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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Abril 30, 2004

INDECISÃO
Gravura de Jean Cocteau



Ainda não sei se queria morder
teus lábios ou tua voz.



10:28 PM :: Comentários:

PACOTES DE PAPEL
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar

As formigas entraram em meu teclado. Piso nelas em cada letra. São formigas quase transparentes. Ruivas. Eu diria que são formigas fantasmas, mas não acredito em fantasmas. Na minha infância, não havia sacolas de plástico no supermercado. Eram sacos de papel. De vez em quando, os pacotes se desmanchavam, dependendo da ordem da comida, e as compras tombavam ruidosamente. O pão de casa era um só, grande. Minha mãe o cortava sempre em quinze fatias. Não errava as porções em nenhuma janta. Não beneficiava ninguém. Antecipava-se aos ponteiros. Cada um recebia três nacos. Até hoje não ultrapasso minha cota. Eu acostumei minha fome à trinca de rodelas. A casca ficava por último. A casca é a verdura do pão. O miolo amaciava o sorvo. Não precisava cobiçar o outro prato. Meus olhos não usavam talheres. Eu jurava que todo sonho na infância já era uma forma de ser adulto. Havia um calendário na porta da geladeira. Meu pai jogava dominó com os dias. Nunca tive dinheiro para pagar a diferença entre meu nascimento e minha morte, por isso continuo vivendo. Os caroços que arremessava na terra não cresciam em árvores. Deveriam crescer para pássaros. Tudo que não germina no chão germina em vôo.

11:15 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 29, 2004

Uma das chamadas principais do jornal Zero Hora de hoje:
"Bala perdida mata grávida de nove meses
Jovem de 23 anos foi atingida durante tiroteio entre PMs e criminosos no Morro do Paula, em São Leopoldo"

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PARA CAUANA
Gravura de Hans Hofmann
Ana Lúcia Nejar e Fabrício Carpinejar

Cauana, não nos apresentamos. Não houve tempo bom. Não houve sol e entendimento. Não houve paz no sangue. Poderia esbarrar contigo no centro, rir de tuas travessuras no colo de tua mãe ou do cordão de isolamento que tu e teus irmãos fariam na calçada. Ou de teu nariz sujo e faceiro no inverno. Poderia te observar com ternura como quem descobre a infância num jeito diferente da boca. Poderia te ver correr para provocar sustos de risos. Quisera acompanhar tua alfabetização, tua mão miúda como letra de Bíblia, tua expressão marota recortando corações de cartolina para presentear a família em datas especiais. Gostaria que pudesses ver o quanto é tocante a vista da cidade de cima desse morro onde foste gerada. Queria mais. Que houvesse infra-estrutura para que tu aproveitasses cada segundo do dia brincando sem o receio de anoitecer. Que não houvesse lei do silêncio, batidas, tiroteios e a sombra de barro a rodear a tua casa. E que não fosse inviável andar pelas ruas a qualquer hora, para encontrar os parentes e rezar, como fez a tua mãe. Não provaste o sabor do leite, a água tranqüila da pedra, o gosto da uva, a amora, o miolo morno do pão. Não descobriste o significado do nome. Não conheceste os dentes, os joelhos estalando na cama e tomando alturas, as histórias herdadas dos avós. Não tiveste bonecas, uma vida para saber o que é sonho ou pressentimento, amor ou paixão, amizade e desentendimento. Não te deram nada. Nem um endereço ou um sentido. Uma chance ou uma profissão. Não chegaste a compreender a falta de teto no ventre, quando tudo estava arrumado para tua chegada. Não entendeste a própria morte, porque nunca chegaste a viver para ter medo dela.

Cauana, me perdoa pelo desabafo. Aquela bala atravessou mais do que o corpo de tua mãe, atravessou meu corpo em teu corpo, atravessou minha garganta. Fico imaginando que tua cesárea poderia ter sido antecipada para domingo, se houvesse leito. Já pensaste? Agora, estarias aconchegada no colo materno, ouvindo os planos para o Dia das Mães, aprendendo devagarinho a transformar o som da respiração em fala.

Cauana, hoje não me interessa de quem partiu aquele disparo no Morro do Paula. Nascer hoje parece tão difícil como permanecer vivo. Quero pedir desculpas a ti. A maior violência foi não teres, ao menos, a possibilidade de chorar.

Ana Lúcia Nejar é jornalista.
Fabrício Carpinejar é poeta.

10:25 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 28, 2004

ENTREVISTA NO PROJETO DIÁRIO DE LITERATURA
(abril de 2004)

Foto de Renata Stoduto/Divulgação


Carpinejar relaciona aqui sua vida com sua obra, numa entrevista concedida a Olegario Schmitt, especial para o PD.

PD - Fale-me da sua infância e adolescência.
CARPINEJAR - Fui um menino e adolescente tímido. Eu tinha poucos amigos. Quando pequeno, jogava futebol todos os dias. Falava errado, usava botas ortopédicas e enfrentei desde cedo a gozação dos colegas. Aprendi a me criticar para ganhar autonomia. Aprendi a não me levar muito a sério. Eu era tão puro que parecia deslocado do mundo. Eu não sou mais puro mas continuo deslocado. Desloquei a língua junto. Deslocar a língua é poesia, fazer do erro música.

PD - Você foi influenciado pelo fato de seus pais serem escritores?
CARPINEJAR - Meu irmão mais velho, Rodrigo, escrevia letras para uma banda de rock do bairro. Fazia seu caderno de poesias. Eu permanecia horas conversando com seus amigos, convivendo com o sentido poético, tomando café para ajudar na escolha da palavra final. Isso me ajudou, meu irmão foi o intermediário entre minha geração e a de meus pais. Pena que ele largou a poesia. Um dia ela volta para assombrá-lo. E teremos mais um Carpi Nejar para confundir.

PD - Com que idade você escreveu seu primeiro poema? Você lembra dele?
CARPINEJAR - Meu primeiro poema? Isso é mistificação. O primeiro poema aconteceu sem tê-lo escrito. As crianças falam poesia a toda hora. Tropeçar na fala é procurar construir um mundo mais direto, mais justo, mais sensível e tátil. Prefiro pensar com a respiração, ser levado pela sonoridade das palavras para o quarto das imagens. Eu passei a me disciplinar para distração aos 16 anos. Meu primeiro poema publicado foi no convite de enterro de minha avó, aos 7 anos. Eu nasci de sua morte.

PD - A junção dos dois sobrenomes foi para se dissociar dos seus pais?
CARPINEJAR - Foi para me dissociar de mim. Eu deixo de ser alguém para ser ninguém. Como autor, quero ser invisível, desejo que o leitor me procure dentro do livro para se encontrar. Eu sou a isca de sua voz. A melhor lembrança é a que a leitura inventa. Poema é porão. Depois de publicado o livro, uma casa é construída em cima.

PD - Fatos marcantes de sua vida deram ou dão origem a poemas? Como você os processa dentro da poesia?
CARPINEJAR - Os detalhes, os refugos do dia, os escombros do silêncio formam a exuberância da fala. Me interesso por aquilo que é desperdiçado pelas pessoas, por aquilo que não é lembrado. Ouço a rua como extensão de meu pátio. Moro perto do trem e ele é o único relógio de minha casa. Sei as horas pelas suas corridas. Os fatos ínfimos de minha vida geraram poemas. A grandeza está onde não procuramos. Lembrar é inventar. Tudo o que evoquei do que vivi já é uma realidade misturada. Todo memorialista é um ficcionista. Todo ficcionista é um historiador do sonho. Percebo a poesia como o início dos olhos. Eu centro minha ficção poética no núcleo familiar. Cinco Marias (Bertrand Brasil, 123 páginas), meu novo livro, traz uma conversa ininterrupta de uma mãe e suas quatro filhas, imitando os lances do jogo infantil. Gosto de ser o outro para não me acostumar comigo, para nunca mofar em vaidade. Já fui um velho em Terceira Sede, uma árvore em Biografia, cinco mulheres agora nesse último.

PD - Sua vida caminha paralela à criação literária ou não?
CARPINEJAR - Alimento vários heterônimos: sou também jornalista e professor. Uma vida completa à outra, mas não é uma convivência pacífica. Poesia é doação e surge a qualquer momento. Ela instala o caos e é insaciável. Dorme tarde e acorda cedo. Não anda de carro, somente de bicicleta. Não aceita realidade pronta e comida congelada.

PD - Como mero leitor de sua obra, qual poema lhe chama mais atenção? Por quê?
CARPINEJAR - Não sou de eleger poemas. Não há um poema melhor do que o outro, há poemas mais invisíveis. Não sou escritor de um livro, sou escritor de uma obra. Minha intenção é passar uma visão de mundo, fazer um único romance a unificar meus escritos. Cada capítulo é um trecho desse universo versificado.

PD - Você pode resumir sua vida em um só poema? Ele já foi escrito?
CARPINEJAR - Resumir a vida em um só poema é epíteto. Quando morrer, não quero legenda. Uma cruz amarrada com pano já me é suficiente. Meu corpo não precisa de um nome para ser identificado.

PD - No universo da arte, fora a poesia, o que lhe toca mais profundamente?
CARPINEJAR - Tudo. Eu já lidei com a pintura, vejo a poesia como uma montagem cinematográfica, recito como quem participa de uma peça de teatro. Meu cineasta predileto é o russo Tarkovski. Amo o que é feito com sinceridade, as mentiras honestas, o que desperta a emoção sem pensar e pensa a emoção sem despertar.

PD - Você considera sua carreira literária um exemplo a ser seguido?
CARPINEJAR - Não considero a literatura uma carreira. Não há plano de saúde ou triênio. Ela é vocação, minha forma de alfabetizar os pés. Os pés também precisam escrever. Eu não me sigo, eu me despisto.

11:47 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 27, 2004

O HOMEM QUANDO CHORA
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Oscar Kokoschka

Fabrício Carpinejar

O homem quando chora dilata as narinas. Ele não chora, soluça mais do que o choro. Grita sem voz, sem ritmo. Sopra para dentro o que deveria jogar para fora. O lugar de sua barba arde como orvalho. O homem quando chora chora com os pés e as mãos. Desaba na lâmina dos dentes, corta o pulso dos dentes, roendo as unhas dos dentes. O homem quando chora é um animal de pedra doendo a altura do mar. O homem quando chora chora para não se enxergar chorando. O homem quando chora segura a maçaneta para não sair. O homem quando chora usa os cotovelos para ficar longe de sua dor. O homem quando chora fuma o próprio choro. Mastiga a raiz do que julgava vôo. O homem quando chora embranquece os olhos. A cor de espuma que havia nos olhos. O homem quando chora chora com raiva, como quem se ofende. O homem quando chora não pensa em ninguém, nuito menos em si, não pensa. O homem quando chora lambe as palavras como patas. O homem quando chora se envergonha de claridade. O homem quando chora é como uma mala sem roupas, uma estante sem livros. O homem quando chora se enruga em erva e velhice, encosta-se ao muro. O homem quando chora aperta as mãos como uma toalha antiga. O homem quando chora suja o rosto do que não aconteceu. O homem quando chora é um indigente que dá esmolas. O homem quando chora é uma mulher que não amou. O homem quando chora é um tronco adivinhando o ar. O homem quando chora toma café sem açúcar, almoça sozinho, bebe duas vezes a mesma lágrima. O homem quando chora é imprevisível como um vinho de garrafão, irresponsável como um guarda-sol com excesso de vento. O homem quando chora quer jogar futebol na chuva.

12:06 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 26, 2004

LUGAREJO
Gravura de Marc Chagall



O inverno chega com força. Faço de conta que não é comigo, mas vou me encolhendo devagar. Tudo é longe. Os filhos passam a falar rápido. Procuro percorrer o lado do sol. Puxo conversa com a luz. O cabelo queima palha. Perde-se a hora de acordar. O sol mente a idade do vento e descasca tangerinas nos telhados. O inverno é a toalha de mesa com restos de pão. Subo mais a tosse do que a escada. Os ossos têm goteiras. O vinho fica violento. Toda janela pensa ser lareira. Remo os cílios. As esquinas são portas batendo. O céu parece baixo. O rio anda de costas. A ave é um chapéu perdido. As mãos brincam de marionetes. O firmamento afivela o pampa. Os vidros se transformam em dentes. Os sons escurecem mais tarde. As árvores gritam de cócegas.

3:58 PM :: Comentários:


Domingo, Abril 25, 2004

VARAL DE LETRAS

"caminhante, passou por mim em passos lentos
com uma blusa que jamais o vi usar e um cavanhaque
ele que tinha o rosto imberbe e cujas blusas eu lavava todas
cruzou por mim na calçada e me olhou com olhos novos
da mesma cor de antes mas eram olhos outros
que viram virgindades durante o nosso tempo apartado
era ele mas era outro, e eu era a mesma, e outra
e a distância entre nós era bem mais longa que aqueles passos
curtos
e o tempo entre nós era infinito no nosso desconhecimento mútuo
ele que tanto amei e ele a mim, que trocamos beijos mais que íntimos
suas cicatrizes pelo corpo que lambi, e ele aos meus seios
ele que não me foi secreto por anos e eu por ele igualmente
traduzida
caminhante, hoje passou por mim como se não houvesse passado
ele, em passos lentos, fez um sinal educado com a cabeça
eu, com meio-sorriso, fiz que não tinha importância. "

Martha Medeiros, Cartas extraviadas e outros poemas

Martha Medeiros é a convidada do Varal de Letras, série de debates mensais com entrada franca, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre. Nesta segunda (26/4), às 19h30, converso com a poeta, cronista e romancista, autora gaúcha de sucesso, com 13 títulos publicados. Martha já vendeu mais de 50 mil exemplares e recebeu acolhida de grandes nomes como Millôr Fernandes e Caio Fernando Abreu. Entre suas obras, destacam-se: Strip-tease, Meia-Noite e Um Quarto, Geração Bivolt, Topless, Trem-Bala, Non-Stop e Cartas extraviadas e outros poemas. Seus livros mais recentes são Montanha Russa (2003, crônicas) e Divã (2002, romance). Com o tema "Poemas na mesa", haverá discussão do processo de criação e de sua trajetória poética. Varal de Letras é uma espécie de recital comentado. Consiste num bate-papo descontraído e coloquial sobre estilos e gêneros, buscando formas possíveis de despertar o gosto pela leitura. Valoriza o humor, a espontaneidade e naturalidade na exposição de textos.

10:18 PM :: Comentários:

AINDA...
Gravura de Chagall

A Ana não guarda as cartas de amor.
Ela quer achá-las de repente. Em outro dia, em outra idade. Dentro de um livro, na gaveta, na bolsa.
A Ana se guarda para as cartas de amor.

10:31 AM :: Comentários:

DEPOIS...
Gravura de Chagall


Uma torneira mal fechada me chama de madrugada. Uma torneira soletrando é quando a água escreve cartas. Indício de que Deus esteve em minha casa. A caligrafia de sua sede.

10:29 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 24, 2004

MUDOU DE ENDEREÇO...
Gravura de Chagall

As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua, como antigamente. As cartas deveriam ser beijadas antes de enviadas. Sopradas. Respiradas. O nosso ar dentro do envelope. As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua. A saliva acalma um machucado. A umidade lenta. A gentileza. Não a cola isenta, neutra, mas a língua, o contágio. Minha avó tinha um dom para molhar a correspondência antes de fechar. Metade da língua desenhava. A sobriedade da sobra. Minha avó não mandou as cartas que escrevia. Ficaram em uma gaveta, depositadas ao lado da caixa de costura. Nunca abrimos sua correspondência. Não violamos seu segredo. Não queríamos saber se havia um amor oculto ou a repatriação do nome de solteira. Colocamos no bolso de seu casaco quando ela partiu. É recomendável não descobrir todos os segredos. Assim a vida morre mais tarde.

11:38 AM :: Comentários:

DESTINATÁRIO DESCONHECIDO...
Gravura de Chagall

Eu escrevia cartas de amor. Não eram para ninguém. Escrevia cartas de amor como quem tenta distrair o amor até ele chegar. Eu provoquei o amor. Fiz de conta que existia para parecer ocupado. Um homem sem amor é um homem sem fé. Tantas vezes me declarei sem ter nada para cumprir. Quando o amor chega, as cartas de amor são desnecessárias. Há mais imagens do que palavras. Nossa letra treme como uma pálpebra.

11:37 AM :: Comentários:

INFORMAÇÃO INCOMPLETA...
Gravura de Chagall

Quando adolescente, eu li as cartas de Virginia Woolf e fui respondendo uma por uma delas. Virginia não replicou. Não responder não significa que não recebeu. Eu queria dizer que no amor não adianta ter razão, mas desejo. E o desejo se contradiz para não terminar concordando com o fim. Tenho uma amiga que redigiu inúmeras cartas ao avô tardio. Ele também não dava retorno. Ela se encabulou de silêncio. O silêncio e seus motivos maiores do que a boca. Um dia, ela tomou coragem e perguntou a falta de volta. Com o endereço anotado na palma da mão, o avô avisou da vergonha de responder porque ela escrevia melhor do que ele.

11:35 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 23, 2004

ENTREVISTA DE DEONÍSIO DA SILVA

Suspensórios coloridos
Deonísio da Silva reúne trinta anos dos seus contos em uma antologia, que não deixa de ser um almoço

Fabrício Carpinejar
São Leopoldo - RS
Foto: Claudio Silva, Banco de Dados/DC

O editor Pedro Paulo de Sena Madureira pode ser identificado em uma caricatura pelo charuto e gravata borboleta. O ficcionista Deonísio da Silva, 55 anos, logo é percebido pelos suspensórios coloridos, que ficam ainda mais coloridos com a camisa branca ou clara. Ele não utiliza o artefato como cinto. É como trocar os aros dos óculos. Utiliza como uma encadernação do próprio riso. Há um ar maroto em seu perfil, uma malandragem emoldurada pela boca descaradamente risonha. Do que ele tanto ri?, os curiosos são capazes de perguntar. Nem de si, muito menos de ninguém. Ele ri quando encontra a palavra certa para definir o que deseja. Desejar é melhor do que pensar. A palavra é uma espécie de dente do seu riso. Um dente que faltava. Um dente necessário para mastigar a realidade. Seu estilo narrativo é jocoso, intelectualmente irônico, procurando nos fatos históricos, como Guerra do Paraguai ou a vida de Teresa de Ávila, uma brecha de fantasia para empregar seus personagens. Os protagonistas acabam sendo mais verdadeiros do que a História. Seus romances funcionam como uma conversa de negócios em horário de almoço. Enquanto o leitor não sabe se come ou fala ou se come e escuta, Deonísio fala e come com a naturalidade festiva de família italiana. Solta lembranças, engarrafa etimologia, expõe contradições, articula frases de efeito, pouco se preocupando com o guardanapo.

Enquanto finaliza sua nova ficção Goethe e Barrabás, o autor comemora trinta anos de contos (1974-2004), desde o Estudo sobre a carne humana, e vai publicar ainda neste primeiro semestre uma reunião de suas narrativas breves pela editora Girafa, selo conduzido por Pedro Paulo de Sena Madureira e seu inseparável charuto. Natural de Santa Catarina, com passagens em Porto Alegre (RS) e morando em São Carlos (SP), sua origem é disputada por três estados. Seu romance Avante, soldados: para trás (1992) recebeu o Prêmio Internacional de Literatura Casa de las Américas, em júri presidido pelo Nobel José Saramago. Teresa, premiado pela Biblioteca Nacional, foi escolhido como um dos dez melhores dos últimos 20 anos no Brasil pela revista americana World Literature Today. Sua obra está traduzida para espanhol, inglês, francês, alemão e sueco e já foi adaptada para televisão e cinema. Um exemplo cênico é Relatório Confidencial, dirigido por Antunes Filho.

Doutor em Literatura pela USP, professor aposentado, Deonísio é polêmico e engajado na boa literatura. Talvez porque consegue falar e assobiar ao mesmo tempo, mastigar e ouvir, em um país onde o talento é crime sem fiança.

FABRÍCIO CARPINEJAR é jornalista e poeta. Autor de Cinco Marias e Caixa de sapatos, entre outros.


O senhor não se interessa em contar a história pelo lado mais forte, mas sempre pelo lado que ainda não é história. Assim acontece com Guerreiros do campo, por exemplo, uma parábola sobre o movimento dos sem-terra. No romance Avante soldados: para trás, volta os olhos para a Guerra do Paraguai. Essa é uma influência de sua origem e vivência no Brasil Meridional? A ficção seria a infância da história?
É por isso que eu sou leitor de poesia. Nós, da prosa, somos prosaicos. Vocês, poetas, dizem um verso e ele faísca na escuridão, iluminando tudo, como ocorre para a Marilena Chauí quando o presidente Lula fala. Sim, que boa definição esta de que a ficção é a infância da História. Nós fazemos a Outra História. Ou as Outras Histórias. Nossas narrativas dão vez e voz a personagens que existiram e não tiveram suas existências reconhecidas. E dão outras vezes (ou chances) e vozes a personagens que disseram e fizeram outras coisas nos livros de História. Não estou usando um "nós" majestático. É que não estou sozinho na empreitada. "Somos poucos", é verdade, como foi resumido num verso genial do Carlos Nejar, que deu título a um livro dele que muito aprecio, mas não estamos sozinhos. Eu sou agradecido ao Senhor por ser filho do Brasil meridional, um "terrum" que deixa claro desde o berço o verso imortal do Gonçalves Dias: "viver é lutar". Escrever também. Mas como não se ganha guerra nenhuma sozinho, precisamos de mais parceiros. Outros escritores e leitores são nossos aliados. Em Guerreiros do campo e no Avante, soldados: para trás, o que mais busquei, não sei se consegui, foi mostrar como a condição humana é cheia de sutis complexidades, das quais apenas a literatura pode dar conta. O amor não pode ser interrompido. Ele é vivido no meio da Guerra do Paraguai ou no contexto dos sem-terra. Mas não pode ser prorrogado. Não se pode programar a vida assim: primeiro, a guerra; primeiro, a luta. Depois, o amor. Não! O amor floresce sempre. E ainda bem. E fiz com que no Avante... o comandante Camisão e o Visconde de Taunay dissessem mais coisas, fizessem outras, diferentes daquelas que a História registrou. Em resumo, inventei. Do contrário, meus romances seriam chatos, repetitivos. Nos Guerreiros do campo, abro o romance com São Pedro fazendo um cadastramento na porta do céu para separar os mortos que ali chegaram, diferenciando mortos brasileiros de mortos suíços, por exemplo.

Está publicando pela Girafa a reunião de seus contos. São trinta anos de narrativas curtas, de 1974 a 2004. Percebo que combina um estilo mais clássico, esmerado, com um humor ferino, picaresco. O riso é uma das principais armas de sua literatura? Ele fica mais ácido em uma linguagem aparentemente séria?
Ridendo castigat mores, não é? Faz séculos que rir é bom remédio, que o riso é catártico, que o riso purga, que o riso nos ajuda a entender o quanto somos ridículos. Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo e Barão de Itararé, entre outros, têm nos educado pelo riso. Mas não somos ridículos sempre. Ao contrário. Há momentos em que a Humanidade se eleva aos céus; outros em que chafurda nas mais infectas pocilgas, como no caso do nazismo e no caso de todas as guerras. Sei que o humor está presente na maioria de meus textos, mas não fiz força para isso, não. Aqueles que convivem comigo sabem que não posso ser definido propriamente como um ser entristecido, acabrunhado. Disse e repito: o sofrimento que saia na urina. O que não sai na grossa, que saia na fina. Há mais motivos para alegrias do que para lamentações. Mesmo porque uma boa alternativa de resistir e lutar é acreditar na vitória.

O romance Teresa foi escolhido como um dos dez melhores dos últimos 20 anos no Brasil pela revista americana World Literature Today, junto de A grande arte, de Rubem Fonseca. Como o senhor reage a essa ascensão de ficar ao lado de Fonseca, um dos seus primeiros incentivadores, que o ajudou a publicar Exposição de motivos (1976), Prêmio Brasília?
Rubem Fonseca foi muito importante nos meus primeiros passos. Tenho, porém, tomado cautelas para não ficar proclamando isso, porque o Rubem, generoso como é, não gosta entretanto de proclamar ajudas que deu. Evito, porém, ser como os nove leprosos. Jesus curou dez e apenas um voltou para agradecer. A taxa de ingratidão é muito alta. Naquele momento específico, se não fosse a ajuda providencial de Rubem, eu teria continuado inédito por muito mais tempo. E ele me ajudou quando eu estava condenado a dois anos de prisão, me apresentando periodicamente sob sursis, cumprindo a pena pelo primeiro conto que eu publicara na imprensa. Quanto aos prêmios, chamaram a atenção para meus livros, muito mais do que a condenação. Talvez por causa de meu temperamento, mais voltado a celebrar o que deu certo do que a lamentar o que deu errado.

Conviveu com Guilhermino César no Rio Grande do Sul. Ele foi uma espécie de guia. Sua obra poética nunca mereceu grande consideração de crítica. Representa o típico caso do professor maior que seu poema ou é verdadeiramente descaso?
O meu querido professor Guilhermino César da Silva era, mais que gênio, oxigênio. Tinha excessiva modéstia e isto o prejudicou muito, como reconheceram, entre outros, Antonio Candido e José Mindlin. Um dia eu conversava com o jurista Modesto Carvalhosa na fazenda dele e ele de repente me disse: "você não acha que a universidade é um centro de pequenas perversidades?". A minha querida USP, onde fiz doutorado, foi muito ingrata com o Modesto Carvalhosa. E com várias outras pessoas igualmente talentosas. Flávio Loureiro Chaves, o mais brilhante aluno que Guilhermino teve, deixou a UFRGS numa amargura muito grande. Aquilo tudo aconteceu porque Guilhermino não estava mais lá. Você precisa ver o carinho do Guilhermino, a defesa que ele fez de mim quando na UFRGS as forças do atraso quiseram impedir que eu fizesse minha tese sobre o livro proibido de Rubem Fonseca. O talento incomoda, o talento tem força própria. O talento é como o mocinho no faroeste: ele sempre vence no fim. Mas é no fim que ele vence. O percurso é dramático, doloroso. E Guilhermino esbanjava talento na poesia, na prosa, no ensaio, nas aulas. Era, por isso, para algumas instâncias de reconhecimento literário, insuportável. Mas que poder podiam ter elas diante de seus livros ou de um título de doutor honoris causa que ele recebeu da Universidade de Coimbra? E que influência poderiam ter sobre o apreço e a admiração que seus alunos lhe dedicavam? Nós, alunos, como faz todo aluno, podíamos comparar seus textos e suas aulas com as de seus críticos e tudo ficava esclarecido.

Em seus contos, privilegia a espontaneidade auditiva, o gosto de falar sem complicar, de armazenar a rua no texto. Essa virtude ficou acentuada com o estudo de verbetes De onde vieram as palavras e da seleção de máximas A vida íntima das frases? De que modo o estudo da etimologia permite a abertura cada vez maior de sua ficção?
Estava tomando vinho em Bento Gonçalves. O Luís Vítor Strauss, já falecido, por indicação de Geraldo Galvão Ferraz me ligou no meio da noite e me pediu que apresentasse uma opção para a coluna de Etimologia da revista Caras que ia ser lançada no Brasil. Eram 23 horas, acho. "Quanto tempo eu tenho?", perguntei. "A coluna estando aqui amanhã, às 9 horas, está bem", ele me disse. Acho que era outubro de 1993. No outro dia, depois de ter lido em algumas horas algumas colunas da Caras argentina que ele me passara por fax, minha coluna estava lá. Foi aceita e desde então escrevi mais de quinhentas. Como nem todos os verbetes podem sair na Caras e nem podem sair completos os que faço, venho publicando estes livros que você citou. Meus editores na Caras - Heloisa Fernandes, Nilson Marcon, Judith Patarra - sempre lamentaram os cortes que são obrigados a fazer por razões de espaço. Mas eu lhes sou agradecido pelos cortes: são jornalistas que me ensinam os prazos, os cortes, o texto enxuto. Como todo leitor que cai na rede é peixe, o sujeito lê a etimologia que faço e procura meus romances e contos. Acho que o inverso é menos provável. E as outras colunas eu faço porque amigos muito queridos me convidaram para escrever lá, como o Augusto Nunes no Jornal do Brasil, e o Alberto Dines, no Observatório da Imprensa. E eu escrevo também na eptv.com, onde uma mulher, a Mary Chirnev, faz das tripas coração para levar adiante aquele portal, que aliás, é muito bem editado.

A literatura brasileira ainda é incipiente em política internacional, pouco agressiva, pouco confiante. O que precisa ser feito para vencer a timidez do escritor e a omissão do governo em divulgar a produção literária do país no exterior?
Profissionalismo. O sistema de igrejinhas, confrarias, pequenas máfias, quando for embora, já terá ido tarde. Nenhuma instância tem feito nada para diluir dois preconceitos de que é vítima a literatura brasileira. O primeiro é que a mídia internacional dá a impressão de que somos uma nação dividida entre bandidos violentos e impunes, de um lado; e de outro, que uma vez por ano esquecemos todas as nossas desgraças no carnaval. Lá fora quase todos os editores caíram nesta esparrela. E só querem saber de nossas letras quando espelham isso, senão não lhes interessa. Quando há incentivo oficial para traduções, poucas vezes os critérios de seleção têm sido respeitáveis.

Em Teresa, afirma que "os anos que temos são aqueles que não temos". O senhor chegou à idade onde o tempo não é posse, mas despojamento?
Brinco sempre que temos faixa etária e "faixa otária". Faço parte da segunda por pertencer a uma geração que sofreu muito com a perda da liberdade. Mas com sinceridade te digo e sem rancor algum que é mais reconfortante enfrentar uma ditadura do que os pequenos poderosos incrustados nas instituições, que se dizem teus amigos, e chafurdam nas pocilgas para onde querem te arrastar também. Na ditadura, as coisas são mais claras. Eles, lá; nós, cá. O tempo nunca é posse. É sempre perda. Uma perda que começa ao nascer. O remédio é viver com paixão e acreditar que a melhor estação pode ser aquela aonde ainda não chegamos.

O senhor valoriza o jornalismo, atua em vários veículos, tem experiência de décadas em sala de aula na Universidade de São Carlos, já foi jurado de inúmeros concursos, viu de tudo na literatura. Mas percebo que não abdicou da inocência (a ingenuidade foi embora, tudo bem). O que mais o apavora? Ainda se vive em oligarquias literárias? Os fatores extraliterários ainda sobrepujam os literários?
O que mais me apavora, não sei, mas me incomoda muito esta crise que se abateu sobre o Brasil e que já está durando demais. Perdemos, não uma, mas duas décadas. Na vida de qualquer pessoa, estas perdas são quase irreparáveis. Isto é muito, mas muito desolador. Fecharam as portas para os jovens. Proclamam que os jovens devem isso, devem aquilo, mas se não há emprego num país onde tudo está por fazer, que será de nossos jovens? Eu quero poder dizer como São Paulo que "combato o bom combate". Em algumas comissões julgadoras de prêmios literários que integrei, sempre tive que arregimentar parceiros para enfrentar opiniões do tipo "este não podemos premiar porque não dá mídia", "este também não porque é velho e já está muito gagá", "este é muito jovem e muito metido a besta", "este outro é muito chato" e outros "altos" juízos sem nenhum critério literário e principalmente sem nenhuma vergonha. Esses desacertos não acontecem apenas no terreno literário. Várias instituições, incluindo escolas e universidades, estão cheias de "concursos" em que a maracutaia triunfou. Jamais compactuei. Quando o trato justo e a conversa clara foram ameaçados, abandonei a comissão. Cúmplice é nome de perfume, pode ser cheirosinho, mas nesses casos é fedorento.

É possível dizer que houve no Brasil uma literatura feita a partir da crise religiosa de ex-seminaristas (amparada pela independência social da igreja a partir da Teologia da Libertação) ou é forçar a barra? Como se deu a elaboração de A cidade dos padres e sua desvinculação com o seminário (ele também é tema do romance Teresa)?
Não, não é forçar a barra, não. É uma esplêndida via de acesso a um núcleo temático muito importante. No meu caso, deixei o seminário em companhia de colegas muito queridos, entre os quais o poeta Solange Rech, autor de vários livros muito bem escritos e um dos raros sonetistas do Brasil. Temos que lembrar também pessoas quase anônimas, que tiveram e têm importância fundamental na vida de escritores como eu e não querem saber de ser citados. O autor do melhor texto de nossa turma é advogado em Porto Alegre. Chama-se Wilson Volpato e até hoje não fez ficção. O José de Souza Patrício em algum momento da vida deixou a leitura de Horácio e Terêncio no original latino e foi fabricar massas em Florianópolis. O Jaime Sprícigo com o tempo ficou parecido com um abade e ainda hoje, com os mesmos cuidados que sempre tinha com a música, grava CDs com músicas que ninguém mais ouve, somente nós. Meus romances A cidade dos padres e Teresa nasceram em épocas em que por alguma razão que desconheço meu inconsciente voltou-se para temas que me foram inculcados por professores muito sérios, competentes e atenciosos, um dos quais ainda hoje comparece a meus textos e aos encontros da confraria de ex-seminaristas que fundamos há alguns anos: o padre Antônio Herdt, hoje vigário de Laguna, em Santa Catarina, com quem de vez em quando tomo um bom vinho.

O que pode adiantar do romance que está elaborando, Goethe e Barrabás?
O tema nasceu, como ocorreu com outros romances, de conversas com Pedro Paulo de Sena Madureira, meu editor há mais de vinte anos! Barrabás sintetiza tropeços fatais do povo, que freqüentemente escolhe mal. Acho um horror esta obsessão dos políticos em proclamar que o povo está sempre certo. Não está, não! Às vezes, erra feio. Não apenas o povo, os indivíduos também, que erram em privado com muita freqüência. É da natureza humana esta oscilação entre o pecado e a virtude, entre a glória nas alturas e o chafurdamento nas pocilgas. O que posso adiantar é aquele trecho que o jornal O Estado de São Paulo publicou, em que Barrabás fica perplexo ao visitar uma granja e constatar que os frangos vêm a este mundo para viver apenas 75 dias. Depois são impiedosamente assassinados para nos alimentar. Mas meu romance quer ocupar-se do amor e da traição, da oscilação e das várias etapas entre a luz e as trevas. Goethe pediu mais luz ou mais ar ao morrer. Quanto a ligar Goethe e Barrabás, quem me lê sabe que aprecio muito estes deslocamentos doidos, um de meus recursos de invenção.

(Rascunho, edição abril 2004, e Diário Catarinense, caderno Cultura, 1º/5/04)

9:09 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 22, 2004

PALESTRA NO SOLAR

Participo hoje, às 18h30, do projeto Quintas Literárias no Solar dos Câmara (Duque de Caxias, 968), em Porto Alegre. Vou debater meu novo livro 'Cinco Marias' (Bertrand Brasil) e falar tudo o que não está no roteiro.

7:51 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 21, 2004

CURTINDO O FERIADO DO CORPO
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA

Minha avó dizia: para ser feliz, a gente não precisa sair do lugar, a gente tem que ser o lugar. Ela me advertia com seu olhar de madrepérola. Eu não entendia. Ser feliz para mim era sair de casa, depois da cidade, depois do estado e, se possível, do país. Acreditava que quanto mais longe do início mais perto do final. Julgava a independência um modo de fugir. Descobri que estava errado. Quanto mais longe do final mais perto do começo. Nada mais alto, banal e humano do que dizer: "eu sei ser feliz". Dor, susto, drama e tragédia, a gente já nasce sabendo. Saber ser feliz exige décadas para entender e, ao mesmo tempo, pede tão pouco. Basta um ter o outro. Ficar horas conversando abraçados. Não depender de lugares famosos, de restaurantes, de aventuras exóticas para contar depois. A felicidade é uma impressão, uma intensidade, que não há como descrever para os amigos. Muitas vezes, se vive somente para relatar o quanto nossa vida é impressionante, mas lá no fundo persiste uma mágoa desconfiada de não vivermos o que realmente desejamos. O que desejamos não se diz, se arde. Saber ser feliz é se deliciar com bobagens e lembranças, brincadeiras e com a proximidade do corpo. Não deixar o corpo ser apenas um corpo.

1:19 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 20, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar

Quem pensa que está fora do amor entra. Quem pensa que está dentro sai. Ele engana sua força. Sobrepõe a memória dos sentimentos na memória dos fatos. É procurar cabelos para completar as mãos, é procurar o que não se viveu para contar. É esperar o sol aquecer o lado ileso da cama. É não apagar direito a ausência, a letra, o cheiro. É insistir com respostas sem as perguntas. É podar o arbusto de água. É pão ruivo antes do mel. É idioma acumulado nas calhas. Não há descrição fiel que o possa explicar. Adiar o amor ainda é cumpri-lo. Fingir que não se sente é exercê-lo. Desdenhar é elogiar. Ofender é trocar palavras. Odiar é desesperar o atraso. O amor devora os sobreviventes. Não lembra do pente, da navalha, da tesoura de unhas, do jornal, do abajur. O amor não lembra do que precisa. Amor é não precisar de nada. É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça. A fraqueza é força física. O endereço é genealogia. O amor confunde para se chegar ao mistério. Embaralha para não se ouvir. Perde-se no próprio amor a capacidade de amar. Quanto mais violento o primeiro amor, mais difícil será o segundo amor. Quanto mais violento o último amor, mais calmo é o primeiro amor. As frutas postas na mesa não estão à espera da fome, ainda estão à espera da árvore. A fome é uma árvore que cresce deitada e arranca o telhado do corpo. Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta. O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes. O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso. O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada; o amor é um desencontro por dentro.

9:55 AM :: Comentários:

DE ANTÔNIO VIEIRA
Gravura Chagall

"Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há de ter porquê, nem para quê. Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, amo, ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino."

9:54 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 19, 2004

"A PÁLPEBRA É O LÁBIO DO OLHO" (Saint-John Perse)
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Um menino revirava o peixe com um galho, revidava, dissecava o peixe por todos os lados e gritava: Cadê o olho? Cadê o olho? Eu não sinto pena do que não fui capaz de viver. Não sinto pena. Falhar é também necessário. Não desejo me isentar de mim para enxergar. Eu quero enxergar comigo dentro. O menino resmungava escamas a procurar o olho que não morreu junto do peixe. O olho que não foi pescado. Cadê o olho? O olho deveria ser um Deus ou um pai ou uma mãe ou um carretel e suas barbatanas compridas. O olho não era o mar, mas sua aparência de musgo. O olho era o que o mar não via. Saber o que somos não amplia o espaço. Talvez até o diminua. A gente protege o que somos e recuamos. Quando se acaricia um rosto, se ergue a mão em um juramento distraído. O menino pensou que um cão levou o olho direito do peixe, não havia cão por perto. O menino se viu enganado e não poderia entender a expressão "olho morto de peixe" que o chamavam na escola. Eu não queria dizer nada para enfim dizer alguma coisa que não soubesse. Desejo me exigir sem a necessidade de palavras. Me amarro numa crença, num livro, numa música. Mas uma vida inventada não vale o susto de um engano. Um amor pode ser maior do que a própria fé no amor. O que fui não é uma fatalidade, mas uma escolha que não terminou. Cadê o olho? O que não é encontrado é o que mais vive.

9:57 AM :: Comentários:

Deu no Estado de São Paulo, Caderno 2, coluna de Daniel Piza, 18/4/04:


Rodapé (1): Não faz muito tempo dei uma nota sobre a poesia de Fabrício Carpinejar, que havia lançado Caixa de Sapatos, antologia de seus quatro livros anteriores.

Agora ele reaparece com um novo livro, Cinco Marias (Bertrand Brasil), seu trabalho de maior fôlego, ambição e qualidade. Ele chegou a um equilíbrio muito complexo - o que o fraseado direto e claro só faz ajudar a construir, ao contrário da crença de tantos poetas no Brasil influenciados pelo concretismo - entre o reflexivo e o afetivo, entre seus pensamentos aforismáticos e suas imagens pessoais. E talvez apenas o Drummond do Caso do Vestido tenha sido capaz de se colocar na percepção feminina com tal intensidade: "Podamos a planta do corpo, da residência./ Reformamos o quarto de empregada/ em escritório, a dependência em terraço,/ o corredor em sala de estar./ Não superamos os limites,/ mudamos as fronteiras de lugar." O melhor livro de poesia brasileira desde Muitas Vozes, de Ferreira Gullar. O trono já tem herdeiro.

9:55 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 18, 2004

MICROCONTOS DE ANA:
Gravura de Chagall


Linda era tão feia
que rasgou a certidão de nascimento.

* * *

Lógica do ladrão

Sem carteira e celular
tinha mais é que morrer.

* * *

Ironia

Chamar de santinho
a propaganda de político.

* * *

Suicídio

Atirou-se da ponte.
Por causa da estiagem,
hoje é tetraplégico.

* * *

Nas bodas de porcelana,
quebraram os pratos.

* * *

Tomou viagra
para desabrochar.

11:18 AM :: Comentários:

MÍNIMAS:
Gravura de Chagall


* Não compreender não faz amar menos.

* No inverno, as mãos são uvas pisadas.

* O problema da esperança é que ela permanece a mesma do começo ao fim.

* Será que a água benta é filtrada?

* Tudo já estava decidido no rosto.

* A poesia só faz o que ninguém manda fazer.

* O rio se enroscou na casa. Virou adega de vinho.

* Há lembranças que são contrabando do futuro.

* Uma árvore se afasta do vento para envelhecer.

10:53 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 17, 2004

SINFONIA DESAJEITADA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Eu não fiz pesquisa de mercado para começar na poesia. Não fiz teste vocacional, muito menos perguntei aos meus pais o que achavam da idéia. A poesia é a necessidade de ouvir. Aprendi a falar aos 2 anos. Aprender a ouvir, ainda não tenho certeza. Talvez na velhice, mas aí não estarei ouvindo mesmo. Precisarei que as pessoas se aproximem bem perto de meus ouvidos como quem conta segredos. Na velhice, só quero escutar segredos. O que me levou à poesia é a insatisfação orgânica com a própria satisfação. A gente procura o amor pelo excesso. Nós não queremos concluir nada: um livro, uma paixão, um filme, uma música. Queremos o desejo de estar sendo. Quando pequeno, meu pai me levava para a sinfonia das árvores em frente de casa, em noites cheias de vento. Ele levantava a cabeça para ouvir melhor. Ele levantava a cabeça ao escrever, não baixava como o normal. Enquanto ele anotava, eu ficava intrigado: será que meu pai está plagiando as árvores? Minha mãe não era diferente. Um dia eu a vi escrevendo no avental. Não achava folhas e assinou um longo poema no avental. Sabe o que significa a um menino chegando com bola debaixo do braço, fedido de mato, enxergar a mãe redigindo em um pano? Tudo. A escrita é linha de costura. Mas uma costura por dentro. Ninguém enxerga os pontos. O sangue não cicatriza, porque ele é a própria ferida andando de um lado para o outro, aumentando a insegurança do corpo. Eu apenas sei escrever na insegurança do corpo. Não quero acomodar ninguém, acalmar, não sou uma aspirina, não quero fazer dormir, quero provocar e inquietar, anseio por manter acordada a vida até depois dela. Nos livros de casa, não havia um que ficasse ileso de um rabisco. Escrevia cartas dentro dos livros. Os livros de poesia são generosos, têm mais espaço para escrever cartas. O livro de poesia é o que nos lê. Ele vira as páginas de nosso rosto umedecendo os dedos. E não adianta limpar a saliva, ela germina em suor. Já adolescente, uma cigana me olhou, pegou minha mão como quem descasca uma fruta e avisou: "queres crescer, menino, precisas deixar espaço vazio aí dentro". Juro que me assustei. Depois fui descobrir que escrever é se esvaziar. Transbordar de ausência. O autor que desaparece no leitor realmente escreve. O autor não existe. Quem existe é seu desejo. Pensei que o alfabeto fosse o mundo. Não, o alfabeto é a procura do mundo. A poesia é a procura do alfabeto. Quem diz que encontrou não encontrou, somente desistiu primeiro.

(Fragmento de palestra no projeto Rodas de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil)

11:37 AM :: Comentários:

DENISE SILVEIRA: MEZZO-SOPRANO
Gravura de Paul Klee



Ela acorda a luz para dormir. Fala com as sobrancelhas. Canta para não esclarecer o desejo da fome. Canta para soltar os cabelos. Para se partir com rumor e violência, reunindo-se pacificada fora de si. Não se dispersa no visível, concentra o invisível dentro da unha. Está entre o grito e o sussurro, numa casa aérea. Anda imensa em passos miúdos, arde como se a boca fosse um carvão súbito de vento e chama. Uma árvore acendendo velas na procissão do sangue. Há um teatro aberto em seu ventre. De onde parte a voz, sem indulgência, sem compaixão. Nas igrejas, restaurantes, varandas, não repara em outra coisa a não ser a acústica. Nos olhos, procura a acústica. Um espaço sonoro para ser sondado. Um espaço para desmentir o vidro, a névoa, o umbral das calhas. Um corpo de espaço dentro da voz. Ela abre o silêncio com os dentes, mordendo de leve os ouvidos da altura. Com a pressa do rigor, sopra o que não pode ser dito. Não se esgota, não acaba com quem ela é, não termina de iniciar. Bebe o sopro com medo de se conhecer, com a coragem do medo. Suave, suave, guarda respiração para o retorno. Esconde o dom como um segredo maior do que sua vida. Talento tão evidente que parece difícil, inadmissível, alheio. E o espelho torna-se um esquecimento lento. Talvez se encontre em alguma garagem recitando Belo Belo, amansando os motores e os faróis. Talvez se encontre na mesa com os amigos, com a certeza, involuntária e sem ninguém para contar, de que nasceu depois de sua voz.

11:30 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 11, 2004

CINCO MARIAS

Cinco Marias saiu. A obra está pronta e chega nas livrarias a partir de segunda (12/4). O livro apareceu de repente em minha casa. Eu apenas cheirei o papel, não li, olhei com capricho como quem procura o interruptor e o deixei aceso em cima da mesa. Na chegada, o autor só pega o livro em busca de erros. Não o lê, persegue imperfeições. Fui devorá-lo como um estranho no dia seguinte. Acho que uso Carpinejar para não me apegar a um nome. Eu não sou Carpinejar, ele é um amigo imaginário que cresceu ao meu lado e os pais não notaram. Nesta semana, Cinco Marias terá noite de autógrafos em São Paulo (13/4) e Rio de Janeiro (15/4). Quem sabe a gente não se encontra.

11:08 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 10, 2004

Jornal Zero Hora, caderno Cultura, Porto Alegre (RS), 10/4/04 Edição nº 14111:

Literatura
As letras do Sul na Bienal
Autores gaúchos marcam presença no maior acontecimento literário do Brasil

Um dos maiores eventos editoriais do mundo, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, a Bienal do Livro de São Paulo chega à 18ª edição. De 15 a 25 de abril, nos 45 mil metros quadrados do Centro de Exposições Imigrantes, na zona sul da capital paulista, um público esperado de 600 mil pessoas terá contato com mais de 150 mil títulos que cobrem todas as áreas da literatura e do conhecimento, representando uma oferta que ultrapassa a casa de 1,3 milhão de exemplares.

Os números da Bienal, sempre espetaculares, justificam-se neste ano pela comemoração dos 450 anos da cidade de São Paulo, aniversário que será comemorado com toda a pompa e circunstância. A palestra inaugural, Livro é Vida, será proferida pela escritora gaúcha Lygia Bojunga - recentemente vencedora do prêmio Astrid Lindgren Memorial Award 2003 -, no dia 16 de abril, às 11 horas. Na programação constam ainda nomes como Nick McDonell, Carlos Heitor Cony, Ziraldo, Cristóvão Tezza, Gavino Ledda, Adélia Prado, Leonard Mlodinow, Carlos Fino, Luzilá Gonçalves Ferreira, Silvano Santiago, Pedro Bandeira, Nélida Piñon, Tatiana Belinky, José Mindlin, Maurício de Sousa, Marina Colasanti, Marcelo Rubens Paiva, Paulo Caruso, Ignácio de Loyola Brandão, Leonardo Boff, Rubem Alves e muitos outros nomes expressivos da literatura nacional e estrangeira.

A Feira do Livro de Porto Alegre, no ano em que chega a sua 50ª edição, será lembrada: a diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro e representantes do governo do Estado receberão homenagem especial pelo cinqüentenário da mais antiga feira de livro do Brasil.

Entre os convidados gaúchos, Lya Luft e Moacyr Scliar já confirmaram sua participação. Outros quatro autores nascidos no Rio Grande do Sul, que estão presentes no cenário literário nacional, voltam a empunhar as canetas para autografar novos volumes: Amilcar Bettega Barbosa autografa um volume de contos, Os Lados do Círculo, que promete repetir o sucesso de Deixe o Quarto Como Está. O jornalista Fabrício Carpinejar chega a seu sexto livro, Cinco Marias, firmando-se como um dos maiores nomes da poesia contemporânea. Luís Antônio Giron, editor de cultura da revista Época, autografa Minoridade Crítica, amplo estudo sobre a ópera e o teatro nos folhetins da corte, entre os anos de 1826 a 1861. Também jornalista, Michel Laub, da revista Bravo!, chega a seu terceiro livro, Longe da Água.


Literatura

Fabrício Carpinejar
CÍNTIA MOSCOVICH
Foto(s): Emílio Pedroso/ZH

Na edição do dia 31 de outubro de 2045, a página 42 do Diário do Sul, de São Leopoldo, traz a notícia de um crime em circunstâncias singulares: quatro filhas e a mãe - conhecidas na cidade como as Cinco Marias - enterraram no pátio da casa o corpo do pai e marido, o médico e também escritor Mauro Ossian.

Vítima de amnésia, a mãe, a professora de música e poeta Maria de Fátima Ossian, jura que não havia enterrado o marido: o sepultamento teria sido dos livros da biblioteca da casa. As quatro filhas confirmam a versão materna.

Com esse mote, o poeta Fabrício Carpinejar tece seu sexto livro, Cinco Marias, que é o diário das cinco mulheres, somatório de vozes que vivem, a um só tempo, a miséria e a grandeza familiar. À intriga mirabolante, o poeta contrapõe uma ode à simplicidade: são versos curtos, estrofes enxutas, em que a poesia se transfigura num notável exercício de essencialidade e plurissignificação. "A vida recusa principiantes", escreve Carpinejar, num verso que, mais do que um jeu de mots - o autor não se adequa ao perfil de mero frasista -, expressa o ideário de sua poesia, que é reunir palavras absolutamente necessárias, que se escoram umas às outras. "Procuro a música do osso", diz ele, tentando trocar-se em miúdos.

Por primeira vez dando voz a figuras femininas (seus livros anteriores tinham assumido dicção masculina), continuando ainda com poesia de extração narrativa, de ações encadeadas, Carpinejar procurou na própria biografia sua fonte: foi achar o jogo de cinco-marias da irmã, almofadinhas com areia que serviam às brincadeiras da infância.

- Usei o brinquedo porque acho que nele, como na poesia, há uma seriedade dramática. Quando a criança brinca, e quando se escreve, não há nada mais importante no mundo - fala o autor, preparando-se para ir a São Paulo, onde deverá lançar nacionalmente o novo livro.

Apreciador do universo feminino, Fabrício ensina o que aprendeu pela observação:

- O homem procura a sabedoria fora dele. A mulher sabe que a sabedoria está no próprio corpo.

Em Cinco Marias, o pai é figura desagradável e desagregadora: seu beijo na testa das filhas denuncia um hálito capaz de estragar o mais fino dos vinhos: "Não importava a safra, / poderia ser a melhor, / ela azedava em sua veia", fala o poeta.

Aos 31 anos, Fabrício chegou a um patamar de maturidade em que foge à mitificação: agora, a imperfeição o impulsiona ("Fazer as coisas pela metade / é minha maneira de terminá-las", resolve) Num esforço de plasticidade descritiva, o poeta circula pela casa das Cinco Marias sem medo de lidar com o imundo da existência - e da morte - que mora ali. Fabrício descarna suas personagens e a respectiva loucura, oferecendo a poesia lapidada: "Desistam de planejar o desfecho. / Não morreremos com nobreza. / Toda morte é um vexame. / Não nascerei de novo, / a morte é que se renova".

Premiado no Brasil e no Exterior, jornalista por ofício, Carpinejar lançou no final de 2003 Caixa de Sapatos, em que reunia poemas dos cinco livros anteriores e que será publicada em Portugal. Com seu novo livro, o autor espera recomeçar seu trabalho poético detendo-se no detalhe e na miudeza, fruto da observação de um olho caprichoso.

- Sempre fui um espectador do jogo de cinco-marias de minha irmã, naquela atitude de educar as pedras até o ponto de as próprias pedras serem mãos - conta o poeta.

Frase de quem aprendeu a educar as palavras até torná-las poesia.

CINCO MARIAS. Bertrand Brasil. 123 páginas. R$ 19

10:57 AM :: Comentários:

A CAÇADA PERFEITA DE ARRIGUCCI JR.
Reconhecido como importante crítico, Arrigucci Jr. estréia na ficção

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Poeta e jornalista, autor de Caixa de Sapatos
Foto(s): Ilustrações de Sérgio Fingermann, Ugolino e a Perdiz/ZH



Grandes críticos acabam sendo subestimados quando ficcionistas. Dificuldade de se separar um do outro e intenção equivocada do público de querer que os ensaístas realizem aquilo que chamam atenção nos outros escritores. Não há como misturar alhos com bugalhos. O mineiro Silviano Santiago é um dos poetas dos mais interessantes, o paranaense Miguel Sanches Neto demonstra conhecimento de causa na narrativa, o gaúcho Luís Augusto Fischer tem um livro de contos, O Edifício do Lado da Sombra, obliterado pela sua capacidade analítica, o carioca Antonio Carlos Secchin, um dos entendedores de carteirinha de João Cabral, não precisa provar sua voz depois de Todos os Ventos.

Desafiando e vencendo a implicância, Davi Arrigucci Jr., professor aposentado da USP, autor de ensaios fundamentais sobre Cortázar em O Escorpião Encalacrado, Drummond em Coração Partido e Manuel Bandeira em Humildade, paixão e morte, estréia na ficção com Ugolino e a Perdiz (78 páginas, R$ 29), em belo projeto gráfico da Cosac e Naify, com ilustrações de Sergio Fingermann. A reação mais previsível com o lançamento é encabular a crítica, com dificuldades de se alçar ao patamar reflexivo do próprio autor. Nada disso deve prevalecer. Arrigucci Jr. oferece um delicioso enredo enfocando a caçada obstinada de Ugolino Michelangeli para vencer as artimanhas de uma perdiz. Acompanha-se a preparação para a expedição com os cães e compadres em busca da ardilosa ave. A narrativa se passa em São João da Boa Vista, com atmosfera de interior e o domínio do campo restrito a alguns fazendeiros. Trata-se de uma história herdada, contada por quem a escutou, não pelo protagonista. "Eu o conheci por esse tempo, após a famosa caçada, e o que conto, sem tirar nem pôr, são as suas exatas palavras." O narrador logo anuncia a fidelidade do relato. O que ele promete pode cheirar a despiste. A narrativa oral é emoldurada pelo anonimato, com a inserção recorrente, mesmo que deformada, de provérbios populares para dar autenticidade própria do causo. Assim aparecem hora e outra expressões como "como se em casa de ferreiro o espeto fosse mesmo de pau", "mato sem cachorro", "apreciava mais uma perdiz na mão que a honra voando", "o que era doce, acabou-se". O estilo é tortuoso, convincente, como diálogos editados dos jagunços de Riobaldo. À medida que o narrador se vale de algo que escutou de Ugolino, abrem-se duas caçadas: a literatura como forma de investigação da realidade e a corrida pela perdiz propriamente dita. Ambas se fundem na fábula em planos paralelos e simultâneos ao leitor, tanto na procura pela palavra certa para definir a teimosia de Ugolino como na absorção dos planos quase infalíveis para fisgar o bichano. "Às vezes atira no que viu e acerta no que não viu. E para ele, rastrear o significado de uma palavra não deixava de ser também uma forma de caçar."

A novela é luminar, imbricada de ziguezagues, como quem demora a contar o final com subtemas que não estavam previstos. Figuras secundárias (o companheiro de caçada Joãozinho, o fazendeiro Aquilino, a mulher 'formiguinha', entre outros) e elementos da natureza surgem e vão sendo esmiuçados entre o anedótico (o caboclo que tem um guarda-chuva enterrado no beiço) e o poético ("varejeiras verdes, que deixam compridas lembranças"). O cenário do fundo é determinante, porque a ação cresce pelas bordas e beiradas, na capacidade de Arrigucci Jr. em fracionar verbalmente o tempo e agigantar a expectativa derradeira.

Conforme diz o protagonista: "as coisas têm muitas margens e são mais ondulantes do que parecem à primeira vista". Apresentando as voltas de uma emboscada, os pensamentos são incompletos e involuntários, se reforçando com freqüência. A narrativa tem uma proposta esquiva, ainda que desenhada em segura simetria, feita de subnúcleos. A exemplo das circunferências de Dante, círculos menores forçam o círculo maior, que é o embate entre Ugolino e a perdiz. As circunstâncias falhas e certeiras determinam o temperamento e a sina do caçador, pois caçar "é aprender a ficar alegre e triste ao mesmo tempo".

Vai se conhecendo a ave pelo seu entorno, por aquilo que não é, pela sua proximidade com outros bichos e pesla adensamento de um clima primevo, rude e misterioso. "Só o olho vivo do caçador vai aprendendo a distinguir uma ave ou um bicho pelos movimentos que fazem, pelo canto ou piado, por um rastro ou por uma silhueta no vôo." A ausência da perdiz já é, de algum modo, a perdiz, exposta no som dos juritis e do bem-te-vi. Ugolino estuda sua presa e sua presa também estuda Ugolino, o que ele não espera, já que ele parte da premissa de que ele é o ativo na caça. A armação perfeita do primeiro é revertida em reação pela ave. "A perdiz não tem o miolo mole de galinha, não." Arrigucci Jr. afunila a trama até que o caçador e a caça sejam o mesmo animal humano. A perdiz se camufla não mais no capim e na terra, mas no próprio Ugolino.

(Jornal Zero Hora, Cultura, Porto Alegre/RS, 10/4/04, edição nº 14111)

9:13 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 09, 2004

PÁSCOA
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA

Fabrício Carpinejar

Nublava a Páscoa. Não me lembro de outro tempo. Minha avó na Sexta Santa não arrumava a cama e só penteava o cabelo às 15h. Folgava de si. Carregava um terço marrom para ir à missa e um terço preto para o quintal. Rezava a céu aberto. Os ovos eram recheados de amendoim. As galinhas ficavam ruivas nessa época. Eu tentei fazer suspense para minha filha pequena e desenhei patas de coelhos com pomada no armário. Nunca consegui apagar as patas. O vizinho Riomar tocava violão com garfo. Quando perdeu seu amor, cortou as cordas e fez uma forca do violão no pessegueiro da praça. Guaporé acordou com um violão enforcado. Cidades do interior com lombas são religiosas. É preciso muito Deus para subir inclinado. Em dias de casamento, se descia a ladeira. A procissão subia. Fui o anjo da guarda, até que a cola de uma das asas soltou e terminei manco de vôo. Colocaram uma coroa em minha cabeça que eu entendi como antena de inseto. Um inseto de lâmpada. Meu irmão Rodrigo usava uma faquinha para abrir os ovos grandes, retirar o recheio e os brindes. Montava o celofane de novo e não se percebia o esvaziamento. Não se come carne na sexta. Minha mãe sumia com todos os salames e presuntos da casa. Ao meio-dia, vinha o "Senhor Tem Alguma Coisa Para Dar?" bater a campainha. Ele tirava o chapéu e pedia a gentileza de uma moeda. Mais educado do que o próprio chapéu. Levou o casaco surrado e quadriculado de meu pai. Um casaco horrível que meu pai não largava de jeito nenhum. Meu pai ficou louco quando não o achou. Ele gritava: cadê o meu paletó? Aquilo não era paletó, mas todo mundo compreendia. Um dia, ao passear pelo bairro, encontrou o "Senhor Tem Alguma Coisa para Dar?" com seu casaco. Deu uma nota preta para ganhar o casaco de volta. Comprou sua vaidade. O casaco ressuscitou para o desespero das outras roupas. Páscoa não é um dia triste, mas um dia misturado, as palavras andam de pernas-de-pau para assustar as crianças. No cesto, a palha faz o chocolate inflar. A palha é a mola do sol.

11:00 AM :: Comentários:

MÍNIMAS


Uma árvore é enterrada de pé.
Como uma guitarra.
E a boca da terra é Deus ouvindo.

10:55 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 08, 2004

CAMISAS BRANCAS
Gravura de Almada Negreiros

Ele acordava cedo apenas para escolher a camisa branca. A mesma Hering, tamanho G. Demorava horas a pensar qual colocaria. As suaves diferenças poderiam ser percebidas pelas golas. Havia golas mais roídas ou aparadas ou novas. Somente ele notava algum contraste entre as malhas. Botava o jeans surrado e os sapatos pretos. Usar roupas iguais não diminuiu o tempo de sair. Passou a chegar ainda mais atrasado para o trabalho. As manias vão se aperfeiçoando. Era alto, mais alto do que seus colegas. Mais alto do que sua porta. Não aparecia nas fotos. Uma escada nunca aparece nas fotos. Ninguém conta os degraus de uma escada. Passar por debaixo de uma escada dá azar. Ele fracassava ao ser educado. Ao tentar apanhar algo que caiu no chão de outra pessoa, seja livros, seja papéis, demorava monstruosamente. Não completava sua intenção. Sua cama lembrava um sofá, sem tevê. Nunca dormiu verdadeiramente numa cama, os pés sempre para fora. O mundo não tinha alfaiate para sua altura. Atravessou toda infância tomando chá gelado. A adolescência foi trocar o chá pelo café. Não dispensa sua caneca verde em nenhuma viagem. Lava e a carrega como um sapato embrulhado em jornal. A caneca já quebrou a borda de segurar, o que o deixou deprimido durante uma semana. Ele é alto, mas não anda curvado. Qualquer um que passa por ele se sente um porão. Anda tão reto que chega a doer. Fica mais alto ainda quando senta. Há um esforço de vento para se manter. Um esforço de perfeição que o torna altamente imperfeito.

11:45 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 07, 2004

MANIAS

Um colega do serviço sopra os óculos como se fosse um binóculo. O outro conversa com suas unhas antes de cada parágrafo. Na parada, uma mulher coçava o sinal de nascença perto da boca. Eu acho que ela falava pelo sinal de nascença. Uma senhora me perguntou se o ônibus vinha laranja ou azul. Eu disse azul sem pensar e era laranja. Para alguns passageiros, o ônibus tem cor, não nomes e linhas. O tempo é que estava laranja. Meu avô arrancava a casca com os dentes e engolia as sementes. Eu descascava lápis com o canivete. O lápis ficava ladeado de farpas. Eu escrevia com farpas. Depois de escrito, o lápis se arrendodava como um sinal de nascença, uma pedra no fundo do rio. Quando fico nervoso, eu mexo no meu ouvido esquerdo. Está entupido de vozes que ainda não cresceram.

2:21 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 06, 2004

Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA

O cheiro já é mastigar a fruta. Na verdade, a gente mastiga mais o cheiro da comida do que a comida. Tanto que não é possível permanecer na cadeira depois de comer e com a comida ainda inconsciente na mesa. A respiração continua a morder mesmo sem espaço. Ela não sabe usar os talheres, só come com os olhos. Os olhos são o início da boca do sopro. Pensei que aos 40 anos poderia consertar minhas mentiras, mas elas ainda precisam de mim. Não esqueço a primeira vez em que meu avô abriu o rádio do tamanho de um bidê. Ele encostou os ouvidos na tábua como se fosse um cofre. Buscava a senha e o estalo. Eu vi as válvulas acesas, o sangue verde de luzes, os fios meticulosamente dormindo, como brincos de minha irmã extraviados na grama. O rádio é um relógio de pé. O rádio e o relógio não viram as costas. Na hora em que meu avô tirou a tampa, toda casa passou a exalar eucaliptos. O rádio era meu autorama, brincava de correr vozes.

11:27 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 05, 2004

ALTURA EM MIM

Tinha vertigem quando criança. Nunca mais a senti. O medo de ver por dentro as escadas de edifícios altos. O vão absoluto. O barulho do vão, próximo do vôo. Hoje voltei a escurecer em pontada ao me escorar no muro sem proteção da minha sacada, que está em reforma. Minha respiração ficou acelerada como se as palavras não existissem.

10:24 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 04, 2004

Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Eu me apago sozinho. Não me acendi, mas podes deixar, eu me apago sozinho. Minha vizinha se demora a pentear os cabelos. Ela é adolescente e vai sair. Acredita sinceramente na noite. Passou todo dia pensando na noite. Ela somente acordou para não dormir depois. O que fui em mim ainda será. Não fecho o ciclo, não bato a porta, permaneço acreditando na noite. A noite que me entreguei com toda fúria. Não sei se atingi o fundo ou fiquei com medo de chegar. Eu bebi o dobro do que minha voz permitia. Minha voz ficava aguada. Eu fumava enlouquecido porque outros fumavam e outros resmungavam brasas e a roupa terminava cinza encadernada, cinza enfurecida, cinza queimando os dedos. Voltava sozinho para casa, com os bolsos cheios de papéis e guardanapos que não entendia e não passava a limpo, com telefones que prometi ligar no dia seguinte e não encontrei sentido e foram se despedindo antes mesmo de acontecer. Quantas vidas terminei sem antes começar? Quantas chances tive de ser diferente? Eu me consumi e não sei se sinceramente acreditava ou se era a noite que me fazia crer em noites. Eu me consumi e não me acabei. Eu quis me expulsar e me tranquei mais fundo. Ainda resta algo que não foi varrido, vasculhado, amansado. Nada soterra o tempo: cada vez mais recente quanto mais antigo. Olho para os filhos e não sei dizer o que queria dizer, não sei o que dizer, quando estou pensando tenho convicção que direi e, na hora de falar, estou de novo esvaziado. Eu precisava de tão pouca coisa e não me aceitei em troca. Não mudei o mundo apenas porque não sabia qual o mundo em que vivia. A noite tinha uma promessa que não era esperança, uma promessa que me fazia vivo, possível, insolente, insensato, inconseqüente. Ardendo vivo uma água-viva, árvore de água, escada de água. Plumas de água, espuma de escada. O vento amassava o pão da grama e eu pastava a céu aberto, patético como a relva em seu início, entontecido de uma umidade branda. Perdi amigos por tão pouco, por tão pouco julgava e condenava e não me absolvia. E como uma oração que se pressente, não dizia, não podia dizer com meus braços magros e ossudos, de imprevista simplicidade. E não me via inteiro, e sim aos sorvos e goles, falava o que queria, negava o que podia, afirmava o que não sentia e tudo era misturado o suficiente para não descobrir a origem. Perdi amigos, ganhei amigos, porém estive irremediavelmente isolado. Eu não me atingia. Nunca me alcancei. Seguro minha mão como a de um estranho. E houve desencanto, houve engano, disse que não mais faria, que era forte e que não precisava disso e refiz e fiz e voltei como quem nasce para ensaiar o grito. Como explicar minha risada súbita no meio de um jantar sério de negócios? Como explicar que debocho do que sou, mas com ternura? O deboche é minha maneira de falar que eu me entendo e isso não me basta. Que eu caminho como quem se escora em um ombro, que me escondo como quem caminha. Que nunca me salvei das noites onde não estive, que envelheci sem saber se a verdade traz beleza, se estava mesmo em mim ou se alguém perto me descreveu. Eu me apago sozinho. Não me acendi, mas podes deixar, eu me apago sozinho.

10:25 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 02, 2004

Valor Econômico, Caderno EU&, São Paulo (SP), 2/4/04

Poesia

Em "Cinco Marias", Fabrício Carpinejar reafirma que não vale o certo, nem o belo, mas apenas o humano

VIVENDO E ERRANDO
Por José Castello, para o Valor
Foto Renata Stoduto/Divulgação

Desde sua estréia na poesia em 1998, com "As Solas do Sol" (Bertrand Brasil), ecoa no bojo dos versos do gaúcho Fabrício Carpinejar a inegável influência do poeta mato-grossense Manoel de Barros. Mais ainda que a de seus pais, os poetas Carlos Nejar e Maria Carpi. Esse latejar de Barros na literatura de Carpinejar é, quase sempre, a única restrição mais forte - e bastante discutível - que se faz à sua poesia, de resto estupenda. Quem lê "Caixa de Sapatos" (Companhia das Letras), antologia de seus poemas organizada por ele mesmo e que será publicada proximamente em Portugal, pode perceber, com bastante nitidez, tal filiação.
Pois o sopro dessa influência, de resto benéfica, desaparece por completo em "Cinco Marias". Em seu sexto livro, Carpinejar oferece um grave problema ao segmento da crítica que ainda se recusa a nele reconhecer uma grande vocação poética. Fica difícil negar que ele se tornou o mais importante poeta da geração que, hoje, anda pelas beiras dos trinta anos de idade. E é, sem qualquer exagero ou favor, um dos mais importante poetas brasileiros vivos.

Fabrício Carpinejar é um poeta voltado para a imperfeição, que ele vê como o sumo da vida. E esse interesse pela vida o leva a misturar, em doses delicadas, poesia e narrativa. "Cinco Marias" se baseia numa notícia de jornal, na verdade uma falsa notícia, datada de 31 de outubro de 2045. O suposto recorte do "Diário do Sul" vem reproduzido no fecho do livro. "Mulher enterra marido no pátio", diz a manchete. É uma nota policial, dramática e simples, que relata um crime cometido em São Leopoldo, RS, a cidade em que Carpinejar nasceu e vive. A professora de música aposentada e poeta Maria de Fátima Ossian, de 45 anos, matou o marido, o psiquiatra e escritor Mauro Ossian, de 70 anos, e enterrou seu corpo no jardim da família. Em estado de amnésia, foi descoberta pela polícia. "Desesperada, gritava que não era seu marido que estava ali, mas os livros da casa." A mulher e suas quatro filhas, conhecidas como Cinco Marias, escrevem um diário coletivo, em que, com identidades embaralhadas, narram sua experiência. Nele, vem a confirmação de que a biblioteca do psiquiatra está também enterrada no jardim.

"Cinco Marias", o livro de poemas de Carpinejar, é o relato tortuoso e fragmentado desse crime. É, ao mesmo tempo, o diário deixado pelas cinco mulheres. "A imaginação desloca as lembranças/e depois não as encontramos", relata essa voz coletiva feminina. Além do mais, essas cinco Marias não podem entender o que foram levadas a viver. "As respostas desobedecem às perguntas", dizem. Ingressaram, assim, no domínio do mistério, que, apesar de sua aparência impressionante, costuma apenas falsificar e esconder. "Mistérios existem para simular profundidade./Sou rasa, fútil", diz essa mulher de cinco faces.

Carpinejar se alija, decidido, de qualquer rigidez poética. É um poeta maduro em seus 31 anos de idade - como se existissem cinco poetas dentro de um só. Um poeta que, indiferente aos apelos da modernidade, prefere escrever nas gretas da carência, ou do desperdício. "As pessoas que são justas,/discretas, comportadas,/ netos ao colo, casos arquivados,/ não rendem literatura. A impureza emociona", dizem as Marias por ele. E mais à frente: "A vida com erros de ortografia/tem mais sentido./ Ninguém ama com bons modos."

Desse modo, na contramão de um mundo que aspira ao límpido e ao instantâneo, Carpinejar pratica uma poesia voltada, apaixonadamente, para o fracasso e o erro. "Não conferir palavras no dicionário./A linguagem se abrevia às pontadas do/parto." É um poeta consciente de que toda perfeição se conclui, sempre, no nada, e da conseqüente inutilidade da poesia, simples poeira diante da grandeza da vida: "Concluir que foste inútil:/fizeste o trabalho para a morte." Apega-se ferozmente ao cotidiano, e é com a atenção voltada para os pequenos fatos que ele narra a história das cinco Marias, certo de que "o cotidiano é um modo de acordar". Dispensa artifícios e floreios: "Estou mais perto de ser real./ Não dependo das rédeas,/ seguro-me nas crinas."

Poeta da carência, Carpinejar escreve, por isso mesmo, em estado de grande assombro. "Somos o que não temos./O que temos, já perdemos de ser", dizem as cinco mulheres. Com essa atitude, a poesia despe-se de toda impostura culta, de toda farsa intelectualista. É feita mais com os nervos e o pulso que lateja do que com a mente. "Eu raspava a fome", dizem as Marias, num verso que define a estratégia poética de Carpinejar. Poesia que não se interessa nem pelo certo, nem pelo belo, mas só pelo humano. Está dito: "Fazer as coisas pela metade/é minha maneira de terminá-las."

Cinco Marias. Bertrand Brasil. 123 páginas. R$ 19

7:25 PM :: Comentários:

MÍNIMAS

Passei a vida atravessando um túnel. Só percebi depois que o túnel era o meu nome.



7:23 PM :: Comentários:

SITE DA LIVRARIA CULTURA, SEÇÃO BIBLIOTECA IDEAL:

DEZ LIVROS QUE NÃO MUDARAM MINHA VIDA
Foto Rodrigo Rocha

Fabrício Carpinejar


Eu poderia ter sido o que não tenho, o que também daria trabalho. Decidi ser o que sobrava em mim. Nunca fui de procurar as enciclopédias para me explicar. Pareciam sábias em excesso para gastar tempo me ensinando. Usavam abotoaduras, gravata e bengala. Olhavam vesgo para quem se aproximava. Cuspiam seco. Bocejavam com as mãos levantadas. Muito educadas para se sujarem com a vida. Procurei livros pequenos, miúdos, de poemas. Eles me ensinaram a errar os caminhos, a conhecer bem mais o mundo do que eu queria ou podia. Imagina se eu acertasse o trajeto a cada manhã? Seria a repetição do mesmo verbete. Os livros de poesia me fizeram perder a cabeça para ganhar de volta o corpo. Dez livros me ajudaram a não mudar minha vida. Não mudar a vida é confiar nela. Hoje, por exemplo, não jogo moedas de costas para o poço. O poço não é um chapéu pedindo esmola. Nós é que estamos pedindo esmolas ao poço. Eu tampouco sou mal-educado para falar dele pelas costas. A realidade sempre tem um avesso, uma outra versão. Não me contento com uma única mentira. Prefiro uma mentira acompanhada. Duas mentiras juntas formam uma verdade.

Tantas vezes escutei que a poesia é complicada, difícil. Leitor alega que não entende o que o autor quer dizer. Parece que é preciso freqüentar um workshop para compreender uma seqüência de poemas. Ninguém depende de curso para ler conto, romance ou auto-ajuda. O mesmo funciona com os versos. Não é matéria de estudo, mas leitura alheia aos horários. A gente fala por imagens todo o dia e não percebemos que é poesia. No futebol, janelinha, lençol e chapéu são metáforas que salvam o locutor da garganta seca, de ficar horas descrevendo os movimentos da partida. Até porque seria gol e a narração ainda estaria no início do lance. O poeta é um paramédico, capaz de ressuscitar o cotidiano, acordar a língua, surpreender, provocar - ao mesmo tempo - a graça, o riso e o choro. Quem não precisa disso? Que procure a sabedoria das enciclopédias e suas capas duras.

Divina Comédia, Dante Aligheri: li todas as ilustrações da Divina Comédia e posso garantir que os versos são bem mais sádicos. Maquiavel não chega perto do inferno de Dante. Santo Agostinho é um ingênuo diante de seu paraíso.

Marcas Marinhas, Saint-John Perse. Poeta de puro espírito. Em Anábase, ele canta o deserto e o exílio. Em Marcas Marinhas, canta o mar e os afazeres da espuma, os homens nos tombadilhos e as mulheres ancestrais. Um dos franceses piromaníacos, incendiário da linguagem como Rimbaud. "Um grande princípio de violência nos comandava os costumes". Ele tem razão, os hábitos nos violentam.

Sete Rosas mais tarde, Paul Celan. Escrita extremada, que não aceita suborno, chantagens, desconto. Um dos vôos mais altos da língua alemã. Ele adverte: "Não separes o Não do Sim". Sim, não, talvez. No final, a gente se dá conta de que concordar é realmente discordar.

Tabacaria, Fernando Pessoa. Simplesmente genial. Eu li esse poema aos 13 anos, me formei, me separei, encontrei um grande amor, tive dois filhos, mudei cinco vezes de emprego e ainda sei de cor.

Obra completa, João Cabral. Não adianta perder tempo escolhendo um livro apenas de João Cabral. Ele não desperdiça um chute. Criou o mais poderoso sistema anti-vírus da poesia brasileira. Todos que tentam o imitar acabam sendo denunciados.

Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade. Ele fez o poema mais perfeito da língua no século XX, Máquina do Mundo. É de ler com os olhos sentados. Descreve a vacilação de um homem diante de uma estrada pedregosa. A expectativa mínima já é esperança.

Muitas vozes, Ferreira Gullar. Um autor que sobreviveu a si mesmo e a sua geração. Não perdeu o pique. Poemas curtos, intensos e esmagadores sobre os óculos do pai ou impressões da maturidade. "Todos os movimentos do amor são noturnos mesmo quando praticados à luz do dia", quem diz isso merece respeito.

Romanceiro Gitano, Federico García Lorca. Teatro cantado, palco móvel, fábulas, poesia como dança. Federico tinha castanholas no lugar dos dentes.

Cartas de aniversário, Ted Hughes. Aconselhável para quem sofre de insônia ou pretende parar de roncar. O poeta inglês faz uma prestação de contas com sua ex-mulher Sylvia Plath, também poeta, que se matou aos 30 anos.

Belo Belo, Manuel Bandeira. Só com esse título já fico de bom humor. Nunca uma redundância deu tão certo. Ele lançou a teoria do poeta sórdido, "aquele em cuja vida há a marca suja da vida".

2:41 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 01, 2004

DIAS
Gravura de Paul Klee

Renato Dias é um pintor poeta. Fala calmo mesmo quando está nervoso. Falar com ele é ouvir montanhas longínquas, o som azulando as árvores. Meu amigo perdeu a esposa há pouco tempo. Saiu de casa para suportar a tristeza. Abandonou a porta azul, o molho de chaves, os quadros, o relógio de madeira que era o gorro da sala. Todo móvel, a gaveta com trinco frouxo, o avental, os chinelos, a toalha secando, o par de copos, os garfos, os travesseiros bordados com as iniciais, o pente faziam a ausência dela sair da cama. Havia uma mão aquecendo a dele antes de tocar os objetos. A voz é como uma agulha cerzindo. A agulha volta, como os elepês ao final. Arranha onde havia sangue. Sua biblioteca apresenta estantes largas como uma arquibancada. Os livros de Renato têm 50 cm de altura. Nos últimos anos, sua mulher sofria grave problema de visão. Ele não se deu por vencido e passou a ampliar as obras que comprava. Era um ritual vê-lo pela cidade carregando pastas com as cópias enormes, faceiro com sua invenção, um homem respirando debaixo das braçadas de buquê. Ela lia as folhas espantosas de hortelã, os poemas, os romances, como formigas tomando a lupa. Logo depois ficava com vontade de comer geléia de framboesa. Amar é uma fome mais antiga do que a boca.

2:10 AM :: Comentários:

ESTÁTUAS DESAPARECIDAS EM SÃO LEOPOLDO.
PAGA-SE RECOMPENSA

O monumento que simboliza os 180 anos da imigração alemã na cidade foi vítima dos seqüestradores, a quatro meses do aniversário e da festa. Paga-se resgate de estátuas em São Leopoldo. Prefeito oferece recompensa de R$ 20 mil (R$ 10 mil por informações sobre os ladrões e outros R$ 10 mil sobre o esconderijo das relíquias). Os anões de jardim não correm perigo. Os alvos são os bustos. Dom Pedro I foi apedrejado e a Imperatriz Dona Leopoldina desapareceu depois do jantar. O monumento comemorativo ao centenário da colonização alemã, erguido em 1924, virou forçosamente um obelisco, sem as peças de bronze. Não é só. O Visconde de São Leopoldo teve o pedestal e a placa furtados. A imagem de um dos primeiros imigrantes germânicos, João Daniel Hillebrand, foi amputada com requintes de crueldade. Nem as estátuas estão livres dos assaltos.

2:06 AM :: Comentários:

SARAU

Sou o homenageado da Associação Gaúcha dos Cegos (Acergs), em sarau poético que beneficia o setor Braille da Biblioteca Pública do Estado. Farei leitura de poemas do livro Cinco Marias (Bertrand Brasil). O encontro acontece nesta quinta (1º/4), às 18h30, no Salão Mourisco (Riachuelo, 1190 - Porto Alegre). O ingresso será 2 fitas cassete (virgem) ou 1 CD (virgem), arrecadados para a audioteca da instituição. O evento conta com apoio da Câmara Rio-Grandense do Livro, Academia Rio-Grandense de Letras e Prefeitura de Porto Alegre.

2:02 AM :: Comentários:

UOL

Quem não conseguiu participar do chat do UOL pode ler o resultado da conversa no site Capitu. O bate-papo foi uma agitação só, com a participação de 116 pessoas durante uma hora.

1:59 AM :: Comentários: