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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Agosto 31, 2004

A POESIA ANTI-HORÁRIO DE CONTADOR BORGES
Em "O Reino da Pele", o autor paulista apresenta versos cifrados e enigmáticos, em declarada resistência ao fácil

Fabrício Carpinejar*

Augusto Contador Borges é um poeta da imagem pura, do salto, um ser da linguagem. Não se vale do pensamento para se explicar. Não é um autor da visão, mas da alucinação. Deforma o mundo lentamente para formar o seu próprio mundo. É de uma linhagem selvagem, indômita, surreal, que perturba e não reforça certezas, evocando a "seqüência de brumas" do francês René Char (Contador traduziu Nu perdido e outros poemas) e as raízes negras e as poções de terror do português Herberto Helder. Ratifica a crença desse último, da criação como força magnética das palavras e da literatura como luta contra a servidão da metáfora.

O Reino da Pele (Iluminuras, 78 páginas, 2003) é um livro de gravuras orais, metáforas soltas, onde o corpo é concebido como um músculo ora da alegria, ora da dor, mas sempre intolerável e mutante. O corpo não se define. Não se nomeia. O ensaísta e tradutor Contador Borges, em seu segundo volume de poemas depois de Angelolatria (1997), penetra na impossibilidade do descanso. Suas descrições irrompem uma sobre às outras, em um mostruário de observações sensuais e tênues. Ao falar da nudez, diz: "acendê-la é tocar num vespeiro de estrelas". Não é permitido ficar parado e tentar captar a intensidade do conjunto. O detalhe, o pormenor, é o que interessa. "Só estamos no escuro/ no começo da pele." A poesia aqui é oleosa, escapa lentamente da significação, propiciando um jogo de adivinhação e de festa imaginativa. Ele não fala pelas coisas, deixa as coisas falarem. O título do livro reforça o reino da pele, mas é o olho o personagem central. A pele do olho, o que não se enxerga. Atua em anamorfose, ciência do olhar invertido. As pálpebras se movem como asas, batendo rápidas. Representam a floração da chama, onde "o suor se atreve a falar pela pele". "Quando se morre/ o estômago/ é a primeira parte/ que se dissolve/ mas e os olhos?/ sei que se fecham/ e sob as pálpebras/ (relaxadas)/ se dilatam/ mas as imagens/ de que são feitos/ as palavras/ também não voltam/ ao lugar/ de onde vieram". Toda poesia exige um retorno, voltar à idéia inicial, ao que estava dito, como um gancho no leitor. Ao contrário, Contador não está interessado em formular idéias, parte sem retornar, sem olhar para trás. "Partir é ferir." Prefere mudar do que recuar. Não diria que há um ato de nudez, de despimento, na obra, e sim de dissipação e aniquilamento, neutralizando a morte e o tempo. Não existe fundo escuro para perceber a dinâmica das mudanças. É a palavra clara contra o fundo claro. "Lavar os olhos/ na luz aguda." Percebe-se um intenso grau de insubordinação, de instabilidade, explorando as possibilidades da realidade além da realidade. Convite para desconhecer, para apagar a intimidade da superfície. Seu principal mecanismo é transpor as diferenças, tornar o corpo, identidade máxima de cada um, em um território anônimo. O escritor favorece a voracidade da brasa, colabora para a expansão em fogo. Arde e não esclarece os rastros. "A pele quer exuberância: um clarão de vinho para o íntimo." Parte da idéia de que a vida consumida permanece sendo vida.

A poética simbólica de Contador Borges corre no sentido anti-horário, avessa à fixação das lembranças, comprazendo-se na gordura da luz, do vazio, do nada. Poesia difícil, cifrada e enigmática, em declarada resistência ao fácil e aos caprichos pedagógicos.

Dividido em O Reino da Pele, Anamorfoses e Sombras e ruínas, a última seção é a menos inspirada, mais problemática pelas redundâncias como "sob a chuva das intempéries". O que fluía naturalmente assume um caráter técnico de manifesto: "O poema tem cílios perfeitos. Mas o tempo da atuação já passou" ou "o desamparo é uma bandeira que se rasga com a página". Os períodos longos e truncados da parte derradeira inibem o sonho, o devaneio, conceituando o que era vôo, professando "modos de ouvir as reticências e as entrelinhas". O livro termina antes do autor, na página 57. E não é um livro qualquer, mas um arroubo de quiromancia, universo autônomo e inconfundível, que areja a poesia brasileira com ousadia e coragem. Contador Borges vem antes da chuva, antes do lamento da água, com seus raios e trovoadas.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Caixa de sapatos(Companhia das Letras, 2003), entre outros.

O reino da pele, de Augusto Contador Borges. Editora Iluminuras, São Paulo, 78 p. Formato 14 x 21 cm. Tel. (11) 3068-9433

(Texto publicado no site Weblivros)

8:34 PM :: Comentários:

A LÃ É O OLHO DO INVERNO

Fabrício Carpinejar

Cuido para manter as sobrancelhas afastadas, senão o olhar se unifica e viramos ciclopes. Sobrancelhas juntas é como morar com a sogra, nada contra a sogra, mas com as sobrancelhas. Nossa personalidade muda quando perdemos as divisórias. É como separar os quartos com um armário. Na hora de buscar as roupas, invade-se outra sala. Com as sobrancelhas juntas, é preciso apresentar passaporte para chegar na testa. São como arbusto, não são flor, não são espinho, mas ocupa espaço. Sobrancelhas juntas só diminuem a seriedade ao ficarem grisalhas. Sobrancelhas grisalhas envelhecem mais do que a barba e o cabelo. Sobrancelhas juntas são o cheiro de comida do apartamento vizinho. O cheiro da pressa - a gente acaba sem fome depois. Sobrancelhas juntas não têm sinaleira ou faixa de segurança para atravessar o nariz. Mais fosso do que muro. Sobrancelhas juntas são como feno, quanto mais se revira mais alta fica. Redemoinho dos cílios. Sobrancelhas juntas passam uma imagem de gola errada do rosto, de manga dobrada, de camisa amassada. Comércio escuro de plantas. Sobrancelhas juntas tornam difícil voltar pelo mesmo lugar. Como perfurar as pálpebras. Pregar quadros no lugar das sobrancelhas. Fechar uma porta com a estante. Sobrancelhas juntas significam comer somente com a faca. Pedra vira dente, parede vira tambor, chuva esgota as calhas. Como tomar banho de jarra, unir o calor das mãos, amassar vidro, dormir antes da noite. Tudo se mistura e não se tem a idéia do começo porque não se encontra o final. Quem não queimou bicho cabeludo? Viu o bichinho indefeso se enrugar em tocha viva? Dividimos as sobrancelhas pelo medo de ser queimado. Quando pequeno, ouvia uma história triste de que as ovelhas fervem seus olhos ao sol. Ovos fervidos, aquecidos ao meio-dia. A lã não permitia descobrir a falta de olhos. Sacrifício à terra, derramar grama. As pupilas serviam para dar saída de raiz para as árvores. Não sei o que é a verdade nessa vida, tampouco se uma mentira pode vir de Deus.

10:31 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 30, 2004

50ª Feira do Livro de Porto Alegre

Sou um dos dez autores indicados a patrono da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, ao lado de Airton Ortiz, Alcy Cheuiche, Carlos Urbim, Charles Kiefer, Donaldo Schüler, Frei Rovílio Costa, Juremir Machado da Silva, Luiz Coronel e Luiz de Miranda. A relação foi anunciada na manhã de segunda (30/8) e eleita mediante votação dos 134 associados da Câmara Rio-Grandense do Livro. O patrono será conhecido no início de outubro.

Em uma nova etapa, votam agora 86 pessoas - diretores da Câmara do Livro, ex-patronos da Feira, titulares de universidades e outras entidades culturais e educacionais voltadas ao livro e à literatura. A comissão vai escolher três nomes dos 10 indicados pelos livreiros. Depois da apuração dos votos, a CRL anunciará o patrono da edição cinqüentenária da Feira em entrevista coletiva, com a presença do novo homenageado. Confira a matéria no CLICRBS.

1:14 PM :: Comentários:

Site Capitu, 29/8/2004

A ILUSÃO DE UM ÓBVIO FEMININO

Caco Ishak
de Belém, especial para o Capitu

Saia de casa, caminhe um pouco pelas vilas e becos das redondezas e procure constatar o óbvio que tantas vezes já ilusoriamente constatou. Reviva os fatos como realmente são, não como sempre aparentaram ser e foram vividos. Descondicione-se. Primeiro passo para se tornar um poeta. Mas, é claro, não existem passos ensaiados para se sair bailando nos salões das palavras. Um poeta simplesmente o é. O resto não passa de farsa, frustração advinda da incapacidade para a prosa. O que não representa, de modo algum, motivo para se desistir da proposição primeira. Retorne ao mais íntimo de seu ser ante o mundo e, então, responda: quanto tempo se passou desde que você deixou de existir? Pergunte para a mulher a seu lado, veja se ela ao menos lhe escuta. Não há mais identidade, não é mesmo? Luzes e outras luzes incessantes nos cegam, não mais iluminam. E desaprendemos as coisas simples e prazerosas que, quando crianças, sabíamos aproveitar, e, não as sabendo mais, impossível se torna ensiná-las aos nossos filhos. Perdemos, assim, o único dom poético inerente a todo ser humano, a aptidão natural para a poesia que é a vida. Feita de coisas simples, sem a necessidade de bytes nem de um único bit, qual um jogo sem maiores complicações para se jogar, nada de combinações de teclas, nada de esconderijos secretos. Cinco Marias, por exemplo, já há algum tempo banido das práticas recreativas infantis metropolitanas. Não há segredos, é só jogar os cinco saquinhos no chão e pegar um sem tocar nos demais. Então, jogue-o para o alto enquanto você pega um dos outros quatro e segure-o na volta, com a mesma mão, antes que ele caia no chão e, finalmente, repita tudo para cada um dos saquinhos restantes. Da simplicidade fez-se um verso puro e o poema maior renasceu entre os dedos de uma criança, criadora e criatura.

Pois foi utilizando-se da mesma singeleza da brincadeira dos cinco saquinhos que o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar construiu sua metáfora sobre a vida, a vida de cinco mulheres, todas Marias, mãe e filhas, as mulheres de todos nós e que também nós homens ainda somos, publicando pela Bertrand Brasil, de volta ao ninho, o livro Cinco Marias, sua sexta obra, a segunda pela editora.

Qual o jogo, a história se inicia com o emaranhado de vozes femininas ("Não havia um nome composto / que nos diferenciasse"), que, ao longo do texto, vai se desfiando, uma por uma das peças vai adquirindo contornos cada vez mais específicos, características tão próprias de cada uma delas, tão próprias de todas as do sexo oposto, e, assim, assumindo para si a função de agregar as demais, em certo ponto do livro, o que estava tão bem distinguido volta a apresentar-se como o caos do cotidiano, onde "a linguagem tirava suas vestes", para, enfim, resignar-se diante da impossibilidade da eterna e constante harmonia de um todo tão fragmentado em idiossincrasias mutantes, reinado por um "Deus feminino".

Do Verbo fez-se Poesia que se fez Romance. E qual o Deus do Gênesis, que retirou da costela do homem a matéria para modelar a mulher, não tornando esta inferior a seu par - caso a retirasse de seu calcanhar -, nem superior a ele - fosse o caso do extravio de um naco dos miolos -, mas os fazendo iguais, ambos pilares de sustentação da futura humanidade, sem que o todo permanecesse erguido não fosse a presença de ambos, ruindo a graça na ausência de um, assim também Carpinejar o fez, homem, que de sua costela, seu fígado, pensamento e coração soube fazer-se mulher, usufruindo da sensibilidade que só os detentores da mais cândida beleza possuem.

"Estamos atolados com o que não existe", desabafa Maria. Sim, estamos. Não percebemos mais o que de mais genuíno há no universo e a simplicidade desse ser que denominamos mulher se afigura no que de mais complexo há aos nossos olhos. Somos Dr. Ossian, cuja audácia foi capaz de levá-lo a considerar louco o poeta Avalor em "Biografia de uma Árvore" (2002), ignorantes a ponto de converter sabedoria em estantes mal-arrumadas e empoeiradas pelo tempo, incapazes de apreciar o que diante de nossas fuças se encontra, pagando o mal com o mal e o mal fazendo a quem nem bem tem.

Pois bem, Ossian é morto. E Carpinejar se lançou à frente de seu tempo, partiu rumo ao ano de sua morte aos 73 anos, incorporando Avalor, o bardo sem valor na medida dos homens sem face que encontramos dia após dia nas esquinas e atrás de suas mesas. Expirou-se rindo, talvez da loucura daqueles por considerá-lo louco, talvez por saber que não se passariam nem sete dias para que se desse a reviravolta que sem tramar provocou nos corações dos que o apedrejaram. Sim, talvez Carpinejar esteja, de fato, bem à frente de seus contemporâneos, e com a sapiência de seus 73 anos nos ensina o que talvez seja sua verdade: "Há quem pense que o texto poético se faz derramando sentimentos no papel, inflamando o ego da namorada, chantageando os amigos com loas, descrevendo as belezas do mundo, com aquela pelúcia própria da hibernação dos ursos (e que só dá alergia!), registrando nossos melhores momentos no diário. É justamente o contrário: não é desabafo, poesia revela a realidade sem intermediários e filtros, uma comoção psíquica, nunca servindo para maquiar ou obscurecer o cotidiano, mas para apanhar os detalhes e as distrações que tornam o leitor mais verdadeiro e intenso".

As tantas realidades de marias tantas e tantas outras que o gaúcho nos apresentou em seu livro. A Maria a quem "a fidelidade pode ser cansaço", nada mais. A Maria que suplica: "Dá-me noticias de minha morte, / antecipa-me", na esperança de ainda haver algum carinho a ela reservado, que não póstumo. A Maria enclausurada em sua raiva íntima, para a qual "viver requer a disciplina de ser invisível". A Maria conformada, ainda assim obsequiosa nos resquícios de seu ser a estapear-nos com a máxima de que "não superamos os limites / mudamos as fronteiras de lugar". As Marias mães "que transformam / seu ventre em túmulo / e não empurram a criança / para fora". A Maria que, com todas essas, forma só uma e lamenta: "Lembro do que não vivi / o suficiente para esquecer".

Decerto, nem todos possuem o melindre de Carpinejar, afinal "a semente não escolhe / o lugar da queda". Conseqüentemente, "germina erros". Erros estes que, ao menos por um momento, fazem-nos pensar se realmente há a possibilidade do acerto ou se tudo não passa de uma brincadeira de criança, onde somos todos nós os saquinhos caindo aleatoriamente e no chão permanecendo até que resolvam nos resgatar, fadados aos sádicos caprichos de um mecanismo impossível de se decifrar.

Sim, talvez elas estejam certas. Talvez, a ilusão de um óbvio tantas vezes já erroneamente constatado seja a única forma de nos protegermos da verdadeira obviedade que nos apavora. Talvez, de fato, seja verdade - a nossa verdade e a verdade também delas, que a todos nós protege - que "os homens nunca vão entender"...

9:02 AM :: Comentários:

Capa do Correio das Artes, suplemento cultural do jornal A União, João Pessoa (Paraíba), 29/8/2004
Entrevista disponível no site Capitu

O FENÔMENO CARPINEJAR
Linaldo Guedes
do Correio das Artes, especial para o Capitu

Fabrício Carpinejar pode ser encarado como um fenômeno nas letras brasileiras. Nascido em 1972, em Caixas do Sul, no Rio Grande do Sul, publica, em 1998, seu primeiro livro de poemas: "As Solas do Sol". De lá pra cá, não parou mais. Sempre lançando livros que conseguem boa aceitação no mercado editorial, inclusive uma antologia intitulada "Caixa de Sapatos". Pode parecer atrevimento de Carpinejar, mas ele diz que ao lançar uma antologia com pouco mais de trinta anos ele queimou uma etapa em sua vida literária. "Foi uma forma de chamar atenção ao jovem: ele não precisa estar perto do fim para pensar sua produção", diz nesta entrevista exclusiva ao Correio das Artes.

Este ano, Carpinejar colocou mais um livro no mercado, "Cinco Marias". A obra parte de uma notícia de jornal para, num estilo narrativo e fluente, deixar o eu-lírico feminino do poeta aflorar com toda força. "Eu deixo as mulheres falarem em mim", explica esse gaúcho, filho de poetas (Carlos Nejar e Maria Carpi), que sabe que seu sucesso precoce provoca ciúmes em alguns poetas contemporâneos e lamenta: "Um problema da literatura brasileira é o hábito de não gostar daquilo que não é espelho. A literatura virou narcisística".

"A literatura virou narcisística"

Cinco Marias, como diz Ana Miranda, é mais do que um jogo de pedrinhas. É poesia e de boa qualidade. Como surgiu a idéia de adaptar uma notícia extraída de um jornal antigo para a sua poesia?
A notícia surgiu como um ato natural do próprio livro. Criei a matéria como uma necessidade ficcional do conjunto. Eu tinha que colocar meu lado jornalista a trabalhar de algum jeito. Finalmente ele serviu para alguma coisa (risos). A notícia representa o jeito como a sociedade observa as personagens, já os poemas significam como as personagens enxergam a sociedade. A sociedade reduz, simplifica, torna fato o que não é decisivo em uma vida. O que é decisivo em uma vida aparece nos detalhes transparentes do cotidiano, na horta desarrumada, no talher torto, no bilhete de trem intacto, na carta que não foi enviada, no amor que não foi usado porque faltou festa para vesti-lo. Foi minha forma de combater os preconceitos, o pré-julgamento, essa mania de querer estragar a vida do outro para melhorar a sua, esse otimismo depressivo.

Há como que uma seqüência implícita entre este livro e os seus anteriores. É intencional esse encadeamento dentro de sua obra?
É intencional. Com Cinco Marias, termino um ciclo romanceado, de matriz bíblica urbana. Em minha obra, encontrará referências ao Jó, ao Novo Testamento, ao Cântico dos Cânticos. A única diferença é que não prego, eu me duvido insanamente. A fé não é sinônimo de calma e segurança, mas de inquietação e desconforto. Quem vive confortável em sua fé está fora dela. Quero encontrar Deus sem precisar Dele. Sou muito ateu para desperdiçar o mundo. Há sempre um personagem Avalor costurando os livros desde As Solas do Sol. Ele briga com o pai em Um terno de pássaros ao sul, encontra-se em sua velhice em Terceira Sede, acerta as contas com Deus em Biografia de uma árvore. Ele não aparece em Cinco Marias, porque apresento a família do Dr. Ossian, médico que atestou a loucura de Avalor. A poesia é um jeito de romancear o que não presta ao romance. Conto uma história para a memória não dormir.

Em Cinco Marias, assim como em outros livros, você se utiliza muito bem de aforismos. A linguagem poética moderna tem que ser necessariamente concisa?
Os versículos me ensinaram a me mover dentro da linguagem. A poesia é inversão, o avesso, buscar conciliar os contrários e desajustar as verdades do senso comum. A linguagem moderna não precisa ser concisa, desde que tenha urgência em dizer. O poema não pode enrolar, deixar para depois, adiar e protelar os relacionamentos. É conversa próxima dos ouvidos, mais sussurro do que voz.

Há um tom muito forte de conclusão na maioria de seus poemas (p ex. "é impossível cortar a semente", "Estamos atolados com o que não existe"). Por que essa "obsessão" por esse tom nos poemas, como estivesse querendo sempre deixar uma lição de vida?
O poema não tem início, somente final. O poema já é uma conclusão, uma síntese luminosa, um pensamento musicado. O início do poema não existe, talvez exista somente no rascunho. Vejo a poesia como um relâmpago, ele avisa da chuva, prepara a sensibilidade para o barulho da luz. Acredito que o poema é uma conversa que ficou trancada na garganta e é arremessada com tanta força que pode transformar uma vida em frações de segundos. É idealismo? Pode ser. Mas não troco meu idealismo pelo cinismo. O medo me ensina a ser puro. Eu amadureci meus medos. Sem o medo, não tenho corpo, não sentiria nada. O medo é a febre do escuro. O medo desprezado, atrofiado e prematuro se transforma em cinismo. O cinismo ataca as pessoas com insinuações. O medo preserva a audição e faz ouvir o que ainda nem aconteceu.

Sua poesia tem um estilo muito narrativo, como se fosse mini-contos. É intencional, no sentido de prender o leitor ao livro, como se estivesse lendo um romance com começo, meio e fim? Ou é casual, fruto da inspiração mesmo?
Acho que é casual. Sou narrativo, mas nunca deixo de ser lírico. Não estou interessado em fazer um épico. Meu interesse é com os desinteresses familiares, o que herdamos sem pensar, o que realizamos sem desejo. O pior de tudo é que podemos passar uma vida inteira fingindo o que não sentimos. Fingir não é mentir. Prefiro as pessoas que mentem, porque elas querem dizer negando. Fingir é concordar com indiferença. Eu não quero ser indiferente com a literatura, quero tomar partido, me doar, me perder no leitor mais do que me encontrar fora dele. Literatura não é alimento, mas fome, é repartir a fome. O desejo tem a inteligência da ignorância - essa intuição do corpo é que me abastece mais do que o conhecimento. Sem a ignorância, não há curiosidade e avidez. A asma de minha infância é a responsável pelo meu estilo. Toda minha escritura é feita de sopros curtos, surtos, como se eu não tivesse tempo a perder na hora que respiro.

Como é escrever sobre mulheres e, mais do que isso, como é incorporar o eu-lírico feminino, coisa que você faz muito bem em várias passagens de Cinco Marias?
Eu deixo as mulheres falarem em mim, eu as assisto e aprendo devagar a ouvir sua alegria. As mulheres são diferentes do homem, mais sábias, porque vivem diferentes idades simultaneamente. Desde pequena, a mulher já é avô, mãe, filha, esposa. O homem vive cada idade separadamente. O pai toma a criança pequena no colo em direção ao mundo. A mãe coloca a criança contra seus ombros, projetada para dentro de si. Cinco Marias é um jogo infantil, onde cada voz segura a outra, completa e se aperfeiçoa. O enterro da biblioteca significa que o conhecimento está guardado e escrito na própria pele. Eu não escrevo para contar a minha vida, pela vaidade de me afirmar, escrevo para sair da biografia e ser os outros. Não suporto ficar todo o dia em meu nome. Preciso passear e observar o que acontece nos demais rostos. Sou um observador periférico, tento imaginar o que as pessoas pensam e desejam. Ao sentar no trem, já transmigro e não volto para jantar. Eu não uso o livro como um espelho para alinhar minhas idéias, mas como um quadro que produz um enfrentamento. Desapareço cada vez mais para que o texto seja visível.

Creio que não seria exagero afirmar que o livro, apesar de todas as ironias presentes nos versos, é uma ode a família. Afinal, "os antepassados nunca estão concluídos" realmente?
Não vejo como uma ode, porém como uma conversa sincera, derradeira e real. Escrevo com quem reclama, não como quem declama (risos).Em todos os meus livros, discuto o núcleo familiar, a sociedade internalizada nas relações entre pai e filho, mãe e filho, casais. A omissão começa na família e depois não tem volta. A culpa começa na família e depois não tem volta. Acabamos querendo que os filhos sejam os herdeiros do que vivemos, que compensem o que não conseguimos, que realizem o que sonhamos. Não perguntamos, em nenhum momento, com absoluta liberdade, o que eles querem. Eles acabam tendo que escolher apenas entre duas opções: ser igual ou diferente dos pais, que na verdade dá no mesmo. Quando se tenta fugir de um modelo, imita-se ainda mais.

Você é filho de uma família de poetas e já deve ter respondido várias vezes sobre de que forma isso influenciou em sua formação literária. Prefiro perguntar sobre como isso possa ter perturbado em sua formação como poeta. Existe rivalidade e disputa, por exemplo, entre pai e filho?
Há uma triste rivalidade com meu pai. Ele é gremista e eu sou colorado. Afora essa, sou muito amigo dele e de minha mãe. Conversamos poesia em casa sem recorrer à teorias ou manuais. Tanto que não treinei minha letra em caderno de caligrafia, não aprisionei a metáfora como figura de linguagem. Ao invés de caçar pássaros com pedras, fui pássaro caçando pedra.

Falar em influências, o que existe de Manoel de Barros, realmente, em sua poesia?
Na boa, Manoel de Barros merece ser comparado com um poeta melhor (risos). Eu não consigo me imitar nem para assinar um cheque. Imagina se conseguiria respeitar ou herdar a teologia do traste do nosso poeta das insignificâncias? Eu concorro comigo. Tento ser melhor do que já fui e isso já me toma bastante tempo.

Você diz, num poema de Cinco Marias, que "fazer as coisas pela metade é minha maneira de terminá-las". Pra você, o que ainda está inacabado, literariamente falando?
Nada está acabado, porque abandonamos antes de terminar. Se permanecemos com um livro sem publicar, ele vai ser alterado até a hora de nossa morte. Não terminamos um amor, abandonamos um amor. Não terminamos um filme, ele acontece no momento que saímos da sala. Não concluímos um livro, ele só inicia depois da última página. Eu sempre digo que a verdadeira amizade a gente nunca sabe como começou. A melhor história é quando não fiscalizamos quantas páginas falta para acabar.

Você tem pouco mais de trinta anos e já colocou uma antologia de sua obra no mercado. Ousadia, atrevimento ou o curso natural de uma produção já vasta, apesar da idade?
Atrevimento, gosto dessa palavra. Eu queimei uma etapa, não preciso me preocupar quando velho de fazer um antologia. Foi uma forma de chamar atenção ao jovem: ele não precisa estar perto do fim para pensar sua produção. Antologia não deve ser exclusividade de maturidade. Pode surgir antes. Eu não quero me repetir. A antologia é higiênica, porque me fez ler bem o que já fiz até aqui. Há muitos poetas que não se lêem e por isso se repetem. Poesia não é uma fórmula, uma senha de transfiguração, é uma experiência visceral e sempre nova com a verdade.

Para José Castello, você é o mais importante poeta da atual geração no Brasil. Como você lida com esse tipo de opinião?
Desde criança, eu queria fugir de meu aniversário. Ter aula no mesmo dia era uma tortura. Eu fico encabulado ao receber presentes, literalmente envergonhado. Não sei reagir bem a elogios, peço a tua compreensão. Eu não sei o que fazer com as mãos, volta a timidez com toda a carga ancestral das dificuldades de dicção e pernas tortas. Não acho que o poeta deve ser enquadrado em melhor ou mais importante. Ele deve apenas ser intensamente seu êxito ou seu fracasso, sem rótulos. Um poeta pode errar em sua época e só acertar em outra.

Aliás, essa sua, digamos, precocidade para o sucesso desperta ciúmes entre os poetas contemporâneos?
Ciúmes é salutar. Inveja é nociva. Recebo muitas cartas e e-mails falando de minha poesia. Alegro-me: todo leitor é um novo idioma. Percebo que a poesia brasileira precisa ter mais humor e autocrítica, que reduziria a formação de tribos e seitas. Não existe fanático com humor. "Quem ri os males espanta", refaço o provérbio. Um problema da literatura brasileira é o hábito de não gostar daquilo que não é espelho. A literatura virou narcisística. Não se lê para entender e respeitar uma outra voz, mas para confirmar a sua. Ou seja, não se está lendo, mas escrevendo sobre o outro. Eu leio para compreender e amar outros estilos, diferentes do meu. Poesia não é religião. O que adianta ter herdeiros se falta paternidade no autor? Somente a estranheza é ecumênica.

Como você vê a poesia produzida hoje no Brasil? Já podemos dizer que temos uma Geração 90?
Identifico um grande momento da poesia brasileira, não sei se posso unificar em geração, mas há inúmeras vozes com fortes individualidades como Astier Basílio, Wilmar Silva, Fabrício Marques, Moacir Amâncio, Micheliny, Alberto Pucheu, Ricardo Silvestrin, Contador Borges, Fábio Weintraub, Régis Bonvicino, Age de Carvalho, Alexei Bueno, Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz, entre dezenas de autores de imaginário consolidado na faixa dos 30 a 45 anos. É tudo questão de confiança, não ficar com receio de errar e de dar nomes.

"Os heróis se calam não eu". Isso pode ser uma máxima a ser aplicada ao poeta Fabrício Carpinejar? A propósito, depois de "Cinco Marias" algum novo projeto em mente?
Pode ser aplicada na veia esverdeada de sol. Eu não vou me calar porque prefiro errar pelo excesso de amor do que pela falta dele. Em casa, fui ensinado a não deixar nada no prato, que é feio. Prometo não deixar nada em minha vida, nada que não seja a minha fome. A próxima obra será o Livro de Visitas, a ser publicado em 2005 pela Bertrand Brasil. Se eu passei até agora transformando a vida dos outros em minha vida, agora vou transformar a minha vida em ficção. Estamos de passagem, portanto, residimos no vôo.

8:58 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 29, 2004

CORDAS DO AR

Fabrício Carpinejar

Sem explicação, ordem e motivo, me arde uma alegria, que não aceita ser felicidade, porque a felicidade é uma palavra muito longa e a alegria tem pressa. Não sei se é uma alegria herdada, uma alegria que esbarrou em mim e que me salvou de ter pensado demais para devolvê-la. Uma alegria que é muscular, como se o ar fosse uma guitarra encordoando o ar, e houvesse um amor me pedindo para falar baixo nos ouvidos ou uma criança me chamando pelo apelido que esqueci. Uma alegria sem dono, que poderia ser uma ovelha de água, uma orelha de mar, um poço com hálito de café, uma figueira entranhada de pedras, o barulho alaranjado do portão que denuncia a visita, a tosse do fogo, as ervas e suas cartas datilografadas sem acento. Uma alegria de deitar na grama e sentir que está molhada e não se importar com a roupa orvalhada e não se importar com a hora e com os modos, uma alegria que é inocência, mas sem culpa para acabá-la. Uma alegria que é descobrir os objetos no escuro. Uma alegria repentina, que me faz entortar o rosto para rir, que não me faz pôr a mão na boca com medo dos dentes, que me impede de me proteger. Uma alegria como um tapete que fica somente curtido no centro. Uma alegria de ficar com pena dos anjos e de suas asas pesadas como duas montanhas nas costas, suas asas como dois irmãos brigando em dia de chuva. Uma alegria de barca, que é empurrada ao seu início. Uma alegria de perceber que quanto mais gasto o tempo com os outros mais sobra para mim. Alegria de vida barata e da morte cara. Uma alegria sem saber para que serve, para onde vai, com as iniciais de xícara antiga. Uma alegria que não volta para a estante porque não saiu de nenhum livro lido. Uma alegria que se antecipa e faz sala ao quarto. E quase me faz acreditar que sou possível.

4:14 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 27, 2004

A LUZ DO CORREDOR
Para Kátia Suman

Fabrício Carpinejar

Há um tempo de aprender no tempo de desaprender a si mesmo. Eu nunca havia reparado na luz do corredor até ter filhos. Ela não tinha necessidade, eu não a acendia, ficava desligada sem insetos no bojo de sua esfera, com o interruptor decorativo. Limpa e impecável como quem saiu do banho. Uma luz que não pesava na lista do mercado, que não conhecia a escada, que não apitava som e não explodia com a umidade. Depois que nasceram as crianças, ela passou a existir e adquiriu uma importância maior do que a do quarto e da sala. Do descaso e acidente, tornou-se uma lâmpada materna. Uma lâmpada que dá claridade sem tirar o escuro, que dá clareza sem anular a pergunta, um elo entre a cama dos pais e o sono dos filhos, um confessionário da residência, com ouvidos prontos a receber a troca de guarda. A luz do corredor serve para ler enquanto o outro dorme, serve para as crianças não se sentirem amassadas pelo fim do dia, tranqüiliza e faz esperança. A luz do corredor é terapia de casal, concilia as diferenças do cansaço. Cão de guarda que não incomoda com os latidos e lambe apenas os pés e os chinelos ao pé do armário. Quando o descanso é mais pesado, a luz do corredor é eventualmente substituída pela luz do banheiro, com a porta entreaberta, mas não perde sua realeza ao permitir a passagem sem fiscalizar o trânsito. Minha idade poderia ser identificada pelo uso das lâmpadas. Quando criança, queria dormir de luz acesa. Quando adolescente, todas as luzes ficavam apagadas para não denunciar a hora que chegava. Quando adulto, a sala permanecia iluminada e me convidava para a janela. Quando maduro, vou me importar somente com a luz de fora, para advertir que existe alguém em casa, que a luz de dentro não foi uma luz roubada.

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Quinta-feira, Agosto 26, 2004

UMA RUA SEM SAÍDA

Fabrício Carpinejar

O rosto se repete. Enxerga-se nele a rua, não o morador. Ele é o que recebi mais do posso oferecer. Muda permanecendo igual. Atravessou um pouco mais de luz e ganhou um pouco mais de sombra, só isso. Seus erros e acertos se equivalem. Os defeitos têm a serenidade dos lábios. Há outras rugas, outras covas, outras protuberâncias, mais também aumentou o espaço do riso. Espinhas surgem raramente. Procuror com mais atenção alguma diferença, mas não a encontro. Não quero encontrar. O rosto não se atualiza. Antigo como uma brincadeira que não muda com o tempo: pião, pandorga, carrinho de rolimã. Minha relação com ele é cega. Faço a barba no escuro, cuidando apenas para não alterar o sentido da lâmina e provocar a revanche das veias. Ele permanece do jeito que eu o deixei há trinta e um anos. Não ficou mais erudito, não saiu de sua ignorância. Não se enobreceu com as dores, no máximo se esticou pela curiosidade. Recebeu afago, se meteu em duas brigas na adolescência, tem cinco cicatrizes, ainda pára na lomba. Do meu rosto, desvio dos ouvidos. Odeio a possibilidade de cabelo nos ouvidos. Dá uma idéia de ermitão e surdez. O rosto se repete nos amigos, nos filhos, nos netos, nos pais, nos mendigos. Ele se decora longe. O rosto se repete, alfabeto que a terra mais mostra escondendo. Rédea do mar, remo do cavalo. As crianças não cresceram rápido, fui repentino ao observá-las. Os amores não demoraram, é que os aguardei desde muito cedo. Nasci para não ter escolha porque já sou uma escolha. Convivo com a morte sem pensar nela. O corpo é adivinhar o corpo dentro dele - não temos provas. O rosto se repete. Eu queria debilitá-lo, desfalcá-lo, explicar que não sou o que ele expressa, negá-lo, desmenti-lo. O rosto é honesto enquanto tudo o mais quer fingir. Com uma paciência que se assemelha a infelicidade, com o juízo severo das sobrancelhas e a respiração ofegante que tensiona os músculos. Sem vontade de aprender ou desistir. O rosto me proíbe, seduz desatento, agride cuspindo os dentes. Enverga caretas quando prometia educação. O rosto, sempre ele com a última palavra, divorciado em sua intuição. Interpreta os outros para não ser interpretado.

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ALGUM, ALGUÉM

Fabrício Carpinejar

Não se passava roupa, se passava. Noites foram meus olhos menos meus olhos. A terra se exagerava, vasta, e não girava de volta. Objetos que quebravam não davam adeus. Mal se entendia a ausência porque tudo se precisava. Apanhei de cinto e me vingava chorando o que o homem não chora. Não se envelhecia, se arruinava.

12:03 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 25, 2004

DE MÁS INTENÇÕES, O PARAÍSO ESTÁ CHEIO

Fabrício Carpinejar

Toda virtude busca ter a estabilidade de um vício. Amor é uma amizade que foi traída. Marido e mulher discutem em público porque não terminaram a discussão em casa. Em briga de casal, não se mete a colher, mas ninguém proibiu a faca. Nada se cria, se copia errado. O vinho e o vinagre envelhecem juntos. A verdade só funciona na primeira pessoa, quando chega na segunda pessoa já é uma mentira. Só não sou sincero quando estou sozinho. Ajudar a todos é ajudar a ninguém. Estou rindo de desinformado. O que não sou ainda precisa ser julgado. Quem concorda com tudo, não está ouvindo. Procuro conhecer meus defeitos para não corrigi-los. Errar duas vezes é sabedoria. Como não alcançarei o fim, os meios são desnecessários. De louco cada um se interna um pouco. É melhor morrer o poema do que remediar. Quando feriado cai num domingo, dormir não tem graça. Aqui se faz, aqui se deve. Cada poeta tem o desgoverno que merece. O cão é o melhor osso do homem. A fé remove as montanhas, não sei o que ficou no lugar delas.

11:09 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 24, 2004

PEQUENEZ

Quando estamos sozinhos, somos pela metade. Quando somos dois, somos um. Quando deixamos de ser um dos dois, não somos nem a metade que começamos a história.

11:49 AM :: Comentários:

TARADO POR TORTA DE NOZES



Quem convive comigo já deve ter suportado ataques de ansiedade por torta de nozes, uma de minhas taras. Na Feira do Livro de Ribeirão Preto (SP), recebi o doce de presente antes de uma palestra. Quem quiser jogar torta em minha cara, já antecipo o sabor.

11:47 AM :: Comentários:

CHAPÉU DO BORGHETTI
Fotos Marco Antônio Filho



No espetáculo do Baturidança, do programa Escolinhas Integradas, roubei o lendário chapéu do músico Renato Borghetti. E não pedi esmola. Foi na quinta (19/8), no Anfiteatro Padre Werner, em São Leopoldo. Tomado de heterônimos, declamei o "Novíssimo Testamento", de "Biografia de uma árvore", para um público de 700 pessoas. A timidez foi para o espaço.

11:43 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 23, 2004

SEIS MESES

Fabrício Carpinejar

Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Eles se amam, mas não é suficiente. Amar não é suficiente, amar complica. Amar exige mais do que dar ou receber. Amar aumenta a fome do silêncio, o silêncio da fome. Há um tempo em que se pede tempo, em que duvidamos do que é mais autêntico, não aceitamos a vida com facilidade, que dar certo pode ser muito errado. Vi muita gente que se deprimiu de felicidade. Os dois se separaram por amor. Estranho isso. Talvez tenha sido os setenta degraus para subir a escada de residência. O momento em que contaram os degraus. Talvez seja o que nunca foi dito, porque um dos dois pensava que não era necessário. Quando se ama, a gente acredita que não é mais necessário dizer as palavras, mas é tão necessário quanto não dizê-las. Hoje, apartados, ambos se telefonam como cúmplices, pedem conselhos, conversam sobre seus filhos de uma forma que ninguém entende, exceto eles. Nem as filhas entendem o quanto de alegria significa para eles ter filhas. Pureza dos dois, que falam a mesma coisa de um jeito diferente e não se perguntam para não coincidir as respostas. Palavras cruzadas, feitas em dupla, terminam com rapidez e não tem graça. Os dois querem provar um para o outro quem é mais sensível e de tanto sensibilidade eles não se permitem sentir. A treva não é trégua, o descanso não é paz, a ave não é vidro, o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços. Julia, que poderia ser Maria, quando tem insônia dorme com as filhas. Dormir com as filhotas cura insônia, me diz. O abajur da respiração vai espantando o escuro do medo mais do que o medo do escuro. Julia é afeiçoada aos detalhes e se antecipa antes de sofrer mais. José, que poderia ser Paulo, sofre adiantado para não se antecipar. Ele foi criado em um universo feminino (mãe e avó), derramado entre as palavras de mulher e as mulheres de palavra. Deixa o mundo correr para depois arrumar a sala. Julia não espera o tempo de arrumar a casa, arruma a casa enquanto o mundo corre. Julia não quer esperar, José espera para querer. Eles se amam e não acreditam que nada pode separá-los, a não ser eles e seu excesso de amor. Eles se amam a ponto de desfrutarem do direito de criar distância. É estranho isso. O cansaço não usa disfarces, o ciúme não escuta desculpas, prevenir não é se defender, enlouquecer é atrasar o desencontro, regressar é não ter saído. Julia nunca será ex-mulher de José. José nunca será ex-marido de Julia. Eles não podem ser o que desconhecem, nem deixar de ser o que foram. Os dois se preservam, se protegem, como se o segredo fosse algo que esqueceram e nenhum conta que esqueceu por estar esquecido. Esquecer saliva os olhos. Não entendem o motivo da separação porque não acharam um sentido para a convivência, como se fosse preciso ter sentido. A ausência chama mais atenção. Eles se dedicaram a inventar um dialeto, mas perderam o contato com o próprio idioma para traduzi-lo. Dividiram a vida para perceber depois que a vida fica dividida. Reconstruir o que não desmoronou não adianta. Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Os nomes não mudam o que foi doado. Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada.

10:13 AM :: Comentários:

BRASIL DOS GAÚCHOS

Dois relatos de minha participação no seminário Brasil dos Gaúchos, no Rio de Janeiro, podem ser lidos nos sites de Sérgio Fonseca e Arquimimo Novaes. Confira.

10:10 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 19, 2004

DESENHO ANIMADO

Fabrício Carpinejar

Quando a gente se gosta, a gente cuida. Cuida mais do que devia. Gostar é se prevenir do desgosto. A gente nunca sabe o que é suficiente, a gente vai se doando, se gastando, sem pedir troco. A gente gasta mais do que se tem e corre atrás para imaginar o que não se viveu para não fazer falta na memória mais adiante. Quando a gente gosta, é um exagero de gosto, é falar para levar o casaco porque pode fazer frio, é chamar atenção sem motivo, é fazer escândalo no telefone em pleno trabalho. Quando a gente se gosta, a timidez fica sem chances de escapar. Quando a gente se gosta, o que não se gosta é suportado com gosto. Quando a gente se gosta, a gente diz que nunca mais vai repetir e repete, porque gostar não é promessa, é quebrar promessas com os dedos cruzados nos lábios. Quando a gente se gosta, os segredos são música sem letra, adivinhação de pernas na mesa. Quando a gente se gosta, somos personagens do gosto mais do que autor dele. Não mandamos no gosto, o gosto nos suporta. Quando a gente se gosta, a gente começa emprestando um livro, depois um casaco, um guarda-chuva, até que somos mais emprestados do que devolvidos. A gente dorme uma noite fora de casa, duas noites, até que a gente leva a casa para dormir com a gente. Gostar é não devolver, é se endividar de lembranças. Quando a gente se gosta, pratica-se a arte de não ficar calado. A arte de não ficar calado é bruxismo de gente acordada. Os dentes ficam com fundo de prato para soprar a comida. Quando a gente se gosta, a neblina faz o rio encurvar mais cedo. Quando a gente se gosta, há sempre um nome na aliança contornado de sabão seco. A aliança faz espuma de mãos dadas. Quando a gente se gosta, tudo é importante, as inutilidades ainda mais. Quando a gente se gosta, come-se a luz de boca aberta. Quando a gente se gosta, guardamos os botões caídos das roupas como brincos. Quando a gente se gosta, a gente recomenda a nossa idade como a mais sábia. A gente gosta de ter razão, mas não ter razão só aumenta o gosto. Quando a gente se gosta, levar o lixo ou conferir se as portas estão fechadas é uma longa negociação de gostos. Quando a gente se gosta, separamos o feijão em uma bacia com água e ficamos com pena dos grãos debochados e incluímos juntos para a fome não ver. Quando a gente se gosta, é natural até se gostar menos para reservar lugar a quem gostamos.

10:32 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 18, 2004

O FIM DA TARDE

Fabrício Carpinejar

O fim da tarde é severo, já me avisou Raimundo Carrero. Não se pode brincar com a seriedade do entardecer. Não se encontra ânimo para mentiras, brincadeiras, conversas paralelas. É olhar de frente. Período em que se fala as verdades e se assobia para a noite não estranhar a casa. As lojas enrolam suas portas, o que era para ser julgado foi julgado em horário comercial. O vendedor ambulante toma a calçada com sua esteira de praia. O fim da tarde deixa até os animais preocupados, os cães se prostram nos portões, os gatos se devolvem para as janelas, os lobos se aninham nas patas, os cavalos dormem nas viseiras. O fim da tarde é uma manhã escura, uma noite clara: as crianças revisam os brinquedos. O fim da tarde é retirar o sapato, ainda de sangue quente, e desprezá-lo ao lado como um desconhecido esmolando atalhos. O fim da tarde é severo, a vida não mais está em jogo, penso em lavar os cabelos com o vento, sentar em uma cadeira para fora da varanda e deixar algo amadurecer sem minha ajuda. O fim da tarde costuma ser o momento em que se vacila os medos, as certezas, as convicções. É pintar os ruídos, tirar o boné e deixar os talheres se misturarem na gaveta. O fim da tarde é o molho de chaves, a eletricidade anônima, a porta descascando. O fim da tarde pede desculpas como quem pede um copo de água. A camisa está dobrada, vincada, com um cheiro entre a sujeira e a vida iniciada. É preciso acalmar as roupas. O fim da tarde é um sofrer sem sofrimento, um ter acontecido por amor ou esquecimento. Não se diz nada em voz alta. Pentes com três dentes servem para mastigar. Não é hora de se curvar para pegar moeda ou de esconder pensamentos, doenças, fragilidade. Há justiça no abandono. A gente sorri porque os pés estão esticados, semelhantes às raízes de baobá. O fim da tarde é alguma coisa que falta, que foi embora, sumiu, e ficamos aguardando sem noção alguma do que seja. O fim da tarde é uma paciência do que foi, um começo do que acabou. Move-se o alimento com indulgência, sem vencer ou perder. As palavras estão atrasadas para serem escritas. Cochilo de cansado e vou abrindo os olhos desajeitados, pela insistência que só vira mesmo esperança no fim da tarde.

9:22 AM :: Comentários:

RIO DE JANEIRO

Participo do projeto Brasil dos Gaúchos, que reunirá o melhor da cultura do Rio Grande do Sul até 12/9, no Rio de Janeiro. Farei palestra na sexta (20/8), às 18h, ao lado de Martha Medeiros e Luiz de Miranda. O tema do encontro poético, "Nós Passaremos vocês passarinho", faz uma homenagem ao legado de Mario Quintana e acontece no Centro Cultural Correios (Visconde de Itaborai, 20 RJ Telefone: 21 2503 8770)

O seminário busca fornecer um amplo panorama do que tem sido realizado pelos artistas gaúchos nas artes plásticas, na literatura, no teatro, na música e no cinema. Na área literária, serão oferecidas quatro mesas-redondas e duas edições do Sarau Elétrico, tendo como convidados João Gilberto Noll, José Clemente Pozenato, Luis Fernando Verissimo, Ruy Carlos Ostermann, Lya Luft, Moacyr Scliar, Voltaire Schilling, Carlos Urbim, Letícia Wierzchowski, Fausto Wolff, Cintia Moscovich, Clara Averbuck, Luís Augusto Fischer, Frank Jorge, Kátia Suman, Cláudio Moreno, entre outros.

Haverá três exposições de artes, fotografia e cartuns. Longas e curtas-metragens em 35 mm serão exibidos, de 24 a 29/8, no Auditório do Centro. Estão programados também shows com os músicos Bebeto Alves, Nei Lisboa, Adriana Calcanhoto, Nenhum de Nós, Geraldo Flach e Yamandú Costa.

9:21 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 16, 2004

SUBINDO

Fabrício Carpinejar

Tomo o elevador para encontrar o espelho. Não é evidente? A primeira coisa a se fazer, logo ao entrar, é olhar para o fundo da caixa de sapatos gigante e procurar o espelho. Há algo oculto em nossas intenções. Algo que se sabe não se lembrando. Algo que não se sabe de tanto saber. Esquecemos quando se anota o compromisso ou quando não preparamos um lembrete? Eu me esqueço no momento em que o escrevo. É como se já tivesse cumprido minha missão de recordar. Apresento o costume de não ter costumes. Não uso mais guarda-chuva, desde que extraviei o centésimo em um consultório. Guarda-chuva é um convite de sétimo dia plastificado. Minhas manias são defeitos que tentam ser virtudes. Uma delas é contar os números de pássaros na migração. Se é par significa sorte, se é ímpar, azar, alguém sobrará na história. Vou aos sebos quando estou triste. Vou a livrarias quando estou alegre. Os sebos são como roupa usada. E não existe nenhum melhor confidente do que as roupas. Elas conhecem os detalhes do que vivemos. A gente pode falar à vontade, não interrompem e ainda dormem no guarda-roupa sem medo do marido ou da esposa. Nada como uma calça sovada, um tênis que se adapta aos pés, para se sentir confortavelmente bonito. Ou confortavelmente feio. Mas sempre confortável. O livro usado tem o cheiro das mãos de quem leu. O cheiro da casa. O cheiro de rio dormindo. Um livro usado não é um livro, mas uma história. Não é uma história, mas uma pessoa. Ele olha comovido, tal cachorro que se enrola nas pernas e promete a lealdade da insônia. Um cachorro tem mais jeito de mendigo do que o gato. Eu cavo livros antigos para buscar anotações ao lado dos parágrafos, senhas indecifráveis e dedicatórias de autores que pensavam ter conquistado o leitor e que o perderam para as prateleiras. É uma segunda chance, como tudo na vida. Não conheço quem tenha acertado de primeira, seja na paixão, seja no trabalho. Amor à primeira vista acontece com quem não olhou direito. Os corpos se entendem até um dos dois mirar o teto e descobrir a discordância da alma. O problema dos relacionamentos é o teto. O teto separa. Muitos escritores casam com suas bibliotecas. Assim que morrem, as viúvas são vendidas a golpes baixos, sem direito a pensão. Essas bibliotecas ficam perdidas entre um canto e outro, esperando a própria esperança. Não gosto das mentiras nocivas, ambiciosas, falsas, que pretendem substituir as verdades. Gosto das mentiras honestas, verdadeiras, que nunca deixam de ser mentiras. Um livro usado é uma mentira que não mente, ele apenas quer um tempo para se inventar. Eu olho o espelho procurando o elevador.

(Crônica publicada na revista APM, da Associação Paulista de Medicina, agosto/04, nº 549)

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Domingo, Agosto 15, 2004

JURAMENTOS DESNECESSÁRIOS

Fabrício Carpinejar

Transferimos a vontade ao obstáculo para não chegar tão cedo. Deus devia sorrir mais mesmo quando nega. Já vi Deus mendigando. Nem tudo é Deus. O que imagino ser talvez eu já tenha sido. O consolo não nos deixa cicatrizar a dor, fica-se no raso da ferida. Viver sem recompensas é desejar o desejo. Lágrimas enjoam os olhos. O que é imortal não tem passado. A eternidade não cura o que não sangrou antes. Os mortos não precisam enterrar seus mortos. Eu não me envergonho da nudez, mas da falta dela. A ausência é ainda um jeito de aparecer. É mais difícil ser fiel ao hábito do que ao mistério. O egoísmo é destruir justamente o que é pessoal. Experimento não é experiência. Conhecer a miséria não me torna mais sábio - conviver com ela é que me transfigura. A casa ensina o exílio. A fome desobedece a necessidade de falar. Um inferno tem mais realidade do que o paraíso. Escrevo para me desmoralizar. Amar a verdade significa ter esperança nas mentiras. Melhor do que encontrar a verdade é saber recebê-la. Inicio diferente para preservar o fim. Amizade exerce a virtude da solidão a dois. Quem repete seu sofrimento não tem senso de humor para libertá-lo. A alegria pode dançar sozinha e não será ridícula. O tempo é onde não temos tempo para ir. O relâmpago faz contrabando de clorofila. O medo empresta sua ternura à coragem. O que não se apreende, aprende-se. O homem devia se procurar ao dia com a curiosidade em que se caça durante a noite. Ler é dividir as mãos em janela. O corpo bem que poderia pedir licença para envelhecer. A ambição busca a autoridade, não o poder. A humildade tem o poder de não querer nada. Ninguém fez juramento ao nascer.

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FISCHER NO VARAL DE LETRAS

Varal de Letras, série de debates mensais que apresento na Livraria Cultura, recebe o escritor Luís Augusto Fischer. Com o tema Um passado pela frente: a poesia gaúcha e os fantasmas que nos esperam e entrada franca, o evento acontece nesta segunda (16/8), às 19h30, no Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre. O encontro pretende dissecar a poesia gaúcha, seus movimentos históricos, impasses, virtudes, defeitos e suas novas expressões.

Professor de Literatura Brasileira na UFRGS e escritor, Fischer vem sendo um dos mais atuantes críticos culturais no país, colaborando com jornais e revistas, apresentando o Sarau Elétrico no Ocidente e comentando a produção contemporânea com uma linguagem acessível. É autor de Literatura Brasileira - modos de usar, A Rua Desconhecida, Dicionário de porto-alegrês, Um passado pela frente, entre outros. Seu mais recente livro é a coletânea de ensaios De ponta com o vento norte (Editora Artes e Ofícios, 2004).

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Sexta-feira, Agosto 13, 2004

REPETÊNCIA

Fabrício Carpinejar

Na infância, queria me repetir. Jogar futebol todas as tardes já era suficiente. Bastava sol lá fora e o resto se resolvia. As palavras quebravam a ponta do lápis de propósito, quando mangueirava a cor. Elas não gostavam de se molhar de azul. Desejei rodar na 1ª série para repetir a professora. Desenhava árvore sem chão e a professora ficava assustada. Tentava me interpretar quando eu interpretava a árvore. Ao se assustar, se aproximava. Passei a desfalcar o mundo do mundo para prender sua atenção. Não contava com seu amor, mas com seu susto, o que era um começo. Uma árvore sem chão tem terra dentro guardada. Assim como o barco sem mar tem água guardada. O barco engravida a árvore. Eu desviei minha distração para contar os minutos de pouso dos insetos. Os insetos são histéricos, não são caseiros em suas asas. Diferente dos patos, que voam como saída de incêndio. Não consigo amarrar os cadarços e não morri por isso. Não aprender alguma coisa é o equivalente a esquecer um guarda-chuva. Haverá luz para se redimir no dia seguinte. Eu sempre suspeitei que eu daria em nada. Escutei o estômago do livro, fazia barulhos estranhos. Só podia ser vermes. Apanhei uma traça bem no momento em que abria um buraco na obra. Espero o estranhamento para lembrar do que deixei para depois. Um copo de água e açúcar funciona se a colher está enferrujada. Um compromisso antigo ainda me aguarda. Qual é a tolerância que se deve conceder a um atraso? Quinze minutos, meia hora, uma hora, uma morte, um filho, uma separação, uma coincidência? E o que torna o atraso perdoável? Um outro atraso? E se entramos na porta errada, era problema da porta? E se a infelicidade é apenas uma alegria que não solta os cabelos? O ermo não tem curvas. Quem reza ao dormir, dorme lendo Deus. Deus é um texto muito comprido para acabar em uma noite. Prefiro poemas. Me perturbo ao olhar um duelo de um gato com uma lesma. O gato confunde a lesma com sua língua e não entende como ela se endoidece sozinha.

11:05 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 12, 2004

ESQUECIMENTOS

- Nas paredes de casa, nenhum quadro, nenhuma foto ou fresta de rosto. Tudo liso e um chapéu de palha num prego, soberano como capote em velório. O chapéu de palha era o único retrato que restou da família.

- Eu pegava amora dobrando a camisa, que ficava encardida de licor e musgo. Na cintura do cesto, anoitecia o sol da gola. Ao chegar em casa, o uniforme da escola entrava no castigo, dias de molho, embriagado de vinho. Não curava a ressaca na espuma. Nunca se alfabetizou.

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O PREÇO DA VIDA
Texto de apresentação do livro Todas as festas felizes demais

Fabrício Carpinejar

O conto oferece duas histórias que se entrecruzam. A crônica trabalha com apenas uma história. Fabio Danesi faz uma história e meia em suas narrativas breves, engraçadas e hiperbólicas de Todas as Festas Felizes Demais. Fica entre a crônica e o conto, traficando humor negro, branco e amarelo. Herda a leveza lírica da linguagem de Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, mas a dilapida pouco a pouco com enredos altamente simbólicos e cáusticos. É como se Nelson Rodrigues aparecesse de vez e quando para comentários especiais na locução do jogo entre a vida e a morte, entre deus e o diabo. Sabe aquele sujeito que nunca se tem a certeza se está falando sério ou gargalhando em silêncio? Danesi é assim. "Eu me amo. O diabo é que não sou correspondido", confessa em um narcisismo frustado. Ele é ingenuamente debochado. Misterioso de tão claro. Usa sua pureza para atacar. Prepara voz de criança para declarar as verdades mais doloridas e cruéis. Apronta voz de adulto para descrever fábulas infantis. As tramas são diretas, didáticas no espanto e até previsíveis, mas irradiam original malícia em breve fio de saliva, em máximas cuidadosas e ágeis, captando metamorfoses irreverentes e monstruosas. Aqui, a barata de Kafka se transforma novamente em homem. Espécie de exorcismo: criança proibida de palavrão solta verbo em estádio, amigo derrete ao conviver com objetos cafonas e luzentes, Aristides se converte em um mamilo.

O livro começa com uma promoção de venda de vida na Terra em pacote turístico, onde é possível escolher "ser homem, mulher e mais dois sexos totalmente exclusivos". As ironias reinam em mundos de fachadas, vitrines e maquetes, em que o falso é verdadeiro. Num velório, o homem se despede de sua mulher com a raiva de perceber que não era o único que a amava. O velório logo se revela um ritual bem diferente. A gratuidade decorre em apanhar os pensamentos das pessoas mais do que os fatos. Em outro texto, a mulher acorda no lustre, o homem no armário. Tudo muda de repente: os cômodos, o número da casa, o bairro e, inclusive, a cidade. Igual a cenário de programa de tevê. O autor abusa do livre-arbítrio para mostrar o desespero cômico por dentro dos relacionamentos. Aliás, os casais são suas vítimas prediletas. Joãozinho troca de identidade para conquistar uma guria. Antes de ir a um batizado, par amoroso, desavisado do destino que o aguarda, discute se deve ou não ter filhos. Em "Encontro", o escritor expõe namorados mergulhados na indefinição, que costumam responder uma pergunta com outra, tipo "Você gostaria de ir lá?" com "Por que não?". Quem não se viu como cobaia da impotência numa ratoeira parecida?

"Se algumas almas nascem por equívoco", essa obra de estréia apresenta a história secreta dos erros, ilusões e projeções afetivas. Talvez você procure informações sobre a idade do autor na última página ou na própria orelha. Esquece. Deve-se perguntar a idade ao texto. E o texto vai se mostrar bem mais maduro do que imaginava. Fabio Danesi descobre que o problema da festa é que ela deu certo. Foi feliz demais. "A vida é o único produto cujo preço é seu consumo."

Todas as festas felizes demais
Fábio Danesi Rossi
Editora Barracuda
96 páginas

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Quarta-feira, Agosto 11, 2004

PÍLULAS PARA COLORIR A LÍNGUA

Fabrício Carpinejar

Não há treva que não sirva para pendurar pássaros. O que é feito em mim chega tarde para se escrever. Os mortos não estão interessados em ler notícias velhas. Só vou mexer na terra em último caso, quando troco de analista. Foi tão longo o meu dia que encurtei a semana. Labareda é um fogo comprido que conta as mesmas piadas sem se dar conta, a chama é um fogo que se apaga antes de dizer besteira. Comprei um cavalo pangaré como cortador de grama. O espaço entre os dentes aumenta com o uso da língua. A eternidade não tem revisor - erra a concordância. Quando digo "apesar de tudo' já sofro por antecipação. Um desejo sem cansaço não se refaz. Pisei sem querer num pente e lembrei que não beijei o filho na hora de dormir.

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Segunda-feira, Agosto 09, 2004

DISTRAÇÕES FATAIS

Fabrício Carpinejar

Sou estrábico pelo desejo de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Em minha viagem para Santa Rosa, cidade a 370 km da capital gaúcha, quase furto um carro por distração. Explico: descemos (eu e o motorista) em um posto para comprar água. Fiquei na rua pensando a falta de pensamento. Tremi o anzol do frio no pescoço e decidi buscar um blusão no carro. Abri a porta e fui entrando e nada do agasalho no banco. De repente, um senhor barbudo grita: "o que está fazendo, ó meu?". Entrei no veículo errado. E o pior que o tipo e a cor do carro eram diferentes daquele que eu vinha. Não tinha nem desculpa ou licença poética. O dono poderia me socar para depois pedir explicação. Foi sorte, que é o juízo de quem não sofre com o juízo. O pior ainda aconteceu em minha adolescência. Em uma daquelas iniciativas frustradas de me tornar um esportista, planejei ir de bicicleta da casa até a escola, o equivalente a quarenta minutos de ônibus. Eu descia na contramão pela maior possibilidade de desviar do congestionamento. Escapava dos carros, mas me esqueci que existiam pedestres atravessando a rua e que olhavam justamente pelo lado contrário da minha velocidade. Escorregando pela lomba da Protásio Alves, em Porto Alegre, estalando o vento no beiço, faceiro com o impulso e com os pedais girando sem esforço, vejo o que não vi, e passo por cima de alguém vacilando entre a calçada e a rua. Esse alguém era um brigadiano fazendo o papel de sinaleira. Não preciso dizer que não cheguei na escola.

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Domingo, Agosto 08, 2004

QUAL DOS DOIS SE INVENTOU PRIMEIRO?

Fabrício Carpinejar

Eu puxava os cabelos de minha irmã. Perdi os cabelos de vingança. Não sei quando um avião corre na contramão. Ou qual das moscas é a mãe do vôo. Com canivete riscava troncos, depois classes, depois portas. Escavava minhas iniciais. Enjoei do meu nome bem cedo. Vou chegar a nenhum lugar pontualmente. O amor que não dá certo dura mais. Os segredos tinham que ter prazo de validade. Não aprendi a decorar a tabuada para me antecipar da loucura. Quanto mais antigo, menos velho. Uma rama de sol e a semente não volta mais para casa. Sempre ao meio-dia minha solidão não fecha. Entender simplifica, o que não se entende é mais compreensível como a música. O pássaro construiu paredes com o próprio vento. O cuspe da ave estica uma árvore. Respeito a memória com muito despeito. Estou educado para o abandono. O espelho é uma lâmpada que dura sete anos de azar. Nascer por engano já é lucro.

9:52 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 04, 2004

COMO ESCOLHER SEMPRE
A FILA ERRADA DO SUPERMERCADO


Fabrício Carpinejar

Com o retraimento das padarias, vai-se ao supermercado somente para comprar pão. Antes, 'visitava' o super e realizava compras gigantescas de acampamento, piquenique, estoque de guerra, para não voltar tão cedo. Hoje, qualquer item que falta, sou obrigado a pisar no universo de músicas cafonas ao fundo e de embalagens coloridas combinando com meu piercing no umbigo. Não há escapatória: lá estou eu confinado a empacotar a bolsa com o saco plástico, asfixiar os livros que carrego, e seguir viagem às gôndolas do pão. E com um carrinho que tem, eternamente, uma das rodas trancada. Se eu entro na feira das frutas e verduras, estou ralado. É o encontro anual das pessoas vítimas da lentidão. Na verdade, eu já entro com raiva, mau humor e insatisfação. Sobrevivo ao corredor polonês de meninos pedindo um troco, com sua mãe fiscalizando do outro lado da rua. Assumo o compromisso sério de apenas entrar e sair e nunca acontece do jeito que planejei. O problema é escolher a fila. Não sei o que acontece comigo, mas escolho sempre a fila mais lerda, por mais que cogite possibilidades, premedite e elabore pesquisa de opinião. Um detalhe: há dez caixas e três funcionam - isso é regra. Apresento um talento incomum ao atraso. Olho ao lado, é um caixa rápido para dez produtos, vou, há somente uma senhora em minha frente, suspiro e nada. A filha diz para sua mãe: "preciso ir". Deixa um cheque e sai correndo para não chegar atrasada. A mãe, com jeito de biscoito traquinas em promoção, não vê tempo para discordar e acena. O que acontece? O cheque não é aprovado e a portadora não está mais no local. Fico quinze minutos aguardando minha vez, até que seja solucionado o impasse. E já me aconteceu de produtos que clientes levavam com preço errado, de conversa no balcão de ex-namorados, de crianças esvaziando a niqueleira para pagar chocolate. Novo dia: escolho a fila mais longa pensando que será diferente. Tomo o caminho inverso, concluindo que os atalhos são mais longos. A fila desafoga como vinho de garrafão em funil. Tudo escoa com uma celeridade de coelho. Eu me sinto inteligente, soberano nas decisões. Coloco os alimentos na esteira e é justamente o momento em que acaba o rolo da registradora. Puff, assim, puff. Assisto a paciente moça abrir a tampa, enrolar, anotar o recente pagamento, soprar as teclas, chamar a supervisora, trocar o papel higiênico da máquina, apertar numa tecla para reaver os movimentos, bater nas costas do visor para a registradora arrotar como um bebê de poucos meses. E eu ali, cheio da paternidade das coisas que não fiz.

10:40 AM :: Comentários:

SANTA ROSA

Faço palestra em Santa Rosa nesta quinta (5/8), às 19h30, no auditório do SESC. O evento da Associação Santa-rosense de Escritores tem o nome de "Festerê Literário", com leitura de poesia e apresentações de música e teatro.

9:23 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 03, 2004

ELEVADOR

Antes de entrar no poema, certifique-se de que a palavra se encontra parada.

9:57 PM :: Comentários:

DEVAGAR E NUNCA

Fabrício Carpinejar

Sempre fiquei com medo de morder a hóstia. Morder o corpo de Cristo. O pior é que colava no céu da boca. A catequese nos ensina o canibalismo desde cedo, depois é difícil mudar. Faço compras quando estou de luto. Contrair uma dívida é uma forma de adiar a morte. Eu colecionava carnês de lojas. Pareciam cheques. Escrevia no papel carbono para ver minha letra atravessar a parede como um fantasma. O sol é mais fofoqueiro do que a chuva - põe todo mundo à rua. Quando as cerejeiras se separam do inverno, elas pintam o cabelo. Queria ser mais real para não me enxergar. Na natação, nunca ganhava a disputa do maior tempo de mergulho. Meus ouvidos não aprenderam a nadar. Me comovo com quem lambe a tampa do iogurte. Não me comovo com quem consulta o relógio. Os joelhos são escadas sem corrimão. Conheci gente que se machucou feio ao cair dentro de seu corpo. Não sei puxar conversa, sei terminar a conversa. Amar com medo é mais seguro do que amar sem medo. Na falta de amor, ao menos, ama-se o medo.

10:02 AM :: Comentários: