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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Março 30, 2004

CELEBRIDADES

Fama não é um lugar para morar, é um lugar para desistir. É viver com lupa, enjoa. É não reparar que o violino não corta os cílios. É enxergar a distorção dos olhos mais do que os próprios olhos. Ser famoso é ser anônimo de outra forma. Andreia era famosa por ter transado com um colega no primeiro grau. Ninguém sabia se era verdade. Todos falavam. O boato faz a fama crescer. O boato é uma mentira desleal. Fama é se ouvir pouco. É somente prestar atenção quando é elogiado. Fama é não ter infância para se duvidar, seguir o rio quando o melhor é ser um rio desviado para pássaro, para árvore, para as margens. É ser pesado porque não há ninguém dentro. É ser casado com os próprios joelhos. É nunca piorar a vida para melhorar depois. Não há fama na literatura. Quem ama, se humilha. Quem escreve, se ofende. O livro não é o autor. O autor desaparece ao publicar. A vaidade do livro que permanece no autor é arrogância. Fama enche a agenda de nomes e não de amigos. Nomes são contatos para o famoso. Quem tem amigos, conhece os telefones de cor. O famoso confia que a cada movimento está sendo reparado. Abre uma exceção, não faz as regras. Atende, não conversa. Não será cinza, porque não chegou a ser fogo. Dá sermão, não conselhos. Explica seu dia convencido que todos estão esperando sua opinião. Um menino do bairro morreu afogado em minha infância. Ele ficou famoso. Sua fama virou medo de água. A fama é a mesma para quem sobe e para quem cai. É uma maneira de morrer antes do corpo. É tão rápida que não há tempo para escovar os dentes. Na fama, assinar um cheque é conceder autógrafo. Conceder autógrafo é assinar um cheque. Pior do que o famoso é quem procura ficar famoso. Xinga, ofende e lamenta que está sendo enganado, desfavorecido, passado para trás. O famoso só é famoso por quem tem gente que acredita que pode ser igual a ele.

10:27 AM :: Comentários:

Deu no site Weblivros:

PEDRAS QUE PENSAM
Fabrício Carpinejar*

O aforismo, espécie de máxima e provérbio, não é uma sentença que condena, mas que liberta. Exorciza a verdade em golpes súbitos, em períodos mínimos. Ponto de encontro entre a idéia e a intuição. Apresenta uma natureza híbrida entre a poesia e a filosofia. Tem da poesia o ritmo e a captação dos contrários, enxergando relações entre objetos e seres díspares. Da filosofia, desde Heráclito, guarda o alentado poder de interrogar o espanto. A partir dessa breve forma de pensamento, os moralistas clássicos como Pascal e La Rochefoucald fizeram toda uma tradição do pessimismo, expandida à perfeição pelas fagulhas de Nietzsche, silogismos amargos de Cioran, fábulas concisas de Kafka e críticas ácidas de Karl Kraus ("Não é a amada que está distante, mas a distância que é amada").

No Brasil, por exemplo, além da série de frasistas memoráveis como Antonio Maria, Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues, pode-se encontrar o aforismo em "Discípulo de Emaús", de Murilo Mendes, com uma tendência poética muito próxima do versículo e com uma carga filosófica de visível viés católico. "O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la." Outro praticante, ainda que informal, foi o gaúcho Mario Quintana. Compôs um coleção de epígrafes em "Caderno H", com a roupagem leve de crônicas e chapéu pontiagudo do humor. Uma de suas pérolas vem de uma dolorosa interrogação: "Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não agüenta os que continuam vivos?". O campeão de audiência aforística ainda é Millôr Fernandes. Propôs um dicionário poético em "A Bíblia do caos", recosturando o significado das palavras, procurando extravagantes sinônimos e acepções, definindo o indefinível jeito brasileiro de não pagar o apocalipse depois de curtir a festa. Seus textos exercem uma influência tão decisiva que tomam ares de autor anônimo, absorvidos pela cultura urbana. Quantas citações de Millôr, como "no princípio era a verba", não se transformaram em provérbios populares?

Mostrando a exuberância dessa expressão, o poeta espanhol, Adolfo Montejo Navas, radicado no país há dez anos, atinge alta condensação em "Pedras Pensadas" (Ateliê Editorial, 2002, 123 páginas), traduzido com luminosidade por Sérgio Alcides. Ao lado de "Da Frágil Sabedoria" (Quasi, 2001), do português Casimiro de Brito, demonstra o vigor da língua portuguesa ao gênero.

O autor reúne profecia, observação e conceito em 660 aforismos, ampliando seu livro anterior, Inscripciones (Madri, 1999), que continha 425 aforismos. Seus pequenos retratos relâmpagos, velozes epigramas, exercem uma influência decisiva. Expõe um dos fundamentos do aforismo: a força de persuasão. O leitor fica viciado no estranhamento dos costumes e na capacidade de extrair o deslumbramento da ordem mais corriqueira. Em Navas, o cartão de visita é um epitáfio; o calendário, um poema visual; o ironista, um amolador de vocábulos, e o suicida, aquele que adianta o relógio demais.

O livro traz versos avulsos, autônomos e com uma capacidade de resumir a vida em duas linhas. Desenvolve o cinismo ("Para ter coração é preciso ter estômago"), o microconto ("Uma mosca para cada movimento de sobrancelha"), o lirismo ("Toda a esperança na chuva, como alguns cachorros"), a tirada infantil ("As zebras e os tigres parecem recém-pintados"). Dificilmente erra o alvo. O aforista coloca uma única bala no revólver e tem que resolver a eternidade com ela. O despojamento está muito próximo do exagero. Aumenta-se a potência metafórica para dizer pouco. Exagera-se (com o uso recorrente do "sempre" e do "nunca") para desfalcar. Convence-se sem a necessidade da repetição. Navas segue o rigor do francês René Char ou do alemão Hölderlin, conceber o estado de espírito externo pelo desespero de dentro, permitindo a paisagem sentir o que o coração pensa. Ou, como mesmo define, "ver dentro das palavras o que está fora delas". Impressiona a regularidade da obra, que nunca oscila para o prosaísmo, mantendo-se firme no terreno poético de observação pura. Poesia de sabedoria, que permite reflexões livres de credos ao exercitar o ceticismo. Há um rumor de inconseqüência para se atingir o novo. Na falta de ponte, um necessário salto no escuro. "A loucura nunca cumpre o que promete". Citações de Orides Fontela, Manoel de Barros, Teixeira de Pascoaes, Max Jacob, Elias Canetti, entre tantos, aparecem no decorrer dos textos como um modo de homenagem, reverberando algumas das influências do espanhol. Seu talento é ampliar e distorcer os hábitos com outras funções. Suas máximas são polissêmicas, não encerram o assunto, abrem inéditas possibilidades da percepção. "A vaidade nunca mata o bastante." As epifanias debocham dos minutos de sabedoria, da seleção de frases célebres, dos condimentos de aeroporto, das frases prontas de microondas de políticos e celebridades. Busca o conhecimento pela experiência; o caminho, pelo erro; a perfeição, pela falha; o impossível, pelo real.

'Pedras Pensadas" significa um álbum de fotografias de rua. Imagens feitas ao acaso, flagrando a ebulição de tipos e personagens, insultos e convicções. O mundo é perfurado com ênfase. Antes mesmo da terra, a água jorra da própria sede.

Alguns aforismos de Pedras Pensadas:

* O hipocondríaco vive de indultos.

* A fidelidade sempre suspeita da lealdade.

* As pedras estão sempre olhando.

* Aproveita a insônia para nascer.

* Estamos doentes de eternidade.

* Cada viagem é uma idade.

* Escreve-se o que se esconde.


* Fabrício Carpinejar é poeta e ensaísta, autor de Caixa de sapatos (2003) e Cinco Marias (2004), entre outros. [Especial para Weblivros]

:: Pedras pensadas, de Adolfo Montejo Navas, tradução de Sérgio Alcides. Ateliê Editorial, São Paulo, 128 p., tel (11) 4612-9666, formato 14 x 21 cm.

10:25 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 29, 2004

FOLHA DE SÃO PAULO, CONTRACAPA DO CADERNO MAIS!
Domingo, 28 de março de 2004



10:38 PM :: Comentários:

DICIONÁRIO É UM CEMITÉRIO DE AUTOMÓVEIS

Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Arte de Arthur Bispo do Rosário

Fabríco Carpinejar

Minha avó chamava radiografia de chapa. Chapa servia também para dizer dentes postiços. Ou amigo. Ou placa de carro. Somando os sentidos, pensava que minha avó fazia radiografia dos seus dentes postiços, como quem arruma um amigo, e numerava a dentadura como chapa de carro. Eu me intrigava com as palavras de duplo emprego. Elas trabalhavam dois turnos para sustentar o Aurélio. Não tinham folga. Lavavam o sanitário com esponja e balde. O Aurélio ficava estirado na mesa de meu pai. Todo esmiolado, ele próprio nunca se leu. Só mijava sentado, uma vergonha para sua masculinidade. Eu sempre que lia alguma palavra no Aurélio aumentava minha dúvida. Havia mais sinônimos do que explicação. Poderia escolher o que eu não queria, falar o que não entendia. Criança não precisa de dicionário, criança não quer ser ambígua. Criança quer ser direta. O dicionário interessa para confundir. Para esconder algo da compreensão. O Aurélio era ateu, substituiu o lugar da Bíblia em casa. A mãe não era do dicionário. Mãe acreditava em versículos. Os versículos são o horóscopo do religioso. Abre-se uma página ao léu e ele verifica o que vai acontecer no dia. Palavras preferem a intuição, mesmo equivocada. A intuição é adivinhar a palavra pelo som, marcar as bainhas com uma agulha. Busca-se a calça no dia seguinte ou nunca. A palavra vigarista é acertada. A viga quebra no meio.

10:45 AM :: Comentários:

UOL

Na quarta (31/3), às 20h, participo do chat do UOL como convidado do dia, numa promoção do site Capitu. Espero conversar com vocês. Prometo mentir somente o necessário. Irei inventar o resto na hora. Será meu júri popular, onde sou desde o princípio culpado por falta de provas de que existi.

10:43 AM :: Comentários:


Domingo, Março 28, 2004

FERNANDO,

Não roncas aqui, é certo. Sono sinfônico, em seqüência, afastado das preocupações hostis e da mudança de temperatura. Eu te vejo tocando a gaita, ensimesmado, o rosto torto como uma ladeira para descer os dedos. Lembras? Eu brincava dizendo que tu escovavas os dentes com música, o lamento alegre, a boca assobiando o musgo da pedra, espremendo a chuva mais antiga.

Quando eu ficava longos períodos sozinha em casa, fazia café. Eu que não gostava de café. O cheiro do café diminui a solidão. Minha arrogância era somente timidez. Eu não sabia reagir aos presentes, aos elogios, a essa felicidade súbita de ser agarrada pelas costas (que mania a do homem querer agarrar a mulher na cozinha, nunca entendi isso). Minha timidez piorou em prepotência. Parecia insensível por sentir demais. Parecia indiferente por excesso de atenção. Tanta coisa por dizer e ainda é pouca uma vida para se lembrar. Tanta coisa para calar e ainda é pouca uma vida para esquecer. Já notaste que uma mulher ao elogiar a roupa de uma outra, logo recebe de resposta que a peça "não custou caro". Bate a culpa pela vaidade. Por que nos explicamos? Por quê? Sobre tudo o que vivi contigo, eu respondo: "não custou caro". Sei que não é verdade. Sabes que vou arredondando os preços por baixo, para não causar nenhum atrito, nenhum ciúme, nenhuma inveja. Eu me vendi por menos, mas me comprei por mais.

Beijos
Aline

7:05 PM :: Comentários:

Deu no Estado de São Paulo, Caderno 2, domingo, 28/3/04:

VOZES FEMININAS NOS VERSOS DE 'CINCO MARIAS'
Lançamento de Fabrício Carpinejar dá seqüência ao seu romance poético ao abordar o universo e a sensibilidade de cinco mulheres

KARLA DUNDER

Crédito Renata Stoduto/Divulgação


Cinco Marias é um jogo de criança. Algo mais ou menos assim: com as cinco marias (pedrinhas) em mãos, o jogador deve escolher uma delas, que será arremessada ao alto e, ao mesmo tempo, deve pegar uma das quatro que sobraram, sem tocar nas demais. Fabrício Carpinejar parte dessa imagem, da brincadeira da irmã que ele observava à espreita, e das memórias de sua infância para dar seqüência ao seu romance em versos, que explora as fronteiras entre prosa e poesia.

Cinco Marias (Bertrand Brasil, 108 págs., R$ 19, tel. 0--21 2585-2070) dá continuidade à história de Biografia de uma Árvore, agora o foco é a família do dr. Ossian, médico psiquiatra que considerou como louco o protagonista Avalor, de obras anteriores. Fabrício dá voz à mãe e quatro filhas. A obra pode ser lida separadamente ou como continuação das anteriores.

Esse é um livro que dá voz às mulheres, um diário composto por cinco vozes, sem marcações ou texto teatral, o leitor é convidado a descobrir quem está falando. O final é surpreendente. "Sempre convivi com mulheres, mãe, irmã e amigas e procuro repassar esse universo no livro. A mulher tem uma sensibilidade diferente para lidar com a realidade, os homens utilizam muitos filtros para chegar a ela", observa. "Uma menina, ainda criança, tem muito mais sensibilidade adulta, mais maturidade que um menino e uma maturidade que os homens nunca vão entender. Quero falar das mulheres, não como elas."

O enredo nasce de experiências do passado. "Todos os meus livros estão na infância. Tinha uma caixa de sapatos onde guardava fotos, cartas e as cinco marias, que eram de minha irmã, que eu sempre quis, mas nunca aprendi a jogar; era uma brincadeira de meninas. Meus livros são como relicários, um estojo com coisas esquecidas", diz o poeta.

No entanto, para ele a poesia não é um instrumento de reconstrução do passado. "Esquecer é uma vaidade, uma forma de se preservar, muito mais do que lembrar de algo. Lembrar é inventar, moldar a memória e contar aquilo que se quer."

O núcleo familiar é outro aspecto marcante na obra de Carpinejar. "Todas as tensões estão ali. Trabalho esses aspectos humanos na minha poesia." A proposta do autor está em deixar sua poesia cada vez mais pessoal, o que a tornaria cada vez mais universal.

A poesia toma a forma de um bate-papo, de uma conversa informal com o leitor, muito em função do processo de escrever ou compor do autor. Os livros só são escritos depois que a história está pronta. "Memorizo tudo, ao caminhar, por exemplo, recapitulo versos, que ficam impregnados pelo trotear. Já cheguei a perder livros inteiros, porque me esqueci, mas creio que eles precisam sobreviver primeiro à memória. Nesse desenrolar faço ajuste dos sons, ritmo, tudo para manter o frescor da conversa."

Fabrício observa que os grandes fatos norteiam a vida, mas os detalhes a definem. "A poesia é uma construção, eu procuro renovar o gosto pela fala, pela língua a partir desses detalhes." Ele conta que ao entregar o livro para a editora se esquece completamente da obra e leva de três a quatro anos para lançar um novo livro.

Ao mesmo tempo defende o erro nos livros. "O poeta precisa saber errar em sua obra, deixar o leitor respirar. Se tudo fosse perfeito seria insuportável para quem está lendo. Quando o homem erra pode ser o que é, um poeta não erra menos, erra melhor."

Quanto às inspirações, ele brinca: "Minha grande referência foi a minha asma. Com ela aprendi a falar diferente, falo como respiro. Meus versos são curtos, como arroubos de consciência."

Debate - No dia 13 de abril será o lançamento de Cinco Marias na Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073) a partir das 19h30. Antes dos autógrafos, ele participa do debate Jogando Cinco Marias, com Marcelino Freire, e leitura de poemas por Denise Silveira.

No dia 15 de abril, a partir das 18h30, ele abre a Roda de Leitura Panorama da Poesia Brasileira Contemporânea, Centro Cultural Banco do Brasil do Rio.

No dia 4 de maio, segue para Porto Alegre para lançar na Livraria Cultura a obra que deve chegar às livrarias na primeira semana de abril.

10:11 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 26, 2004

Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Gravura de Arthur Bispo do Rosário

O mundo em que vivo não é o mundo que eu quero, mas o que preciso. Na esquina de minha infância, um homem batia seu queixo como uma máquina de escrever. Ele estava enlatado em uma cerca, lata de sardinha. Não havia abridor grande para ajudá-lo. Galinhas voavam ao seu lado, espantadas com o barulho das teclas dos dentes. Com o boné virado, ele ria como uma assombração. Assombrava e babava. Eu tinha medo dele, depois tive compaixão, hoje eu acho que ele era eu. Toda criança que passava chamava de cachorro, todo cachorro, de criança. Um colega me disse que ele assistia a vida em preto e branco. Sofria da doença da cor. Ele morava perto do campo de futebol. Usava tênis sem cadarços e meias. Ficava zanzando na grade, gritando cachorro e criança, criança e cachorro. Era menos perigoso do que o vizinho da outra esquina, com um tapa-olho de pirata debaixo dos óculos. Havia uma parada de ônibus na frente de sua casa. Os que sentavam na murada eram apedrejados por uma funda. Homem já feito, atirava as pedras pelas frestas da veneziana. A polícia nunca o encontrou. Sua péssima pontaria quebrou o vidro de um carro. Mudaram a parada de lugar. Mudaram meu bairro de lugar.

11:42 AM :: Comentários:

VIDA SIMPLES, UM ANO

Faz um ano que colaboro com a revista Vida Simples. Ela surgiu como uma publicação especial da Superinteressante, ganhou vida própria e hoje é uma revista mensal de projeto gráfico apurado. Leve, divertida e atenta para cada um viver melhor a linguagem do corpo e o corpo da linguagem. Como diz Márcia Bindo, "não é uma revista alternativa, mas de alternativas". Yoga, meditação fotográfica, personagens descarregados da pressa, equilíbrio; os temas surgem para serem vividos, não utilizados. Eu assino uma página com meus poemas, chamada de Outras palavras. Aceitei o convite de Adriano Silva, diretor de redação e ficcionista de Homem sem nome, e descobri uma série fabulosa de amigos, que conversam sobre os versos, que mudam a cor do guarda-chuva ou deslizam ao som adivinhatório do alfabeto. Gente que escreve de rosto descalço, com a disposição de tornar a verdade uma espécie de beleza. Tive contato com Otávio Rodrigues, que deu a partida no projeto, Márcia e agora Rodrigo Vergara. Todos os poemas são acompanhados por ilustrações de Meire Oliveira, talentosa artista que consegue vibrar o lirismo com as mãos dos olhos. Mostro abaixo meu inédito da edição de abril, n.º 15, que já está nas bancas.



9:10 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 25, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Tu, que tens um porta-retrato do filho ao lado do computador, com folhas atoladas na segunda gaveta, que não acreditas mais em nada para não forçar a esperança a acreditar em ti, que entraste nesse site talvez por um acidente ou por curiosidade, que mal passaste os olhos pela primeira linha e viste que não era contigo, peço que fiques mais um pouco para descobrires realmente que não é contigo. Nada disso é contigo, tudo pode vir a ser. Tu, que nunca estás satisfeita com a altura da cadeira, mas também não sabe como virar a manivela, que diminui os passos para escutar o bambu plagiando a chuva, falo contigo e não comigo. Eu me expulso para dar mais lugar para acomodares teus desejos, tuas queixas, teus temores e alegrias. Tua passagem aqui é rápida como um telegrama, facilmente esquecida. Tu, que gostarias de ser mais percebida, mais elogiada, mais viva, que ninguém nota o vestido novo, o cabelo cortado, que chegas ao trabalho pensando que causarás outra impressão e o espaço vai se repetindo ao dia anterior. Tu, que cuidaste dos irmãos pequenos, que compravas cigarro ao pai e leite para a mãe, que teve que pular a janela para sair com os amigos. Tu, que não estás satisfeita com o emprego, com os hábitos, com o número das calças, com o guarda-roupa, com o guarda-chuva, que esperas as próximas férias como um domingo prolongado, que gostarias de dormir mais e ser penteada pelo vento antes de acordar. Tu, cheia de expectativas, que se diplomou e pensou que tudo estaria resolvido, que se casou e pensou que tudo estava pronto, que teve um filho e pensou que tudo estava chegando. Não te conheço, muito menos sei o que aconteceu na infância, qual foi o primeiro namorado, a primeira transa, o primeiro choque, o primeiro porre, o primeiro do primeiro amor, o primeiro do último amor, é justamente para ti que começo a escrever dentro de tua desistência. Tu, que nunca pensaste que o riso também precisa de aquecimento para não se machucar em rugas, que desejas ler de manhã e viver o que se lê de tarde e que não lês de manhã e nem vives de tarde e sobra a noite para fazer de noite. Tu, que és uma promessa de cheiro, de chá, que coloca olor nos pulsos e no pescoço, que tens receio de chorar onde não se chora, de falar o que não se devia, que te controlas e te censuras para não se entregar. Tu, que passaste a vida a disciplinar o desespero, que seguras a bolsa perto do quadril, que és suave para olhar de canto. Tu estás aqui e não se resolve, porque não é aqui que estás, mas dentro daquilo que procuras. Alguns procuram um endereço; outros, um sentido. Escuta o sangue e não entendes. Tua religião é escutar. Tu, que queres explicações para não se contentar com relatórios, para não se apaziguar em brincadeiras, que não usas relógio para não seres infiel à aliança, que reparas as laranjas germinando abelhas na hora do almoço. Tu que não duvidas ao assinares o nome, mas trocas invariavelmente a data. Tu, que em toda manhã regressas de teu mais fundo e ninguém repara o teu esforço para subir à superfície. Tu, que pareces sombra quando a água passa, que pareces água quando a sombra senta, eu desapareço em ti.

10:37 AM :: Comentários:

Deu na Revista Continente Multicultural - Ano 3 - Março/2004:

PORTUGAL E BRASIL: MELANCOLIA EM DOIS SOTAQUES
Saturno nos Trópicos reconstitui a história do pensamento melancólico, partindo do livro "Anatomia da melancolia", de Robert Burton, até o "Retrato do Brasil - Ensaio sobre a Tristeza Brasileira", de Paulo Prado.

Fabrício Carpinejar*

Dois livros, dois destinos complementares. Ambos são ensaios de fôlego, com bagagem enciclopédica. O primeiro é Mitologia da saudade (Companhia das Letras, 1999), de Eduardo Lourenço, grande crítico português, prêmio Camões de Literatura. O segundo é Saturno nos Trópicos - A Melancolia Européia Chega ao Brasil (Companhia das Letras, 2003), do médico e ficcionista Moacyr Scliar, agora integrante da Academia Brasileira de Letras. Impressiona o conteúdo contíguo dessas obras, uma interrogando a outra involuntariamente. Eduardo Lourenço apresenta as características do humor melancólico português, identificado em boa forma física nos versos de Camões, Almeida Garret, Teixeira Pascoaes e, posteriormente, em Fernando Pessoa. No autor de "Tabacaria", encontra-se um riso saudosista, que não espera a resposta (tem a exata noção do que se passou), dono de uma lucidez resignada, um reconhecimento saciado. A melancolia lusitana não equivale ao "antipensamento europeu", presente em Nietzsche. Diz mais respeito ao estado de "desinteresse ativo", de conformidade entre o acontecido e o ideal. É feliz, apelidada de saudade. Enquanto a nostalgia representa uma ausência vivida e o sentimento de ruptura dos laços com a memória; a saudade é a consciência carnal da finitude, numa temporalidade apaziguada. O espanhol Miguel de Unamuno, filósofo Do sentimento trágico da vida e um dos que melhor aproveitaram a culpa imposta ao desejo no catolicismo, explica: "quando nada resta de nada, fica ainda o tudo desse nada". O tudo desse nada simboliza a saudade. O nada desse tudo talvez seja a melancolia do brasileiro, altamente irônica, oferecendo um sentimento de perda mas com uma total irresponsabilidade com o destino. É uma saudade insatisfeita, inconseqüente, onde não se mede esforços em suplantá-la com a esperança. Existe uma maior troça do que o emplasto do defunto Brás Cubras, de Machado de Assis, para corrigir a "melancólica" humanidade do brasileiro? Ou a morte de Macabéia, personagem de A Hora da Estrela de Lispector, justamente quando a vidente a anuncia um amor generoso? Se a melancolia portuguesa é auto-suficiente, de um passado fadista, glorioso e sebastianista, a do brasileiro se condiciona à espera de um futuro sempre atrasado ao seu compromisso. Poder-se-ia dizer de um futuro desprovido de antecedentes, desmemoriado. Decorre desse ponto a importância do que virá, do porvir, da expectativa ardente e messiânica de uma mudança, articulada em narrativas de Lima Barreto, de Machado, de Euclides da Cunha e de Clarice.

A melancolia no país não vem do espelho narcisista baudelariano, muito menos da náusea paralisante de Sartre (curiosamente, o pensador francês quase chamou sua obra Náusea de Melancolia). Moacyr Scliar prepara um apanhado histórico minucioso, com um prelúdio dos primórdios de males que ajudam a esclarecer e fundamentar o destino da melancolia no Brasil. Suas hipóteses não são chutes de zagueiro, mas passes bem encaminhados de volante. Aborda as doenças como fenômenos culturais, não apenas biológicos, de transição entre eras e períodos. Exemplifica que a peste a sífilis surgiram em momentos de transição, no fim da Idade Média e Renascimento, desencadeando um mal-estar definitivo na civilização, que se acostumou a enxergar a morte como companhia banal e irremediável e procurou abrir os horizontes com as ciências.

Com cinco anos de pesquisa e erudição transmitida em linguagem acessível, sem pedantismo, o autor gaúcho narra e mostra como a melancolia se popularizou, no rastro da evolução de costumes e do surgimento e combate das infecções. Trabalha na encruzilhada entre medicina e literatura. Se a peste favoreceu uma noção mais clara da melancolia com o clássico de Burton na Inglaterra, de 1621; no Brasil, o estopim ocorre em nome de outra doença, a febre amarela, que provoca um surto em 1849, a partir da chegada de um navio norte-americano vindo da escala New Orleans/Havana. Como não poderia deixar de ser, toda a calamidade tem um porta-voz. No século XVI, havia sido Burton (seu clássico ainda é estranhamente inédito no Brasil). Em São Paulo, do início do século XX, marcando a transição para a modernidade, a figura teórica sustenta-se em Paulo Prado, com Retrato do Brasil - Ensaio sobre a Tristeza Brasileira, um sucesso editorial. A depressão brasileira, escondida pela malandragem, resultaria da fusão de três legados: a tristeza lusa dos colonizadores; a do índio, dizimado; e a do negro, escravizado.

Entre os viventes de Saturno nos trópicos, o que se sobressai é Oswaldo Cruz, o médico pioneiro que briga com os cariocas durante a Revolta da Vacina. É interessante que o protagonista de Sonhos Tropicais seja retomado como um dos guias do ensaio. Movimentos como a Revolta da Vacina, Muckers, Canudos e o Contestado foram reações extremadas à vocação ao desespero. Do mesmo modo, o carnaval, o futebol, a tropicália, o humor e a cachaça encarnam ações radicais do otimismo. O comportamento bipolar do brasileiro ganhou um intérprete à altura. Uma consulta com Moacyr Scliar assegura longevidade intelectual.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Caixa de sapatos (Companhia das Letras, 2003), entre outros.

10:29 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 24, 2004

ALINE

Eu nunca mais dormi tranqüilo desde que me falaste que eu roncava. Minha respiração era um latido que se agravou em uivo com a idade. Não sei mais suspirar ou bocejar. Não sei mais os movimentos lentos de quem sobe a escada para despertar. Antes, conseguias me silenciar me empurrando ao lado. Eu só uivava dormindo para cima. Depois, não importava a posição, passei a atazanar teus ouvidos. Passei a me sentir culpado durante os sonhos, a culpa converteu os sonhos em pesadelos, os pesadelos a atender desejos curvos e lancinantes do som. Levantava em sobressalto como quem não se cura de um crime. Eu, na verdade, não tenho responsabilidade, o que não me alivia em nada. Tanto zelei para ser educado, cordato, gentil contigo, não palitar os dentes em tua frente, não cuspir a gripe na rua, não ficar arrotando ou fazendo qualquer grosseria que te ameaçasse e, de repente, sou enganado pela minha natureza e um lado selvagem e indômito toma conta do sopro e da saliva. Talvez o ronco seja o apelo desesperado da asma, chaveada durante anos. Talvez seja a forma de minha asma gritar tentando te acordar para libertá-la. A asma quase matou minha infância e agora meu casamento. Meu pulmão envelheceu mais rápido do que meu rosto. Eu costumava cochilar no ônibus enquanto voltava do trabalho. Deixei de fazer isso com medo de babar e buzinar aos estranhos. Algo realmente me perturba, aqui nessa cama estreita, nesse coma, sem tua solidão para me adubar de sol. Eu apenas queria saber isso: será que estou roncando?

Com amor,
Fernando

10:08 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 23, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA

Fabrício Carpinejar

Eu tentei soltar pipa, a pipa não me soltou. Fiquei enredado de olhos. A pipa é uma vara de pescar pássaros. Eu esqueci meu casaco ontem. Eu não peguei o troco no lotação. Eu me desfiz em detalhes. Estou onde não começo. Se desfazer em detalhes é ser devoto dos ouvidos. Me pareço com a neblina. A neblina é um rio tímido. Eu queria pintar quando pequeno. Admirava o copo de requeijão com os pincéis dormindo. A tinta se espreguiçando na água, de camisola. Lembrava o mar de Tramandaí, que não é azul, mas água do azul. Queria trocar o copo de escovas de dente por um copo de pincéis. Meu tio tinha dentes pretos. Eu acho que ele trocou os copos. Em casa, havia um dia em que a milícia materna recolhia as revistas de mulheres peladas. Todos os esconderijos eram vasculhados, saqueados. Embrabecia com meu irmão caçula que ajudava a mãe a arrecadar as musas. As publicações raras e do mercado clandestino da escola queimavam na lareira. Inquisição doméstica. Depois é que fui entender meu irmão. Ele queimava as revistas para poder olhar as mulheres. O fogo era sua liberdade.

11:58 AM :: Comentários:

Deu no Jornal Zero Hora, Contracapa, 23/3:

SP, RJ e POA

Fabrício Carpinejar vai rodar o país lançando seu novo livro, Cinco Marias, um dos lançamentos da Bertrand Brasil para Bienal. No dia 13 de abril, o poeta gaúcho faz sessão de autógrafos em São Paulo, na Livraria Cultura (Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073). Haverá debate com a participação do escritor Marcelino Freire e leitura de poemas por Denise Silveira.

No dia 15 de abril, o autor aterrissa no Rio - Fabrício é o escritor convidado para abrir a nova temporada do projeto Rodas de Leitura, do Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66, Centro), onde autografa sua obra e fala sobre o panorama da poesia brasileira contemporânea.

Finalmente, no dia 4 de maio, às 19h30min, Carpinejar lança Cinco Marias em Porto Alegre, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country - Tulio de Rose, 80), com recital do autor acompanhado de Maria Carpi e franca conversa com Luís Augusto Fischer e Cíntia Moscovich.

10:45 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 22, 2004

FERNANDO

Nosso terraço ficou espremido entre dois edifícios. A cada andar novo dos vizinhos, perdíamos uma porção de sol nas roupas. Virei hamster girando a roda para entreter o tédio dos apartamentos. Alheio, dizias que uma figueira exalava o sol escuro da terra. Tuas metáforas te protegiam e eu permanecia vulnerável em minhas lacunas, em minhas verdades rudes que nunca foram pacientes para alcançar as palavras certas.

Sempre cheguei atrasada. Nas aulas, no cinema, no médico, no salão. Em tua vida, não foi diferente. Se eu tivesse a consciência que agora descobri, me deixaria mais ao léu. Eu me reprimia quando ninguém cobrava, eu me deprimia quando cobrada. Hoje quero colocar a perna para te atrapalhar na troca de marcha. Quero escutar músicas para denunciar a minha idade. Quero levantar o braço para fora da janela e regrar o vento com a ponta dos dedos. Fazer uma escultura do vento.

Eu me esforço para esquecer as coisas, mas elas persistem em minha letra. A lista do mercado, por exemplo. Ela acaba sendo desnecessária porque a memorizo depois de anotar. O mesmo acontecia no colégio. Na hora da prova, não usava a cola, apesar de portá-la como pulseira de relógio. Eu demorava horas a repassar as lições em letra miúda, a fazer um rolo de respostas, e assim decorava os mínimos detalhes. Não consegui me transgredir. Amar é também não amar. Deixar algo intocado, algo para amar depois. Amar é violentar o próprio amor para que ele não se esgote cedo demais.

Beijos,
Aline

10:33 AM :: Comentários:


Domingo, Março 21, 2004

CAPITU SOU EU
Foto de Jorge Bueno

Sou o entrevistado do site Capitu. Conversei com o articulista Édson Cruz. Ele aproveitou até os e-mails.

"Tudo é matéria de poesia, principalmente o que não existe. O pó pisado de um pão é matéria de poesia. Uma ave manca é matéria de poesia. Um homem que se esqueceu em um casaco é matéria de poesia. Uma mulher que pisca a boca quando mente é matéria de poesia. É se encontrar onde não estamos. É se perder onde estamos. É conciliar contrários, reunir o imponderável, fazer um esforço de solidariedade para que palavras amuadas possam enfim se cumprimentar. O poema é uma mão tremendo. Seguro no poema, não para aliviar o tremor, mas para ser contagiado por ele. A façanha do verso é desabituar os olhos, mostrar a naturalidade da luz, do erro, sua extinção e vacilo. Uma luz perto de queimar tem a mesma força da escrita."

"Sou uma criança que não tem medo da pergunta banal. É na banalidade que a comoção aparece. O grande problema da poesia: ela é um dom natural e a complicam para parecer difícil. Só o simples permanece."

Confira aqui o papo franco e descaradamente alucinado.

8:58 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS NA SEGUNDA

Recomeça a série de debates mensais com entrada franca da Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033). Nesta segunda (22/3), às 19h30, recebo os escritores Marlon de Almeida, que acaba de lançar Malabares ou clube dos incomparáveis, retratos cantados de profissões e personagens populares, e Celso Gutfreind, autor de Arte da rua, Prêmio Açorianos de Literatura 1994, e Fera Domada, eleito Livro do Ano 2003, categoria infantil, pela Associação Gaúcha de Escritores. Com o tema Poesia de bolso, haverá debate do processo de criação, leitura de poemas e conversa sobre o mundo dos versos, o dom terapêutico das fábulas e as perspectivas da poética brasileira contemporânea.

8:54 AM :: Comentários:

CONTOS, CRONÓPIOS E FAMA

Uma nova revista digital de contos, BESTIÁRIO, está no ar, dando espaço para novas vozes e resgatando escritores esquecidos na seção Em busca do autor perdido. O site faz uma homenagem aos vinte anos de morte de Julio Cortázar. Em seu primeiro número, traz inéditos de alguns dos mais respeitados contistas da Argentina, Brasil, Peru, Uruguai, El Salvador, Espanha e Portugal: Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Rodrigo Petrônio, Ronaldo Bressane, Joaquim Evónio, Jorge Reis-Sá, Leonardo Rossiello, Lluis Edo Marzal, entre outros.

8:51 AM :: Comentários:


Sábado, Março 20, 2004

SOPA DE FOLHAS
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Maria Leal da Costa

Fabrício Carpinejar

Eu não espanto as formigas do açúcar. Levanto as colherinhas sem barulho, alarde, censura. Estou me acostumando a aceitar divergências, não ser extremista e pedir tudo o que eu não sou. Pureza é se permitir contágios. Eu não quero tudo, quero apenas conviver com as formigas no pote. Elas não eliminam o branco. São a inexistência perfeita de nossa existência. As formigas sabem mais da chuva do que eu. E eu não sei tanto do sol assim para retribuir. Dizem que a floresta vira carvão. O carvão é floresta guardada. Quando o carvão quer escrever, ele queima seus rascunhos. Ninguém nunca descobre se o carvão tem tempo de ler o que escreve. O carvão é uma espécie de formiga do fogo. Ele já foi árvore e não quis ser livro. Não ser livro é continuar sendo árvore. Mas uma árvore com asas. Uma árvore com asas é como um peixe sem escamas. Um peixe sem escamas é capaz de voar. Só não o faz para exercitar o invisível. Exercitar o invisível é fazer de conta que não se vê enquanto se está vendo. A distração é uma observação atenta. Quando pequeno, preparava sopa de folhas. Meus colegas falaram que era coisa de menina. Deixei de fazer sopa de folhas para fazer sopa de abelhas. Meus colegas então falaram que era coisa de menino. Trocando os ingredientes, mudava o sexo das coisas. Eu vejo Cíntia e Luiz Paulo como quem se busca na formiga, no carvão, na árvore e no que ainda não apareceu nessa história por timidez. Cíntia e Luiz Paulo atendem o telefone na mesma hora. E sempre há a dúvida sobre quem vai permanecer na linha. Um dia, os dois desligaram na mesma hora e vi navios. Nunca entrei no navio, posso imaginar que seja um livro boiando. Um livro boiando relê a página várias águas. Cíntia grita o que Luiz Paulo fica vermelho. Luiz Paulo grita o que Cíntia não fala. Cíntia tem cabelo roxo. A beterraba é roxa, mas beterraba é beterraba e o roxo do cabelo dela é como neblina em céu de Londres. Cíntia e Luiz Paulo não gostam de Londres, gostam de Praga. Praga é parecida com surpresa de abacaxi. Surpresa de abacaxi quem faz é o Luiz Paulo. Luiz Paulo mexe o pescoço com um gato na hora de pular de um telhado a outro. Só o pescoço, o rosto permanece dois passos atrás. Cíntia ri alto, tão alto que ela não escuta. Mostra a língua quando escuta uma piada. Anda com uma mochila aparentada de bolsa. Os dois completam 21 anos de casados. Com 21 anos, minha Ana terminava um namoro de três anos, já pressentindo que eu chegava. Com 21 anos, eu me terminava, já pressentindo que eu partira. Estou aqui por insistência, como quem fez a prova e a segura para mostrar que é calmo. Eu sou calmo de pressas acumuladas. Minha paciência não tem pátio. Cíntia e Luiz Paulo têm pátio e duas redes. Eles ruminam ficção como quem acende a floresta do carvão, preserva as formigas, voam ao lado de peixes sem escamas. Cíntia gosta de lençol novo. Hoje tem lençol novo. Para não ficar triste, amanhã também haverá lençol novo. Ela tira os óculos para as fotos. Os óculos estão brabos com ela porque nunca aparecem nos livros, mesmo depois de ajudá-la a fazer. Os óculos são dois meninos sonolentos. Cada um apresenta seu grau de dificuldade. O mundo usa apenas um sapato. Um sapato roxo como o cabelo da Cíntia. A música para Luiz Paulo é o cinema da Cíntia. Eles se buscam na madrugada para nunca duvidar que estão acordados. Abrem a casa para pregar vozes no lugar dos quadros. A formiga se finge de açúcar para não parecer viva. A formiga é doce. Ninguém come formigas para adivinhar os dentes. Ninguém come pinho sol, apesar disso, ouvi gente falando que gengibre é pinho sol. A árvore, antes de ser carvão, foi pedra. Pedra líquida. Pedra líquida é friso de mar, coice do rio. Um novelo de nervos se desmanchando aos poucos. O rio coça seus cotovelos com excesso de luz. A luz é uma cebola sem cheiro, mas faz chorar quando é muito forte. Luiz Paulo é elepê. Ele nasceu para não ter barba. Se ele tivesse barba, não seria Luiz Paulo. Barba é tripé de fotógrafo. LP persegue partituras. Cíntia sopra a palavra como um ninho de assobios. Palavra é para não ser vista. Palavra é a inexistência perfeita de nossa existência. Ela não assobia para chamar alguém. Faz gestos largos de mão dupla. Se o braço esquerdo vai, o direito volta. Eu não lembro como comecei a amizade com eles. Quando a gente não lembra do começo, não há fim. Posso contar a história sem estragar o final. Amar é não fixar enredo. Amar é desenredar um verso, um carvão, uma formiga e até um peixe sem escamas.

10:28 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 19, 2004

Da série
MINHA ADOLESCÊNCIA É UM QUARTO DE EMPREGADA

Pior do que ter vergonha do passado é ter vergonha do futuro. Na adolescência, eu amava o que eu não era, o que não deixa de ser uma forma de amor. Depois passei a amar o que eu sou, o que não deixa de ser uma forma de desentendimento. Já fui muitos e bem poucos. Poucos muitos. Usava cabelos compridos até a cintura com uma franja de dupla sertaneja. Exibia um brinco de cruz, de latão, como Nina Hagen. Andava com um chapéu preto de meu avô. E, ainda por cima, vestia um macacão de mecânico. A Ana, se me conhecesse assim, olharia meus sapatos para não reparar no resto. Pior para ela: eu calçava sandálias. O cúmulo da breguice é que eu me achava elegante, pessoal e intransferível. Tinha razão em me achar único: ninguém faria essa combinação ridícula. Não havia festa que não aparecia com esse modelito. Era início da faculdade. Eu me achava tão cheio de si que somente poderia ser vazio. Lembro que puxava discussões por cisma, para irritar. Barulhava no fundo da turma como quem festeja o início de suíça. Em uma aula mofada como tarde de domingo, levantei a mão e perguntei ao professor: "se poderíamos estar mais mortos?". A aula terminou ali. Fui festejado pelos colegas, mas percebi que o professor lavou o rosto para evaporar a umidade verde dos olhos. E nunca fui grande o suficiente para pedir desculpa. A vontade de ser livre se transforma em arrogância. Pensamos que estamos sozinhos quando não estamos e depois ficamos sozinhos de tanto pensar que estamos. Em algum trecho de minha vida, eu me isolei para sobreviver e não sobrevivi ao próprio isolamento.

9:44 AM :: Comentários:

DIÁLOGO COM FLÁVIO MOREIRA DA COSTA

- Tens urgência de rio?
- Urgência só de riacho. Mas curiosidade oceânica.

8:59 AM :: Comentários:

ENTRE TRANCOS E ESPANTOS
Alberto Pucheu afirma sua poesia em um pequeno e precioso livro de apontamentos

Fabrício Carpinejar

Escritos da indiscernibilidade
Alberto Pucheu
Azougue
60 págs.


Um dos equívocos de leitura da poesia é acreditar que o autor é real. O poeta não é real, real é o leitor. O escritor e filósofo carioca Alberto Pucheu preparou seu caderno de notas, algo como uma bússola de sua poesia, apontamentos mínimos de sua travessia verbal. Relaciona a poética com a filosofia, casando as duas áreas em investigação da sensibilidade. Seus ensaios breves combatem o estigma da filosofia na poesia. Recupera a aura de uma produção literária fronteiriça, que já gerou no país a teologia do mínimo de Manoel de Barros e Adélia Prado, os mitos sedutores de Dora Ferreira da Silva, os teoremas de Orides Fontela e a alquimia de José Santiago Naud e Foed Castro Chamma. Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, é um exemplo de livro espesso ainda desvalorizado pela historiografia, apesar da vibrante metafísica, densidade arquetípica e exultação rítmica.

O título de Pucheu já causa a estranheza necessária: Escritos da indiscernibilidade. Lembra nome de tese pelo padrão culto e rebuscado, mas é uma fachada para elucidar semelhanças e diferenças entre os dois campos. Alberto começa polemizando, destruindo lugares-comuns como o de dizer que a filosofia e a poesia se alimentam das dúvidas e interrogações. Ele não desperdiça chances, como um autor que joga metade de um tempo para o time dos filósofos e a outra metade para o time dos poetas. Tudo fica empatado com os gols dele. "Poesia e filosofia não principiam pela indagação; nem pela dúvida. Mas pela exclamação das palavras que insistem em transbordar com o admirável, a ponto de não se distinguirem dele."

O que não pode ser dividido é poesia. A criação partiria de uma descoberta passional, não de um questionamento frio e higiênico. Emerge de uma revelação fútil, de um detalhe fugaz, em que o "próprio cotidiano se descobre extraordinário". O poeta não teria que decifrar o enigma, ele já é o enigma, procurando perdurar a beleza da verdade. Nesse sentido, não quer resolver o mistério, o equivalente a assassiná-lo, mas preservá-lo. A poesia é o transbordamento interno, nunca externo. Não está no verso, mas no seu trânsito entre o possível e o inadmissível. As instruções de uso são: "desalgemar o poético do poema, do que se convencionou chamar de poema; deixá-lo fugidio pela cidade, perigoso, arrastando o que lhe aparece pela frente". Resulta daí a importância do pensamento poético contar com o "auxílio dos escombros", ou seja, da destruição dadivosa, da afirmação pelo aniquilamento e da junção de coisas antagônicas em um mesmo invólucro. Uma dos trunfos de Alberto Pucheu é desestabilizar antônimos. "Habitualmente, compreende-se o prosaico como o contrário do poético. O contrário do poético, entretanto, é o próprio poético". Esse paradoxo talvez seja o maior acerto do livro ao perceber o poema como inimigo do poema. Quando uma metáfora sobrecarrega a outra, nenhuma faz sentido. O poema é escapar da metalinguagem, não se olhar no espelho, se ausentar, para fazer valer a vida. Assim retomamos a perspectiva do "poético como gênero desviante" de Benedito Nunes, um dos teóricos corajosos a fazer analogias entre a poesia e a filosofia a partir de autores como Hölderlin.

Na filosofia, os pensamentos se misturam, sem que cada um perca a individualidade Na poesia, eles se fundem, soldados em metal e imagem. Eles sacrificam a sua origem para ganhar uma outra textura, aparecendo mais como um espírito do que como corpo. Como diz Pucheu, o poema deriva de conexões inesperadas entre palavras cotidianas, das zonas de instabilidade. Articula-se dinamizando relações, e não estagnando idéias. A proposta de Escritos da indiscernibilidade, dividido em quatro capítulos, é admitir a casualidade e o improviso na ação lírica. "Para que, na complexa trama da superficialidade, um pensamento poético, incondicionalmente a favor da vida e de seu perigo oscilante, aposte no presente irretratável." Falar não é aceitar a fala, mas desafiar a fala, resistir às facilidades. Buscar a simplicidade orgânica, não o simplório. Difícil? Não, se o escritor optar pela fluência do que ouve do que pela ambição de ser ouvido.

A filosofia e a poesia aparecem irmanadas, com destinos complementares, ainda que diferentes. "Há poetas que até sabem escrever, mas como pensam mal! E filósofos que sabem pensar, mas como lhes falta o ímpeto da criação!", ironiza Pucheu, fiel adepto da gramática da rua e da sintaxe do trânsito. O escritor defende o tratamento de esgoto da literatura brasileira. Pede bueiros nas páginas, prevenindo a inundação sentimental e o experimentalismo oco.

POESIA HIPER-REALISTA

Alberto Pucheu, 37 anos, é de uma linhagem que não separa a poesia da vida. Olha simultaneamente à esquerda e à direita, para "a paisagem e o livro". Evita a faixa de segurança: tem conhecimento de causa que a poesia serve para dizer o que não somos, ao contrário dela decretar um perfil definitivo. Com cinco volumes publicados (Na cidade aberta, Escritos da fragmentação, A fronteira desguarnecida, Ecometria do silêncio e A vida é assim), une a tradição reflexiva clássica com o despojamento verbal e andamento coloquial modernista. Representa um filósofo leigo, cujo sistema de pensamento é constituído de praias, favelas, ruínas e arranha-céus. Obsessivo, temas voltam à tona confirmando uma seqüência antológica entre seus livros.

A vida é assim (Azougue, 2001), seu livro de poesia mais recente, tem um viés digno da escola de cinema italiano neo-realista. "Entro, com os pés descalços, na cidade aberta." Além das coincidências, cidade aberta remete a um dos filmes mais conhecidos dos anos 40 de Roberto Rosselini e o título de estréia de Pucheu.

Entretanto, o poeta não quer imitar a realidade. Sugere um hiper-realismo, com um toque macabro de imaginário para extrair o melhor e o pior dos dias. Decantado em três capítulos, a obra contém 13 poemas em versos livres, três crônicas poéticas e uma tradução de um poema inexistente. Em linhas gerais, apresenta um homem na crise dos 30 anos, que avalia com pessimismo as possibilidades de seu futuro.

O sumário já permite perceber que estamos diante de um texto especial. Prosa e poesia trocam de guarda, ambas alicerçando a expansão e elasticidade da linguagem em direção à vertigem do cotidiano. "Difícil ficar ileso aos verdes da manhã, ao trabalho diário, aos acontecimentos que, mesmo corriqueiros, me contaminam."

O escritor enquadra as miudezas com luz natural e foco crítico. Tudo passa para permanecer. A intensidade da sonoplastia revela-se no pendor discursivo e antiformalista. Capta inclusive os ruídos e os choques, incorporando ao vocabulário termos abruptos e pouco poéticos, a exemplo de "hidropisia" e "rinocerôntica". Em seu caldeirão de timbres, fotografa o vaivém de vendedores entre o trabalho e o lazer.

Não existe uma única interlocução e nível de linguagem. São vários estrados sonoros e visuais. A diferença é que o autor medita com serenidade, tem consciência dos seus alvos. "Recolho do mundo uns tiros de espanto". É um atirador de elite, disposto a abrir as fronteiras da cidade e do próprio canto.

Ao pontuar "todo lugar é Rio", também afirma que todo lugar é poesia. O zelador com radinho de pilha, o entregador de lista telefônica e o varredor de rua são catalisadores da eletricidade de suas observações. A fluência descritiva e irônica lembra Tabacaria de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. A visão não é a de um ponto fixo, de alguém parado em uma janela, e sim da janela em movimento de um automóvel. Não existem encontros, mas esbarros e acidentes. "Acataria sua espontaneidade de querer ser o que não se é (para só aí ser)." Ocorre a desfragmentação do sujeito. Não há uma casa para centrar o repouso.

A velocidade é identificada pelo ininterrupto deslizar. Algo sempre escapa, empurra para frente, impede a reprise. É um movimento que não aceita marcha à ré, um "arrastar contínuo" pela dispersiva multidão. Os versos de Meditação à beira da morte concentram as principais virtudes do conjunto, uma visada filosófica sobre o trivial e o excesso de memória que nos distrai. "Apenas o sopro,/ último reduto que ainda me resta, resiste/ na tensão do que falo, no negativo de minha própria voz./ Só terei o esquecimento de mim, esperando esquecer/ até o esquecimento..."

Pressente-se uma lírica que se afirma pela negação, com a absorção de expressões populares como "me inclui fora dessa", "vaso ruim não quebra" e "mostrar pra essa gente como é que se faz". As "metáforas mortas" - os ditos folclóricos - intercalam as metáforas vivas e pessoais, fortalecendo os instantes de revelação.

Pucheu diz a metade do que ambicionava proclamar, deixando a impressão de que as palavras não foram capazes de exprimir o que desejava. É uma deliberada inconclusão. "As palavras me fogem." Refratário à idealização, sugere, incita e provoca o leitor, esperando sua reação. "Não vivemos da melhor maneira: mas da maneira possível."

FABRÍCIO CARPINEJAR é jornalista e poeta. Autor de Cinco Marias (Bertrand Brasil, no prelo), Caixa de sapatos, entre outros.

(Jornal Rascunho, edição de março de 2004)

8:48 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 18, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA

Texto de Fabrício Carpinejar
Gravura de Arthur Bispo do Rosário

"Uma casa somente será tua casa quando fores o primeiro a sair"
Rodrigo Nejar

Eu gosto de casas antigas, apartamentos antigos, com paredes caiadas e portas e teto enormes. Casa deve ser um livro com figuras, não somente palavras. Tem que contar com quadros herdados, com olhos atrás dos quadros, com objetos que não sabemos ao certo de onde vieram. Uma casa não pode permanecer arrumada, como se estivesse à venda. Uma casa depende de alguma desordem mínima, um atalho, um alçapão, um porão, uma caixa de sapatos, para conservar mortos. Uma casa precisa ser estranha por fora e íntima por dentro. Uma casa tem que ter espaço para cuspir neblina e telhas para derreter queijo na chapa. Uma casa tem que mostrar infiltrações de vez em quando, gripe, chorar pelas paredes. Uma casa sem lagartixa não é ainda uma casa. Uma casa tem que apresentar uma saída pelos fundos, mesmo que seja a janela. Uma casa tem que pedir esmolas ao sol no inverno. Emprestar sede ao vizinho no verão. Seu telefone é o varal. Uma casa não pode ser uma repartição pública, os arquivos estão semimortos. Uma casa sem rabiscos de criança na tinta nova não é uma casa. Uma casa tem que deixar os cabelos compridos, cumprir ninho crespo nos olhos, esboço de pássaros. Uma casa ainda não é uma casa sem as histórias dos antigos moradores, sem o medo dos antigos moradores, sem a alegria do medo dos antigos moradores. Uma casa tem que disputar corrida com a ameixeira. Uma casa deixa seus filhos sozinhos para procurar comida. Uma casa cisca estrelas para discordar da insônia. Uma casa tem que deixar a luz acesa na varanda. Uma casa ainda não é uma casa se não tropeçar no escuro. Uma casa quando ama corta a grama, corta as unhas das sombras. Uma casa odeia seus pais pela liberdade e odeia a liberdade para se reconciliar com os pais. Uma casa tem que ser mansa como a relva, não fazendo barulho ao percorrer a terra. Uma casa furta o miolo do pão e deixa só a casca. As formigas são as artérias da casa. Uma casa toma chá de boldo quando recebe muitos hóspedes. Uma casa toma café forte para se sentir sozinha. A casa é um homem que cochila na palestra da rua. Uma casa respira pela boca. Uma casa ainda não é uma casa se não embrulha os chinelos em jornais. Uma casa precisa de espelho no bolso direito do armário. Uma casa ainda não é uma casa se não escorre como mel abundante pelo pátio. Uma casa se contradiz quando mente. Uma casa se deslumbra com a verdade e exclama pelo portão. Uma casa espera nunca morrer numa reforma. Uma casa aumenta seu quadril depois da primeira gravidez. Uma casa ainda não é uma casa se não desaparecer secretamente na gente.

10:01 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 17, 2004

Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA:

Fabrício Carpinejar
Gravura de Portinari

Quando passo por um jogo de futebol, várzea ou bate-bola na rua, ando com minha cabeça virada como uma cadeira giratória, uma girafa, para não perder nada. Posso tropeçar feio. O que está à frente é o que fiz atrás. O futebol é algo como uma hipnose. Eu tinha um tênis branco de pano. Era meu preferido. Eu o obedecia, ele mandava em mim, virei seu brinquedo. Acreditava que me transformava em craque ao usá-lo. Meus patins esfarrapados. Quanto maior sua gastura, mais macio se tornava. O par ficava imundo da terra vermelha e dedicava horas da noite para esfregá-lo na tábua do tanque. Esfregava como quem dedilha madeira para descobrir fogo. Confiava nele como verdadeiros pés. No bairro, as partidas aconteciam sem rede na trave. Rede na trave significava festa e campeonato, presença dos pais e piquenique. A respiração aquecia demais nessas horas, provocando insônia e conversas repetidas durante a véspera. Quando sorteávamos o lado do campo, procurávamos colocar o adversário no lado esquerdo. Nem aí para a posse da bola. No canto destro, no fundo da goleira, havia um formigueiro. Nossa tática consistia em acertar o formigueiro no início do jogo. Se explodíssemos o monte com força, gritávamos gol, diante da incompreensão dos visitantes. As formigas vermelhas saltavam raivosas, iradas, irritando ao longo da partida o goleiro adversário. Obrigado a se adiantar, a vítima facilitava qualquer lance por cobertura. Aos poucos, a gente foi sofisticando as ciladas. Tivemos casa de joão-de-barro na forquilha e colméia atrás do alambrado. Não preciso dizer que o nosso time se chamava "Animais". Exageramos na final do campeonato entre a rua Lageado e a Soledade (ah, os guris tinham que morar na rua para participar do time. Uma das indecisões comerciais foi um guri que morava na esquina de uma e de outra). Um cão fila vinha sendo nossa mascote, devidamente preso numa coleira. Amava a bola mais do que o osso e ficava histérico ao assistir uma partida. Histérico mesmo. No final do jogo decisivo, com o escore zerado, ele se soltou. Vi um corredor polonês se abrir ruidosamente. Ele correu como um cavalo em hipódromo. Tomou a bola na pequena área, enquanto o goleiro deles fugia gritando. O cão arrastou a esfera com a cabeça, lanhando perigosamente seu pêlo, e entrou com tudo dentro da goleira, sem deixar de morder e furar o couro. Ele latia e rodopiava de euforia. O juiz, casualmente meu tio, apitou gol. Como não havia bola para repor, o campeonato terminou naquele momento, com nosso time fazendo vaquinha e comprando ração de cachorro para comemorar.

10:03 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 16, 2004

ALINE

Eu sou um nada que não está lá, um nada que não está aqui. Não estou no mundo para dizer quem sou. Muito menos fora dele para dizer quem fui. Não há paz no cinismo. Comportei-me mesmo como um cavalo calado, um cavalo que sentiu o caminho errado, mas apenas obedeceu as rédeas do dono. Se eu errei algo, foi por desconfiança de minha voz. Hoje eu preciso urgentemente de um pátio. Visitar minha mãe para abrir a porta de metal pesada e chegar aos fundos de mim, das laranjeiras e dos limoeiros. Eu preciso urgentemente de um pátio, ficar estirado na grama. Os pés descalços como antenas de um inseto. Ficar parado, com o único trabalho de mover os ouvidos para localizar as cigarras. Eu me vejo, Aline, como um vigia do bairro em sua casinha de esquina, com uma televisão portátil na mesa, trancado, fingindo cuidar da rua e fazendo o possível para não dormir, sem força para confirmar os latidos. Essa casinha diminuta é o meu corpo, trancado por fora. Eu reparava em teus cabelos. Mas nunca consegui me antecipar as suas queixas. Mal chegava e já dizias que eu não havia observado. Da infância, eu me lembro do carrinho de rolimã, que riscava as calçadas da rua e assaltava a sesta. A velocidade me inchava. A vizinhança saía enfurecida atrás da gurizada. Depois passei a riscar páginas, outra forma de pedra. Eu ainda temo acordar os vizinhos com meus versos. Eu tenho remorso do que ainda não amei em ti. Tenho remorso de ter escrito mais do que sentia, de ter escrito para alcançar o que sentias. A literatura nos engana. Ela nos antecipa. Pensamos ter vivido o que escrevemos e deixamos de viver depois porque já está escrito. Será que não fui inventado por ti ou me inventei para não sofreres com o que realmente sou? Eu não sei se digo o que queres ouvir, se ouço o que não sei dizer. Tudo é desejo. Eu sonhei que o quarto estava banhado por uma vela vacilante, viscosa, serpente sem língua. E ficava a orar para que ela não se aproximasse tanto. E o vento a jogava cada vez mais perto. E a vela tinha um piercing, que percebi depois ser tua aliança. Não, não consigo me manter de pé, não sou como uma barata que sobrevive duas semanas sem a cabeça. Tu odeias barata. Colocavas o lixo em cima do ralo para não sofrer invasões. Me fazia revirar todos os cantos antes de apagar a luz. Nem leste Lispector para conservar teu ódio. Gritavas quando aparecia uma. Gritavas e pulavas se ela mostrava asas. Uma barata com asas é o inferno. Isso não poderia ser permitido. Nos permitimos tarde.

Com amor,
Fernando

8:56 AM :: Comentários:

ESTAREI NA MORTE DO PÓQUET
(Entrada franca, Bar Zelig, Porto Alegre/RS, quarta, 22h)


8:53 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 15, 2004

FERNANDO

Quando ficava distraída, era triste. Atenta, não sou ainda alegre. Algo queria te dizer, mas nunca acertei o momento de falar. Me preservaste. Não há maior amor do que preservar, guardar segredos. Se soubéssemos o que os amigos falam da gente, não teríamos mais amigos. É bom não ouvir, não estar perto, não morrer. Prevalece uma maldade involuntária, uma observação injusta que confunde e embaralha. Podem ser íntimos, pai e filho, mãe e pai, marido e mulher, e não importa: haverá ali uma vontade de colocar as pessoas sob suspeita, de destruir memórias com piadas, de conspirar e fechar vagas e relacionamentos, de fazer comentários insípidos com a alegação de que "falei sem pensar". Entre a infância e a infâmia, a vida é um insulto.

Não tenho idéia do que esgotou minha vida: o pai que deixou a casa, visto como um algoz, ou a mãe que ficou como vítima. Uma verdade que insiste em ser repetida não é verdade. O que me faz mais mal? Eu queria tua traição, teu abandono de casa, que me tomasses por outra. Eu tenho ciúmes do que não fizeste. Por que não me deste motivos para te odiar? Tudo fica mais complicado. Por que não foste meu pai para eu ser minha mãe? Eram os únicos papéis que eu sabia de cor. Eu queria ser vítima, não te perdôo por me teres dificultado, por me fazer ser o que ninguém me ensinou. Minha vó me dizia: o pior homem é o que dá certo. Ficaste comigo como um cavalo calado, com uma compreensão que é bem melhor do que a paciência. Me preservaste. Não falaste minhas inconfidências a estranhos, não me tornaste pública, apagaste as bobagens. Me preservaste até de mim.

Estou derramada de escuridão. Cortaram-me os cabelos. Não, tu não notarias. Percebes apenas quando aparo as sobrancelhas. Traço fino, nanquim. Corria entre lápides e ciprestes, derrubando vasos e flores. O cemitério era o meu terreno baldio. Minhas bonecas tinham suas camas de pedra. Visitávamos estranhos, fazíamos chá e bolachas de folhas. Meus olhos de vidro nas bonecas. Eu não paro de correr. Sou indecisa até para escolher um epíteto. Vivi confortável como uma citação, entre tuas aspas.

Beijos
Aline

8:34 AM :: Comentários:


Domingo, Março 14, 2004

O ESTADO DE S. PAULO, CADERNO 2/CULTURA, domingo, 14/03/04:

Obra traz variações poéticas de uma única cena
Autor de 'Ao Redor do Escorpião... Uma Tarântula' reúne antigo e novo em prosa vulcânica

FABRÍCIO CARPINEJAR
Especial para o Estado

O grupo Oulipo fez sucesso na França, nos anos 40, ao propor a literatura como uma matemática metafísica, espécie de laboratório da realidade, vivendo as inúmeras hipóteses de um enredo. Um dos líderes da turma, Raymond Queneau, em seu livro Exercícios de Estilo, traçou 99 variações de um homem entrando no ônibus. Disposto a abolir o acaso, George Pérec também participou da revolução, criando o monumento ficcional A Vida, Modo de Usar, um romance quebra-cabeça que registra a vida polifônica de um condomínio. Italo Calvino talvez tenha sido um dos mais célebres entusiastas da experiência, armando seu O Castelo dos Destinos Cruzados a partir do jogo do tarô. Retrocedendo séculos antes, encontra-se igual princípio na música de Johann Sebastian Bach. As fugas de Bach trazem variações generosas de um único tema. Na Argentina, Cortázar empreendeu o enredo elástico em Jogo da Amarelinha, legando ao leitor a chance de reagrupar a viagem de diferentes maneiras e capítulos. No Brasil, o pernambucano Osman Lins surpreendeu a crítica com Avalovara, concebendo a criação como uma construção lógica, simétrica e premeditada. Ordenou a história de Abel e suas três mulheres com total controle, tanto em número de capítulos como de linhas.

Um conterrâneo de Lins, Raimundo Carrero segue o modelo de obra aberta. Em Ao Redor do Escorpião... Uma Tarântula? (Iluminuras, 186 págs., R$ 35) tempera a matemática literária com o descontrole da paixão. Apresenta uma única cena: Alice com um revólver na mão querendo matar seu marido Leonardo, enquanto ele dorme. Nada mais. O livro se descortina em três cantos: a tarântula ronda a morte e improvisa; na ponte flutuante do céu, o escorpião; e o escorpião beija a rosa da tarântula. Esse nada mais é tudo.

Autor de A Sombra Severa, Somos Pedras Que se Consomem (Prêmio APCA) e As Sombrias Ruínas da Alma(Prêmio Jabuti), todos pela Iluminuras, Carrero potencializa ao extremo do silêncio a escolha da esposa em matar ou não matar. Não há nenhum motivo aparente como traição, ciúmes, vingança para a eclosão do ato, o que ajuda a crescer o estranhamento e o suspense. Pode ter sido a indolência da tarde de domingo ("Um domingo sisudo, cinzento, quando nem se pensava na existência de Deus") ou o pedido dele para cortar as unhas. Na verdade, ela toma essa atitude pela total ausência de motivos, pela felicidade que não compreende e que vicia. O escritor mais diz ao se recusar a dizer. Ao invés de dar um mundo ao personagem, deixa o personagem criar e apresentar seu mundo.

Carrero utiliza a própria pontuação para firmar o temperamento e timbre do personagem. Diferente de Osman Lins, que sinaliza seus personagens no início dos parágrafos, internaliza as vozes no texto. Representa Alice nas interrogações e nas vírgulas e Leonardo nas reticências. A narração oscila do naturalismo ao poético, se passando menos num tempo fixo e mais dentro da imersão dos corpos, agindo semelhante a um ecocardiograma. Escrita jazzística, salta para longe para depois voltar pelo caminho inicial. A frase matricial - "O que faz uma mulher apontando o revólver para o marido?" - acumula descrições, variações de estados de espírito, interpelações como uma bola de neve, sempre retomando o ponto de partida. Ocorre uma sucessão de improvisos girando ao redor desse núcleo. Alice não "quer ofender as carnes", procura um jeito silencioso e apaziguado de matar. Quer uma morte bonita, limpa, um morto decente para talvez amá-lo em seguida. A compulsão pela morte não destoa da pulsão sexual. A morte excita ainda mais, aproxima o par, inibindo qualquer separação, distração e fuga. "Seria escandaloso matar o marido - escandaloso com absoluta convicção seria não matar o marido." Não é uma paixão à toa, é uma paixão pensada, que perdeu os preconceitos e também a noção do que é direito ou errado. Fia-se na dúvida, na crença ingênua de comandar o destino. O trunfo do romance é mostrar veladamente um ménage à trois: Alice, Leonardo e a morte. Será que ela ama a morte mais do que Leonardo? Será que ele não a deseja como uma morte? Em estado simultâneo de observação e obsessão pura, Alice se assiste com a arma em punho, como se fosse uma mulher além dela. Uma mulher supra-real, que precisa "alimentar o revólver" como um amante.

É interessante perceber o quanto na superfície urbana da trama, na linguagem coloquial de Raimundo Carrero, existe um inconsciente simbólico, que reúne o ancestral e o novo em uma só procura. Raspando a consciência da linguagem, aparecem signos medievais do nordeste como o carneiro, a donzela, o arco-íris, o príncipe, elementos determinantes do universo armorial de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna. Carrero concilia duas dimensões, a princípio incompatíveis, servindo com clareza o imaginário sem desfavorecer a realidade, o folclore sem descuidar da tessitura contemporânea. Seu jogo alegórico de aproximação da tarântula com o escorpião indica que ainda é possível renovar os mitos.

Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de "Caixa de sapatos" (Companhia das Letras, 2003), entre outros.

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Sábado, Março 13, 2004

ALINE

Está frio aqui. Como a vez que meu pai me empurrou no rio com roupa e tudo. E o tecido grudava como um osso sem pele. Eu ainda escuto a chuva e a chuva me avizinha de tua voz. Estive muito perto da loucura e toda vez que me aproximei dela pensei que fosse morte e voltei atrás. Não tive coragem de me superar e ver o outro lado. Nunca pensei que a terra do corpo fosse tão espessa. Ver teu outro lado, sem minha opinião te condicionando. Se há uma morte para amar, que sejas tu. E mais ninguém. Não saberei dizer o que vivi para outra pessoa. Deus é também um estranho. Tua existência é a única que contesta a minha. Debaixo das crinas e cinzas, dos cachos e cabelos, das plumas do som, quero ficar, aquecer-me como quem senta no meio-fio de uma calçada, para rezar os carros que passam. Eu que passei a infância a disputar com meu irmão o tipo do carro que apareceria em nossa pacata rua. Nos trapos tristes, há chuva. Nos objetos abandonados, há chuva. Nas mulheres com véu, há chuva. Na esquina soluçando um velho, há chuva. O mundo cansou de escorrer. Até a água está cansada de nos ferir. O inverno não deixa de ser um mendigo. Eu me lembro de coisas triviais, como tu urinando no escuro, com medo que eu ouvisse. O que está separado não está perdido. O que está perdido é inseparável. Uma vida nunca está definitivamente seca. As roupas nos esperam. Eu não me lembro dos meus pés. Dos meus cotovelos. Não lembro dos elevadores, da lã amontoada no umbigo com as camisas novas. Não lembro se as papoulas são verdes ou feno pisado por cavalos. Não lembro dos teus olhos, mas não esqueci de teus cílios, o tamanho deles, os cílios guardando a chuva, o espaço para dois. Não gosto daqui, não gosto da morte, há lugar demais e parece que não vamos chegar. Corto o meu tempo e cada gomo é tua boca.

Com amor
Fernando

11:59 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 11, 2004

SEM JOELHOS COMO OS PEIXES

Fabrício Carpinejar
Gravuras de Franz Kline

Esse texto não é para ser lido por ti. Não começará ou terminará com um obrigado ou por favor. Como uma carta que nunca é encontrada, uma carta que se perdeu e ninguém te avisou. Será uma carta que te escrevi sem recompensa, uma carta pura, não esperando retribuição de um telefonema. Uma carta que escondi em um sapato antigo e acabaste doando a uma outra pessoa, sem nunca tocar o fundo. Uma carta não lida como um dicionário. Uma carta lacrada como o fogo, aberta como o fogo. Uma carta como uma raiz trincando o vaso, um brinco sem par. Uma carta que não é consolação, que não me explico, que não cobro, que não peço nada. Uma carta assim como um vestido usado uma vez, como um número anotado às pressas, como uma aliança que nunca se tira. Uma carta feita com devoção, para dizer que o caracol sempre está reformando a casa, que o mar quer discutir a relação no fim do escuro, que o limão pula do trapézio sem proteção. Uma carta mínima para dizer distrações, soprar inconfidências, para não resultar em testamento. Uma carta que é livro infantil, com mais desenhos do que palavras. Uma carta tímida como uma conversa em parada de ônibus. Uma carta inconseqüente, como todo amor inconseqüente, com a fúria que não arredonda as unhas. Uma carta como quem anda nas marquises para recolher seu gato. Uma carta sem salto, sem gola, sem gravata, sem dedicatória, assinatura e data. Uma carta que seja a de um estranho em tua casa. Uma noite sem o fiado de estrelas, trigo que acorda disposto a cortar as tranças. Uma carta que fala separado por um balcão, um portão, um muro. Que fala com o corpo avançado e as pernas recuadas. Uma carta espalhada em pedaços como cigarras no quarto. Uma carta com verdades e neblina, sem orgulho e sono, dobrado como uma mapa rodoviário. Uma carta com o esqueleto de um pêssego. Que não pode ser destruída porque não chegaste a ler. Uma carta como um bilhete velho, uma nota velha, uma bolsa de praia. Uma carta que ajuda o rio a escolher sua roupa, que não floresce em pó. Uma carta como um filme sem legenda, uma bondade desajeitada, um número de crachá. Uma carta que não tem joelhos como os peixes. Uma carta que se pronuncia redondo em cada vogal. Sem a pretensão de poema, sem a concordância dos defeitos. Uma carta compacta como um favo. Que olha de longe, que vive perto. Esse texto não é para ser lido por ti. Sou o que me procura mais do que procuro. Às vezes, acontece coincidências. Como essa carta.

10:22 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 10, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA

Fabrício Carpinejar
Gravura de Richard Hamilton



O mundo não é o que a gente vê, mas o que pensamos estar vendo. A cor azul é a única que não grita. Meu quarto é um estojo de violino. O mundo não é o que a gente vê, mas o que estamos pensando estar vendo. Meu irmão regava o violão toda hora. As cordas entristeceram violetas. Pensamos que sabemos tudo. Quando não sabemos nada, começamos a entender. Repara: um homem perto de morrer parece uma bicicleta abandonada. As abelhas são formigas em dias de carnaval. As formigas são abelhas em dias de chuva. Repara: as uvas são nossos olhos plantados. As parreiras se aproximam porque sentem frio. O pior não acontece, o pior pode ser o início do que não aconteceu. Ao menos, o inferno não precisa ser construído. O mundo não é o que a gente vê, mas o que estamos pensando estar vendo. O mar é como um livro de poemas, deixa páginas em branco. Ficar quieto é ficar triste. Ficar ruidoso é ficar alegre. O mundo não vai acontecer se a gente não chegar a sê-lo. Entre o amanhecer, o entardecer e o anoitecer, o louco não é o mesmo, o pai não é o mesmo, a mãe não é a mesma, a criança não é a mesma. Ninguém é o mesmo, mesmo que se repita. O mundo é bem mais fácil, o que torna tudo difícil. Procuramos complicar para dizer que levamos tempo. Levar tempo não é levar eternidade. Repara: o bicho-de-seda não sabe se vestir. Na cozinha, até os quadros são talheres. O vento vem de cima. Não há muros no verão. O inverno é luto obrigatório. O rio ri sozinho. Uma garrafa vazia é uma boca sem dentes. O mundo é bem menor do que um chapéu, mas maior do que uma cabeça. O pescoço feminino é como derramar um jarro, descer os degraus da água. Uma esperança é melhor do que uma mentira. Esperar alguém é melhor do que mentir que se espera. O bosque é violeta de noite. Os pássaros são relâmpagos que cansaram. O mundo não é o que a gente vê, mas o que pensamos estar vendo. A gente cresce para se separar, a gente deveria crescer para nos alcançar.

10:24 AM :: Comentários:

VINTE MIL

Nosso blog atingiu a marca dos 20 mil visitantes em sete meses. Na semana passada, constou na lista Blogs of Note como uma das dez páginas que mais chamaram atenção do provedor Globo. Eu agradeço a todos que passam aqui, tímidos ou não, e que nunca se intimidam em acreditar que a coragem de um verso pode descomplicar a vida. Eu leio os comentários com a alegre inquietação e certeza de que me revelo com maior clareza nos outros. Meu avô italiano recitava um poema que servia de seu relógio. Não era um poema para ser dito em qualquer momento, mas na hora que ele pretendia encerrar o assunto: "Espera: a água passa, a sombra fica". Ele dava uma batida com o punho na mesa. Até hoje apenas me recordo do verso com o barulho trepidante da madeira. Tentei isolar o som, mas fracassei. Essa poesia de Pascoli não deixa de ter um significado especial: procuramos um pouco de sombra nas palavras. Uma sombra que seja memória da água.

9:43 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 09, 2004

MÍNIMAS:
Gravura de Richard Hamilton

* Me aproximo do mar. Os pássaros não se afastam, não se levantam. Não sei se estou morto ou leve.

* A noite usa chapéu porque perdeu cedo os cabelos da luz.

* Eu estudei jornalismo com pombas arrulhando nas janelas. Eu me formei em estômago de pombas.

* Escreve-se cartas para se convencer que as mentiras escritas são verdades.

* Eu sou órfão de mim

* Minha vó fazia figos em calda, mas a madeira da despensa tinha gosto de macieira.


10:56 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 08, 2004

MÍNIMAS:


Foto de Renata Stoduto

* Sou tão sincero que parece mentira.

* Eu permaneço fora de mim, como sempre. É o melhor lugar para ser encontrado.

* A árvore também suspira. Esse sopro cansado é semente.

* Nada é mais velho do que uma moda.

10:58 AM :: Comentários:


Domingo, Março 07, 2004

MAIS DO QUE QUATRO PALAVRAS
Gravura de Van Gogh

Eu perdi um amigo que não conheci. Um amigo que poderia ter conhecido, mas que nunca parei para trocar mais do que quatro palavras sobre futebol ou música. Eu freqüentei o café de sua mãe, Ivone, durante muito tempo até ele fechar. No recanto de seis mesas, conheci minha Ana, promovia rodadas absurdas de expresso com amigos, a ponto de tomar uns cinco em seqüência antes de ir trabalhar. Muito além do lazer, Ivone virou uma extensão do lar, assim como a Marcinha que atendia. Falava de seus filhos com uma ternura incansável: Alexandre era um deles. Recebia relatos atualizados de suas conquistas e pequenas vitórias. Fiquei sabendo que se formou em jornalismo na Unisinos, que se acordava de madrugada para chegar na Rádio Gaúcha, que namorava firme, que era sério e atencioso, que era brincalhão com os amigos, de que não substituía a lealdade por nada que fosse, que amava sua casa. Ivone usava o 'você', herança paulista. Tirava os óculos, já com os olhos enevoados, quando comentava os feitos de sua meninada. Limpava as lentes na camisa. Um ritual repetido. Depois colocava os óculos novamente e voltava a servir os clientes com uma agilidade sonâmbula. Eu admirava aquela família, que chegava como um arrastão em qualquer lugar, todos juntos, seja no teatro, seja nos restaurantes. Alexandre ficava pouco, porque passava a maior parte do dia em Porto Alegre. Ele cumprimentava levantando a cabeça, como alguém que nos pede para ir em frente.

Alexandre morreu na última semana. Tinha 28 anos. Foi derrubado pela leucemia. Desde que descobriu a gravidade da doença em 2002, lutou sem parar, acompanhado da Ivone e de seus irmãos. Nunca o vi em desespero. Encarava o problema como uma pauta difícil. Enfrentou a maratona de hospitais, com a esperança de retornar à rádio. Fez campanha para doadores de medula. Tranqüilizava mais do que era consolado.

Eu não entendo a vida. Densidade não há só na desgraça. Não entendo a vida, que me constrange e fere, que me envergonha, que não me permite voltar atrás, que me deixa sem ação, ridículo, inútil sapato sem outro par, inútil guitarra sem cordas, inútil até para chorar. Sua cotovelada de relâmpago no rio, que muda a direção do curso das águas, sem pedir desculpa, sem consultar o que pretendíamos. Ela complica o que nasceu livre, liberta o complicado, provoca onde existia paz. O ar apunhala como uma faca enferrujada, um vento enferrujado, e são tantas sua tentativas de nos cortar, que um dia a gente abre a guarda. Não, não caminharei mais com prudência, serei mais do que quatro palavras.

A vida pede para que a gente apenas olhe, não a interprete. Se é assim, Alexandre não morreu. Mudou de endereço. Só teremos que nos esforçar mais para enxergá-lo.

10:26 AM :: Comentários:


Sábado, Março 06, 2004

BOLINHOS DE CHUVA
Gravura Matisse

A gente se cobra tanto que esquecemos de fechar a porta. Deveríamos nos pressionar menos. Aceitar que esqueceremos sempre alguma coisa a sair, de que é natural não se lembrar de tudo, de que não adianta se explicar, o melhor é viver sem sinalização. Tão simples. Extraviei a ingenuidade e não coloquei nada em seu lugar. Talvez minha ingenuidade fosse comer bolinho de chuva no sábado de tarde. Ingenuidade é quando temos vó para fazer nossos desejos. Depois, maduros, nossos desejos são bem mais difíceis. O cotidiano poderia ser mais líquido, menos temeroso. Trabalha-se para conseguir reconhecimento que se perde dentro de casa. Fica-se com a família para conseguir o reconhecimento que se perde no trabalho. É necessário pular do jogo de compensações, se permitir não ser bem informado, não saber o que acontece, não depender do tempo para definir o que fazer no dia. Ler um livro que não é lançamento. Ler uma revista velha de consultório de dentista. Cortar o cabelo diferente. Escolher um filme no escuro. Fazer palavras cruzadas com ajuda dos resultados. Tomar a cerveja da visita que não apareceu. Ligar para amigos sem um pretexto. Permanecer de bobeira, ingenuamente de bobeira. Não estocar, não se guardar, não se esconder, não esperar o pior, não xingar. Compreender que o outro pode estar falando a verdade, mesmo que a verdade não seja o que gostaríamos de ouvir. Tanto que recebi uma mensagem de um amigo que fala do distanciamento adulto, do isolamento adulto, que não é solidão, que é algo que nos adia até nos adiar novamente:

"Chega uma hora em que não nos esforçamos mais para aprender. Aprender o que o outro quer, o que o outro precisa. Tudo se torna causa própria: minha família, meus amigos, meu trabalho, minhas festas. E o resto que se dane. Eu lembro de minha irmã mais velha. Era ciumento quando pequeno. Interrogava seus namorados como um cão de guarda. Ela levava na brincadeira e ria da implicância. Eu me dava tão bem, não precisávamos ter alguma coisa em comum. Se ela chorava, eu não queria saber o motivo. Eu me juntava a ela como um pacto até ajeitar seus olhos. Eu dedicava minha vida para ouvi-la. Ela dedicava a sua para me entender. Ela me levava em seus passeios, por mais tedioso que é ter o irmão mais novo colado. E não sentia que estava incomodada, ela tinha orgulho de me apresentar o mundo. Alargou os padrões domésticos. Saiu de casa cedo, fez minha primeira festa aberta aos amigos, me ensinou a dirigir, me deu dicas de como me comportar com as mulheres (o que convenhamos, não deu muito resultado). Passou em primeiro lugar na universidade, era inteligente a ponto de tornar qualquer sucesso dos seus irmãos um tremendo esforço. Ela fazia as provas e os testes sem estudar. Nada parecia complicado. Ela cresceu, teve filhos, casou. Eu cresci, tive filhos, casei. Hoje não há alegria, não há comoção das diferenças, não há compreensão. Não nos prendemos ao telefone e acabamos estranhos, indiferentes, medrosos. Ninguém comemora o sucesso do outro. Nossos filhos não brincam juntos. Não dividimos casa na praia. Como telegramas, só nos comunicamos nas tragédias. As diferenças sociais e de classe nos afastaram. Ela apenas fala de trabalho e viagens, do que gasta e não gasta. Eu não sei o que falar. Cada um procura sua mãe para reclamar, que é a mesma."

5:57 PM :: Comentários:

SECREÇÕES, EXCREÇÕES E DESATINOS

Tônia Carrero, na revista Caras, de 5/3/04, diz: "posso falar hoje sem perder a minha respeitabilidade que tive um caso com Rubem Fonseca". Na mesma edição, uma nota esclarece, vinte e cinco páginas e fofocas depois: "por um lapso lamentável saiu publicado o nome de Rubem Fonseca quando ela se refere textualmente ao romance que manteve com Rubem Braga". A publicação trocou um morto por um vivo.

5:38 PM :: Comentários:

BABEL:
Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, Porto Alegre, 6/3/04, Edição nº 14076

A POESIA COMO SISTEMA ANTIVÍRUS
Márcio Pinheiro


Carpinejar: decepcionado com Arrabal
Foto: Antônio Pacheco, Banco de Dados/ZH

A perfeição áspera de João Cabral de Melo Neto, que resiste aos imitadores, é o ideal do sétimo entrevistado da seção Babel. Caxiense, 31 anos, o jornalista e mestre em Literatura, Fabrício Carpinejar estreou na literatura em 1998 com As Solas do Sol. Seu livro mais recente é Caixa de Sapatos, lançado no ano passado. O novo livro, Cinco Marias (Bertrand Brasil), chega em abril. Além disso, Caixa de Sapatos sairá em Portugal pela editora Quasi, que já publicou Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Adriana Calcanhotto e Caetano Veloso. Biografia de uma Árvore será lançado na Itália pelo selo Terre di Mezzo.



1. Qual o seu livro inesquecível?
Pedro Páramo, do Juan Rulfo. Livro estranho, que relata a volta do filho para seu povoado extinto. Ao percorrer sua antiga cidade, a sensação é que retorna ao ventre de sua mãe.

2. Qual seu trecho inesquecível?
Final de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: "Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. (...)".

3. Qual o livro que mais o perturbou?
Divina Comédia, de Dante. Comecei a ler quando pequeno e aquilo até hoje me provoca pesadelos. Eu jogava amarelinha nos círculos do inferno. O autor foi o que chegou mais perto do lado escuro do homem. Atravessou a chama sem vender e vedar os olhos.

4. Qual o livro que você gostaria de ter escrito?
Libertinagem, de Manuel Bandeira. A obra oferece clássicos como O Cacto, Vou-me Embora pra Pasárgada e Poética. Seu lirismo é libertação, cotidiano transfigurado, notícias de jornais em versos, recortes verbais e instantâneos da vida, o alumbramento da simplicidade.

5. Qual o personagem que você gostaria de ter criado?
Brás Cubas. Ninguém xingou e exigiu tanto do leitor como Machado de Assis. A gente apanha - e o pior - gosta.

6. Qual o maior livro da literatura brasileira?
Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, com o melhor poema da língua portuguesa: A Máquina do Mundo. Traz uma atmosfera de pensamento, de um homem deixando seu testamento a partir de uma estrada pedregosa.



7. Qual o maior escritor da literatura brasileira?
João Cabral de Melo Neto. Ele não errou nada. Uma regularidade exemplar. Chega a ser irritante sua perfeição áspera, seu modo econômico de derrubar certezas e de provocar a observação mais funda Ele sobreviveu a seus imitadores (e não foram poucos). Criou o melhor sistema antivírus da poesia. Quem tenta o copiar, fracassa com certeza, perdendo o disco rígido.

8. Qual o livro que você mais relê?
A Paixão segundo G.H, de Clarice Lispector. O existencialismo nunca chegou perto da suspensão metafísica da autora, visceral e verdadeira no seu ato de matar a barata e se perdoar com mais violência do que a própria violência.

9. Qual o livro mais superestimado que você conhece?
Finnegans Wake, de James Joyce, o livro que ninguém leu mas todos comentam. Donaldo Schüler fez um milagre, contribuindo para a obra finalmente merecer a sua fama.

10. Qual o livro mais subestimado que você conhece?
A Lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho. O parágrafo inicial é inesquecível: "Aos 16 anos, matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris". Campos de Carvalho tem uma imaginação descontrolada. Conta-se que apenas seis pessoas compareceram em seu enterro.

11. Qual livro merece ser adaptado para o cinema?
Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Luchino Visconti bem que tentou, mas ficou no papel. Morreu sem realizar a ambição de filmar, deixando o roteiro escrito.

12. Qual livro foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante?
Videiras de Cristal, um vigoroso romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, foi adaptado com pouca criatividade por Fábio Barreto em A Paixão de Jacobina. Nem o trailer do filme é bom. Melhor ler o livro e sonhar.

13. Qual o livro que você daria de presente?
Quase Memória, de Carlos Heitor Cony, para desembrulhar as memórias da família, e Seda, de Alessandro Baricco, uma pintura oriental, delicada e misteriosa, que conta a paixão de um comerciante francês por uma japonesa.

14. Qual o livro que você gostaria de ganhar?
Obra Completa, de Nicanor Parra. Tenho até medo de encontrar. Não quero perder essa esperança.

15. Qual o livro que você procura e nunca encontrou?
Um Pouco Acima do Chão (1949), estréia de Ferreira Gullar, livro que o escritor renega. Como a curiosidade mata, queria comprovar a validade dos versos.

16. Qual deve ser o maior mérito de um escritor?
Autocrítica, nunca colocar a vaidade acima das verdades intransferíveis de seus personagens ou poemas.

17. Cite um grande livro de um grande autor.
Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Tudo o que ele poderia fazer pela literatura está ali.

18. Cite um grande livro de um autor pouco conhecido.
Assim na Terra, de Luiz Sérgio Metz. Uma sinfonia poética pelo pampa, um pequeno mostruário de como a paisagem do sul ainda está aprendendo a falar. Firme como o poncho, suave como o linho. Um livro para nos acompanhar no inverno. Tem a fidelidade do fogo.

19. Cite um livro que você esperava gostar e que o decepcionou.
Um Escravo Chamado Cervantes, do Fernando Arrabal. Era para ser um retrato vibrante, virou uma caricatura.

20. Cite um livro do qual você não esperava nada e que o surpreendeu.
O Livro Invisível, de Vicente Franz Cecim. Uma obra única, diferente e inconfundível da literatura contemporânea.

11:13 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 05, 2004

FERNANDO

Eu me acuso para diminuir o rigor do destino. Não sei como te dizer. O novo e o antigo, o recente e o velho surgem juntos. Minha dificuldade é desembaralhar os anos. As datas de minhas lembranças são mais a intensidade do que vivi do que as balizas do calendário. Não entendia tua expressão: "Não fiques no vento". Brincava com teu jeito: o vento mordia, latia? Teus cuidados tão justos e tão atentos comigo, recomendando que levasse um casaco para não me indispor ao frio. Não me lembro de nenhum outro homem se preocupando com meus ombros. Eu estou no vento e não posso me cobrir. Tenho inveja do amor que me dedicaste. O amor sempre foi uma necessidade. No teu caso, ele sobrava, como um luxo. Nunca precisaste provar que me amavas. E eu, insegura, a fazer propaganda dos meus gestos. Somos honestos com o que sentimos, acho que honestos demais. Não aceitamos o troco errado. Devolvemos o que não merecemos. Desconfiamos da alegria e perguntamos se não foi um engano. Se eu te ofendi é porque não acreditava em mim para te merecer.

Não, não te olho com pena e resignação. Ninguém conheceu teu desprendimento, muito menos a tua ironia. Não saber como te dizer é já dizer. Não queria te contar que te acompanhei até aqui. Poderias não suportar. Não quero que partas e não sei como conter o sangue. Estou de mãos dadas contigo, em outra cama. Escrever é estar em coma. Ainda não tens consciência do acidente de carro e que fiquei exatamente como estás. Não adianta rir de nervoso - a tua situação ainda é pior do que a minha. Aquele caminhão atravessando o sinal fechado e nos tomando de frente. Duas camas de solteiro. Nunca dormimos em duas camas de solteiro. Penso que serão dois lençóis a trocar inutilmente. Duas camas de solteiro não formam uma de casal - é diferente. Um vizinho do outro e minha mão estendida como uma mesa. Uma mesa sem abajur. Os dois em coma, vegetando como animais apaziguados. Animais brancos, pálidos, longe de suar, avessos ao mormaço do mundo. Ninguém para contar a história ou dizer o que houve. Escrever é estar em coma. Anota-se o pensamento antes de falar. Toda palavra passa a ter a largura da escrita, não a altura do som. Um pássaro apanhado durante a árvore do vôo. O estranho é que me respondes. Vejo que te escondeste muito bem dentro de mim durante todo esse tempo para sair de repente. Eu te levei junto sem perceber. Devo estar feia, não faço as unhas há semanas, vestindo essa roupa larga de grávida. E pensar que jamais tocaste na hipótese de filhos e aqui vive ladeado de aparelhos, que se assemelham a um parque de diversão. E pensar que falavas que partirias no auge para não ser esquecido rapidamente. E pensar que ao menos não sentes alergia das flores depositadas ao teu lado. Desculpa-me, canso-me com facilidade. Não sei exatamente o teu estado. Meu amor está ficando póstumo.

Beijos
Aline

8:07 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 04, 2004

ALINE

Era para eu nascer no sábado, a mãe foi para o hospital e voltou frustrada. Quis passar o final de semana na praia do ventre. Comecei minha vida numa segunda, como quem inicia um emprego, os dias úteis, o longo expediente de negociação entre o que queremos e o que podemos oferecer, o que desejamos e o que nos é dado. Converso contigo por cartas para me entreter com a sobrevivência. Na infância, me diziam que escrever cartas significava falta de coragem de falar ao vivo. É preciso ter muita coragem para a covardia. Aqui, não baixo meus olhos, não brigo, cada um escuta o outro até o final. Ninguém interrompe, como uma reza. Pode até não se gostar, mas se respeita. O sinal da cruz é uma ameaça. Sei que vai parecer estranho. Sei que troças do meu passado de seminarista, que chegas a dizer que costumo te trair com Deus, que eu falo como se tivesse um público para me assistir. Não dou bola, mesmo já entendendo que tuas brincadeiras são as primeiras parcelas pagas da verdade. E se tivesse traído Deus contigo, já pensaste nessa hipótese? Eu não quero te converter ao que sou, porque não sei o que sou e temo descobrir.

Eu sinto saudade das reformas de nossa casa. O apartamento sitiado, dois aposentos sempre proibidos para a passagem. Não me incomodava nem um pouco a insistência do martelo, o barulho de ferro, o cheiro de tinta. Passamos duas semanas próximos, colados, trabalhando, lendo e almoçando no mesmo espaço. Os móveis e pertences espalhados como um acampamento, as roupas perto da janela e teu riso sem ordem de chegada.

Há partes dentro da gente que nunca serão educadas. A morte, por exemplo. E ficas segurando minha mão durante esse coma, como se eu fosse voltar de uma infância, como se eu fosse uma criança apenas com febre alta. Perto do desenlace, todo marido é filho. Ninguém atravessa a morte casado. Não me vejas assim, me olha como teu homem, não como uma criança onde não há festa perdida, onde não há o medo de começar uma conversa com estranhos; me olha, até o fim, como teu homem. Não suporto a complacência com meus defeitos. Como teu homem, ouviste?

Com amor,
Fernando

10:01 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 03, 2004