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Fabrício Carpinejar


 

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Sábado, Julho 31, 2004

1972-2004
Para Sônia Haas, minha amiga

Fabrício Carpinejar

Não é o João. Não é dele o osso, a terra do osso, a unha do osso, o cabelo silvestre, a poça do corpo. Não é o João. Ele, quem só vi de uma foto. Ele que não olhava de frente para a lente da máquina, tão distraído com os lados, com o desperdício dos lados, com o que ia sendo deixado de lado. Ele, que é mais o que não sei do que sei, ninguém o conhece inteiro, porque o que não sei é ainda maior do que posso; o amor é todo um esforço de exercitar o invisível. Como serão suas pálpebras abertas, o seu medo de escuro, seus passeios de araucária no mesmo lugar? Esse João não é dele, não é ele. Seu jeito de abraçar igualando os ombros, de rir com os olhos espremidos entre o tempo e o nada, como uma guitarra sendo dedilhada, como um guri que acreditava que iria rir de outro modo. João e seu queixo largo, seus dentes como chaves copiadas. João e sua cor de jarro dormido, vento enrolado, cobertor escuro. João e sua tempestade de uvas. Ele é um outro dentro do casaco, como uma árvore é sempre duas, no caroço e na casca, no pássaro e em sua falta de asas. Não é o João, então é ele, não tem nome como o João, anônimo como o pulmão de João, anônimo como os pés desabotoados de João, ferido de viver a ferida como o João. Não é o João que está na copa da faca, como uma folhagem mais antiga que a transparência, com as ferraduras desafiando a ferrugem, onde os moradores apontavam que teria sido. Teria sido é muito longe. João é o corredor da casa, a ligação entre os quartos. Não se denuncia a morte de João, se denuncia a vida. João, médico João dos filhos que não teve, meu João, não o João que é meu, o João da vida, que morreu vinte e três dias antes da minha vida. Morreu com a minha idade hoje, rodeando o poço com as patas de uma pomba, as migalhas de uma pata. Não é o João, João não deixou restos, não deixou sobras, não deixou nada que não fosse azeite alargando a chama. Como diferenciar a cinza da terra? A chuva da garoa? Me diz, João? João e seus 136 desaparecidos. João e sua criaturas duplicadas, derramadas, florescidas. João mais água do que neblina, quando a sede já era fome. Não é o João, só sei que não é o João. Araguaia, Xambioá, as vogais altas como um céu limpo, um rosto barbeado. João não mudou sua pronúncia, não deixou a eternidade fechar a boca. João foi ver quantos passos o relâmpago estava de sua face. João se criou cristalino, amadureceu sem armário, sem mala, sem voltar atrás. João que se dava como quem se abençoava. João sem o rebanho de papéis, sem carta alguma no bolso. João se levou a sério, levou sua ausência a sério. João não teve enterro, adeus, descaminho. João e a súbita maçã inacabada, mordida. João e o alfabeto em relevo de um retrato. Sua cabeleira como um país perdido. João foi buscar lenha na montanha. Já volta, minto, João nunca disse já volto. Nunca contou os dias, as semanas, as cicatrizes do tambor. Faz trinta e um anos, João, oito anos pensando que havia um corpo te esperando. Mas não é o João, João se escondeu para mais perto de si, não estaria completo abandonando as suas sombras. Não sai do seu esconderijo, ó João. Nem Deus sabe. João fugiu de seu corpo como um rio corta a mata. Um rio não se despede, João, vai serenando em pedras. Nem Deus sabe.

10:27 PM :: Comentários:

QUEIMANDO CALORIAS

"A grande decepção de minha vida foi não ter servido no exército. Descobri que não prestava para servir à pátria e nem para qualquer coisa - foi uma libertação."

"Falsifiquei meu passaporte com a cara de Woody Allen. Meu dedão é ainda mais exato do que minha foto."

Leia mais do meu mapa astral (lista de filmes, livros, taras e amenidades) no site Gordurama.

10:49 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 30, 2004

O INVERNO FALA LATIM
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA

Fabrício Carpinejar

Minha avó costurava sem olhar. Cortava o dedo e chupava o sangue antes do vestido sugar o vermelho de sua distração. Meus brinquedos foram desfalcando pernas e braços. A infância é uma guerra cheia de paz. Em algum lugar dos dentes, uma faca é afiada. Meu pai derramava todos os talheres em um lençol branco no sol. E laminava uma por uma das peças nas pedras redondas. Um acampamento de insetos e metal. Havia uma casa de madeira no fundo da casa como uma cabeça dividida do resto do corpo. Não se entrava ali - as pás estavam de pé, brabas da falta de terra. As portas que deixamos entreabertas falam como janelas. Eu dizia: "Uma ostra é uma máquina de escrever. A lua é um relógio parado". Nada funcionava pontualmente, acontecia cedo no futuro. Depois da morte, só não esquecerei da esperança. Um homem leva o tamanho do quarto no pescoço. Não sei rezar sem me ofender ou ofender Deus. Quando vejo laranjas no chão, tenho uma súbita vontade de pedir perdão. Deve ser a cor do fogo que redime as lembranças.

11:57 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 29, 2004

SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER

Fabrício Carpinejar

Não percebemos o que não falamos quando falamos. Um menino cego no trem estava acompanhado da mãe. Vestido como um escoteiro. Um lenço branco no bolso, com certeza, havia sido pivô de caprichos domésticos e embrulho de presente. A mãe dizia com insistência: "viu, o trem fechou, viu, o trem abriu, viu". Ele era obrigado a ver acenando a cabeça. Um outro cego caminhava pelo centro, alguém veio ajudá-lo a atravessar a rua, endireitou seus ombros para a calçada e orientou em tom de profecia: "segue reto toda a vida". Eu imagino o cego seguindo reto até hoje, caminhando dias e dias para não contrariar o conselho. Menos da metade da linguagem serve para entender, o resto é para sugerir e confundir. Não se sai pela porta da frente do idioma, sempre pelas janelas e pela porta de fundos. Fugimos na carona do primeiro duplo sentido que aparece. É uma maneira de enxergar o que falta acontecer. Assim como meus olhos são mais olhos quando nada possuem. Assim como as gavetas também ficam de luto. Assim como as amoras, quando tristes, são bem melhores. Assim como o ninho é um armário horizontal. Assim como o fogo é o esqueleto da espuma. A solidão me tornou indiscreto. Eu procuro um rosto macio, envelhecido de videiras, que me faça dormir uma vida. O homem se reduz para poder dormir. Ao se encolher, deixa espaço para a mulher que já existe em sua respiração.

10:36 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 28, 2004

SLOPE

Poemas do meu livro Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003) estão publicados no número 20 da revista norte-americana SLOPE. A breve antologia da poesia brasileira contemporânea foi organizada pelos escritores Mauro Faccioni Filho e Ademir Demarchi. Cyana Leahy fez a tradução de meus versos para a língua inglesa. Basta clicar em THIS ISSUE no alto da página principal e, depois, em BRASIL: POETRY TODAY no sumário.

11:49 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 27, 2004

DESISTIR

Fabrício Carpinejar

Quando descubro que a pessoa com quem vivi mais de quinze anos traía, mentia e zombava, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que o dente é uma dor de osso, não uma dor da pele, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que o filho não escuta, finge e faz o contrário do que se pedia, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que alguém tão próximo morreu e não falei nada, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que a realidade não é a mesma coisa que a vida e uma pode faltar e outra sobrar, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que o amor parou enquanto eu andava, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que tenho saudades mais do que não aconteceu do que aquilo que aconteceu, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que estou dispensado do emprego que julgava estável e definitivo, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que as tarefas, os compromissos, as reuniões me mantinham entretido porque não sei o que fazer sozinho, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que fiquei fora e não tive vida dentro, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que afastei todos que chegaram perto de meus segredos, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que sou o único da sala, de um tempo, de uma lista, a não ser convidado para a festa, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que os amigos trocaram de telefone há décadas e não sei para onde ir, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que deixei de puxar conversa e me alegrar longe do final de semana, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que meus pais não me amavam como queria e só amavam como podiam, que minha infância foi inventada para não sofrer com a verdade, que fui um filho do acidente, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que falam em minhas costas, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que não posso perdoar o que desconheço, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que saber demais é saber menos, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que perdi minhas pernas, um braço, que perdi a visão ou a audição, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que não sou igual nem aos outros muito menos ao que acreditei ser, penso que não vou sobreviver. Quando descubro que não acompanho meu raciocínio, que envelheci e não faço tudo sozinho, penso que não vou sobreviver. Mas a esperança é sempre mais teimosa do que eu. E justamente no final da desistência, um sol estranho, um cumprimento sem endereço, uma laranja úmida, uma foto desatenta, acredito que não é tarde e recomeço sem memória. Durmo e penso que foi um pesadelo, que exagerei, enlouqueci, que não tenho roupa para a tristeza, que fui duro e confundi a tolerância com a paciência. Saio debaixo do meu corpo. Tomo um banho mais longo na respiração. Provo o pão e o mel é sábio. Solto uma risada sem propósito, fico leve e caminho em telhas. Abro bem os olhos de cada palavra. Um dia antes de morrer, uma hora antes de morrer, alguns minutos antes de morrer e ainda não será tarde. E sobrevivo apesar de mim, depois de mim, antes de mim, em mim.

10:05 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 25, 2004

SÓTÃO DA ESCRITA
Da série DIÁRIOS DE UMA VIAGEM POR VOLTA DA BOCA

Fabrício Carpinejar

Não puxei os olhos de minha mãe, nem o nariz. Puxei os ouvidos. Ir ao começo das coisas já é chegar ao fundo. Amêndoa poderia ser somente uma palavra que ainda teria gosto. A árvore faz contas debaixo da casca. Eu me reclino ao mar com dois travesseiros de vento. A mão sem anel é mais lenta. Vim bem antes da bagagem. Não tenho força para chamar meu grito de volta. Se o rio escutasse, ele não retornava. A casa em que se dorme fica acordada no sangue. Abro um livro como quem descobre um sótão. Eu me iniciei em telhados. A uva que não virou vinho é uma amiga infiel. Não me obedeço. Os braços são lâmpadas sem paredes. As pedras deveriam dizer tudo o que pensam para as sombras. Quando quero morrer, me tranco no quarto do apelido e não atendo pelo nome. Minha memória se acostumou a se imaginar nas falhas. O mel é o imã das formigas. Escrever é um excesso imperdoável que nasce da falta.

12:01 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 23, 2004

IRMÃOS...

Fabrício Carpinejar

Sabe aquelas histórias de reencontros inacreditáveis, de pai apartado de filho, de irmãos se falando depois de décadas, de famílias separadas? Aconteceu comigo. Estava lendo o jornal Zero Hora na sexta (22/7), na seção Contracapa, e de repente salta aos olhos: Clarice, filha do imortal Carlos Nejar, também faz poesia. Nunca a vi, muito menos sabia que a irmã escrevia poesia. Não é uma loucura, aves sem asas, um romance com capítulos perdidos? Há dois irmãos do lado paterno que viveram em Porto Alegre, na mesma cidade onde fui criado, em realidades e casas paralelas. Como estranhos no mundo e familiares no cartório. E dói de algum jeito pensar que já posso ter cruzado com eles sem ao menos receber um aviso, uma menção, uma advertência bíblica. E se Clarice, em alguma vez, esteve em uma sessão de autógrafos de meus livros e eu assinei somente Clarice, impessoal e seco? De repente, hei de cumprimentá-los casualmente numa rua, sem lógica ou peso do passado. Um amor desmemoriado. Não faço idéia dos rostos, tipos, idades, expressões, desejos, profissões, inquietudes deles, é tanta coisa que até a imaginação ficaria cansada de hipóteses. Além da Clarice, existe o Frederico, ambos mais novos do que eu. Meus irmãos Rodrigo e Carla foram os únicos que os visitaram. Mas a mãe deles não teria apreciado o enlace e entusiasmado o convívio. Esse bloqueio evitou a naturalidade dos laços. Mas tudo são versões agravadas pelo medo. Irmão é conversa, apoio, pedir os ombros dos olhos. Eu e o mano caçula Miguel não conseguimos contato com os filhos que meu pai teve durante sua separação de minha mãe. Isolamento no sangue. Faz vinte anos que o pulso tenta encontrar uma fresta e subir para a boca. Talvez tenha chegado o momento. Não conheço o que de mim está neles e o que deles está em mim.

UM RIO ANDANDO ESCORADO NA ESCADA

Fabrício Carpinejar

Entre o escritor e a vida,
há uma diferença.
A vida nos escreve
e não joga os rascunho fora.
Publica tudo.

10:41 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 22, 2004

Revista Vida Simples, edição 19, agosto de 2004
Seção "Tudo Simples"

De olhos abertos
Por Leandro Sarmatz

"O cotidiano é um modo de acordar", escreve Carpinejar em seu livro de poesias. Encharcado pelas coisas mais singelas, suas lentes capturam as menores coisas da vida. Seus versos falam de tudo, sem pretensão, e tentam compreender o mistério que é estar de olhos abertos no mundo. Mesmo a morte parece domada pela busca incessante do poeta pelo caminho menos pedrogoso e por uma apreciação generosa de tudo o que nos cerca. Um dos mais comentados poetas brasileiros contemporâneos, Carpinejar evoca uma infância marcada pela presença feminina e por momentos grandiosos (e íntimos) como o crescimento, o sentido de pertencer a alguém e a algum lugar. "Em casa, Deus era feminino", anota o poeta. E, nesse verso, todo um mundo pretérito continua a pulsar com sua vida impura e bela.

Cinco Marias
Carpinejar
Bertrand Brasil
128 páginas, 19 reais

10:42 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 21, 2004

EM OBRAS

Leia reportagem de José Castello no NO MÍNIMO e sua investigação sobre o ritual da criação de seis autores.

Reportagem
Silêncio: escritores trabalhando
Comprimida entre as pressões do cotidiano e a necessidade de sobrevivência, a literatura parece, às vezes, uma tarefa impossível, mesmo para autores como Luiz Ruffato, Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Fabrício Carpinejar, Nelson de Oliveira e Joca Terron.

2:21 PM :: Comentários:

NÃO QUERO

Fabrício Carpinejar

Não quero estar certo, não quero ter razão, não quero ter opinião para qualquer coisa, não quero. Não quero falar sério, não quero a verdade, não quero. Não quero dizer se é tarde ou cedo, se é novo ou velho, se é bom ou ruim, não quero me proteger, não quero. Não quero ser correto, ser um pai exemplar, um filho exemplar, um marido exemplar, não quero exemplos. Não quero chegar na hora certa, na honra errada, não quero impressionar, não quero morrer uma única vez, não quero. Não quero ter um endereço, um guarda-chuva, um testamento, não quero. Não quero me salvar, me converter, me ajuizar de modos, não quero. Não quero palavras inteiras, quero apontar com o dedo, não quero concordar rápido, não quero. Não quero contar o número de janelas, o número de portas, o número de vizinhos, não quero. Não quero me repetir para me confirmar, decidir para me poupar, quero baldear as estradas mais remotas, encontrar pouca coisa que não há como lembrar. Não quero falar o que se espera, esperar o que não existe, não quero. Não quero usar talheres pequenos e grandes, cálices pequenos e grandes, pratos pequenos e grandes, não quero. Não quero acusar, dar um preço, dar um parecer, dar uma sentença, não quero. Não quero a demora sem manchas, o sol sem videiras, arrendar uma carta, não quero. Não quero um livro se não sentir frio nos pés, não quero uma música se não aquecer as mãos, não quero um amor se não me distrair para o que não queria, não quero. Não quero a fama da modéstia, uma rua sem becos, uma casa sem fundos, não quero. Não quero uma chuva sem pensar em dilúvio, não quero um conhecimento que perca a simplicidade, não quero uma oração que não seja úmida, não quero. Não quero passar a porta sem metal, passar o orvalho sem as unhas, passar o ouvido de uma cidade sem ao menos escutar um sino, não quero. Não quero conversar com os mortos em um copo vazio, os mortos merecem mais respeito, não quero ter cuidado com os lábios, ajeitar o cabelo para as despedidas, não chorar em público, não quero. Não quero ser comedido, contido, tolhido, não quero. Quero ser combatido, me combater como uma doença sem cura. Não quero separar as chaves, as amizades, as obras, não quero. Não quero silenciar sem silêncio, quero uma ruga para achar meu rosto, quero amar antes da missa, quero ver a pedra dentro da escada, a escada dentro da árvore, um barco a seco. Quero amarrar uma corda no lugar do cinto, amassar o verão da grama, andar de cadarço desamarrado, olhar perdoando por não olhar meus olhos perdoando. Não quero uma notícia para ser real, garantias, fiador, caução, não quero. Não quero a imponência, a importância, a indiferença, não quero. Quero percorrer uma escola em pleno recreio para despertar a voz mais abafada, quero regressar lento para onde não nasci, predestinar a dor a uma alegria. Não quero confirmar milagres, continuar sem parar, acreditar sem desistir, não quero. Às vezes, só não quero existir tanto.

10:33 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 20, 2004

COMPRO E VENDO SINÔNIMOS

Fabrício Carpinejar

Linguagem é para despistar e confundir ou não haveria tantos sinônimos procurando emprego. Eu trocava o erre pelo elê, suspirava rápido para não ser identificado, corria na contramão respiratória, como um disco brincando em outra rotação. Mastigava errado certas palavras, obrigando-me a caçar desesperadamente sinônimos para me salvar da pronúncia torta, desavisada e truncada. Meu vocabulário foi a necessidade de me esconder, não a escolha de me mostrar. A gente, na verdade, fala para não dizer o que pensa. Entre a fala e o pensar, tem-se tempo suficiente para inventar uma mentira. A infância do idioma antecipa o que iremos fazer depois. Eu serei o que não percebi. Há remédios que não posso comprar até hoje. No sufoco, peço qualquer similar ou genérico. Como sei que vou errar, erro de qualquer jeito. Um exemplo é "cataflan". O som ferruginoso do efê com elê desmaia o céu da boca e solto um erre intruso, sem necessidade. Juro que me esforço como um estrangeiro aprendendo o português e não adianta. Minha filha espera que um dia possa dizer "arara" e ela já tem dez anos de paciência. "Rosebud" de Cidadão Kane será, em meu caso, "arara". É uma palavra muito suave para minha pressa. No zoológico, eu via arara e apontava para minha pequena: "olha o papagaio!". Acho que só ajudei minha a filha a confundir as penas. Na época, preferia parecer burro do que língua presa. A ingenuidade nunca termina em inocência.

Dinheiro não é todo igual, é diferente dependendo da urgência. E quando falta é mais dinheiro do que o dinheiro. Se eu falo "pilas" estou querendo falar que é menos do que "paus" que é menos do que "mangos" que é menos do que "grana". "Pilas" é usado para diminuir o valor e avisar que é barato. "Paus" funciona como uma dicção neutra, seca, quando acontece do negócio não ter nenhuma vantagem e desvantagem. "Mangos" exalta um tom de denúncia e desfavorecimento. Um atestado de pirataria ao comprador. Grana dá uma idéia de recepção, não de compra. Eu digo grana quando vou receber uma bolada e não terei que pagar. Grana é prêmio, verba inesperada, surpresa. Quem usa cruzeiros, apenas quer dizer sua idade. Real passa a ser apenas verbalizado no banco, onde o salário é menor do que a esperança de um dicionário.

11:54 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 19, 2004

O MENINO MORTO QUE VIROU ÁGUA

COLUNA CARPE DIEM

Fabrício Carpinejar

Não quero a perfeição, mas a plenitude. Não deixarei cabelos para crescer com a morte. Quando pequeno, jurava que o vento vinha de dentro da casa. A gente tinha as venezianas do lado interno e o vidro do lado de fora. Abríamos as janelas para o vento sair como um cão que necessita mijar no parque. Hora e não vez, eu levava o vento na coleira. Ele parava somente para encrespar seu cheiro. Bastava sentar e acabava em árvore. Árvore é um homem pensando. Pássaro é um homem desejando. Rio é um homem se retirando para envelhecer em paz. A cerração enlouquecia a luz. A luz ficou cega de repente e andou durante muito tempo sem roupa pelas ruas. A luz tinha seios caídos. Seus seios estiveram em minhas mãos. As mãos são boca apressada. Eu suguei muito escuro para ser visto. Escrever é mentir acompanhado. Minto em Deus, o que me torna uma verdade pressentida. Não se ganhava bicicleta ou roupa, se herdava dos irmãos mais velhos. Vestia o suor dos outros. Nada era novo. O guarda-roupa guardava mesmo a roupa. Usava roupas usadas. Meu irmão me convidou para andar na garupa de sua bicicleta vermelha. Eu levei seu caminhão monociclo pela lomba. Os freios moravam nos pedais. Meu irmão dirigia sem os braços, inclinando o corpo. Eu fui. Fechei os olhos, como se estivesse beijando o sopro. Meu irmão diz que gritou: pula. Não ouvi o gesto do som. Abri os olhos e ninguém mais dirigia a bicicleta. Eu ia sozinho no banco de trás. Eu na canoa sem remo. Eu do tamanho de uma canoa. Explodi em pilhas de tijolos. Sangrei o invisível. Minha vizinha não teve compaixão e riu com os olhos. Sua risada cobriu de mercúrio todo o meu corpo. Meu nariz foi um acidente. Ele enforcou-se na curva dos olhos. Furava as calças e a camisa, a mãe de pronto bordava um remendo de couro no local. Vivia preparado para festa junina. Havia mais curativo do que botão. O muro narra a história das frutas. Ele já foi enobrecido pelo limo. Depois perdeu os dentes de leite e ganhou cacos de vidro onde as crianças caminhavam. Em seguida, recebeu grades de ferro para espantar mau olhado. Hoje ele tem dez parágrafos de cela. Minha liberdade é espiar quem não entra. Quando a casa de candomblé termina seus rituais, a igreja quadrangular começa sua cantoria. Deus se emenda. Não tem pausa. É o que as pessoas acreditam dele, mais sua ausência. Só uma ausência perfeita é capaz de aparecer em qualquer lugar. Somos ausências imperfeitas, lembranças que nunca se contentam com migalhas e voam de acordo com sua fome e pousam com medo de chegar tarde. O encontro é o medo de chegar tarde. Se bem que morro de medo de chegar antes. Odeio esperar alguém. Parece que não tinha nada a fazer de importante. Quando estou disposto a pontualidades, exerço voltas na quadra e me adio. Não corro riscos de estar presente em mim. O amor que dá certo sempre dá errado, porque a memória se torna maior do que o corpo. Reverenciava o poço de meu quintal. Respeito o que não entendo. Um menino tinha morrido ali. Não precisou cavar sua cova, entrou na primeira que apareceu. Engasgou a garganta do pátio. Uns têm alta, outros vão direto ao alto. Eu tomei muita sede do menino morto. O menino morto virou vida potável. Minha irmã brincava de bonecas, eu brincava de menino morto. Ele me emprestava sua manta sobrenatural. Ovelhas cumpriam lã para diminuir sua saudade. Já fui casa abandonada, hoje sou abandono de casa. Me chamaram de homem não no momento em que o rosto enrugou em barba. Ou quando me alistei para não servir. Aconteceu ao ser chamado no corredor do nome a pegar a galinha ruiva para a ceia. Tentei agarrá-la mas ela voou até o telhado. A galinha se fez telha, preenchendo as goteiras. A galinha se transformou em balde sem alça. Um bule voador. As calhas acumularam chuvas com a ninhada de ovos. Os canos estouraram. Daí surgiu a expressão pinto molhado. Não parar na hora certa também é hora certa. Tudo o que não enxergo é relâmpago.

(Rascunho, edição de julho/2004)

9:48 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 18, 2004

VARAL DE LETRAS RECEBE RODRIGO GARCIA LOPES
Poeta paranaense participa de debate na Livraria Cultura e lança seu novo livro Nômada (Lamparina) na segunda

Varal de Letras, série de debates mensais com entrada franca da Livraria Cultura, conta com um convidado especial na edição de julho: o poeta, jornalista, tradutor e compositor paranaense Rodrigo Garcia Lopes. Com o tema Poesia em composição, o evento apresentado pelo escritor gaúcho Fabrício Carpinejar assinala o lançamento do livro "Nômada" (Lamparina, 176 páginas, R$ 39,00), nova obra de Garcia Lopes, em Porto Alegre. O recital, conversa com o autor e sessão de autógrafos acontecem nesta segunda (19/7), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre.

Doutor em Letras com tese sobre a poética da norte-americana Laura Riding e com mestrado em Humanidades sobre William Burroughs pela Arizona State University (EUA), Rodrigo Garcia Lopes tem quatro livros de poemas: "Solarium" (1994), "Visibilia" (1997), "Polivox" (2001) e "Poemas Selecionados" (2001). Já traduziu Arthur Rimbaud e Sylvia Plath, ambos em parceria com Maurício Arruda Mendonça. Atua como um dos editores da revista de literatura Coyote. Lançou, em 1997, o livro de entrevistas "Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje" (Iluminuras), reunindo 19 depoimentos de importantes artistas como John Cage e Allen Ginsberg.

O lançamento Nômada traz versos de forte plasticidade que discutem temas da época contemporânea, marcada pela incerteza, transitoriedade e turbulência. Figura presente em antologias como "Esses Poetas", "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século" e "Na Virada do Século", Rodrigo Garcia Lopes explora o poema como improvisos de jazz, formando textos espontâneos que misturam os sentidos e procuram reproduzir a autenticidade da vivência. Acredita viver "em estado permanente de linguagem". É um escritor das viagens, do deserto, das estradas baldias e das incertezas. Disposto em cinco seções, o livro realiza um diálogo com os principais movimentos literários e vanguardas como a poesia beat e a language poetry.

5:14 PM :: Comentários:


Sábado, Julho 17, 2004

NADA ACONTECE, TUDO É POSSÍVEL

Fabrício Carpinejar

O vaso gira pelo pátio. Brinca de si mesmo. Sem flor ou terra, gira. Zune manso, como uma clareira da chuva. Seu monólogo é elegante, duas voltas e meia antes de se repetir. Até Deus se repete para não se esquecer. O vaso passa uma tranqüilidade de consoante, não a pressa das vogais. Traça rotas pelo prazer do barulho, melodia de pata riscando a asa. É afilhado daquela caneca de fogo que usávamos para tomar banho. A caneca servia para nos aquecer na saída corajosa da água. Só olhar o fogo diminuía o frio. Ela nem fazia muita diferença. Uma lareira miniatura, que consumia o álcool mais do que a sujeira. Aprendi a escrever com a neblina. Desenhava letras na cerração das janelas. O frio tem letras de vidro. Um dia o que eu escrevi vira vitral. Pulo frutas para roubar muros. Os pássaros se secam quando levam susto. Ao cantar, a ave também está migrando. A terra bem que tenta segurar o horizonte. Sempre nos momentos em que nada acontece tudo é possível.

2:13 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 16, 2004

IMPREVISÍVEL

Fabrício Carpinejar

Comete bobagens. Não penses demais porque o pensamento já mudou quando se faz. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Comete bobagens. Disputa uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca, para que o teu futuro do passado não seja ressentimento. Demite o guarda-chuva, desafia a timidez, conversa mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho no rio. Mexe as chaves no bolso para despertar uma porta. Comete bobagens. Não compres manual para criar os filhos, para prender a ereção, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não sê sério, a seriedade é duvidosa, sê alegre, a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesses o corpo na faixa de segurança. Grita ao vizinho que não suporta mais não ser incomodado. Usa roupas com alguma lembrança. Usa a memória das roupas mais do que as roupas. Desiste da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procura falar o que não vem na cabeça, falar uma música ainda sem letra. Deixa varrer seus pés, casa sem namorar, namora sem casar. Sê imprudente porque quando se anda em linha reta não há histórias para contar. Leva uma árvore para passear. Chora nos filmes babacas, dorme nos filmes sérios. Não esperes as segundas intenções para chegar nas primeiras intenções. Não digas eu sei, eu sei, quando nem se ouviu direito. Almoça sozinho para sentir saudades do que não foi servido em tua vida. Liga ao amigo sem motivo, lê o livro sem procurar coerência, ama sem pedir contrato, esquece de ser o que os outros esperam para ser os outros em ti. Transforma o sapato em um barco, põe na água com tua foto dentro. Não arrumes a casa na segunda. Não sofras com o fim do domingo. Alterna a respiração com um beijo. Volta tarde. Dispensa o casaco para se gripar. Solta palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complica o que é muito simples. Conta uma piada sem rir antes. Não chores para chantagear. Comete bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que tuas lembranças não sejam o que faltou dizer. É preferível a coragem da mentira do que a covardia da verdade.

12:15 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 15, 2004

MEU PÉ ESQUERDO
Fabrício Carpinejar

Não reclamo quando acordo com o pé esquerdo. Tem dias que a gente precisa chutar mesmo com a canhota para enganar o goleiro. Assim somos obrigados a treinar as duas pernas. Até o acaso deve ser exercitado para dar certo. Quando piá, empurrava sem parar a bola com o pé trocado no muro para não me acostumar a sair por um único lado na hora do drible. O que não queremos pode ser melhor do que planejamos. O azar pode ser sorte porque desconhecemos o que aconteceria de outro modo. Um engano pode virar amizade, um esbarrão resultar em encontro.

3:28 PM :: Comentários:

SEÇÃO RECOMENDO
Gazeta do Sul, caderno Ensaio!, 30 de junho de 2004, Santa Cruz do Sul (RS)

Por Fabrício Carpinejar, poeta, autor de "Cinco Marias" (Bertrand Brasil, 2004) e "Caixa de sapatos" (Companhia das Letras, 2003), entre outros

LONGE DA ÁGUA, Michel Laub, Romance, Companhia das Letras, 2004, 115 páginas

Longe da água é o terceiro livro do gaúcho Michel Laub. Só posso dizer que fiquei encantado. O autor não precisa provar transgressão, maneirismo, fazer teste de DNA ou pacto de sangue para participar com brilho da nova geração da literatura brasileira. Escreve com uma discrição que é rara, uma discrição de quem aposta na visibilidade da história e nada mais, com a leveza de quem não carrega malas e vaidade para dentro da ficção. Conta a vida, sem se prender a distúrbios do narcisismo. Uma discrição que é maioridade, maturidade, equilíbrio sonoro. Oferece a história de uma amizade entre dois adolescentes violentamente interrompida com a morte de um deles afogado durante a prática de surfe no litoral gaúcho. O amigo está junto quando o rapaz fica preso em uma rede de pesca e se sente responsável pela perda. O livro começa com um flashback: o narrador em São Paulo, casado justamente com a namorada do amigo morto, passa a recordar detalhes daquele estranho e decisivo veraneio. Não há como não se identificar com a narrativa (até porque vivi verões nesse cenário praiano e não mudaria uma vírgula do que li): a descrição qualificada e úmida, poetizando no momento certo, fazendo do adjetivo um verbo, possibilitando-me provar a hostilidade dos morangos ou enxergar as ruas de pé-de-moleque do litoral do Rio Grande do Sul.

METADE DA ARTE, Marcos Siscar, Poesia, 7 Letras/Cosac & Naif, coleção Ás de colete, 2003, 175 páginas

Eu procuro um livro de poesia para não usar relógio. Posso chegar atrasado em meus compromissos, mas nunca na linguagem. Metade da Arte, do paulista Marcos Siscar, com sua produção de 1991 a 2002, traz a ciência do acaso. São versos ambulantes que seguem fluxos aleatórios de consciência, arroubos, instantâneos. A sensação é que o autor anda com um gravador na rua, captando diálogos sem seqüência, trechos de conversas fora de seu contexto. Está sempre atento ao que ninguém enxerga, aos velhos esfarrapados na rua ou a uma "criança esquecida no colo como um pacote" no ônibus. Trata-se de um olhar incisivo, para mergulhar no rio acompanhado do medo. Há um fragmento comovente: "a dor não é somente a véspera". Livro sem consolo, de alegria difícil. Psicanálise caseira, que percebe pequenas urgências como a de um beijo antes de viajar. Livro para se percorrer devagar, tal domingo que não termina na segunda, cheio de lacunas, de silêncios, de cortes, de delicados esquecimentos. "há coisas de sobra que não se dizem/ há coisas que sobram no que se diz".

11:54 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 14, 2004

TEMA DE CASA

Fabrício Carpinejar

Perdoe-me, mas não tenho nenhuma raiva dos piolhos. Havia uma ternura imprevista na limpeza. A mãe colocava o avental em cada um dos filhos. Enchia de álcool os cabelos e massageava com lentidão as trilhas. Arte distraída. As unhas varriam as folhas do chão e armazenavam na esquina. Ela não ralhava, não desaforava, cumpria o tamanho do bosque sem horários para voltar. Foi um passeio na nuca, alegre sem ter sido fumo, alegre sem a interrogação do lume, alegre pelas mãos que não censuravam o contágio da rua. Dormia vaidoso com os cabelos, respirando a tinta úmida do mimeógrafo.

9:57 AM :: Comentários:

NO TREM

Fabrício Carpinejar

Ele ficou estranho, em dúvida entre as lixeiras de material orgânico, lata e papel. Estação deserta, de madrugada, cinco horas e alguma coisa. Ele dava um passo e engatava outro, como se não houvesse passarela para atravessar o próprio sangue. Olhava a legenda de material seletivo e não se decidia. O trem já sinalizava chegar. Apressado, levantou os bolsos, fez de conta que iria tirar um papel e mijou longamente em uma das cestas. Escolheu a de lata. Não deixa de ter sentido.

9:54 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 13, 2004

NOVE ANOS
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA

Fabrício Carpinejar

No refeitório, os colegas batiam os pratos azuis na mesa, chamando a comida para a briga. Lembro dos pratos marchando em fila e os garfos fazendo continência. O lanche do recreio era a refeição mais importante do dia de muitas crianças. Ninguém estranhava comer sopa de feijão ou massa com legumes às 9h30. Os guris gritavam, devoravam rápido sem distanciar por um minuto sequer a comida dos lábios. A caneca do suco ou do leite vivia esburacada de beiços. Eu nem sentia o sabor do líquido, mas unicamente do plástico. Plástico queimado. Aquela manhã reunia 200 crianças de uniforme. Eu terminei sendo o mais lento. Fiquei por último, sem encontrar muito finalidade para a gororoba de abacate. Eu tossia quando ficava nervoso. Não tinha fome muito menos sede. Sempre fui um camelo com medo de parar. Isolado em meu canto, com o único objetivo de não ser reparado. É estranho, quando tentava me esconder, terminava sendo extremamente visto. Assim acontecia quando sentava no fundo da sala, escondido atrás das costas de algum colega. Dito e feito, o professor logo me farejava e me chamava ao quadro negro. Pressentindo meu pavor, uma turma mais velha se aproximou de mim e começou a provocar, favorecida pela ausência dos professores. Me chamava de "guriazinha". Se eu respondesse iria apanhar. Se não respondesse, apanharia igual. Retruquei, mal mostrando os dentes, com a língua presa, falando para dentro que guriazinha era a calcinha que eles usavam. Pensei que havia apenas pensado. Mas fui puxado com violência, rasgaram minha camisa como se fosse pano de prato. O maior, um pivete que passou a maior parte de sua infância e adolescência na 5ª série, tirou um canivete do bolso e se aproximou de minha garganta. Eu já tremia mais do que o suportável na minha idade. Estávamos no segundo andar da escola pública. Ele abriu a janela e me segurou pelas pernas. Fiquei de cabeça virada, prestes a cair, girando como um ioiô. Percebi o kichute resistindo por um fio, amarrado nas canelas. Alguém gritou no corredor, eles se assustaram. Daí tonto, enjoado, encontrei uma finalidade para o abacate. E fui metendo a boca para cima deles.

2:56 PM :: Comentários:

POETA ABDUZIDO

Participo como convidado especial de sarau na quinta (15/7), às 20h, na Usina do Gasômetro (Porto Alegre), com entrada franca. Serei "abduzido" e apresentado pelo grupo PoETs (Alexandre Brito, Ronald Augusto e Ricardo Silvestrin).

1:39 PM :: Comentários:

RIO GRANDE DO SUL, 10º CENTÍGRADOS

Fabrício Carpinejar

O magrão Luís Augusto Fischer, professor de Literatura da UFRGS, conhecido colaborador da Bravo!, Zero Hora, ABC Domingo e Folha de SPaulo, se diz um palpiteiro. Fala sem grandes pretensões e ambições. Conversa grandes temas como quem fila um chimarrão. Não franze o rosto ou prepara o assombro com uma voz cavernosa. Não dá muita expectativa com seu jeito calado, até que a gente percebe que suas palavras têm mais do que o sentido de ilustrar a vida, mas de oferecer um significado e fazer pensar essa vida sem sentido. Apresenta um estilo de jogar invisível de Paulo Roberto Falcão, nunca olha para a bola, mas para seus companheiros de time. Ele está lançando um novo livro de crônicas De ponta com o vento norte (Artes e Ofícios, 141 páginas) nesta quarta (14/7), às 19h, na Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre. O título já delimita que é um livro que sai pronto para a entrevista. Vento norte é uma rajada quente, esquisita, que, segundo mitologia sul-riograndense, atrapalha o juízo e provoca ímpetos assassinos. Além de expor um espírito desordenador, a obra faz referência ao título do primeiro longa-metragem produzido e filmado no Rio Grande do Sul. Fischer procura o desequilíbrio e afirma que está escrevendo dentro de uma atmosfera de recolhimento e inverno, a partir de um olhar virtuosamente desfocado e fora do padrão dominante, do sul do sul do país. Realiza o equivalente a memórias de um canhoto. Seu método é a "atenção vadia", meditar o que não é objeto de análise, vadiar reflexões a partir de despropósitos. Teoriza as situações mais banais desde a entrega de volantes no trânsito até o porte atlético de Ronaldinho, comparando o craque com os sertanejos de Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor não toma elevador da cultura popular para a acadêmica. Sobe pelas escadas. Não sei como, porém mistura o que antes parecia incomparável. Evoca lembranças de guri, explica manhas da língua portuguesa e do porto-alegrês e analisa programas de tevê, encontrando, por exemplo, no apresentador Ratinho aquele "primo ou tio da gente" que diz as piores verdades e as mais deliciosas mentiras num almoço em família. Tudo acontece sob a ótica do espectador, do outro lado do balcão. Uma de suas taras é ponderar sobre a cultura produzida no Rio Grande do Sul e o temperamento sulino, feito de expressões peculiares e que exigem tradução simultânea como "fazer rancho", "comer negrinho", "lagartear ao sol" e se "encorujar". "Pessoalmente, estou longe de pensar em termos de determinismo total. Mas não me afasto da idéia de que a geografia é mais ou menos como horóscopo ou cor dos olhos - uma espécie de destino, que cabe administrar da melhor maneira. O inverno ilustra perfeitamente o caso: como pensar em recolhimento, um livro diante dos olhos, o corpo aquecido, um fogo amigo perfumando o cenário, a não ser abaixo de 10º centígrados? Por isso mesmo é que um vizinho nosso, o portenho Jorge Luis Borges (o melhor intelectual e escritor do Rio Grande do Sul, na minha escala pessoal e ligeiramente transfronteiriça), disse que com o frio se sentia civilizado, com direito à vida inteligente. E disse mais, numa comparação que as mulheres jamais entenderão: que o frio lhe trazia uma agradável sensação física, parecida com a de estar recém-barbeado."

De ponta com o vento norte é tomado de polêmicas e de atuais e necessários anacronismos. Autor de Contra o esquecimento e Para fazer a diferença, Fischer rumina a hipótese de que São Paulo é obcecado pelo novo, pela vanguarda e moderno, desconsiderando seu passado, enquanto os gaúchos fazem o inverso: fogem do novo para mergulhar na história. Na coletânea, testemunhos leves - e nada passageiros - que guardam ao mesmo tempo o ímpeto da corrida curta das crônicas e o fôlego para volta dos ensaios. Textos para desalojar o osso das idéias e destroncar os costumes.

10:24 AM :: Comentários:

O CORPO E SUA LOUCURA
Foto de Renata Stoduto e texto de Fabrício Carpinejar

Cartas e correspondências entre escritores e artistas atraem bem mais do que a curiosidade de biógrafos. Despertam em qualquer leitor a vontade súbita de lavar roupas sujas, de conhecer o interior da casa, de saber o que aconteceu acima do que o tempo marcou, filtrou e definiu. Cartas ainda funcionam como o acesso ilimitado a uma história informal, proibida. Uma forma de espiar pela fechadura, humanizar a figura pública, perceber a intimidade de bilhetes e desabafos a um amigo, sem o escudo da posteridade. Ler cartas dos outros é como receber uma confidência certa por engano. O escritor francês Artaud talvez tenha representado esse dilema epistolar. Aos 27 anos, ele mandou seus poemas para uma revista. Seus versos foram recusados pelo editor Jacques Rivière. Descontente, Artaud tentou explicar o que pretendia dizer. Seguiu-se uma troca pontual de correspondência até que o editor decide publicar as cartas que explicavam os versos não publicáveis. Não deixa de ser uma ironia: a defesa da poesia se tornava melhor do que a poesia.

Decididas a abrir a gaveta em vida, sem pensar no nome como vaidade, as pensadoras Márcia Tiburi (foto ao lado) e Ivete Keil estão lançando sua troca de e-mails durante nove meses. Nada de testamento, homenagens frias. Discutem o corpo em longas cartas, abordando esse "território louco" que nem sempre é obediente ao pensamento ou ao destino. Diálogo sobre o corpo (Escritos, 188 páginas) será autografado nesta terça (13/7), às 19h30, antecedido de debate, na Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre. O caráter da obra é transformar um veículo efêmero em investigação psicológica. Elas não ficam falando de bolo, receitas e namorados. Colocam na roda assunto pesados e sérios que não convém ler nas refeições.

Ivete é antropóloga, com doutorado em Sorbonne (Paris). Tiburi é artista plástica, professora da Unisinos e escritora, doutora em Filosofia pela UFRGS. Vem chamando atenção pelas suas teorias inusitadas e sensíveis sobre a tristeza. Defende a democratização do amor e da amizade. "Democracia não é só política. Democracia é conflito e envolve as relações da vida privada", adverte. Entre suas observações, acredita que a rua, que era para ser sinônimo solar de espaço aberto, assumiu um caráter repressor de campo de concentração. Crianças sem família, mendigos e loucos, quem está fragilizado e sem valia social dorme na rua. A rua, contraditoriamente, se converteu em uma espécie de prisão.

10:18 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 12, 2004

VASO DE GERÂNIOS
Gravura de Pablo Picasso

Fabrício Carpinejar

Sair da linha ainda é costurar. Quando pensamos que acabou, recém está começando. Minha avó viveu toda sua vida deixando a chave de sua casa debaixo do vaso de gerânios. Não duvido que - mesmo ela não estando mais aqui e com novos proprietários em sua residência - a chave permaneça lá. Deve ter virado caule do azul, a serrinha germinado em pétalas, o chaveiro convertido em porão de raízes.

Não me lembro de nenhuma fase de minha vida que não tenha sido conturbada. Não me lembro de nenhuma frase de minha vida que não tenha sido conturbada. Nunca dei sorte para quietudes. Minha mansidão é um surto que passa. Eu me investigo com violência, sem dó nem piedade, exagero comigo e fico até com remorso. Me duvido como quem está mentindo para si. Vive-se para não ser vulnerável, mas é a vulnerabilidade que me mantém atento ao diferente. A intensidade pode errar a força do abraço, não erra a intenção. Às vezes, damos sinais de nossa mudança interna, seja mudando o cabelo, seja de casa, seja de temperamento. É feito de tudo um pouco para ser reparado. De repente, a menina falante fica quieta, o cara arrogante aparece humilde. Mas há mudanças que guardamos para as leituras. Como segredos. Se forem contados, não serão mais importantes. Há mudanças que as aparências não denunciam. Mudanças tão sutis que somente as sobrancelhas são capazes de segurar. Mudanças que ninguém vai notar, muito menos a gente que está vivendo elas. Mudanças que acontecem por um estalar estranho de uma palavra, por algo que se enxerga na distração, por algo que se ama sem a boca. Mudanças pequenas como a chave no vaso de gerânios, regada silenciosamente como parede, apesar de continuar sendo uma porta.

11:26 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 11, 2004

QUE CIVILIZAÇÃO É ESSA, COM TRÊS FARMÁCIAS EM CADA RUA?

Fabrício Carpinejar



Mariela não tinha letra de médico, e sim voz de enfermeira. Durante seus trinta e cinco anos, não colocou nenhuma caixa de remédio no lixo. Guardava todas as embalagens. Não era hipocondríaca, se dizia prevenida. Fez uma biblioteca de remédios, catalogando as bulas e dividindo as seções pela cor das tarjas. Não ficava doente em excesso, muito menos se antecipava ou reclamava de dores. Buscava tratamento apenas quando realmente necessário, para curar dor de garganta, infecção ou asma. Ela começou sua mania na garagem, mas não encontrava mais a saída ao carro e aceitou jogar para dentro o que não jogava fora. Evitou amores ou cachorros, até mesmo mansos gatos, para não se distrair de suas obrigações. Era curvilínea, como se houvesse um elástico nos ossos, girando o tronco com uma agilidade sobrenatural nas estantes. Podia ser comparada a uma laranja-lima, sem dar a certeza do que vinha a ser laranja ou o limão. Decifrava minuciosamente o corpo miúdo dos efeitos colaterais, tanto que colecionava uma porção de lupas para aumentar a caligrafia do erro. Procurava o que o papel escondia das pessoas mais do que aquilo que mostrava. "Eu dei o melhor dos outros", me confessou por telefone. Desdenhava das farmácias, espécie de livrarias dos remédios, apesar de freqüentá-las. Queria transformar sua história de doenças em doença da história. Permanecia horas diante das cordas das caixinhas, a encontrar um som diferente, um pulso desafinado. Vivia a reger a orquestra de sintomas. Só que sua memória passou a ser maior do que sua vontade de lembrar. Desapareceu lentamente sem que ninguém percebesse. Adoeceu sem adoecer. Entre copos de água e colheres, não entendia como precisou engolir inúmeros comprimidos mesmo estando longe de morrer. Multiplicou quantos remédios tomou e chegou a conclusão de que a soma ultrapassava até o seu vocabulário. Era tarde para aprender a esquecer. Ter consciência do que se vive é loucura.

10:51 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 10, 2004

Jornal Zero Hora, caderno Cultura, 10/07/04

Literatura
UMA OBRA EXEMPLAR, DE UMA CLARIDADE MARÍTIMA
A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, vencedora dos prêmios Camões e Rainha Sofia, reconhecida como a grande dama da poesia portuguesa, morreu no último dia 2, aos 84 anos. Deixa mais de 40 livros de prosa e poesia, uma obra notável, ainda por ser descoberta pelos leitores brasileiros

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Jornalista e poeta, autor de Cinco Marias e Caixa de Sapatos, entre outros livros

Gravura de Arpad Szenes (desenho de Sophia)

Há autores tão intensos que deveriam ser enterrados no mar. Como a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, que faleceu aos 84 anos no último dia 2. Seu obituário não é o da terra, da enxada e do chão, mas da lonjura e das ondas, do baile áspero e inesperado nas pedras. Seu verso tornava o corpo mais salgado. Quando a pele de sua escritura recebia o espasmo de um lábio, oferecia toda a sua sede como recompensa. A autora de 40 volumes de poesia e prosa, premiada com distinções máximas como o luso-brasileiro Camões (1999) e o espanhol Rainha Sofia (2003), é uma legenda em Portugal e, por incrível que pareça, permanece inédita no Brasil.

Seu nome aristocrático e longo contrastava com os versos curtos, incisivos, flutuantes. Estava completando 60 anos de lírica, desde seu primeiro livro surgido em 1944, quando tinha 24 anos, sob o título genérico de Poesia. O último legado que deixou foi a encadernação leve e hipnótica de O Búzio de Cós (1988). Sophia arrebatava (seduzir era pouco). João Cabral de Melo Neto (de pia batismal que não perdia de extensão para ela) dedicou-lhe um poema em A Educação pela Pedra (1965), que dá a exata dimensão de sua importância: "Sofia vai de ida e de volta (a usina); / ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima, / e usando apenas (sem turbinas, vácuos) / algarves de sol e mar por serpentinas. / Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal, / em cristais (os dela, de luz marinha)."

Uma de suas diferenças é que não fazia uma poesia derramada, confessional, declaradamente feminina. Continha o gesto. "Passam os carros e fazem tremer a casa." O timbre sóbrio e clássico de quem muito se calou antes de falar. Misturava a serenidade com a abstração, a metafísica com a adoração do mar. "A luz me liga ao mar como a meu rosto. / Nem a linha das águas me divide."

Só seguia a lei do desejo. Emergia mistérios e dúvidas, interrogava como sua forma de afirmar. Empregava somente as palavras que havia conquistado. Vocabulário simples, límpido e preciso, sem academicismo, com idéias transparentes e organizadas.

Sua atualidade é antigüidade, fascínio órfico, igualdade entre deuses e homens, como em gravuras da Grécia Antiga. Tem a nobreza da permanência. Contornou seu país, metaforicamente, pela linha litoral. Contrariando os filósofos, banhou-se mais de duas vezes na mesma água. Encontrou e cuidou de Deus na orla como quem lava a ossada de uma baleia. Enxergou o longo braço do mar, com "as ilhas na mão". Não tecia uma poesia de exploração marítima, de aventura, mas de espera, fincada no senso de observação incomum, farol brumoso que sinaliza os caminhos para a frota. Preferia ficar diante das janelas do que das portas. Não partia desesperada para fora do corpo, se repartia. Ficou para narrar e não esquecer de quem viajou para trazer os lugares de sua imaginação para perto de seus olhos. Utilizou seu fôlego épico ao enraizamento. "Tudo em mim se cala para escutar o chão de teu regresso."

O futuro consistia numa espécie de surpresa do passado. Sua crença não era resignação, entretanto, alegre paciência de entender o ritmo de cada idade. Sabedoria de compreender e ouvir o sonho em cada pessoa. Ampliava os versos de Homero, em Odisséia: "antes ser na terra escrevo de um escravo do que ser no outro mundo rei de todas as sombras".

Mandei para o largo o barco atrás
do vento]
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra
o vento]
Mas não houve terror nem sofrimento
Que a praia não trouxesse,
Morto o vento.

Suas descobertas são puras, maravilhamentos miúdos entre o visível e o invisível, tal esse medo de ser informada de que o vento voltaria morto das águas. Reconhece no vento seu próprio marido, reservando a si o pudor da notícia e da futura viuvez. Sophia media os passos, diferenciava o que podia ser visto de jeito uniforme pela pressa. Um exemplo: "o sol é pesado e a luz leve". A simplicidade arejava a respiração. Cada necessidade resplandecia em seu lugar.

Em O Cristo Cigano, traça um perfil das pessoas sensíveis, "não capazes de matar galinhas porém capazes de comer galinhas". Ele termina o texto com um pedido ferozmente manso, dizendo as verdades sem levantar o tom da voz: "perdoai-lhes Senhor / Porque elas sabem o que fazem". Sophia respeitava o avesso, o impacto do repuxo, desarrumando frases e destinos prontos. Nada podia ser somente a aparência. Ensina que o amor separa mais do que o ódio. "Separados fomos por cítaras e canto / Como outros por prisões ou por espadas."

Literatura, de acordo com sua visão, era uma consciência mais funda do que a inteligência, uma fidelidade mais pura do que poderia controlar. Os versos apenas repercutiriam os dias densos, tensos. Escrever significava louvor e protesto, o rigor de não deixar nada para depois. "A poesia não me pede propriamente uma especialização, pois a sua arte é a arte do ser", conceituava em Arte Poética II.

A escritora perseguia a si, com elegância do se manter unida até o fim, de não dispersar as palavras para longe de seu domínio. Enquanto a maioria dos escritores tenta se multiplicar e se dividir para evitar a repetição, Sophia se pacificava em uma lealdade inalterável a sua origem. Tinha a cosmovisão de uma Cecília Meireles e a feitiçaria metafórica de Clarice Lispector. Já era em vida tão grande quanto Jorge de Sena, que não deixou de lhe fazer uma pergunta, um tanto estarrecido: "como quem pode matar-te?"

Ninguém pode matar o que não viveu para morrer. Sophia vivia seu merecimento. Ela costumava dizer que sua lembrança mais longínqua era a de um quarto refletido de azul, onde uma maçã enorme repousava na mesa. Não conheceu desertos, bastaram as dunas. Preservou essa imensidão marítima na casa a ponto de elaborar a inscrição: "Quando eu morrer voltarei para buscar/ Os instantes que não vivi junto do mar".

Seu poema buscava a perfeição anônima, o cântico solar. O verdadeiro poema luta contra o autor, ansiando pelo anonimato. O autor que se considera maior do que seu poema está fadado ao autoritarismo e à displicência. Amar é disciplina. O poema não pode ser totalitário, ele só se faz na doação, depois da escrita, no leitor.

Resistindo ao excesso verbal, Sophia abdicava do que não comovia. Educada para as pausas mais do que para música. Favorecia os mitos mais do que as histórias. Ela poetiza para fundar o silêncio, não aboli-lo. Não se prende a uma caligrafia, e sim ultrapassa a letra em nome da memória visual. "Deixa-me limpo / O ar dos quartos / E liso / O branco das paredes. // Deixa-me as coisas / Fundadas no silêncio." Fala para contentar a mudez. A mudez das coisas apetecidas e saciadas. Nela, o poema talvez seja a responsabilidade de viver, o máximo que se pode chegar da liberdade.


Saiba mais

Porque (1985)

Porque os outros se mascaram mas
tu não]
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos
caiados]
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se
vendem]
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas
tu não.]

Porque os outros vão à sombra
dos abrigos]
E tu vais de mãos dadas com os
perigos.]
Porque os outros calculam mas tu não.

7:19 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 09, 2004

VIDA A DOIS OU DOIS EM UM
Gravura de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



Vida de casado é vida de solteiro. Vida de solteiro é vida de casado. Como uma mosca insistente rondando o pescoço - ela não incomoda tanto pelo barulho no ouvido, mas por aquilo que os outros vão pensar da gente. Nunca estamos satisfeitos com a vida. Os casados sentem falta dos amigos, das noites em claro, da disponibilidade para surpresas, dos desavisos. São nostálgicos. Os solteiros sentem falta de uma conversa a dois, de viagens, de um confidente, da segurança, de não quebrar a cabeça para resolver a sexta-feira. São ansiosos. O casado não suporta fazer relatórios de onde vai e quando volta. O solteiro não suporta não ter alguém para contar o que anda fazendo. O casado reclama da comodidade. O solteiro xinga a instabilidade. O casado destrata a rotina. O solteiro deseja a rotina. O casado se dá bem somente com os amigos casados. Jantar com casais é obrigatório, como também é obrigatório falar mal dos casais depois do café para aliviar a barra em casa. O solteiro só se dá bem com os amigos solteiros, segrega os casais para não segurar vela. O casado não sabe mentir, está longe de seus álibis. O solteiro mente porque não tem tantas verdades para se confundir. O casado quer aventuras. O solteiro está cansado de aventuras. O casado passa a procurar os defeitos de sua companhia. O solteiro procura somente as virtudes. O casado fala mal de seu par em público. O solteiro fala mal de si. O casado recebe todo conselho como uma ameaça do fim. O solteiro acolhe as confidências como uma saída do fim. O casado pensa que morreu cedo demais. O solteiro pensa que viverá tarde demais. O casado demora mais tempo para sair. O solteiro demora mais tempo para voltar. O casado trata o romance como um filho não planejado. O solteiro enxerga o romance para planejar filhos. O casado toca na aliança como um corrimão. O solteiro perde os dedos na prosa. O casado disfarça ao encontrar antigos amores. O solteiro faz festa para o desespero de quem está casado. O casado tem um olhar severo de cão de guarda. O solteiro tem o olhar desconfiado de gato no muro. O casado vai a um restaurante para comer. O solteiro vai a um restaurante para ouvir. O casado quer voltar para a sua família. O solteiro quer fugir de sua família. O casado atende o telefonema como se fosse um promotor. O solteiro atende o telefone como se fosse um advogado. O casado sofre para ficar com a última palavra. O solteiro sofre para superar a primeira. O casado se despede com um beijo. O solteiro acena para não se despedir. O casado é um solteiro egoísta. O solteiro é um casado generoso.

10:51 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 07, 2004

FAZ-DE-CONTA
Da série DIÁRIOS DE UMA VIAGEM POR VOLTA DA BOCA
Gravura Klimt

Fabrício Carpinejar

Estender o colar na mulher é acalmar uma cidade em seu pescoço. Fazer lento o gesto para não lascar a labareda. Ser discreto como uma ausência que se duvida. Contornar as costas de leve, deixar as contas descerem ao declive da encosta, água em sua forma mais tranqüila. Vidro alumiado. Cercear como um violino, sem ameaçar como o vinho. Nada pode ser mais fiel. Quando se arde, o nevoeiro já é a noite.

11:04 AM :: Comentários:

PASSA-PASSARÁ
Da série DIÁRIOS DE UMA VIAGEM POR VOLTA DA BOCA
Gravura Klimt

Fabrício Carpinejar



Não há pressa para a esperança. O rio estica sua árvore a secar. Cisco a mata das roupas, colhendo cipós e amontoando a lã pelos cantos. Separo os cabelos emprestados, formigas nadando no açúcar. Deixo a gola lisa, raspo o que não é fio em fila. Giro os botões como alguma maçaneta travada. Penso em meu irmão menor, na sua alegria até os dez anos. Desenhava, ria e corria como uma escada entre um telhado e outro. Depois se calou, entristeceu, ficou sério. Terminou adulto antes da infância. Um dia a infância volta para devolver o que não foi usado. Os objetos também têm memória. Eles nascem depois de acabados. Um sapato, quando velho, é realmente um sapato, sem calos, sem o cinto das meias, moldados para a preguiça. O dia hoje oferece um sol de aquarela. Vou dormir de novo para me fazer difícil para a luz.

11:02 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 06, 2004

NA LINHA

A loucura exige
disciplina
para não ser vista.

Por que me chamas
se estás completo?
A morte apara os excessos.

(Carpinejar)

Esse poema de Um terno de pássaros ao sul (Escrituras, 2000) foi selecionado pelo escritor Sérgio Fantini (autor de Coleta Seletiva) para o site Matriz, na seção Patiangas.

2:46 PM :: Comentários:

DIÁRIOS DE UMA VIAGEM POR VOLTA DA BOCA
Nova série
Gravura de Ben Nicholson

Fabrício Carpinejar



ANTES NUNCA DO QUE TARDE
Não me desespero quando não recebo as respostas das perguntas que não fiz. Nem sempre estou preparado para escutá-las. A gente pergunta todo tempo mesmo sem usar as palavras. Tenho receio de gastar a linguagem e não sobrar para depois. Já disse verdades para pessoas erradas. Já disse erros para pessoas verdadeiras. Embaralhei tempos. Queimei etapas. Um diálogo que deveria ter sido travado agora já havia feito décadas antes no momento que não sentia. Quantas vezes me declarei sem pesar cada uma das expressões? A palavra é tão sedutora, que podemos empregá-la mesmo sem necessidade. Não ter necessidade é desperdiçar a própria força do que podemos dizer em seguida, com urgência. Eu cuido das palavras como quem sopra a comida. Não pode esfriar demais, nem adoecer o céu azulado dos lábios.

TRISTEZA TEM FIM
Há antidepressivos que apenas pioram. Se fica mais viciado no remédio do que na cura. Costumo me utilizar como antidepressivo. É só pensar sem pensar. Flutuar nas lembranças como se não fossem minhas.

SINAIS DE FUMAÇA
Os acessos de comunicação com os mortos eram mais fáceis, mais diretos. Hoje apenas recebemos informações falsas, boatos. Interditaram os caminhos da fala entre os mundos.

DESORDEIRO
O desequilíbrio tem uma ordem, pede a ordem. O equilíbrio tem uma desordem, pede a desordem. Estou mais calmo quando desequilibrado. O desejo lava a louça quebrando a louça.

9:54 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 04, 2004

UM HOMEM NÃO PODE ENGANAR
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Um homem não pode enganar sua fome, mesmo que o corpo seja osso de pássaro. Um homem não pode enganar sua falta de fé, mesmo que tenha um pente no bolso e uma bíblia na gaveta. Um homem não pode enganar sua palavra, mesmo que não sinta receio de mentir. Um homem não pode enganar o mar, mesmo que não tenha espuma. Um homem não pode enganar sua casa, árvore que não vira de costas. Um homem não pode ocultar sua solidão, mesmo que enxergue melhor sem ela. Um homem não pode enganar seu amor, mesmo que finja que ele não sabe. Um homem não pode enganar seu medo, mesmo com unhas para diminuir os dentes. Um homem não pode enganar seus filhos, mesmo que seu pai não seja recente. Um homem não pode enganar sua alegria, mesmo que o tremor venha das veias. Um homem não pode enganar o que não nasceu, mesmo que a morte seja sua conselheira. Um homem não pode enganar uma máquina de costura, que conta todos os segredos para o relógio. Um homem não pode enganar o vento, mesmo o confundindo com os cabelos de sua mulher. Um homem não pode enganar a altura das janelas, mesmo que embale gaiolas nas grades. Um homem não pode enganar os ombros das rugas, mesmo que a velhice chegue tarde. Um homem não pode enganar a vida, mesmo que a eternidade seja dispensável. Um homem não pode enganar os perigos, mesmo que calcule a ameaça. Um homem não pode enganar o perdão, mesmo que peça desculpas. Um homem não pode enganar o desejo, mesmo que recue as mãos. Um homem não pode enganar Deus, mesmo que só o conheça de silêncios. Um homem não pode enganar sua letra, mesmo que mude os quadros de lugar. Um homem não pode enganar o nome, mesmo que os apelidos sejam atalhos. Um homem não pode enganar o rio, mesmo que não pise nas pedras. Um homem não pode enganar a chuva, mesmo que as formigas denunciem caravanas. Um homem não pode enganar a pobreza do rosto, mesmo que ela não seja completa. Um homem não pode enganar a virtude, mesmo que a encontre em seus defeitos. Um homem não pode enganar a alegria, mesmo com a respiração curta. Um homem não pode enganar seu sono, mesmo que permaneça enterrado de pé. Um homem não pode enganar sua mãe, mais fácil enganar a si mesmo. Um homem não pode enganar a dor, mesmo com a chantagem e tristezas. Um homem não pode enganar seu tempo, porque o tempo o divide. Um homem não pode enganar suas promessas, mesmo que mude de profissão. Um homem não pode enganar, até milagres existem nos desenganos.

10:53 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 03, 2004

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura, Porto Alegre (RS), 3/7/04:

Literatura

LA DENSER ESTÁ DE VOLTA (porque nunca saiu de si mesma)

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Jornalista e poeta, autor de Cinco Marias, Caixa de Sapatos e Biografia de uma Árvore, entre outros livros

Dançar para as paredes, vestir muito preto, com os traços realçados em batom escuro, emendar as noites em bares. Falar o que se deseja, desejar o que se fala. Cenários kitsch, excessivos. Os anos 80 foram isso mais Márcia Denser, que comandou uma nova desordem na literatura brasileira. Conhecida como a musa dark, ela sacudiu a mesmice com os contos de O Tango Fantasma (1977) e Diana Caçadora (1986). Críticos ranzinzas como Paulo Francis se prostraram a sua prosa despudorada: "Márcia Denser se situa entre os raros criadores da linguagem, aqueles que têm algo novo a dizer. Quanto aos outros, resta-lhes a rabeira da história". Uma legião em seguida confessou os pecados da admiração: Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão e o conservador Wilson Martins.

Se Marcelo Mirisola provoca polêmica hoje, não se tem idéia de quanto Denser significou em seu tempo. Diante dela, o cubano Pedro Juan Gutiérrez (Trilogia Suja de Havana), cultuado pelo seu hedonismo, não saiu do primeiro grau. Junto do gaúcho Caio Fernando Abreu, Márcia Denser redefiniu a noite, a boemia paulista e o êxtase de correr riscos. Época onde "tudo era válido", com direito a arrepios, desde que abolidos os arrependimentos.

Diana Caçadora e Tango Fantasma estão sendo relançados em um único volume pela Ateliê Editorial, na coleção LêProsa (300 páginas, R$ 35). Não dá para rotulá-la em trincheira feminina e feminista, reduzir seu espaço. Denser derrete o ouro das alianças e dos costumes e os transforma em matéria quente, borbulhante, cotidiana, para ser sorvida em um só gole como sopa Campbell. Tanto que suas protagonistas, em sua maioria, são solteiras, mais velhas, independentes e autônomas.

As tramas aparecem recheadas de festas, despedidas, táxis, motéis, trepadas, desencontros, foras. Suas mulheres ultrapassam o próprio sexo enquanto os homem morrem nele. Examinam o corpo como uma máquina de sentidos, ou melhor, como uma máquina para procurar sentido. Cadelas quando amam e lobas quando odeiam. "Gosto daquilo que posso pegar e pego o que posso". Articulam um olhar escrito, escrevem quando abrem a boca.

A escritura é obsessiva fala, puramente visual, decupada na hora da verdade. Transam com propriedade, sabendo que a "paixão não tem memória". Transam pensando demais. Alcançam com seus homens somente o pensamento múltiplo. Não representam a mulher fatal ou a mulher romanticamente fatalista. Puxam da bolsa referências a filmes e livros para misturar ao martini. Intelectualizam a experiência em ironia erótica. Ao mesmo tempo cômica e sensível, sacrílega e fervorosa, a autora extrapola a imobilidade da angústia com o desejo.

As frases curtas dentro de períodos longos resultam em uma cadência hipnótica, melodiosa e sublime. O que impressiona em seus contos não é o enredo sofisticado ou o impacto do final, mas a habilidade de situar os personagens com duas ou três frases. Em Diana Caçadora, descreve com humor poético um jovem bêbado dormindo: "a cara atônita, amassada de Klaus, parecendo um pedaço carbonizado de casca de árvore na brancura de areia dos lençóis. A boca entreaberta não ousava protestar, articular nenhum som, com aquele ar de bagre estúpido".

Desprovida de indulgência e culpa, suas figuras expressam opiniões com liberdade sarcástica: "Era muito feia e funcionária pública lotada no Rio Grande do Norte e boêmia e o que lhe restava senão ser lésbica? - pensei incomodada com meu próprio preconceito".

Os recursos sensoriais são utilizados para fornecer uma materialidade física. Toca-se o som, a cara de quem se apresenta. É até possível duvidar que a escritora exista, porém é impossível duvidar da carnalidade de seus personagens. Márcia Denser é obscenamente talentosa, voa alto na linguagem e suporta as piores quedas e ressacas. Como Hilda Hilst, suas histórias terminam melhores do que a realidade.

La Denser, como se autoproclama, está de volta porque nunca saiu de si mesma. Não precisa. Mora onde sempre esteve, na melhor ficção (dois de seus textos foram incluídos na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, de Italo Moriconi). É escritora para se visitar com freqüência. Viver com desmesura é sua única arrogância.

Entrevista: Márcia Denser, escritora

Na entrevista a seguir, concedida ao poeta Fabrício Carpinejar, Márcia Denser comenta as transformações da cena literária do país, dos anos 70 aos 2000. E provoca: "Você nem imagina de quanta inveja é capaz o mundo. Inúmeras são suas formas"

Cultura - Diana Marini, protagonista de Diana Caçadora, é vista como seu alter ego. Até que ponto ela representa sua vida? Não é um reducionismo crítico transformar a autora em personagem?
Márcia Denser- Naturalmente que Diana Marini c'est moi, mas um "eu pleno", um "eu realizado", como este meu pobre "eu", falho e limitado à sua circunstância, não pode almejar. Seria exceder à "justa medida", e ao homem não cabe aspirar o divino. Porque Diana Marini tem essa qualidade inefável do arquétipo, de um "daimon" coletivo, uma divindade ambiguamente andrógina como toda divindade, encarnada numa mulher que se permite tudo, todos os prazeres físicos e intelectuais. Bom, aí sempre falta a emoção, mas já seria pedir muito, posto que as emoções, os sentimentos, as tristezas, dores e alegrias sempre sobraram pra mim, o ser humano de carne e osso, e nesse caso, eu sinto muito. Sem trocadilhos (risos). Explico: os homens observam Diana Marini como o outro lado de um armistício, certo? Mas acontece que uma criatura tão auto-suficiente, poderosa e maravilhosa pode prescindir de todos eles, não é? E como, infelizmente, os homens tendem a identificar Diana comigo, sobrou tudo pra mim, right, baby?

Cultura - Vinte anos separam a estréia das obras de seu relançamento. Houve cortes, depuração, mudanças ao longo desse período? Esse hiato de tempo foi proposital ou não houve interesse editorial? Pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, que a caracterizava como "a única escritora que sabe escrever"? Houve muita inveja?
Márcia - Ah, Fabrício, você nem imagina de quanta inveja é capaz o mundo, e inúmeras são suas formas. Bom, vamos por partes. Entre 1990 e 1997, precisamente e segundo pesquisas, a literatura brasileira sofreu um ocultamento terrível, simultânea à ascensão e consolidação do êxito de Paulo Coelho, de cujas obras ninguém fala, por que será? Foi uma espécie de idade das trevas em miniatura, um poço escuro de Coca-Cola, ou seja, havia, pós-90, uma conjuntura totalmente adversa à uma literatura nacional. As razões? A turma aí do Fórum Social conhece todas. Foram 10 anos terríveis. A maré não esteve para peixe para nenhum de nós, donde que enfiamos a viola no saco. De modo que eu, meio livre de Diana Marini e do maldito sortilégio de ser confundida com minha personagem, tive tempo para redescobrir o amor e ser amada, anonimamente, verdadeiramente. Foi um tempo ruim para a escritora e ótimo para a Márcia ser humano. Na retomada de 2000, mui lampeiramente ressurgi, como todo mundo, tanto os pares de minha geração, Loyola, Ivan Ângelo, Deonísio da Silva, Silvio Fiorani, Roniwalter, Vilela, Pellegrini, Scliar, Sonia Coutinho, como a turma de 90, Mirisola, Nelsinho de Oliveira, Bera Ajzenberg, Marcelino Freire, Luiz Ruffato. Quanto ao Francis, ninguém pensou que o que ele apreciava em mim foi também (entre outras coisas mais importantes, claro) algo que se assemelhava ao seu estilo e postura de cronista de seu tempo: a arrogância, a metralhadora giratória, o espezinhar de decálogos. Realmente, somos muito parecidos. E essa auto-suficiência e arrogância nos valeram muitos inimigos, sobretudo nesse momento em que o país anda com a auto-estima baixíssima, e quando tudo se nivela por baixo, banaliza-se ("banalidade" também posa de "falsa modéstia"). Dou um exemplo recente: a apresentação do meu último livro Toda Prosa (Nova Alexandria, 2002) escrita por mim sofreu várias críticas. Engraçado é que quem gostou foram precisamente os escritores de maior talento da geração 90, como Mirisola, Nelsinho de Oliveira e Ruffato.

Cultura - Seu nome volta à evidência encampado pela nova geração de prosadores. Como analisa a literatura brasileira contemporânea? Um trecho de seu livro diz: "Ainda somos muito jovens e essas fumaças literárias talvez se diluam na posteridade". A fumaça continua subindo, desmentindo sua profecia?
Márcia - As gerações de 70 a 2000 têm tudo a ver. Sinto, por exemplo, que o Mirisola, que considero uma espécie de sucessor, retoma - e numa pauta das mais sacrílegas - essa linguagem onde se entremescla a prosa de raiz poética e a prosa antiliterária, que é uma espécie de marca registrada. É dificílimo escrever nesse fio da navalha, entre o sublime e o ridículo. Também lembro a definição genial do Affonso Romano de Santana (genial porque ele a formulou em 1975, cerca de 30 anos atrás): "uma lixeratura que é feita com sucata de cultura".

Cultura - Caio Fernando Abreu foi um de seus grandes amigos e companheiros de geração. Ambos tiveram uma importância central em fixar a atmosfera literária de São Paulo. Como se deu essa convivência?
Márcia - Como escritores: era uma relação de profunda identidade, de profunda cumplicidade, a ponto de um saber o que o outro estava pensando, o que, às vezes, é uma merda... Entre 1987 e 1991, éramos vizinhos, ele, na Haddock Lobo, eu, na Melo Alves, ele, com a crônica no Caderno 2, eu, na Folha da Tarde; em 1988/1989, escrevemos simultaneamente romances, ele, Dulce Veiga, eu, A Ponte das Estrelas, ambos gastamos duas resmas de papel num processo criativo extremamente semelhante; Caio era um escritor mais intuitivo, eu sou mais técnica, assim, como harmonia e contraponto, havia um entendimento sem fronteiras de sexo, nacionalidade ou religião. E pensávamos que o futuro fosse possível, para nós, para o Brasil. Foi? Em que sentido?

Cultura - Minha percepção é de que você assiste a esse espetáculo literário de vaidades, veleidades e suspeitas com uma risada sádica de quem já o viu e conhece o final. Estou errado?
Márcia - Absolutamente certo. Mas exclua o riso sádico e o substitua por um meio sorriso secreto a oscilar entre a ironia e a resignação filosófica: afinal se a experiência é intransmissível, o tempo também não passa em vão. Explico: em meados de 70, a editora Ática lançou no mercado 75 novos escritores. Onde estão hoje, passados 30 anos? Quem ficou do chamado "boom literário dos anos 70"? E como sem tradição, a renovação não faz sentido, fica a pergunta ao leitor.

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Sexta-feira, Julho 02, 2004

POESIA É MAL-EDUCADA
NÃO PRECISA DE LICENÇA POÉTICA


Fabrício Carpinejar

Esse texto é uma cama revirada, como meus olhos antes de dormir. Não é cama lisa de hotel ou cama engomada para visita. É uma cama já usada, já batida, amarfanhada com a desobediência do corpo. Mais vingança do que capricho. Morte sem médico, sem padre, sem benção de relógio, sem migalha de galo. Cama como um poema habitado, sem margens para centralizar o mar ou o beijo. Sem margens para dizer onde começa o que foi vivido ou pensado. Uma cama furtada do descanso que há no movimento. Os cabelos ficam mais verdes com o vento. O joelho está mais escuro e úmido. As ancas foram alargadas em janela, depois em porta. Toda a forma que destruí incorporada em mim, emprestada, usada, suada. Decerto não vou achar as meias, o cinto, o joelho no escuro da luz. As roupas boiando no tecido como palavras desistidas. Decerto algo não se acordou para a poesia. Dizer tantas vezes para esquecer. Cama suja, inundada de cheiro, imunda como a vida, dobrada sem dobra, com os vincos delicados que a mão passa pelo rosto sem notar. Cama de quem nasceu apressado, acumulando espantos, e ainda não teve paciência para voltar a si mesmo.

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Quinta-feira, Julho 01, 2004

"EU TAMBÉM"

Fabrício Carpinejar



Estou escrevendo aqui enquanto penso na mulher no trem que colocava os óculos para tossir. Não entendia os motivos de seus curiosos movimentos em alçar o par de garrafas para sua gripe. Os óculos são algemas dos olhos. Cão que nos faz ver o que na verdade não precisamos enxergar. Mas eu queria dizer outra coisa, que vivemos em tempos tão lacônicos que respondemos quase tudo com "eu também". É assim: "Eu te amo", que logo é completado com "Eu também", alguém diz que gosta de "comida japonesa" replica-se "eu também". "Eu também" não é uma afirmação, e sim uma fuga, uma incerteza educada, que cabe em qualquer contexto e não diz nada, não incrimina ninguém, não confessa ou se expressa. "Eu também" não significa "eu te amo", não significa "eu gosto de comida japonesa", significa um sim de quem não está escutando, um "é verdade" de quem pensa em outras urgências. Em situações de trabalho, quando todos se divertem em ouvir tuas conversas telefônicas, é claro que falar "eu também" é uma forma de se salvar da comédia de afirmar a sentença "eu te amo", onde todos vão rir e cair em tua cabeça. Mas será que não estamos exagerando e deixando os amores entre lacunas, com medo de se comprometer? A falta de palavras não deixa de ser uma palavra.

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