alemã do início do século XX. A concisão é menos do haicai e mais da concentração de forças necessária para a contundência. Quem fala demais é que alguma coisa está escondendo. Vejo todo o verso como o último, o derradeiro. Não importa sua posição dentro do poema. Ele tem que ser forte o suficiente para estar ali. Tem que bater e ficar a mão no leitor. Não há como enrolar ou jogar conversa fora. Poeta é para desacomodar costumes, surpreender a sensibilidade, expressar o cotidiano com o mínimo de recursos. Ser a vida sendo deliciosamente desperdiçada. Aquilo que desperdiço é doação.

Vista 8: O diálogo com Manoel de Barros

FL: Quando descobriu Manoel de Barros e de que maneira ele te influenciou? Fale um pouco sobre sua dissertação de mestrado e por que escolheu esse tema.
Carpinejar: Lembro que a primeira vez que encontrei Manoel de Barros aconteceu via antologia "Gramática Expositiva do Chão". Era um universitário, tinha uns trocados e necessitei escolher entre almoçar ou comprar o livro. Fiz o jejum e devorei sua poesia. Manoel de Barros é um grande poeta, peculiar, explorando os desvios da língua já anunciados por Raul Bopp e Guimarães Rosa. Faz a catequese do restolho, a pedagogia do mínimo. Defende uma teologia do abandono, pós-industrial. Valoriza os objetos sem utilidade, a deserção e os desertos do homem. Sua estética reproduz o nível da criança enquanto está aprendendo. Erra de propósito. Seus poemas exibem um andamento epistolar de contos. Realiza uma poética da fé, que reivindica o pacto e a identificação, a empatia e o elogio da pobreza. Barros infantilizou a forma poética, não se restringindo a tematizá-la. Eu escolhi Barros e seu deslumbramento religioso como tema de minha dissertação por servir como contraponto ideal à contenção negativa e desconfiada de João Cabral de Melo Neto. O primeiro faz a teologia do traste; o segundo, a psicologia da composição.

FL: Manoel de Barros tem uma passagem na qual diz que: "para entendermos, nós temos dois caminhos: o da sensibilidade, que é o entendimento do corpo; e o da inteligência, que é o entendimento do espírito. Eu escrevo com o corpo. Poesia não é para compreender mas para incorporar. Entender é parede: procure ser uma 'árvore'". Sua poesia pede um comportamento árvore. Você acha que, inclusive relacionado com a nossa geração de críticos, temos um entendimento muito porta?
C: Ninguém é obrigado a pensar o que pensamos, a acreditar no que acreditamos, a concordar com que falamos. Poesia não é lida, mas corporificada. O leitor é tão autor quanto o autor.

Vista 9: O futuro é um passado

FL: Por que em dois de seus livros você escolheu colocar-se no futuro?
Carpinejar: Porque o futuro é um passado. Basta envelhecer para entender isso. Assim como o desejo é uma lembrança do que ainda não aconteceu.

FL: Você acha que a arte pode tomar o lugar de Deus ou nos aproximar dele, no sentido etimológico de religião, de re-ligare? Qual é sua religião?
C: Ninguém pode tomar o lugar de Deus. Ele não existe fora da gente. Deus é tudo o que não alcançamos.

FL: Como o espaço em que vive interfere em sua obra?
C: Enormemente. Eu sou meu espaço. As distrações me encorpam, me dão sentido. Sou um observador obsessivo, uma esponja, uma antena, presto atenção nas incertezas do idioma, nas quedas e quebras. Minha imaginação é um condomínio com nenhum apartamento à venda. Todos ocupados, exuberando roupas nas janelas, com cheiro de rua e de febre. Eu me perco em meus corredores. Como poeta, eu me furto. Roubo de mim e não devolvo.

FL: A morte está muito presente em sua poesia, seja acompanhando o tema da velhice (Terceira Sede), seja em outros poemas. Como é sua relação com ela?
C: Amigável (risos). A morte não é um fim fora. Ela está comigo desde que nasci. Passo o tempo convencendo que ela precisa ser mais otimista e menos carrancuda. Por qualquer coisa, ela se despede e briga comigo.

9:50 AM :: Comentários:

Vista 10: Literatura e jornalismo

FL: Por que resolveu cursar jornalismo? Você encontra subsídios no jornalismo para construir sua literatura?
Carpinejar: O poeta revira o lixo do jornalista. Tudo o que não presta para notícia serve para prolongar a narração dos ouvidos. O ínfimo é o íntimo. São os detalhes que definem uma vida, não os grandes acontecimentos. Trabalho com as lembranças que não são tão grandes para serem recordadas, nem tão pequenas para serem esquecidas. Esse intercurso entre a memória e o esquecimento é que nos esclarece de musgo.

FL: O chamado jornalismo cultural hoje dá pouco espaço para a poesia em relação a outras artes. Por que acha que esse espaço é reduzido?
C: O custo do papel foi um dos motivos. A briga entre os escritores, outro. Os poetas precisam se ajudar, confiar mais nos seus contemporâneos, deixar de acreditar que se vive numa monarquia e que há um único rei. Amar dilata as pupilas. Identifico um retorno de importância da poesia. Existem grandes poetas surgindo, prontificados a viver a melodia sem mediação.

Vista 11: Semear a literatura: Poesia é ritual, congregar pensamento, imagem e música

FL: Você dá oficinas de poesia. Onde elas acontecem, quem participa? Qual a metodologia que você utiliza?
C: Faço palestras e oficinas em escolas, universidades, instituições e livrarias. Minha metodologia é não preparar nada. Tudo depende do público que estou falando. Não adianta chegar lá com algo pronto se ainda nem conheço a atmosfera de quem me procura. Sou muito cênico, improviso a partir de meus objetos verbais. Todo encontro é também criação, o mesmo suor, o mesmo inesperado gesto. Na hora em que faço oficinas e palestras, estou também escrevendo, me inventando, me expondo em carne viva. Fico vulnerável e faço de conta que recito meu testamento. Me perco muito quando falo. Me perder é encontrar o outro. Outra coisa, como eu mesmo disse, eu falo para enfrentar minha timidez. Tenho medo de ter medo, o que me dá coragem. Falo para desafiar o enorme silêncio que envolve as palavras e as pessoas. Descobri que pior do que dizer algo numa hora errada é não dizer algo na hora certa. Um silêncio no momento errado faz muito mais estragos. Eu escrevo por fome, nunca curiosidade. Escrevo para me manter de pé. Poesia é ritual, congregar pensamento, imagem e música. Eu não sou um violinista. Retiro música de um serrote, o som agudo da lâmina. Minha melodia é vinculada aos odores da realidade. Retiro música do que também serve para a construção do cotidiano.

FL: Acredita que o problema do não envolvimento com a poesia por uma parte considerável da população letrada tem a ver com a maneira que é ensinada a literatura nas escolas? O que poderia ser feito para mudar esse quadro?
C:As crianças são obrigadas a ler poesia, mas ninguém as motiva a criar poesia em sala de aula. O que falta no sistema de ensino é criação. A única forma de entender é fazendo. Na maioria das vezes, ensinam autores mortos com uma pedagogia morta. Esquecem que aqueles jovens gostam de letras de músicas e rabiscam poesias nas agendas e diários. Eles querem expressar o que sentem, os seus mundos e entremundos. Têm intuição poética, mas carecem de conhecimento da língua que possibilite uma forma de se deslumbrar e exercitar a criatividade.


Vista 12: Minha poesia é um rascunho da minha época

L: Como vê a produção atual? Quais nomes ressaltaria nessa e na última geração que o impressionam e considera não conhecidos (tanto em poesia quanto em prosa)?
C: Eu pertenço ao meu tempo e faço parte de uma geração. Eu amo as imperfeições, os extravios, a sensação de que nunca estamos completos ou satisfeitos. A arrogância é não escutar o contraponto, não desfazer as bagagens. Minha poesia é um rascunho da minha época (até a eternidade precisa de rascunhos). Há gente que pretende ficar sozinho em seu
nascimento, por vaidade, sem ser incomodado, desejando eliminar a concorrência, dizendo que não lê os seus próximos. Eu quero o barulho, o soluço, o riso dos meus contemporâneos. Quero escutar as paredes e pedir sal emprestado. Sinto a necessidade visceral de comunicar experiências. Há uma safra de novos autores disposta a mostrar urgência em existir, tanto na poesia como na prosa, de alinhar o cotidiano às golas do casaco. A literatura brasileira vive um grande momento - nossa desvalia não nos permite enxergar. Se no livro os poemas têm que ser solidários entre si, devem se ajudar, sendo compreendidos em sua soma, acho que os autores poderiam fazer o mesmo. O aprendizado não tem fórmulas. Cada um tem seu ritmo. Por exemplo, posso ter aprendido mais sobre poesia com a obra de João Gilberto Noll do que com outro poeta.

FL: Você tem um site e, nele, um blog. Como vê a divulgação da literatura e o próprio fazer literatura em tempos de Internet? Quais mudanças considera mais visíveis, latentes e até "irreversíveis", por assim dizer?
C: O blog é um vestíbulo da poesia, onde os poemas trocam de roupa. É um jeito de conversar com quem está começando. Não adianta se enclausurar em um livro e não sair dele nem para ver se está chovendo ou não. Me disponho ao diálogo e o blog é mais uma ferramenta. Não traz salvação a ninguém, mas permite que muitos possam dizer o que pensam, sem censura.

Vista 13: Publico aquilo que já é silêncio amadurecido

FL: Você colabora com a publicação Vida Simples, da Superinteressante. É um problema escrever por encomenda? Dá um sentimento de obrigação ou falta de entrega?
C: Não. A revista Vida Simples combina com meu temperamento, o tempero de falar de dentro, com fé. Não preciso forçar nada. Tem sido uma experiência única. Alegro-me em minhas conversas com o editor Otávio Rodrigues, uma espécie de primeiro leitor de meus originais. Não sofro nenhuma obrigação. Publico aquilo que já é silêncio amadurecido.

FL: Você veio fazer um lançamento em São Paulo e provavelmente já fez por todo o país. Como é seu contato com o público ao vivo? E pela Internet, você recebe muitos e-mails? Tem algum caso curioso para contar?
C: Não há cidade no país que eu não queira conhecer. Recebo dezenas de mensagens e tento responder a maioria delas. Muitos autores e originais pedindo uma opinião. De vez em quando, bate um desespero por não dar uma orientação mais minuciosa. O que fazer? Não somos onipotentes. O importante é ser bem intencionado e usar a sinceridade nas mínimas linhas.

Vista 14: Alterei o DNA das obras

FL: De quem foi a idéia da antologia? Da editora?
C: Recebi a proposta da Companhia das Letras, sintonizada com meu desejo de revisar o percurso, de escavar os livros e costurá-los em uma nova forma, mais despojada e mais lírica. Alterei o DNA das obras para desbastar poemas e versos e atingir uma nudez essencial. Retirei o contexto narrativo, o personagem, e tudo pareceu se encaixar como uma voz amadurecida por dentro. Não sei se atingi meu objetivo, até porque não tinha objetivos. A intenção era fazer uma caixa de sapatos dos meus versos, esse estojo miúdo, a mesma que elaboramos na infância e que mostra que os objetos demoram mais para nos esquecer do que a gente deles. Reuni meus pensamentos e assobio para jantar cadarços, estradas e estrelas.

FL:Você publicou cinco livros em cinco anos. Já tem um próximo em mente? Quanto de material já tem separado ou sobre o que o livro vai falar?
C: Minha próxima obra sairá em abril de 2004. Chama-se Cinco Marias, um rosário de mulheres, suas verdades implacáveis que os homens custam a entender e fingem que entendem. Trata-se de revezamento de vozes entre a mãe e suas quatro filhas. Um diário de uma casa, como as pedras de pano do jogo infantil. Dá seqüência à Biografia de uma árvore, mostrando a família do Dr. Ossian, médico que considerou louco o personagem Avalor. Meu romance se faz sozinho. Sou um espectador.

9:40 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 17, 2003


(Desenho de Constança Lucas)

Mínimas:

* Convivo com o cisco no olho. Ele me irrita menos do que a paisagem.

* A véspera da tempestade é quando o vento se escuta.

* A lesma nunca apaga a luz ao descer sua escada-caracol.

* Quem não se debocha ainda não morreu o suficiente.


8:06 AM :: Comentários:

Poesia de bolso

Dois poetas vão animar o Varal de Letras, série de debates mensais com entrada franca, da Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: (51) 30284033). Nesta quarta (17/12), às 19h30, recebo os escritores Marlon de Almeida, que acaba de lançar "Malabares ou clube dos incomparáveis" (AGE, 2003), retratos cantados de profissões e personagens populares, e Celso Gutfreind, autor de "Arte da rua", Prêmio Açorianos de Literatura 1994, e "Fera Domada, eleito Livro do Ano 2003, categoria infantil, pela Associação Gaúcha de Escritores. Com o tema Poesia de bolso, haverá debate do processo de criação, leitura de poemas e conversa sobre o mundo dos versos, o dom terapêutico das fábulas e as perspectivas da poética brasileira contemporânea.

8:04 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 16, 2003



Mínimas:

* Eu tenho receio de repetir o que ainda não aconteceu.

* Os insetos são flores suicidas.

* Diferente do homem e do cachorro, as árvores mijam a céu aberto.

* Não há maior vaidade do que se abandonar.

(Desenho
de Constança Lucas)

5:54 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 15, 2003

MENINA RUIVA

Estive no Torreão, escola de artes visuais criada em 1993. É um casarão amarelo de esquina, na rua Santa Terezinha, no Bom Fim, em Porto Alegre. Coordenado por Elida Tessler e Jailton Moreira, oferece salas para investigação, quartos em que artistas realizam suas experiências, demolindo crenças, derrubando paredes ou florestando artefatos. São laboratórios de intervenções. Câmaras claras para esticar o varal do pescoço ou revelar canhotos dos pulsos. Os artistas mergulham em meses de expedição pelas possibilidades da arte e depois entregam o ateliê assim como receberam. Ninguém pode entrar na sala durante o período. Segredos que trocam de fechadura.


Não há como não ficar seduzido pelos trincos e dobras. Escadas estreitas, de fila indiana. O terraço do prédio é uma ala para explicação dos pássaros. As pombas ficam paradas na torre, inchadas de luz, brincando de estátuas. Elida retroce na história dos utensílios para avançar. Mulher de gerúndios, de trabalhos surpreendentes, doando o que não se vê. Já tramou exposições que concedem uma 'segunda chance' às distrações. Em uma delas, pendurou objetos que tinham dor no nome: liquidificador, delineador, aspirador, entre tantos. Enquanto a maioria quer conhecer mais, Elida procura desconhecer o próprio conhecimento. Desafalbetiza. Restitui às coisas a estranheza da primeira vez (só que com a intimidade de uma despedida). Todo pensamento tem direito a uma forma. A falta de forma é também nudez. Montou o Claviculário, exposição de chaves. Quando não entendia uma palavra em um livro, ao invés de procurar no dicionário, inscrevia o termo em uma das peças do chaveiro. Não corta os cabelos ruivos das palavras. Deixa crescer como a grama lilás de um piano. Protege mistérios. Recensou meias de nailon com fios puxados e vidros vazios de esmalte. Tudo o que não presta toma valor em suas unhas. O que é consumido pelo tempo volta a consumir os olhos. A intuição é invenção.

Serviço: O Torreão fica na Rua Santa Terezinha, 79, Porto Alegre - RS
A visitação acontece de 2ª à 6ª, das 14 às 18hs.


LIVRO FALADO

"Um par de pequenos
chinelos azuis
sustenta a parede
do quarto"
Manoel Ricardo de Lima, "Embrulho"

Manoel Ricardo de Lima, escritor natural de Piauí e radicado em Fortaleza, professor da UNIFOR, conversou sobre a novela poética As Mãos (7 Letras, 2003) no Torreão, na tarde de domingo (14/12) Acredita que os poetas estão desencanados. "Cansaram da trinca Ranço, Ressentimento e Lamúria", afirma. Com um riso franco e uma disposição sobrenatural para a alegria, fez um exercício diferente com seu livro. Pediu a gravação de trechos para uma série de amigos. Montou uma radiografia sonora do enredo, um acervo de timbres e fantasmas. Os registros são os mais diferentes possíveis e permitem ampliar a capacidade expressiva dos textos (qualificados de 'prosopoemas' pelo autor). "Eu não leio mais minha obra sem esbarrar nas vozes que a interpretaram", avisa.


5:10 PM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 13, 2003

Mínimas:

* Ir devagar para o longe chegar perto.

* Era avarento. Até na morte barganhou desconto.

* Perverter a memória é o jeito mais seguro de preservá-la.

* O dicionário é a agenda da eternidade.

* Nem mesmo morto ficou quieto.

9:49 AM :: Comentários:


"Há os que passam a metade da vida atrás da fama e depois gastam a outra tentando se livrar dela."

Jaime Cimenti
coluna "e palavras...", Jornal do Comércio
Porto Alegre, 12/12/03

9:47 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 12, 2003

Moquifo

O que poderia esperar de um restaurante conhecido como Moquifo? Um bangalô na divisa de Nova Prata (RS), no fundo de uma mata, estrada de terra batida. Logo que entrei, trabalhadores almoçavam numa espécie de acampamento de panelas, com pratos amontoados que chegavam até as barbas. Cortinas de banheiro separavam os ambientes. Não dava nada pelo lugar. Quando comecei a ser atendido, senti a diferença. A dona extremamente calorosa, preocupada, com as filhas ajudando a servir e uma ternura que não terminava no cardápio. Pratos coloniais tomaram o convés da mesa. Uma comida costurada com suavidade, como se minha avó e minha mãe estivessem cozinhando juntas. Evocação da infância fumegando, tempero aguçado pelo cheiro da casa de madeira. O queijo frito e recheado pedia exclusividade. Ficava-se com receio de comer outra coisa e substituir o sabor.

9:54 AM :: Comentários:

Da séria Minha infância não atravessa a rua sozinha:

O fogão a lenha reunia a família na casa da nona. Nosso jogo de cartas à noite. Todos ao redor da mesa para beliscar brasas. O queijo derretido inundava o fogo. Sugava atenção, puro, como um pão aquecido. Os irmãos competiam e buscavam garfar pedaços maiores. Depois, no quarto, adivinhávamos as sombras que passavam pelas frestas, já que a calçada ficava colada às janelas. Elas corriam pelo vidro, deslizavam magras e altas nas paredes e reboavam ovais no teto. Era preciso dizer se a sombra vinha de um homem ou de uma mulher. Naquela época, a sombra tinha sexo. Usava chapéu ou bolsa.

9:53 AM :: Comentários:

Da série Minha adolescência é um quarto de empregada:

Minha mesada consistia em arrecadar moedas quando a mãe trocava de bolsa. Aos 15 anos, cansei da expedição e decidi ter um emprego. Fazia colagens em papel de parede. Colagens enormes, de dois metros. Liguei para uma grande agência de publicidade de Porto Alegre e marquei uma reunião para apresentar meu portfólio (leia-se quatro papéis de parede). Não conhecia formalidades, mas não tinha reputação e passado para perder. Tampouco confessei minha idade. Achei que seria atendido na porta, mostraria algumas peças e iria embora. Errei feio. Ao chegar, com um cinto de favela e uma gravata de araras, percebi que toda equipe da agência estava presente para conhecer meu currículo. Dez pessoas em uma mesa enorme, de máfia, com água mineral e café ao centro. Gelei, balbuciei figuras sem nexo, palavras divorciadas, solteiras e viúvas. Vi um por um dos participantes deixando a sala, desolados. Restou apenas um profissional. Com piedade, apertou meus ombros e disse:
- Eu não teria essa coragem. Não esqueça: teu talento é a coragem.

9:52 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 11, 2003

Mínimas:

* O sobrenatural é a rotina. Repetir tudo exatamente igual não é nada fácil.

* A poesia sempre grita mais alto. Não entendo o que diz, mas ela grita.

* Todo livro pede uma destruição completa. Não sobram versos para outra obra - os poemas não aceitam esmolas.

* Eu assusto meus próprios medos.

7:59 AM :: Comentários:

Recebi uma bela mínima de Caroline Milman:

* "A sinceridade é a infância da exigência."


7:52 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 10, 2003


Maria Carpi

Poema inédito de Fabrício Carpinejar


Os pássaros já entram na casa
sem alarde, desatam
as janelas e os alarmes.
Puxam os cordões do sofá,
o linho caminhado da mesa,
o carmim dos lençóis.
Tomam o carretel das águas
em minhas mãos,
a sombra de uma colher de sopa.

A casa arvorou
e a paz das ervas chegou nas calhas.
Os filhos cresceram e casaram,
as visitas deixaram de avisar.
Eu me separei lentamente
dos móveis e da reposição das gavetas.
Eu me abandonei
com tamanha perfeição
que não haverá fim ao corpo.
Não deixarei pistas da carne.
Não subirei a letra
para denunciar o batimento.
Estou plenamente fora
cada vez mais dentro.
Fui desaparecendo
em minha própria fome.
Os pássaros não se assustam
com minha falta de ninho.

Sem espaço entre eles,
os dedos como minhas tranças
de quinze anos.
Eu, avó de minha mãe,
voei ficando.


8:33 AM :: Comentários:

Mínimas:
* Eu desconfio quando estou livre e sem marcação. Deve ser impedimento.

* Nada é tão transcendente como o flamboyant em dezembro.

8:30 AM :: Comentários:

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Eu mijei nos sapatos de um tio. Calçava 43. Um penico. Meu irmão apanhou por mim. Eu devo a ele uma surra. Estou revelando agora esse segredo, depois de 23 anos. Minha covardia é adulta e pode ser incriminada.

8:28 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 09, 2003


Mínimas:

* Tenho dificuldades de cumprir as promessas que me fiz. Não há ninguém para cobrar.

* No romance, o leitor deduz. Nos poemas, ele intui.

* Diferente do passado, o futuro pensa duas vezes antes de acontecer. E, na maioria das oportunidades, não sai de casa.

7:55 AM :: Comentários:

Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha:

Meu irmão Rodrigo, dois anos mais velho, me convidou a andar na garupa de sua bicicleta. Era uma Caloi com freios nos pés. Ele não alcançava os freios. Descobri isso depois. Subimos ao início da lomba da rua Lageado. Eu exultava como um escolhido para uma missão secreta. Descemos a lomba com força. Eu fechei os olhos para sentir a esponja do vento no pescoço. A espuma do vento nos cabelos. Rajada indomável. Corria apenas com as narinas. De repente, meu irmão grita "pula!" quando ele já tinha pulado. Eu o vi no chão, recordo com precisão. Quem dirigia a bicicleta? Não adiantava responder. À frente, uma parede de tijolos de nossa reforma. As pedras empilhadas até o busto da árvore. Fui, explodi em cacos e lascas. Fiquei soterrado. No dia seguinte, tinha mercúrio vermelho por todo o corpo. E não era Dia do Índio na escola.

7:52 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 08, 2003

O PIOR RESTAURANTE DE MINHA VIDA

Em Eldorado, decidimos conhecer uma pizzaria nova, de nome Estrela. Não estávamos com vontade de sujar o fogão. Dia cheio de mergulhos e corridas. O cansaço pagava mais caro. O grupo era grande: eu, Ana, Mariana e Vicente, a mãe, o irmão Rodrigo, sua namorada e um casal de amigos. Com criança pequena, o jantar não pode demorar mais do que quarenta minutos. O restaurante se assemelhava a estabelecimentos praianos, feito com restos dos móveis da residência. Um quadro que nunca se colocaria na parede encontra significado no recanto. O primeiro sinal do apocalipse veio cedo: quero uma cadeira de bebê e não tem. O segundo sinal aparece com facilidade: pede-se cerveja e o dono vem com apenas duas garrafas. "São as últimas do estoque", avisa. No cardápio, existe a estranha pizza de "Mutsarela". Terceiro sinal: um bêbado, envelhecido, vê uma cadeira vazia, diz que está com dor nas costas e quer sentar entre a gente. Não deixamos, falamos que a cadeira está ocupada. Ele ainda saudou minha mãe: " e aí garota, como vai?" . Terceiro sinal: um cantor se aproxima e começa a vociferar com as caixas de som coladas em nossa mesa. Quarto sinal: não é possível detectar nenhuma mesa servida. Quinto sinal: o banheiro se encontra ao nosso lado. Passei a atuar como guia turístico da privada. Sexto sinal: observo a cozinha e vejo o mesmo cara que serve as mesas fazendo as pizzas. Higiene ao máximo. Até cachorro dormia perto do botijão. Uma hora transcorreu e nada de pizza. Solicitamos três grandes. Os refrigerantes padeciam quentes como soda cáustica. Perguntamos os motivos da demora. Uma mulher surge, com timbre de Emília, a boneca de pano: - estão no forno. Eu replico: - é óbvio. Mais trinta minutos e nada. Decidimos montar uma comissão da ONU e inspecionar os mísseis. Escolhemos o líder e marchamos. Avistamos, com espanto, nossas três pizzas ainda sendo montadas. O cara que serve e faz e limpa e suja, se considerando o dono da razão, xinga: - vocês não queriam comer juntos! O grito dele fechou os selos. "Não queremos mais nada. Fecha a conta", respondemos. O cara não deixou de insistir: "Posso colocar no forno. São dois minutos". Dois minutos? A irritação apagou os últimos sinais vitais de poeta em mim. Me transformei em um psicopata procurando um jeito rápido de esmagar a vítima. O cantor parou de cantar para acompanhar o bate-boca. Fui designado a pagar a bebida. Quem estava atrás do balcão para contar o dinheiro era o bêbado com dor nas costas. Ele demorou mais quinze minutos para descobrir o valor das notas. Dei cinqüenta e recebi cinco notas de dez de troco. Não paguei nada na verdade. Nem devolvi. Corremos para uma churrascaria de estrada, em que a comida é rápida e os efeitos colaterais lentos (Vicente vomitou toda noite).

10:45 AM :: Comentários:

CUIDADO COM O PAVÃO. ELE MORDE.

Passei o sábado na chácara da mãe em Eldorado, perto do rio Guaíba (RS). O vizinho dela tinha um pavão para latir e afugentar os intrusos no portão. Era engraçada a idéia de substituição do disciplinado e obsessivo cachorro pela ave carnavalesca, cheia de lantejoulas e poses. Algo como um leque vivo para o uso exclusivo do Rei Momo. Um girassol que não entorta o pescoço. Ninguém desdobra ou define seus olhos. Suas penas soberbas pedem atenção absoluta. De dia, andar miúdo, ensimesmado. Não parecia assustar uma rã.

De noite, eu descobri que o pavão muda de personalidade. É um galo desafinado, amador, com a impunidade de um microfone de karaokê. Ele grita, histérico, como se estivesse sendo estuprado pela luz. Fica possesso e instável, intratável e terrível. Repete tudo o que ouve, com um eco ainda mais forte. A casa virou uma caixa de ressonância, seu estômago. Se tossisse no quarto, ele reciclava o som. Pior: desafiava qualquer ruído. Um monarca da noite. Concorre e abafa toda rebelião animal no palácio. Grita longe e sua bolha de voz arrebenta perto dos ouvidos. Impossível relaxar. Faz um estrondo repentino, intercalado. Um relâmpago com penugem. Até os cães se calam lambendo as patas.

10:43 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 07, 2003

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura
Porto Alegre, 06/12/2003 Edição nº 13986

Literatura
O último suspiro da serpente
Sebastião Uchoa Leite, que morreu na semana passada, foi um poeta rigoroso e perfeccionista. Como pesquisador da linguagem, seu estilo era reunir todos os estilos em uma permanente destruição

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Jornalista e poeta, autor de Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), Biografia de uma Árvore (Escrituras, 2002), entre outros.

Foto Bel Pedrosa, AE/ZH

Uchoa: autor que não temia os experimentalismos e que sabia usar o humor negro e a autocrítica

Depois da passagem de Sebastião Uchoa Leite pela literatura brasileira, a poesia vai exigir bem mais de seus autores. O poeta, tradutor e ensaísta pernambucano, que estava radicado no Rio de Janeiro desde 1965, morreu aos 68 anos de insuficiência cardíaca neste final de novembro, três semanas depois de obter o segundo lugar (o equivalente a R$ 30 mil) no Prêmio Portugal Telecom, por A Regra Secreta (Landy, 78 páginas). Autor de 12 livros, vencedor do Jabuti por duas vezes, era um pesquisador da linguagem, um inveterado inconformista, mais preocupado em destruir provas de seus crimes poéticos do que montar um santuário de adoração. Nome fundamental da última metade do século 20 pelo grau de investigação e rigor experimental, sua poética de escavação foi tão funda que os jovens poetas não conseguirão imitar ou reformar a casa que restou. Ele fez um serviço completo, exercia análise crítica e cítrica dos poemas enquanto ia dedilhando as cordas da lira. Não deixou nada para exumar.

A leitura de sua obra pede um olho aberto, vigilante, e o outro fechado, camoniano. Não é para acreditar em tudo o que ele diz ou cala. Agia como um morcego, localizando os alvos pela intensidade e medo. Era um dos raros poetas a adotar o humor negro e a autocrítica. A morte, por exemplo, acabou sendo um de seus temas recorrentes. Em Dez Exercícios numa Mesa sobre o Tempo e o Espaço (1958-1959), anedotava: "Um epitáfio ou um lema deveria inscrever-se / em nossas lápides: / Viver de ócio e iniqüidade / e morrer de morte mais equívoca". O que ele impõe é contrariar o senso comum, o teor sublime dos sentimentos. Acomoda-se na morte banal, próxima e constante. Em versos dedicados "Ao hipócrita leitor", evocando Baudelaire, resume seu fastio irônico contra o bom gosto: "E aliás / meu não-semelhante / enfie / onde bem quiser / aqui jaz / para o seu deleite / sebastião / uchoa / leite" (Antilogia).

Sua estratégia era desmontar o confessionalismo, afastar-se da solenidade e assegurar um lugar mais autêntico e imperfeito na linguagem. Catava a vida no momento em que ela deixava de ser, em sua euforia de fuga. A serpente semântica torna-se um dos pilares icônicos de sua expedição. Grafa-se aqui a serpente dentro da acepção de Paul Valéry, que "morde sua própria cauda", mastigando o que pode, nunca se alimentando de ilusões e de miragens. A serpente não significa além dela, deve ser ofensiva. Como a poesia, ela ataca obedecendo à sua letal natureza. Talvez a intenção do poeta venha a de ser mais traiçoeiro do que a serpente. Por que não? "As idéias são como sombras./ As palavras são como cobras./ Nada ilumina nem descobre./ Tudo morde: é veneno e sono." (Cortes/Toques)

O gosto pelo real toma grande parte da preocupação de Sebastião Uchoa Leite, conciliando um universo pop - cinema e quadrinhos - com citações eruditas. Herdou de João Cabral o pendor em perfurar as camadas de imagens, de desdizer, de inverter significados e frases prontas. É o antilírico por excelência, usando ruídos e cacofonias para perturbar, ao contrário de se valer de tons melodiosos e melancólicos para acalmar e promover uma unidade de andamento. Poesia de obstáculos e de acidentes, onde o autor vai rolando pneus enquanto o leitor se aproxima. A visualidade concretista também é um elemento importante para assinalar a passagem do tempo de cada verso. Poesia para ser lida ao invés de cantada, terreno minado e movediço, com alçapões, trocadilhos e armadilhas. Quanto mais irreversível a queda da pronúncia, maior será o prazer da cilada. Suas metáforas funcionam como metástase, corroendo o fundo dos mitos e certezas e questionando a tradição. "Penetra como uma ponta / E perfura tudo" (A Espreita).

Uchoa Leite bancou um detetive de si próprio, um "espião" como bem definiu João Alexandre Barbosa, desmontando sua escritura a descobrir a nascente do grito ou da afasia. Enxerga a consciência como "uma doença remoendo-se em segredo". Assim como pensa "a verdade como um veneno". Desfia ácidos e receitas médicas para idéias fixas, textos assépticos e coisas limpas. Seu conteúdo parodia o clássico mallarmaico O Lance de Dados com o poema O Lance de Dedos. Nem Hölderlin escapa da dublagem em "A Tua Fala se Turva de Vermelho", tradução da tragédia grega Antígona do poeta alemão que toma ares de comédia em Antilogia (1972-1979). Uma boa ilustração é a releitura que faz do poema "Não sei dançar" (Libertinagem), de Manuel Bandeira.

Percebe-se a negação como força propulsora da versão de Uchoa Leite ("não-corpo, anti-matéria, anti-sebastião"). Interessa ser atingido pelo possível, sofrer até o fim com os efeitos colaterais. Ocorre uma falsa vaidade. Ele se coloca no poema para se destruir. Exerce o esvaziamento da personalidade em um outro, que explode ao ser cumprimentado. O humor elegíaco de Bandeira se converte em cinismo, o que soava como uma impostura vira agressão.

O escritor se posiciona com desconfiança perante a escrita. Não está criando nenhuma realidade, fabulando sobre o provável. Mira de lado, como um vesgo que tudo vê sem denunciar sua direção. Não escreve sem a noção do desconforto. Opõe-se ao moralismo para empregar distorções ficcionais.

Seguindo a linha desarmônica de sua penúltima obra, A Espreita, sua posição não é de um autor no centro, porém da periferia, ocupando um espaço intermediário entre o suspeito e a vítima. Traz o poema em decomposição, vendido pelo dobro do preço aos vermes. Extrai o banal do mais banal. A descrição funciona para despistar. Os poemas já começam do final. O escritor não tenta salvar ou converter um lugar-comum em preciosismo literário. Portanto, adere à pobreza da matéria lingüística, sob "o suor do pânico". Em Antilogia (1979), antecipava sua aversão ao verso, procurando "o fedor refinado de muitos fedores, por entre vias de urina". Ele se submete ao desagradável para adquirir o concreto.

O ambiente é o do homem acuado, claustrofóbico, oferecendo dezenas de referências às portas cerradas, às fechaduras, às trancas e aos enigmas. O maior movimento em cena consiste em abrir e fechar, lacrar e deslacrar. "Fechar portas/ sem deixar frestas". Processo intelectualizado de vigília e censura, de susto e rompante, Uchoa Leite utiliza a desorientação como método. Não economiza sarcasmo com o mundo, debochando inclusive da perenidade e da longevidade literária.

O poeta joga com a poesia, ocultando pistas e confundindo com seu espírito sagaz. Mas não joga para dar e ter satisfação, e sim pela perversidade lógica do desafio. É antilúdico, aposta a si pela manutenção do vício. Não finge, porque não quer se parecer com a verdade. Nem tampouco imita, pois não se vincula ao enunciado original. Almeja a duplicidade, tratar a realidade subjetiva com objetividade e vice-versa.

A arte de Sebastião Uchoa Leite, desde os sonetos iniciais até os últimos poemas conceituais, não tem estabilidade, mas a insatisfação e a humana precariedade. Ninguém vai ler e dizer que é bonito o que ele escreveu. Muito menos ficará comovido. Seus textos cerebrais não provocam piedade ou aversão, exigem a cumplicidade do riso. E tão-somente o riso. Ainda que deliciosamente mórbido para desafiar as aparências. Sua poesia "dialoga com o símbolo/ Dançando com o clarinete/ Até o sopro final/ Até o último suspiro".

Saiba mais

Não sei dançar
Manuel Bandeira

Uns tomam éter, outros cocaína
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...;
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria
Bashkirtseff (...).
(Libertinagem)

Gênero Vitríolo
Sebastião Uchoa Leite

do outro lado é o meu não-corpo
uns tomam éter outros vitríolo
eu bebo o possível
bebo os mordentes
sou todo intestino
com fome de corrosão
bebo o anti-leite
com gosto de anti-matéria
salto para o lado do meu outro
aperto a mão
do anti-sebastião u leite
e explodo
(Antilogia)

9:29 PM :: Comentários:

Deu no Jornal O Globo, Prosa E Verso, Rio de Janeiro, 06/12/2003:

A poesia continua viva, resistindo ao horror
Nas livrarias, Lucchesi, Alexei Bueno, Armando Freitas Filho, Ivan Junqueira, Alberto Pucheu e Fabricio Carpinejar

A poesia não morre, não pode morrer. Não respiraríamos mais se os poetas não nos inundassem de lirismo, lutando contra o uso maquinal e hodierno das palavras. Os signos empregados em terríveis reportagens, como a do canibal alemão, precisam ser virados ao avesso, metamorfoseados em beleza. Sim, a poesia será sempre urgente. E ainda bem que os poetas continuam a fazer versos, seja em que estilo for. E também não se negam a se entregar à árdua labuta de traduzir para o português os vates que criam em outras línguas, conscientes de que traduzir é sempre trair.

Foram muitos os livros de poesia publicados ao longo do ano, sendo que agora, no final de 2003, vários poetas enviaram seus livros às livrarias, insistindo no poético fazer, livre, imagístico e marginal. Entre eles se destacam Armando Freitas Filho, com seu "Máquina de Escrever" (Nova Fronteira), reunião de 13 livros, incluindo o inédito "Numeral/Nominal"; Ivan Junqueira e os seus "Os melhores poemas" (Global), que traz oito inéditos, nos quais se sobressai o belíssimo "O Rio", que canta os rios do mundo e o da vida; Alexei Bueno e sua "Poesia Reunida"(Nova Fronteira), que reúne dez livros e alguns versos avulsos deste jovem poeta que carrega o verso na medula, e "Sphera", de Marco Lucchesi, no qual este sensível artista do verso fala dos perigos do envenamento pelo disforme e da insuportável sedução do belo.

Entre as traduções, ressalta-se a recém-saída do forno nova edição de "Dylan Thomas", traduzido para a José Olympio por Ivan Junqueira, encontro, leitor, que não deve ser adiado com o rebelde poeta galês que tomou mais de 18 doses de uísque e depois morreu, aos 39 anos de idade. Mas foram muitos os outros poetas que se arriscaram a publicar seus versos e a expor suas chagas e esperanças nestes últimos meses. Vamos citar alguns:

ESCRITOS DA INDISCERNIBILIDADE, de Alberto Pucheu (Azougue Editorial): Este livronão reúne poemas, nem mesmo textos poéticos. Mas é só poesia e vida. "A experiência poética constrói caminhos pelos quais podemos nos movimentar; concernindo-nos mais que todos os outros, delineiam um viver."

MACAU, de Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras): O autor retoma sua predileção pelas formas fixas - como o soneto - que vêm acompanhadas de imagens prosaicas e acentuado bom humor. Assim como "Macau", o português é um território que precisa ser sempre reconquistado.

DOIS CAMINHOS E UMA ORAÇÃO, de Alberto da Cunha Mello (A Girafa): Um dos dez indicados para o Prêmio Portugal Telecom, o pernambucano Cunha Mello é celebrado atualmente como um dos melhores poetas de nosso país. O livro agrupa as obras "Meditação sob os lajedos", "Yacala" e "Oração pelo poema".

BOA COMPANHIA - POESIA. Vários autores (Compahia das Letras): Antologia que reúne poetas que vão de Dora Ferreira da Silva a Chacal, João Almino e Eucanãa Ferraz.

CANTOS GOZOSOS, de Ricardo Máximo (Maanaim Editora): Poemas eróticos.

CAIXA DE SAPATOS, de Fabricio Carpinejar (Companhia das Letras): Antologia de poemas do premiado poeta gaúcho. Neste livro, os espaços da imaginação, da memória e da realização poética se encontram no horizonte do verso.

9:28 PM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 06, 2003

As Banhistas

Quando tinha 7 anos, fazia natação no clube do bairro, o Grêmio Náutico União. N