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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Junho 29, 2004

EU ME DESCULPO

Fabrício Carpinejar




Eu me desculpo pelas mulheres que não amei antes e me faltaram para chegar a ti, pelas festas que não dancei ciscando o copo de uísque, pela pressa de minhas visitas a tua mãe, pela minha ânsia de fazer todos viverem a minha vida e não viver a dos outros, pela voracidade em me elogiar quando eu te elogiava, pelas palavras que poderia não ter dito, pela distância que sobra na cama, por esnobar teus amigos e desfigurar teus santos, pelos problemas que criei para enfrentar os teus, por não superar os preconceitos, as crenças, o tolhimento de meus pais no casamento. Deito a árvore nas asas do rio. Eu me desculpo para fazer de novo.

10:45 PM :: Comentários:

POA, RIO PARDO E DOIS IRMÃOS
Foto de Renata Stoduto, do Sarau Elétrico na Unisinos



O Instituto Estadual do Livro está realizando encontros mensais para debater a produção literária feita em família. Já participaram da discussão o casal de escritores Valesca de Assis e Luiz Antonio de Assis Brasil. O próximo bate-papo acontece comigo e com Maria Carpi nesta quarta (30/6), às 18h30, na sede do IEL (André Puente, 318), em Porto Alegre. A entrada é franca. Vamos comentar a genealogia dos poemas, falar da formação e influência e dar um depoimento de como as individualidades foram se consolidando a partir das mesmas raízes. Na quinta (1º/7), faço palestra em Rio Pardo (RS), às 13h30, no XII Seminário Estadual de Língua Portuguesa e Literatura Rio-grandense, no Clube Literário e Recreativo. O tema será "Ninguém é o mesmo, mesmo que se repita: criação poética e a memória imaginativa". Na sexta (2/7), às 9h, participo como patrono da Feira do Livro do Colégio Imaculada de Dois Irmãos (RS).

9:56 PM :: Comentários:

COLABORE
Gravura de Paul Klee

Até sábado (3/7), a associação Hemoamigos (Alexandre Lace, colega jornalista que faleceu em março vítima de leucemia, era um dos que davam mais força para entidade) estará promovendo a Campanha de Capacitação de Doadores de Medula Óssea lá no shopping Iguatemi. Um quiosque do Hospital Clínicas estará montado no corredor do supermercado Nacional das 10h às 22h. Lá profissionais estarão tirando dúvidas sobre doação e até mesmo recolhendo sangue para o cadastro de doadores. Se der para dar uma passada por lá entre o cinema da quarta e a janta da sexta, seria ótimo. Como nunca é demais lembrar...

* Para entrar no cadastro de possíveis doadores a pessoa só precisa fazer uma coleta de sangue bem pequena (menor que em um exame de sangue tradicional) e responder algumas perguntas para um cadastro.

* A partir daí a pessoa pode ser chamada se seus dados forem compatíveis com os de alguém que esteja doente. Isso pode ser um mês depois daquele exame de sangue ou 20 anos depois disso. Pode ser para alguém da sua cidade ou para alguém do Japão.

* A possibilidade de encontrar alguém com medula compatível é de uma em cem mil e o cadastro de doadores ainda é muito pequeno.

Algumas dúvidas:

Quem pode doar?
Qualquer pessoa que tenha entre 18 e 55 anos de idade e que não seja portadora de nenhum tipo de câncer ou doença infecto-contagiosa.

O que é medula óssea e como ela é retirada para doação?
A medula óssea é a parte interna dos ossos, onde são produzidas as células sangüíneas. O procedimento de doação dura cerca de 40 minutos, é feito em hospital com anestesia geral e consiste em punções com agulhas finas e especiais na região da bacia. São retirados, no máximo, 10% da medula óssea, o equivalente a uma bolsa de sangue. No dia seguinte o doador já pode retomar suas atividades normais.

Existe risco para o doador?
O único incômodo relatado por alguns voluntários é uma dor discreta no local da punção.

Como os pacientes recebem a medula?
Primeiro o receptor pe submetido a um tratamento que destrói a própria medula, que está doente. Depois ele recebe a do doador através de transfusão. Em duas semanas já estará produzindo células novas.

Como se tornar um doador?
Basta colher 10ml de sangue para o teste de compatibilidade, chamado de HLA. Também é preciso preencher um formulário de autorização. Estas informações serão enviadas para o banco de dados do Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea). Em Porto Alegre, o voluntário pode procurar o Hospital de Clínicas. Informações pelo (51) 2101.8504.

(Fonte: HCPA)

1:06 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 28, 2004

MINHA INFÂNCIA EM 1920
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Eu me procuro para não falar nada. Lamparina e poço. Não havia luz domada, água educada de gente. Tudo assim na gota, no joeirar das pedras. Pedalava meu cavalo. A crina ensinava a mão em rédea. Cheiro de funduras do mato. Unhas grandes de esporas, solas chamuscando chão. Montava pé de milho. Minha altura controlei pelas hastes. Urinava nos joelhos com medo de temporal. Meu medo de temporal se transformou em o quê? Ciscava clarão nos longes. Mundo não transbordava, afundava em si. O mar era cego e não me achava. O mar estranho de frutas pisadas - não os via com tranças. Os baobás me cuidavam enquanto os pais trabalhavam. O campo batido e as traves com as forquilhas arrebentadas. O alto era tão vôo que não se ouvia. Urubus acanhados como moças sem os dentes da frente. A tosse do avô vinha manca. Tropeçava na porta. Quarto, cozinha, banheiro estavam dormindo na sala. Infância de sarampos e barrigas cheias de vento, de caxumba e uma aula distante como a missa. Engordava até com o que não comia. Todos pobres, não existiam mendigos. Cigarro de palha restava moído de dedos. Uma batida para o galo piscar. Cemitério não tinha porteiro, retrato. Cemitério fugia em direção à praça. Namorava meninas sem elas saberem. O carro dos bois trancava de rolha a estrada. Os pássaros serenavam atalhos em córregos. Lama nos pés deslizava a carne. Banho de rio com roupa de baixo das ervas. Descobria a temperatura dos dias pela quentura dos trilhos. Valia vadiar canivete em barba-de-bode e frutas-de-lobo. Espinho passava da mão a planta. Raspava cabeça em cercados. Mula sem pavio. Jogava pedra na água para margear afogados. Um afogado virava ilha para subir. A paz do que não teve trégua. Desaconteci como nascimento. Apertei Deus e ele não gritou. Espiava o firmamento sem cinto, gordura do azul. Usava a compaixão de uma camisa somente no domingo. Conversava com espantalho para aprender a calar. Formigas sorteavam terra. Solidão sem bolsos. Assombração era viver. O mundo bem maior do que minha coragem de lembrar. Ter nome não fazia nenhuma diferença.

11:14 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 27, 2004

VEIO DE SOLEDADE PARA SE OUVIR
Gravura de Escher

Fabrício Carpinejar

Veio de Soledade para me ouvir. Saiu de casa às 2h, tomou um ônibus para chegar na oficina de poesia às 9h em ponto. Passou por 220 Km para desembarcar em Porto Alegre. Lá estava ela e seus olhos tão líquidos que nem as pupilas eu poderia encontrar. Não reclamou da viagem. Escorria sua solidão nunca sozinha. Falou pouco durante a aula. Leu seu poema, de uma tarefa. Lutou contra o sono, mexendo as pernas. Os cotovelos serviam de cavalete ao auto-retrato. Ela me olhava com a fome que bem podia ser parente da minha infância. O homem só precisa de pedras para arranjar música. A poesia não tem passado. No final da aula, se aproximou, com uma mansidão apenas possível do alto das cidades. Confessou que um amigo de Soledade precisava mais de minha oficina do que ela, que cederia seu lugar, apesar de desejar ficar. Afagava a boca com os dentes. O dente é o lápis da boca. A voz, o vapor. Somos a surpresa do que não deixamos de ser. As abelhas são chamas que não viraram cinzas. Eu segurei sua mão para não escapar a minha. Segurar a mão é o único abraço que o terço inveja. O cheiro do que vive é vôo. Os livros que a gente não lê nos influenciam. A fé não tem testemunhas. Não sei se a encontrarei no próximo sábado. Sei que ela estará em mim me aguardando.

11:04 AM :: Comentários:


OBSERVAÇÃO DESATENTA
Gravura de Escher



- Deus faz comício na Igreja Quadrangular, ao lado de minha casa.
Mas o domingo é o único dia que não quero me salvar.

11:01 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 26, 2004

Jornal do Commercio, capa do caderno C, Recife (PE), 26/6/04:



LITERATURA

A POESIA COMO UM JOGO DE VIDA
Poeta gaúcho Fabrício Carpinejar viaja mais uma vez pela memória e usa estratégias lúdicas em Cinco Marias, seu novo livro de poemas

SCHNEIDER CARPEGGIANI

Em 31 de outubro de 2045, o jornal Diário do Sul publica a seguinte reportagem policial, que segue aqui resumida: a poeta Maria de Fátima Ossian, de 45 anos, enterra seu marido no pátio, o também escritor e médico Mauro Ossian, 70 anos. Com a chegada dos policiais, ela informa que ali não há nenhum corpo, apenas a biblioteca do morto, soterrada pela terra. Suas quatro filhas, que ao lado da mãe estão há 60 dias trancafiadas em casa, despertando a curiosidade de vizinhos, de passantes, confirmam a versão materna. Para elas, não há cadáver, só livros, montanhas de livros no túmulo improvisado.

A partir desse noticiário policial, o premiado poeta gaúcho Fabrício Carpinejar encerra seu novo livro de poemas, Cinco Marias. O título remete também a uma brincadeira de infância, em que o jogador lança uma pedra para o alto, recolhe uma das quatro, sem encostar nas outras. O jogo traz uma responsabilidade lúdica: ao tentar apanhar do alto cada uma das pedras, a criança se sente responsável pelo mundo. "É como se a vida dependesse do seu gesto. A poesia acontece com essa intensidade: salvar um dia de cada vez", disse Carpinejar em entrevista ao JC.

É exatamente como um jogo, em que as razões não precisam rimar com as regras, que o autor conduz os seus leitores por uma poesia que pode ou não querer viver em paralelo com uma realidade concreta - ou seja, o tal artigo de jornal.

"Os poemas não dependem de nenhum apoio, nenhuma bengala, os versos usam o corrimão do sopro para escorregar, não para se apoiar. A notícia no livro funciona para mostrar como a sociedade enxerga os personagens, enquanto os poemas são os pensamentos das Marias. A matéria do jornal que encerra a obra tenta classificar as pessoas, dizer de cara se prestam ou não, o que fizeram sem ao menos duvidar da vida. É sempre taxativa e superficial. Os versos permitem ao leitor conhecer a fundo o que as mulheres pensam dentro de seus desejos e vacilações. Defendo um vínculo do poema com a realidade", explicou o poeta.

A história das cinco Marias, a dos poemas, não a do noticiário, é a janela que Carpinejar escancara para o leitor, como em um reality show televisivo ou um vizinho intrometido que pode ir longe demais e penetrar na mente das personagens. "A curiosidade é indiscrição. Sem indiscrição, não acordaríamos. Mostro que a mulher encontra a liberdade em seu próprio corpo, o homem somente procura a liberdade fora do corpo. A mulher não deixa rascunhos. Ela é um rio encadernado. Tal os movimentos do jogo infantil, as personagens vão sendo apanhadas uma a uma, se revezando como pedras até o arremesso final", diz.

Mesmo sem o enredo do confinamento das cinco Marias em mente, o leitor é fisgado pela força da poesia de Carpinejar, que desmantela emoções e acerta em cheio ao relatar pequenas aflições que, levadas à superfície, surgem enormes. É como o próprio autor afirma em um dos versos, "as respostas desobedecem às perguntas", da mesma forma, a trama do livro desobedece à intenção primeira do seu criador.

"Ao publicar, o livro já não é mais do autor, não cabendo a ele definir o destino do que enxergou. O poema é apenas um impulso, não uma resposta. Só o autor que se perde pode fazer o leitor se encontrar. Criação é um desencontro encontrado. Cada poema tem a autonomia de uma jóia sonora, que pode ser usada com outras roupas. Não depende da notícia para existir ou da consciência de seu autor. O escritor não é um zelador de cemitério, ele é a capacidade de não se reduzir ao seu nome", reitera Carpinejar.

Em Cinco Marias, o poeta volta a transitar em um terreno onipresente em seus livros, o da memória - o de lembranças que se reviram e nunca dormem. Em certo momento, uma das personagens - ou todas elas, como em um coro - revela: "a memória não aceita suborno."

"Eu trabalho com a memória do que não aconteceu, a memória da imaginação, o que foi sonhado de olhos abertos. O futuro é também uma espécie de passado. Eu somente me antecipo. Ninguém consegue transmitir uma lembrança sem acrescentar um dado ou fazer uma modulação. A impossibilidade de contar a mesma história do mesmo jeito faz com que a literatura permaneça viva. O homem é mais o que ele esconde do que aquilo que ele mostra, afirma Carpinejar. Procuro expor o que eu não queria mostrar: a mentira involuntária. Toda mentira nasce de uma verdade tímida ou prematura", define o autor.

Carpinejar escreve seus poemas como se cada linha fosse uma verdade, um aforismo, que pode ou não depender do resto do corpo do texto. "Imagino o verso como uma síntese da obra. Em uma linha, é preciso fazer entender o resto do livro. De um cabelo, chega-se a decifrar a identidade do corpo. Um poema é suficiente para vingar uma história. O poeta não pode desperdiçar a linguagem, ele tem que ter algo suficientemente urgente para contar, senão não fala. Poesia é para comover, não para ocultar sentimentos."

Cinco Marias é o primeiro livro de Carpinejar após a antologia Caixa de Sapatos, que reúne trechos de seus quatro títulos anteriores. Com 32 anos, ele é um dos poetas mais premiados em atividade no Brasil e virou até nome de prêmio literário na sua cidade, São Leopoldo. Com dois meses de lançado, Cinco Marias já chega à sua segunda edição. Esse sucesso seria um reflexo de um novo sopro de popularidade que a poesia estaria recebendo nesta década?

"A poesia já é popular, cabe despertar a sua necessidade. Ela não é feita para isolar, porém para se reunir na estranheza. Quem escreve depois de um Drummond, um Bandeira, um João Cabral, um Jorge de Lima, uma Cecília Meireles, tem que se orgulhar, não baixar a testa de vergonha. Os antecedentes formam o futuro, não o reprime. As perspectivas da poesia são as melhores, porque ela não tem nada a perder. Não cabe aos poetas combater o concretismo, o formalismo, o surrealismo e outros movimentos. Até porque o combate é a forma mais forte de influência", completou.

Cinco Marias, de Fabrício Carpinejar. Editora Bertrand Brasil, R$ 19 (preço médio)

7:40 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 25, 2004

COGUMELOS
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar


A alegria não esfriou minha carne. Eu não sei controlar a medida do açúcar no café, o peso da xícara, muito menos dosar o afeto, a amizade, o amor, a raiva, o despreparo. Começo pelo final para não ter dúvidas do início. Quando ia dormir e era do tamanho do que imaginava, escutava os adultos falando na sala de estar. Eles falavam baixinho. Meus ouvidos caminhavam na ponta dos pés para escutar as conversas. Acho que minha audição se esforçou tanto para reconstituir os assuntos sérios e proibidos que não teve forças para voltar para cama. Havia uma fresta no porão que dava ao jardim. Durante duas semanas, cavei com uma colher de sopa o cimento para aumentar meus olhos. Fiz uma lâmpada no muro. Passava pela fenda odores de fungos e musgos. Até hoje não diferencio os cogumelos venenosos dos sadios. Como descobrir o que mata sem morrer um pouco por vez?

11:36 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 24, 2004

O simples vira poesia
Escritor Fabrício Carpinejar ministrou oficina para crianças do PEI

Fotos de Renata Stoduto
Texto Gabrieli Chanas



A poesia pode estar em uma música, em um jogo de futebol ou até mesmo em um sapato. "Fazer poesia é ver as coisas de maneira diferente, é pôr uma palavra para sambar com a outra". A lição é do escritor e jornalista Fabrício Carpinejar, que no dia 22/6 reuniu 36 crianças do Programa Escolinhas Integradas (PEI) para apresentar o lado divertido de escrever.

Se mudar a percepção do mundo é o primeiro passo para fazer poesia, nada melhor que começar o encontro de uma forma nada comum. Sem sapatos e meias, o escritor desafiou os alunos a dar novos significados para a sola, o cadarço e a palmilha. As dicas para os aspirantes a poeta passaram ainda por apelidos e letras de música.

Janelinha, chapéu, gaveta, balãozinho e gol de bicicleta. A poesia presente nas expressões do futebol ajuda a ver o simples de outra forma e encoraja as primeiras metáforas. Mesmo quem acreditava que para ser poeta basta saber rimar coração com emoção, começou a ensaiar poemas. Dênis, de dez anos, arriscou dizer que sua mãe é como a chuva no telhado. "O barulho que o salto do sapato dela faz é igual ao da água batendo nas telhas", explicou.

A prova de que entender poesia já não é mais uma tarefa tão complicada chegou no fim da oficina. Se em um primeiro momento era estranho ouvir que o rio fica de pé, agora todos entendem que o fogo morre, que o galho é o elevador da árvore e que os quartos são o pulmão da casa. Tudo simples, mas de uma forma diferente. Na forma de poesia.

(J.U., 24/6/2004)

O QUE É O PEI?

O Programa Escolinhas Integradas da Unisinos, parceiro do Instituto Ayrton Senna/Audi, atende 410 crianças e adolescentes carentes em cinco núcleos: Unisinos Manhã, Unisinos Tarde, Vila Glória, Parque do Trabalhador, e, o mais novo núcleo, AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil).

O projeto busca compreender a história de vida das crianças, levando em consideração o contexto familiar e educacional. O desempenho na escola acaba sendo um dos resultados diretos das atividades culturais e esportivas.

O PEI completa quinze anos, com várias vitórias na bagagem. Serviu de modelo e inspiração ao Ministério do Esporte na elaboração do projeto "Segundo tempo", que democratiza o acesso a prática esportiva nos estabelecimentos públicos, efetivando o preceito constitucional que define o esporte como direito de cada um, no contra-turno escolar. Além disso, o grupo Baturidança se consagrou em 2003, com mais de vinte apresentações pelo estado. Tornou-se uma das fontes de animação de 40 pequenos artistas, misturando dança de rua e percussão, a partir de ensaios com a coreógrafa Margit Kolling e com o músico Fernando do Ó.

Pólo de produção, aperfeiçoamento e disseminação da tecnologia social, um dos segredos de longa vida da proposta é a implementação sistemática de uma forma de trabalho que investe no esporte como influência decisiva na escolha de vida. O PEI oferece oficinas esportivas, artísticas, culturais e de saúde. Os integrantes estão divididos em 3 grupos: mirins (7 a 10 anos), pré-adolescentes (11 a 14 anos) e adolescentes (15 a 18 anos). O projeto conta com 32 monitores das áreas de Educação Física, Serviço Social, Psicologia, Nutrição, Jornalismo, Secretariado Executivo, Biologia, Enfermagem, Pedagogia e Análise de Sistemas.

1:58 PM :: Comentários:

DAR OS OMBROS
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Não reclamo mais quando estou cansado. O cansaço se desculpa no meu lugar. Não há divisas de sombras, sigilo de céu. Sopro mais fundo como quem enche de ar as palavras. Não tenho vontade de mentir ou despistar. No cansaço, só há vaga para a sinceridade. A gente fala sem arestas, com o rosto inclinado e a pupila desequilibrada, deitando o ouvido ao primeiro colo. É como dobrar a boca para cigarras, ceder corpo para a cadeira, distribuir nomes nos bolsos dos casacos, cortar um retrato ovalado para pôr na carteira. O cansaço é dar os ombros. Quando lembramos que esquecemos de lembrar.

11:26 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 23, 2004

PÃO VELHO
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar

Fecho a porta com os pés. Não existem pensamentos silenciosos. Os pensamentos já são vozes. Estou representando mesmo quando não me sei de cor. O corpo é uma roupa doada do mar. Ninguém convence o outro de suas feridas. As feridas perdoam o que não foi ferrugem. Quem não perdoa não se despede nunca. Perdoar é se despedir. Uma figueira na estrada não está perdida, está atalhada de pássaros. A chama não conhece pausas - tem medo de morrer ao parar de falar. Ainda pedem pão velho no meu edifício - pedir pão velho é esperança. O pão somente envelhece na boca. Meu inimigo interior me espera lá fora. Em algum momento, a vida se detém para se assistir.

11:51 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 21, 2004

O MUNDO ME CONVENCEU CEDO DEMAIS
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



As palavras precisam de par, querem dançar. Quando sozinhas, permanecem no canto, de cara amarrada. Vou costurando vozes antigas como casacos. Não passo frio na linguagem. Os livros queimam mesmo longe do fogo. Amaino o mate com o fim da tarde. Escrever é desistir de explicar. Escrever é ser emprestado. Eu me emprestei para os lírios. O corredor de casa lembrava uma sacristia. Havia um anjo de metal pendurado na parede. Ele tinha um jeito envergonhado de quem mijou nas calças. A água benta ficava dormindo em seus pés. Minha mãe trazia sempre um potinho da missa. Dava de beber ao anjo uma vez por semana. Antes de entrar no quarto, fazíamos o sinal da cruz com a sede. As rachaduras nas paredes começaram nas asas do anjo. Debaixo da cama, uma garagem de chinelos e sapatos. Cheirava a morcegos. Odiava sair do meu canto e viajar porque sentávamos no bagageiro com um pelego vermelho. Quatro filhos amotinados nos cabelos ruivos. O carneiro não tomava banho. Enjoava o hálito. Nosso carro atravessava o estômago de um peixe. Desconfio dos sonhos com a mesma tenacidade em que desconfio da realidade. O sonho é uma advertência, não uma verdade. Ao mentir contava sonhos que nunca me conheceram. Ninguém questiona o que foi sonhado. Sonhar é uma ignorância permitida. Avanço na idade e não sei discernir o que foi vivido do que foi contado. Tenho dúvidas se minha infância é realmente o que vivi ou o que sonhei nela. A gente refaz o passado para se convencer. A mentira é detalhista, quer ser tão perfeita que se torna imperfeita. A verdade é imperfeita porque não espera convencer. Homens honestos parecem mais culpados do que homens culpados. Homens culpados ensaiam suas mentiras. Homens honestos são ingênuos porque a verdade só conhece a improvisação. Cavo a terra pela nostalgia do ventre. Cavo o corpo pela nostalgia da terra. Gorjeio a respiração. Escrever é confusão. Confusão é desejo. A confusão chama o desejo para conversar pertinho. Ninguém escreve ou ama com certezas. Há dois tipos de observador. O que dirige e o passageiro. Uns passam a vida com o olhar de motorista; os outros, com o olhar periférico de acompanhante. O motorista decora as ruas, procura um lugar para estacionar por força de hábito, fixa em atalhos e trajetos conhecidos, não escuta os movimentos do corpo. O acompanhante esquece as ruas, escuta o pulmão, desdobra caminhos novos e está aberto ao que não aconteceu - ele nunca sabe onde vai, sabe que não necessita saber. No casamento existe o olhar de quem dirige e o do acompanhante. Dois motoristas no casamento resultam em acidente grave. Não sei da onde tirei essa idéia. Tenho que me combater e não me acostumar comigo. Pretendo ficar devendo para a morte. Ser mais boato do que notícia. Dias desses, chutei uma caixa de bolas de gude. Não é recomendável andar no escuro em casa com crianças. Os brinquedos são cegos. Elas voaram em arremesso entusiasmado, fazendo um estardalhaço macabro de enxadas batendo na noite. As bolitas formavam uma outra espécie de luz, como vaga-lumes economizando árvores. Pensei que iria pisar em uma delas, patas de cachorro, e cair dentro do latido. Pensei que levaria uma rasteira da infância. Ainda estou de pé, mas com a respiração deitada. Recordo do casamento de uma prima. Ela ostentava um colar de pérolas. Um convidado abraçou desajeitado a noiva, o braço enganchou no vestido e o feixe arrebentou. As contas do colar foram saindo da igreja, em fila indiana, numa procissão de aias. Enquanto ela chorava, eu apanhei uma das pérolas para fazer um brinco para a namorada da época. O brinco é um anel que escuta.

(Coluna "Carpe Diem", jornal Rascunho, edição junho/2004)

10:53 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 14, 2004

DESANDO A RIR
Gravura de Jean Cocteau

Fabrício Carpinejar

É difícil explicar uma alegria. É fácil explicar uma tristeza. Uma alegria é descoberta. Tristeza é invenção. Queria dormir como uma criança que não quer dormir. Há dias tão cansados que me escapa o sono. O rosto de quem dorme demais é o mesmo rosto de quem dorme de menos. As olheiras são fundas como um convés inclinado. Quando não penso, desando a rir. Amar um corpo não é deixar acontecer, amar um corpo é concentração. É procurar no corpo o que o corpo não vê. É enxergar onde a respiração se repete em música. Ser natural é mais do que ser espontâneo. Ser natural é esquecer. Ser espontâneo é tentar esquecer. Existir é uma violência. A gente escreve para existir menos. Ao escrever, a gente escolhe. Ao existir, a gente é escolhido. Ter consciência não me fez mais prevenido. Minhas mãos são joelhos sentados. Não sou o que aprendi. Sou o que falta aprender.

10:00 AM :: Comentários:

O TEMPO É MAIS ÚTIL QUANDO NÃO MEDE O QUE VIVEMOS

Fabrício Carpinejar



Deus também faz intervalos. A carne precisa ser adubada como a terra. Ainda não sei desaparecer em mim. Acreditamos mais nos milagres sem sentido, não nos milagres sutis. O inverno mente. As laranjeiras ofendem as flores com insetos. As laranjas são insetos sem asas. O tempo é mais útil quando não mede o que vivemos. Nascer e morrer precisam de treino. Uma pálpebra dormindo pesa o rio que não nadamos. O fogo é uma pedra impaciente. Meninos jogavam futebol com sacos na praça. Uma mulher cuspia seu pulmão com uma placa na garupa: "compro ouro". Uma menina coçava seu pescoço com medo de altura. Vivo devagar como quem já pressente o final. O meu olhar é calmo porque ele não se interroga mais - exclama despedida do que não conheceu.

10:00 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 12, 2004

JORNAL ZERO HORA:

Porto Alegre, 12/6/04. Edição nº 14174
Reportagem especial - páginas 4 e 5

Comportamento

O DIA DE CHAMAR AMOR PELO NOME

O desafio dos poetas Fabrício Carpinejar e Celia Maria Maciel instiga um grupo de 16 garotos infratores em uma biblioteca e sete mulheres em um salão de beleza: dá para fazer declaração de amor sem a palavra amor?

MOISÉS MENDES
Foto de José Doval


Tarefa: poetas pediram mensagens de internos a suas namoradas, mas eles não podiam escrever a palavra amor


Guris sentados em volta da mesa, mãos cruzadas agarrando a inquietação. Vão falar de amor em bilhetes para as namoradas. São desafiados pela poeta Celia Maria Maciel: - Viemos aqui para falar de amor, mas sem dizer amor.

E dá? O poeta Fabrício Carpinejar faz silêncio com um sim. Os 16 guris se espiam. Dá? Num livro que talvez não esteja naquela biblioteca, outra poeta, Adélia Prado, diz que não se fala assim impunemente de amor, porque amor é palavra de luxo. Então, que se pense mas não se fale. Os desafiados são adolescentes infratores recolhidos ao Centro de Internação Provisória Carlos Santos, da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), na Avenida Padre Cacique, em Porto Alegre.

São espinhentos de 14 a 17 anos. Assaltaram, meteram-se com drogas, esfaquearam, tropeçaram em desvios farpados. Estão ali para conversar com Celia e Carpinejar porque são os que mais passam pela porta sempre aberta da Biblioteca Dona Margarida. Não rastreiam livros com palavras que reforcem rudezas.

- Eles lêem poesia - diz a coordenadora da biblioteca, a monitora Jeanete Amaral Harms.

Jeanete ciceroneia os dois poetas convidados com a monitora Adriana Telles, as técnicas em educação Zoraide Testa e Marli Kramer e a psicóloga Mariana Puggina. No pátio, outros adolescentes jogam vôlei ou escoram no joelho o queixo, um sonho ou alguma aflição. São 180 guris que estão ali de passagem à espera das medidas socioeducativas de um juiz. Poderão ficar numa das casas da Fase por até três anos.

Os 16 sentados na biblioteca lêem e escrevem muito. Quietos, ouvem Celia soletrar textos de Carpinejar. Estão diante de um dos grandes poetas brasileiros, que exalta a própria feiura, "porque é bonito ser feio'', e diz coisas assim:

- Ninguém ama com bons modos.

Ou assim:

- Ao andar contigo, eu me invejava.

Ou assim:

- Sua infância morreu separada do resto dos anos.

Os guris acompanham com os olhos recortes de papel com poemas de Carpinejar que zanzam na mesa. Celia lê trechos, instiga.

- A imaginação desloca lembranças - diz Celia.

E fala de amor:

- A gente cai da bicicleta, erra, aprende. No amor, a gente leva fora para aprender a amar.

Quem dos 16 já disse "eu te amo''? Todos, ou quase todos, erguem a mão. Carpinejar, 31 anos, tira os sapatos e põe sobre a mesa. Sapatos desemparceirados, um velho, outro mais novo. Um guri balbucia:

- É doido.

Celia pede que falem, ninguém fala. Querem escrever. Que escrevam em cartões azuis, amarelos, laranjas, verdes. O guri esfrega o boné na cabeça e pede ajuda para quem está ao lado:

- Vamos trocar uma idéia?

Trocam-se idéias, mas a maioria enterra o olho no papel em branco. Em 15 minutos, os cartões estão garatujados de letras miúdas, redondas, tortas, espichadas. Pronto. Depois, o escritor os presenteia com exemplares de seu livro mais recente, Cinco Marias (Bertrand Brasil, 124 páginas) e agendas com poesias. Abraçam-se, vão embora. Lápis e canetas ficam sobre a mesa. Nos quartos, são armas.

No pátio, os poetas da Fase formam fila dupla com a turma que jogava bola. Às 11h, voltam para os alojamentos. Um a um, são submetidos a uma revista mecânica, antes de sumir no corredor. Um monitor grita:

- Tira o boné, abaixa a calcinha.

A gurizada está de bermudas, calções, calças, abrigos. Se não há outro nome para amor, palavra de luxo que ninguém conseguiu evitar nos bilhetes reproduzidos nesta página, que outro nome se daria para humilhação?

- Abaixa a calcinha - o monitor repete, e o guri abaixa o calção e expõe a cueca.

Tudo isso foi na última terça-feira. Depois dos afagos da poesia, o choque do embrutecimento, um atrás do outro.

Hoje, Dia dos Namorados, os bilhetes serão abertos na visita das gurias que aparecerem. Os nomes delas: Fernanda, Daiane, Jenifer, Tatiana, Joice, Karine, Camila, Márcia, Daniele, Patrícia, Tatiane, Marciane, Gisele, Elisandra e Paola.

Sem namorada, um menino escreveu para a mãe, Angelina.

Os nomes deles? A lei manda que se preserve a identidade de adolescentes infratores, poetas ou não. Por enquanto, seus nomes estão só ali, separados do resto dos outros nomes de gente e de coisas.

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Se amar é ficar bobo, não há espaço de maior bobeira dita, cochichada ou chorada do que um salão de beleza. Fala-se do outro, do que não está ali. Cuida-se dos cabelos, das unhas, da pele e se ganha de graça troca de confidências, terapias informais, tudo no cara a cara, nos rostos que se vêem pelo espelho. Zero Hora levou para o salão Paulo Alvarêz Cabeleireiros, na Avenida Independência, em Porto Alegre, o mesmo desafio lançado pelos poetas Fabrício Carpinejar e Celia Maria Maciel aos adolescentes recolhidos a uma casa da Fase. Amor - "palavra de luxo'', segundo Adélia Prado, ou "palavra essencial'', segundo Carlos Drummond de Andrade - pode ser dispensado numa declaração de, digamos, amor? Leia nesta página os depoimentos de quem fala, ouve, silencia, aconselha - clientes, cabeleireiras e manicures - e o que essas mulheres dirão amanhã para seus namorados.

Primeiro, o olhar

Rose Alvarêz, 50 anos, cuida dos cabelos da psicóloga Rosane Levenfus, 40 anos. A palavra amor tem para Rose a relevância que não tem para Rosane. A psicóloga é casada há 12 anos com o engenheiro David Levenfus, o Gordo. Têm uma filha, Sílvia, seis anos. Quem disse pela primeira vez "eu te amo''? Rosane acha que foi ela, mas não lembra direito. Na última e rara vez dos últimos meses, foi ela quem disse, ao receber flores no Dia das Mães.

- Tem muita gente que não usa a palavra amor nunca. O amor se expressa em primeiro lugar no olhar, só depois nas palavras.

Rose tem um amor mais esparramado. Há dois anos e meio mora com o técnico em manutenção Lecio, 40 anos. Conheceram-se numa viagem para Nonoai. O ônibus quebrou, todo mundo desceu, os dois ficaram de conversa no acostamento.

- Bateu no olho - ela relembra.

Bateu tanto que Lecio se derramou ali mesmo:

- Tu és a mulher da minha vida.

No segundo encontro, ele foi adiante:

- Te amo. Todos os dias diz "eu te amo''. Todos os dias ela diz: "Eu também''. Se um esquece, o outro cobra:

- Hoje tu não disseste que me ama.

Não banaliza? Ela ama essa banalização.

- Passamos o dia rindo.

Uma palavra difícil

Laura Laranjeira, 19 anos, estudante de cursinho, enfeita-se para o Dia dos Namorados. Preparou uma dúzia de surpresas para Thiago, 19 anos, o único homem de quem ouviu até agora "eu te amo¿¿. Laura já ficou cinco dias, no máximo, sem dizer "eu te amo". No começo, acha que se apaixonou:

- Pela primeira vez senti o que nunca sentira antes.

Estão namorando há um ano e dois meses. Agora, acha que o que sente é amor. Vai abarrotar o guri de presentes. Estes podem ser revelados. De manhã bem cedo, vai até sua casa acordá-lo com uma cesta de café. Levará um arranjo de flores e um ursinho de pelúcia. Depois, vão jantar no Sheraton. E o resto - e que resto - sim é segredo.

Maria do Carmo, 48 anos, cuida das mãos de Laura. Há dois anos, está no terceiro casamento. Vive com o mecânico João Carlos Figueiredo, 37 anos. Vai presenteá-lo com um par de sapatos, mas sem "eu te amo".

- Não precisa dizer.

Vanda Rosa e Silva, 47 anos, cuida dos pés de Laura. Está casada há 30 anos com o supervisor de produção Luís Pedro Querotti, 52 anos. Têm quatro filhos: Marcel, 27 anos, Gustavo, 26, Michele, 22, e Gisele, 15. No tempo de namoro, era ele quem mais dizia "eu te amo". Vanda faz as contas: há uns dois anos a frase não é suspirada no ouvido do marido.

- Tenho certa dificuldade de dizer esta palavra. Mas namoramos, ficamos no sofá.

Hoje, a palavra difícil poderá ser dita? Ela pensa, trava:

- Vou dizer: "Parabéns pelo nosso dia".

O beijo diz mais

A psicóloga Cláudia Dias, 37 anos, só vê o marido, Rogério, 40 anos, nos fins de semana. O geólogo trabalha de segunda a sexta nas obras da rodovia Rota do Sol. Estão casados há 15 anos, têm um filho, Felipe, de 11 anos. Mesmo com tão pouco tempo juntos, Cláudia não vê necessidade de dizer o que sente com palavras:

- Um beijo ou um olhar podem dizer muito mais. O suporte para o outro ou para o filho é dado muito mais pelo olhar.

E hoje, ela vai dizer "eu te amo"? Ou espera ouvir a frase de Rogério?

- Não pensei nisso.

Cláudia também não vai dar presentes. Talvez saiam para jantar ou, quem sabe, se refugiem num motel.

Patrícia Lorenzini, 31 anos, cuida dos cabelos de Cláudia. Vive há 10 meses com o técnico em informática Danilo da Silva. Quase todos os dias, um deles diz "eu te amo".

- São 10 meses, não é?

Depois disso, declaração de amor vira raridade? Geralmente, sim. Patrícia acha que mexeu com a emoção do rapaz, desamorteceu sentimentos.

- Eu não só digo eu te amo. Eu vibro com as conquistas dele.

Vai dar uma jaqueta e uma camisa de presente. Mas não espera nada de mimo material:

- Ele diz que há muito consumismo. É muito politizado.

( moises.mendes@zerohora.com.br )

7:49 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 09, 2004

A LUZ COMO SOM

Fabrício Carpinejar



Vicente não é ele, é a água que ensina. A água não é a água, é o barulho do vento. O vento não é o vento, é o roçar das árvores. Os cílios ciscam o mar antes do mar. Seu olhar amansa até o que não nasceu. Ele toca a camisa molhada e descobre que é um dia diferente. Um dia para correr riscos, para escorregar na grama, um dia desajuizado como deveria ser a infância em qualquer dia. Ninguém está dizendo: "cuidado com a água, cuidado para não se sujar". Ninguém está o impedindo com negativas e censuras. Não há ali pai, não há ali mãe, mas apenas ele e a luz como som, como clareza.

10:36 AM :: Comentários:

O PÃO É O NOSSO GARFO

Fabrício Carpinejar

Mariana buscava um por um de seus bonecos e bonecas e fazia um varal na cerca da horta. Os repolhos, os tomates, a hortelã se levantavam para espiar o alarido dos tecidos. Suas crianças eram estendidas pelos cabelos e conversavam alvoradas de lã. Com olhos debruçados de frente, debruados. Uma ciência do vento. Concentrada, nada a dispersava antes de cumprir o fio de suas fábulas. Enovelava as tranças e as pequenas roupas, os panos de prato, o que havia sido negado pelo armário e recebido como aniversário fora de hora. Abria cada prendedor com a insistência adulta dos dentes. "O sol das lajes, o sol das lajes", ela dizia com pressa, como que reclamando mais espaço dentro da fruta, do pátio, da memória de seu pai. Em casa, o pão sempre foi o nosso garfo.

10:32 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 08, 2004

ZELIG
(da série ARQUIVO IMPESSOAL)



Na praia, em alguma identidade longínqua. Misto de surfista e sertanejo. Bermudão de estampa psicodélica e cabelão Chitãozinho e Xororó, comprido atrás e com franja na testa. Cafonice legítima.

12:33 AM :: Comentários:

ZELIG
(da série ARQUIVO IMPESSOAL)



Trabalhando como segurança de campanha política. Na foto, segurando a multidão (no tempo em que Brizola era seguido pela multidão), de preto básico, musculoso como um caranguejo. Parece imagem de um flagrante antes de um atentado.

12:10 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 07, 2004

ZELIG
(da série ARQUIVO IMPESSOAL)



Depois do jogo de futebol, arruinado como atacante. Coitado de quem saiu na foto ao meu lado. Não precisava entrar para posteridade desse jeito.


Andando pela avenida Bento Gonçalves com meu chapéu panamenho. Um lagarto ao sol. A Ana salva a paisagem.

11:51 PM :: Comentários:

VENTO EM PÊLO



do inédito Livro de visitas
Gravura de Franz Marc


Fabrício Carpinejar

O deserto é filho único
como eu.

Passei a infância
a sós com minha vaidade.

Quis ensinar o vento
a galopar,
a montar
com as duas pernas
de um lado,
mas ele corria
mais do que o cavalo.

Revista Vida Simples
edição junho de 2004
e-mail: vidasimples.abril@atleitor.com.br

11:00 AM :: Comentários:

MULHER-SUJEITO

A colunista do site No MÍNIMO, Carla Rodrigues, fala sobre "O século da mulher-sujeito", comentando "As mulheres de Derrida", de Cícero Inácio da Silva, "A Genealogia do Virtual", do filósofo Gilles Lipovestsky, e o nosso "Cinco Marias".

07.06.2004 | NO MÍNIMO

Cinco Marias
Carla Rodrigues

Fabrício Carpinejar, 32 anos, é jovem, premiado (melhor livro de poesia em 2003 pela ABL, melhor livro de poesia em 2002 pela UBE), lá de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, ele ajudou a renovar a poesia brasileira, cada vez mais acesa no circuito "alternativo", e que com Carpinejar ganha ares de fenômeno nacional. Em "Cinco Marias" (Editora Bertrand, 124 páginas, R$ 19,00), ele põe sua sensibilidade à serviço do feminino. Primeiro, lembra ao leitor que o título do livro se refere à uma brincadeira de infância: jogar uma pedra para o alto, recolhe uma das quatro, sem encostar nas outras. É como um jogo que o poeta leva o leitor a seguir pelos versos que, de certa forma, também brincam com sentimentos. Sua poesia tem a grande qualidade de ser sempre surpreendente, e no final "Cinco Marias" reserva uma grata surpresa. Até lá, contentem-se com um poema: "Eu fui o que não sou./Depois que inventaram o inconsciente,/a verdade fica sempre para depois".

10:36 AM :: Comentários:


Domingo, Junho 06, 2004

ESPAÇO CRUEL E REDENTOR
DE ANA MARQUES GASTÃO


[Fabrício Carpinejar]


Nós/Nudos, de Ana Marques Gastão [edição bilíngüe, trad. de Floriano Martins]. Editora Gótica. Lisboa. 2004. 107 pgs.


Paula Rego e Ana Marques Gastão

Se Herberto Helder colocasse sua força anímica e mágica para espelhar a realidade, e não para distorcer e criar um outro mundo, surreal e de absoluto crime, o que aconteceria? Não seria ele, é óbvio, até porque estaríamos lendo Ana Marques Gastão. Enquanto Helder explode, Ana implode. Enquanto o primeiro se expande para fora dos limites do humano, a segunda se concentra no sórdido íntimo e se retém ao caroço da existência. Tudo nela arde em despedida para dentro de casa. Como que revelando o mesmo batimento cardíaco descompassado da literatura de Clarice Lispector, Virginia Woolf e Sylvia Plath.

Nós/Nudos é um livro permanente, perpétuo em seu estar indo, desafiador. Não é recomendável lê-lo sentado ou na cama. É de se atravessar de mãos dadas tamanha a solidão que o desdobra em gomos de um quarto. Os poemas da escritora portuguesa Ana Marques Gastão sobre 25 telas da genial pintora Paula Rego, também portuguesa, assombram com seu universo feminino dilacerado, com uma beleza desparelha, áspera, e uma verdade nada tranquilizadora. Versos escritos com suor, secreção, choro, líquido do ventre, sangue, esperma. Nós permite a leitura do tecido coletivo da conjugação tanto quanto o aperto de uma corda, o soluço de uma corda esticada. É uma obra violenta, como se fosse feita somente de relâmpagos, apartada da chuva. Relâmpagos em dias claros, de clareza cegante das experiências. "Suporto a ferida como animal decadente/ sem a concordância do mundo./ Ninguém me diz quando começa o mar". Violenta porque traz imagens verbais poderosas, uma aura da agressão no momento em que ela ainda é afeto. Não é uma raiva para fora, uma raiva interna, contida. Uma raiva recusa a piedade, a compaixão, o perdão. "Não é teu forte, a piedade." Os poemas não legendam a pintura. Não são entranhas da cor. Não ilustram e decoram. Estão lado a lado, como um diálogo de cotovelos. Um diálogo de dilúvios.



Ana Marques Gastão faz seu livro mais intenso, único, singular, sobrevoando a insistência da metalinguagem, adjetivação expiatória e excesso de pudor que perpassava seus livros anteriores. Há uma voz genuína, transparente, ambígua. Sintomático que tenha encontrado a saída ao poema na pintura. O poema aprende aqui que a dor não se expulsa, mas a dor apenas se acomoda no nervo de outra alegria. A autora parte da "paisagem do osso" para a paisagem líquida do prazer, descentrando a escrita, contradizendo-se com volúpia, censurando e pedindo, refugando e chamando, na instabilidade que é peculiar ao desejo. Veja a importância da letra viva e vacilante, do tremor do braço ainda reticente do dizer, em metáforas como a "gramática do silêncio", "ortografia cega", "caligrafia de um tudo anterior" e "fechado à distância do lápis". É impressionante perceber que as mulheres habitam o corpo e nadam no espaço de suas vísceras e pulsões. Nunca um corpo pacífico, inerte, porém um corpo que arrebata na espontaneidade do esgar e deboche. O erotismo se alcança na crispação, no entreabrir da pele que se oferece a princípio para insultar de amor depois. É uma flutuação que segue a separação de sílabas. Poesia amorosa porque está muito perto da zona misteriosa da mudez. Um silêncio saciado, não esgotado: "As palavras morrem se forem ditas". Uma mudez optada, que não significa renúncia, loucura liberta do idioma: "Morre-se de um beijo com um grito dentro". As protagonistas se regozijam no tato, no veludo dos poros, em alegorias de tecido cru e grosso: "as mãos ainda estão húmidas de ti" ou "água apenas de um com outro".

A seleta Nós/Nudos, em edição bilíngüe, traduzido com elegância ao espanhol pelo brasileiro Floriano Martins, transcende a descrição para a indiscrição emocional, rumando em direção à antena da impureza, à coerção orgânica do que é lembrado quando apagado em vivência, do que é esquecido porque está sendo vivido. "Somos reminiscência de um quarto pelo qual dançamos até morrer". Desorganização que se organiza nas miudezas, no palco de resistência que é a camisola, o vestido, a mortalha, o manto. Espaço da crueldade que é bondade de se dar ao mundo sem pedir nada em troca. O humano é divino, o divino ainda não se crê humano. Mulheres elétricas, distorcidas, sem olhar de frente, convencidas de que a comoção acontece na periferia dos atos, nos desvios, na "ópera menor" dentro dos ouvidos. As mulheres de Ana escutam os seus próprios pensamentos. Não espere encontrar suavidade. O que emerge é o estado provisório do fogo, da combustão. "E a luz, táctil, clarão, poema a crescer na exaustão, suprime a distância entre o rio e a árvore". Animais queimando, com cabelos do fogo desalinhados, "animais cintilantes", da ordem das brasas e da franqueza explícita. As figuras estão conscientemente inacabadas, inconclusas, como algo que está sendo escrito no momento em que se soletra. Elas estão irremediavelmente sozinhas, entretanto, não aceitarão menos em função disso.

Apreensão que se consuma na repreensão. Ferocidade que se completa na velocidade do recuo. Abundância que progride no mínimo. Imobilidade que é invocação. A escritora Ana Gastão ultrapassa o poema para atingir o luminoso e dolorido desvestir. Viver não é uma posse, mas uma possessão.

(Revista Agulha, # 39 - fortaleza/são paulo - junho de 2004)

6:07 PM :: Comentários:

POEMA ANÔNIMO
Gravura de Ben Nicholson

Fabrício Carpinejar



Ainda tensa, soltaste as mãos,
o sêmen.

Teu corpo saltou da terra
do meu corpo.

Recolheste as roupas e o silêncio.

Fiquei ali,
anfíbio acordado na cegueira,
dormindo a claridade da pedra.

Minha solidão
nunca mais seria a mesma.
Minha solidão
nunca mais teria filhos.
Minha solidão,
um ventre masculino.

Eu te morri.
Evitei chorar.
O cão lambeu meus olhos.

Não consegui recobrar
a rima de tua cintura
como um verso que insiste
em mudar.

Mesmo manchando o livro
dos teus lábios,
mesmo calçando tuas mãos,

serás sempre
um poema anônimo.

(coleção 5 minutinhos, eraOdito, 2002)

8:55 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 05, 2004

MÍNIMAS
Gravura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar

* Não quero alma gêmea. Isso é incesto.

* Música é dar voltas na mesma frase.

* Somos milagres habituados.

* Uma janela noturna ou lareira de astros?
O céu
espuma
brasas.

4:20 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 04, 2004

DESENTORTANDO A BOCA
Francisco Bosco faz um livro delicado e intenso sobre o mundo da leitura e a leitura do mundo.

Fabrício Carpinejar

Eu não pretendia ler de cara Da amizade (7 Letras, 67 páginas, 2003), apenas espiar. Despretensiosamente. De uma espiadela comprida terminei, sem perceber, devorando a pequena e cintilante obra. O quarto livro do carioca Francisco Bosco (publicou antes Florestado, Atrás da porta e Rutilante) tem uma elegância que desentorta a boca. Livro que não faz barulho, silencioso como uma livraria civilizada. Livro que comove ouvindo a chuva lírica. É um manual poético sobre leitura e leitores, que desperta a comoção, porém não ensina a comover. "Convicção é igual a certeza menos a verdade." Não é verso, mas poesia. Não é filosofia, mas pensamento. Não é música, entretanto, oferece a harmonia de uma composição. Uma surpresa madura, que dispensa a classificação etária do jovem autor. Diário de incertezas e observações sobre a literatura, revelando as dificuldades de encontrar um lugar na estante aos livros xerocados. Eles surgem natimortos. "Os livros xerocados não são livros./ Ocupam o último círculo das estantes, onde não os alcança o amor dos olhos". A exaltação da simplicidade descende de uma fé leiga. Francisco Bosco reproduz o mundo afetivo do conhecimento. Ele relata as peripécias do leitor desde a compra de um exemplar até seu engavetamento (ou na memória ou na prateleira, dois infernos possíveis). "As livrarias são o consulado do leitor, um pedaço de terra natal em qualquer país estrangeiro." É de se concordar com a cabeça. Os livros são identificados como pessoas, com humores e temperamentos, manias e cacoetes. "Há livros que berram, como as pessoas grossas." As descrições aleatórias vão cativando e diferenciando o óbvio da descoberta sensível. O poeta mostra que os sujeitos que não falam de repente não têm silêncio e os que falam muito podem ser silenciosos. "O silêncio é uma espessura." Desmistifica a superfície, cava contradições. O que é contraditório assume sua condição de poético. O poético é uma contradição necessária.

Bosco traz aforismos em fila indiana. Desfruta do humor para destilar suas reflexões. É um bibliotecário desorganizando. Cataloga os livros pela cor, não pelo assunto. Suas impressões correspondem às emoções acima de dados. Descobre os problemas, pouco interessado em dar soluções. Escuta as verdades e os símbolos dos sonhos e não os sonhos. Tudo é arma para sua sagacidade. Nem os livros antigos recebem alta: "as páginas se soltam", "os dedos ficam manchados", "para um alérgico são piores que rapé".

Já no início antecipa-se ao leitor:

O leitor se depara como uma antiga anotação sua à margem de um livro:
é como ouvir a própria voz no gravador
ou, pior, ver a própria imagem na televisão
- uma estranha familiaridade
O leitor que se relê é um escritor que se duvida. Quem escuta seu timbre no gravador desconfia da veracidade. O mesmo acontece com a leitura. Aquilo que foi lido não representa mais o que se é. O verdadeiro leitor é um atrasado contumaz de sua própria crença.


Da amizade propõe um jogo informal pelas bordas e periferias da voz, primo em terceiro grau de "Se um viajante numa noite de inverno", de Italo Calvino, onde o autor deixa a história para se fixar na biografia do leitor que o compra. Bosco escreve com a distração de uma conversa, examinando não sua poesia, mas o que acontece fora de sua poesia. "Todos os leitores são suspeitos", afirma, para não deixar incerteza de sua falta de isenção. Expõe que somente na estranheza é possível amadurecer a intimidade. Descreve a irritação do aprendizado de uma língua estrangeira pela consulta insistente ao dicionário. No fluxo, percebe que a poesia é um idioma dentro do próprio idioma. Talvez a diferença seja que as palavras não são consultadas, mas adivinhadas.

O escritor absorve as interferências, prevê a amputação. Quando se elege um mundo na escrita, elimina todos os demais. Escolher é também renunciar. "Escrever é perder o corpo." A verdade torna-se a coincidência de dúvidas. Coincidir dúvidas aproximam estranhos. Francisco Bosco roça a magia. Lê o leitor, sem claustrofobia, ao ar livre. Com perícia, na última seção que homenageia João Cabral, compreende que o interlocutor precisa largar o livro e olhar aos lados para "ver se o mundo continua em seu lugar'".

Até a poesia brasileira entra no jogo e recebe vaia. "O problema não é a falta de público no estádio, mas a impressão de que jogam sem a bola." Do mesmo modo que se concorda com Bosco, se discorda. Discordar é aumentar a efusão do debate. Sobre essa metáfora da poesia, penso que o mérito da poesia é exatamente jogar sem a bola (o que mais se gostava do Garrincha, por exemplo, é o drible de corpo, quando ele dispensava a bola).

Um escritor começa a publicar porque não se satisfaz com o que lê. Usando um dilema borgeano, passará a vida entre o gostaria de escrever e o que é capaz de escrever. Assim o leitor enfrentará igual desafio: indeciso entre o que gostaria de ser e o que é capaz de ser. As duas insatisfações conversam, mudam de lugar e se completam.

Da amizade
Francisco Bosco
ISBN: 85-7577-088-8
Preço: R$ 15.00
72 páginas

7:51 PM :: Comentários:

LIÇÕES DE ENTERRAR O PAI, A BIBLIOTECA E A POESIA
Com Cinco Marias, Carpinejar reafirma obsessões poéticas e refina a escrita


Foto Emílio Pedroso/ZH

Ademir Demarchi
Santos - SP

Cinco Marias
Carpinejar
Bertrand Brasil
128 págs.

Num dos poemas do novo livro de Fabrício Carpinejar, o leitor é informado que "A mesa oferecia seis lugares,/ nenhum encosto a mais", de forma sutil, quando se sabe que o livro tem cinco personagens, deixando reverberar longamente o vazio resplandecente de um desses lugares. Isso se explica no fato de que esse vazio é o tema de todo o livro, ocultado como um cadáver, literalmente, pela onipresença de cinco mulheres, as cinco Marias que dão título ao livro. Essas mulheres - a mãe e quatro filhas - enterram o pai e sua biblioteca no jardim e procuram manter a aparência de normalidade, levando uma vida reclusa até serem descobertas e expostas pelo que fizeram e pelo diário coletivo que escreveram confundindo suas vozes e sentimentos.

Matar o pai ou enterrá-lo no jardim para tê-lo por perto, no pampa, dessa forma, é uma das obsessões da poética de Carpinejar, que em Cinco Marias reaparece como uma metáfora estendida que ecoa de outros livros ou especialmente de um dedicado inteiramente ao assunto, Um terno de pássaros ao sul, no qual ele explora a sua relação fraturada com a figura paterna, da qual se separou na infância. Enterrar o pai no jardim, assim, pela reiteratividade, é uma ação simbólica que já pode ser lida em tom de brincadeira e como uma marca recorrente na obra desse poeta, apesar da tragicidade agônica que sugere por ser um traço biográfico. Mas é disso que vem a sua força, de não ter pudor com sua história, de esmigalhá-la como forma de se reconhecer e nisso se perder em estranhamento, que é o preço da verdadeira literatura. Sábio, portanto, é um dos versos desse livro quando sugere que "Nada é definitivo. Nem a memória", da mesma forma em que outro diz que "Os antepassados nunca estão concluídos". Em Cinco Marias, o pai morto e enterrado no jardim é uma personagem nauseante para as mulheres, que provoca a desunião enquanto vive, só passando a ter efeito contrário quando morre. O asco a esse pai é explicitado de tal forma que seu beijo na testa das filhas recende um hálito capaz de estragar o mais fino vinho: "Não importava a safra,/ poderia ser a melhor,/ ela azedava em sua veia".

Carpinejar tem se destacado, portanto, pela criatividade com que se apropria de forma incisiva de sua memória e biografia pessoal para transformá-las em literatura distintiva. Recuperar a memória e dar a ela um tratamento literário é uma forma de lutar contra o empobrecimento das experiências ou até mesmo o seu desaparecimento nas sociedades altamente urbanizadas contemporaneamente. Nesse contexto, elas são diluídas, asseptizadas ou glamourizadas até perderem o sentido, daí a importância de se recuperá-las ou explorar seus sentidos, como forma de se ir contra esse estado de coisas e revalorizar o humanismo e a tragicidade da vida em sua essência.

Com essa escrita, que se consubstancia em experiência ela mesma, Carpinejar compôs um significativo conjunto de livros que se destaca também por outros aspectos, como a forma de manipular a temática conjugando poesia e prosa, elementos próprios da ficção ou a incorporação de efeitos imaginativos que se associam aos personagens, como o jogo das cinco Marias, que remete às personagens e às suas falas poéticas embaralhadas e servindo como um atrativo curioso para apresentar o livro ao leitor.

Sobre esse aspecto, na edição anterior do Rascunho, observei a atual tendência dos poetas de buscar renovação da expressão poética através do que se denomina "poema em prosa", forma de texto notabilizada por Baudelaire que tem sido muito usada nos últimos anos, apontando uma tentativa da poesia contemporânea de superar modelos desgastados.

Ainda que não parta exatamente desse mesmo pressuposto baudelaireano, Fabrício Carpinejar tem feito sucessivas experimentações com a escrita poética, manipulando a idéia de prosa e poesia e, com isso, tem obtido sucesso junto à crítica e, sobretudo, o que é raro quando se fala de poesia, sucesso de público leitor. Cinco Marias, por exemplo, além de ser uma espécie de continuação independente do livro anterior, Biografia de uma árvore, ao apresentar a história de um personagem que aparece naquele livro, foi escrito como um diário de uma mãe e cinco filhas vivendo isoladas em uma casa depois de terem enterrado o pai e sua biblioteca no quintal. Esse diário, por sua vez, foi elaborado a partir de uma notícia de jornal que registra fato relacionado às cinco Marias, forjada pelo poeta e datada de 31 de outubro de 2045, data que ele tem usado como marca em seus livros, remetendo o passado para o futuro, sendo essa outra dessas curiosidades recorrentes em seus livros. Cabe notar também que, ainda que o procedimento seja parecido, o uso de uma notícia por Carpinejar é bem diferente daquele feito tipicamente pelos modernistas que escreviam um poema ou uma crônica inspirados numa notícia do jornal. Contemporaneamente até a notícia é forjada, sendo um instrumento da poética e não propriamente sua fonte.

Em Biografia de uma árvore, que em tudo parece um conto em linguagem vagamente poética, a pontuação e as frases são marcadas e chegam a soar persistentes, caracterizando o tom narrativo e a escrita que se faz no fio da navalha entre prosa e poesia. O uso de recursos próprios da ficção por esse poeta tem sido eficiente a ponto de ter se transformado em marketing em busca de leitores, como o faz a editora na promoção de Cinco Marias, que diz em seu material promocional que "a obra pode ser lida tanto como poesia como romance", sugerindo ser um "Poema com enredo, trama e suspense".

O fato é que o trabalho de Carpinejar proporciona um interessante fôlego para reflexão ao demonstrar que é possível manipular a linguagem poética atribuindo a ela novos usos, de forma a se sair do olhar viciado que entifica o poema e o totemiza a ponto de quase grafá- lo em maiúscula e, portanto, idealizá-lo platonicamente tornando os poetas servos de um modelo.

Além disso, é preciso que se diga que a linguagem poética é econômica (coordenada pela respiração, disse Carpinejar: "Desde a infância, ela floresce minha asma") e neste Cinco Marias ganhou ainda mais com a depuração obtida com a diminuição da excessiva pontuação dos livros anteriores, fato que evidencia a linguagem poética e afasta o tom exagerado de conto que se observa, por exemplo, no livro Biografia de uma árvore. Finalmente, em Cinco Marias, apesar de um ou outro lugar-comum ("O homem escreve como quem grita./ A mulher escreve baixo, em prece."), Carpinejar nos dá o deleite de versos como os de uma das mulheres que nos diz que "Diante do prado,/ ardo imensa". Ou o espanto da primeira fala de uma doente que sai do coma e diz: "Seja impura, a pureza é violenta".

ADEMIR DEMARCHI é editor da revista Babel.

(Rascunho, edição maio 2004)

7:42 PM :: Comentários:

HOMENS DO BAIRRO
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA

Fabrício Carpinejar

O avô ficava com o mar até a boca. Andava de um lado para o outro da espuma. O mar era seu cachimbo. Eu sentava na mureta, esperando o vento soprar forte e colar os vestidos das mulheres mais no corpo. A maior nudez era imaginar os tornozelos. O pai colecionava boinas. Boina é mais leve do que um chapéu e se derrama como cabelo. Ele demorava mais tempo no guarda-roupa do que diante de um cardápio. Meu irmão subia no telhado para fazer chuva de ameixas. O vizinho não tinha uma mão e só cumprimentava com a esquerda. As árvores suspiravam, cansadas de balançar os braços para os carros. Eu ciscava pássaros nos olhos. Meus olhos não combinavam a calça e a camisa. Sujos de vida, beliche abandonado de repente. Toda visita se escutava pelo ranger do portão. Todo almoço se adivinhava pelo barulho da cozinha. Todo o dia se soltava pela histeria dos galos. Eu não entendia Deus e não me sentia desprotegido. Era tão apressado que confundia o crepúsculo com a noite.

10:54 AM :: Comentários:

RODANDO

Na segunda (7/6), às 19h, sou mediador de um debate sobre "Literatura e novas tecnologias", com Caco Belmonte, Marcelo Benvenutti e Cardoso, no Botequim das Letras (Félix da Cunha, 1143), em Porto Alegre (RS). Está também confirmada minha participação na Feira do Livro de Ribeirão Preto (SP). Faço palestra no Salão de Idéias, ao lado de Menalton Braff, no dia 20/6, às 15h. No evento, haverá lançamento do livro Cinco Marias (Bertrand Brasil). Um dia antes, em 19/6, às 14h, participo de oficina literária do SESC, em São Carlos (SP) , com Deonísio da Silva.

10:48 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 03, 2004

Deu no Digestivo Cultural, nº 177, de 2/6/2004:
Literatura

>>> O receio de fisgar alguém submerso

Julio Daio Borges

"O homem escreve como quem grita./ A mulher escreve baixo, em prece" - são versos do novo livro de Fabrício Carpinejar, esse poeta de gênio que, além de tudo, é um "gentleman". (Se Nélson Rodrigues estivesse vivo o chamaria de -o mais inglês dos ingleses-, e talvez até Antonio Callado perdesse na comparação.) O fato é que, segundo Daniel Piza, um dos últimos críticos literários dessa nossa época, Cinco Marias (Bertrand Brasil) é o livro mais importante no gênero desde Muitas Vozes (José Olympio, 1999), de Ferreira Gullar. É uma passagem de cetro, visto que Gullar foi visitado por Oswald de Andrade na mocidade, um fã ilustre, e agora dá as mãos a Carpinejar, de pouco mais de 30 anos. Cinco Marias conta, em versos, a história de cinco mulheres que enlouquecem progressivamente, em torno da morte do patriarca e em torno de uma biblioteca. Registram seus pensamentos num diário em conjunto; diário este forjado por Carpinejar. "Depois que inventaram o inconsciente,/ a verdade fica sempre para depois". "Experimento tantas roupas/ antes de sair porque/ meu corpo não me serve". "Na infância, vive-se a medida natural./ Depois, o desequilíbrio./ Ou sobra ou falta amor". Mãe e filhas, todas Marias, se misturam nesse universo de feminilidade, ao qual pouquíssimos homens têm acesso. Carpinejar, o escolhido, acredita que uma mulher contém em si todas as idades: a menina, a moça, a mãe, a avó. Proclamou sua filosofia sábia, na noite de lançamento, em plena Livraria Cultura. "Quando ficamos surdos/ escutamos tudo, menos o silêncio". Cinco Marias é finalmente o Poema de Sete Faces de Fabrício Carpinejar. Se antes faltava alguma coisa, agora não falta nada. "Na maioridade, virei minoria./ Sacrifiquei a confiança das palavras".

>>> Cinco Marias - Fabrício Carpinejar - 123 págs. - Bertrand Brasil

9:10 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 02, 2004

UMA CASA ORGANIZADA É UMA CASA ABANDONADA
Gravura de Jean Cocteau

Fabrício Carpinejar



Teus olhos são duas crianças em desacordo. Eles brincam com que não aconteceu. Como se as pupilas tivessem tranças, entre o fogo e o mel. Nem preciso conhecer o que vem depois de tua boca, o vento se deita como um sobrenome. Teu rosto, não há como dobrar, não há esquina, ninguém atravessa uma praça impunemente. Toda letra é uma mancha de vela, uma gota de azeite, uma navalha de barbear na pedra, que apenas serve de bússola aos pássaros. Tenho que tomar cuidado ao cavar tua terra lenta, ao mexer nas lajes, ao perfurar espaço aos quadros. Há luz encanada a entornar, esquecimento a cobrir os móveis de lençóis brancos. Revirando o que esqueceste, encontro anéis das latas onde fingia alianças quando pequena. Estrelas pisoteadas por cavalos. A harpa de um vestido. A sola de uma moeda. Uma garrafa enrolada em corda para pescar frutas. Um sopro ofegante no isqueiro vencido. Queres que eu te entenda como te entendes. Queres a vaidade da compreensão mútua? Não existe como. Uma casa organizada é uma casa abandonada. Não se sepulta uma assinatura.

11:41 AM :: Comentários:

OFICINA DE POESIA

Estão abertas as inscrições para oficina de poesia, que vou conduzir no Centro Cultural Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223), em Porto Alegre. As aulas começam a partir de 12 de junho e ocorrem em dois sábados de cada mês até novembro. Há somente 15 vagas. A mensalidade custa R$ 30,00. Estudantes e sócios da Associação Gaúcha de Escritores pagam R$ 20,00. O CCEV ainda oferece oficinas de conto, com Cíntia Moscovich, de conto infantil, na visão de Marô Barbieri, e de crônica, ministrada por Valesca de Assis e Walter Galvani. Informações: (51) 32 28 97 10

10:55 AM :: Comentários:

O QUE SÃO OS ANOS?
Marianne Moore
Gravura de Jean Cocteau

Quem no sentimento espera
assim age. O próprio pássaro,
que ao cantar se engrandece, acera
o corpo aprumado. Embora cativo,
seu poderoso trino
diz: o contentamento é humilde;
quão puro é o regozijo.
Isto é mortalidade,
isto é eternidade.

(Tradução de José Antonio Arantes, Companhia das Letras)

10:52 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 01, 2004

PAREIPARAPENSAR

Fabrício Carpinejar

Recordar é perdoar. Insistir é perdoar. O fogo não faz sombra. Eu conversava com as árvores como se fala com gatos. O mesmo homem que sou não é o mesmo que sofreu. O vinho já nasce viúvo. Uma amiga me disse: "tu sabes o quanto eu admiro o teu trabalho e a tua maneira de ser, ou de não ser, sei lá eu... Esse teu jeito em linha reta não é pra qualquer um não.. A pessoa tem que se acostumar. A próxima vez que a gente se encontrar eu tomo um fôlego antes!" Meu primeiro amor foi a fonoaudióloga, aos 7 anos. Trocava o erre pelo l. Estava corrigindo minha fala até descobrir que ela era casada. Descobri que ela era casada no dia de seu aniversário. Fui arrumado, de gravata borboleta. O marido dela usava barba. Quis usar barba. Cortava meu cabelo com tesoura de unha e grudava com cola na cara. Meu pai confundiu aquilo com teatro, era tudo menos teatro. Larguei o consultório e as revistas da sala de espera. Não quis mais ir. Sou mesmo um exagero, não noto a franqueza, a linha reta. Minha honestidade é não saber o que sei. Eu acreditava que havia curvas na poesia, mas ela é direta. Ela bate onde há possibilidade de tambor. Cava onde há possibilidade de terra. Empilha a lenha para farpar a mão. Não espero, me desaforo de alegria.

9:49 AM :: Comentários:

ESCONDE-ESCONDE
Da série "A infância não atravessa a rua sozinha"
Gravura de Vidal

Fabrício Carpinejar



No pátio, quando os frutos salivavam pássaros, eu brincava de esconde-esconde como a astúcia de quem sobe em árvores. Contava até dez grudado no avental do abacateiro. O mundo parecia que seria descoberto naquela disparada. O meu irmão caçula se guardava como ninguém. Eu explorava os vãos das pedras, os corredores, os telhados, as parreiras, as moitas e nada. Não o achava e a mãe pedia para entrar: "é noite!" Deduzi que o apelo dela o faria deixar seu segredo. Ele era pequeno, com o dom de desaparecer e prender a respiração. Um crucifixo escondido na camisa das lajes. Um poço enamorado das raízes fundas. A conspiração áspera do veludo. Nem o nosso cachorro o farejava. A brincadeira que começava com a euforia logo se transformava em preocupação e medo. No final, eu já estava chorando. Gritava que não havia graça, que desistia, que a mãe estava preocupada. Até hoje meu irmão tem um silêncio demorado. Longo e generoso. Ele não sai fácil de si. Aprendi a perdê-lo no pátio, aprendi a desistir de minha inocência, que nunca se deu bem com respostas demoradas.

9:45 AM :: Comentários: