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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Setembro 30, 2004

ALÉM DO PORTÃO
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Conheci uma mulher que era bem avara em seu jardim. Escolhia o verde essencial, umas flores discretas e ínfimas, de intimidade prosaica, para não chamar atenção dos vizinhos. Roseiras e orquídeas, nem pensar. Onze horas, de vez em quando, para se lembrar do almoço. Sua vaidade era a bengala, que a equilibrava na janela. Ela gostava mesmo de ser generosa para fora de casa, de plantar ameixeiras e pitangueiras no canteiro da frente, depois de seu portão. Quando as árvores se enchiam de frutos, as crianças ficavam ouriçadas, com medo de serem advertidas, cabuladas e ofendidas pela dona. Não, ela dizia, podem ficar à vontade, levar quantas quiser. As frutas são da rua. Ela ria desavergonhada, com uma safadeza do bem, germinada muito além do vaso.

12:06 PM :: Comentários:

FEIRA DO LIVRO

Donaldo Schüler é o patrono da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, anunciado na manhã de quinta (30/9) pela Câmara Rio-grandese do Livro. Merecido. Ele nos representa. Confira mais informações sobre o autor, premiado tradutor de Joyce e de si mesmo.

12:05 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 28, 2004

DELICADEZAS
Imagem de Giacometti

Fabrício Carpinejar



As paredes ficam úmidas quando sentam no lugar da janela. O sol torna o musgo mais escada. Confundo a xícara de chá com o peso de tua mão. As palavras formam a boca, não o contrário. Vou dormir até mais tarde em teu rosto. Se alguém fala sem pensar, não deves pensar ao ouvir. Nem os telhados são tão parecidos quanto a gente.

11:11 PM :: Comentários:

IMPERDÍVEL

Na quinta (30/9), às 19h, a escritora Cíntia Moscovich lança seu livro Arquitetura do Arco-Íris, com dez contos inéditos, e reedita a novela Duas Iguais, prêmio Açorianos de Literatura, pela Record, sua nova editora. Será na Livraria Cultura, em Porto Alegre. Fazia quatro anos que ela não publicava, desde Anotações durante o incêndio (2000)

Haverá debate antes dos autógrafos com Luiz Antonio de Assis Brasil e Roger Lerina. A atriz Mirna Spritzer interpretará uma das narrativas.

5:19 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 27, 2004

AMALDIÇOADO DE TERNURA
Gravura de Wilhelm Hammershoi

Fabrício Carpinejar

Ela me disse não, mas entendia sim. Ela me dizia sim, mas entendia não. Não demoro em voltar. Não demoro em sair. Não demoro. Se tenho algum segredo, faz de conta que é ela. Todo começo é uma desistência. Queria me abençoar lambendo as patas como um animal. Se eu tivesse sido feito para calar, não gemia. Não posso ficar olhando demais para ela, senão ela me exclama. Não posso ficar olhando de menos para ela, senão ela me interroga. Palavra é coisa de pegar com a boca. Não me poupo nenhum sofrimento, muito menos a alegria do sofrimento. Engolir a dor dá soluço. Se só bebesse água potável, não beberia minha vida. Não peço desculpas para não perder os meus erros, para tê-los sempre como filhos perto de mim. As dificuldades me prendem mais do que os hábitos. O cacto é amaldiçoado de ternura. Seus espinhos são caules. Quero acreditar que me abandonei por convicção. Sou do outro mundo para me espiar em segredo. A loucura é quando não basta a liberdade para ser livre. Meus olhos ficam gratos quando o fogo acena e penso que é comigo. Por piedade, não me deixes viver o que posso, que me seja permitido desaprender os limites.

11:14 PM :: Comentários:

AMORES QUADRADOS, REDONDOS E TRIANGULARES


No escuro luminoso de Curitiba. Foto de Cecília Gianetti

Na quarta (29/9), às 20h, sou o convidado da edição especial do Sarau Elétrico no Salão Imperatriz do Leopoldina Juvenil (Rua Marquês do Herval, 280 Fone: 51 3323.4336), em Porto Alegre (RS), com Kátia Suman, Luís Augusto Fischer e Frank Jorge. O tema do encontro é Triângulo, Quadrado e Círculo Amoroso.

7:38 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 25, 2004

JORNAL ZERO HORA, CADERNO CULTURA
Porto Alegre, 25/09/04. Edição nº 14278


QUE FAZER DE AFFONSO
ROMANO DE SANT'ANNA?


O poeta mineiro tem toda sua obra - de 1965 a 1999 - reunida em dois volumes da coleção de bolso da gaúcha L&PM. É uma poesia sem fobia do cotidiano

FABRÍCIO CARPINEJAR
Jornalista e poeta, autor de Cinco Marias e Caixa de Sapatos, entre outros livros
Foto(s): Paula Foschia, divulgação/ZH


Affonso Romano de Sant´Anna


O poeta mineiro tem toda sua obra...


... reunida em dois volumes da coleção de bolso da gaúcha L&PM


Há duas formas de anonimato: de quem é realmente desconhecido e do excessivamente famoso. As duas visibilidades retraídas têm o mesmo peso. Não deixa de soar estranho que o iniciante possa ser confundido com o veterano, o comum com o célebre. Mas é o que acontece. Poetas de tão conhecidos, lidos, amados e odiados entram automaticamente no senso comum e deixam de ser discutidos. Ingressam numa espécie de limbo, pairando acima da vida e da morte, dos prêmios e das críticas, como um nome a memorizar ao vestibular. Todo mundo conhece um pouco, mas longe de atualizar seu conhecimento. O verbo ler é substituído pelo substantivo consulta. O escritor Affonso Romano de Sant'Anna é uma das vítimas de sua própria fama. Alguém pode dizer que já o leu, porém tem na cabeça apenas os versos de Que País é Este?, em que mostra como o Brasil purga seu passado criminoso. Outro pode afirmar que já o conhece, entretanto, folheou apenas A Catedral da Colônia, onde mistura impressões da Europa com sua terra natal. A maioria deve ter lido algum poema seu, talvez um fragmento de A Vergonha de ser Brasileiro, no jornal ou na internet e já se convence de que é seu leitor de carteirinha. Ninguém é velho o suficiente para não fazer novas amizades ou para descobrir o futuro da voz no passado de outro autor. Agora a L&PM possibilita descobrir a obra poética inteira de Affonso Romano de Sant'Anna em dois volumes, reunindo oito livros de 1965-1999, em mais de 600 páginas, a preços acessíveis de R$ 21 e R$ 19. Uma chance para as novas gerações conhecerem uma das trajetórias mais polêmicas, impulsivas e provocativas da poesia brasileira. Extravagância? Exagero ainda é melhor do que omissão, do que ocultar um nome ou um estilo por não integrar nenhuma tribo ou seita. A única panela que Affonso vive é a de pressão. No resto, tem a soberania solitária do verso.

Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1937, caracterizado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor natural de Carlos Drummond de Andrade, Affonso teve participação ativa nos movimentos político e social de luta contra a ditadura. Midiático, leu uma série de poemas para a televisão (Rede Globo), transmitidos no horário nobre com uma audiência de 60 milhões de pessoas. Realizou também versos sobre futebol e a Copa do Mundo (1986), que eram exibidos após os jogos do Brasil.

Sua Poesia Reunida mostra que recitar para Affonso é o equivalente a reclamar, não exaltar ou mascarar. A verdade é mais importante do que a beleza. É possível encontrar nele um precursor do rap no Brasil. Põe no rádio esses dois versos a seguir:

Como o rap, verifica-se a mesma repetição centrando o discurso, possibilitando improvisos, dispersões e giros sem perder a intensidade. Já o compararam a Neruda pela adesão momentânea do discurso a fatos esporádicos e circunstanciais, mas sua poesia não é engajada, porque não está disposta a construir nada, utiliza lugares-comuns para destruí-los, para desautorizar a autoridade dos provérbios que não fazem pensar o comportamento ou pesar a existência. Em seu primeiro livro, Canto e Palavra (1965), Affonso deu a síntese do que buscaria, dividindo os poetas em homem-texto e o homem-canto. Adotou o segundo modelo performático, cênico, valorizando o andamento gritado acima de tudo, da melodia áspera, da convocação e intervenção. Sua lírica é ritualística, como longos poemas épicos transmudados para um fundo lírico, presente e urbano. Procura o que a palavra esconde mais do que aquilo que a palavra evidencia. Articula-se numa possessão da consciência, no desafogo das contradições que não permitem diminuir sua culpa de estar vivo. Culpa é a chave emocional dos textos. Uma culpa coletiva, herdada, e que não deixa de ser pessoal, sinalizando a responsabilidade pelo seu espaço de atuação. Sua espontaneidade é dedução, construção, desvinculada por completo da escrita automática, do inconsciente. Ao invés de acreditar piamente no que diz, se reescreve, se questiona e se censura, tomado de autocrítica.

Riocentro, miséria e marginalização são temas que migraram da política para suas páginas, expondo uma subjetividade histórica (que difere da objetividade histórica, pois acrescenta e reverbera o impacto dos acontecimentos em seu pensamento). Teve a coragem de adoecer no seu tempo, de optar por uma escritura permeada de sobressaltos de sua época, sacrificando o distanciamento e ganhando em contundência. Não fica em cima do muro, toma o partido drummondiano dos homens partidos. Affonso medita e reconhece a poesia como cultura, além das cercas de um gênero e da literatura.

Se no primeiro volume de Poesia Reunida Affonso pensa em voz alta, em um viés de epicidade turbilhonada, no segundo volume ele assume uma condição de cantochão, seduzido pelas anotações de viagens e detalhes do relacionamento amoroso e da família. Começa a pensar em voz baixa, culminando com as conversas sobre a velhice, a morte e a permanência da memória em Textamentos (1999). É nesse momento que alcança seus altos flagrantes luminosos, em poemas curtos e aforísticos: "Não se pode esgotar o dicionário / ou amar completamente / tudo o que encontramos". Da mesma forma em que o cão urina para marcar seu território, Affonso Romano de Sant'Anna não tem pudor e fobia do cotidiano.

Saiba mais:

O Lado Esquerdo do Meu Peito, 1992

"Todas as guerras são estúpidas,
não só as púnicas.
Todas as guerras são estúpidas,
inclusive as guerras santas"

Que País É Este?, 1980

"Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode."

10:33 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 23, 2004

VERSÍCULOS
Gravura de Wilhelm Hammershoi

Fabrício Carpinejar



Não confio no copo. Deixo todo veneno em minha boca. Tem dias que ficam como brechas na estante. Não sei se alguém retirou emprestada alguma data de minha vida, roubou ou apenas me aliviou do peso de me lembrar. Desejo ser recordado por aquilo que esqueci. Aquilo que esqueci não cabe em uma biblioteca. Há dois tipos de memória: memória de motorista e memória de passageiro. Minha memória é a do passageiro. Falho ao repetir a rua, entro em outra como se já fosse a mesma. Não guardo nomes para ficar investigando os pátios das casas. O que eu vou ser quando crescer é o que não tive tempo de fazer na infância. A esposa trocou de fechadura, mas não coloquei a chave fora. A chave é também aliança. A porta sente ciúmes do que se fala na janela. Nunca fui visitado por fantasmas. Meus fantasmas são discretos como um prato de sopa.

6:49 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 21, 2004

ENTRE A DESCULPA E O PERDÃO
Gravura de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar



Eu já pedi tantas desculpas. Na infância, os pais, a professora e os irmãos forçavam desculpas a toda hora. Não compreendia como uma palavra me liberava a dizer palavrão depois. Uma palavra me salvava de crespar no castigo. Uma palavra e estava limpo novamente, de banho tomado na linguagem. Não era fácil dizê-la, algo como esmolar. Nunca o foi, pois o rosto de quem a espera lembra o último camafeu em uma bandeja. Eu a falava para dentro, com beiço, esperando o anúncio de um abraço ou beijo para aliviar a carga dramática. Se as desculpas são difíceis, pedir perdão é um tormento. Como diferenciar o perdão da desculpa, qual é o momento adequado para um e outro? Com perdão, os olhos devem estar fechados e a boca atenta como um ouvido. No perdão, percebo que viver não nos dá tudo, muitas vezes nos tira. Que uma voz não é sorte, que não é para ser temida, que até Deus fica nervoso durante a missa, que a morte é apenas o desequilíbrio entre o medo e o desejo, que até a humildade tem pressa. No perdão, a lealdade não precisa perguntar e a luz que me deixa ver é também paisagem. Com o perdão, percebo que se a mulher com que vivo e amo não existisse, ainda a amaria igual, amaria sua ausência com ritual e zelo, em cada objeto da casa. Que uma ave não canta a mesma música, sua memória é a árvore. A ave é a mão musicada da árvore. Perdoar é se dar conta de que o amor protege mais do que evita, que nem o mar encontrou sua transparência e o vento não chega porque se esqueceu em seu corpo. Perdoar é escoar, desculpa é recuo. Como mexer o açúcar com os dedos é diferente de mexer o sal. Perdoar é reparar que não olho tanto minha mulher para assim imaginá-la e não envelhecê-la. Que o meu melhor tempo é o tempo alheio. Que o ritmo de meus passos obedece o espaço exíguo de meu quarto. Que há lembranças que somente podem ser dançadas, nunca repetidas. Desculpas acontece quando queremos nos libertar do outro, nos redimir. Perdão não se importa com a projeção, é libertação de si próprio.

12:08 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 20, 2004

OUTRAS DUAS MULHERES
Gravura de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar



VI. Ela não tomava banho de sol, mas banho de escuro. Pele branca, como uma praia ainda desabitada. Não fingia prazer, se arremessava para onde não havia voz no corpo. Os cabelos escorregavam até os mamilos. Encostava os lábios em sua pele para recordar de onde já esteve. Pressionava as coxas para aumentar o segredo. Fechava os olhos para acariciar os seios de um jeito que somente ela conhecia e dava conta. A mão era uma chave sem cópia para oferecer ao amante. Ela costumava rir de seus pensamentos tolos. Mas não trocava a tolice por nenhuma seriedade. Gostava apenas do primeiro copo de chope da noite ou do último cálice de vinho da noite. Dizia que em ambos não sofreria de ressaca. Seus olhos tinham aquela espuma que fica nas roupas depois da luz.

VII.

Ela odiava quando a perguntavam o que estava pensando. Ela não pensava em nada e precisava encontrar uma explicação para estar parada. Desde quando não fazer nada depende de um motivo, senão seria fazer alguma coisa. Pensava que essa pergunta acontece pela falta de assunto. Ou o medo da falta de assunto. Que o homem questiona o que ela está pensando, porque no fundo pressente que ela não está pensando nele. Infelizmente o homem não descobriu que não é o principal assunto do dia. Não pensar em nada a fazia ficar ainda mais pensativa. Misteriosa e serena, diferente da submissão que apresentava ao falar. Pensar em nada dava a idéia de que não voltaria para a casa cedo. Ela admirava sua beleza sem propósitos.

10:57 AM :: Comentários:

CURITIBA, LEMINSKI E TRANSGRESSÃO

Sou um dos convidados do tradicional Perhappiness, encontro literário nacional da Fundação Cultural de Curitiba, que acontece de 21 a 26/9, no Teatro Londrina, na capital paranaense. A 16ª edição do seminário tem como tema "A transgressão da linguagem", com a proposta de colocar em debate a literatura que foge dos padrões convencionais de forma e conteúdo. O evento foi criado para homenagear Paulo Leminski (1944-1989), poeta que se estivesse vivo estaria completando 60 anos e criador da expressão Perhappiness (perhaps - talvez + happiness - felicidade). As palestras, shows, espetáculos e performances reúnem poetas e escritores que de alguma maneira "transgridem" a linguagem.

Participo como mediador da discussão "Translinguagem" na quarta (22/9), às 19h30, com Micheliny Verunschk (Pernambuco), Ricardo Corona (Paraná) e Sebastião Nunes (Minas Gerais). Em seguida, faço sessão de autógrafos do livro Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004), obra que apresenta os desejos e as inquietações de uma mãe e suas quatro filhas.

10:55 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 18, 2004

PORTA GIRATÓRIA, BOLACHA RECHEADA E EXPLICAÇÕES PELA METADE
Gravura de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar

Há tanta coisa que amei sem entender. Acho que amo para não explicar. Amo para deixar de me explicar. Amo para me contradizer de explicações. Eu me sinto difícil, um texto difícil, eu me sinto burro quando me leio. Cada vez mais burro. É a pressa de minha letra. Eu sou embaralhado de desejos, os desejos são dúvidas que o corpo responde e não explica. Responder não significa explicar. Explicar mesmo é quando dedicamos uma vida por uma pergunta. Mas quem faria isso? Já é penoso dedicar uma vida inteira para ter uma resposta. Se não entenderes o que quero dizer, estamos quites. Eu sou mais o desaforo do que o elogio. Somos todos vulgares, mas alguns são vulgares na hora certa e outros vulgares a toda hora. Uma mulher vulgar no quarto é muito educada para a memória. Um homem vulgar fora do quarto é muito educado para o esquecimento. Vulgaridade é como religião, quem reza sem parar não sabe nem mais para o que está rezando. Rezar exige esquecer de rezar. Rezo no automático e de vez em quando já estou pensando em amoras, em doces, em minha mulher dobrando o lenço, em pornografia. Sei lá, já estou orando para outra coisa que não a minha promessa. Eu rezo para lembranças emprestadas, alheias. Não se fica no mesmo lugar do pensamento nem para escovar os dentes. O pensamento migra. Um dos meus pânicos é chamar o garçom e ele não me enxergar. Levantar o dedo impulsivamente e ficar com o braço ao alto, sem contrapartida. Um braço erguido me faz ser insignificante, como um náufrago. O garçom olha para todos os lados, menos para mim. Ameaça virar o pescoço e o rosto não o acompanha. Sou uma parede falsa. Depois que se levanta o dedo, não adianta coçar o ouvido. Coçar o ouvido é mais feio do que não ser reparado pelo garçom. O garçom deveria ter sido aluno da minha professora no ensino fundamental. Alçava-se o dedo e ela chamava rapidamente meu nome. O nome faz a maior diferença quando não se entende o que se quer dizer. Há pessoas que somente escutam uma conversa quando seu nome é citado. Mas meu interesse não pode ser reduzido ao meu nome. Quanto mais se explica, mais se confunde. Como esclarecer o relacionamento no fim de noite. Acerta-se a primeira provocação e depois se erram as seguintes, tenta-se corrigir e nos atrapalhamos com as palavras. Confessamos o que não foi pensado e de vítima a agressor é um passo. Quantos casamentos ruíram pela mau uso dos sinônimos, apesar das melhores intenções do casal? Arrancar um pedido de desculpa custa caro. E a discussão do relacionamento não termina porque não se tem mais como escapar dela de uma forma digna, restando o choro ou o cinismo. Acho que amo para não explicar. Amo para deixar de me explicar. Amar é como uma porta giratória para uma criança. Ao empurrar a porta, a criança retoma o seu local de partida, não entrará no novo ambiente. Porque não há lógica em dar uma meia volta. Ninguém quer uma paixão pela metade, uma passagem pela metade, uma amizade pela metade. Porta giratória é um crime. Assim como todo amor. Ele me sugere que vou sair para fora de mim, porém no fundo eu fica mais preso em mim. Na verdade, giro para regressar ao lugar que sai. É complicado? Pensa então nas bolachas com recheio. Eu abria com cuidado cada uma delas, separava em dois blocos e raspava com os dentes o chocolate ou o morango. Havia tanta concentração para não quebrá-las antes de finalizar o ritual. Não admitia parar no meio. Virava um sonâmbulo da boca. Sempre me falaram que não é aconselhável acordar um sonâmbulo. O sonho sabe melhor o caminho de volta do que o próprio sonhador.

8:18 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 17, 2004

A QUINTA PERGUNTA
Gravura de Richard Hamilton

Fabrício Carpinejar



Feio, pernas tortas, língua presa. Mensalmente, eu era submetido a um eletroencefalograma para verificar se havia algum problema mental. O médico me colocava uns bobes meio estranhos e ficava envergonhado Quem usava aquilo era a mãe. A irmã na noite anterior tentou me forçar a colocar um vestido. Pensei que fosse uma conspiração. Não queria ser menina, queria namorar meninas, que não davam a mínima para meu jeito de abacateiro que só serve para doce e vitamina. Eu lia Menino do dedo verde. Não gostava do Pequeno Príncipe porque acreditava ser perfeitamente possível usar como chapéu uma jibóia com elefante dentro. Examinavam-me com mechas elétricas, fios castanhos que nada tinham a ver com o desvario loiro. Quando fui fazer o exame, cogitei a hipótese que o médico caçava piolhos. Não botou neocid, um pó branco que me dava alergia como o giz da escola, isso me confundiu (ao partir para o quadro negro, espirrava freneticamente, até que a professora parou de me chamar). No eletro, ele montou uma arapuca difícil de reconstituir na tapeçaria dos cabelos, jurava que estava sentado em um salão de beleza disfarçado. O que mais gostava na vida era acompanhar o pai no barbeiro e folhear revistas velhas. Meu pai contava sempre a mesma piada ao tio, que ria exatamente igual como da primeira vez. Não sei se era generosidade ou interesse comercial. O beijo de meu pai na terça-feira cheirava a loção pós-barba. Agora não entendia o que eles procuravam em mim. Caracóis, lesmas, insetos? Eu comi um mosquito de boca aberta. Tomei água para descer o comprimido de asas. Durante uma hora, fui descrito por um monitor, que traçava linhas para baixo e para cima. As linhas não pareciam desenho da minha cabeça, além de fugir das cercas da caligrafia. Aquela caneta sem mão desenhava ainda pior que o Pequeno Príncipe. Não me meti para não faltar com educação, já que estava de macacão, roupa de domingo. Quando botava roupa de domingo, participaria de algo importante e me esforçava ao recato e ao silêncio para não sofrer castigos. Eu apanhei quando brinquei com o irmão debaixo da mesa da missa. Eu puxei sem querer a toalha da mesa e o cálice de vinho arrebentou no chão. Arrebentou é modo de dizer. O padre subitamente tingido pela golfada vermelha. Todo mundo gritou: - mataram o padre. O padre estava apenas sujo de Deus. Enquanto escutava o alarido insano, preocupei-me com a idéia de que a roupa não poderia ser lavada. Deus não toma banho. Ou será que luz toma banho? Ninguém me explicava depois da quarta pergunta. A quinta pergunta carecia de resposta do mundo. Podia ser castigo aquele varal entre uma orelha e outra. Esticado como o hamster morto de meu irmão. Duro e cinzento. O médico dizia: não vai doer, é como um raio-x. Já tinha feito raio-x da cabeça. Várias vezes. Entendi que era parente do raio-x. Ele botava chiclete no meu cabelo e a mãe deixava. Desejei ser médico, para usar avental branco e me permitir contrariar a infância. Ao sair do consultório, os pais comentavam que não havia nada, nunca havia nada e eu voltava igual para repetir o ritual. Acabavam tristes porque não encontravam explicação para minhas vontades de terreno baldio. Eu admirava a bananeira do terreno baldio, como era linda com suas camadas castanhas, feixes verdes, exuberante de bichos e solidão, escorada nas calhas do vento. Os pais se abatiam porque não apresentava um sintoma, uma doença. Ressentidos com minha vida insubordinada. Tudo bem, eu havia cortado a testa cinco vezes nos últimos dois anos: uma ao imitar o Tarzan com a corda do pátio, a segunda ao brincar de amarelinha nas pedras de um rio, a terceira ao perseguir um amigo e não enxergar a quina da parede, a quarta ao escorregar e apunhalar a tampa da mesa, a quinta no pega-pega da escola. Somava trinta e cinco pontos até os nove anos, mas não chegava a ser motivo de preocupação. Lembro-me de ir para aula com resíduos da massinha do aparelho nos cabelos. Me investigaram e não descobriram o sentido da falta de sentido. Fingi bem.

(Texto publicado no Rascunho,
coluna Carpinejar, edição setembro de 2004)

9:41 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 16, 2004

DE PÉS DADOS
Gravura de Serge Poliakoff

Fabrício Carpinejar



Eu sei, eu sei, andar de mãos dadas é como fechar uma rua. Ter uma rua só para ela. O corpo estala em estar junto. Ervas que se trançam nas grades, fazendo que a janela pareça aberta mesmo quando lacrada. Dar as mãos já é suar a dois, transpirar a dois, respirar a dois. É levantar um corpo da grama para deitá-lo na boca. Eu sei, eu sei, mas melhor do que as mãos entrelaçadas é andar de pés dados de noite. De leve, empinar o peito do pé na sola feminina, ensolarada, como se fosse um outro lençol no lençol. Um pão equilibrando a mesa. Acariciar o batimento dos dedos, o atalho das unhas, percorrer a pele, ciscar as marcas das sandálias, chegar como um assobio inseguro. Tudo ali para calçar: o canto líquido, as amêndoas, a beleza discreta. Dormir de pés dados é se espreguiçar para dormir ainda mais.

9:52 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS

Varal de Letras, série de debates mensais que apresento na Livraria Cultura, recebe os escritores Luiz Coronel e Frank Jorge. Com o tema Poéticas, crônicas e crocâncias, o evento acontece nesta quinta (16/9), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). O encontro tem entrada franca e pretende mostrar a irreverência das duas vozes, as convicções, semelhanças e diferenças de duas gerações da poesia gaúcha, ambas muto ligadas à crônica e ao apelo popular.

Formado em Direito, Sociologia e Política, Luiz Coronel atua como poeta, compositor e diretor de uma agência de publicidade em Porto Alegre, autor de "Mundaréu", "Retirantes do sul", "Cavalos do tempo", "Baile de máscaras", "Pirâmide noturna", "Clássicos do Regionalismo Gaúcho", "Concerto de Cordas", entre outros. Sua obra recebeu diversos prêmios, entre os quais: Prêmio Influência Poesia Espanhola, Universidade de Pamplona, Espanha, em 1990, e Premio Octavio Paz, da Revista Plural, Universidade do México. Publicou uma série de causos gauchescos nas antologias "O cavalo verde" e "O cachorro azul", sucessos de público como livros mais vendidos na Feira do Livro de Porto Alegre. Formado em Letras, Frank Jorge é poeta e músico. Fez parte das bandas "Os Cascavelettes", "Graforréia Xilarmônica" e "Cowboys Espirituais". Tem na bagagem dois CDs solos "Carteira Nacional de Apaixonado" e "Vida de Verdade" e escreveu os livros "Crocâncias Inéditas" e "Realidades e Chantillys Diversos", uma prosa solta e poética sobre as mais divertidas e infames cenas do cotidiano.

O já tradicional Varal de Letras consiste num bate-papo coloquial e franco sobre estilos, buscando valorizar a vida da leitura. Expõe a obra de novos poetas com humor e naturalidade, diminuindo o abismo entre os leitores e os criadores. Funciona como uma espécie de entrevista aberta, com a participação do público.

9:51 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 15, 2004

ALTURA DAS VOZES
Gravura de Matisse

Fabrício Carpinejar

Eu escutava as conversas altas da cozinha. Não entendia porque os pais me obrigavam a dormir cedo enquanto os adultos ficavam rindo, se divertindo, conversando. Eu me sentia proibido de ter o dia por inteiro. Experimentei metade dos meus dias na infância, completando somente hoje metade de minha idade, apesar de aparentar o dobro dela. As vozes na cozinha são mais altas do que as vozes no quarto do que as vozes no corredor do que as vozes no pátio do que as vozes na sala. As vozes na cozinha têm ardor, uma absoluta falta de pudor, um descompasso, uma sinceridade desmedida. É nela que se promete e ameaça casamentos, em que os inimigos são eternos, os melhores amigos se reencontram, e descobre-se que metade da vida são as verdades que os outros levam e somente contam tarde demais. Eu sempre quis viver na altura das vozes da cozinha.

11:30 AM :: Comentários:

MULHERES

Fabrício Carpinejar



IV. Ela tem repulsa por livrarias largas, amplas, espaçosas. Acredita que o livro passa vexame, exposto como cachorro e gato dentro de gaiolas. Ela não entra em nenhuma livraria que não seja pequena como um quarto de fundos. Quer um bidê, um abajur e uma cama para ler. Pede só que o colchão seja de penas e que o livro seja de plumas, com o peso exatamente igual ao da mão de seu amante.

V. Ela não entra em bibliotecas. Acredita que o livro foi dissecado, aberto por um legista, com a ficha catalográfica atrás, denunciando os cortes depois da morte. Deseja cortes vivos, com sangue para alertar o tamanho da ferida e depois saliva para cicatrizar. Ela não entra em bibliotecas, fica irritada ao procurar os livros pelos códigos. Chama a obra pelo nome de solteiro. Não aprecia encadernações conservadas, mas as prefere amassadas, deduradas, denunciadas por beijos e língua. Ela não usa toalha em sua mesa, põe um livro como se fosse prato e come seu pão integral esfarelando o verbo. Suas páginas prediletas estão marcadas com farelos.

11:25 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 14, 2004

LITERATURA NO SEMPRE ÀS TERÇAS

Fabrício Carpinejar

Ninguém escreve sobre a terça-feira. Adriana Falcão falou da segunda em O Doido da Garrafa. A terça não vira personagem. Daniel Defoe batizou de Sexta-feira o amigo de Robinson Crusoé. Ela não é uma data temida como a segunda, irritante como a quarta, amada como a sexta, dorminhoca como o sábado e churrasqueira como o domingo. É o início da semana, mas nem tão início nem tão final. Ela fica gorda de repente e passa todo o ano emagrecendo. Feriado em terça é quase uma maldição ou um convite para emendar e cabular o emprego ou a aula, e quem recebe a culpa é a segunda, que não aprendeu a descansar e se mete na conversa do calendário sem ser convidada. A terça é aventureira, estica o pescoço, ouve o vento. Acontece de mansinho, como um dia que não quer nada e já determina o humor do resto da semana. Só na terça é que saímos do final de semana para pensar no outro final de semana. A terça não tem tantas dívidas como a segunda e não fica devendo como a sexta. Os ônibus estão menos lotados, as praças mais vazias, os cinemas mais calmos, os cafés com atendimento personalizado. É o momento em que lembramos de lembrar e não esquecemos de esquecer. Terça é um rádio ligado, chama atenção mas não impede de fazer outras coisas. Não se decide nela parar de fumar, parar de beber, parar de amar. Terça não é decisão, não é apropriada para dietas, suicídios, provas, demissões, enfartes. Jogo de futebol é na quarta e no domingo. Na terça, não se briga pelo canal, os casais estão conciliados, a cama tem mais sentido do que o sofá. A terça é parto natural, amizade natural, talento natural. A terça é anotar um telefone no guardanapo, um telefone no cigarro, um telefone nas costas das mãos. Não existem classificados na terça, só anúncios eróticos ao pé das páginas e palavras de pernas cruzadas. Na terça, olha-se o pêndulo dos segundos e não dos minutos e muito menos das horas. A terça tem um futuro pela frente, cinco dias para errar, mudar de opinião, de cabelo, de música, de partido. Na terça, procuramos roupas no alto do armário, provamos o corpo mais do que o espelho. A terça se inventa e não se copia como a quarta, não consulta a agenda e os obituários. A terça é fofoqueira e conta se haverá sol ou chuva nos demais dias. A terça escolheu ser artista numa família de advogados. A terça é discreta por temperamento, não é anônima por falta de opção como a quinta. Compreende, não caça culpados, não discute a relação. Não se termina um casamento na terça, mas se começa um namoro. Terça é dia bom para um livro. Ainda melhor se é um livro falado. Como acontece agora no Sempre às Terças. Que mete bronca na literatura. Ou a boca no trombone.

SARAU COM A BOCA NO TROMBONE
FAZ ESTRÉIA NO SEMPRE ÀS TERÇAS

Primeiro convidado é João Gilberto Noll


Prontos para a reforma literária: Cláudio, Márcia e Fabrício
Foto Renata Stoduto


A literatura entra de vez na programação artística da Unisinos, atendendo solicitações dos alunos. Abrindo a temporada de setembro do projeto Sempre às terças, uma nova proposta da Coordenação Cultural faz sua estréia na terça (14/9), às 18h, no Anfiteatro Padre Werner. É o sarau Com a boca no trombone: quarteto de cordas vocais, com apresentação do poeta Fabrício Carpinejar, do músico Cláudio Levitan e da filósofa Márcia Tiburi. Com edição mensal, pretende falar de livros sem bolor, com humor, descontração e irreverência. O tema é livre, sem meias-verdades, mostrando que o riso pode ser um aliado da sensibilidade. O espetáculo expõe leituras, detalha pensamentos e teorias dos principais nomes da literatura, recita textos, dando vazão e saída às opiniões e comentários. Uma conversa com fundo musical, politicamente incorreta e poeticamente verdadeira. Em cada evento, três alunos do Sinos Acorda serão escolhidos para tocar seus trabalhos. Uma forma de inspirar os instrumentistas do projeto comunitário, além de revelar talentos e dar espaço para as jovens expressões da música.

O primeiro convidado de Com a boca no trombone será o gaúcho João Gilberto Noll, um dos melhores escritores brasileiros em atividade, quatro vezes premiado pelo Jabuti, vencedor do prêmio da Academia Brasileira de Letras 2004, categoria Ficção, com "Mínimos, múltiplos, comuns", autor de romances adaptados ao cinema como "Harmada". Noll falará de seu novo trabalho, Lorde, lançamento da W 11, que retrata a viagem de um escritor por Londes, sem saber ao certo o motivo do convite, e que gradativamente vai perdendo a identidade. Autor visceral e sinfônico, com uma escrita caudalosa e febril, impregnada de oralidade, Noll declamará trechos do seu romance.

O trio de apresentadores abarca a poesia, a filosofia e a música. São coringas palpiteiros, com experiências em diferentes áreas de conhecimento. Carpinejar é autor de As Solas do Sol (1998), Um terno de pássaros ao sul (2000), Terceira sede (2001), Biografia de uma árvore (2002), Caixa de sapatos (2003) e Cinco Marias (2004). Tem sido reconhecido com uma das novas forças da literatura brasileira. Sua obra está sendo editada em Portugal e na Itália. Vários de seus versos já foram publicados em revistas e antologias no México, Alemanha e Espanha. Nos últimos cinco anos, já ganhou o Prêmio Nacional Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, o da Associação Gaúcha de Escritores/2003, duas vezes o Açorianos de Literatura em 2001 e 2002, os prêmios Cecília Meireles e Fernando Pessoa, da União Brasileira de Escritores, o Marengo D´Oro, em Gênova (Itália) e o Destaque Literário (júri oficial) da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Márcia Tiburi é artista plástica, professora da Unisinos e escritora, doutora em Filosofia pela UFRGS. Vem chamando atenção pelas suas teorias inusitadas e sensíveis sobre a tristeza. Defende a democratização do amor e da amizade. "Democracia não é só política. Democracia é conflito e envolve as relações da vida privada", adverte. Entre suas observações, acredita que a rua, que era para ser sinônimo solar de espaço aberto, assumiu um caráter repressor de campo de concentração. Crianças sem família, mendigos e loucos, quem está fragilizado e sem valia social dorme na rua. A rua, contraditoriamente, se converteu em uma espécie de prisão. Escreveu Crítica da Razão e Mímesis no pensamento de Theodor Adorno (1995), Metamorfoses do Conceito, Adorno e a Dialética Negativa (no prelo) e Filosofia Cinza (Escritos, 2004). Co-organizou as antologias As Mulheres e a Filosofia e O corpo torturado. Publicou, junto de Ivete Keil, Diálogo sobre o Corpo (2004).

Cláudio Levitan é um dos grandes compositores e músicos gaúchos. Múltiplo, atua também como escritor, ilustrador, roteirista e diretor de espetáculos cênico-musicais, além de sua formação em arquitetura, com mestrado pela University of Newcastle-upon-Tyne (Inglaterra). Ficou conhecido pelas suas letras que rodaram o país com Tangos e Tragédias. Recebeu o Prêmio "Itaú Cultural Rumos Musicais" (2001) e quatro Açorianos como melhor disco pop (1997); melhor espetáculo de MPB (2000); melhor trilha sonora para teatro (2000) e melhor livro infantil (2001). Seu mais recente CD, Minha Longa Milonga (2002), recebeu o apoio institucional da Unesco.


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Segunda-feira, Setembro 13, 2004

TRÊS MULHERES
Desenho de Fra Angélico

Fabrício Carpinejar



I. Ela não queria anotar a reunião na agenda. Torcia para que nenhum convite viesse, que a obrigasse a notas, alertas e avisos. Ao final do ano, recolhia a agenda vazia, intacta, quase sem marcas, e sorria orgulhosa de não ter feito nada. Sentava em sua mesa na varanda, chiava lentamente a xícara de café, abria o ano passado e escrevia seus poemas como lembranças que se atrasaram.

II. Ela nasceu viúva, havia me dito. Desejava casar para ficar solteira. Desejava se separar para ficar casada. Desejava enviuvar de novo para nascer. Nunca encontrou homem que lutasse por ela. Amou por descuido o seu próprio desejo.

III. Ela não se preocupava com as trancas da porta, não se levantava para verificar se estava segura. Dava-se bem com o escuro, em ser vulgar em segredo. Xingava a si mesma com facilidade. Ofendia-se, sabia que depois de usar tranças tudo seria tarde. Tinha seu retrato como confidente. Reparando a ausência de frestas, a casa vedada, abriu uma torneira como uma janela. Despertou sem amanhecer.

11:55 AM :: Comentários:

SE EU FOSSE PREFEITO
Foto de Antônio Pacheco/ZH

Fabrício Carpinejar, 31 anos
jornalista e escritor:



"Criaria oficinas culturais em salas de aula, como atividades curriculares. Essas aulas de música, poesia e arte exercitariam a convivência social, despertando as crianças para o aprendizado de leitura e escritura do mundo. Que o planejamento familiar se tornasse o planejamento cultural de cada um. É preciso acabar com os programas de assistencialismo sem fiscalização, que somente reafirmam a pobreza."


Jornal Zero Hora, caderno Eleições
Porto Alegre (RS), 13/09/2004, Edição nº 14266


7:07 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 12, 2004

SEMANA, MÊS

13/09 (segunda) - Palestra no Colégio Aplicação, às 8h45, em Porto Alegre (RS). Volto ao meu colégio, onde estudei o ensino médio, como patrono de sua Feira do Livro.
14/09 (terça) - Palestra na Fundação Liberato, às 10h15, em Novo Hamburgo (RS).
14/09 (terça) - Estréia do sarau "Com a boca no trombone". Atuo como um dos apresentadores, ao lado de Márcia Tiburi e Cláudio Levitan. Convidado especial: João Gilberto Noll. Acontece no Anfiteatro Padre Werner, às 18h, entrada franca, dentro da programação do Sempre às Terças da Unisinos, em São Leopoldo (RS)
16/09 (quinta) - Apresentação do Varal de Letras na Livraria Cultura, às 19h30, no Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre (RS). Recebo como convidados os poetas Frank Jorge e Luiz Coronel.
22/09 (quarta) - Participação em debate do Perhappiness, em Curitiba (PR). Serei mediador da mesa de poesia Translinguagem, às 19h30, com a participação de Micheliny Verunschk, Ricardo Corona e Sebastião Nunes. Em seguida, farei sessão de autógrafos do livro "Cinco Marias".
24/9 (sexta) - Palestra no colégio Imaculada Conceição, em Lajeado (RS), a partir das 8h.
29/09 (quarta) - Sarau Elétrico no Leopoldina Juvenil, às 20h, em Porto Alegre (RS), com Kátia Suman, Luís Augusto Fischer e Frank Jorge.

9:15 PM :: Comentários:

CADERNOS ESCOLARES
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar

Guardo a viscosidade de uma árvore ou de um ovo. Rumava para escola solitário e encabulado. Os meninos já iam conversando de seus ônibus, alegres e convictos, e eu só tinha de segurança a maçã e a térmica na mochila, os cadernos com capa de papel presente que deixavam todos iguais e eu não diferenciava qual era o de geografia e o de matemática. Minha letra era muito feia para dar de presente a alguém - tentei dizer isso para a mãe e ela não entendeu. Deve ter me beijado para consolar. Toda mãe beija o rosto do filho quando não o entende. Tinha que ensaiar para conversar no recreio. Se uma frase ou comentário não estavam previstos, se um colega me fazia uma abordagem, permanecia mudo, assustado e desconfiado. Fiz-me a maior oposição. De tanto olhar para o chão, firmei uma espécie de intimidade com as lesmas. Eu gostava de cavar a terra para descobrir as minhocas se debatendo. O triste é quando cortava a minhoca com a pá sem perceber e os dois lados se mexiam sem nenhum lado. Me preocupei em ser feliz, o que gerou uma infelicidade danada. Desde que nasci, fui homem feito, dando trabalho para me desfigurar. Não penso o que quero, nem os insetos, senão eles não entupiam os lustres com suas asas. Tenho uma suspeita de que esqueci de ir a um lugar importante, como quem olha um peixe no mercado sem nojo, uma ferida no pé sem nojo. Procuro não sonhar, para não me sentir saciado ao acordar. Não se pode ter simpatia sem uma réstia de repulsa. Os sentimentos são confusos, eles mudam de opinião com o toque. Minha gratidão é receio de me perder mais do que me encontrei. Não sei o porquê: quando me confesso, fico ainda pior, se já estava de mal com as minhas virtudes, fico de mal com os meus pecados. Deus adora acabar com os meus segredos. A infância foi um mundo mais sombrio do que luminoso - ela me ameaçou com paz.

1:44 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 11, 2004

Jornal O Globo, caderno Ela, 11/09/04, Rio de Janeiro (RJ):

POR DENTRO DELAS
José Figueiredo



"Um dia eu vou ser o Fabrício", ele promete. Mas, enquanto este momento não acontece, Fabrício Carpi Nejar - daqui para a frente Carpinejar, como ele mesmo se rebatizou - vai sendo outros. E assim o jovem poeta gaúcho já foi um velho, uma árvore, pássaros... Agora, em seu último livro, assume a voz não de uma mulher, mas de várias. E torna "Cinco Marias" (Ed. Bertrand) livro de cabeceira para machos e fêmeas.

Inspirado no tradicional jogo cinco-marias - aquele das pedrinhas, também conhecido como brincadeira dos saquinhos - Carpinejar narra a história de uma mãe e suas quatro filhas, todas elas Maria, que escrevem um diário coletivo durante os dois meses que passam confinadas em casa após o desaparecimento do marido-pai. Cada um dos poemas carrega consigo um desafio para o leitor: imaginar qual das cinco está de posse da palavra.

"'Cinco Marias' traz este universo feminino de mistérios, paixões e segredos, trocando vozes de um poema para outro, como no revezamento de pedras no jogo infantil. A menina, quando brinca de cinco-marias, vê-se responsável por cada arremesso. É como se seu destino dependesse de ela segurar ou não a pedra. Ela se desafia a cuidar do mundo, com generosa entrega", explica o escritor, que vive em São Leopoldo com a mulher, a jornalista Ana Lúcia, e os dois filhos, Mariana e Vicente.

Embora leitura indicada para ambos os sexos, "Cinco Marias" tem alguns poemas terminados com um mesmo verso - "Os homens nunca vão entender" - que pode ser acusado de injusto por leitores masculinos. Afinal, não é cada vez maior o número de homens que, criados sem a presença de um pai em casa, ficam impregnados pela sensibilidade feminina?

Mães solteiras ou divorciadas formaram novo tipo de homem

- Temos um novo homem, sim, formado por mães solteiras ou divorciadas, que descobriu que ser feminino é um dom, não uma privação de sua masculinidade, é saber escutar para se ouvir melhor, é saber se doar para preservar a individualidade. Entretanto, acho que as mulheres devem continuar dizendo: 'Eles nunca vão entender'. Eles só vão entender mesmo quando deixarem de perguntar se conseguiram ou não entender as mulheres, conta Carpinejar, ele também um filho da "Geração Divórcio". Com a separação de seus pais, os poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, quando ainda era menino, a mãe e a irmã mais velha tornaram-se as figuras fortes de sua vida.

Nascer ele e falar como ela já foi até moda literária. Nos séculos XII e XIII, mesmo reis lusos de virilidade insuspeita assumiam a voz feminina sem trauma nas chamadas cantigas de amigo ("Ay eu coitada/ Como vivo em gran desejo/ Por meu amigo/ Que tarda e não vejo", versejava d. Sancho I). Mas, a partir daí, os poetas foram perdendo o jeito (a segurança?) de falar assim. Agora, Carpinejar vem jogar suas cinco pedrinhas no lugar-comum de que, no Brasil, macho para entender e escrever como mulher só mesmo Chico Buarque.

E tal como acontece em relação ao compositor carioca, seus versos são daqueles que logo conquistam o leitor e se colam na memória ou, na falta desta, numa página de agenda ou num e-mail para amigos. Por todos os cinco livros de originais - "As solas do Sol", "Um terno de pássaros ao sul", "Terceira sede", "Biografia de uma árvore" e "Cinco Marias" - as dores do amor ganham expressões como "Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço. Como povoá-lo após tua partida?" ou "Descobre-se um amor na iminência de perdê-lo".

Não é só por meio de seus versos que o vate gaúcho vai colecionando admiradores capazes, por exemplo, de transformar carpinejar em verbo com significado algo como "olhar e revelar com ternura a mecânica oculta do amor". No seu ótimo blog (http://carpinejar.blogger.com.br), ele exercita sua prosa, também valiosa, em cima do mesmo foco: a relação familiar, os fantasmas domésticos, as ambigüidades do lar. A separação de um casal amigo pode dar mote a reflexões como esta: "Eles se amam, mas não é suficiente. Amar não é suficiente, amar complica. Amar exige mais do que dar ou receber. Amar aumenta a fome do silêncio, o silêncio da fome. Há um tempo em que se pede tempo, em que duvidamos do que é mais autêntico, não aceitamos a vida com facilidade, que dar certo pode ser muito errado".

A pouco mais de um mês de completar 32 anos, Carpinejar é um clássico do futuro, mas é besteira esperar mais tempo para descobrir o escritor que é visto, pelo crítico José Castello, como o maior nome da poesia brasileira da nova geração ou, por Carlos Heitor Cony, como "um pesquisador da alma e dos anseios humanos".

11:50 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 10, 2004

CASAS ADOECIDAS, CURADAS E ESQUECIDAS
Da série "Minha infância não atravessa a rua sozinha"
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Fui homem apenas de quatro casas. Duas na meninice e duas na maturidade. Não me recordo das cores das primeiras residências. Ambas gritavam pátio, que posso estar confundindo com área de serviço. Para criança, um carretel já é pátio, um brinquedo destruído é pátio, a fivela de um cinto é pátio. Eu usava as tampas de lixo como escudo nas brigas romanas de frutas. Os telhados atendiam meu exílio e o dos vaga-lumes. Antes de minha mãe me chamar para dentro, as cigarras me mandavam embora da noite. Na mesa, o pai resolvia em um grito o que a professora tentava arrancar com toda uma conversa fiada. O armazém vendia cigarro avulso. Quando as aves tinham paciência, eu sabia que faria sol. O orvalho vinha de enxerido. Caminhei muitos invernos nos bolsos de meu casaco marrom. Perdi moedas e um escapulário em seu forro. A vizinha fazia tudo para ficar feia e ficava ainda mais bonita. Prendia os cabelos, usava vestido até os pés, e andava reta como se estivesse sentada até o fundo da cadeira. Seus lábios eram como esquina que se controlava da janela. Ela ficava feia para mim, mas bonita para Deus. Santa que não se empobrecia com os milagres. Fulgurância dos tornozelos. Eu pedia ela um pouco emprestado para Deus. Eu fui quatro casas, isso se não contar com o quarto de hóspedes na árvore, onde envelheci sozinho a minha infância.

11:58 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 09, 2004

LISTA DE CHAMADA
Gravura de Pollock

Fabrício Carpinejar



Me escuta sem alarde, com um ouvido lento e o outro distraído. A morte sempre me pareceu uma península do olho, uma ponta do grafite que logo é trocada. A morte era no máximo o retrato dos bisavôs na parede, retocados com lápis de cor. Ela nunca me assustou, me deixou em pânico. Até a perda de um amigo. Eu comecei a perceber as pequenas dores, as articulações nervosas, a entrar em uma paranóia de sintomas, cuidando do tempo, afobado para concluir a conversa, em me despedir de um livro, de um filme, de um amor. Curvo-me diante de minha letra, de minhas fotografias e preocupo-me em não ter sido legível. Eu sei que é ridículo: todos têm medo da morte. Mas tenho medo da consciência da morte. Essa paralisia não vai passar com uma noite, com uma vida, com uma eternidade. É como se a morte fosse uma bomba-relógio e nunca saberei diferenciar na ligação entre os nervos o que é o trote ou denúncia anônima. Tenho receio de explodir de repente, de abandonar o banho, de me sentar no cansaço e não ter sobrevida. De apagar em um estalo, em uma briga e desentendimento dos órgãos, e ser poeira erradia dos versos que não farei, fuligem das minhas roupas. De olhar minha mulher e meus filhos como alguém que não pode entrar em sua casa. Como aquelas salas de aeroporto, em que o vidro é mais espesso do que a carne. Quando pequeno, ficava à vontade para acertar nas provas pela promessa de que ainda haveria a recuperação. Tranqüilizava-me a idéia de que contaria com um reforço. Não, não é a morte de fora que me apavora, é a morte dentro, que amadurece em meus costumes contra qualquer esforço da fé, que não perguntará quantos filhos tenho, o que falta fazer, que pouco lembrará do que esqueci de comprar no supermercado na segunda e não avisará que a lâmpada dos fundos queimou. Moro ao lado de uma igreja, os lamentos saem de sua chaminé e a reza se alastra como fumaça em domingo. Não lembro de quem herdei, mas faço sinal da cruz diante do mar. Molho minha nuca para me batizar, completando a água do primeiro mergulho. Rezo em hebraico sem ao menos conhecer hebraico. Gosto dos barulhos dos idiomas que desconheço - tem tanta espuma. Fui feito para fora do mundo, treinado a não criar expectativas e assim não cobrar depois. Já estive em coma, no Hospital Pronto Socorro, de Porto Alegre, aos 16 anos. Enfermeiras e enfermeiros me seguravam em uma cama de ferro, amarraram meus pés e meus braços de tanto coice em meu sangue. Eu convulsionava, selvagem, e me vi pela primeira vez fora do corpo. É como andar sempre de pasta, mala, e estranhar a leveza. Me esqueci naquela cama e voltei a contento para me carregar de volta ao lugar das palavras. Andava com orgulho por ter sobrevivido ao suicídio de bebidas e drogas. Testava meus limites, sem me importar com a resistência deles. Fui inconseqüente até conhecer que a dor pode ser maior do que o corpo, que mesmo um poema imperfeito não é capaz de nascer de novo. Continuo a permitir a alegria a conviver com a loucura. Não posso proibir sua convivência. As duas se criaram de mãos dadas, partilham confidências. As duas são amigas da infância. Hoje amo inclusive o que a vida não me deu.

9:20 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 08, 2004

MINHA MULHER
Gravura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Minha mulher, teus olhos, teus óleos, tua forma de me abençoar com os seios. Dá-me a estrada entre o quarto e teus joelhos. Cada sopro teu é o fim de uma reza obstinada, sem amém para separar os pensamentos. Teu rosto, com a cintura fina do pescoço, um violino que se inclina todo na direção de meu ouvido. A blusa desabotoada, o tecido do tecido, todo botão solto se despede do dia. Eu te acaricio mais com a memória das mãos do que com as mãos. Minha mulher, teu ventre empurra a respiração ao quadril, com a curiosidade de um rio que visita a cidade. E até o teto é solo de ervas, germinado. Cheiro teus cheiros, como quem amarra o trigo antes da ceifa. Cheiro tua boca com a boca, como amoras que estalam nos dentes. Teus cabelos não se repartem, eles se derramam como fogo. Um fogo que se faz de pedra na pedra, azul arvorado, escorado no vento. Minha mulher, o desejo não conhece pudor, cautela, pruridos. O desejo se desconhece para se amar como um estranho. E estendo o lençol contigo dentro, o pão se espalhando pela fome. E te persigo, te peco, te perdôo, te condeno, te liberto, tudo ao mesmo tempo de tudo. Tuas pernas abertas em minhas pernas fechadas, tuas pernas fechadas em minhas pernas abertas. E o espaço que não se devolve nem com a morte. Nego o açúcar, apresso a sede, até encontrar a luz úmida. E beijo a lâmpada da nuca como se fosse tarde. Ninguém quer sair, ninguém quer voltar aos seus limites. O corpo não esfria com o sono. Me antecipo naquilo que imaginas, para que aconteça o que não sabemos. Quando acontece, parece que foi imaginado. Teus pés giram como um leme, dando um sentido à espuma e às tábuas de cedro alinhadas. E amanhece o dorso como se fosse treva e alvorada misturadas. E quero tocar até o que não pode ser visto, ser descrito pela terra do teu corpo. O ar treme, o verão só pode ser recordado por um outro verão. Minha mulher, tuas costas têm mais altura do que as palavras que não nasceram em casa. Te insulto com tanta ternura, que minha raiva te chama para perto do que não tive. Minha mulher, o caminho aberto pela dor serve para a alegria. Somos capazes de destruir um ao outro, mas nunca temos nada a perder, nunca tememos o que não pode ser perdido. Sou teu invento, não me dês um nome, não me dês a hora de partir ou chegar, me assassina com tua infância, me desordena com tua falta de liberdade. E não me deixes escrever o que não foi segredo. E nunca me deixes escrever sobre tua letra.

10:15 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 07, 2004

MEU PRIMEIRO DIA SEM O LEANDRO
Gravura de Anselm Kiefer

Fabrício Carpinejar

"Porto Alegre - Um Uno saiu da pista e invadiu o canteiro central da freeway (BR-290), no km 87, próximo à Avenida Assis Brasil, por volta das 22h30min. O motorista Leandro Mohr, 32 anos, morreu na madrugada de ontem no Hospital de Pronto Socorro. Ele teria tido um mal súbito e perdido o controle do automóvel."
Jornal Zero Hora

"A Dor não tem nada a ver com tuas características individuais. A Dor é uma pessoa que te confronta."
"A Dor contemporiza, ilumina e aquece, gira igual sobre bons e maus. Põe frutos e os madura. Mas não os colhe."

Maria Carpi, Nos Gerais da Dor



Se eu tenho uma dor, eu não a abandono, não fujo dela. Eu quero alfabetizá-la, senão ela corrói as outras lembranças, se adona do que não é dela, se apossa das alegrias que a antecederam e das alegrias que estavam por chegar. Mas há dores analfabetas, arrivistas, que nos mostram o quanto a própria palavra pode ser fútil e desnecessária, o quanto que os planos podem nos contrariar, o quanto somos inexplicavelmente insignificantes. São poucas as vezes em minha vida em que renunciei a fala. Talvez em um aniversário em que ninguém se lembrou de mim. Talvez quando perdi minha avó e tive um sonho anterior em que ela me entregava uma carta. Mas eu ainda optava por não dizer nada. Tinha condições de terminar o jejum a qualquer momento. O pior é quando não se consegue falar mesmo tentando, não se fala por necessidade, ouso abrir a boca e não sai a corda da cisterna, o balde da chuva, o rumor da porta. Todo o corpo congestionado, trancado em tremores e estalos. Nada. Leandro morreu. Um amigo que cursava o mestrado em Letras Inglesas na Universidade Federal de Santa Catarina. Sua mulher é uma de minhas grandes amigas, Adriana, que trabalhou comigo na Unisinos. Ele teve uma parada cardíaca enquanto dirigia. 32 anos, a minha idade. Escrevo por extenso para a idade parecer mais longa: trinta e dois anos. Adri largou tudo para acompanhá-lo no último mês em Florianópolis, arrumou emprego por lá, se transferiu para ficar perto dele. Não sei se acredito em profecia, porém ela teve. Acompanhava Leandro na hora do acidente. Não sei quais foram suas últimas palavras, as últimas palavras não importam, eu pensava que importavam até hoje, porém não importam, sinceramente o que vale é o que não foi dito e que a Adriana compreendeu. Adriana, no meio da loucura do luto, chegou a dizer com uma serenidade que só o amor prepara: "ele morreu feliz, o mês que passamos juntos foi um dos mais felizes, não morreu sozinho". Ela me abraçou com tanta dor, que volto a chorar ao afrouxar o abraço. Não havia osso em meu rosto. Não havia algo que possa depois suavizar na forma de cipreste ou figueira. Havia um fogo rude, querendo apenas deixar sua cinza, carvão, pedra de vento, asa calada de pedra. O pássaro não é somente sua asa. Uma comoção sem fôlego para responder, sem parentes nas árvores. Corpos prensados, bem antes do nascimento da água. Casulo trincado em brasas. O que ela me abraçou ficou ali. Ela abraçou sua dor, eu não existia. Ela atravessou sua dor, eu não a percorri. Ela deve ter recolhido os sapatos dele na estrada, reunido as roupas, para não deixar nada fora de sua morte. O pulmão dela deve ter trocado de turno com o coração. Quando entrou na sala do velório, com aquelas lâmpadas e coroa de flores, aquele lustre que não correspondia ao despojamento do resto, ela gritou sem adjetivos. Um grito agudo, intransponível. Fiquei de fora naquele momento. Entrei no grito dela. E comecei a pensar sem querer pensar o que eu faria em seu lugar. E não consegui. Não interrompi as calhas, não espremi as frutas. Fracassei em chegar onde o homem não há. Eu não consegui te acompanhar, Adriana, desculpa, eu não consegui chegar em tua dor ao menos para alfabetizá-la. É como se a poesia fosse lenta demais. E não entendi Deus ou o seu sentido de dar o que nem queremos, de tirar o que nem sabíamos que tínhamos. O grito dela virou um ouvido. Um ouvido. E o pai do Leandro e a mãe do Leandro, à beira do leito, não reconheceram o filho, que sempre andava de bonés, de bermudas folgadas, com um figurino praiano, solto, jovem. E velaram o corpo do seu filho, os lábios secos e pálidos, a falta maior do que a falta, como se fosse o corpo do melhor amigo do filho. O Leandro no caixão não era o Leandro, tão pequeno, encolhido, sem o peso de suas braçadas pelo ar, sem a arrogância do sopro, sem a generosidade do sopro. A morte nos devolve a estranheza. Eu desejei embalá-lo no colo para acordá-lo do medo. Vou coletando suas frases, com receio de alterá-las, marisco guardando o mar com os cuidados de quem segura as antenas de um inseto. Deixo uma cama desocupada em mim, um armário desocupado em mim, um riso que não vai conseguir ultrapassar a outra metade que a dor ocupou. É meu primeiro dia sem o Leandro. O primeiro dia do mundo sem o Leandro.

10:43 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 06, 2004

MINHA FILHA

Fabrício Carpinejar

Não sei quando a criança pára de enxergar anjos ou de cumprimentá-los. Se acontece aos três anos, por uma obediência natural ao esquecimento, ou só depois? Para não sofrer com os acidentes do invisível, já que é demasiado sofrer com o que acontece no visível. Essa é uma resposta que te devo. Ficamos juntos no final de semana, alguns dias do mês, as férias, e fico reparando em teus gestos para ver se algo de meu temperamento está contigo. Eu não te eduquei, não te corrigi em seqüência, sou como um pai que vai voltar tarde. E tudo o que tento ensinar não tem uma segunda ou uma terça para permanecer. A gente se esquece de continuar. Nossa convivência é feita de inícios, com a segurança de que estou ali e tu estás ali, como duas crianças regendo uma tempestade. Te aproximas de mim como quem recorre a um objeto antigo. Um objeto antigo que recorda a casa que não teve. É assim um pouco como me sinto. Não descobri a forma ideal de convivência, muito menos o que gritar para chamar tua atenção. O tom de voz alto ou baixo? O riso contido ou desavergonhado? Se choro na frente ou murmuro dor de rezar? Na hora em que me beijas, viras o rosto lentamente, para escapar da barba. Herdaste até o medo da barba de tua mãe. Herdaste todos os medos dela com lealdade. Não herdaste meu medo de não ser compreendido. E não posso me defender dos ataques dela, do que ela possa dizer de mim. Porque defender é atacar. E atacar ela é destruir a casa em que moras, a vida que tens, o mundo que desde sempre reverencias como teu e indivisível. Não há como pedir que entendas a verdade. A verdade é passar fome ou frio na linguagem. Não arrisco, passo de madrugada para conferir se estás coberta. A paternidade tem um preço, mas não pode ser descontada nos filhos. Quando brinco com as crianças e faço palhaçada, elas se divertem, menos tu, encabulada pela maneira como converso de igual para igual. Menos tu, que desvias lentamente o rosto para o lado, como que se desculpando por mim: 'meu pai é louco'. Não aceitas meu amor, porque o entendes pela metade. Não aceitas que meu amor por ti não tenha amado tua mãe. Eu traí a família que querias. O que não chegou a ser dito existe, o que foi dito na hora errada existe, o que não me quis dizer existe. Vive-se as palavras do jeito que é permitido viver. Eu não sei o que levavas na mochila na escola. Eu não corrigi teus temas. Não te repreendi, não me desaprendi por inteiro. Queria cortar teu cabelo agora, não deixas para permanecer igual ao da tua mãe, mesmo não tendo nada a ver um cabelo com o outro. Talvez eu não tenha pensado em muita coisa para te dizer e mesmo assim disse. Eu não posso viver a tua superfície sem receber notícias de teu fundo. Eu não insisti para que comesse frutas ou tomasse água. Eu queria te contar uma porção de noites que não visitei teus olhos, que não compareci em teus ouvidos, que não controlei tua febre. Nosso problema não é a falta de espaço, é o excesso de espaço. Amar é mais do que ver, é suportar o que não pode ser visto. Põe o casaco. Ninguém usa as mãos pelas mãos; há pernas nas mãos, pés nas mãos, olhos nas mãos. As coisas que não aconteceram não fracassaram, escolheram um outro passado. Não escolhemos o nosso futuro, escolhemos o nosso passado, só isso. Cobras que eu não permaneci. E os teus primeiros dois anos que cuidei sozinho de ti não recordas, em que controlava tuas refeições, lavava tuas fraldas (descartáveis eram muito caras), te levava ao médico, brincava na praça, acompanhava adaptação na escolinha. Eras tão agarrada que meu pescoço nunca mais usou manta. Não quero cobrar nada. Estou falando adulto, porque aqui a criança sou eu. Tuas perguntas não me assustam, o que me assusta é tua falta de perguntas. Estarei te devendo sempre alguma explicação. Como a do anjo, que não pára de chegar perto de ti, e que não enxergas, por obediência natural ao esquecimento.

8:54 AM :: Comentários:

UM ENDEREÇO PARA VOLTAR
Fabrício Carpinejar

O multipremiado João Gilberto Noll lança seu melhor romance, Lorde (Francis, R$ 112 páginas, R$ 32), seu primeiro inédito publicado pela W 11, editora que está relançando toda sua obra. É um livro diferente e - simultaneamente - complementar a Berkeley em Bellagio, sua ficção anterior de 2002. O que muda? Em Berkeley em Bellagio, o personagem escritor passa a perder o idioma ao voltar de uma temporada italiana e só consegue se comunicar no Brasil mediante língua inglesa ginasial. Em Lorde, o protagonista de meia idade, mais uma vez um escritor, tenta apagar os vestígios de sua nacionalidade brasileira, "habitar outra carnação", em uma temporada em Londres. O que era esquecimento acidental em Berkeley em Bellagio converte-se em esquecimento propositado em Lorde. O estranhamento irrompe desde o princípio, atendendo os caprichos da sedução e o aliciamento do insólito. Um convite do exterior é aceito no escuro, com as despesas custeadas por um misterioso inglês. Trabalho? Prazer? O passageiro, na verdade, desconhece o que vai fazer na Inglaterra e mesmo assim viaja.

Em romances de Noll, sinopses são perigosas. Exigem cuidado. Esse personagem, escritor gaúcho com sete livros publicados, se aloja em um apartamento no bairro de Hackney, ao norte de Londres, junto de imigrantes vietnamitas e turcos. A paragem está excluída dos mapas de turismo e é percorrida, na maioria das vezes, a pé. Sua única preocupação é se abandonar, exercitar a estranheza até bem depois dos limites. Assumir um heterônimo, uma carne alheia. O primeiro ato é comprar um espelho, que logo é virado para a parede porque o controle diário da aparência não o ajuda a ser diferente. Em seguida, decide pintar o cabelo de castanho claro e começa a ficar excitado consigo. Ele se apaixona por aquilo que deixou de ser. Lorde apresenta uma história de amor, uma história de amor espelhado, de narcisismo solidário. Em cada encontro, o personagem vai transmudando, se redescobrindo, sacrificando os condicionamentos e a identidade que o proíbe de sentir o cotidiano, apesar de escrevê-lo. Um exemplo é a paixão entre chás e aromas pelo professor Mark. "Por fim parou, fixou o olhar em mim e me convidou a entrar na banheira com ele. Ah, eu já não sabia dividir a minha nudez com ninguém." Releitura de Narciso, Noll administra o ego, censurando-o antes de terminar no elogio da vaidade ou em denúncia da desvalia.

A prosa desliza voluntariosa para ação, sem permeios ou piruetas. Não há gente psicanalisada ou a atmosfera intimista de querer entender e de se fazer entender aos outros. "Tinha me acontecido de ultrapassar aquele indíviduo que eu mecanicamente formara para os outros." Noll lida com uma subjetividade objetiva, ficando livre para surpreender. Ultrapassa o romance de idéias em nome de uma encenação em tempo real de desejos, inquietações, ardências, capaz de atingir o êxtase do grito e do gemido e consagrar o instante para não coagulá-lo em pensamento. Ele interpreta a vida, não a defende ou a acusa. Executa parágrafos longos e descritivos, uma música estática, que transporta o leitor pela sua força e intensidade. Como a paisagem onírica incitada pelas composições de Philip Glass, utiliza consecutivas repetições de modo que a entrada de um novo acorde enfatiza o corpo e a textura do som, tornando-se ainda mais revelador. João Gilberto Noll reduz a música aos seus elementos primordiais para acentuar as diferenças. Primitivismo e magia, em que o ritmo é mais importante do que o tema e resgata a sublimação da experiência com o mundo.

Em Lorde, uma mudança significativa acontece na trajetória de Noll: uma paz que não existia nos enredos nervosos do romancista. Uma serenidade difícil de se encontrar na prosa contemporânea. As figuras de Noll continuam a não ter noção do destino, do desembarque. São aparições em linguagem viva, com as pupilas dilatadas. Não sabem onde vão terminar e dão o mesmo valor aos fantasmas do que às novas amizades. A conversa de fora é uma conversa por dentro, onde o protagonista mistura apelos externos com internos, negocia lembranças, trafica sensações, vacila em impressões tardias. Mas a figura de Lorde tem uma característica que o diferencia do ator de Harmada ou dos viajantes de Hotel Atlântico e Canoas e Marolas: conta com um lugar para voltar, Porto Alegre. Antes, a cosmogonia de Noll não desfrutava de um endereço, de um regresso possível. Agora, isso muda até o tom da fábula, serena a dicção, porque os laços criados com uma origem asseguram uma espécie de conforto espiritual e de funções sociais demarcáveis.

Nem mais os girassóis elétricos de Van Gogh, muito menos a cor explosiva das banhistas de Cézanne. Noll pára diante do vaso de flores calmas e esbatidas de Gauguin. Isso não significa uma mudança de estilo, porém a maturidade de um olhar, que passou por provas e provações e adquiriu o seu direito de celebração. Noll completa sua proposta de "desativar o homem", anunciada em Canoas e Marolas, e o cumpre alcançando a calmaria, depois de desafiar os métodos, as convenções sociais, as opções sexuais pré-determinadas (como ao trazer a homoafetividade à tona sem um engajamento que o justifique ou peça licença).

A forma literária que possibilita esse acesso ao homem dentro do lobo é curiosamente encontrada no abandono do hiperrealismo, em clara retração do campo lingüístico. Noll disse que "todo livro narra a história de uma fé". A fé já é o milagre.

(Publicado no site de Sara Fazib , na seção "Cultura Geral")

8:49 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 04, 2004

O QUE EU GOSTO
Gravura de Matisse

"Gosto do miolo do pão, de caneta usada, de sentar na fila do meio, de ser a filha do meio, do meio do almoço, do meio do sexo, do meio da garrafa de vinho, do meio-dia. O meio nos dá possibilidades, ao contrário do início ou fim. Gosto de estradas secundárias, de ruas e não avenidas. Gosto de tutano, quanto mais perto do osso melhor. Não gosto de pires, gosto de prato fundo e comer de colher."
Mensagem de Flávia

Fabrício Carpinejar

Gosto do garfo, apetece-me a idéia de que ele não precisa da faca para sobreviver. Não gosto de começar pelas verduras. Gosto de comer com pão. Não gosto de elevador. Gosto de escadas envidraçadas. Gosto de lápis mais do que canetas. Não gosto de parque. Gosto de praças esquecidas. Não gosto de sinais de trânsito. Gosto de pichações. Não gosto de passarelas. Gosto de calçadas largas, onde não me sinto pressionado a tomar uma decisão. Não gosto de quem finge voz infantil para falar com as crianças. Gosto de pedalar descalço como se fosse praia. Não gosto de chuva mentirosa, sem relâmpagos. Gosto de abraçar com efusão e fracassar despedidas. Não gosto de quem conversa dando tapinhas nos ombros. Gosto da sinceridade de um café. Não gosto de aperitivos. Gosto de escutar música para curvar a boca. Não gosto de apresentações. Gosto de abrir vinho. Não gosto de terminar o vinho. Gosto quando desmarco um encontro para me encontrar por acidente. Não gosto de guarda-chuva. Gosto de livros com sobrecapa. Não gosto de nadar sozinho. Gosto de nadar sem raias para respirar. Não gosto de portas. Gosto de me falhar em janelas. Gosto de reparar primeiro os pés das pessoas, para calçar meus olhos e subir devagar. Não gosto de poltronas. Gosto de rede. Não gosto de colchão no chão. Gosto de água-furtada, abrir um piano, fechar o estojo de um violino. Não gosto de porões. Gosto de gavetas. Não gosto de armários. Gosto de adormecer sem vontade. Não gosto de dormir cedo. Gosto de abrir cartas. Não gosto de procurar o CEP. Gosto de ter um lugar para sofrer escondido. Não gosto de chorar em público. Gosto de água com gás. Não gosto de trocar o gás. Gosto de repor as lâmpadas. Não gosto de lanternas. Gosto de velas e lamparinas, do clarão cansado. Não gosto de gente educada em excesso. Gosto do humor discreto. Não gosto de ser chamado pelas costas. Gosto quando trocam o meu nome. Não gosto de telegramas. Gosto de telefonemas longos. Não gosto de rodapés. Gosto de letra tremida. Não gosto de letras de fôrma. Gosto de guardanapo nos joelhos. Não gosto de mesas de plástico. Gosto da ironia. Não gosto do cinismo. Gosto de ver um filme pela metade. Não gosto de esperar os créditos finais. Gosto de chegar atrasado para ser pontual. Não gosto da tristeza. Gosto de gritar para as paredes. Não gosto quando tem eco. Gosto de misturar as chaves. Não gosto de fotos em álbuns. Gosto de fotos soltas. Não gosto de assobiar. Gosto de acenar. Não gosto de palitos nos dentes. Gosto de mapas antigos. Não gosto de filas. Gosto de ler no trem. Não gosto de lembrar das senhas. Gosto de esquecer as dívidas. Não gosto de limpar as telhas. Gosto das escamas das casas. Não gosto de conferir os bolsos. Gosto da imperfeição. Não gosto do acúmulo. Gosto de inventar a letra quando estou cantando. Não gosto do travessão. Gosto do ponto e vírgula.

7:14 AM :: Comentários:

Jornal O Globo, Prosa e Verso
Rio de Janeiro, 4/9/04

Meu clássico: Fabrício Carpinejar, poeta

"Meu clássico é A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector. Foi o livro que me fez sair da literatura para entrar definitivamente nela. Um assombro, mais do que uma surpresa. Clarice mexe na língua como quem puxa as raízes da terra com os dentes. Sensação de aniquilamento e destruição generosa, de desejo sem mediação ou desculpa, visceral ato de exposição pública da própria fraqueza. Ela não escreve para afirmar, mas para negar o mundo, as vestes, as aparências, o senso comum. Cumpre seu pensamento pela insuficiência, pela insônia, convertendo os rascunhos nos próprios originais. Procurava as falhas da linguagem, os atos falhos. Não queria a verdade, porém a pré-história da verdade: "ficar imunda de alegria". Ela se apaga na tinta, se acende de escuro, com fúria, como um amor arrependido de dizer o que vem à cabeça mas que não tem outra vocação senão a de dizer rápido e insensato para não desobedecer a boca. Em Clarice, a linguagem é o enredo, o desafio, cavando o nome das coisas para emergir o delírio puro das coisas. É uma autora rara, que deu comunicação para a consciência. Sua prosa tem uma harmonia velada de viver e narrar a experiência até os últimos limites da palavra. Costura vocábulos com a urgência de uma roupa e mostra uma nudez muito parecida com a loucura."

7:03 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 03, 2004

3X4 ANOS

Fabrício Carpinejar





Tinha quatro anos e minha mãe acordou a infância: "vamos nos arrumar rápido!". Eu vesti uma camisa nova, com desenhos de argolas. Roupa adulta, atarefada. A mãe avisou: "será tua primeira foto 3x4". O fotógrafo tentou me fazer abrir a boca, mas não conseguiu. Estava preocupado, lembrando de ser convincente ao meu futuro. A mãe advertiu: "nunca esquecerá a fotografia, determinará todas as outras". Assustei-me em posar para o que não existia, sem repouso entre dois mundos. O cabelo ficou lambido para um lado (tempo em que se cortava em casa com uma bacia). Espichei o rosto como um pintassilgo, que se banha no seco, na areia. Eu me enquadrei fora de mim. Fui longe com a audição. Olhei fundo o pano preto e o piscar vermelho do cavalo vendado. Minhas golas eram bem maiores do que minha testa. Havia uma inocência culpada de tudo o que faltaria fazer depois da fotografia, que me tornaria real, vulnerável, vivo, insultado de traços. Meus irmãos me acompanharam, se revezando na cadeira do estúdio: Miguel (2 anos), Rodrigo (6 anos) e Carla (10 anos). Quando converso com eles hoje, vejo cada um como nessas pequenas imagens, recordações miúdas como a letra de Bíblia, pedras que não enferrujam e me abrem caminhos no musgo, aliados do que imaginei em silêncio: o Miguel, inclinado, o macacão que lembra suspensórios, escondendo a falta de dente na frente, que ficou na mesa da sala; o Rodrigo, messiânico, convicto de suas responsabilidades, ainda que um fio de cabelo tenha subido mais do que o necessário; e a Carla, a única que tem um olhar que ri, apesar das sobrancelhas pensarem diferente.

7:41 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 02, 2004

MÁQUINA DE COSTURA
Gravura de Paul Klee
Para Rose, amada amiga

Fabrício Carpinejar

Só o que perdi posso preservar. A máquina preta de costura da vó, soberana, imponderável, negra como um dia de luto, cruza de cadeira de balanço e charrete, os pés indo sozinhos, descalços, lavados de orvalho. Seus cabelos brancos desalinhados, uma mecha branca de mar, o primeiro pão da manhã. Os chinelos azuis ao lado como cães obedientes, dormindo a gula do piso. Não se falava com a vó quando ela falava com os panos. Ela tecia suas linhas em seu quarto de fundos dentro da sala, atenta ao som da porta e de possíveis visitas. A máquina preta da vó cumpria funções de rádio da casa. O zunido insistente das roupas remendadas, das toalhas, dos lençóis com as letras do casal. Os detalhes que poucos notavam, mas que surgiam como sua assinatura. De dia, a vó era severa segurando a coleira da máquina de costura a passear em nossos ouvidos; de noite, doce com seus figos em calda a passear em nossas bocas. Em qualquer tarde, uma oliveira estranhada de estrelas, a súplica de uma garrafa entreaberta. Quantos quilômetros ela percorreu naqueles pedais? Quantos quilômetros em cinqüenta anos?

10:00 AM :: Comentários:

ABOTOADURAS
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Não nasci para ser discreto. Por mais que tente não chamar atenção, passar invisível, algo acontece que faz virar as cabeças do mundo para o meu lado como uma partida de tênis. Lá estou eu entrando no elevador para uma reunião, engravatado e tal, tenho a mania de segurar a porta com as mãos, não acredito em botões, ponho meu braço como escudo e as pessoas vão entrando. Educação cumprida, na hora em que impulsiono meu corpo para dentro, percebo que o terno fica. A manga do casaco trancou na porta. Não há jeito de puxar. Todos começam a opinar, tentando encontrar algum objeto para aliviar a barra. Eu fico esticado, extremamente esticado, devo ter crescido uns dois centímetros com a musculação forçada. A compaixão inicial dos passageiros do elevador com a minha figura patética agrava-se em raiva do atraso. O riso dá espaço para palavras mais rápidas, até que um deles banca o bombeiro e abre a lata de sardinhas. Entrei em mim mais do que no elevador. É preciso muito desprendimento para não transformar a timidez em vergonha.

9:57 AM :: Comentários: