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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Fevereiro 29, 2004

FERNANDO

Mais estranho é ter que falar sem teus olhos a interrogar, com teu ar surpreso de quem ainda não aprendeu o nome daquela árvore ou pássaro. Eu sempre me perguntei se tua dificuldade em aprender não vinha de tua arrogância de querer ensinar. Sei lá. Não escrevo como tu, mas escrevo em ti. Não entendes minha letra, é verdade, acalento a esperança que um dia possa ler tudo o que não escrevi. Eu não sei convencer que vivi com minhas palavras, talvez eu procure tuas palavras para me julgar melhor do que sou. Me emprestas coragem, viste? Na verdade, eu não te amo, mas só sei amar o mundo através de ti. Acho que os restaurantes deveriam mudar suas alas para falantes e não-falantes. A última, com certeza, teria fila de espera. Eu aliso a aliança. Ela ainda coça, sabias? É tua mão suando na minha.

Beijos

Aline

10:57 AM :: Comentários:

ALINE

Tão estranho escrever uma carta para quem mora comigo. Nosso silêncio aumentou. No jantar, eu percebi que ficamos mais nos olhando do que falando. Eu pensava que isso mostrava nossa falta de assunto, nosso desinteresse, nossa absoluta distração ao que cada um faz e pensa. Reparava em casais antigos, que cortavam a verdura com lentidão e não trocavam uma única palavra. "Não quero que isso aconteça comigo", desabafava. E agora estamos mudos, garfando devagar, não incomodando a perfeição calada. Descobri que o silêncio fica mais feroz depois de casados. O silêncio é finalmente adulto. Não é negativo. Não mais olhamos; absorvemos, sugamos. Já nos antecipamos aos pensamentos um do outro, como duas fés rezando. Não quero interromper teu Deus, mesmo sofrendo com a curiosidade, mesmo desejando saber o que conversa com ele com tamanha devoção. O silêncio é uma convivência intuitiva. Pressinto tuas idéias se formando, ganhando corpo, o vinho te deixando à vontade, teus pés vestindo meus pés debaixo da mesa. Não estamos nos calando, mas falando em novo idioma. Um idioma só nosso, que não deixamos escrito para que ninguém possa destruir o segredo. O silêncio é não deixar escrito.

Do teu amor,

Fernando

10:30 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004

TRADUÇÃO

Alguns de meus poemas podem ser lidos em alemão (versão de Curt Meyer-Clason), espanhol (por Xosé Lois García, Martha Leñero y José Manuel Mateo), italiano (Cassiana Toazza Caldeira) e inglês (Cyana Leahy). Estão disponíveis em meu site. Basta clicar na bandeira correspondente. Confira.

7:46 PM :: Comentários:

PAPO DE HOMEM
Gravura de Morris Louis

Uma roda de homens conversava sobre velocidade e carros, últimos arrombamentos da temporada e desenhos animados. Ana me olha e diz:

- Se as mulheres soubessem o que os homens falam, sentiriam vergonha de seu ciúme.

10:31 AM :: Comentários:

COM A POESIA NO SANGUE
Gravura de Morris Louis

Doutor em Literatura Portuguesa pela USP e autor de Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), o ensaísta Adelto Gonçalves analisa Caixa de sapatos para site de notícias de Campo Grande. Confira.


10:28 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004

MEUS CACHORROS
Da série Minha infância não atravessa a rua sozinha
Gravura de Sidney Nolan

Eu tive meus cachorros e fui me desvencilhando das cordas e coleiras, da proximidade. Não criei mais laços com os latidos. Finjo que não tenho mãos para demonstrar afeto. Meus cães eram vivazes, vira-latas, baldios. O primeiro tinha o nome de Xodó e a empregada tratou de deixar o portão aberto de propósito. Nunca mais foi visto. Nem ele muito menos a empregada. O segundo surgiu no dia 7 de setembro e dei o nome de Sete. Eu assistia Moby Dick e chovia canivetes. Apareceu na porta, encolhido, doente e famigerado. Pedia uma vida para dar. Não sei como consegui convencer minha mãe. Criança tem seus truques. Depois de adulto, nossas mentiras assumem cacoetes e são percebidas a distância. Sete morreu ao escapar de meus braços e cruzar a rua. Era o meu aniversário, três anos juntos, seu pêlo castanho combinava com meus cabelos loiros. Ele jogava futebol com laranjas. Andava pelos muros como um gato. Me lambia no rosto quando chorava. Estava colocando uma camisa nele. Claro, que cachorro não gosta de bancar o boneco de pelúcia. Ele se revoltou com a blusa e pulou para fora da calçada. Um carro o fez vento e velocímetro. A culpa me engasgou e virou asma. Eu vi Sete se despedir debaixo das rodas. Seu olhar de pulseira de relógio, o gemido do ponteiro, que qualquer um pode escutar ao aproximar o tempo do ouvido. O gemido longo - início de um uivo - que guardei no pátio, com uma cruz, feita de uma antiga pipa, e a inscrição: "Meu cachorro não sofre do medo do paraíso".

10:04 AM :: Comentários:

CAPITU

Participo da estréia da série "Poeta fala de poeta" no site Capitu, em que recomendo "Novo endereço", de Fabio Weintraub, livro vencedor do Prêmio da Cidade de Juiz de Fora, em 2001, e do Prêmio Especial Casa de las Américas, em 2002. Confira.

8:49 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004

PAPÉIS AVULSOS

Para que serve grampeador?
Eu odeio aqueles clipes fixos.
Eu amo folha avulsa, como um leque.

8:11 AM :: Comentários:

EU ME OLHANDO DE PÉ NA PRAIA
(COMO UM MORTO DESCREVE UM SEMIMORTO)

Gravura de Miró

Mais da metade são pernas. Corpo frouxo de quem ainda não se acordou e pouco unificou os nervos. Um gafanhoto se não fosse homem. Mesmo homem, ainda gafanhoto. Irregular, desproporcional, fincado em pés derramados, preguiçosos, sem curva e acabamento. Um gafanhoto com patas de pato. Uma rua sem calçada. O calção preso a um varal, não a um quadril. Os ombros lembram ovos em água quente. Ossos saltando na plataforma de pesca do pescoço. A pele branca como uma tela rebatendo o sol. A barriga proeminente, avantajada pela postura curva. Movimento de serpente andando fora de lugar, entre o mar e o céu. O drama do rosto, turvo, isolado do corpo patético, fechado em outro quarto. As pálpebras caídas tentando levantar as sobrancelhas com naturalidade, apesar do excesso de azul que se aproxima com o vento. Diante do sol do meio-dia, sua sombra preenche apenas a circunferência de uma bacia.

8:09 AM :: Comentários:

MONÓLOGO DE UM CASAL NA PRAIA
Gravura de Miró

Casal na faixa dos 70 anos. Mulher estirada de costas na areia, bem queimada. Homem com óculos, chapéu, guarda-sol, camisa longa branca, bermuda além dos joelhos.
Ela diz:
- Pensa que sou tua empregada, queres me fazer morrer?
Ele quieto, parece um boneco inflável.
Ela diz:
- Tenho que fazer comida, limpar a casa, colocar o lixo lá fora, ainda receber teus filhos, ir no supermercado. Isso não são férias. É muito cretino de tua parte.
Ele quieto, parece um boneco inflável.
- Não fazes nada sem mim, nem localizas teu pinto sem minha ajuda.
Ele quieto, parece um boneco inflável.
Chega o filho com a mulher e ela solta um gemido que não pode ser considerado um riso, mas é o mais próximo que atinge da alegria com suas cordas vocais:
- Estamos mesmo falando de vocês. Teu pai anda muito feliz.

8:07 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 24, 2004

EU NÃO SEI
da série Minha infância não atravessa a rua sozinha

Nessa foto, eu tinha feito a primeira comunhão. Reparo agora que fiz a primeira comunhão de fecho aberto. Ninguém me avisou. Não sei o que o Vaticano pensou sobre o assunto e até posei orgulhoso diante da igreja São Sebastião, no bairro Petrópolis. O olhar invernoso, ainda demorado da manhã. Eu achava que adulto tinha que colocar a mão no bolso. Meu pai colocava a mão no bolso, mas para procurar as chaves do carro. Eu carecia de chaves e carteira. Banquei o maduro e não sorri. O cinto era de minha irmã, azul desbotado, de plástico. A calça era tão grande que não houve bainhas para abolir sua vocação de manto. Os sapatos vieram de meu irmão mais velho e a camisa fora emprestada pelo vizinho, já que não aceitei usar uma de babados, tipo Elvis. O cabelo imitava o cacique Juruna. Minha fé usava roupas emprestadas. O padre, se não me falha a memória, se chamava Alfredo. Ao me entregar a hóstia, perguntou se estava certo disso. Eu disse: - Não sei. A catequese não havia mencionado esse interrogatório no final. Ele me deu a eucaristia para não atrapalhar o andamento da fila.

9:57 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004

CADEIRA DE BALANÇO
Fabrício Carpinejar

Ninguém se recosta numa cadeira de balanço se não pretende pensar. Ninguém dorme sossegado em suas plumas de madeira. Não é um móvel qualquer, um cômodo, um assento. Ninguém passa o tempo nela, mas é o tempo que se anula, como uma lesma que se confunde com o muro, como um vento que migra para a maresia. Uma cadeira de balanço é um cavalo apeado, que se movimenta unicamente pelas narinas, resfolegando, expirando a corrida recém feita. Um pouco mais do que uma escultura, um pouco menos do que um homem. Ela é uma varanda no quarto, uma janela aberta, uma veia latejando. Ela se entreolha enquanto se movimenta. Uma cadeira de balanço não é silenciosa. Rumina, não fala. Ouvido das frestas. Uma torneira chiando de madrugada. Uma cadeira de balanço nunca fica nua. Mantém o xale de crochê aos ombros. Protege os seios. Uma cadeira de balanço é como sentar no colo da mãe, da avó, da bisavó. Pede-se licença. Ela tem o quadril largo de praça e suas duas pernas são enxadas descansando. Seu ritmo é outro, todas as peças parecem inclinar e servir suas rodas. Uma cadeira de balanço é um chapéu transformado em tranças de feltro. Uma charrete vista de lado, uma árvore encurvada em guitarra. As crianças que brincam nela logo pulam porque uma cadeira de balanço é também corrimão de escada. É o primeiro degrau, o último sopro da velhice. Eu fui amamentado em uma cadeira de balanço, embalei meus filhos entre canções e toques de recolher, meu avó morreu recolhido em seus braços.

9:32 AM :: Comentários:

ENTREVISTA DE LEONARDO FRÓES

INSIGNIFICÂNCIA PERFEITA
Em outras culturas, Leonardo Fróes seria um poeta consagrado. Tem estilo e voz inconfundíveis

Fabrício Carpinejar
São Leopoldo - RS

Contos orientais
Leonardo Fróes
Rocco
204 págs.


A poesia do carioca Leonardo Fróes, 62 anos, é uma excursão à montanha. Recomendável ir sozinho, sem livros e bagagens, sem ninguém para carregar, se possível nem a si mesmo. Lírica da suavidade, da água da pedra e da filosofia pura que vem da observação. O autor é discreto, não vive a insegurança da vaidade, não apela para terceiros para encontrar as localidades insuspeitas do idioma. Sua estréia aconteceu em 1968, com Língua franca, em que convocava os vermes para a redenção. Não publica muito, é exato e necessário para falar. Sua obra poética está reunida em Vertigens (Rocco), de 1998. Também gosta de fazer rir, mas um humor inteligente, intravenoso, como em Ciência sapal, em que o motorista acredita que atropelou o sapo porque ele está muito achatado. Brinca com a vida levada a sério. Mostra o quanto o dramático está próximo do patético. Procura o equilíbrio coloquial, não fugir do cotidiano, no máximo afugentar a rotina de vez em quando. Usa expressões que tenham sentido no momento do poema. Não guarda metáforas para depois. Naturalista, evita figuras vazias e retórica. Destila fé, mas não caça Deus no nome. "O que eu chamo de deus é bem mais vasto/ e às vezes muito menos complexo/ que o que eu chamo de deus." Não quer mandar no jogo dos versos, mas apenas participar. "A vida é maior que a gente/ e mais do que a gente espia." Não transforma o sentimento de ser menor do que o mundo em impotência. Respeita, ritualiza, reverencia as impossibilidades. É minucioso e detalhista ao capturar os fenômenos naturais e sociais invisíveis, os serventes limpando o hospital, os pequenos insetos no caqui, o boi mascando a grama. Estabelece história da anti-história. Abre as margens. Sua contemplação é civil, amadora, pouco preocupada em institucionalizar funções ou moralizar. Leonardo Fróes é límpido, porque sua poesia celebra até a queda. Não reclama da fila, encontra algo da fila para pensar. Como um montanhista solitário, não está interessado em apenas subir. Desde a ida, se preocupa em descer. A expedição só está encerrada depois da volta. "Sente-se disperso entre as nuvens,/ acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,/ ainda, que agora tem que aprender a descer." A única ambição da sua poética é gastar os sapatos e se descobrir. Mastiga reflexões, martela anotações de viagens e rumina contemplações diferenciadas do senso comum. Singularmente simples. "Os meus papéis estão cansados de mim." Entre escrever e ver, prefere ver o que já escrito, traduzir o que ainda não foi lido suficientemente, muito menos compreendido. Reproduz a grandeza do imprevisto. "Só as aves entendem/ o que estou olhando ao longe/ sem pensar mas sentindo/ minha insignificância perfeita." Essa inutilidade simétrica e redonda, aperfeiçoada e luminar, revela o movimento de seus textos. O mínimo se multiplica. O ínfimo é íntimo. Sua poesia traça vizinhança com as fábulas, o motor ficcional encadeando as imagens, o enredo sensível e delicado de quem conversa sem querer impressionar. Uma conversa para se entreter com os movimentos sonoros da oralidade. Em Leonardo Fróes, o passado não está findo. Tudo pode ser investigado pela invenção. O que persevera é uma história adulta para as crianças. Pureza no tema e malícia lúdica na fala, transitando do trivial ao maravilhoso. Seus versos são contos versificados, visuais e cromáticos, adquirindo o tempo do espaço.

Se a poesia de Leonardo Fróes é de um montanhista, de ficcionista microscópico das escarpas, ela pode ser dividida em diuturna, momento da própria viagem, do aprendizado árduo das trilhas, e noturna, hora da fogueira, do descanso e da tradição verbal. Quatorze quadros redondos(1998) traz essa marca da segunda personalidade, que perdura a produção mais recente do autor: decantando lendas e fábulas e priorizando personagens, hipérboles e aforismos. Um exemplo de suas histórias é o velho que decide conhecer a estrada nova por curiosidade, ao invés de andar pelo caminho antigo e seguro, e vê o cansaço agravar a distância até que seu cajado se torna uma enxada. A preocupação do escritor é não aparecer, pincelar gravuras com a fidelidade de uma testemunha, movido por uma serenidade plástica. O que prevalece é a intuição da inteligência. Dar formação rochosa e relevo ao espírito, absorver o temperamento calmo da montanha, que não se mostra para quem não está perdido nela. Fróes acha a interioridade do artista do lado externo. Seus textos articulam uma distração fixa. Opõe-se à concentração classificatória com a devoção do devaneio. Olha para se esvaziar, não para encher os olhos.

Em entrevista ao Rascunho, o poeta Leonardo Fróes, que já ganhou o Jabuti por Argumentos invisíveis (1996) e traduziu Faulkner, D.H. Lawrence, George Eliot, entre outros, antecipa questionamentos de seu novo livro, Contos orientais. São quarenta histórias recontadas do Japão, China, Coréia e Índia, desde o século 4 a.C. até o século 18 d.C. Em mais de uma década, Fróes pesquisou dois mil contos asiáticos, traduzidos do chinês, sânscrito, coreano e japonês. Deixou muito das marcas autorais de suas mãos nas páginas.

FABRÍCIO CARPINEJAR é jornalista e poeta. Autor de Caixa de sapatos e Biografia de uma árvore, entre outros.

A paisagem montanhosa da Itália influenciou decisivamente Goethe. O senhor não é um homem da praia carioca, porém da serra, radicado em Petrópolis. De que modo sua poética repercute esse seu lado de montanhista e naturalista amador?
A mudança mais óbvia talvez esteja nos temas. Antes de vir morar na serra, com 30 anos, eu falava de "labirintos de argamassa", de "ruas entupidas", de angústias e vivências urbanas. Passei, aqui, a falar do que me cerca, de bichos e plantas, de morros e estradas. Mas a mudança mais sutil talvez esteja nos ritmos. A cidade é nervosa, a mata é calma. Pode ser que minha música, soprada agora pelo vento, tenha pegado alguma coisa da fluidez da água e da terra, os elementos que mais me apaziguaram. Assim como pegamos dos outros, no convívio social, principalmente quando jovens, tiques e posturas que se tornam parte de nós sem que o saibamos, também devo ter pegado, da solidão que me rodeia, alguma coisa desse lento consolo que a natureza oferece com seus perfis e fantasmas.

Percebo que sua obra não é feita pela compulsão de existir, mas aos goles e aos bocados, com lançamentos cada vez mais esparsos entre e uma e outra produção. É consciente ou uma imposição do mercado? Acredita que o escritor só deveria falar quando há algo de novo para acrescentar ao seu trabalho, em vez de ficar repetindo o que já disse em obras anteriores? Ou essa repetição é salutar?
Existir é inevitável, não demanda compulsão. Sou impulsivo, e muito, por temperamento, mas isso já seria outra coisa, e tento me controlar em relação ao trabalho. Publico pouco, a longos intervalos, e jogo fora sem pena tudo que não parece essencial no momento. Preciso sofrer uma transformação, pessoal ou estilística, para achar que é necessário mostrar o que estou fazendo. Creio que há sempre em minha obra, de livro a livro, uma mudança radical de voz e forma, e é com isso que eu aprendo a meu próprio respeito. Não sugiro, porém, que outros façam assim. Cada autor deve saber, porque o próprio trabalho indica, o que é que mais lhe convém. Muitos precisam se aprofundar na mesma linha para aperfeiçoar o que dizem. Tudo, por esse prisma, pode ser salutar. O importante é ser autêntico. É tentar ser sincero, sem ceder a pressões externas.

Sua poesia pode ser vista como inscrições rupestres? São leve, entretanto, extremamente intensas. Parecem desconexas, mas têm a unidade de uma ciência.
Bem que eu gostaria que meus poemas fossem mesmo como inscrições rupestres, gestuais e incisivos. Tudo que escrevi nas montanhas foi escrito de um só jato, sem nenhuma alteração depois, nem mesmo uma vírgula a mais ou a menos. Mas já passei longos anos sem escrever uma só linha. Como para tudo na vida, acho que é bom esperar o momento certo. Se eu tiver conseguido, com minhas limitações, chegar de fato a uma ciência - uma ciência de ser - a poesia estará justificada?

Em Contos orientais, mergulha na tradição de textos antigos para acentuar o caráter fabular de sua poesia. Em vez de reproduzir clássicos chineses, japoneses e indianos, reconfigura as histórias ao seu timbre. A coletânea é um trabalho eminentemente autoral? Como aconteceu a somatização dos contos?
Sou desde jovem um velho leitor de antiguidades, e há várias décadas convivo com textos orientais traduzidos em línguas ocidentais. Procuro no Oriente o que mais me falta, a infinita paciência que é a mais chinesa das virtudes. O livro que estou lançando agora pode ser inserido, de certa forma, na tradição dos contos orientais escritos por europeus na própria Europa, lá pelo final do século 18, na esteira do enorme sucesso das Mil e uma noites. O Oriente, para os autores aos quais eu me refiro, era então apenas o Oriente Médio, mas na Inglaterra, por exemplo, constituiu-se nessa época um subgênero de contos à moda árabe por autores ingleses, muitos dos quais eram mulheres, como Clara Reeves e Maria Edgeworth. Não posso me vangloriar de autoria, no trabalho que fiz, pois nada ali foi inventado por mim, a não ser os títulos que dei aos contos. Somatizei-os com a passagem dos anos, aprendendo muito com eles, e quis repassar a outros os ensinamentos dos quais me apropriei.

Entre centenas de documentos, as discrepâncias são enormes, já que os relatos atravessaram milhares de anos pela tradição oral, tornando-se obras de autoria coletiva. Quais as mudanças que mais chamaram atenção de uma versão a outra? E quais as transformações mais significativas em suas adaptações?
Um mesmo conto, em determinada versão, pode conter cenas e personagens secundários que em outra versão estão ausentes. Cada vez que os recontavam, ao que parece, iam acrescentando mais coisas, assim como as casas velhas alongam-se com o tempo em puxadas e ganham novos adornos. Meu trabalho foi podar os excessos, escavar sob as diversas camadas para tentar chegar ao cerne das construções.

Como a tradição oriental é totalmente diferente, percebe-se uma religiosa busca sexual, com uma autonomia muito diferente da repressão ocidental. No engraçado e alegórico Como fazer amor com um nabo, uma virgem engravida após comer um nabo embebido no sêmen. Há também situações de homossexualismo, vida nos bordéis e infidelidades. A sexualidade é mesmo menos estigmatizada, mais vista como autoconhecimento?
Há uma idéia muito enquistada entre a gente, a de que os orientais, por serem tão espiritualizados, estejam acima das circunstâncias do sexo. Não é isso, porém, o que se vê nesses contos, que eram narrados em público nos bairros de diversão existentes nas sucessivas capitais que tiveram, por exemplo, o Japão e a China. Aí, em tais bairros, a literatura licenciosa ia de par com a prostituição e os jogos, a bebida e os folguedos, a mais ampla liberdade de ação. Julgando sempre pelos contos, que são indicadores valiosos, percebemos que o sexo era visto como uma coisa natural que acontece e que tem de ser resolvida, sendo uma via de conhecimento, sim, como outra qualquer. A hipocrisia e os tabus são denunciados, e tudo é visto sem espanto. Se considerarmos a tradição iconográfica, a arte erótica hindu, chinesa ou japonesa, veremos de modo ainda mais claro a confirmação desse ponto. Quanto ao homossexualismo, encontrei-o principalmente em Ihara Saikaku, autor japonês do século 17 que se especializou em escrever sobre prostitutas e gays. Um de seus livros, O grande espelho do amor entre homens, é todo constituído, como já diz o título, por histórias de relacionamentos estáveis e profundos entre samurais e garotos. Por outro lado, fontes ocidentais a que também tive acesso, como as "Lettres édifiantes et curieuses" dos jesuítas franceses que estiveram como missionários na China, entre 1702 e 1776, ou a "História de Japam", do frei português Luís Frois, que participou da malograda tentativa de cristianização do país, mencionam casos de prática homossexual entre os bonzos, reprovando-os, é claro, com seu rigorismo católico.

De que modo essas fábulas alimentaram La Fontaine e Thomas Mann?
O conto que em minha coletânea se chama A menina que era um rato foi posto em versos por La Fontaine, em suas Fábulas, com o título La souris metamorphosée en fille. O original pertence ao Pancatantra, o grande livro hindu de fábulas, que também forneceu matérias, como muitos especialistas já mostraram, aos fabliaux medievais europeus, aos contos dos irmãos Grimm e talvez até a Esopo. Já o conto Cabeças trocadas, que resumi em pouco mais de duas páginas, foi transformado por Thomas Mann, com seu talento de romancista, na novela Die Vertauschten Köpfe - eine indische Legende, a qual se estende por 95 páginas na edição de Estocolmo de sua obra completa. O original pertence ao Vetalapancavimsatika, Os vinte e cinco contos do vampiro, que também provém da Índia e data, na primeira versão escrita, do século 11.

Um equivalente ao seu projeto são as Fábulas italianas, de Italo Calvino?
Nunca li este livro, mas a referência me deixou curioso e vou ler assim que puder. Meu projeto, porém, tem muitos equivalentes na tradição européia. Dentre os que conheço, posso mencionar como exemplos as Mythologies de Yeats, onde o poeta deu forma escrita a contos coligidos por ele na tradição oral irlandesa, ou as Moralités légendaires de Jules Laforgue, poeta que recontou a seu modo e em prosa várias histórias preexistentes e já muito comuns na Europa, como a de Hamlet, a de Lohengrin e a de Salomé.

Os contos sempre deixam uma impressão interrogativa, não uma gargalhada, um leve estremecer dos lábios, um contentamento reflexivo. Uma das virtudes é a autocrítica das histórias, às vezes ironizando o próprio budismo, outras denunciando o autoritarismo. Não há maior sabedoria do que rir por dentro (e não para fora)?
Sim, rir é o melhor remédio, como o povo sempre ensinou, e em rir por dentro, concordo, deve haver grande sabedoria. É justamente essa terapia do riso o que mais me encanta nos contos, porque os ensinamentos se transmitem sem que a gente nem chegue a perceber.

Qual o provérbio dos contos populares que escolheria como epígrafe de sua literatura?
"O caminho se faz quando se anda por ele e as coisas são feitas pelos nomes que cada um lhes vai dando." Está no texto intitulado As palavras, que se baseia em Chuang-tzu e encerra minha coletânea.

Identifico em sua poesia uma inclinação minimalista, cada vez mais rarefeita, de absorver detalhes em detrimento do conjunto, própria da tradição do Oriente. Essa influência é decisiva? Estará presente em seu próximo livro?
Eu não sou nada oriental, não tenho sabedoria nenhuma, tenho raros momentos de serenidade, e é por isso que continuo perguntando e escrevendo. Ainda assim, é verdade, cada vez me torno mais detalhista, como se o mundo pudesse mesmo estar num grão de areia, desde que o olhemos com suficiente atenção. Um braço de mulher entrevisto numa poltrona de ônibus, só o braço, pois do resto eu não via mais nada, serviu de tema a um poema que recentemente escrevi. Não sei se isso, essa atração pelas pequenas coisas, é influência do Oriente ou do campo, porque quando estou plantando, quando troco os meus livros pela enxada, tenho de espiar toda hora para ver se há brotos novos nas plantas, se elas precisam de alguma ajuda minha ou se há insetos querendo devorá-las. De onde vem isso, se do Oriente, do campo, da própria idade, realmente não sei. Mas sei que faz um bem danado e restaura.

Sua poesia está entrando no terreno da prosa. Coloca em prática a definição de "música residual instintiva"?
Nunca entendi muito bem a distinção que se faz entre poesia e prosa. Para mim tudo é texto, são palavras da alma. Por muitos anos, meus versos se alongaram até encher toda a página, mas agora estão voltando a encolher, como se eu mesmo fosse diminuir de tamanho com a passagem do tempo. Sim, acho que é isso, procuro a "música residual instintiva", aquela que ficou no coração e não consegue se sublimar em silêncio.

(Jornal Rascunho, edição de fevereiro/2004)

9:29 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 22, 2004

O VENTO É O OSSO DO OCEANO
Fabrício Carpinejar


Gravura de Richard Diebenkorn

Eu me acostumei a pressentir, a imaginar o ato próximo, já me defendendo do que fazer e respondendo antecipadamente às pressões externa e interna. Eu me esvaziei do presente. Sou absolutamente tenso, pano esticado em corda. Posso até dizer que meu excesso de sensibilidade é algo próximo da insensibilidade. Fechei o cerco aos hábitos, tal as oliveiras que se davam as mãos no portão de casa, fazendo um entrelaçamento contínuo de sussurros e conspirações de chuvas. Elas falavam mais alto do que a ferrugem das trincas. O rumor de um vento dentro de suas hastes, como hélices de grito e espanto. Agora, com os pés na grama, a textura da terra ainda úmida e evaporando o excesso da noite, penso em recuar. Recuar não é voltar ao passado, mas dar ao passado uma chance de errar, de se desmentir. Não quero permanecer me explicando sem me ter perguntado antes. Nunca entendia como alguém que dizia "Vai com Deus", logo recebia de resposta "Fica com Deus". Sofria com a indecisão de Deus em ir e ficar. Não, não é minha vida que se tornou complexa. É que fui me simplificando tanto que qualquer corte não mais chama atenção pelo sangue. Troquei o sangue pelo orvalho. Ele seca antes mesmo de escorrer. Hoje tive um sonho em que abraçava minha mãe, já velha e bem menor do que eu, e ela me olhava de baixo, com mais profundidade do que poderia alcançar, ainda que em sonho. Eu a olhava de cima, como quem raspa uma concha de água dos seus olhos. Eu me conformei cedo. Deduzir não é pensar. Pensar requer uma falta de atenção intensa, um desequilíbrio periférico que nos equilibra. Deixei de conferir milagres. Qual milagre que espero que já não aconteceu em segredo? Minhas pálpebras se acostumaram a abrir como a rosca da térmica no primeiro grau. Três voltas em giro seco a exalar o vapor do leite achocolatado. Como um pintassilgo e seu naco de pão, espiava o que os colegas iam abrindo em suas merendeiras. Mastigava o que existia depois da boca. Desconheço o que empurrou minha cabeça a tomar um cuidado excessivo com as palavras. Estrela-do-mar que perde o veludo verde fosforescente para ser uma cópia do osso mais do que a concha. Como um barco, o osso do oceano não se enterra.

10:44 AM :: Comentários:

BRASIL-PORTUGAL-ÁFRICA

Passo a coordenar uma coleção de literatura para a editora Escritos, novo selo criado pelas professoras universitárias Ivete Keil e Márcia Tiburi, com toda composição gráfica feita pela artista plástica Maria Tomaselli. O nome da coleção é Especiarias e o primeiro lançamento será K O Escuro da Semente, ficção inédita de Vicente Franz Cecim, autor já premiado com o APCA pelo conjunto da obra.

ESPECIARIAS

Língua portuguesa como um corpo vivo, febril, inacabado, sem distinção entre os degraus da estante, sem muros entre a literatura brasileira, a africana e a portuguesa. Língua portuguesa como pátria e inquietação humana, muito além das fronteiras geográficas e editoriais. "Especiarias" pressupõe descoberta, alumbramento, prosa e poesia de invenção. A coleção vai publicar autores contemporâneos da África, do Brasil e de Portugal, independente do gênero, valorizando a qualidade e sua dimensão existencial do mundo. Procurando o intercâmbio do que melhor acontece no panorama literária da língua, haverá a edição de uma trinca de autores por semestre, de cada um dos países e continente.

ORIGINAIS E LIVROS PODEM SER ENVIADOS PARA:

Escritos Editora
Av. Venâncio Aires, 449/902
Cidade Baixa - Porto Alegre - RS - Brasil
cep. 90040 193
fone: +55-51 - 3280 1002
escritos@escritos.com.br

10:35 AM :: Comentários:


Sábado, Fevereiro 21, 2004

ONDE EU ERREI?
Fabrício Carpinejar
Gravura de Richard Diebenkorn

Em um dia sem outro igual, um homem joga tudo para o ar, a família, a mulher, a casa, para depois voltar em paz. Não tão previsível, a mulher explode todo dia para não se acostumar com a paz. O homem não abandona tudo sozinho. Arruma um cúmplice, alguém para o elogiar e suportar a autocrítica. A mulher só depende de si porque assim a ensinaram e, quando parte, dificilmente retorna. "Onde eu errei?", essa é a pergunta banal depois de todo fim de relacionamento. Eu a faria do seguinte jeito: "onde eu acertei?" Conhecer as falhas não vai ajudar em nada o exame, pois somos tomados de complacência e não há como garantir o discernimento sobre o que representamos. Enfrenta-se uma intoxicação, o sacrifício da verdade pela vaidade. O orgulho toma o lugar do que seria de direito da dor. Perdoa-se a si para não perdoar o outro. Pior: tenta-se desmerecer o par que rompeu para que ele perca a credibilidade de contar teus erros, teu egoísmo, tua falta de vocação. A intimidade que tanto nos orgulhávamos será o motivo de pânico depois. Nossa facilidade em enxergar o estrago que fizeram com a gente não nos permite enxergar o mal que podemos ter feito. Fica-se irritado com que deixamos de ser mais do que daquilo que fomos. Toda a relação acaba quando a memória do que não aconteceu é maior do que o desejo. Quando se escolhe desacontecer para agradar as conveniências da mulher ou do marido, ajustando os amigos e os conhecidos a uma prévia lista de selecionados inofensivos, que não questionam, muito menos discordam. Podando-se o entorno e as circunstâncias, a transparência escapa. Nenhum homem, nenhuma mulher consegue ser doméstico em turno integral. Lembrar é falar, antes de escutar. Se escutássemos a recordação, ao invés de legendá-la ou rascunhar datas, poderíamos ter sinceridade com que passamos. Os casais se contentam com a lealdade, nunca chegando a atingir à fidelidade. Ensinaram-me que ser homem era um trabalho. Tinha que me devotar como a um emprego, que deveria aprender a dirigir cedo, a namorar com indiferença, a mijar nos muros, a responder à realidade com força e persuasão. Meus amigos perderam a virgindade em casas noturnas e saíram de lá como uma missão cumprida. Como uma circuncisão, a formalidade de um objetivo. Como uma manada que aprende a correr sem duvidar do corpo. Ensinaram-me que deveria amar também como um trabalho. Fazer família significava mais uma tarefa de ser homem. Eu rompi comigo, nunca mais regressei, nunca mais me revi. Existe a percepção de lembranças solteiras, restos e emoções que nunca foram casadas ao longo de uma vida a dois. Dói constatar que algo da individualidade não foi tocado, descoberto e permaneceu inatingível. Talvez nem mais saibamos como chegar a esse arquipélago desconhecido. Dói verificar que o que se levou do casamento foram dez quilos a mais.

11:35 AM :: Comentários:

Deu no jornal Zero Hora, Caderno Cultura, Porto Alegre, 21/02/04 Edição nº 14062:

Literatura
Perse é um Rimbaud adulto
FABRÍCIO CARPINEJAR/ Jornalista e poeta, autor de Caixa de Sapatos e Biografia de uma Árvore


Bruno Palma traduz um dos poemas mais importantes do século 20, Amers, de Saint-John Perse
Foto(s): reprodução/ZH



O que seria da poesia de Rimbaud, que abandonou a literatura aos 20 anos, se ele continuasse a escrever? Ele realizaria o que Saint-John Perse alcançou. Essa crença leva em conta a língua como resultado de seus habitantes, a evolução de um poeta a outro, a reencarnação de livros e temas. Perse é um Rimbaud adulto; Rimbaud é um Perse jovem. O mesmo destemor oracular, as mesmas fagulhadas precisas, incisivas, simbólicas. Ambos chegaram tão próximo da verdade que ultrapassaram a loucura. O primeiro retratou o inferno; o segundo, o paraíso. Rimbaud denuncia; Perse celebra. Somando os dois, tem-se uma nova Divina Comédia.

Natural da ilha de Guadalupe, Prêmio Nobel de Literatura de 1960, Saint-John Perse (1887-1975) foi uma das expressões mais puras da língua francesa. Sua importância pode ser avaliada pela qualidade de seus tradutores: T.S Eliot em inglês (que confessou que seu conhecimento de inglês e de francês não abarcava o potencial do estilo), Ungaretti em italiano, Lezama Lima em espanhol, Walter Benjamin em alemão. O nome do poeta, na verdade, é Alexis Léger. O pseudônimo foi escolhido ao acaso e às pressas para sua estréia e gerou a independência de visão de mundo, diferenciando o escritor do diplomata.

Ninguém é capaz de repetir as miragens de Perse. O autor queima consigo as possibilidades de sua fórmula. Percebia a poesia como o território mais próximo do real absoluto, um real mítico, escapando de qualquer demarcação histórica, pessoal e geográfica. Não imita a realidade, mas a transfigura, recenseando as dimensões do sonho e do inconsciente. A manifestação lírica emerge avulsa, autônoma, como nascimento de um corpo, contra a abstração e tratando a métrica ora como movimento marítimo, ora como as dunas dos deserto. Sua fala se derrama em mágica oralidade e se desdobra em imagens alucinantes. A claridade disputa espaço com a clareza, como lâmpadas acesas durante o dia.

O escritor Bruno Palma devotou três décadas para traduzir Amers, obra central de Perse, com a experiência de ter trazido a lume Anábase, em 1979, pela Nova Fronteira, Prêmio Jabuti na época. Em 1971, pela editora Grifo, verteu excertos do livro em antologia do poeta francês com o título Marimarcas. Repensou a opção e escolheu para a edição o nome de Marcas Marinhas, favorecendo a leitura do sentido original em detrimento do neologismo. O trabalho é monumental, vencendo adversidades como a sucessão interminável de elipses, as orações intercaladas e a pontuação sistêmica do universo persiano. O resultado recompensa. Palma ressuscitou arcaísmos e se valeu do Glossário de Terminologia Marítima Internacional para preencher lacunas. Houaiss e Merquior ovacionaram os achados. "La Mer errante prise au piège de son aberration" passa a ser "o Mar errante apanhado na armadilha da sua aberração", mantendo a gravidade das aliterações e a fluência das vogais. Assim como a limpidez de "roueries d' ailes rétives" continua potável em português, "ardis de asas arredias", reforçando o recuo dos "erres". Há momentos em que a versão supera a matriz: "les vieux flocons d' écume jaunissante" vira "os velhos flocos de espuma amarelescente".

O escritor Saint-John Perse empreendeu Marcas Marinhas (Ateliê, 333 páginas, R$ 68) em oito anos, de 1948 a 1956, cinco longos poemas publicados separados que se juntaram com a febre. Apesar de escritos em épocas diferentes, possuem uma unidade ímpar, dando a impressão de que foram compostos ininterruptamente em um único dia. A obra é um poema dramático, girando em torno de três figuras: o mar, o poeta e a multidão, com nove vozes que aparecem de vez em quando e pontuam a narrativa das águas, expressas nos discursos dos oficiais e os trabalhadores do porto, do mestre de astros e de navegação, das Trágicas, das Patrícias, da Poetisa, das Profetisas, das jovens e dos Amantes. Seguindo o formato circular das tragédias gregas, o coro resume a história poética, avaliando e pesando as profecias. Trata-se de um livro em que a autoria é do Mar. "É o mar em nós que sonhará." O segredo da poética é incorporar o duelo entre homem e imensidão. Com inveja da extensão marinha, o homem não suporta permanecer na estreiteza do barco e do leito, assim como acaba esmagado na falta de limites. O que começa como desafio do amante frente às forças subterrâneas marinhas se encerra com seu despojamento humilde em Dedicação.

Diante do mar, não adianta sussurrar, cochichar, falar baixo. O mar pede o grito, a empostação da voz, a enxada do pulmão. "Há que gritar? Há que criar? - Quem pois nos cria neste instante? E contra a morte mesma não há senão criar?" Nesse sentido, o "oceano severo" exige o teatro proposto por Saint-John Perse, uma arena multifacetada que envolve tematicamente suas relações com o comércio, os amores, o alfabeto dos astros e com a religiosidade. "Há que gritar? Há que rezar?..." O mar é a seara escolhida entre o mundo físico e imaginário, capaz de revelar "o gosto de viver o homem, em toda a sua medida". Depois da Odisséia de Homero e antes de Omeros do caribenho Derek Walcott, Saint-John Perse é o que melhor explorou o arquétipo como epicentro de façanhas e dos desastres humanos, caos disciplinado, elemento que vai integrar o seu repertório simbólico preferido, ao lado do vento e do deserto (Anábase). Sua linhagem é do poeta criador, inventor fora de si. Não descreve as coisas ou a paisagem, funda o mundo verbal. Estranha o viver, rompendo os costumes. Acredita que a missão do poeta é ser a "má consciência do seu tempo", o que contesta a inércia visual. Nem que para isso custe sobrepassar o entendimento e conviver com as coisas ilícitas. Porque o mar que se abre à beleza é ainda o mar do transe e do delito. Perse não é maniqueísta, mostra a verdade sem apagar a crueldade e o mistério de sua busca, provando que o útil não é o verdadeiro.

Em sua cosmogonia, o poema é maior do que o escritor. Ao mesmo tempo em que apresenta uma liberdade metafórica excessiva, não abdica da construção formal rigorosa e exata. Instaura uma sensualidade líquida entre as palavras, canção derramada, marcha das marés, reproduzindo o fervilhar das correntes com a repetição das consoantes. Radicaliza o texto em vibrações, provocando uma leitura pela intensidade dos sismos. O poeta caminha em direção ao absoluto com a simplicidade de quem levanta a âncora. Barqueiro ébrio das metáforas, suas composições são desconcertantes, com uma solidez pictórica que materializa o fantasmagórico e o sobrenatural. "O relâmpago no mar busca a bainha do navio..." ou "até seus fins de vespas amarelas,/ O verão que perde memória nos roseirais brancos" são alguns exemplos de hiperatividade sensorial. O que para a maioria dos escritores seria gordura e excesso, em Perse é essencial como uma vértebra. A atmosfera suntuosa dosa ternura com ferocidade. A dificuldade de interpretação estimula a polissemia.

O escritor transforma o verso em versículo, em altissonante timbre profético. Exulta o mar como uma pátria autêntica. Uma monarquia onírica. Não é uma poesia que se define, mas que se multiplica na dúvida, no escoamento de hipóteses. Segundo ele, a poesia é filha da interrogação mais do que a filosofia. Perguntar para Saint-John Perse é se maravilhar. Desloca vogais, migra sílabas, acumulando anáforas, denotações e conotações. Em Marcas Marinhas, o mar é apanhado em frenética metamorfose. A toda hora, "muda de dialeto". Para acompanhar, o poeta habita a mutação, o fulgor. Do lento artesanato das ondas, o mar aparece em diversas roupagens, como "uma pele de búfalo", "cor de pedra de estábulo', "carne de romã, figo da África e fruto da Ásia". Fixa-se ao mudar, revirando as vagas, captando o insondável, das sandálias deixadas nas areias pelos afogados até as naus encalhadas das estrelas. Perse acorda as lendas, atravessando as águas e suas efêmeras vidas. Seu tema de meditação é a água salgada, selvagem, de início longínquo. Se a água doce é reflexo, a matéria viva persiana não permite a cristalização, espelhamento, cresce proporcional às distorções produzidas.

O mar trabalha no descanso. Surge como um ente incorruptível, cruel e generoso no julgamento, fazendo o homem sangrar como um galo ou se reencontrar na alga da mulher. Converte o medo em aventura, o receio em excitação. "Do mar também, sabias tu? Nos vem às vezes esse grande pavor de viver." O homem louva o mar, como um cego. Não existe uma condição de impotência humana, mas de respeito e reverência ao que não se entende o suficiente para opinar. Quem vive perto do mar, demonstra Perse, absorve o seu cheiro e a fome de eternidade. Torna-se para sempre cúmplice de seus crimes e desejos. "E de um odor de mar em nossa roupa e em nossos leitos, no mais íntimo da noite."

Repassar Saint-John Perse para o português é comparável a traduzir o cubano José Lezama Lima e o neobarroco Paradiso (missão cumprida pela poeta Josely Vianna Batista). Se a poesia é "fotografia da respiração" (Lezama Lima), respira-se com Perse o oxigênio letal da profundeza.

10:15 AM :: Comentários:

CINCO MARIAS


Reprodução de foto de Ricardo Chaves/Zero Hora

Meu inédito "Cinco Marias" sairá em abril pela Bertrand Brasil como um dos lançamentos da editora para Bienal de São Paulo. Seguindo os lances do jogo infantil, o livro traz o revezamento de vozes entre uma mãe e suas quatro filhas. As orelhas da obra são de Ana Miranda e o texto de contracapa é de Adriana Falcão. "Quando pequena eu jogava o jogo das cinco marias, cinco pedrinhas passavam por baixo do arco dos meus dedos, um jogo de habilidade e atenção, sem suspeitar da vida simbólica que aqueles gestos guardavam. Incapaz de imaginar que numa noite iria ler, com um sentimento abissal de encanto, este livro, escrito sobre o fio da lâmina, e que nos corta a alma para fazer penetrar a pureza da palavra", diz Ana Miranda na apresentação.

10:10 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 08, 2004

ATÉ MAIS!

Entro de férias. Vou para a praia. Volto dia 24/2 para retomar o blog.

2:45 PM :: Comentários:

VOU COMER VAGEM
Gravura de Paul Klee

Não quero procurar somente o que gosto, ficar preso a um gosto que julgo meu por toda a vida. Como um tipo de sangue. Um registro sonoro. Ter uma única opinião para todas as ocasiões. Ter uma opinião vestindo preto para não errar. Ter uma sentença esperando um culpado. Contorcer as circunstâncias para inventar uma biografia que faltou coragem de experimentar. Nunca comi vagem, mas a odeio desde pequeno. Criei o hábito de julgar pelos olhos, quando eles procuram o invisível. Evito provar tira-gosto, com medo do azedume, de minha careta e de não saber o que fazer com o enlatado na boca. O mesmo acontece ao comer peixe - como retirar educadamente o espinho que quase está te engasgando, sem que a pessoa em tua frente não repare? Não encontrei a resposta. O guardanapo não guarda fundo falso. Eu penso muito em cada garfada. Eu penso muito e não aproveito o que não vai virar pensamento e literatura, o que é a absoluta falta de palavras. Um cão não pensa nada ao latir. Não sei se vivo para escrever ou se escrevo para viver. Eu mereço que parte de minha vida não seja escrita, que fique inédita como a minha morte, incompreendida, ilegível mesmo aos mais próximos. Eu mereço errar um juízo para aprender de outro jeito. Eu mereço não salvar um poema da minha adolescência. Eu mereço não condicionar o desejo a uma culpa. Eu mereço me esvaziar em contradições. Todo instrumento de sopro pede o recuo da força. A suavidade vem de alguma renúncia. Hoje eu comi vagem. Eu tinha razão antes. Eu a odeio.

2:41 PM :: Comentários:

VERSÍCULO:

"O resto é aquilo que pode morrer ao meu lado. O que pode morrer ao meu lado não sou eu."

Frase do belíssimo romance Um Homem: Klaus Klump, do ficcionista português Gonçalo Tavares, publicado em 2003 pela editora Caminho, que dá início a série de Livros Pretos do autor.

11:25 AM :: Comentários:

PENSANDO ALTO

O crítico Julio Daio Borges comenta Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003) no site Digestivo Cultural. Confira a resenha.

11:20 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004

SEGUNDA GAVETA, À ESQUERDA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Eu lembro que curava minhas verrugas com folhas de figos. Eu lembro que andava na chuva para abaixar a cabeça. Eu lembro da conversa animada das enxadas nas frinchas das calçadas. Eu lembro que não precisava morder a aliança para testar seu ouro. Eu lembro que o cansaço me salvava da repetição. Eu lembro de manter um andar de distância entre minha carne e a terra. Eu lembro de atravessar as brasas em festa junina. Eu lembro de ter chegado na escola vestido de índio na data errada. Eu lembro de desmaiar em sala de aula. Eu lembro que fui voluntário na aplicação de vacina para me aproximar de uma menina. Eu lembro que a luz subia com a roldana do poço. Eu lembro que o ponteiro do relógio era um garfo se fazendo de faca. Eu lembro de um pássaro se apoiar em sua asa como uma muleta. Eu lembro que jurava segredos, esquecia e não tinha certeza se havia contado. Eu lembro de salvar meu irmão caçula da piscina. Eu lembro de me esperançar no fim da tarde. Eu lembro de meu medo dos dentes do túnel. Eu lembro da máquina de costura preta de minha avó e os pedais descontrolados. Eu lembro a primeira vez que quebrei noz com as mãos. Eu lembro de dispersar as ervas da horta. Eu lembro de sondar as feridas do tronco. Eu lembro do avental branco no gancho e das panelas na parede. Eu lembro do que ainda não me esqueceu.

1:00 PM :: Comentários:

O VENTO SE INVENTA NA FLAUTA
Gravuras de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Era senhora de sabedoria irritada, desacostumada. Na volta do serviço, eu passava pelos bancos de praça e ela puxava a conversa e pedia um cigarro e puxava a camisa das palavras para me fazer sentar um pouco no mormaço de seus olhos chiando. Ficava constrangido em negar. "Sabes, guri, a vida é longa para contar, por isso os velhos entram no silêncio e espiam a linguagem da janela. Eles não sabem como começar sua história". Ela engatilhava um assunto e emendava um novo sem terminar o primeiro. Era exageradamente curva. Não poupava sarcasmo com seu problema de coluna. "Eu nasci mulher, virei mesa. Posso colocar um jarro nas minhas costas que não vai cair." Parecia letrada. "Eu falo muito do menos." Seu queixo se assemelhava a uma península, isolada do resto do rosto. Tinha que nadar bastante para chegar de um ponto a outro. "É melhor ser uma antipática viva do que uma santa morta." Ela tossia, tinha impaciência com a própria respiração. "No ano passado, meu marido estava no hospital e não teve alta, foi direto para o alto." Nada escapava do humor ácido. "O tempo serve quando não serve para nada." Treinava o azedume como quem arremessa milho. As pombas não se aproximavam de sua porção de chapéu. Ela se levanta de repente e agradece a conversa. Me dou conta que não falei nada.

12:59 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004

NO CÉU DA BOCA DE DEUS
Fabrício Carpinejar
Foto de Juan Esteves



Hilda Hilst, autora de 41 livros, morreu na madrugada de ontem, aos 73 anos, no Hospital Universitário da Unicamp, em Campinas, interior de São Paulo, onde estava internada desde o último dia 2 de janeiro. A escritora nasceu em Jaú, no interior paulista, em 21 de abril de 1930, e morava há 40 anos em Campinas na chácara Casa do Sol, com a escolta de dezenas de cachorros e gatos.

Mais do que ir ao fim do mundo, Hilda Hilst foi ao fundo de si mesma e não se esgotou. Em "Estar sendo, ter sido" (Nankim, 1997), encerra a obra com um verso lancinante: "Essa sou eu.// Poeta e mula". Com lealdade e coerência, carregou sozinha sua loucura orquestrada, sua fome pelo absoluto no mínimo, sua curiosidade erótica. Hilda Hilst amava Hilda Hilst enquanto Hilda Hilst odiava Hilda Hilst. Ria pastoso do destino que a fez buscar o desejo sem recompensa. Tantas foram que seu temperamento ainda não acabou de dizer o que queria. "Não há silêncio bastante para o meu silêncio."

Em Hilda Hilst, o amor não se opera, nem pode ser extraído ou reaproveitado em transplante de órgão. Nas décadas de 60 e 70, esteve ao lado da crítica. Anatol Rosenfeld, no prefácio de "Fluxofloema", a escalou no seleto grupo capaz de realizar três gêneros com volúpia: os versos, a dramaturgia e a ficção. Em Poesia (1957-1967), falava da dificuldade de verbalizar o amor, talvez porque o mesmo suspiro que inicialmente comove já seja o estertor da paixão. O ápice é o fim. Enquanto a maioria da geração de 60 engajava-se no combate à ditadura militar, a prosa de Hilda era livre, ou quase isso, uma "prisão libertadora", como afirmava Antonio Carlos Villaça. "Pássaro-palavra, livre, volúpia de ser asa na minha boca."

Seus versos terminariam empalhados nas antologias, caracterizados como sérios, rilkeanos e incompreendidos pelo público. "Chamaram minha obra de palimpsesto. Depois disso, quem iria me procurar?", ela me confessou.

Tudo mudou na década de 90. Hilda ficou cansada da prosa certinha. Decidiu fazer sátira para rir. Lançou a antologia erótica "O Caderno Rosa de Lory Lamby", "Contos de Escárnio" e "Cartas de um sedutor". A prosa circense não deu certo. Nem leitores, muito menos críticos gargalharam. Antes "senhora das alvoradas", ficou conhecida como "obscena senhora H". Trocaram apenas os rótulos.

A escritora derrubou as fronteiras entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. A casualidade mecânica do sexo é convertida em catarse alucinada. Pulsação e metamorfose. A protagonista Hilé, de "A obscena senhora D", quer ser um grande animal. "Ando galopando desde sempre búfalo, zebu, girafa e me afundo nos capins resfolegando." A carne exala inquietação mística, antropofágica. Não só comer outro corpo, mas também mastigar o mundo, mastigar Deus. "Engolia o corpo de Deus a cada mês, não como quem engole ervilhas ou roscas ou sabres, engolia o corpo de Deus como quem engole o Mais. Por não acreditar na finitude me perdia no absoluto infinito." Fez a fusão do erotismo com a religião, da eucaristia com o sexo, do altar com a cama. A Senhora D é uma mulher no encalço de sua imagem e que sente prazer em não encontrá-la. "Engasgo neste abismo, cresci procurando." É a ânsia da pureza na degradação.

Hilda desarma a realeza do homem, que mais preocupado com o seu desejo, o desejo do outro acaba atrapalhando o seu gozo. Ferina e insurrecta, compartilha a filosofia da alcova com o Marquês de Sade. "Todo o homem de pau duro almeja ser déspota." O sexo é exercício positivo contra a opressão particular. As histórias entretêm e, ao mesmo tempo, mantêm uma peleja característica do embate socrático. Perguntar em Hilda Hilst é se aniquilar. Em sua constelação sem favores e chantagens, fazer-se homem é ainda ser mulher. A perversão nunca perde a inocência fundadora. Em "O caderno rosa de Lory Lamb", uma criança rouba os originais do pai e copia em seu diário passagens pornográficas, sem entender absolutamente nada. Hilda realiza o sonho do cineasta Buñuel, que queria colocar uma criança de branco declamando textos pornográficos como cantigas de roda. A poeta não hierarquizava a vida. Seu exorcismo era um milagre que servia aos outros, nunca em seu benefício.



Traduzida para o inglês, italiano, alemão e francês ("Contos de Escárnio", editado pela famosa Gallimard, vendeu mais de 25 mil exemplares), a obra de Hilda Hilst está sendo reeditada no Brasil pela Editora Globo



Conversei com Hilda Hilst em 1996. Confira trechos da entrevista:

"A gente vai envelhecendo e fica com o pânico da morte. Tenho mania de deixar o rádio ligado para perder a solidão."

"Duvido da sanidade do mundo."

"Quando escrevia as novelas bem comportadas, mesmo assim os críticos tinham dificuldades de assimilar. Primeiro falaram que escrevia palimpsesto, depois tábua de música. Estava inconformada. Ao invés da tristeza, de me angustiar com a idéia de que fiz um bom trabalho para ninguém ler, decidi brincar um pouco. Achei que minha trilogia do sexo seria uma coisa divertida, mas apenas escandalizei meus amigos. O meu próprio enfoque é o desfocar o olho do outro. Meus personagens têm o perigoso hábito de pensar e brincar com a sexualidade, quando o mundo está interessado no acaso mecânico."

"Quem coloca fervor e paixão na linguagem, sempre será uma tarada. Minha tara é a linguagem."

"Não tenho destino para o sucesso. É problema de astros. Eu acho que tudo é culpa do signo de Saturno, meu ascendente. Demoram a me perceber. Tenho mais de 30 livros publicados e ainda me tratam com esmolas."

"Fiz ilustrações para 'Da Morte, Odes Mínimas'. Tenho essa ligação anedótica da relação a dois, de fazer as pessoas aceitarem os vícios como patrimônio."

"Essa bobagem de sexo na velhice não atinge o poeta. Escrevo justamente para não envelhecer. Posso ter 70 ou 80 anos, vou continuar erótica. A imaginação vai assumindo o controle das lembranças e ninguém segura. Sei respeitar a ausência do amado e ainda assim desejá-lo. 'Desperdicei meu corpo para aliviar minha alma', acho que escutei isso num filme."

"Ser esposa é desagradável e chato. É ser tratada como comida requentada. Estou ligada ao amor absoluto. O amor é o esforço da perfeição. Nada mais do que o esforço."

"A morte deve ter apelidos. O que eu sinto pela morte, a morte sente pela minha vida. É um medo mútuo."


10:50 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004

DESMEMÓRIA DAS MÃOS

Fabrício Carpinejar

Eu lembro da cera do piso, dos frisos umedecidos da madeira, o cuidado ao atravessar as tábuas. Eu lembro das videiras apanhando dos granizos. Eu lembro do galo se derramar em fogo durante a madrugada. Eu lembro dos pés de meu avô antes de morrer. Eu lembro: quando a árvore mudava a cor das folhas, sua sombra aquecia. Eu lembro do chapéu de palha atrás da porta. Eu lembro do silêncio de luto, o tempo de cada colherada na mesa, o tempo de um parente a outro na sopa, o tempo de árvore de um pássaro a outro. Eu lembro da ferrugem na bicicleta, a tosse afobada do primeiro cigarro. Eu lembro de ter andado com os chinelos de meu pai, como quem se equilibra em patins. Eu lembro de ter amado menos quando pensava em amar e amado mais quando não sabia fazer. Eu lembro da minha vizinha se despedindo. Eu lembro do beijo dela ao partir, rápido, assustado, perto da boca. Eu lembro de ter ficado encabulado e comer as palavras que não saíram. Eu lembro de não ter passado o sal na refeição, de não ter voltado para casa sendo noite. Eu lembro da cera da igreja, as velas e seu tapete de promessas, as mulheres rezando em círculos. Eu lembro da lã escura dos olhos das ovelhas, do barco descascando na margem, do suspiro da rede arrastando o cansaço dos peixes. Eu lembro do muro branco, do cão branco, do osso da casa abandonada. Eu lembro que eu me demorava nos passeios. Eu lembro que não tinha pressa de dormir. Eu lembro que os ruídos na cozinha aprofundavam os ouvidos. Eu lembro que o mar me atendeu, apesar do expediente fechado e das cadeiras sobre a mesa. Eu lembro que nadei convencido que a espuma não iria se desfazer. Eu lembro que o nevoeiro guardava o carro sem pedir troco. Eu lembro do excesso da escassez. Eu lembro que o instinto é o que resta da inteligência. Eu lembro que a derrota é reconstituir os pormenores do que não foi feito. Eu lembro que a consciência pesa quando vigiada. Eu lembro que viver nunca será um dever cumprido.

8:22 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 03, 2004

MÍNIMAS
Gravura de Paul Klee



* O bêbado é um chato consciente de que também seria chato se não bebesse.

* O bêbado nunca sente terror por não ver direito, sente terror por não ser visto tanto quanto queria.

4:41 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004

UMA TRISTEZA QUE ACONTECE ALEGREMENTE



Fabrício Carpinejar

Tenho amigos que são tristemente alegres. Eles não conseguiram anular uma tristeza. Ela ficou a endividar o riso. Permanece como uma cicatriz, uma queimadura. Não apaga a água ou as alegrias. Convive junto, sempre. Não arreda pé da sala. Não permite ao rosto se contorcer de exultação. O riso é uma vez por lado, contido, como remos sincronizados. Como se o riso fosse apenas um entristecer dos dentes. Há amigos que pensam nessa tristeza fazendo novas coisas. E a tristeza pensa neles nas horas mais impróprias. Não há como aplacar esse sentimento - ao mesmo tempo - miúdo para ser reparado e extraviado para ser dito. Não é benigno ou maligno. Não é doença, muito menos saúde. É algo que se aprendeu quando não se prestava atenção. Uma tristeza assobiada, sem que conheça o alfabeto para se confessar. Uma tristeza suave, como uma criança que senta diante da máquina de lavar com os mesmos modos de uma televisão. Uma tristeza sem lugar para ir, que se acostumou a personalidade, que seca a louça de manhã. Uma tristeza que é charme, mas não chega a ser simpatia, que convida para a conversa, mas não tem o que falar. Uma tristeza calma, alimentada, que se contenta com pouco, que senta nos degraus da escada e divide os latidos da quadra em casas. Uma tristeza quase subterrânea, um rádio ligado entre duas estações. Não se mistura, não se guarda. Podia ser nostalgia, podia ser saudade, nada é de ambas por não se distanciar. Uma tristeza que arruma a cama e não se deita, envelopa as cartas e não escreve. Uma tristeza que é tremor de frio, um suor desajeitado, uma fisgada no braço, que movimenta os ouvidos involuntariamente. Uma tristeza tímida, não envergonhada. Uma tristeza sábia, que não é excluída com uma outra tristeza maior. Uma fogueira que a pá de terra não abaixa. Uma tristeza que veio de algum estalo, fissura, de um amor sacrificado, de uma amizade desmentida, de uma morte prematura, de uma viagem adiada. Medo de não ter vivido o bastante, covardia de não viver como se deve. Uma tristeza experiente, que não se repete. Que não salva, porém conforta. Que torna a feição séria como quem se escuta. Uma tristeza sem par para dançar. Isolada demais para ser lembrança. Antiga demais para ser futuro. Uma tristeza que acontece alegremente, mas ainda assim tristeza.

7:57 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 01, 2004

O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO 2/CULTURA, página 04, 1º/02/04

Dois autores da geração 60 reúnem suas obras
Armando Freitas Filho e Álvaro Alves de Faria representam principais tendências da época

FABRÍCIO CARPINEJAR
Especial para o Estado

É paradoxal concluir que os poetas pertencem a um gênero secreto, infelizmente, a uma seita de escolhidos e de ungidos provocadores. Mesmo editados, ainda parecem inéditos. Quando surge a obra completa, se surpreende com a constatação de que se conhece somente a metade da voz. Dois dos principais representantes da geração de 60 completam 40 anos de literatura, permitindo uma retrospectiva minuciosa de suas estéticas e propostas. A festa para os autores corresponde a uma revisão crítica para a história.

Um é de São Paulo, Álvaro Alves de Faria, que lança Trajetória Poética (Escrituras, 654 págs., R$ 40), obra reunida de seus 15 livros mais o inédito À Noite, os Cavalos, conjunto recentemente premiado com o APCA 2003.

O outro é do Rio de Janeiro, Armando Freitas Filho, que traz sua Máquina de Escrever (Nova Fronteira, 607 págs., R$ 64), com 12 livros editados além do inédito Numeral, Nominal. Ambos surgiram ao mesmo tempo, inspirados de maneiras diferentes. Álvaro é engajado, busca a explosão temática, fora da linguagem. Sua trajetória é ideológica, política, acreditando nos versos como uma forma de despertar a inconformidade com a realidade social. Foi preso cinco vezes durante a ditadura ao recitar publicamente O Sermão do Viaduto, em 1966. Armando, camaleônico, persegue a libertação dentro da linguagem, armando-se de uma linhagem mais clássica do poema para fazer colagens das experiências do cotidiano. Uma imagem possível, apenas para a compreensão, é uma cruza de João Cabral com as experiências de Cacaso e Ana Cristina César, ou seja, uma dicção rigorosa, cadenciada de versos longos, com súbitas iluminações coloquiais, flagrantes da rua e do senso comum.

Ainda que formal, tem um temperamento passional, febril, instantâneo.

Representa uma das vozes mais singulares da poética brasileira pelo hibridismo e capacidade de assombrar com novos experimentos e transgressões.

Como um rapper, oferece um registro de música falada, absorvendo os obstáculos verbais, o palavreado rude, as quebras, e os convertendo em melodia. Não traça uma poesia em linha reta, mas em diagonal, em cadeia de aliterações e elipses, cortando, sangrando, em explosões subcutâneas, de dentro para fora, o corpo do poema pressionando o corpo da cidade. O andamento funciona, como receita um de seus versos, "por partes consultadas asperamente, fora/ da ordem natural, repentinas!/ Com largos silêncios estourados/ por trechos interrompidos (...)".

Sua escrita revela uma cegueira sonora. De um teste farmacêutico, Duplo-cego, retira o mote de um de seus livros (assim como empreende com a fotografia em 3X4, com o consumo em Marca Registrada e com a missa fúnebre em De Corpo Presente), expondo o encontro às escuras entre escritor e leitor. A droga desconhecida tanto por quem a recebe quanto por quem a administra é uma metáfora do mistério e da instabilidade cardíaca. Armando escreve com raiva escura e úmida. Escrever é aclarar gradualmente a ira em erotismo. Risca o fósforo e permanece com a chama mais do que devia, "até que os dedos queimem". Está sempre em movimento, em desafio, friccionando a paisagem carioca, observando a orla e o Pão de Açúcar ("o primeiro arranha-céu") sob o ângulo do estranhamento, porque "o mar não pára" e ele é destinado a imitar a violência das águas. Não há destino, mas intermitente recomeço. Seu andar é mais disparo do que caminhada. Todo detalhe é ampliado e distorcido em um "olho mágico". Por exemplo, converte as unhas rachadas da velhice de Drummond em símbolo do homem partido, da paternidade inalcançável. Não há espaço para recuar, obrigado a sair ao mundo, sem o recolhimento de sítios domésticos. "Depois que os pais passaram/ a paisagem é recortada rente/ nas costas, e não se pode dar/ passo atrás, pois não há mais/ pátio, casa, quintal, chão."

Álvaro tem uma queda religiosa, não se importando com a velocidade, mas em repercutir a gravidade de sua desilusão e permanente exílio. Nunca está inteiro em seu próprio lugar, feito de dissidências, estilhaços e rompantes.

"Fica dentro de ti, onde não existe mais/ onde te feres/ e te deixas/ onde não estás.// Cala as aves/ no alpendres da manhã/ entre operário feridos/ a cantar o hino nacional", anuncia em um auto-retrato. Desconfia da vida paralela das palavras e da chance de posteridade. Álvaro carrega a pecha do poema como crônica, como desabafo, alarde aos hábitos viciados e à realidade bruta e brutal. Reflexivo, pisa na pedagogia ao oprimido, resvalando ora em autopiedade, ora em exultação da resistência. Expressa uma mensagem de contestação (ainda marcada pelos anos de chumbo e pela poesia social de Neruda), um contrabando de sabedoria, correndo o risco de subjugar a própria espontaneidade das imagens a um conteúdo momentâneo. Torna-se mais um testemunho do que criação. Se Armando ocupa o espectro de invenção, Álvaro, por outro lado, expande-se no front da intervenção. É o que melhor sintetiza a geração de 60 pelas suas virtudes e defeitos. Os poemas se firmam em paralelismos, dando uma miragem cantada. "A palavra noite nada significa/ senão que é a noite essa paisagem distante/ em que se debruçam poetas antigos/ senão que é a noite/ a palavra que nada diz/ senão que a noite é só noite/ é só noite/ é só noite/ é só noite (...)." O dissabor social acaba se misturando a um descontentamento literário. O poema é também discutido e posto em dúvida. A metalinguagem paira acima da própria poesia. O que pode incomodar é a exagerada reiteração do que é a poesia e como ela deve ser feita, uma insistência em conceituar negativamente o trabalho e o futuro.

"Fica o nada/ do poeta: a obra não permanece" (À Noite, os Cavalos, 2003) ou "O poema é inútil/ como um catecismo/ inútil como/ uma maçã" (O Azul Irremediável, 1992).

Nos Poemas Portugueses, ao se situar fora do País, curiosamente, é que acha a pessoalidade de seu timbre e o tom inconfundível da sensibilidade, não sofrendo da necessidade auto-imposta de defender uma causa ou os limites de sua vivência geográfica. Desvia a atenção da denúncia para pequenos quadros líricos, descrevendo Lisboa como o paletó escuro do pai, reparando na louça verde dos varais, caminhando pressentimentos. Esse Álvaro é um poeta diferenciado, tomado apenas da espontaneidade em acompanhar a sinfonia flutuante das palavras desnecessárias e, portanto, inesquecíveis: "Eu me arrependo de tudo,/ até do que não fiz." Em Portugal, ele encontrou Alberto Caeiro em si e se regozija do que não viu. "Observo as mulheres de negro/ que não caminham em mim, mas terminam em mim,/ como se concluem os rios."

Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de "Caixa de sapatos" (Companhia das Letras, 2003), entre outros.

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