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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Outubro 31, 2004

PARA DOIS
Gravura de Natalia Goncharova

Fabrício Carpinejar

Quero o vaso das mãos, vasos secos, para me desabituar de germinar junto às paredes. Vaso que não serve para alguma coisa, que é como um chapéu, bengala e guarda-chuva, que não se explica. Vaso sem flor que o justifique. Vaso com a própria terra dos dedos. Quem procura as melhores palavras para dizer ainda não está certo. Devemos procurar o melhor silêncio. Um silêncio que não silencia. Um silêncio de lado, sem importância. Não me esqueço do dia em que não fizemos nada, nada mesmo, parados, nos olhando de perto, rosto a rosto, sem enxergar nada, a não ser a respiração um do outro. Rindo a esmo, abraçados. A janela como um vinho aberto. O futuro passeando pela janela, confundindo vida e morte, uma criança e sua alegria incomunicável. Talvez tenha me visto contigo na infância ou na velhice. A pele macia como qualquer fruta depois da chuva. Nossos vícios perfeitos, nossas virtudes imperfeitas. O gorro de meus cabelos e tuas unhas. Minha vontade de puxar teu corpo como uma cadeira, tua vontade de colocar o casaco para dormir. Não importa em que tempo estávamos. A falta de palavras é também um idioma. O que se esforçou para viver não desaparece.

12:35 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 29, 2004

MUSEU DE ACHADOS E PERDIDOS
Gravura de Natalia Goncharova

Fabrício Carpinejar



Não aprecio a arrogância dos clássicos, prefiro a conversa alta dos sebos. Se alguém quer encontrar um amigo desaparecido, um amor antigo ou o próprio cachorro que fugiu de casa e nunca mais foi visto passe na Feira do Livro de Porto Alegre. A Feira é um museu de achados e de perdidos. Tem gente que a gente só encontra na Feira. Há cinco décadas é assim: uma bendição marcada, impossível de ser desfeita. Pode-se trocar telefones e endereços, inchar o peito de entusiasmo, combinar um churrasco, apresentar fotos 3x4 da família, prometer que ligará no dia seguinte e nada, passa um ano e lá encontraremos a pessoa no mesmo lugar que a deixamos, em algum ponto remoto da memória que é a feira. Colegas do Ensino Fundamental e Médio, faculdade, futebol, noite e andanças aparecem de repente entre uma barraca e um jacarandá, numa espécie de festivo juízo final. É como festa de aniversário, onde os penetras são os verdadeiros convidados. Amizades são retomadas instantaneamente, sem atualização do currículo. Tias surgem espalhafatosas, com bolinhos de chuva na bolsa, dizendo que já trocaram minhas fraldas e perguntando como posso ter crescido tanto. Parecem que desceram de um telhado, com o pára-quedas do vestido. O que me salva do branco, do lapso, da amnésia involuntária são os apelidos. Eu guardo um apelido para cada fase de minha vida. Contar com um rosto estranho tem suas vantagens, porque apresento mais nomes científicos do que a biologia permite. Dependendo do jeito que o interlocutor me chama, sei de onde conheço e de que lugar. É a muleta sonora, apesar de ainda mancar com ela. No miolo central, perto do Pavilhão de Autógrafos, é certo que algum assobio, grito e tapas nas costas vai me inundar de passado. E daí passarei a me esforçar para equilibrar os olhos. Começo a rir no lugar da fala. Risada demonstra intimidade e que estou ouvindo. Mas estou me ouvindo mais do que ouvindo, tentando descobrir quem é o sujeito que se expressa com domínio sobre minha história. Depois que me separo dele, dez barracas depois, é que me recordo. Fico com vontade de voltar atrás, correr, encontrá-lo e gritar seu nome bem alto, tal saguão de aeroporto. Moro na metáfora, o que não me dá muita clareza geográfica. Na Feira do Livro, eu me perco com freqüência para me localizar. Vou fazer uma coisa e termino cumprindo outra. Feira é falta de mapa. O livro que compro exala o cheiro das mãos de quem quase o levou. Os milagres não estão nas gavetas. Não volto para casa com troco. Não sobra nada de mim para boiar no Guaíba. Durmo de pé, escorado na estante.

11:49 AM :: Comentários:

CINQÜENTA ANOS DE FEIRA
Gravura de Natalia Goncharova

O melhor lugar para me encontrar de sexta (29/10) até 15/11 é na 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega. Participo de sete mesas-redondas do maior encontro literário da América Latina realizado a céu aberto.

· 3/11 (quarta), 15h30: Poesia brasileira e oficinas, no Memorial do RS, ao lado de Diego Castilhos, Ronald Augusto e Telma Scherer.
· 3/11 (quarta), 17h: "Nada acontece, então tudo é possível: poesia sem efeitos colaterais, palestra na Casa do Pensamento, na área infantil.
· 3/11 (quarta), 19h: "Jogo de Idéias: leitor não é hermético, nem bolha de sabão", Rumos do Itaú Cultural, junto de Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito, Ronald Augusto e Sérgio Vaz, no Teatro Carlos Carvalho, da Casa de Cultura Mario Quintana.
· 6/11 (sábado), 15h: "Psicanálise e Literatura: Viagem do Homem", acompanhado de Luciano Fialkowski, Luiz-Olyntho Telles da Silva e Maria Carpi, na Casa de Cultura Mario Quintana.
· 10/11 (quarta), 18h: Sarau com Décio Pignatari, no Auditório do Margs.
· 11/11 (quinta), às 17h30: "Bahia e RS: dois dedos de prosa", com o escritor baiano Claudius Portugal e Maria Carpi, no Memorial do RS.
· 13/11 (sábado), às 15h30: "Prosa e Poesia Contemporânea", com Flávia Rocha e Márcio Santos, no Memorial do RS.

Minha sessão de autógrafos do livro "Cinco Marias" (Bertrand Brasil) acontece em 6/11 (sábado), às 19h, no Pavilhão Central.

11:46 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 27, 2004

ALEGRETE
Gravura de Natalia Goncharova

"Aquela única janela acesa
no casario
sou eu"
Mario Quintana, Noturno IV

Fabrício Carpinejar




Ando de madrugada por Alegrete como quem entra por engano em um poema de Mario Quintana. Desvario de estrelas. O céu é tão pesado que parece perto. O céu pedala pampa abaixo, com colisão certa. O jornaleiro arremessa o jornal de costas. Guardas jogam carteado na praça Getúlio Vargas. Os casarões antigos, filhos do mesmo latifundiário, cochicham ancestrais e traficam retratos ovalados. Cada casario, uma carta de letra difícil, uma boca aberta. Os pátios são por dentro. Apoiados nas muretas, os telhados balançam suas pernas. Os cataventos orientam os pássaros, que atravessam o crepúsculo em fila indiana. Carros rodam pião nas pedras lisas. As verduras crescem em degraus. Alegrete tem cheiro de chá. Os namorados casam rápido porque não há como amar na rua ou na praça com o minuano. O vento faz cabelo no ouvido. Não existem muitos restaurantes de noite, a vida atende a porta de pijama. A casa onde Quintana nasceu e morou virou papelaria. O papel em branco ainda é árvore. A eternidade foi comprar cigarro e não voltou. Ficou a placa, o epíteto, não a lápide. A residência do poeta não foi tombada. Emprestaram o milagre, esqueceram o santo. Alegrete é mais um lugar na oração. O terço é âncora do quarto. Não existem cores para separar os retalhos da colcha. A luz é despertador das paredes. O galo engoliu o campanário. A mosca não trabalha durante a sesta, vende asas usadas. Bem que poderia ter lampiões na esquina para as carroças que passam. A mola é a primeira a fugir do relógio. Vi um homem varrendo o teto, algum fantasma não tirou sapatos ao entrar. Vi uma mulher lendo uma moeda como se fosse um anúncio fúnebre. Quem sofre de pudor não é cínico. Eu me senti só e sentei em uma cadeira alta no Quiosque. Cadeira alta em lancheria me dá autoridade de infância para pedir pão com ovo. Lembrei que fiquei triste quando o barbeiro da infância dispensou a almofada e disse: "agora estás grande!" Crescer custa osso. A panela parada é um avental. Os rituais transformam a humildade em orgulho. Eu não sei mais esperar. Alegrete espera, um cavalo que não saber onde ir quando solto.

9:46 AM :: Comentários:

As vozes de "Cinco Marias"

ALEXANDRE FRANÇA
Site Blues Curitibano


Depois de um debate sobre transgressão na literatura, resolvi conversar com o poeta e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar sobre este negócio arriscado de se fazer poemas. De cara e na cara, Fabrício solta: "poesia é como briga de rua, se você não der o primeiro soco...". Acredito que este fator "rua" se revele em "Cinco Marias" (Bertrand Brasil, 123 páginas, R$ 14,00 em média). Carpinejar, neste livro, está sempre a dar o primeiro soco. O leitor não escapa, afinal as vozes-poemas colocadas nestas páginas são tão tocantes como um hematoma que parece não sarar. Em um poema após o outro, uma nova faceta de mulher transborda em versos. As vozes, ali colocadas, aparentam ter atingido um alto relevo. Fabrício conseguiu a mágica de tornar tangíveis as vozes humanas.

O livro conta a trajetória da poetisa Maria de Fátima Ossian, que junto com suas quatro filhas, enterram o marido no quintal de casa acreditando enterrar a sua biblioteca. Partindo deste mote, a alma das "Marias" é colocada ao léu de questões voltadas ao universo da própria mulher, dos relacionamentos familiares e do choque entre o mundo masculino e feminino. O que fica é a luminosidade da sensibilidade feminina, entoada em "refrões" do tipo: "Os homens nunca vão entender". Assim, é a partir da morte da "biblioteca", que transparecem lembranças experimentadas intensamente, culminando com uma pedra em cima do "livro-memória" (o homem) que "não sobe com a água".

Em "Cinco Marias" o poeta atingiu uma maturidade própria daqueles que já possuem uma larga experiência no ofício poético. Após ter lançado cinco títulos, Fabrício aperfeiçoou o seu modo de escrita ao deixar apenas o essencial. A sonoridade do verso fica a deriva da idéia poética. O que fica é um material mais orgânico, limpo do excesso de rimas e de extravagâncias espaciais na página. Para o leitor, o acesso ao cerne do que é dito fica muito mais fácil e direto. Ao ler "Cinco Marias" é notável a sensação de conversa que os poemas transmitem a todo instante.

Talvez por este motivo que, ao ler este livro, me senti como um manipulador de vozes. Cada voz, uma peça de um jogo de malabares, que ora estava ao alcance da mão, ora estava no ar, esperando a vez de ser agarrado, acariciado, protegido. Entre versos de tez robusta como "Diante do prado,/ardo imensa", passando por rasteiras poéticas como "a vida recusa principiantes", até versos quase aforísticos do tipo "a vida segue sendo a declaração do nada" ou "Fazer as coisas pela metade,/ é a minha maneira de termina-las", o livro transcorre em um desequilíbrio emocional próximo ao de alguém que passou por uma tragédia. E ainda, como um malabarista amador, muitas vezes o leitor não tem a devida noção de qual voz-poema ele abarcará em sua mente. Isto é proposital, afinal são "as marias" que estão ali, ou seja, poderia ser qualquer mulher. Carpinejar usa, com propriedade, todo o seu cabedal de recursos poéticos para dar voz não só a uma mulher, mas "a mulher" (aqui colocada, quase, como uma entidade).

Apenas uma das vozes, de textura especial, transparece uma personalidade distinta, num imperativo doce (muitas vezes despretensioso), acalentador e ao mesmo tempo inquietante: trata-se da mãe das personagens. Ela (a "Maria-mãe") dará, de certa maneira, o norte da narrativa poética (neste caso, propositalmente fragmentada) por ter uma presença fulminante em cada aparição. É como ouvir a voz da sua própria mãe e ter a sensação de que se esta obedecendo a alguma coisa. A engenhosidade do livro é clara e o fato das Marias enterrarem a biblioteca do varão (ao invés do corpo) dá a nítida noção do que o leitor tem ao alcance das mãos: um ventre feminino inteiro, pronto para ser explorado.

9:45 AM :: Comentários:

CADARÇOS


"O que ansiava achar não acho
e esbarro em objetos despossuídos de lógica
que me encontram antes de qualquer pretensão.

O que fiz cabe numa caixa de sapatos"


A artista plástica Rosana Almendares tematizou meu livro "Caixa de sapatos" (Companhia das Letras, 2003) em trabalho que homenageia o cinqüentenário da Feira do Livro de Porto Alegre. A Nova Galeria de Arte (Rua 7 de Setembro, 500 - POA) reuniu 39 artistas para comemorar o aniversário da Feira. Cada um escolheu um livro como inspiração. A exposição abre na sexta (29/10), com visitação de segunda a sexta das 10h às 19h, e vai até 15/11. Mais informações nesse site.

9:43 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 24, 2004

GATOS, CÃES E PASSARINHOS
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Quem cuida de gato ama sua solidão. O felino fica quieto pela casa, como um ruído do osso, um ruído interno do corpo. Enovelado em suas memórias fundas, tão fundas que requer concentração para subi-las. Flor assustada, jardim móvel. Nem com um nome se torna doméstico. Confidente que censura com compaixão, que compreende com piedade. Não é um animal que tosse, no máximo espirra. Seus olhos claros, pirilampos dentro de um pote. A plumagem clara ou escura nasceu como ouvido da noite. Sua superação é beleza.

Quem cuida de cachorros gosta de escapar de sua solidão. Sair para passear, andar com ele com coleira, dividir o cumprimento, o tapete da rua. Cão é gastar sapato, cheirar árvores e grama, descobrir onde há um vento para caçar pássaros, onde há estrelas úmidas, onde há parede para escorrer lagartixa. O cão é dispersivo, late para estar em todos os lugares e não está em nenhum, diferente do gato. Alerta, fala mais do que escuta. Pede conselhos para adormecer intacto em sua dor ou à espera da dor. É leal como um copo de água. Tosse como gente grande. Apaga o retrato no cigarro. Os grandes olhos têm bigodes, feitos para a despedida. Sua retração é verdade.

Quem cuida de passarinhos gosta de vigiar sua solidão, gosta de pousar, não apetece sentar ou permanecer de pé. A gaiola é um aquário de janelas, onde o mundo se reduz a um punhado de alpiste fora da mão. O passarinho rema sua plumagem com um único remo: o bico. Canta com o canto do olho. Não está desesperado, muito menos tranqüilo. Solidão nervosa, que intimida somente com o pulo do trapézio, sem revólver, faca ou punhal. O pássaro é o gomo primogênito, o barulho de uma lâmpada. Um parente que te visita com mala. Cinzas que choram rindo, longamente longe das brasas.

12:15 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 22, 2004

23/10

Fabrício Carpinejar



A alegria é uma vergonha. Não me entenda errado: a alegria é uma vergonha. A verdadeira alegria me deixa envergonhado, com apressado pudor. Aniversário é o dia que sinto vergonha, não a vergonha do arrependimento, mas a vergonha da insuficiência, vergonha da euforia da insuficiência. No momento em que a gente ama, é difícil não sentir timidez ao mostrar a nudez. Quem não tem vergonha não ama. Não é questão de deixar a luz do quarto acesa ou não, e sim de deixar o corpo aceso ou não. Um comedimento de se doar por inteiro, de se expor. Duvido daqueles que não sofrem do embaraço com o que ainda desconhecem do próprio corpo, das vontades da pele. O corpo é a voz ou a falta da voz? Faço 32 anos e não faço a idade, faço a lembrança da idade. Eu pensava que solidão era sentar nas pedras para espumar o mar. Solidão é ficar com os amigos enquanto o mar nos procura com sua faca de orvalho. Já morri muito e me obriguei a nascer mais do que morri para não endividar os filhos. Virei uma interrogação deitada de erva. Minhas mãos se alumiam como moedas. Com vaga-lumes e cigarras no jardim, a festa é perto. Eu fui criança tarde, adulto cedo. Aos 8 anos, minha mãe perdeu sua mãe. Voltava do enterro. Olhei bem firme para ela e disse: "alguém precisa cuidar de ti". Não me perguntei quantos anos tinha para ajudá-la. A coragem é sempre adulta (o medo é sempre infantil). Tirei suas roupas, botei a mãe na banheira. Dei banho com uma esponja amarela, a vesti e a botei na cama para dormir. Inventei de arrancar algumas hortaliças da horta para perfumar a água. Devo ter colocado inclusive urtiga, não sabia diferenciar os verdes dos olhos verdes. Era o pai de minha mãe porque mãe não é sol toda hora, às vezes é crepúsculo e depende de amparo para descer das árvores. "As flores exalam mais seu perfume quando estão tristes", foi o cartão que eu escrevi para ela. Todos os irmãos assinaram, a gente colou um passagem de ônibus para que ela fosse passear bonita. Não quero sacrificar a generosidade natural de viver, que não é minha, que é comum, que é acordar somente quando se olha a primeira pessoa na rua. Viver não é continuar, viver é começar. A possibilidade de amadurecer (não de mudar) a si nos outros e de amadurecer (não de mudar) os outros em si. Alegria de abotoar uma camisa amornada de vento. Sem passar. Sem pensar o fogo. Meu aniversário é aniversário de casamento com Ana. A Ana é mais do que a mulher que amo, minha vida é dada através dela. Ela me deu minha vida. Não havia publicado nada. Não me revelava, me escondia. Minha tristeza era arrogante, ferina, me excluía. A literatura significava erudição quando a literatura está onde o desejo é analfabeto. Acreditava que por ter olhos caídos não seria capaz de rir. O que eu sou, o que posso ser, o que posso não ter sido, os Fabrícios que se anularam, que se encontraram, que desistiram, que se alcançaram amam ela. Até o que eu não vivi ama ela. Até o que não suporto em mim ama ela. Seus olhos fixos que se abaixam quando pretendem me convencer. Seus olhos fixos: eu beijo seus olhos como quem recolhe uvas do telhado, para recordar o que não existe. A diferença entre o inferno e o céu é que o inferno foi construído e o céu descoberto. Depois de uma vida juntos, não há como dizer que ela não me esperava em mim antes de me conhecer, que eu esperava nela antes de me acontecer. Somos duas esperas que puxaram conversa enquanto aguardavam Deus. A língua dos peixes é a mesma língua dos pássaros. A Ana me roubou para me devolver.

11:23 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 20, 2004

INFÂNCIA DESINVENTADA
Gravura de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Eu confiava em meus irmãos. Podiam estar mentindo, mas confiava. O mentiroso apenas quer convencer a platéia de suas invenções. É o último a acreditar. O mentiroso é generoso - mente pelos outros, não para si. Meu irmão mais velho não conseguia dar conta sozinho de sua idéias. Escavei durante uma semana o quintal porque ele argumentava que do buraco poderia enxergar o Japão. Perdi três sessões da tarde. Saía da aula correndo para prosseguir a investigação psicológica do subsolo. O Japão não vinha e eu estava todo esfolado e esfarinhado de lama. Quando desisti, ele arregalou os ombros e falou com arrogância: "que pena, mais um pouquinho e poderia conversar com os homens de olhos puxados, andando de cabeça para baixo". Eu era dois anos mais novo. Em uma família grande, alguém sempre será o funcionário público dentro de casa, a pagar banco, mico e receber as visitas no guichê da mesa da sala. Costuma ser o caçula. Sobrou para mim. Nem aí, pois não me restava razão para discordar do meu início, muito menos do meu fim. A gente torcia para que os mais velhos casassem logo, para ganhar um quarto único. Os irmãos festejaram a saída da irmã que fugiu com o namorado enquanto os pais gritavam e amaldiçoavam a adolescência. Queria um quarto sozinho para colar cartazes na porta do jeito torto das oficinas de carro. Desejava ser mecânico quando pequeno para expor figurinhas enormes de mulheres peladas, peludas, precárias. Pensar em dispor de um armário inteiro para minhas roupas barulhava a boca, os dentes disputavam pegas. Passei a infância com duas gavetas, um degrau da estante de livros e um abajur. Não conheci mala, passaporte e tirei a identidade aos 19 anos. O meu irmão mais velho gostava de mistérios, de provocar mistérios. Uma noite me acordou com uma lanterna. Deviam ser umas 4h. O relógio ainda sentia cólicas. Botou aquele facho preguiçoso na cara e disse: "vem, temos uma missão". Eu não penso ao acordar e fui. Pediu antes que pegasse todos os meus bonecos. "Todos", advertiu. Eu amontei os playmobil no casaco, receoso. Tinha sido o presente mais caro que recebi. Não emprestava a ninguém, nem levava para a escola para evitar o 'deixa ver' dos colegas e o 'me devolve' dos meus medos. Pulamos a janela. Ele havia deixado uma escada de sobreaviso. O irmão estava meio alterado, mal contendo a euforia. Mostrou um livro dos incas e relatou que as pessoas enterradas cresciam as unhas e os cabelos e voltavam mais fortes, sem estômago para envelhecer. Bocejava a falta de café. Pegou uma pá e foi abrindo um sulco imenso na horta, pouco se importando com as alfaces e as hortaliças. Fez uma sujeira sem tamanho, que a mãe incriminaria os gatos. Ajudava de colher, por simpatia às causas estranhas. "Agora põe", ele me orientou. "Põe o quê?", perguntei, já temendo suas loucuras e de me enfiar naquela covinha como quem coloca uma pantufa.
- Os bonecos!
- Não, não.
- Eles vão ficar fortes, de unhas e cabelos compridos e vamos buscá-los daqui a exatamente três meses.
Sua força física me fez acreditar. Enrolei-os em um saco com farelos de pão e larguei na terra, fechada com esmero de um cofre. Meu irmão desenhou um mapa para localizar os guerreiros. Eu chorei devagar para não atrapalhar a chegada de meu sono. Era verão, as aulas terminaram e voamos para praia. Na volta, peguei o mapa com a letra emendada e daltônica e parti para a horta. Desapareceu a horta e não culparia a neblina. O pai aproveitou a viagem para cumprir a reforma prometida há décadas e cimentou o terreno entre o abacateiro e a ameixeira. Passei a brincar com minha ausência, imaginando que um dia os cabelos e as unhas dos bonecos abririam o solo em um terremoto. Dos meus 32 anos, observo os mínimos movimentos do pátio com atenção e expectativa. O pátio de minha infância ainda vai enfartar.

(Coluna do Rascunho, edição outubro de 2004)

8:08 AM :: Comentários:

A SEMANA, O MÊS

20/10 (quarta) - Palestra na Feira do Livro de Sapucaia do Sul, às 15h, para alunos do Ensino Fundamental.
21/10 (quinta) - Palestra na Escola Antônio Bemfica (Rua Alfredo Ebert, 358 - Bairro Petrópolis), às 10h, em Novo Hamburgo (RS), dentro do projeto "Autor Presente", do Instituto Estadual do Livro
21/10 (quinta) - Sarau Elétrico na Livraria Letras e Conceitos, às 20h, em Novo Hamburgo, com Kátia Suman e Luís Augusto Fischer
26/10 (terça) - Seminário de Literatura em Alegrete (RS), palestra a partir das 9h, em encontro promovido pela Escola Cidadã.
27/10 (quarta) - Sarau Elétrico em Rio Grande (RS), na programação "Literatura em Festa", às 20h, com Kátia Suman, Luís Augusto Fischer e Cláudio Moreno, no Teatro Municipal (Av. Major Carlos Pinto, s/n)
28/10 (quinta) - Participação no projeto Sexta em Verso, da CEEE Erico Verissimo, às 19h, em Porto Alegre (RS), com leituras de poemas de Drummond e Vinícius. Estarei acompanhado do músico e jornalista Arthur de Faria. Apresentação de Débora Finocchiaro e Mário Pirata.

8:05 AM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 19, 2004

HERZOG
Matéria do Correio Braziliense de domingo (17/10): Clarice Herzog reconheceu as fotos do marido: últimas imagens do jornalista vivo. Militante do PCB, morreu no Doi-Codi.

Fabrício Carpinejar

23 de outubro de 1975. Completei três anos, meu aniversário abria a boca em Porto Alegre com seus dentes de leite. A inocência sem ré. Andava somente para frente. Não dissimulava, não mentia, desconfiava do velho do saco, mas não olhava debaixo da cama para não ser apanhado. 24 de outubro de 1975. Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, vai à sede do Doi-Codi em São Paulo para prestar esclarecimentos sobre a sua atividade política. Ainda acreditava que seria um depoimento. Ainda acreditava que logo estaria em casa. Tiraram suas roupas. Fecharam a porta. A sauna sem outro bafo que não o do corpo. Lá está ele, terrivelmente só. Nem suas dores o acompanham. Nada. Segura a cabeça e esconde o rosto. Sua nudez está no rosto mais do que no corpo. Sua nudez é o rosto, corpo do corpo. Rememora a mulher talvez, o que teria dito para ela pela última vez e se recrimina de ter falado um 'até logo' sem memória, de faltar com o pressentimento. Faltou dizer uma vida. Está uma vida por dizer, mas nunca faltou com a verdade. O medo é tão forte que não sente o cheiro de nada, nem de si, muito menos das entranhas da noite, dos braços no rosto. Um homem desesperado é um desenho feito por uma criança. A tinta redonda em dois olhos. Duas corujas nos olhos. Resumido em traços breves, espaçados. Herzog. Sem colchão no estrado, sem estrada. Não irá dormir, bem sabe. Não irá acordar. Deixaram o relógio para mentir seu tempo. Zombam com fotografias. É sua derradeira foto vivo. Não ri, não está com a família para rir. Está fechado em uma palavra. O que faltou dizer para sua mulher. Escreve na parte escura dos lábios. Na mesa dos lábios. Descreve o que sua voz apanha. Escreve com o dente da frente. Queria ter dentes de leite como um desenho de criança, para ver os outros chegando. Para deixar debaixo de uma escada e receber a recompensa das formigas. Vlado. Ali fora é Vladimir. Na porção escura dos lábios, na mesa dos lábios, responde apenas ao apelo Vlado. Boçais. Todos boçais e frios e sádicos e de ferro roubado nos ossos. Não insulta. Não queimará o toco da vela de suas mãos para jogar luz ofendida. Prefere proteger a luz com os braços, disciplina o facho a permanecer. A chama da vela do rosto contra o hálito das frestas. Sua nudez impassível, impossível. É ele, um homem completando os cabelos com as mãos. Completado, não consumido. O último gole de seu corpo será ele a tomar, mais ninguém. O último gole do corpo - Deus não alcança. O último gole da respiração é de quem perde a morte para sempre. Pegaram suas roupas. Choro ao olhar a foto dele no jornal. Não o entendo. Meu pai arranca a folha, assustado. 25 de outubro de 1975. Foi o velho do saco, pensei. Amarrado em uma janela menor do que sua altura. Uma janela que não nasceu para o suicídio, que nunca será árvore e lustre de pássaros. Foi assassinado pelas suas roupas. Sua nudez foi assassinada pelo seu cinto. Aquele cinto que afivelou de manhã para amar o dia. E que demorou a escolher. Desamaram Herzog com o cinto. Uma mão familiar de seu próprio couro. O cinto. Fora de sua altura, forjado. Um cinto que nunca fechará sua morte, que não é cova para cobrir sua morte, lençol para tapar seu abandono. Não será enterrado perto das pedras. As pedras falam dormindo. Não foi ele que se matou, não foi ele que morreu, foi a consciência de que mesmo no meu aniversário alguém pode morrer, que não é proibido matar a inocência em meu aniversário.

9:34 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 18, 2004

ÁLBUM DE FAMÍLIA
Caderno Meu Filho, jornal Zero Hora, 18/10/2004



Nada de bola, meu negócio é castelo de areia: Fabrício com Mariana (1999)


Jardinando água: Vicente (2004)


Vista generosa: Fabrício tenta mostrar ao Vicente que há uma girafa por detrás de todas as cercas (2004)


Como no céu
Fabrício Carpinejar

Não havíamos reparado
na luz do corredor até ter filhos.
Não a acendíamos.
Luz limpa e impecável
recém-saída do banho.
Uma luz que não aparecia
na lista do mercado,
não conhecia a escada,
não explodia com a umidade.
Depois que nasceram as
crianças,
tornou-se uma lâmpada
materna,
acima das ordens do quarto.
Uma lâmpada que dá claridade
sem tirar o escuro,
que dá clareza sem anular a
pergunta,
um elo entre a cama dos pais
e o sono dos filhos,
com ouvidos prontos
a receber a troca de guarda.
A luz do corredor permite ler
enquanto o outro dorme,
não amassa as crianças
com o findar do dia,
tranqüiliza e concilia
as diferenças do cansaço.

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O poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, 31 anos, autor de Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) e Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003), apresenta aqui os filhos Mariana, 10 anos, e Vicente, dois. As legendas das fotos e o poema inédito são de autoria do papai.

8:10 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 17, 2004

PREFIXO 386
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

O esquecimento é uma escola onde ninguém chora. Ninguém se lembra para chorar. Tão difícil ser inteiro estando presente. A ausência me deixa mais inteiro. O tempo poderia ser puro, se não dependêssemos dele. Eu sei, sei que, ao me pensar resolvido, perdi a alegria: a alegria do que poderia ser, que me insuflava na infância e me dava motivos para resistir ao horário de dormir. Há dias de passear pelo próprio nome. Entrei no lotação e reconheci o motorista. Fazia quadras que não pegava um táxi-lotação no bairro Petrópolis. Fui recordando devagar, como quem estica os braços ao acordar e se delicia com o formigamento. O motorista era o mesmo Edevaldo, conhecido como Da Paz, que dirigia há 27 anos aquele microônibus. Ele me viu pequeno, a chuva de sapatos na janela, saindo com a mãe, quando me perdi no centro, me viu crescer, ser adolescente e arruaceiro com os amigos, partir ao primeiro emprego, completar a faculdade, me deixou passar quando esqueci o dinheiro, me viu casar, ter filhos, separar, casar, ter filhos. Ele sabe mais de mim do que eu seria capaz de enterrar. Sua solidão me apavora ou minha solidão discordando da sua. A solidão é indecente, sempre indecente. Encho-me de ar na falta de água. Relvo-me por dentro, não diferenciando as estrelas, a grama do capim das estrelas. Não me revelo por dentro, mesmo indiciado por perguntas. O peixe é egoísta, não vira flor, sua carne branca não vira terra. Os jardins das barbatanas não viram asas. Precisava falar somente o indispensável com o motorista, o que não significava que o motorista não escutava o dispensável, as conversas cruzadas, o rádio das relações levemente sintonizado. Em nenhum momento das décadas da minha poltrona conversei com ele. O silêncio preparava a viagem, encaixe do osso. A cortina marrom como cabelos presos porque estavam sujos. Discreto, Da Paz consultava o relógio de pulso como um retrovisor. Mora em Canoas, vem cedo cumprir horários. O único dia que não trabalha é seu aniversário, em que se dedica a caminhar a esmo por Porto Alegre. Não tenho certeza se ouvi isso, o motor espirrava rinite. Tentei puxar uma conversa mais longa, um pouco pela culpa de ser o passageiro solitário de um sábado de manhãzinha. Não sei o motivo, perguntei qual foi seu dia mais feliz. Da Paz não tirando de si nada mais do que uma voz seca, disse: "Minha felicidade é muito igual". E se bastou.

11:29 AM :: Comentários:


Sábado, Outubro 16, 2004

TRILHA FECHADA DE PÁSSAROS
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Escrever é desaparecer para dentro das pessoas, para só assim ser visível. A névoa é uma borboleta transparente. A montanha bebe a cerveja sozinha. O bisavô nasceu de meu pai. Lembrança sem desejo é memória. Lembrança com desejo é imaginação. Não me lembro onde estive toda a minha vida, mas me lembro onde estive ontem à noite. O que poderia ter acontecido aconteceu mais vezes. Existir não me basta. Minhas melhores intenções não me esperaram para jantar. A vizinha passou pó-de-arroz no rosto e me deu fome de conversar com ela. Eu não como mel, eu rezo mel, mel no pão, com o vestido curto do pão, com os joelhos do miolo à mostra, roliços, tremendamente sonoros. Eu não como mel, eu lavo a boca com mel, assim como se lava a boca com cinzas em dia santo. Eu levo o mel da boca para onde não há mel, como alguém que pega emprestado o pólen para misturar o corpo. Meu corpo é misturado como o mel, bicicleta do mel, rindo para entardecer já de manhã.

8:18 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 15, 2004

Deu no fanzine online [NÃO], edição 80, outubro/2004:

O QUE NÃO É ESPELHO É ROSTO

Fabrício Carpinejar



Sempre fiquei intrigado com quem diz, com mais saliva do que dentes: eu não o leio porque não faz meu tipo. Ou eu não gosto dele porque é concretista. Aquele cara não presta porque é conservador, neo-romântico. Não fui com o jeito de pronunciar o efê daquele autor. As aparências enganam, mas a falta de aparência engana mais ainda.

Há centenas de tipos de letras, mas a maioria ainda continua a escolher a times new roman. Porque é a primeira que aparece. Os hábitos provocam o desaparecimento da personalidade, a rotina preserva a não-existência. Fazer tudo da mesma forma é um jeito quase seguro de não aparecer, de ser invisível. Uma das maldições da prosa e poesia contemporânea é a formação de bandos, tribos, seitas, com o dízimo pago pontualmente nas dedicatórias e epígrafes. Como que isso acontece? Quando a saudável influência vira apostolado. A máxima funciona nos extremos: ou se é de algum time ou não se é jogador. Depois da antropofagia, vem a autofagia, que dá no mesmo. Já se parou para pensar que a tradição pode ser mais repetição do que consistência?

A literatura não é uma religião, não há a figura de um padre ou pai-de-santo ou pastor ou rabino a seguir. É uma solidão dentro do nome. Mais desaforo do que elogio. Mais dúvida do que dogma. Estranheza em estado bruto, inadiável, que inverte a ordem do senso comum, cava contradições, fornece velocidade ao idioma, não serve para enrolar, mas para dizer unicamente o necessário. Um bom livro não adormece, instaura a insônia da alegria, a euforia de ter encontrado a palavra certa para o que vivemos ou podemos viver. O poema, por exemplo, tem que ser simples, não simplório; rápido, não fácil; autêntico, não rebuscado.

Está se precipitando uma guerra pouco santa. Encalha-se no narcisismo desde a leitura. A criação apenas a amplifica. Acredito que se desaprendeu a ler para reafirmar a vaidade da autoria. Todo leitor se transforma em um escritor apressado, louco para se enxergar estampado na capa de alguma brochura. Ou seja, o leitor está mais interessado em escrever do que ler. E ler se converteu em escritura anônima. Segue-se uma receita, com a covardia em preparar o almoço de olho e acrescentar novos ingredientes. Nada disso seria problema, mas acaba-se não sabendo ler o que não é espelho, intimidando possibilidades de transgressão e aventuras na linguagem. O que não é espelho é rosto e muitos se apavoram em olhar de frente os olhos abertos que não os seus. Não se lê outros autores porque se está interessado unicamente em reiterar a identidade. Assim, ninguém lê ninguém, o autor somente se procura em cada livro e não valoriza o que difere de sua voz. Ao invés de multiplicar as diferenças, soma-se as subtrações. A megalomania na leitura gera mais crítica dentro da criação do que criação. Os livros passam a ser ensaios de como se escrever mais do que narrativas e poesias versando sobre o cotidiano. O que era para servir para entrar no mundo assumiu o caráter de fuga do mundo. Os escritores lêem escritores para se amar duas vezes, mergulhando em uma metalinguagem sem bilhete de volta. Esquecem que o público não está interessado em manuais de datilografia ou de poemas falando de poemas. Coroa de flores nunca vai cheirar a flor.

Não aprendi muito na literatura, mas algo me previno: eu não leio para repetir o que escrevo. Nem escrevo para repetir o que leio.

9:33 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS RECEBE DO CARMO E DEGRAZIA

Varal de Letras, série de debates mensais que apresento na Livraria Cultura, recebe os escritores gaúchos Paulo Roberto do Carmo e José Eduardo Degrazia. Com o tema Poesia de resistência e a resistência da poesia, o evento tem entrada franca e acontece nesta segunda (18/10), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Aegre (RS). O encontro pretende discutir a geração de 60, a poesia engajada e formas de despertar a consciência política dentro do tempo sem prejudicar a expressão estética atemporal.

Paulo Roberto do Carmo é educador, professor e poeta, autor de "Livro de preceitos" (1993), "Breviário da Insolência" (1990), "Estação de força" (1987), "Arte de revidar" (2000), entre outros. Recebeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional, pela obra "Livro das manhãs" (1997). Sua estréia "Crisbal, o guerreiro" (1966) marcou a crítica. Segundo Luís Augusto Fischer, o livro "polarizou as atenções jovens naquele momento, a partir de uma longa meditação sobre uma figura como que descarnada do velho e solitário gaúcho". José Eduardo Degrazia é médico, poeta e ficcionista, autor de mais doze livros, como "Lavra Permanente" (1975), "Cidade Submersa" (1979), "O Amor essa Palavra" (1992), "A Porta do Sol" (1982), entre outros. Tem obras traduzidas na Itália e em Cuba. Poemas de sua autoria integraram antologias no Japão e na Espanha.

9:31 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 14, 2004

FILHOTE-DE-CRUZ-CREDO
Gravura de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Não se deve procurar Deus só quando se precisa. Procuro Deus especialmente ao discordar Dele. Quando fico com um dilema sério, escuro que nem caixa d´ água, espero sete dias antes de responder alguma coisa. Toda minha dúvida tem missa de sétimo dia. Sete dias são suficientes para velar, reconhecer e aprender a amar uma ausência, assim como se amava uma presença. Toda dúvida merecia anúncio no jornal convidando os familiares e amigos para celebrar seu fim. Uma dúvida é motivo de hóstia. Não sofri pena de mim, piedade, não quis ser um outro mais bonito. Já tive raiva, ódio de mim, por ter machucado alguém sem propósito, por absoluta incompetência afetiva. Mas compaixão, nunca. Ao conversar com uma mulher de olhos azuis, converso mais com os olhos azuis do que com seus dentes. Os olhos azuis são meus bisavôs. Uma vez, bem recente, percebi que a amiga de olhos azuis reparava insistentemente ao meu rosto e balbuciava, sem chegar a formar o que queria, como que fazendo bolha de sabão para que eu pudesse estourar. Voz não saía, saliva. De repente, ela pergunta, destruindo a elegância da espuma: "a má formação de teu rosto, do teu queixo, é resultado de um acidente?". Eu me calo e penso na missa de sétimo dia da dúvida. Seria fácil responder que sofri um acidente, que destronquei a minha face pela imposição do destino, gerando alívio de que algo me aconteceu externamente para justificar o semblante estranho e confuso de traços. Seria fácil dizer, por exemplo, de que caí quando bebê e fui salvo em uma incubadora. Seria fácil afirmar que levei uma surra de um macaco no zoológico ao dar pipoca e tive que ser reparado a tempo no hospital e os médicos fizeram o melhor que podiam. Porém, minha feiúra é autêntica. Não há cicatriz, corte ou ferimento que tenha sido sarado. Nasci filhote-de-cruz-credo. Não passo a mão na cara esperando um milagre. Assim como as mulheres se gabam de não terem aplicado silicone ou efetuado lipoaspiração, alegando que sua beleza é natural, reitero que minha fealdade é espontânea. O desvio de septo não surgiu de um soco, não desci errado do ventre, minha face estupidamente longilínea, como uma bacia de cortar cabelo, já era assim desde o primeiro dia. Minha boca é miúda, com o céu da boca estreito. Sou feio de nascença. Minha barba me mostra mais do que me esconde. Não tenho orgulho, tampouco resignação. Sobra realidade em meu queixo.

9:59 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 13, 2004

O DESGOVERNO DO RISO
Gravura de Giorgio Morandi

Fabrício Carpinejar



Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso contido, encabulado, que costuma aparecer em restaurantes. O riso desaforado, malicioso, com a proximidade dos ouvidos. O riso choroso, que surge no meio da tristeza e te faz rir e chorar ao mesmo tempo, como uma pane elétrica. O riso materno, de orgulho distanciado, como que perguntando como aquela criança enorme saiu de teus olhos. O riso ao sair do banho, boiando no perfume, mostrando os dentes como seios. O riso fúnebre, do sarcasmo, quando não suportas mais uma conversa e empurra a cadeira e a respiração para trás com barulho. O riso sem graça nenhuma, falso, que aconteceu involuntário e não tinha fôlego para permanecer. O riso esparso, que escreve os olhos em letra minúscula. O riso do gozo, que se levanta com a ajuda dos braços da cama. O riso esticado para fotografia, de pálpebras cerradas. O riso da formalidade, meia boca, de quem não está ouvindo. O riso epilético, da brincadeira, onde as palavras são profecias. O riso de quem não é indiferente a nascer, cúmplice, amigável de sombras. O riso do cumprimento. O riso do aceno. O riso debaixo de um guarda-chuva, minguante, preocupado em não pisar em um rosto. O riso estranho, de não lembrar o nome com quem se está falando. O riso do perdão. O riso do castigo. O riso desigual, que puxa mais o lado esquerdo do que o direito, que entorta a boca como uma aspirina sorvida a seco. O riso que é soluço e demora alguns segundos para voltar. O riso contemplativo, com os lábios comprimidos de mímica e crepúsculo. O riso que é gargalhada, uma pedra sem chegar ao fundo. O riso afônico, como um filme rebobinando. O riso indiferente, que não faz cova, nem enterra o osso do riso. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso que é desgoverno da palavra. O riso que gosta e não elogia. O riso da adoração de algum canto. O riso de quem ama tudo e não se mexe. O riso de enganar as intenções da cólica. O riso tardio, que se dá conta bem depois do riso. O riso antecipado, nervoso, antes da hora. O riso da impaciência, apertado como um desejo. O riso da prova, da fugacidade deliciosa. O riso do provador quando a roupa ajuda a esquecer as medidas do corpo. O riso de sobra, de quem encontrou uma vaga para estacionar. O riso da fome, que fica aberto, em sentinela. O riso de quem retém o sopro de um verso. O riso sentado estando de pé. O riso teológico, que promete Deus em causas próprias. O riso que desaprendeu o volume da água. O riso do susto, justamente quando pensava bobagens. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sem saber ao certo qual foi dos teus risos.

11:03 AM :: Comentários:

PALESTRA NA FACCAT

Com o tema "Mentiroso por excesso de imaginação: poesia e letra para assobio", faço palestra na FACCAT (Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas de Taquara), para alunos dos cursos de Pedagogia, Letras e História, nesta quinta (14/10), às 19h30, no auditório da universidade. No encontro, haverá a premiação e o lançamento do livro com os textos vencedores do Concurso Literário FACCAT, edições, 2002, 2003 e 2004.

Informações pelo telefone (51) 541-6600

11:01 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 10, 2004

ORAÇÃO AOS QUE NÃO VOLTARAM DO FUNDO DE SI
Pintura de Iberê Camargo, da série "Ciclistas"

Fabrício Carpinejar



Por favor sempre às ordens volte sempre. Minha virtude é desatenta vaidade. A saber tudo, não sabia coisa alguma. A ser tudo, não fui coisa alguma. A chama é intransigente e não me deu tempo para arrumar meus pertences. Nem abracei a minha esposa, nem acenei aos filhos. Caminhei por onde não era, para descobri o que faltou fazer. Caminhei por onde não existia, para reparar onde não nasci. Não me pertenço. Queria me ter sem nada buscar. Queria me procurar sem me ameaçar. Escrevo porque não tenho nenhuma prova de que morri e tento me convencer de que ainda há vagas em meu corpo. Quando estou muito cansado, não durmo, porque fico cansado para dormir. Quando não estou tão cansado, descanso sem ritual e sem chinelos a esperar no portão. A insônia é um cansaço do cansaço. Não posso me renunciar, porque não tenho nada a perder. Não posso me desapegar, porque não tenho nada a ganhar. Na única vez em que pesquei, fisguei o anzol em minha perna. Eu me capturei e não me devolvi ao mar. O anzol puxou a carne como se fosse mar e o mar como se fosse carne. E toda pele ao sol é um grito. Minha maior amizade é com que desconheço, o que conheço de mim vira defeito. Não me atormenta ter sido assim, a esmo: por favor sempre às ordens volte sempre. Me atormenta que a imobilidade me tornou rígido e nego duas vezes para afirmar. Sou o filho que minha mulher teve com um estranho. O estranho sou eu. E a luz é suspeita para me devolver o rosto.

9:54 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 09, 2004

ENTRADA PROIBIDA
Gravura de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar



Eu admirava a escadaria estreita, ladeira somente calçada, beco com saída, jardim dos inços, que me levava a atalhar um quarteirão inteiro e chegar antes de mim nos compromissos. Vi que várias foram fechadas em Petrópolis, bairro de minha infância, em Porto Alegre. Gradeadas, com um portão de ferro e uma placa intimidando a entrada. Quem carrega a chave de uma rua? Quem virou o dono do deserto, do descampado, do terreno baldio, a ponto de bloquear o que é de livre-trânsito? Um chapéu nunca será um guarda-chuva, até porque um chapéu é mais calha do que telhado. Lúgubre como meus olhos, a escadaria entre as ruas Itajaí e Carazinho não vestia terno e gravata, muito menos andava de tênis e roupa esporte. Pela convivência, ficou com a cara de seus mendigos. Sua extensão lembrava alguém deserdado, que perdeu as posses em um jogo de pôquer. Usava um capote maltrapilho a arrastar pelas ervas. Seu capim apresentava a arrogância da grama. Realeza da pobreza, luxúria do abandono. Quantas crianças urinaram nos seus vãos, apressando o musgo? Servia para namorar depois da escola. O primeiro seio que toquei aconteceu nela, o primeiro seio mudou o sentido da minha mão para o resto da vida. Não tinha medo de assalto e de atravessá-la no escuro. Ela não desfrutava de poste de luz para escorrer em seus degraus. Degraus tortos como meus dentes. Exigia conhecimento de caso. Sabia seu andamento de cor: três degraus curtos, dois longos, quatro longos, três curtos, um menor do que todos, vinte curtos, dez longos. Treinava a pichação em suas paredes. Minha letra assobiou pela primeira vez em sua lonjura. Dava um jeito de antiguidade ao bairro, de segredos de família, de obscenidade. Uma escada-caracol dentro do estômago de uma ave. No final dela, há um asilo com cheiro de talco. Não deixava de ser a metáfora de minha vida, o caminho entre a infância e a velhice. Mas a cidade está com medo de envelhecer e fechou sua porta. Isolada de sua memória, envelhece mais rápido.

8:56 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 08, 2004

E VIVERAM FELIZES COMO NOIVOS

Fabrício Carpinejar



Eu me preocupava com as dores alheias mais do que as minhas. Não queria ver minha mãe chorar, meu pai chorar, meus irmãos chorarem. Dediquei a vida a tentar fazer os outros felizes. Não sobrava tempo para cuidar de mim. Meus melhores amigos foram sendo aqueles discriminados e excluídos em sala de aula. Um manco, um míope, um colega que tinha um talentoso defeito para enfrentar apelidos e se fortalecer de solidão. Torço pelos times mais fracos, pelas zebras, pela descrença. Basta dizer que alguém não acredita em alguma coisa, que farei tudo para que ela dê certo. Eu, por exemplo. Tanto falaram que não iria dar em nada. Sou pai de um menino triste. O menino que fui sem deixar de sê-lo. Queria resolver a minha família, deixá-la junto. Com a separação dos pais, acabei me fragmentando para ficar com todos. O divórcio foi uma realidade dentro da realidade, apartando definitivamente o quintal do ventre. O portão fora cadeado e o cão engoliu a chave. Percebi que não sou unânime em mim, nem serei em qualquer amigo ou conhecido que me perceba. Serei dividido como uma luz se divide debaixo de um livro. Me dou os piores conselhos e prefiro uma frustração escolhida do que um acerto imposto. A foto acima é de um noivado. Noivar parece loucura nos dias de hoje. É uma loucura em qualquer tempo. Uma loucura alegre, de preparar uma vida a dois com antecedência e esmero. Fábio olha para a foto, ri abafado. Aline não olha, estende seu olhar para outro canto e deixa sua mão falar em seu lugar. Esperam a própria espera. Os pais sentados sabem, viveram e não opinam. Não adianta opinar. A biografia será diferente mesmo para quem busca se repetir. Noivar é casar a casa antes de seus residentes. Criar uma tensão social, uma ansiedade familiar de que o mundo pode ser planejado e cumprido. É um antídoto contra a perda, os fatalistas e os céticos. Quem noiva tem fé, ainda que não tenha religião. Confia que o amor pode ser mais do que cinqüenta passos dentro de uma igreja. Ou vinte passos ao quarto. O amor é o vitral que só pode ser visto de longe, depois do amor. Nunca perto ou dentro dele. E depois do amor nunca será depois. Acredita-se que não se deve expor os sentimentos para se proteger a fragilidade. Ninguém pode saber o que pensamos. Por quê? Pensar já é desejo. Os noivos expõem seus sentimentos, são fragilmente fortes. Têm um pacto de corpo. Estão com medo, sim, sempre. Medo não é ruim. Viverão no medo por uma palavra. Não troco nada pela expectativa de uma boca, que pode soprar de repente uma ofensa ou um beijo. E os que não sofrem do medo, da insegurança e da intranqüilidade não estão acordados para as delicadezas. A dúvida não esclarece, mas clareia. Os noivos não serão um casal apenas depois de casados, assim como já o eram quando namorados. Os noivos desafiam a inveja, das pessoas que se separaram e procuram a identificação pela maldade. Até porque essas pessoas deveriam perguntar o que deu certo nos relacionamentos, não o que deu errado. Os noivos desafiam a inveja. Sem eles, a árvore não se casaria com o rio para gerar margens.

10:35 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 07, 2004

UM BESOURO NA MÃO

Fabrício Carpinejar



Um nome não se divide. Falo com Deus, não falo de Deus. O erro que já é verdade não erra mais. É o suspiro do fogo que dá cor ao pão. Amar é condenar alguém. O desprezo é uma forma desaforada de elogiar. A preguiça convence mais rápido. Um sonho não me diz verdades, mas pode me tornar verdadeiro. Até a esperança não foi fiel.

1:18 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 06, 2004

CUIDADO COM O PISO FLORESCIDO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Primavera é o inverno do asmático. Tenho que me desviar das paineiras. Meus caminhos ficam mais longos. Não compareço a reunião de condomínio do jardim botânico nessa época. Depois me acostumo com o aluguel. Ser puro cansa. Deus cansa. Mesmo quando encontro o que estava perdido não interrompo a busca. Posso encontrar o que não estava perdido, que é bem mais difícil de achar. A verdade nunca é dita de barriga vazia. A mentira nasce da fome. Dou prazos para encerrar as atividades mais prosaicas: parar de fumar, por exemplo. Dar prazo é planejar os vícios. Meus vícios - ao menos - são organizados. Buscar o filho no colégio me envelhece. Mas não faço barulho com a sopa. Telefone de bateria e celular acabaram com a ginástica de cordas dos braços. Levantava o aparelho e esticava o fio preto aos ombros. Ficarei flácido em nome da tecnologia. Destruí minha reputação cedo para não ficar preocupado com ela depois. Minha memória é capim, se parece com a grama, porém cresce mais rápido. Eu não lembro, eu pasto. Não sou vingativo senão não teria tantas vidas perdidas, tantas vidas pela metade. Perguntei a uma amiga: me ensina a te compreender? Ela me respondeu: "não sei te ensinar, aprende e depois me ensina". Estou sempre em vantagem com os outros, em desvantagem comigo. Olho para trás por qualquer assobio. Tudo é pretexto para não olhar para frente. Imprevisivelmente previsível. Invisivelmente visível. Não gosto de ir a cinema sozinho e segurar na mão ossuda da poltrona. Prefiro a mão quente e macia da Ana, para me lembrar do miolo do pão na saída. Só me levarei a sério ao morrer. Queria morrer pequeno, encolhido, para entrar em um violino. O violino faz beliche com as cordas. Na noite, quem é sóbrio sobra. Odeio restos de sabonete. Odeio sabonete de hotel que já é resto e nem foi usado. Ser solteiro é bom, até que termina o papel higiênico e não há ninguém em casa. Emudeço quando estou envergonhado e me abrevio em iniciais. O tímido autêntico não fica vermelho no rosto, mas nas orelhas. Brincadeira de mau gosto é uma piada que alguém ri antes de terminar de contar. A vida não me deixou mais sábio, talvez mais prevenido. O melhor de viver é se repetir. Alimento com alpiste os antepassados no porta-retrato. Porta-retrato é gaiola de gente. Não tiro a poeira do vidro, a poeira exige respeito, água antiga. Eu me espero de banho tomado.

8:24 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 04, 2004

MEU SANTO DA GUARDA
Gravura de Giotto

Fabrício Carpinejar




Sempre que não entendo algo, uma rua ou uma idéia, peço um desenho para me explicar. Sou de um tempo em que as gravuras são alfabetos gigantes. Letra consistia em desenhar pequeno. Tem gente que guarda tudo que é data: do primeiro beijo, do primeiro fora, da primeira transa, do primeiro divórcio, do primeiro filho. Eu apresento uma incompetência natural para gravar dias como telefones. As informações duram apenas vinte segundos e já embaralho a ordem dos números em seguida. Uma data, entretanto, eu nunca esqueci. Quando nasci para a língua portuguesa: 4 de outubro de 1979, dia de São Francisco de Assis. Antes disso, nem existia para o livro do mundo, mundo do livro; era um menino de dialetos, longe do idioma, um menino sem talento para assinar o nome ou passar por debaixo das cercas da caligrafia, que se arranhava nos galhos e só conseguia apanhar alguma fruta por compaixão das árvores. Alfabetizar-me custava atenção que não contava, disciplina que me escapava. Não entendia que a pronúncia mudava o jeito da mão. Ou que a mão mudava a inclinação da escrita. O que ouvia não podia ser anotado. O que anotava não podia ser ouvido. A tinta me ameaçava com seu som parado, feno de jaula. Ia para aula cheirar o álcool das folhas do mimeógrafo. Ler e escrever vinham separados. Nessa data, meu santo da guarda Francisco me soprou dez palavras certas no ditado. Eu colei dele. A professora havia me reprovado com antecipação - voltou atrás. Fui meu único milagre, ainda estou me recuperando.

4:37 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 02, 2004

UMA COLEÇÃO DE CIDADES RARAS
Maria Esther Maciel lança O Livro de Zenóbia, pequena ficção sobre a delicadeza de guardar a memória familiar

FABRÍCIO CARPINEJAR/ Jornalista e poeta, autor de Cinco Marias e Caixa de Sapatos, entre outros livros


Guardar é diferente de esconder, consiste em proteger e zelar um bem da corrosão temporal para melhor partilhar. Esconder já acentua um egoísmo, a recusa de disponibilizar algo ao mundo. O Livro de Zenóbia (Lamparina, 157 páginas), estréia na ficção da poeta e ensaísta mineira Maria Esther Maciel, guarda, emoldurando recortes e depoimentos de uma vida. Uma vida mais dada para fora do que para dentro da escrita. Uma vida mais falada do que letra, mais ouvido do que boca, mais feita do que se ouviu do que aquilo que teria acontecido. Em breves capítulos, a fábula retrata o percurso de Zenóbia, personagem nascida na Fazenda Palmyra, em Patos de Minas (MG), em 1922. Bióloga de profissão e escritora nas horas vagas, teria legado contos, poemas e romances inéditos, conforme revela uma nota ao final da obra. Os dados objetivos também pouco acrescentam. O que a autora faz é iluminar e não explicar. São assobios litúrgicos a mostrar os interesses, as manias, as crenças de uma mulher recolhida em seu interior e na família. Não tem nada de assombroso, nenhuma briga, ação ou crise. O enredo poderia ser resumido simplesmente como a narração do que se passa no estômago, no coração e no pulmão de um corpo feminino. Fica-se em contato com os pesadelos, lembranças inacabadas, sensações, com o refinado artesanato de sua sensibilidade. E é a falta de acontecimento que gera uma tensão misteriosa, uma hesitação, com a cesura mágica dos parágrafos, tal segredo se revelando aos poucos. Prevalece um encantamento do círculo corriqueiro, de permitir o mundo correr sem interferir no curso.

Zenóbia é sobrenatural porque é comum demais. Não pede nada que não recebe. Não deixa de oferecer o que sobra. Essa normalidade de Zenóbia cativa pela fidelidade, pela devoção aos ensinamentos da mãe e da avó, por uma santidade leiga, que impõe essencialidade e pobreza e recusa o exagero dos milagres. A protagonista se esvazia para se preencher. Ao ajudar os vizinhos e se doar aos outros, multiplica a existência amorosa. Não vive à imagem de Deus, mas em suas "margens". Numa cidade onde não se é notícia, cultiva princípios e virtudes em uma estreita horta, nos dons culinários e nas leituras da cabeceira da cama. Fala de poesia como quem dá conselhos de saúde.

"O esquecimento é mesmo o único perdão? - perguntou Zenóbia à sua mãe, quando esta lhe contou o caso triste de uma irmã. Era sempre assim nessas manhãs possíveis: as duas falavam dos abismos da casa e dos senões do dia, sem resíduos de aflição. Ou cogitavam sobre as coisas que lhe poderiam advir a qualquer hora, ou não. Eram seus instantes de afinidade sem dissídio, de afeto sem ficção. Cada uma com seu vôo implícito, sua quase solidão."


O livro tem um perfil de diário, de um baú sem fundo, com listas de palavras prediletas, ervas daninhas, peixes perplexos, cidades raras, temperos e ervas de cheiro, aves em perigo, orquídeas e bromélias e obras favoritas.

Em primeiro lugar, Zenóbia expressa o que gosta, sem medo de se expor. Em segundo, sua dispersão é concentração. Não valoriza a vivência racional e cronologicamente, mas segundo a intensidade de seus desejos. A aparência descontínua do texto oculta - ao fundo - uma organização rígida de aforismos e saberes. Ela não classifica, ato da memória, porém coleciona, ato da imaginação. Colecionar é ceder a vida em troca, representando o caminho vivido e as escolhas a partir de um mostruário de pertences.

Classificar é manter um distanciamento crítico, uma independência pessoal e uma autonomia de análise. Enquanto a coleção busca a qualidade poética e a convivência, reconhecer uma ancestralidade anterior; a classificação pretende resultados práticos, científicos, imediatos, comprovando teses pela quantidade e dissecação. Para a coleção, a coisa já é um fim; para a classificação, ela é apenas um meio.

Saudáveis obsessões - As coleções de Maria Esther Maciel destoam ainda do recurso de "inventário" da poesia de Manoel de Barros, em Gramática Expositiva do Chão, ou das instalações do artista plástico Arthur Bispo do Rosário. Os objetos dela não trocam de função, permanecem do princípio ao fim com sua integridade espiritual e emocional. Barros e Rosário, pelo contrário, purificam os objetos da doença do consumo, alteram suas finalidades, renovando o sentido de banalidades e mistificando coisas vulgares e triviais em verdades libertadoras.

Maria Esther Maciel não parte para a transubstanciação, quer o delírio da coisa enquanto coisa. Mantém o sentido do que vê, separa para preservar, não despreza o consumo para favorecer o modo como cada coisa foi consumida. Ela se importa com a história do uso acima das necessidades materiais, com o valor da permanência e com o que lhe é caro e prazeroso acima do preço e da cotação. Encontra o êxtase na intimidade com o prosaico, não no estranhamento e distorção.

Um dos "olhos mágicos" de leitura está na frase de uma tia-avó: "Quanto mais as coisas mudam, mais continuam as mesmas". Zenóbia, serenada na imutabilidade, não muda as amizades, os amores, a si mesma para assim permanecer mudando. Suas mudanças um tanto sutis se referem a compreender o lugar de nascimento e aproveitá-lo em seu tempo.

A prosa poética não oferece definições exatas, e sim estados de alma, vagas noções de lugar, pressentimentos que podem ter eclodido ou não. Às vezes, há coincidências entre a profecia e a vivência; outras, esquecimento do corpo de completar uma frase. "Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido". Zenóbia, adiantada de si porque não renega o passado, publica sua biografia em todos que a enxergam. Seus fatos, na verdade, são os casos que conta. Admira as sutilezas, os detalhes diáfanos, os hábitos herdados, como ruminar os dias de chuva, lustrar as fivelas dos sapatos, comprar palavras ainda que roubadas, batizar a filha que não nasceu, descobrir na crueldade da avó uma forma de amor, catar nomes capazes de espantar os pássaros nos catálogos telefônicos.

Os extremos no livro se convidam, se tocam, sem pressionar confidências. Tudo é um álbum de família com fotos arrancadas, cheio de conselhos no lugar das legendas. Arranca-se a foto para um dia achá-la no bolso de um paletó e de um casaco. Sabedoria que vai se completando de geração a geração. "Antes de começar a comer, não diga nenhuma palavra." Curiosidade caseira, doméstica, nunca reprimida, expansão cotidiana reconhecível nas vozes de outra escritora mineira, Adélia Prado.

Se das três mortes, Zenóbia conservou somente a lembrança da primeira, com certeza não deixou de viver todas as três. "Existir não é plágio", a personagem bem sabe o que diz, existindo além da escritura.

(Diário Catarinense, caderno Cultura, Florianópolis/SC, Edição nº 6689)

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Sexta-feira, Outubro 01, 2004

O CHEIRO
Gravura de Raoul Dufy

Fabrício Carpinejar

Nossas crianças crescem, têm filhos, casam, separam, nos esquecem, nos largam, voltam, retomam, desabafam, desabam, nos odeiam, nos amam. E o que fica? O cheiro delas. O cheiro de sua respiração enquanto dormiam no berço. O cheiro de seus cabelos suados quando acalmávamos a febre. O cheiro do pescoço no abraço repentino. O cheiro de seus joelhos esfolados, das folhas de figueira. Quando telefono para minha filha, converso com um cheiro impossível de apagar, de retirar debaixo da carne. Uma confissão que amei mais do que poderia viver. Paternidade é um cheiro. Maternidade é um cheiro. O cheiro não faz idade. É um mar que se mergulha mesmo distanciado a dez quadras. É mais do que uma palavra que não foi dita, é o cinto das palavras. O cheiro é mais do que um verbo e sua conjugação errada, é um nome. Um desenho sem chão porque a árvore se contenta em subir para o sol.

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