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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Maio 30, 2004

ANOTAÇÕES SEM PAPEL
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar

A barba avança independente do que deixe para trás. Eu tive várias vidas mas não terminei nenhuma delas. O que sei serve apenas para me duvidar. Temos pouco tempo para nos entender, não entendo como sobra tempo para nos explicar. Deveríamos dar ao amor a mesma religião do ódio. Quem odeia vai toda hora visitar um nome. A primeira infância não é a primeira morte. Há datas que Deus nos paga a conta. Deus não chega com a dor, Deus é quando falta ar para rir. Escolher é desafiar a si mesmo a excluir justamente o que gostaríamos de dizer. Escrevo como quem mexe na horta. As unhas não lavam as mãos. A neblina é um rio que anda de barco. O mar sempre devolve o que não conseguiu engolir. A terra tem mais estômago. Sinto pena das árvores que são encontradas dias depois de sua morte. Elas cheiram os frutos que não germinaram. Não isolo o que vivi do que imaginei ter vivido. A poesia é a desistência de explicar. Eu dormi mais do que as palavras sonharam. A chuva vem para lermos a casa. Intimidade é conversar na mesa de café e apoiar o cotovelo em farelos de pão.

10:59 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 28, 2004

"POESIA É NUNCA SE ALFABETIZAR"



Entrevista com Fabrício Carpinejar
Arte digital Renata Stoduto
Por Wanderson Lima, na revista AMÁLGAMA

Durante alguns meses, troquei com Fabrício Carpinejar alguns e-mails em que discutimos a poesia alheia e, às vezes, a nossa (a minha e a dele). Surpreendi-me como, em seus breves e-mails, Carpinejar conseguia ser a um só tempo crítico e poético. A essa época, já havia lido a histórica entrevista que o autor de As Solas do Sol (1998) havia concedido, na revista eletrônica Agulha, ao crítico e poeta Floriano Martins e senti que valeria a pena fazer-lhe outras perguntas, quiçá completares às indagações argutíssimas de Floriano.

Ernesto Sábato, em um de seus ensaios, diz que em nossa época um escritor que queira se passar por profundo deve ser obscuro, pois temos associado clareza à superficialidade. Esse comentário de Sábato parece ter a ver com uma linha de nossa poesia que engloba Bandeira, Quintana, Manoel de Barros e você, verdadeiras vítimas desse julgamento equivocado, patrocinado principalmente por certos vanguardismos formalistas afeitos a experimentações herméticas as quais só é possível a compreensão se estivermos por dentro de seus pressupostos teóricos. O que pensa sobre isso?
Carpinejar: Eu penso que o poeta não deve ir ao fundo da linguagem, mas permanecer em vigília na superfície. A superfície é densa e expressiva, onde o mundo nos assiste. O que me importa é o cheiro da rua, da casa, das roupas, remexer no desperdício. Estar tão próximo do leitor que ele me sinta longe. O fundo é isolamento e nos afasta da vulnerabilidade. Desde criança, tenho uma empatia pela fraqueza. Sempre tentei amparar quem estava desfocado, deslocado, às margens. Minha linguagem é um esforço de diplomacia entre a imaginação e a realidade, entre os que as pessoas pensam e o que elas são. Criou-se uma crença de que a boa poesia é aquela que não é compreendida. Quanto mais difícil, melhor a criação. Não concordo. A poesia precisa falar para todos os tempos em qualquer tempo. O tempo tem que estar vivo no verso. O que adianta dizer para não dizer? O que adianta apenas preencher um lugar na estante? O que adianta escrever para si? Melhor então é nunca publicar. Escrevo como doação, buscando transferir meu sangue. Minha única vanguarda é acompanhar minha morte a distância. Deixar que ela se aproxime. Enquanto isso, vou fazer da vida a minha mais alta despedida. O verdadeiro poeta não precisa de um prefácio para ser entendido. A sensibilidade tem urgência e não fica esperando pressupostos teóricos.

Mário Faustino, quando de sua página no JB, reclamou certo vez que o Brasil estava cheio de 'Drummondzinhos'. Talvez hoje ele dissesse que está cheio de 'Cabralzinhos'...
Carpinejar: Mario Faustino era um leão (crítico) com coração de ave (poeta). Acredito que Cabral teve muitos imitadores em vida. Mas é impossível imitar Cabral, o autor brasileiro com o melhor sistema anti-vírus. Houve até quem conseguisse cotejá-lo na forma, mas sem nunca atingir sua implacável visão de mundo. Imitar Cabral é tentar ser gago. Tudo não passará de uma caricatura. A poesia brasileira contemporânea está se libertando dos referenciais da última metade do século XX. Mais solta, convicta, menos experimental, capaz de inaugurar sua fome sem precisar recorrer à metalinguagem. Vários autores começam a aparecer com intensidade, não transformando seus livros em teses acadêmicas e procurando sentir o peso das contradições e paradoxos de nossa época.

O crítico Hidelbrando Barbosa Filho afirma com lucidez: "Poeta que pensa, Carpinejar, no entanto, não busca seu pensamento fora de sua vivência pessoal. À semelhança de Rainer Maria Rilke, nas Elegias de Duíno, sua convocação metafísica nasce do pacto com a vida, do olhar sobre as coisas, do olhar por dentro das coisas, e não exteriormente das doutrinas filosóficas que aí circulam." Você concorda com os que afirmam que os poetas romperam 'o pacto com a vida' e passaram a produzir uma poesia muito literalizada e auto-referente?
Carpinejar: Concordo. Centenas de poetas passaram a problematizar o poema, com medo da influência de Cabral, Bandeira e Drummond. A poesia virou um divã, uma terapia. Ao invés de propor um pacto com a vida, regurgitava a impossibilidade de se fazer um poema. Basta pegar aleatoriamente qualquer iniciante das últimas décadas, sempre existirá um verso pedindo desculpas por não conseguir vencer a insônia. Há gente que ficou cega com a página em branco. Daí que os leitores se afastaram dos poemas pela ausência de identificação e foram encontrar ressonância biográfica nas letras da MPB e do rock. Agora o poema voltou a ser música, sentido e olhar demorado sobre as coisas. Retoma-se os grandes temas a partir das pequenas delicadezas e irrupções do cotidiano.

O cânone literário brasileiro precisa ser reavaliado?
Carpinejar: Sim. É um crime deixar de fora do cânone Cecília Meireles, Murilo Mendes, Jorge de Lima e toda uma poesia filosófica e mística. A crítica tentou dilapidar nossa herança barroca e visionária. A necessidade de engajamento nos anos 70 e 80 criou uma obrigação aos poetas de transformar o mundo. O que parecia mais subterrâneo e religioso, ficou de lado. Uma tônica realista e ateísta impregnou o cânone brasileiro, dificultando o acesso a alguns importantes precursores de nossa brasilidade. O lirismo acabou deslizando para os epigramas, ao humor, aos trocadilhos, aos haicais preguiçosos e aos anúncios publicitários. Do protesto, a poesia virou brincadeira.

Borges parece ter sido muito importante em sua formação, como transparece especialmente em seus dois últimos livros...
Carpinejar: Ainda é importante. O que mais gosto dele é a espessura do pensamento. Ninguém lê Borges sem mudar o tom de voz. Ele exige uma projeção fônica de fábula, de vatícinio e história. Borges controlava a paixão durante a formulação poética para que ela despontasse somente na leitura, na oralidade. Ele acreditava que a grande magia estava em reunir novamente a narração e o poema, dizia que os leitores estavam sedentos pela épica. Nesse sentido, meus livros formam um romance versificado, um desdobramento de um enredo, feito pela velocidade das metáforas.

O diálogo com Manoel de Barros em seu último livro, Biografia de uma Árvore, é notório e foi ressaltado por críticos como Miguel Sanches Neto. Até que ponto esse diálogo foi relevante? Qual a importância, para nossa literatura, da produção literária de Manoel de Barros?
Carpinejar: Um poeta precisa ser influenciado principalmente pelos seus defeitos. Isso é estilo. Sou também influenciado por aquilo que não foi escrito. Manoel de Barros é um grande escritor, peculiar, explorando os desvios da língua já anunciados por Raul Bopp e Guimarães Rosa. Faz a catequese do traste, a pedagogia do ínfimo. Defende uma teologia do abandono, pós-industrial. Sua estética simula o nível da criança enquanto está aprendendo. Recupera a primeira dentição da linguagem. Realiza uma poética da fé, religiosa, que reivindica a crença de que todos partilham das mesmas convicções. Barros infantilizou a forma poética, não se restringindo a tematizá-la. Propõe que o objeto seja de todos não sendo de ninguém. Minha poesia é mais desconfiada, cínica, não quer o deslumbramento, mas o assombro, algo entre a alegria e a dor. Quero misturar os sentimentos: chorar rindo e rir chorando. Não falo como uma criança, porém percorro as diferentes idades do homem em um mesmo livro.

Há uma forte unidade em sua obra, não só entre os poemas de um mesmo livro mas entre um livro e outro. Parece-me, porém, que seu primeiro livro, o surpreendente As Solas do Sol, foge dessa unidade, é uma experiência a parte...
Carpinejar: Apronto os livros simultaneamente. Não é um processo estanque, individualizado. Desdobro pensamentos em uma única matriz. Meu núcleo é a família e suas relações de poder e despoder, influência e desatino. São manuscritos emendados, embaralhados na escrivaninha, manchados pela luz líquida. Em As Solas do Sol, existe metáforas fechadas que aos poucos foram se abrindo nas demais obras. É um livro à parte, mas com extrema significação no todo. Fui raspando minha estréia, retirando o que tentava me esconder, desvelando o que ainda não estava suficientemente formulado. O personagem de As Solas do Sol, Avalor, pode ser o mesmo de Um terno de pássaros ao sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Uma espécie de Jó sem fé. Ficou três vezes viúvo: da esposa, dos amigos e de seu tempo. É o último da fila. Busca um lugar seguro para guardar sua memória. Está procurando até hoje.

Em "Um Terno de Pássaro ao Sul", você conseguiu realizar um mea culpa sem se deixar contaminar pelo pathos romântico, o que é realmente admirável. Foi o livro mais difícil de ser escrito?
Carpinejar: Um terno de pássaros ao sul foi o livro mais difícil, pois o considero um divisor de águas da minha literatura O trunfo dele consiste em não ser derrotista. É muito fácil cativar pela dor, viciar-se na depressão, exaltar o sofrimento. O romantismo se espalha pior do que a gripe. O difícil - e estimulante - é superar as adversidades e cantar a alegria que pode existir no mais banal. No início, o filho pretende condenar o pai pródigo. Entretanto, descobre que está assim se condenando. A amizade se fortalece pela compreensão. Compreender é perdoar de certo modo. Eu corria o risco de ser confessional. Armei-me, portanto, da ironia, conciliando o apelo dramático com a autocrítica. O que proponho são 'conficções', confissões inventadas. Sou um perfeccionista pelas imperfeições. Quero mudar o senso comum de lugar. Procuro o avesso e a inversão, corromper as certezas. Fazer com que a palavra não morra no costume. Quem pensa que a vida está ganha, não está. Quem pensa que está perdida, também não está. Literatura é indefinição, tensão, desejo, estar na contracorrente do óbvio, caminhar do fim ao início. Poesia é nunca se alfabetizar. Renuncio à erudição para desaprender e perceber cada pessoa como um novo dialeto. Renuncio ao conhecimento para me desconhecer. Quero desescrever cada vez mais, desaparecer para que quem está lendo se enxergue. Que ninguém repare que a poesia foi escrita. Meu nome não é um endereço. O autor precisa se ausentar do livro para se fazer presente por inteiro. O crítico Maurício Melo Júnior. talvez tenha descoberto o grande duelo em minha obra: "do anônimo com o inonimável".

Em um artigo seu, Antecedentes Criminais Poéticos, você tece importantes reflexões a respeito do desinteresse do jovem pela poesia. Por que o jovem ler tão pouco textos poéticos? Que parte da culpa cabe à escola?
Carpinejar: A poesia não é posta na escola como criação, porém apenas como leitura e catalogação de gêneros e escolas. Persiste uma interpretação mórbida da vida do autor em detrimento da obra. Sabe-se mais das doenças de Castro Alves do que de suas odes. Esse é o grande erro. É impraticável criar um laço com aquilo que não é exercitado. Ninguém nasce tocando violão. O jovem tem uma vocação natural à poesia, procurando se expressar por diários, cartas e agendas antes de qualquer outro gênero. Infelizmente, não recebe o incentivo, o exercício da sensibilidade, a intimidade do convívio, que insira o verso como algo espontâneo, real, funcional e vivo. O sistema educacional brasileiro trata a poesia como um luxo ou um acessório. Pela desinformação, ela termina sendo sinônimo de tumba formal ou de derramamento, catarse e atentado emocional ao pudor. Poesia é o contrário: contenção e ritmo, idéias e música, relâmpago da voz.

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Quinta-feira, Maio 27, 2004

EM ALGUM LUGAR LONGE DE MIM
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Estive em Santa Cruz do Sul, em palestra emocionada na quarta (26/5), no auditório da Unisc. O professor Norberto, que havia me apresentado para o público, fumava mais do que a própria noite. Nervoso e feliz, sem saber a ordem. No esquadro da barba ruiva, os olhos azuis de quem aprendeu a comprimir roupas de todo seu armário em uma mala. A arte de dormir fora da linguagem para depois voltar com saudade. Roberta piscava pouco. Piscava com a boca mais do que com as pálpebras. Quando preocupada, tocava levemente seu brinco ou raspava os dedos em movimentos circulares. Ao rir, seu olhar se libertava do pescoço, o violino descendo os ombros e virando ao lado para procurar cumplicidade. Renato discreto, calmo, a cabeça para frente, arremessando o peso para além dele, como quem chega no último trecho de uma corrida. Sua gula era por ouvir mais do que ver. Rosana, da Filosofia, escuta jazz na hora de corrigir as provas e rock para atividades domésticas. Seu celular toca tanto mensagens quanto seu batimento cardíaco. Ela faz alpinismo e me disse que segura as pedras com a respiração. Há músculos no sopro. Muitas vezes seguramos uma vida inteira, um amor, apenas com a corda do pulmão. Ângela olhava suas mãos como quem se reconhece em aquarelas, entre o líquido e o carvão, a chama e a linha. Eu jantava longe de mim, perto deles, querendo ser bem devagar os outros que não fui. Educando-me para encorpar o vinho com a leveza.

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Terça-feira, Maio 25, 2004

MELHOR O AMIGO DO QUE A PIADA

Fabrício Carpinejar

A terra tem um gesto feminino, de cuidar do filho. O vento faz um gesto masculino de se arremessar para longe. Há rosto que ficam, sem pedir licença, que sentam na memória como se houvesse uma velhice dentro deles pedindo assento. Meu rosto é estranho, como se não tivesse sido acabado. Na infância, na época que era só osso de passarinho, colegas debochavam que os médicos aproveitaram a placenta e esqueceram o feto. Eu não sabia o que era placenta, palavra feia que não cabe num poema. Hoje escuto, já protegido de mim, que Carpinejar é feio, com uma trompa de elefante em feição de esquilo, que tem uma cara de morcego sacudido de luz (essa, inventei agora) e denominações muito piores que é melhor esquecer para proteger a estima. Meus olhos caíram porque viram a verdade em excesso. Eu brinco que o feio chama mais atenção do que o bonito. Basta uma olhada e ninguém esquece com facilidade.

A VIDA É CURTA DEMAIS PARA NÃO SER GENEROSA

Sofri bastante com as brincadeiras, mudava de rua ou do caminho da escola para não atravessar o corredor polonês ou ser ofendido na frente de quem eu gostava. Mudava de apelido com a mesma facilidade que migrava de campo de futebol. Eu nunca me importei de ser ofendido, eu me importava com o sofrimento de quem me amava e estava junto. Eu me envergonhava pelos outros em mim. Tantas vezes fiquei isolado em minha cadeira, esperando o sinal para escapar de qualquer gozação. Ainda corro com a respiração quando escuto um sino. Essa vulnerabilidade, desproteção, me antecipava aos que eram deslocados por um detalhe físico, um desajuste social, uma diferença. Eu me sentia responsável por aqueles que se calavam. É como se minha mãe dissesse na minha consciência antes de ir para o trabalho: 'cuida bem de teus irmãos menores'. Escrever é não calar as mãos. É proteger o fogo como quem tapa um filho com o próprio corpo.

11:40 AM :: Comentários:

CARPINEJAR OU FABRÍCIO CARPI NEJAR?
Sebastião Ribeiro, repórter da TVE, ficou intrigado com minha dupla personalidade. Confira o engraçado texto que está em seu blog:

"Há rostos que marcam. Tem caras que vemos constantemente e, numa situação inesperada, não conseguimos recordar. Tem faces que vemos uma única vez e jamais esquecemos. Posso lembrar de várias agora (suas imagens estão aqui, nítidas, na minha memória). Uma dessas é a de um assessor de imprensa da Unisinos, um rapaz com rosto anguloso, quase em forma de triângulo, traços fortes, muito osso, muita pele e, fundamentalmente, olhos caídos, daqueles que se esquecem de acompanhar a boca em um sorriso. Uma composição tão singular que atrai para si todas as atenções de um ambiente (mesmo que o seu pobre portador
pareça clamar pelo contrário). Por diversas vezes, ao fazer a tal reportagem na Universidade, desviei-me do assunto da pauta para mirar o semblante soturno do assessor. Não conseguia não pensar no que haveria por trás daquela face. Quem seria aquela pessoa ? Certamente, com aquele ombro caído, aquele ar sombrio, um jornalista incapaz de fazer uma pergunta em uma coletiva ou mesmo interpelar um entrevistado qualquer; mais um infeliz recém-formado na própria Unisinos, filho de professor, que encontrou na assessoria da Universidade um belo esconderijo. Teria ele coragem de publicar um relise ? Aqueles ombros encolhidos respondiam: não, definitivamente, não ! Pois dias depois voltei a ver o mesmo rosto, pasmem!, na Zero Hora, na contracapa do caderno Cultura. Dizia na legenda que se tratava do poeta Fabrício Carpinejar, que, por sinal, assinava o artigo. Mas aquilo era impossível ! Como um poeta, um escritor dos mais gabaritados, pode ser assessor da Unisinos ? Não pode. Não tenho
nenhum preconceito com assessores; pelo contrário: já fiz assessoria e adoro o ofício. Mas, enfim, um poeta é um poeta, um escritor é um escritor, jamais também um assessor, de modo que cheguei à conclusão de que eu estava enganado. Dias depois, cheguei na TV e peguei a pauta. De novo, na Unisinos. O contato: Fabrício Carpinejar. Burras, imbecis, idiotas, inguinorantes, estas produtoras ! Acaso não sabem que Fabrício Carpinejar é o poeta, o escritor ? Até que me veio uma luz e descobri o que se passara. Claro, que burro eu fui... O assessor da Unisinos é irmão gêmeo do Fabrício Carpinejar, e elas, de tanto ouvir o nome do poeta, confundiram-se, trocaram o prenome. Bom, neste dia o assessor não apareceu e eu fiquei sem a resposta. Fui pesquisar: Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, mora em São Leopoldo, eu vi bem a foto em ZH, vi outras fotos também e elas realmente parecem ser do assessor de imprensa da Unisinos. E apesar de todos esses indícios, estou eu aqui, com medo de postar esta história, todo receoso de estar dizendo uma bobagem... Mas, enfim, Fabrício Carpinejar - o grande poeta, o louvado escritor, tem um blog - assim como eu e a Samara Felippo. Então, se ele tem um blog, também pode ser assessor de imprensa, né ? Se eu estiver errado, que me desmintam !"


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Segunda-feira, Maio 24, 2004

LIVRO DE VISITAS
Inédito
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar



Não voltarei
para fechar os olhos.

Acenei,
sem notar
se era timidez
ou despedida.

Fiquei parado,
sem casaco
para me colocar,
sem trabalho
para voltar,
uma faca
sem cabo,

com a lâmina
terrivelmente à mostra.

10:25 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 23, 2004

REDONDO COMO A CERRAÇÃO
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar

O corpo não pode ser compreendido a não ser por outro corpo. Não pode ser julgado a não ser por outro corpo. Um corpo é o acréscimo do que se viu na infância. A memória perdoa, o corpo não. A memória esquece, o corpo incrimina. O corpo tem a vidência do erro, a espessura do erro, a devoção de uma chuva. Arregaça as águas como uma blusa. O corpo é a suspeita do mar. Assimila o que ainda não foi dito. É um vento civilizado, o discernimento enquanto confusão. O corpo trai para se proteger. Não copia a si mesmo, não entende sua letra. O corpo é mais do que espontâneo, mais do que sutil, é uma lentidão que tortura a alegria. O corpo é uma solidão nomeada, assim como a chama é uma solidão nunca identificada. Aprende-se a falar o corpo como os pássaros caminham. O homem é que devia mudar sua direção para o pássaro andar na rua. O pássaro é fundo como um sapato na janela. O corpo é fundo como a terra que começa na árvore. Há aves que somente se acordam no meio do vôo - o corpo é uma delas. O corpo soletra. O corpo se ama como uma vítima. O homem segura sua bengala entre o dedo médio e o indicador, segura a rua nas frações dos dedos, mas não segura o corpo. O corpo o despeja para o lado não barbeado do rosto. O corpo não se despede, o corpo pede o retorno com o aceno. O corpo acredita naquilo que não aconteceu. O corpo é um barco sem pulmão, o atentado da distração, uma atenção desatenta. O corpo vive o que nele morre - é o último a descobrir e o primeiro a desconfiar. O corpo não é um endereço, é se despertencer. Não atravesso o corpo, apenas o contorno. O corpo é uma casa desarrumada para mostrar intimidade. O corpo é contemporâneo de suas dores, sobrevivente dos seus ganhos. A luz jejua no corpo. O corpo não é redondo como uma ilha, é redondo como uma cerração. O corpo dança para se contradizer. O corpo tem dias mais compridos do que as mãos.

11:03 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 21, 2004

ROTEIRO
Foto Ana Paula Aprato

No sábado (22/5), faço palestra no curso pré-vestibular Anglo, de Porto Alegre (RS), às 14h. O tema será o filme "O carteiro e o poeta" e a obra de Neruda. Na quarta (26/5), às 19h30, falo na Universidade de Santa Cruz do Sul sobre Cinco Marias, meu novo livro, em debate intitulado "A vida não é um jogo". Na quinta (27/5), às 19h30, sou um dos convidados do seminário do Itaú Cultural sobre sites, blogs, fanzines e revistas, com Paulo Roberto Pires, Paulo Werneck e Rodrigo Garcia Lopes, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre (RS). Na sexta (28/5), às 16h30, converso sobre literatura e psicanálise, ao lado de Celso Gutfreind e Lúcio Boechat, no Instituto de Terapias Integradas, na capital gaúcha. No sábado (29/5), às 17h, apareço na Feira do Livro de Guaíba (RS) para café literário e sarau poético com Altair Martins, patrono da edição.

11:12 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS

"A tua palavra que foi dispersa,
a recolho e embrulho em meu ser.

Sou o teu livro inédito e tu,
meus escritos póstumos
"
Maria Carpi, A Força de não ter Força

A escritora Maria Carpi é a convidada especial do Varal de Letras, série de debates mensais com entrada franca, da Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033). Nesta segunda (24/5), às 19h30, recebo a poeta, autora de Nos Gerais da Dor, Desiderium Desideravi, Vidência e Acaso, Os Cantares da Semente, A Migalha e a Fome e Caderno das Águas. Com o tema "Poesia e interpretação do mundo", a idéia é comentar sua trajetória literária com humor e descontração e debater seu livro mais recente, A Força de não ter Força (Escrituras, 2003), que demorou 23 anos para ser concluído e oferece uma ampla investigação sobre o amor.

11:11 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 20, 2004

NAS PRIMEIRAS HORAS, O CREPÚSCULO TEM FOLHAS VERDES
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar


Minha amiga pede o que deve fazer para exercitar a liberdade por dentro. Eu digo que não precisamos de liberdade. A única liberdade que eu conheço é o amor. E o amor nos faz tão rentes, estreitos e com pensamentos repetitivos, obsessivos, que mais lembra um confinamento da boca. Há atitudes na vida impossíveis de se alterar, porque são intuitivas, primitivas, originárias. Uma criança com febre vai querer permanecer próximo da mãe, não do pai, por mais que ele seja generoso e participativo. Não queremos a soltura, mas o entrelaçamento, algo que nos arranque de nossa independência. Algo que a gente não explique e aumente a queimadura. Eu passei a vida querendo me explicar quando o que mais desejo é viver sem explicação. Prefiro perder a cabeça para ganhar o corpo. Quando se ama, entra-se no processo de audição seletiva. Só se escuta a própria voz ou os outros quando repetem o que pretendíamos escutar. As mãos chovem nas calhas dos lábios. O pássaro é um fruto que voa. Ele voa para não apodrecer sozinho. Há cidades que o vento escolhe para envelhecer. Há cidades que são asilos de ventos. Eu quero envelhecer ardendo. O sol parando o gomo. Ser completado pelo solo de quem amei verdadeiramente até nas mentiras.

11:16 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 18, 2004

EU LAVO MINHAS MÃOS NO FOGO
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar



Esquecemos com facilidade o que não queremos compreender. Acreditava que as árvores só cresciam de noite. Não mudei de opinião. Os homens crescem dentro das árvores. A noite conversa com os sapatos. Falo comigo, o que não significa que me escuto. Ainda não conheço as palavras. Conheço o lodo do tanque. Não conheço o encanamento dos relâmpagos no morro. Complico minha vida para a morte ter o que pensar. Assim a entretenho. O frio quando chega de assalto torna as pessoas desajeitadas, deselegantes. É como se elas usassem uma roupa em cima da outra, sem muita concordância. Parece que estamos com casacos alugados. Com pijama por baixo. No inverno, adivinho as mulheres pelo rumor das pedras. Não peço licença para pressentir. Elas enredam a água, acalmam o espaço. Ao ouvi-las, espero minha chegada. Em toda mulher, eu me devolvo. Não tive luxo. Tudo o que economizei de som foi consumido pelo vento. O fogo é a permanência do vento. A lembrança tem uma cicatriz que não fecha pela insistência. A insistência é a pressa de se ver acabado. A pressa é curiosidade de não se acabar. Eu não cicatrizei minha vida. Não me culpo por me desperdiçar, muito menos procuro desviver o que vivi para estar de paz com a memória. Não há paz na memória. A alegria é insônia. De vez em quando, sento no balcão para imitar uma janela. Eu me perpetuo ao me consumir. Quem se adia não chega nem ao seu começo. A ferida é a altura da árvore, do homem dentro da árvore, que só cresce de noite.

6:50 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 17, 2004

PARA SE PRIVAR DO INVISÍVEL
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar

Não é preciso ter razão para cantar. Para dar ao corpo uma manhã mais tarde, uma noite mais úmida. Para decorar a letra tremida da carne. Canta-se como uma telha solta do telhado, para se confessar de alegria. Canta-se para não dizer tudo o que resta a dizer. Para não ser dito o que não cabe, para que sejam lidas as labaredas. Canta-se para confundir o pão e os insetos, as mãos e os seios, os joelhos e ladeira da chuva. Canta-se para não dormir durante a leitura. Para roçar um vestido. Para se privar do invisível. Canta-se para não assentar o fundo, para retardar o caminho de regresso. Canta-se para amar o que ainda nem nasceu, para interromper uma recordação triste. Canta-se ainda que sem voz afinada, sem apetite. Canta-se como uma poeira luminosa que sobe dos tapetes e que só é vista na infância ou quando se canta. Canta-se com o relógio de árvore. Com as ervas mastigadas pelas águas, pela extensão dos cabelos. Canta-se pelo silêncio crespo do vinho, pelo vitral que há no vinho. Canta-se pelas pedras onduladas das lâmpadas, para se apoiar na velhice das escadas. Canta-se para ultrapassar a mágoa, para não ter motivos. Canta-se para embaralhar a confiança e a carícia, desobedecer o ventre, injuriar com um beijo. Canta-se para arrumar os ombros, ajeitar a gola, subir na grama. Canta-se para alimentar o que não é letra. Para despedir-se do começo. Canta-se para viver no mesmo dia dos lábios. Pela falta de equilíbrio dos segredos. Canta-se para persistir quando era o momento de se apagar. Canta-se para convencer o passado que ele ainda não imaginou o suficiente. Canta-se para respirar mesmo sem ar. Para respirar debaixo de um corpo.

9:33 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 15, 2004

O MAR É UM CAVALO BEBENDO A SI MESMO
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar

Minha maior loucura é não depender da loucura para ser feliz. Eu me lembro que na infância não usava bico e cuspia o leite. Eu não me lembro, assim me contam e fiz de conta que sei para não ser um estranho diante da própria vida. Sou um sonho de minha carne. Só me lembro que eu não largava um pano, uma fralda, que eu chamava de Lelé. Sujava e não queria lavar. Tinha cheiro de árvore. Não dormia longe dela. Era uma espécie de consulado do meu sopro, me cuidando para não apanhar da asma. Sofria do medo de não ter som para a voz. Espumava espanto. Minha raiva era ternura sem tempo para falar. Eu suspirava bastante. Suspirar é quando a respiração toma banho. Eu pisava nas poças de propósito. Os sapatos chapinhavam música. Ficava com febre e não ia para escola no dia seguinte. Fui sempre rápido como um cão. Troquei o nome por um assobio.

9:53 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 14, 2004

JARDIM DE INFÂNCIAS

A escritora e artista plástica Paula Mastroberti inaugura hoje (14/5) uma nova exposição: a série de bordados BASTIDORES, na Galeria Gestual (Rua Lucas de Oliveira, 21 - Porto Alegre). A mostra pode ser visitada de segunda a sexta, das 10 às 12h e das 14 às 19h.

Uma foto minha e de meu irmão, quando éramos pequenos, integram uma de suas criações, nomeada de Jardim de Infâncias.

10:23 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 13, 2004

PEDRAS DO RIACHO
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar




Arredondamos as unhas, os lábios, os dentes. Arredondamos a madeira, o ferro, o vidro. Arredondamos os joelhos, as pernas, o rosto depois do casamento. Arredondamos as palavras mais rudes, arredondamos o silêncio para não arder. Arredondamos os desaforos, a culpa, o desejo. Arredondamos o que nasce desajeitado e confuso. Arredondamos o riso, o perfil, os olhos dos pés. Arredondamos tudo o que é farpa e corta, tudo o que é vivo e risca. Arredondamos o grito, a lasca, a lâmina. Escondemos os sinais de violência que nos permitem duvidar do que somos.

5:52 PM :: Comentários:

APESAR
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



A praça existia para a senhora levar seu cachorro para mijar. A praça existia para o jovem fumar maconha depois das aulas. A praça existia para o velho fazer um atalho. A praça existia para o pai lembrar do seu rosto no rosto do filho. A praça existia para o mendigo cozinhar restos do dia. A praça existia para a menina ter medo de assalto. A praça existia para a criança cuspir gripe a distância. A praça existia para o desespero do desemprego. A praça existia apesar da praça.

5:51 PM :: Comentários:

Deu no jornal Zero Hora, coluna Remix, 13/5/2004:

REMIX
Coluna de Eduardo Nasi

Menores contos


Com uma penca de gaúchos em suas páginas, a antologia e coqueluche Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século tem lançamento porto-alegrense sábado. O livro reúne histórias de até 50 palavras (menos do que esta notinha). Marcelino Freire vai bater papo com Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha. Será às 16h, Livraria Cultura do Bourbon Country, em Porto Alegre.

9:16 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 12, 2004

MINHA AMIGA
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar

Me escreveste: "não consigo viver a minha vida, estou muito assustada". Mordo hortelã para saber qual será a cor do teu dia. Não te acostumaste com os sustos da vida. A alegria parte de um susto. Me escreveste como uma criança que sacrifica algo que nem começou. Pensa que tua história está terminando, um livro que se enrola no marcador de página. Pensa que não haverá amor em tua volta, que andarás como um fantasma disciplinado a não chamar a atenção. Imaginamos sempre o mais difícil porque não reagimos com simpatia ao fácil. Não queres o fácil. Queres o simples. Queres conversar sem ser cobrada, avaliada, classificada. Queres um pouco mais de compreensão e menos isolamento. Eu te entendo, mas não te alivio. Estás tão acostumada a mergulhar em teu sofrimento, que perdeste o lugar de onde dói. Talvez o que dói está fora de ti e não reparaste. Estuda menos tuas dores. O vento nasce espora. Meu avô, como eu, também sofria de asma. Um dia ele me disse: "na falta de ar, toda fresta é janela". Que use agora as frestas para respirar. Depois procure a trava do vidro, em seguida, o trinco da porta, e, por último, a cintura do corpo. Envaideça a pele com seda, a inundação da seda. Tuas roupas cheiram a maçãs. Ultrapassa o vaivém da invisibilidade em tua casa. Não caía na armadilha da pena ou da autopiedade. Não procures motivos para te explicar. Não te sintas menor pela timidez ou por não entender o que sentes. Deixa o dia passar por ti como um estranho, porém não sejas uma estranha a passar pelos dias. A pedra é escura por fora, mas clara por dentro. Encha a boca com teu gosto, como quem beija a própria boca. O vento já nasce espera. O rio da voz sobe bem mais do que o permitido pela altura dos ouvidos. Viver é um medo alegre. Não viver é covardia. Estendo meu casaco na grama para sentares.

10:39 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 10, 2004

PARA MINHA ANA
que completa 35 anos hoje
Poema inédito - Fabrício Carpinejar



Agora, vejo minha mulher
ao meu lado, seu corpo
já passou pelos filhos,
os filhos já passaram pelo seu corpo,
a pele reluziu, dilatou-se,
voltou ao estado
de contenção e apuro,
e aos poucos se mantém
recolhida como um carretel
e sua corda de amanhecer.

Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido compaixão pela
minha falta de jeito,
acaso ou um acidente
dos cabelos lisos e oleosos.
Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido amor,
simpatia ou alguma
perda fora de mim
que despertou suas perdas.
Pode ter sido a idade que pedia um marido,
sei lá, o marido pedia uma idade.
Ela escolheu e aqui fez sua noite.
Suas mãos se toldam em uma tenda
quando alivia minha barba
de outros odores que não o seu.

Eu rezo para não ter paz
no corpo dela.
Sua boca é vinho no inverno,
figo no verão.
Seus olhos ficam flutuando sozinhos,
a nudez para cima, ondulada
como as linhas da montanha.
Expondo-se ao sol
com uma dispersão selvagem.

10:39 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 09, 2004

"PRONTO, QUEM É?"
Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar



Eu aprendi a ser pai observando minha mãe. Ela de noite costurava remendos de couro nas calças rasgadas do uniforme escolar. Eu já dormia. Nunca reclamou da falta de tempo, apesar de trabalhar como professora e defensora pública para sustentar a casa. Minha mãe me ensinou a ser sensível, mas cuidando para que não profissionalizasse a sensibilidade. Ser sensível é não estar preparado. Não estar preparado nos faz viver o que também não esperamos. A sobrancelha é um ouvido interrogativo. Eu lembro de ajudá-la a escolher grãos do feijão na bacia. Lembro que cuidei de minha mãe quando ficou doente. Lembro que ela não permitia que me humilhasse na dor, que me envaidecesse na alegria. Minha mãe fez com que eu não fosse machista nem de brincadeira, que eu fosse responsável por cada palavra. Se mordia uma palavra, teria que comer a fruta até o início da semente. Minha mãe me ensinou a ler o que não estava escrito, a escrever o que não estava lido. Ela foi uma cerração enquanto chama, uma chama enquanto sopro. Minha mãe parece que não me ensinou nada, porque não queria ensinar e sim desaparecer em mim. Ela me telefona para contar seus dias. Seus dias são narrações úmidas da noite em que estive em seu ventre. Minha mãe sobe em árvores, foi criada no interior, cresceu com o estribilho de talheres de um hotel e de um livro de registros onde aprendeu a desenhar a caligrafia copiando o nome dos hóspedes. Minha mãe é meu jeito de perdoar. Meu jeito de entender. Minha mão estendida. Inventa quando esquece. Não mente mesmo que seja para chamar a verdade. Minha mãe é tão diferente do que sou, que não me lembro com culpa. Não quis que eu fosse igual para que eu pudesse recordá-la. Minha mãe conversa durante os filmes. Leva muda de planta de qualquer lugar. Compadece com as raízes avulsas, ervas, casacos sem cadeira para sentar. Minha mãe come o que deixamos no prato. Não faz ninguém sobrar. Minha mãe escuta música clássica, só diminui o som para escutar as aves. Coleciona ninhos tombados das árvores como quem junta barbas do chão. Minha mãe crê em presépios e almoços de família. Pensa nos netos como pais dos filhos. Ainda se perturba com o noticiário. Liga para todos os filhos antes de dormir. Tem orgulho até do que não sou. Conta aos amigos a vida dos filhos e esquece da sua. Estende as roupas como quem reencontra o avental de sua mãe. Ama um amor sem aguardar retorno. Não guarda troco. Tem uma pinta ao lado da boca. Vai à missa, reza por nós. E espera que alguém reze por ela.

10:54 AM :: Comentários:

SARAU ELÉTRICO NA UNISINOS

Sou o convidado da edição especial do Sarau Elétrico na Unisinos, dentro do projeto Sempre às Terças, com a participação de Frank Jorge, Katia Suman e Luís Augusto Fischer. O encontro acontece nesta terça (11/5), às 18h, no Anfiteatro Padre Werner (Av. Unisinos, 950), em São Leopoldo. A entrada é franca. O tema do Sarau Elétrico será a literatura estrangeira, abordando a produção, os autores e os aspectos literários dos países homenageados no IV Salão do Intercâmbio da universidade, como Alemanha, França e Inglaterra. Vou também ler poemas de meu novo livro Cinco Marias.

10:50 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 07, 2004

SEM VOCABULÁRIO PARA ME DEFENDER
Gravura de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar

Eu tomei o táxi como quem entra em um confessionário. O cheiro de velas e cera. Um santinho de Expedito e um terço no espelho. O motorista não me olhou direto, ficou de lado como um padre que escuta. Uma voz de canto. Eu apenas pensava o que poderia ter dito para ela, como sempre. O que não disse e faltou dizer. Repetir como as lembranças deveriam ter sido. Como se falar fosse me absolver de algum jeito. Não é que deixamos de sonhar, nos acostumamos com o sonho e tudo se assemelha a uma insônia mesmo quando a gente dorme. O taxista Fortes, 71 anos, há 20 dirigindo pelas ruas de Canoas, disse, sem lógica, sem licença: "estou escrevendo o diário do mundo, desde que o homem não surgiu até o momento em que ele pensa que pode surgir". Meu ouvido entortou como um garfo. Fortes mostrava uma serenidade de eucaliptos, uma inteligência de ervas. Cada passageiro exigia uma espécie de chá de acordo com o desconforto. Ele foi seguindo pelo lado direito da estrada, na velocidade de seus óculos. "Fiz cinco cadernos, são bobageiras, tenho apenas vocabulário para atacar, não tenho vocabulário para me defender." Não mudava o curso do rosto. Reto como o volante. "Eu não vou publicar. A vida é ilusionismo, inciência, acreditamos que o melhor está chegando, o melhor é quando não precisamos esperar". Nunca tinha me visto, como um alfabeto em outro idioma. "Resta a fantasia, prazer, amores", repetia essa frase várias vezes, em reza, para recomeçar o assunto. Eu explicava meu endereço e ele se esvaziava: "não importa a religião, importa a fé de quem reza. Eu não acredito em Deus, mas em santos. Os santos foram homens e mulheres e nos entendem. Não chegaremos a nenhum lugar que não tenho sido sonhado antes".

9:34 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 06, 2004

NÃO HÁ COMO ESCONDER O FOGO
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA

É bom não saber o que nos pertence, assim guardamos melhor. Jovem, ficava envergonhado ao me comover. Velho, eu me envergonho daquilo que não mais me emociona. Tudo muda sem passar. Eu demoro em meus pés como quem deixa um amor inacabado. Tenho simpatia por tudo o que não existe. Eu acredito que alguém vai me chamar e vou virar e ser surpreendido por um livro antigo. Remendava livros com pedaços de pano. Tentava roubar carambolas de uma vizinha má. Ela não nos deixava chegar perto da árvore porque soltava o cão. O cão babava, não latia. Assustava pela falta de latido. Normal não era. Um dia a velha do cão ganhou a amizade de minha mãe. Minha mãe recebeu uma cesta de carambolas que não podia roubar. Nunca entendi a vida. Não entender a vida é perceber que a maldade tem limite, a generosidade não. Ninguém soletra palavrão. Não dormia mais de uma noite na mesma palavra. O mosquito suga o sangue como se fosse a própria noite. Meu irmão não me deixava ler de noite. Queria a luz apagada. Eu coloquei a obra completa de Drummond em cima do abajur para fazer lanterna. Cochilei. Acordei com o pai gritando: - o Drummond pegou fogo, o Drummond pegou fogo. Minha irmã despejou uma escrivaninha de água no abajur. A obra autografada dizia: "falta uma palavra a tirar da insônia".

9:17 AM :: Comentários:

VALE-TRANSPORTE
Gravura de Rufino Tamayo

Quando ponho camisa listrada, fico com jeito de piá. Não adianta o cavanhaque. Eu corria para tomar o ônibus. Eu estava sempre atrasado uma quadra para pegá-lo na saída da escola. Via o ônibus laranja, também de camisa listrada, e me atirava a correr e atropelava as turmas 101 e 102, que andavam devagar para o almoço. Naquela manhã, o ônibus se antecipou ainda mais, estava quase fechando a porta quando entrei, fechou a porta quando entrei. Não entrei. Permaneci com metade do corpo dentro e a outra metade fora, se é possível dividir meu corpo. A borracha tinha gosto de sapato. Balançava com a minha pasta e gritava: - abre, abre. A parada lotada ria do inesperado surfe, as meninas que eu pretendia namorar, os guris que pretendia bater. Eu balançava com a mão direita no gancho e com a esquerda esmolava ajuda. O motorista não ouviu, o cobrador pensava no troco. Fui prensado pela sanfona no percurso de uma parada inteira na Osvaldo Aranha. Quando tudo parou, só daí percebi que havia tomado o ônibus errado. Voltei para a casa a pé. Até hoje não cheguei.

9:14 AM :: Comentários:

INDECISÃO
Gravura de Rufino Tamayo


Ainda não sei se teus olhos
começavam minha boca.


9:12 AM :: Comentários:

CANOAS E BENTO GONÇALVES

Participo de duas feiras nessa semana. Na quinta (6/5), sou o convidado da II Feira do Livro do Unilasalle, em Canoas, com palestra sobre "A arte de fazer poesia", às 19h, no salão Atos. Na sexta (7/5), estarei na 16ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Faço um debate com Antonio Calloni, mediado por João Cláudio Arendt. O encontro acontece no Clube Aliança, às 20h. Haverá depois sessão de autógrafos do meu novo livro Cinco Marias.

9:11 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 02, 2004

É PORTO ALEGRE!



10:47 PM :: Comentários:

CINCO MARIAS EM MINAS GERAIS E PERNAMBUCO:

Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, MG, Brasil, 2/5/2004

ENCONTRO DO POÉTICO COM O PROSAICO
Alécio Cunha
Repórter

Gaúcho de São Leopoldo, o poeta Fabrício Carpinejar é um dos principais destaques da cena poética brasileira contemporânea. Aos 31 anos, ele está lançando seu sexto livro, "Cinco Marias", publicado pela editora Bertrand Brasil, do Rio de Janeiro (RJ). Desde já um dos melhores livros de poesia publicados no Brasil nas últimas duas décadas, o novo trabalho de Carpinejar esbanja astúcia, rigor no trato com a linguagem, exímia sensibilidade e, sobretudo, abertura dialógica.

Não é uma simples reunião de poemas, embora os textos também possam ser lidos de maneira independente. "Cinco Marias", munido de um arsenal onde o poético encontra-se com o prosaico, é, de certo modo, um romance polifônico. Trata-se de um longo poema, formado pelas muitas vozes, femininas, diga-se de passagem, que narram um fato inusitado.

Carpinejar explora ao máximo, nesse livro, um paroxismo que insiste numa conexão com o surreal. As cinco fêmeas do título, uma mãe e quatro filhas, narram, aos poucos, um episódio que poderia muito bem ser incluído nas páginas de uma crônica policial. Ao final do livro, ele mesmo cria a dita história, em uma notícia falsa de jornal.

As cinco Marias enterraram o corpo do pai e esposo em um terreno baldio nos fundos de sua casa. Presas pela polícia, todas elas negam o fato, garantindo que apenas haviam sepultado a biblioteca paterna. Um laudo do Instituto Médico Legal aponta que a vítima havia falecido de morte natural. Então, quais seriam as razões da ocultação daquele cadáver? Seria um homem um livro?

É neste tênue limite entre a blague e a invenção que Carpinejar põe a funcionar seu firme senso inventivo. Todo o poema é uma tentativa de explicar (ou complicar ainda mais) a questão. Numa época em que a poesia brasileira atual é cada vez mais vitimada pelos excessos de um cerebralismo vazio e inócuo, uma poesia inteligente e comovente como a de Carpinejar veio para preencher lacunas e marcar época.

Foi assim com "As Solas do Sol", publicada pela Bertrand Brasil no início da década passada. Em seguida, Fabrício, filho do também poeta Carlos Nejar, trilhou seu próprio caminho apostando em metamorfoses de sua persona poética.

Autor `demite' Deus por justa causa

Em outro livro, "Terceira Sede", publicado pela editora Escrituras, de São Paulo (SP), o poeta Fabrício Carpinejar se auto-projeta na pele de um homem de 72 anos, suas fragilidades e medos travestidos paradoxalmente em força, potência, energia.
"Um Terno de Pássaros ao Sul", lançado pela mesma Escrituras, desafiou a ortodoxia da psicanálise freudiana, ao confeccionar um longo poema sem pausas sobre a figura paterna, quase um acerto de contas poéticas com o pai. Em "Biografia de uma Árvore", de 2001, também publicado pela Escrituras, Carpinejar demite Deus por justa causa, cria o que chama de Novíssimo Testamento e explora as tangências poéticas do extrato bíblico de maneira formidável.

No ano passado, a Companhia das Letras, de São Paulo (SP), lançou a antologia "Caixa de Sapatos", onde o autor revisita seus próprios livros e escolhe poemas embalados por afinidades estruturais e temáticas. O resultado, de altíssimo nível, serviu para chamar a atenção de vez para o trabalho ordenado e sistemático do poeta gaúcho, sem dúvida, o melhor de sua geração.

Poema longo com trama e suspense

As ousadias de Carpinejar não se esgotam em "Cinco Marias", longo poema de versos curtos, com enredo, trama e suspense. Tudo começa com a estranha e absurda ordem materna de enterrar a biblioteca. O falecido não aparece e fica como uma sombra rodando a superfície do livro, os interstícios das páginas. Dessa forma, entra em cena um diário de cinco vozes, sem pontuação teatral, onde o leitor terá de descobrir por conta própria quem está falando nos poemas. O segredo é prestar atenção nas minudências do temperamento de cada uma delas. Nesse jogo lúdico, os versos tornam-se pedras que vão se acumulando nas mãos até que todas sejam esclarecidas em um único arremesso, no caso, o surpreendente final do poema, irrevelável numa resenha.

A obra mexe o tempo inteiro com as aparências e expectativas dos leitores, que tornam-se cúmplices das intenções do autor. Fabrício Carpinejar parte do princípio de que, em toda fala, as pessoas buscam muito mais esconder alguma coisa do que realmente mostrar. Ou seja, um pensamento somente é escolhido para ocultar as verdadeiras intenções. É nesse jogo de esconde-esconde que Carpinejar convida os leitores para um compartilhar que também pode ser um contemplar.

Edição portuguesa, com certeza

"Cinco Marias" deve ser lançado em Portugal no segundo semestre pela Quasi Edições, dirigida pelo poeta e ensaísta valter hugo mãe (assim mesmo, com grafia em letras minúsculas), numa coleção que já lançou livros de Manoel de Barros e Caetano Veloso. Na Alemanha, alguns poemas de "Biografia de uma Árvore" foram traduzidos por ninguém menos do que Curt Meyer-Clason, o octogenário tradutor de obras do mineiro João Guimarães Rosa, entre elas "Grande Sertão:Veredas".

Quem assina o texto introdutório de "Cinco Mulheres" é a ficcionista Ana Miranda, autora de "Boca do Inferno" e "Desmundo", toda elogios ao trabalho único de Carpinejar. "A sensibilidade e a leveza de um poeta, um homem capaz de ver seus contrários em si, recolheram na vida de cinco marias, mães e filhas, todas as marias que somos, ou poderíamos ser. Maria como um substantivo comum. As marias profundas que ardem, ofegam, cavam o chão e enterram o saber e a memória em forma de homem, ou não, com o prazer da mentira e a ternura da violência familiar", escreve Ana.

Na visão de Ana Miranda, os versos de Fabrício são poemas líricos glosados num crime imaginário, ou não, o crime de viver sob a opressão que é a própria vida, que num instante se transforma em ruínas. "Mas essa decomposição da vida é feita de beleza, orvalho, sêmen, e todas as secreções da existência, um flos santorum das conspirações familiares e íntimas do acordo da traição: o enredo da lã. Ao final desse jogo de pedrinhas, nos resta a Poesia", complementa e finaliza Ana.

"Cinco Marias". De Fabrício Carpinejar. Editora Bertrand Brasil, 108 páginas, R$ 19,00.

CINCO POEMAS
De Fabrício Carpinejar

1

Os mortos envelhecem
na eternidade
Não os invejo
Tenho dentes para morder.

Diante do prado,
ardo imensa

2

Em casa, Deus era feminino.
O ciclo das mulheres se aproximava,
se arredondava. O varal coberto
de panos alvejados.
Senhas de cada uma à mostra,
lavadas, pontuais, severas.
Eu cheirava o quarto
cheio de si. A ferrugem de um mar
que recuava. Sem arrebentação.

3

Amadureci a covardia em sarcasmo.
Posso rir do sofrimento.
Mistérios existem para simular profundidade.
Sou rasa, fútil. Não reverencio a primavera,
a mais sádica das estações.
Desde a infância, ela floresce minha asma.

Posso adiar a morte,
nunca o nascimento.
É impossível cortar a semente.

4

Meu pai carecia
de medida ao vinho.
Segurava o cálice
pelas bordas.
Seu suor comprimia
álcool em minha testa.
Eu afastava seu beijo,
aquele beijo.

Não importava a safra,
poderia ser a melhor,
ela azedava em sua veia.

5

É na extravagância
que as crianças acertam,
comparando
a idade do pão
à idade da água.


Jornal do Commercio, Caderno G, Recife (PE), 20/4/04

Coluna Escrita

O "CARPINEJAR" DAS MARIAS
Schneider Carpeggiani


Fabrício Carpinejar tem o dom do desequilíbrio. Algo que, na poesia, é a maior virtude que alguém pode ter. O desequilíbrio, aliás, nas palavras do mesmo autor é quando, na idade adulta, "sobra ou falta amor". O mais novo livro desse jornalista e poeta chama-se Cinco Marias (Bertrand Brasil, 123 páginas, R$ 19) e nele Carpinejar exerce não somente sua arte de propositalmente cambalear nos excessos e nas ausências (dos sentimentos e das palavras), como o faz agora interpretando as citadas Marias.

As poesias de Cinco Marias são, portanto, pequenos alumbramentos de amor, traição, partida, obediência, tempo e tudo o que vive e jaz entre o nascer e o se perceber nascido.

A metáfora da Maria, que na língua portuguesa é muitas vezes interpretada como a síntese de todas as mulheres em uma só entidade, surge no livro justamente para dar um efeito contrário: o de multiplicar as identidades das mulheres cujo nome pouco importa. Na maior parte dos versos, aliás, a presença da "autora maria" no escritor não é mostrada por meio de pronomes de gêneros, mas sim pela maneira como ele escreve, - para baixo: "O homem escreve como quem grita/A mulher escreve para baixo, em prece", explica ele no mesmo livro.

As relações familiares dessas personagens, invisíveis segundo o autor, são construídas sutilmente por meio de pistas sobre o que cada uma delas viveu e a maneira como cada uma se percebe no ambiente estranho a ela: "Viver requer a disciplina de ser invisível/ Todos querem aparecer./ O mundo não é feito sob minha medida/ Nada envelhece sem alguma violência/ Nada altera a raiva com que nasci."

Carpinejar, nome quase verbo, é um dos mais premiados e elogiados escritores da nova geração de poetas brasileiros. Autor de As Solas do Sol, Um Terno de Pássaros ao Sul, Biografia de uma Árvore, ele já publicou até uma antologia, Caixa de Sapatos, lançada no ano passado, ignorando o preconceito de que jovens não possam reunir e publicar seus melhores textos.

10:30 PM :: Comentários:

NINGUÉM É DESPEJADO DO CORPO
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Queria uma explicação. Agora não quero nada que me explique. Desistir é explicar. Permaneço. Usufruto de sombras. Amar não é aceitar, amar é escolher. Não desejo buscar um lugar no mundo, mas guardar um lugar do desejo no corpo. Há algo que o tempo não toca. Eu conheci minha avó envelhecida. Ela, então, nunca ficou velha para mim. A criança vê o rosto que não foi tocado pelo tempo. O tempo não está no rosto, mas na forma como fugimos do tempo. Quanto maior o desespero, maior será o peso fora do corpo. Denuncia-se o esconderijo pela respiração ofegante. Vou ficar parado como uma árvore equilibrando os frutos ou como uma chama lavando as costas.

11:13 AM :: Comentários:

EX-MULHER
Gravura de Rufino Tamayo


Há dois tipos de ex-mulher. A que torna todas as escolhas futuras erradas depois da separação e a que torna todas as escolhas futuras acertadas depois da separação. O resto é poesia ou Vara de Família.


11:11 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 01, 2004

Jornal Zero Hora, Cultura, POA (RS), 1º/5/04 Edição nº 14132

QUINTANA NÃO SE AUSENTAVA DO POEMA
Poeta analisa a obra de outro poeta e conclui: Mario Quintana concentrava um poder de síntese fora do comum e não precisava provar que fazia poesia
FABRÍCIO CARPINEJAR/ Poeta e jornalista


Duas vezes Quintana: o poeta sempre foi a estrada, nunca o destino
Foto(s): Dulce Helfer, Arquivo Pessoal/ZH

Todo autor deve ser odiado um pouco. Não há amor que não tenha que ser provocado pelo ódio. Pela curiosidade do ódio, não pela maldade do ódio. Eu amei Quintana, depois odiei para amá-lo ainda mais. Eu me perguntava: será que ele é mesmo um grande autor como o Rio Grande do Sul costuma dizer? Por que o Brasil não o consagra entre as mais altas vozes da língua portuguesa? Por que sua popularidade não acompanhou a aceitação crítica no país? Será que o Estado não transferiu seu complexo de inferioridade e superioridade para seu nome? Quintana fingia que não me ouvia, com a concha das mãos no ouvido. A concha das mãos no ouvido era seus óculos de escutar. Durante anos, essas perguntas me atormentavam. Até que não descobri nada. E não descobrir nada é começar a acreditar. A força da poesia de Quintana é sua falta de ambição, seu descompromisso, seus arrebatamentos provisórios e tão atuais. Ele não encadernava a vida, muito menos o livro. Ele é um estado de graça, muito além do marulhar da tinta.

Dez anos de morte de Mario Quintana (e vésperas de seu centenário de nascimento, a ocorrer em 2006). Mas quantos anos há em uma morte? "Deus transcende de Deus...". Não me arrisco a contar. A terra não tem idade. O corpo é terra antecipada. Autor de cerca de 30 livros entre poesia, prosa, crônicas e infantis, Quintana nunca chegou a ser Manuel Bandeira. Não chegou a ser Drummond. E não era para ser! Porque ele chegou nele mesmo. Quintana ficou no meio do caminho dos outros autores para ser a estrada, nunca um destino. Não é um endereço, porém a própria mensagem. Basta abrir a página 3 de Baú dos Espantos. Põe um papel carbono ali e se terá a imagem exata de um homem se levantando. O poema Matinal é assim: "O tigre da manhã espreita pelas venezianas./ O vento fareja tudo./ No cais, os guindastes - domesticados dinossauros -/ erguem a carga do dia." O poeta concentra um poder de síntese fora do comum. Suas metáforas desdenham da literatura para desenhar com lápis de cor. Nesse poema, a luz listrada que entra pela janela torna-se tigre, acontecendo uma ameaça do ar frio ao quarto abafado e quente pelas cobertas. O vento persegue, treme de fome a respiração. E os dinossauros do porto do Guaíba erguem o peso das cargas. Explicar o que ele diz chega a ser um crime. Quando o poema ultrapassou a explicação, ele é corpo.

Drummond tinha um humor poético que confessava e agredia. Quintana confessava para justamente acalmar a briga. Se Drummond mostrou a distorção pela multiplicidade psicológica, Quintana procurava harmonizar e reunir os cacos da vidraça. Drummond é desconfiado, de olhar oblíquo. Quintana é debochado, de olhar confiante. Drummond é longo como um vício. Quintana é breve como uma virtude. Drummond se mostrou engajado nas questões urbanas e urgentes de sua época. Quintana procurou não ser do seu tempo, e sim do seu lugar. Drummond traz o sentimento de despoder biográfico. Quintana se articula no sentimento de posse do eu, da vaidade generosa, que se reparte e não se economiza. O primeiro duvida do espelho, o segundo duvida de quem se vê no espelho. Drummond se ausentava do poema, tal velório. Quintana não se ausentava do poema, tal festa de aniversário. Se Drummond mostrou o embate entre Itabira, sua cidade natal, com as capitais que viveu, expressando a retração do homem simples e seu desconforto metafísico na metrópole, Quintana achou sua cidade natal, Alegrete, em Porto Alegre. Ele desenterrou Alegrete na capital gaúcha, apresentando um recolhimento interior e apaziguador pelos becos e sobrados, pelas ruas ainda cicatrizando as linhas do bonde. Não houve conflito entre o alto e baixo, ruínas de ventre. Sua cidade residia nos esconderijos atemporais, nos desvãos, nas casas antigas. Porto Alegre bastou-lhe como uma maquete ancestral, um rascunho de mapa. Um impulso para recuar e se destrançar nos labirintos escuros.

Quintana é um falso romântico, um falso simbolista, apesar dos sonetos de A Rua dos Cataventos. Lê Casimiro de Abreu engolindo e abafando a risada. A risada é sua rima. Aparentemente ingênuo, revela a simpática discordância entre ele e o mundo, entre a leitura e as histórias contadas. Oferece uma seriedade cômica. Faz de conta que está no passado para corresponder de algum modo com o presente. O cotidiano é seu assunto preferido, desde que seja a lembrança do cotidiano. Preocupa-se com a pré-história dos costumes. Tal Manuel Bandeira, troça do naturalismo a favor da naturalidade. Só que Bandeira é samba, Quintana é chorinho. Transforma a realidade em uma consciência de fábula. Não desejava a realidade, mas captar o drama ainda quando ele é pensamento. Ultrapassou a alcunha de frasista: vinha a representar o papel de filósofo do trivial. Seus aforismos funcionam como uma rasteira da percepção. Derruba a leitura para não mais cair. O poema acaba para recomeçar. Tinha o talento de não deixar dúvidas, de encerrar a conversa com um verso sábio, de pagar a conta. Poder-ia-se compor um dicionário de suas máximas. Soube enxergar que o cavalo não perde a nobreza, que o arroio é um rio-guri, que viver é um brinquedo. Se o poema se traduz em "um gole de água bebido no escuro", a sede em Quintana é clara. Não busca a decifração, mas a clareza do chiste. Comunica a intenção mais do que a palavra. Pois uma piada não compreendida é um insulto, um poema não compreendido é uma piada. Utiliza uma franqueza solta e espontânea, como se a verdade fosse pesada demais para se carregar sozinho. De outro lado, Drummond tirou proveito de sua incapacidade de ser espontâneo.

A verdade simplifica, a mentira enlouquece. Quintana enlouquecia a verdade dentro da mentira. Um dos seus equivalentes e alma gêmea é o poeta português Antonio Gedeão (ambos nasceram em 1906, morreram quase no mesmo ano e foram autodidatas). Gedeão tem igual soltura e fineza de espírito crítico, um arruaceiro elegante, provocativo e límpido, puro como água de bica, adepto das conversas de rua e de algo como um individualismo impessoal. "Até no sofrimento é preciso ter sorte" caberia bem na boca de Quintana, que costumava dizer que autodidata resumia um ignorante por conta própria (A Vaca e o Hipogrifo). A autocrítica, ao invés de provocar pena, amplia a estima. Quem é suficientemente seguro de si permite-se a brincadeira. Quintana é uma espécie de poeta não-praticante. Professou a poesia fora da igreja. Não precisava provar que fazia poesia. Seu ateísmo preservava Deus de Deus.

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