Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Fabrício Carpinejar


 

Arquivos:

Blog

Terça-feira, Novembro 30, 2004

EDUCADO PARA NÃO FALAR
Gravura de Cézanne

Fabrício Carpinejar



Não importava se tinha razão, devia me calar. No meu tempo, ser educado era ficar em silêncio. Na mesa, não podia emitir som que não fosse da natureza do garfo e da faca. Criança aceitava, não falava. Como um bicho doméstico, um galo, um cachorro, um gato, um canário belga. Encabulava quando raspava a louça, arranhava as rodas ao estacionar no meio-fio do prato. Meu pai falava sem parar dos negócios, dos vizinhos, do futebol e eu escutava com continência e louvor. Nunca me passou pelos ouvidos nenhuma pergunta inteligente para fazer, até porque as perguntas inteligentes surgem das bobagens e não corria riscos. Se as conversas tivessem sido gravadas na época, descobriria que não apareci na própria infância. Entrava com um "obrigado" e saía no "com licença". Não questionava os hábitos, preocupado em me ver livre o mais rápido possível daquela cena. Não sabia como viver para me sentir morto. Não sabia como morrer para me sentir vivo. Meus bolsos cheios de bolas de gude para acompanhar as mãos. Os bolsos do meu pai cheios de chaves para desafiar as mãos. Os bolsos de minha mãe cheios de pedras do terço para esquecer as mãos. A sobremesa era sagu ou arroz de leite, que comia com vagar e ódio, já que consistia na mesma merenda da escola. Passava o dia comendo sagu ou arroz de leite. A canela em cima do doce me arrepiava de careta, emburricava a respiração. Me censurava antes da censura, me proibia antes da negação, me cavava antes de ser enterrado. Pensativo como quem se penteia no espelho. Prestativo como quem tem culpa por crescer. Nas saídas em família, permanecia igualmente calado, omisso, aceitando que as pessoas secassem seus dedos no meu rosto em cada encontro. Quando recebia um elogio público de comportado, o pai sorria, a mãe sorria, e bem que tentava sorrir, mas os dentes eram de leite e logo cairiam. Nunca levantei a voz. Falava para dentro, com a cabeça inclinada de cavalo cansado. Tinha serenidade porque não encontrava outro sentimento para colocar em seu lugar. Não havia estômago para chegar ao fim da esperança. Não estava escuro para me defender com vela, muito menos claro para procurar sombras. Conhecia de cor o ato de contrição, apesar da dificuldade de inventar pecados. A humildade lembrava covardia, o que explica minha vontade insana de fazer calar esse tempo, o meu tempo de camisa fechada até o último botão.

8:43 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 28, 2004

MANICURE
Da série Mulheres
Desenho de Mariana

Fabrício Carpinejar


As mãos da manicure são sapatos cômodos. A manicure é melhor do que um marido: opina sempre a favor, não discorda e nem preciso explicar o começo da história, principalmente porque a minha personagem predileta nunca aparece na história. O salão é como um armário de cores: 150 opções de esmalte, afora as misturas e as estantes do invisível. A manicure é a única mulher que tem unhas horríveis, em função da acetona. Ela se sacrifica em meu lugar - é comum reclamar das dificuldades de visão e dor nas costas - não importa quem está me atendendo. Os dedos se tornam pratos com muito verde e vermelho nas bordas. Só como salada para enfeitar o prato. Não é porque gosto - é questão de estilo. Enquanto a manicure limpa o esmalte, corta e lixa as unhas, vou me esvaziando. Ali falo o que não preciso. É tão monótono falar por necessidade. Assim como gastar para ficar com algo. Gasto para não ter feito nada. Na vida, até os erros involuntários são essenciais. Portanto, não adianta escolher o que vai permanecer. Percebo que as alegrias não combinam com a pressa. Não dou corda ao dia para ele não se enforcar. Desligo a defesa e as advertências. A infância mais acontece quando termina. Coloco as mãos de molho e sinto-me diante de uma cartomante. Enxergo o futuro como se não fosse acontecer. Liberto-me da vaidade de decidir. Não quero duvidar para decidir depois, duvido pelo prazer de não chegar. Aos poucos, ela empurra a cutícula com a espátula e empurro meus problemas com a espátula, ela retira a cutícula e eu retiro os problemas, ela passa a base e eu refaço a minha base, ela pinta e eu estendo o braço no escuro. Volto para casa disposta a conversar com estranhos.

11:47 AM :: Comentários:

BONDADE
Da série Mulheres
Desenho de Mariana

Fabrício Carpinejar



"Não sei pensar e ser útil ao mesmo tempo", ela dizia. "O que penso nunca me serviu". Saía bem cedo, às 6h, dava três voltas na quadra, tomava banho e dormia novamente. Somente ia visitar as esculturas da praça. Estátuas danificadas, sem os braços. Os objetos que perdiam valor tinham mais valor. Uma estátua sem braço a fazia pensar, não era útil. Agradava o corpo riscado, corrido, gasto, que deixava algo definitivamente para trás. Sua vida foi feita de barro e cuspe. Os defeitos não a incomodavam. Passava maior trabalho em justificar as virtudes. De vez em quando, fazia alguma maldade. Até a bondade enjoa.

11:46 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 26, 2004

COISAS FAMILIARES
Desenho de Mariana

Fabrício Carpinejar



Não volto mais. Não adianta resistir na janela, apertar o interfone, mexer as pernas com intranqüilidade, recorrer às paredes, avisar os parentes. Não volto mais. Podes arrumar a casa sem o café, virar o cinzeiro, dispensar os livros arranhados, os discos sublinhados. Não volto mais. Haverá espaço sobrando na mesa, na cama, no banho, no armário. Haverá espaço sobrando em teu ouvido. Não volto mais. Terás que buscar o jornal, alimentar o cão, morder o lápis, cortar a cebola na tábua como se fossem meus olhos. Perderás as datas de vencimento das contas, as chaves no bolso, o lugar das aspirinas. Não volto mais. Não sentirá o susto de ter adivinhado minhas idéias, o meu desespero em falar das novidades, os meus casacos espalhados nas cadeiras. Não volto mais. Não haverá jogos, apostas e brigas, o calendário permanecerá na mesma folha de novembro, não chegarei mais atrasado, a garrafa de vinho restará à toa, a chuva será água com gás. Não volto mais. Logo esquecerás o número de meus sapatos, o meu peso, o tamanho dos ternos, dos sonhos, dos fracassos. Não volto mais. Comprarás tudo em dobro: o amor, o xampu, os sabonetes, o pão, a comida. Pagarás tudo em dobro para consumir a metade. Não haverá meu prato para medir a distância de tua fome, meus talheres para aproximar as mãos. Jantarás de lado, com a televisão. Fecharás a casa deixando a tranca de dentro aberta. Manterás a esperança na escrivaninha. Não volto mais. Escreverás o nome de casado com a solidão solteira. Não identificarás as árvores e os colegas em teu trajeto pelo trabalho. Ninguém vai te ligar para entreter o cansaço. Não volto mais. Teu inverno demorará no escuro, teu verão demorará na luz. Não estarei esperando na porta. Faltará alguém para te elogiar. Não confiarás no espelho. Não volto mais. Tuas lembranças serão deserdadas, parte das fotos sumirão de repente, as cartas servirão de rascunhos. Deixarás de comer peixe com receio dos espinhos. Não volto mais. Me chamarás de filho da puta e conversarás com a minha mãe para saber de notícias. Me ofenderás por não te entender, por não te amar, por não insistir. Me julgarás sem direito a opinar. Convencerás tuas amigas que sou desleal, que não fui fiel, que não presto. Tomarás um porre para chorar, a verdade será maior do que a tua vontade de mentir. Não volto mais. O último beijo será o primeiro. Pastarás o pão com as migalhas irritadas, pastarás o papel com as vogais irritadas. Não volto mais. Vais odiar a sala limpa, as estantes alinhadas. Mandarás flores para teu endereço. Minha tosse não te acordará de noite. Não volto mais. Não faremos mais sinais em lojas, não subiremos as vozes no carro, não torceremos juntos. Não volto mais. Tentarás prever onde ando, com quem saio, com quem finjo. Meus cabelos serão nuvens pelo tapete. Retornará o medo de fantasmas, de versos. Não volto mais. Não volto mais para o meu corpo.

10:04 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 25, 2004

LINHAGENS E LINHO DE MESA
Desenho de Mariana

Fabrício Carpinejar



Meus tornozelos estão grossos de tanto que os antepassados subiram escadas. Um cantil de viajante. Meus antepassados tinham uma tara pelos assoalhos, alçapões, porões e água-furtada. Buscavam a casa dentro da casa. Fiavam esconderijos, segredos, portas e pianos trancados. Sou de outra linhagem: do pátio, do quintal e da varanda. Procuro a casa fora da casa. Confio no vapor da roupa passada pelo orvalho, no ar enlouquecido de luz, nos portões entreabertos, com barulho de ferrugem e de anéis roçando as trincas. A varanda é residência mas não deixa de ser rua. Uma embaixada, um país em outro país. Prefiro estar lá com um pé aqui. Ou aqui com um pé lá. Não é indecisão, mas timidez, que me faz participar de duas conversas ao mesmo tempo para não falar nada. Viciei-me em paredes esmaecidas, adubo de passarinho, ciscos e gravetos. Chão limpo de sujo. Bate-me um dó de quem varre as folhas, sem deixar o chão fermentar suas uvas e utensílios do caule. A calçada não pode receber nenhum tapete de presente, que logo desaparece. Gosto de esperar, envelhecer fora de hora até ser chamado para dentro. A voz é o melhor sino de igreja. O quintal me arremessa para o começo do ventre, um poço enorme, onde as janelas são as roldana e o balde. Nada substitui a intimidade de entrar pela cozinha, com as panelas fumegando e mesa se expandindo pelo cheiro. Não sou minha visita para entrar pela porta da frente, amadureci pela porta dos fundos, nas entranhas do pátio, para desembocar o ouvido nas estrelas e cigarras. As estrelas pesam o corpo de um menino, as cigarras latem a grama adulta e a noite não é escura.

10:18 AM :: Comentários:

SAMAMBAIAS
Desenho de Mariana

Fabrício Carpinejar


As samambaias morrem de sede porque todo mundo pensa que alguém já deu água para elas. Estão no alto, girando como um telhado redondo. Um chafariz de vento. Eu me vejo como uma samambaia, ainda que a falta precoce de cabelos dificulte essa comparação. A samambaia não é uma flor, é uma música de fundo. Uma música que não se ouve, uma música apenas para não ficar sozinho. Uma música desligada. Significa uma planta de unhas compridas. As unhas ficam moles muito longas. Recomendável colocar esmalte. A samambaia não consegue encolher. Ela cresce quando morta. É uma planta casada. Bicho solteiro é o cacto. Desisti de cactos. O cacto bebe mais pedra do que água. Um aquário só vidro. O cacto é o hamster da vegetação, girando, girando em seu próprio lugar. Um dia ele cansa e bate a sensação de culpa de que não sei cuidar de ninguém, muito menos de mim. A samambaia lembra um cachorro, lambe o rosto quando chegamos, pula por cima dos móveis e se esfrega nas paredes. A samambaia é uma gaveta aberta, sempre quero empurrá-la. Pena que não entendi suas folhas como uma língua para fora.

10:16 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 24, 2004

JORNAL ZERO HORA, POLÍTICA, COLUNA ROSANE DE OLIVEIRA, PÁGINA 10
Porto Alegre (RS), 24/11/04

SÓ POESIA

Para o bem dos seus leitores, o poeta Fabrício Carpinejar decidiu recusar o convite do prefeito eleito Ary Vanazzi para ser secretário da Cultura de São Leopoldo:

- Acredito que posso contribuir mais para a cidade na figura de poeta e criador. Escrever é uma responsabilidade social e vou colaborar com a cultura, sem cargos e interesses.

Carpinejar se ofereceu para ministrar oficinas voluntárias de poesia nas escolas públicas de São Leopoldo.

JORNAL VS, GRUPO EDITORIAL SINOS
São Leopoldo (RS), 24/11/04



Manchete

POETA ABRE MÃO DA CULTURA E OFERECE SUA VOCAÇÃO À CIDADE
Carpinejar, após muito balançar, recusa convite para secretaria de Vanazzi

O primeiro escalão do governo do prefeito eleito Ary Vanazzi (PT) não passou dez dias da maneira como fora idealizado pelo petista. Ontem, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar - um dos raros indicados que não tem filiação partidária - enviou ofício ao secretário de Planejamento da Frente Popular Humanista (FPH), Marcel Frison, informando sobre a sua decisão de não mais compor o governo na função de secretário municipal de Cultura. Ele justifica que "a contribuição para o município sendo escritor será maior". Por motivos profissionais, Carpinejar esteve em São Paulo e não pôde participar da reunião da FPH com a equipe de governo. Contudo, a ausência não está relacionada a sua saída.

Desde que havia sido convidado a integrar o primeiro escalão de Vanazzi, Carpinejar confessa que estava em dúvida se aceitaria ou não o cargo. "Não foi por falta de espaço, salário ou cargos. Se fosse isso, aceitaria de primeira. Mas, a minha vocação falou mais alto", confessa o poeta, que se utilizou de diversas frases de efeito para dar explicações. "Como gestor, eu deixaria minha produção engavetada na burocracia. Como poeta, penso na projeção da cidade", conclui Carpinejar, apostando na sua vocação.
"Ficamos tristes com a decisão, mas compreendemos, pois sabemos da repercussão nacional do seu nome, sua agenda intensa e os pedidos de aumento da produção literária. Mesmo de fora do governo, temos certeza de que ele será um dos nossos apoiadores", diz Marcel Frison. "O ambiente está supertranqüilo na FPH. Temos que retomar o assunto quanto a quem será o substituto. Por enquanto, não temos nome definido", analisa Frison. Segundo ele, era prevista a ausência de Carpinejar na reunião da equipe de governo realizada na segunda-feira. "Não houve comprometimento à atividade", finaliza.

COSTURA - Se nas versões públicas a negação rima suavemente com a vocação, nos bastidores a poesia é mais amarga. Carpinejar esperava assumir a secretaria com carta branca, mas na noite de 12 de novembro, minutos antes de Ary Vanazzi anunciar oficialmente os 23 primeiros nomes de seu escalão, foi surpreendido com informação de que duas diretorias de sua pasta já estavam comprometidas. Além disso, uma lista de propostas já tinha sido elaborada por militantes petistas estabelecendo diretrizes para a cultura em São Leopoldo.

O poeta estaria prestes a deixar a pasta sem ao menos assumir por falta de poder político. O mal-estar se prolongou no feriadão da República. Numa costura articulada por Marcel Frison, as propostas podiam ser ignoradas, mas os nomes o poeta devia engolir. "Obviamente que existiam projetos e pessoas do setor interessados em apresentar os seu trabalhos. Isto é natural. Tudo foi costurado, e a colaboração dada pelo Fabrício Carpinejar até o momento deverá ser aproveitada", justifica Frison. O poeta, que em seus versos demitiu Deus sem nunca tê-Lo contratado, ontem se demitiu, sem nunca ter assumido.

11:17 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 23, 2004

PONHA-SE NO MEU LUGAR
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida.

10:53 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 20, 2004

Jornal Zero Hora, caderno Cultura
Porto Alegre, 20/11/2004 Edição nº 14335

Literatura

O AZARÃO AFORTUNADO
Prêmio Portugal Telecom de Literatura destaca o poeta Paulo Henriques Britto, autor carioca que traz como marca a obsessão pela disciplina e pela clareza

FABRICIO CARPINEJAR
Jornalista e poeta, autor de Cinco Marias e Caixa de Sapatos, entre outros livros


Para evocar o território de íntima estranheza da poesia brasileira, o poeta e professor Paulo Henriques Britto deriva por outras paisagens: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio"

Sempre que a poesia ganha um prêmio de expressão é vista como surpresa e azarão. Ainda mais se está concorrendo com romances. O poeta carioca e professor universitário Paulo Henriques Britto, ao ser anunciado no último dia 9 como vencedor do prêmio de R$ 100 mil da Portugal Telecom, não deixou de ironizar que teria seus 15 minutos de fama e que seu livro Macau (Companhia das Letras, 79 páginas) venderia um pouco mais no Natal na forma de amigo-secreto e presente de namorados. Tradutor da Companhia das Letras (aliás, uma de suas fortes referências é o americano Wallace Stevens, um de seus traduzidos), o autor não é de falar muito, mas de fazer calar no momento certo. Em seus 20 anos de poesia, publicou apenas quatro livros: Liturgia da Matéria (1982), Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), além de Macau (2003), sempre com intervalo de seis a sete anos entre uma produção e outra. A lentidão decorre de sua exigência pela aquisição de um domínio do próprio processo criativo.

Utilizou a metáfora do pequeno entreposto português na China, Macau, para mostrar o quanto a poesia brasileira é um território de íntima estranheza, rodeado de idiomas que não a levam a sério. Utiliza a desordem externa do mundo, a negatividade, para arquitetar uma ordem interna e positiva, de precisão e sutileza. Ele se distancia para depois personalizar a visão. Sua poética tem como matriz o ludismo verbal e a ironia. Seu charme vem de um ar desesperançado. O formalismo e a afeição por formas fixas contrastam com o tema coloquial de seus versos, munido de referências pop como Jim Morrison ou de cenários como bangalôs, praias, hotéis baratos. Uma monotonia proposital e o ímpeto prolixo e argumentativo são quebrados ao final com a inversão de expectativas, transformando o conceito em uma imagem. Seus poemas são falsos blagues, falsos exorcismos. Ele finge falar do mundo para falar do seu jeito desconfortável no mundo. Define um mal-estar ou um desvio com o apelo pessoal. "Se tudo correr bem, também a tua derrota / vai ser de bom tamanho. Pode contar comigo."

Circula no espaço da trivialidade, das revelações a partir do mais grosseiro, do mais visível, do mais tátil. É como uma consciência que evolui unicamente do texto para o texto, em uma operação cabralina contínua de investigação e observação sagaz. A dicção é híbrida, infiltrada de neologismos e gírias, que dividem espaço com evocações do dicionário. "Esse quarto minguante incompetente que mal / e porcamente alumia, essa tosca / arandela de santo em quarto de bordel, / coberta de cocôs de mosca... / Não abre a boca, não estufa / o peito, não. Nada que você diga / é teu. Nada é você. Você não é Puf!". Não é de uma linhagem metafísica. Egresso da geração mimeógrafo, marcada pela espontaneidade do sentido (nunca do sentimento), tornou-se pouco a pouco um artesão da língua, um alfaiate erudito, não abdicando da nobreza do desbotado e dos trapos. Até porque não há realidade plena sem o escuro, muito menos pôr-do-sol sem luz desmaiada.

Sua poesia é construída, focada, refinada, crítica da leitura do poeta e do poeta leitor, derrubando a noção de autocomplacência e comoção direta do romantismo. Há, em seu trabalho, uma autonomia admirável, uma obsessão de repertório. Em Trovar Claro, encontra-se referências ao Egito: "A água é pura espera, como um túmulo egípcio", reiterada em Macau: "Antes que fôssemos mumificados por completo, você descobriu uma maneira de apodrecer tão depressa que fosse impossível até mesmo para o mais hábil mumificador do Alto Egito".

Igual processo funciona com sua fixação pelas mãos que vacilam e escrevem o que pensam sentir, presentes em "Dez exercícios para os cinco dedos", de Trovar Claro, e "Bagatela para a mão esquerda", de Macau. Tanto que os dois livros apresentam sempre a figura das variações, dos exercícios e dos estudos, contribuindo para a disciplina do rascunho. A lógica de Paulo Henriques Britto é não chegar ao poema perfeito, porém o mais perto possível dele, sem abdicar da imperfeição que assegura a naturalidade dos versos. Produz erros premeditados: "Mas a semente espera. É insistente / e acerta mesmo sem saber que erra". Atuaria como um biólogo do ritmo, perfurando as paredes culturais de sua formação (como ao refutar Drummond). Percebe-se a importância da prosa (bem longe do prosaísmo) em sua poesia, como uma necessidade orgânica de ser compreendido e de seguir um raciocínio limpo e linear, de criar cumplicidade com o leitor mesmo que seja pela hipocrisia, como ensinava Brás Cubas de Machado de Assis.

De Vulgari eloquentia

por Paulo Henriques Britto

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída - falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.

Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.


7:44 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 19, 2004

BARBADA
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Não era buço, mas bigode. Bigode grisalho, grosso, maior do que a boca, maior do que a faca de casa. De mulher, a saia de arrastar, simples como pano de chão. Do homem, uma barba que confundia até o marido. Não queria entrar no circo com medo de encontrá-la. Não queria aparecer no supermercado com medo de encontrá-la. Não queria visitar minha vida com medo de encontrá-la. Não que seu rosto fosse ofensivo. Terno, suave, porém a barba superava suas sobrancelhas de casaco de lã. A barba asperava, exasperava. Barba de inverno, suada dos pratos do almoço e da janta. Como uma fotomontagem, Mona Lisa com o bigode de Salvador Dali. Ela não a tirava, não existiam fitas adesivas, salão, depilação, não existiam. Existia o sutiã peludo na boca e os boatos do interior. Não me recordo da cor dos cabelos, dos cabelos da cor. Ela passava sempre acenando e ninguém a respondia. Meu pai inventou a história da mulher com barba para me assustar e comer tudo na refeição. Quando meu pai viu a mulher de barba ficou pálido como um toco de vela roubando promessas das demais velas. A mulher de barba sentava na última fila da igreja e os meninos a incomodavam perguntando se era homem ou lobisomem. A mulher de barba e seus tornozelos da tristeza. Não uma tristeza de morte, mas de vida contada com os trocos. Deus exagerou na cobrança. Manca dos dentes. O bigode escondia a falta dos dentes. O bigode escondia sua ladeira de pedras quebradas, impossível de caminhar sem o rancor do tropeço. O bigode escondia o riso e a entristecia dos risos alheios. O bigode como um pescoço de cavalo. O bigode como um avental da boca para não sujar o hálito. Bigode como um hábito antigo. O bigode perfeito, aparado, de festa, no rosto errado. Qualquer mulher se apaixonaria no escuro. Qualquer homem puxaria assento e pediria uma branquinha. Uma imperfeição caprichada. Não sei seu nome, bastava dizer A Mulher de Barba e todos reconheceriam. Cuidava da roupa da vizinhança. Os tecidos estalavam de lisos. Perfumados, vaporosos. Camisas de três botões nas mangas não ostentavam vincos depois de suas mãos. Entregava as encomendas com ramas de hortelã. Só que os clientes procuravam fios do bigode nas vestes para incriminá-la. Minha irmã não cortava suas tranças, que tapavam a bunda. A Mulher de Barba trançava os lábios e sua religião das ofensas. Não vou ao céu porque no meu bairro houve uma Mulher de Barba. Fugia dela como quem carrega o diabo no corpo. Dei carona ao diabo que atravessou o corpo. Coincidiu com minha entrada na escola. Minha mãe me recomendou só uma coisa antes de entrar nas aulas e me alfabetizar: "não podes mais peidar". Completou: "se tiveres que peidar, que seja silencioso". Não esqueci da lição. Sofro de prisão de ventre até hoje. Disciplinei meu estômago, não a minha letra. Não consigo ir ao banheiro a não ser em casa. A Mulher de Barba me entenderia. Seu marido se envergonhou cada vez mais. Torneiro mecânico. Não almoçava com os colegas na sombra. Não sugeria piadas com receio de ser a piada. Zombavam dele como homem que casou com homem. Um dia, ele largou tudo na fábrica, pegou sua lâmina e correu em direção à residência. Atravessou a praça salivando dos olhos aos pés. Armado de explodir os nervos, amarrou a Mulher de Barba na cama, encheu-a de espuma, banhando sucessivamente o ferro na bacia debaixo da cama, e raspou com pressa o bigode. Ela urrava como um boi sem pasto. Um boi sem a chuva do pasto. A cidade parou o que fazia para escutar o urro. O urro voou, um corvo depois do tiro. A Mulher de Barba nunca mais saiu de seu quarto. Fala-se que ficou com uma cicatriz enorme. A cicatriz virou sua barba de pele. Inchaço do ódio. Ela a tocava, a acariciava de noite, como um segundo sexo. E descobriu o prazer sozinha nesse e nos outros mundos.

(crônica do Rascunho, novembro de 2004)

7:19 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 18, 2004

PONCHO
Ilustração de Eduardo Nasi

Fabrício Carpinejar

Eu acreditava que Porto Alegre era meu pátio. Não saía de lá, entre abacateiros, bergamoteiras, porta de garagem que servia de gol, gaiolas de passarinhos e ratos, um vira-lata sem uma pata, caminhões de madeira, carretéis e uma mala cheia de adesivos de meu avô. Tinha cinco anos. Meus olhos eram caídos, desmanchados de verde. Eu sempre parecia triste mesmo quando estava rindo. Quando ria, os adultos de casa vinham me consolar pensando que chorava. Eu não entendia, mas aceitava o abraço dos adultos. Minha cabeça ficava na barriga deles e roncava barulhos de poço, de torneira seca. Eu usava um poncho. Poncho é uma coberta com furo em cima para colocar o rosto. É como uma saia do escocês onde o pescoço é a cintura. Minha mãe me obrigava a botar ceroula. Eu me sentia preguiçoso por ter um pijama debaixo da calça.

(Fragmento do livro infantil Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa)

9:36 AM :: Comentários:

SÃO PAULO, SÁBADO (20/11), ÀS 15H, LIVRARIA DA VILA:


6:30 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 17, 2004

DESENHOS DE UMA VOZ, BOCEJO DO POMAR, MURMÚRIOS DA ESTRADA
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Quem não desenhava ao falar no telefone ou contornava os cadernos escolares com rabiscos, figuras espirais e cabeças de elefante em corpo de esquilo? Estamos desenhando, de forma incessante, uma voz. A nossa voz, desde pequenos. Se o arbusto é amarelo e o sol é verde, não importa reproduzir a realidade, mas digeri-la e impor mudanças. Se estou numa reunião, sou acometido de uma febre infantil de preencher as bordas das folhas com arabescos. A única diferença é que não terei uma professora para legitimar o trabalho, dizer que é bonito e colar a folha ofício na parede da sala de aula com meu nome. Quando olho uma pintura, não procuro entender o que o quadro significa, procuro entender o pintor. O artista me interessa mais do que sua obra. O artista é a obra. Observo o quadro para encontrar a carne pensativa atrás da cor. Procuro descobrir o que ninguém conta: seus namoros frustados, expectativas, paixões, roupas, contas no fim do mês, carretéis em uma caixa de costura. Projeto no outro o que não sinto coragem de fazer. Falta um pouco de insanidade em minha vida, um pouco de desorganização, um pouco de imprudência, um pouco de inconseqüência, um pouco de desaforo. Sobra previsão, cautela e indiferença. Guardo as notas fiscais até do que não comprei. Guardo os amores que não tive. Guardo comida mais do que posso comer. Guardo as lembranças para não perder o fio da fome. Para que tanta proteção? Ao final, protejo-me de mim. Não é a minha caligrafia que vai me explicar, mas os desenhos que coloquei fora. As gravuras que não colori. O que fiz pensando não pensar. O que fiz sem pensar. A loucura não usa bengala - tropeça desacompanhada. Assim deve ser o traço. Todas as lembranças perecem, são ervas caminhadas, rosto lavado de manhã. Nada é inesquecível porque nem a memória gosta de ser a mesma, prefere mudar e desenhar o que não entende. Há pensamentos que não encontraram sua forma e ficam como vibrações, impulsos elétricos, vontades iletradas. Na vida temos páginas de água. Páginas de fogo. Páginas para viver e esquecer. Viver é esquecer alegremente. Não será o pai, a mãe, o marido, a esposa e os filhos que entenderão. Nem tudo precisa ser explicado para existir. Nem tudo precisa ser compreendido para existir. Página que fará espuma e só. Página que fará barulho de sol e só. Não se grava uma floresta, mas é possível conhecer uma árvore. A árvore de nosso timbre que é também o vento longe dela. A melhor escritura consiste em não domesticar a letra para sempre esforçar os olhos.

7:28 AM :: Comentários:

CIDADE BOSSA

Na quarta (17/11), às 19h, farei leitura de poemas no espaço Cidade Bossa (Otávio Corrêa, 35), em Porto Alegre (RS), ao lado de Maria Carpi, com o título 'Tudo sobre minha mãe'. Às 19h30min, tem o esquete teatral 'Che Guevara, o campeador da democracia', com direção de Bel Cabral.

7:27 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 15, 2004

JORNAL ZERO HORA, GERAL, 15/11/04:

De besuntar os untos


A mesa reunia o escritor colombiano Efraim Medina Reyes (à esquerda), Marcelo Carneiro da Cunha, Fabrício Carpinejar, Flávia Rocha e Marcelino Freire
Foto(s): Adriana Franciosi/ZH

Enquanto o calor besuntava os untos (para usar uma expressão de divertido personagem de Eça de Queirós), no terraço do Margs uma turma animada espantava o calor com chopes e refrigerantes. Na mesa que reunia o escritor colombiano Efraim Medina Reyes, Marcelo Carneiro da Cunha, Marcelino Freire, Fabrício Carpinejar e Flávia Rocha, o assunto eram as histórias em quadrinhos que Reyes andava buscando pela Feira. Para o autor do Manual de Masturbação entre Batman e Robin, a Feira é bonita e cálida, "mas um pouco desorganizada". Reyes ressaltou o fato de o público ter contato direto com os livros:

- Conheço pessoas que não gostam que se sujem os livros. Mas os livros são como a vida: devem ser manuseados, sujos, abraçados. Aqui, eles estão perto de seus leitores, como dever ser sempre.

9:14 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 14, 2004

HUMILDADE
Foto de Cartier-Bresson

Fabrício Carpinejar

Tudo é tão vago e intenso que às vezes sento no meio-fio do meu corpo. Olho para mim como se não tivesse feito nada. E não ardo em compaixão, muito menos orgulho, mas me lembro do esforço que fiz para chegar aqui e falar e de repente me calo. Assim como me calei outras vezes e em seguida falei o que deveria ter dito para ninguém ouvir, nem eu. Não, não conseguirei ser compreendido porque não compreendo tão rápido. Compreendo devagar, na insolação do silêncio. Meus momentos de maior apreensão era cruzar os braços na classe antes do final da aula. O cheiro de janela da minha mesa verde. Os cadernos engavetados na mochila, ao lado da térmica e da maçã. Os desenhos que não completei. As notas que não consegui. Os braços de giz da professora aguardando o sinal. A cadeira de madeira dura e quadrada. A teimosia da cabeça que se levantava para verificar se os colegas me acompanhavam no abandono. O estômago subindo à garganta. A vida tem essas tréguas, onde deixo de existir por alguns minutos. E Deus me libera a pensar sem conselhos ou ordens. As camisas abotoadas. Os ouvidos limpos. As unhas roídas. A fila indiana. Carregar a criança no colo, depois segurar sua mão nos passeios, receber seu abraço de girar a cintura, perder o contato, retomar o traço, voltar a dar as mãos, até ser carregado pelo filho à cama e pedir para que ele conte a história de sua vida. Encontrar a humildade para dormir, dormir no meio de sua voz, na única voz que me liberta da minha.

9:50 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 12, 2004

ÁGUA DOS PRENDEDORES
Da série MINHA INFÂNCIA NÃO ATRAVESSA A RUA SOZINHA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Eu admirava a chuva. Não admiro o sol, gosto do sol. Admiração só pela chuva. Toda janela chuvosa é uma rodoviária. Como se fosse necessário acenar para os pássaros. Como se soubesse os pássaros pelo nome. A chuva torna minha rua uma cama de palha, chapéu sentado na mesa, fruteira encolhida. Com reverência, observava a obsessão das calhas abrindo as pedras, furando as pedras com a lâmina da queda. O lápis do relâmpago escrevia nas telhas mensagens psicografadas do musgo, do orvalho, dos liquens. Tremia o som. Um dia depois da torrente, recolhia no pátio os prendedores de madeira do varal. Sugava a água da madeira de cada prendedor, a água da chuva na madeira. Água com barro, como rio que se engole na hora de mergulhar. Água de poço mais do que balde. Água avoada, cicatrizada. Água de horta, de folha escorrendo como luz. Água de respirar. Não carecia de pudor de provar o escuro, invocar o inferno, adoecer com um paninho molhado na testa. E minha mãe ficava assustada pelo meu modo de pegar o pátio pela boca, de mexer na terra a toda hora, de tomar um prendedor com os cuidados de um cacto. Assustada de água. Se comia de menos no almoço, ela dizia que eram vermes. Se eu comia demais no almoço, ela dizia que eram vermes. Até hoje, já adulto, me recomenda tomar um remédio para vermes. Escrevo demais e deve ser resultado de vermes. Amo demais e deve ser resultado de vermes. Esqueço demais e deve ser obra dos vermes. Pouco, muito, bastante, raso, não importava a quantidade da ração, sempre alimentava estranhos em mim. Não dormia na sesta com medo de alguma erupção definitiva da pele. Não tive jardim, mas terreno baldio. O terreno baldio, na verdade, é um jardim. Um jardim alegre, com árvores nascidas aos socos da semente, a partir de caroços jogados como lixo e que cresceram como livro da saliva. O abandono também jardina. Passava horas circulando no desleixo trincado de capim e aves, com um canivete herdado do avô. Fiz arco e flecha e não entendia como a gravidade não me ajudava a voar acima do telhado. Se a boca tem joelhos, andavam esfolados. Amaciava o rude, o crispado, fazia oca de mata, fogueira de gravetos. Uma lata de Nescau terminava enegrecida como pneu de tanto requentar a sopa de folhas. Fui meu convidado e meu hóspede na infância. Não deixei de abrir a porta aos vermes. Esses vermes, coração emprestado, coração que não enxergo para morrer.

12:36 PM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Porto Alegre 12/11/2004, Edição nº 14327

O MELHOR E O PIOR DA PRAÇA
Personalidades indicam os principais destaques da festa literária
Foto de Emílio Pedroso

Dez freqüentadores conhecidos da Feira do Livro responderam um mesmo questionário explicando o que o maior evento literário tem de bom e de ruim. As respostas são variadas. E há quase uma unanimidade: a chuva. Confira a seguir as perguntas e abaixo a opinião dos especialistas:

1. Qual a melhor oferta que você encontrou na Feira do Livro?
2. Qual o melhor lanche da Feira?
3. Qual o lançamento mais importante dessa Feira?
4. Qual foi a melhor sessão de autógrafos?
5. Qual o melhor da Feira?
6. Qual o pior da Feira?


Opinião dos especialistas:


Fabrício Carpinejar, escritor
1. Alexandre Alpha, de José Cardoso Pires, que comprei por R$ 5.
2. A cocada.
3. O País dos Ponteiros Desencontrados, de Flávio Moreira da Costa.
4. A do Flávio Tavares.
5. Reencontrar os amigos.
6. Esquecer os amigos em alguma banca da Feira.

Tânia Carvalho, apresentadora
1. Alguns livros do Guimarães Rosa e do João Ubaldo Ribeiro que comprei por R$ 5.
2. Um baguete com salsicha e queijo derretido do Bistrô do Margs.
3. Ah, prefiro não dizer. Tenho tantos amigos que lançaram coisas maravilhosas.
4. Nenhuma. O escritor sábio evita participar de sessão de autógrafos, que são verdadeiras torturas.
5. O contato com as pessoas.
6. A chuva.

José Antônio Pinheiro Machado, escritor
1. Bush em Guerra, de Bob Woodward, que comprei por R$ 10.
2. A pipoca.
3. O Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras, de Luís Augusto Fischer.
4. A do Luis Fernando Verissimo com a filha Mariana.
5. O encontro com os amigos.
6. A necessidade que a Feira tem de inovar. Também não gostei da abertura no Cais do Porto.

Roque Jacoby, secretário estadual da Cultura
1. Ainda não vi os balaios.
2. O sorvete de creme e chocolate do Bistrô do Margs.
3. A Revolução Gerenciada, do ex-ministro Paulo Renato de Souza.
4. A do governador Rigotto, com a qual me envolvi diretamente.
5. O reencontro com os amigos.
6. O espaço, os empurrões.

Luiz Antonio Assis Brasil, escritor
1. O livro francês La Lesson de Musique, de Pascal Quignard, que comprei por um preço acessível.
2. O cachorro-quente.
3. Os Contos Completos, do Sergio Faraco.
4. O lançamento dos meus alunos dos Contos de Oficina.
5. As surpresas que nós temos com os livros. As descobertas.
6. O congestionamento. Às vezes é tanta gente que volto para casa.

Luis Augusto Fischer, professor e escritor
1. Um livro do Paul Auster que comprei por R$ 5.
2. Uma torta de chocolate que comi no Bistrô do Margs.
3. O Opositor, do Luis Fernando Verissimo.
4. A do Ruy Carlos Ostermann.
5. A multidão, de livros e pessoas.
6. A chuva.

Walter Galvani, escritor e ex-patrono
1. Ainda não tive tempo de procurar. Vou fazer no fim de semana.
2. O cachorro-quente.
3. Os Contos Completos, do Sergio Faraco.
4. A do Luis Fernando Verissimo com a Mariana, pela emoção.
5. A inauguração, por devolver o rio à cidade.
6. O excesso de eventos sendo realizados ao mesmo tempo.

Airton Ortiz, escritor
1. Quatro Ensaios Marxistas, de Tarso Genro, que comprei por R$ 2 para saber o que ele pensava antes de ser governo.
2. Amendoim torrado.
3. Finnício Riovém, do Donaldo Schüler
4. A do Flávio Tavares.
5. O encontro com os amigos.
6. A chuva.

Armindo Trevisan, escritor e ex-patrono
1. O Nadador, de John Cheever.
2. Até agora só tomei um café na Área de Alimentação
3. Contos Completos, do Sérgio Faraco.
4. Queria ter ido a tantas e acabei não indo. Mas fui e gostei muito da de José Mindlin.
5. Esse equilíbrio que ela tem entre feira popular e oportunidade para encontros de amigos.
6. Em alguns dias, a multidão te impede de chegar nas barracas.

Paulo Ledur, editor
1. Ainda não achei nada.
2. O churrasquinho.
3. Peleando contra o Poder, de Newton Fabrício.
4. A da dona Leda Hecker Pereira, senhora de 82 anos que ficou autografando por mais de duas horas.
5. A grande variedade de livros.
6. A chuva.

9:25 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 11, 2004

ESTILHAÇOS DE VIDRO
Gravura de Lucien Freud

"Estas frases de amor que se repiten tanto
no son nunca las mismas"
Pedro Salinas

Fabrício Carpinejar



Quando um copo quebra, por mais que se recolha os fragmentos, algo ficará piscando no chão no dia seguinte. O vidro faz seu colar para vender ao sol. Algum estilhaço sobrará ao longe, pronto para ferir o pé desmemoriado. Um vaga-lume sem o brilho do ruído. Como um anel solteiro, divorciado, viúvo. Não se lava plenamente a memória, não se varre plenamente o piso, não se isola a verdade. Dizer que uma relação terminou porque se quer conclusa. Dizer que se esqueceu porque não se permite fiascos. Dizer que não voltará a fazer é inútil. A delícia dos erros é justamente a reincidência. Nossa solidão não é filmada, porém nunca chora sozinha. A vida suja as mãos, suja a boca, suja os olhos. Suja de honestidade o que não se enxerga. Viver é se cortar. Não contar os riscos. Não há como amar sem dar tempo ao ódio. Não há como odiar sem dar tempo ao amor. Vivo a esperança que a dor seja sempre menor do que minha esperança. Vivo a expectativa de que o ciúme seja maior no passado do que no futuro. O corpo se empalidece para pedir ajuda. O pessimista, ao julgar tudo, se condena. A dúvida diverte ou divide. Sempre se terá a versão de um fato, não a verdade. A verdade é o sentimento do fato, a comoção da incerteza. Paixão é não saber. Quando se sabe, é amor. Não adianta sobreviver aos problemas, mas enfrentá-los como virtudes. O tédio nivela por baixo os mistérios, toma tudo como se fosse a mesma coisa, desconhecendo a surpresa e a descoberta. O tédio exercita a decência sem conhecer a pobreza. Caráter se escolhe, moralidade condiciona. Os pensamentos só surgem da ruína de uma lembrança. Faço um novo brinquedo com meus desastres O que não foi experimentado não se discutiu. Seco a minha testa com a manga da camisa. O fracasso não existe, o que existe é o medo do fracasso. Até o medo tem uma porta de fundos. Meu quarto é um tanque de pedra onde lavo as frutas. Um arroio que não termina no corredor. Quero pecar sem intervalo para o perdão. Amar como aguardente. O olhar precisa da gravura para comparar a letra. Invejo a sombra dos peixes. As brasas têm mais escamas do que a água. Os astros anotam de pé seus poemas. Toda árvore surge quando a estrada soletra um nome estrangeiro. Devolvo a luz emprestada em rosto. O dedo bem pode ser um pássaro de coleira. As mãos pequenas de meu filho se dilatam como as pupilas. Entre o que digo e o que como, não palito os dentes. Assim que fecho a boca, as palavras se entreabrem.

11:18 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 10, 2004

PROCURADO



FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, gaúcho desaparecido no Rio de Janeiro, estará nesta quarta (10/11), às 20h, no Pavilhão Central da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre. Recompensa: seu novo romance O País dos Ponteiros Desencontrados autografado.

Orelhas do livro O País dos Ponteiros Desencontrados (Ediouro)

Por Fabrício Carpinejar


Flávio Moreira da Costa me avisou ao entregar o livro: é o mais genial ou o mais idiota que fiz. Não há dúvida que a ignorância e a genialidade estão por um fio. Ser simples exige um talento blindado de ultrapassar a banalidade e fugir dos tiros e das tiradas. Poucos escapam ilesos. Autor de clássicos contemporâneos como Nem todo o canário é belga, o caso do gaúcho Moreira da Costa não tem solução, conserto e indulto. Ele usa seu próprio corpo como escudo. Nasceu para incomodar a literatura brasileira, a classificação de gêneros, deturpando referências, furtando citações e seqüestrando autores nunca devolvendo os reféns e os direitos autorais. É um delinqüente à moda antiga, charmoso e elegante, que faz rir enquanto somos roubados. Assassina lugares-comuns, desacostuma os nervos, procurando olhar pela primeira vez o que parecia esgotado. Tem uma intuição altamente poética, de subverter a ordem pela intimidade. A única forma de se conhecer é destruir. Uma criança sabe disso sem saber. Um brinquedo intacto é um brinquedo não amado. Esse romance é um brinquedo destruído e amado por Flávio Moreira da Costa.

Quem chegar adiantado ou atrasado neste livro não sofrerá problemas de fuso. "Um bilhete é sempre um desespero que vem antes ou depois da alegria." A narrativa é o verdadeiro tempo. Contar histórias é melhor do que contar ovelhas, com o adicional de que não se fica com fome e a noite também não dorme junto. Flávio monta um jogo fascinante. O enredo começa com a solicitação de informações sobre o paradeiro de João do Silêncio para agência de busca e recuperação de autores e livros perdidos. João do Silêncio é o escritor da obra que se começa a ler: O país dos ponteiros desencontrados. A sátira é evidente, João do Silêncio tem em sua trajetória a formulação da História da Filosofia Acidental (parodiando o estudo de Bertrand Russell) e o apelo bíblico Olhai os lírios do campo vira o grito de guerra Olhai os lixos do campo. Os escritos foram encontrados em uma valise e descrevem o tumulto de um país desorientado, de nome Aldara, onde os ponteiros não se acertam e as decisões são tomadas tarde demais. Como um queijo suíço, os relógios igualmente suíços estão cheios de buracos. As comissões parlamentares de inquérito demonstram incompetência para cumprir o quórum mínimo e apurar as denúncias de tempo perdido. O protagonista está mais perto de Cobra Norato de Raul Bopp do que de Macunaíma de Mário de Andrade. É uma fábula da descontinuidade, desgoverno, transformando provérbios em notícias de jornais e mostrando o lucro dos traficantes de Deus com a ausência de ordem. João do Silêncio "persegue sua própria perseguição". Vai acumulando provas da sua desistência de viver, atravessando desertos, a sede e a impossibilidade de se chegar à verdade sem antes exercitar as mentiras.

A poesia é a gramática do erro. Flávio Moreira da Costa estabelece a gramática romanceada da distorção. Distorce para falar de um Brasil em que o atraso é apenas mais uma esperança de perder o compromisso, o emprego e a eternidade. Ao devolver o livro ao escritor, só posso dizer que a ignorância nunca foi tão genial.

12:49 PM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 09, 2004

RUA SEM COMEÇO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar


Minha casa não é de esquina e não fica de costas para seu vizinho. Tem focinho de cão e fareja retratos enterrados no fogo. Minha casa nunca viu o mar. Bebe o corpo devagar. Mexe na rua atrás de sua samambaia. Não cheira a gasolina, mas a cavalo. Minha casa é mais casa quando alguém chega nela por engano, com suas roupas de vento e sua necessidade de amar. Uma casa é mais casa porque ensina ao homem que ele não tem que se partir para partir, não precisa partir para se partir. Ensina ao homem a ficar dentro de si mesmo quando ele não se suporta.

4:27 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 08, 2004

OS ANJOS SOLTOS
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Sempre há um anjo. Um anjo doméstico, à paisana, solto, sem nada que o diferencie a não ser os ombros largos, como um banco de pedra em um jardim. Na sessão de autógrafos de 'Cinco Marias' na Feira do Livro de Porto Alegre, na tarde de sábado (6/11), uma senhora lembrava minha nona. A nona e seu tanque que servia de cesta aos figos, onde eu lavava os pés com o cheiro doce da carne das frutas. Ela esperava sua vez, atrás como estivesse em minha frente. Uma mensageira. Não a conhecia, apesar da intimidade dos seus traços, os olhos de desenho debruçado, feitos com o toco de um lápis. Tinha 82 anos, fui saber depois, de nome Zilah. Ela não enxergava direito. Veio sozinha em sua lentidão amorosa. Suportou a fila sem reclamar, com o livro em punho, agarrado como um terço. Ela só se deu por satisfeita quando eu a abracei. Questionou indecisa: 'É o Carpinejar? É o Carpinejar?', balbuciando os braços, moinho que começava a girar as águas mais subterrâneas. Apertou-me tão firme que me vi sozinho na capela de seu vestido negro. Sumiu a balbúrdia, o vozerio vizinho. Ouvi seu sangue, rio que se antecipa no vento das árvores. O vitral acima, filho de seu sopro quente. Ela me amava mais do que poderia escrever. Falou em meus ouvidos: 'que Deus te cuide até contra o próprio Deus'. E me entregou um presente, com o papel amassado de quem fez às pressas o embrulho. Ali, numa mesa, recebi uma bíblia em forma de chaveiro. O bico do pássaro é a chave. E a caneta esqueceu definitivamente o meu nome.

9:36 AM :: Comentários:

PRÊMIO

Cinco Marias (Bertrand Brasil) recebe o Prêmio O Sul, Nacional e os Livros, escolhido como o melhor livro de poesia de 2004. A entrega do troféu ocorre na segunda (8/11), às 21h, na Associação Leopoldina Juvenil (Marquês do Herval, 280), em Porto Alegre. Foram também contemplados "Contos Completos", de Sérgio Faraco, como Livro do Ano; "Arquitetura do Arco-Íris", de Cíntia Moscovich, como Livro de Ficção; "O Dia em que Getúlio Matou Allende", de Flávio Tavares, como Livro de Não-Ficção; "Goma Arábica", de Carlos Urbim, em Literatura Infantil; "Ambivalência", de Mueril Paraboni e Douglas Dickel, na categoria Revelação e José Eduardo Degrazia, em Tradução.

9:32 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 07, 2004

CHALEIRA DO MAR
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



O amor não termina - esquece de começar. Não explicar é decorar. O amor que não esqueço é justamente o que não se sei os motivos do seu fim. O amor que permanece é aquele que não sei como começou. Procuro o que não tem lugar. Meu rosto é caprichosamente desleixado. Não há fronteira entre o raciocínio e a regra. O caminho de volta já é outro caminho. Ganho a vida quando perco o que eu queria dela. Sofro do pavor do que é anterior ao nome. Meu corpo não me conta tudo. O limite do corpo não limita. Sempre há letras a mais em minhas sobrancelhas. Provoco mais ausências do que presenças. Minha profissão é criar ausência. A criança deixa de ser quando incentivam a criança a dizer o que ela vai ser. É mais difícil virar a página de um livro velho. O amor pode ser empregado para não amar. Quem ama sem violência não conhece a ternura para consolar. Há dias em que todas as estações se encontram. Há dias em que não me lembro de ter nascido. As coisas só têm a primeira pele. A realidade possível vira prosa; a realidade impossível é poesia. A luz que não se suporta já está dentro. Adorar a carne é segredo do osso. Quem inventou o fogo não inventou a cinza. Cupim não gosta da madeira talhada, prefere entalhar sozinho. A memória tem um memória depois dela. Nem o ventre me deixou intacto. O erro não me torna pessoal. O ombro nasceu para o repouso de uma cabeça. Os cabelos inclinam crepúsculos. Os pássaros são facas desajeitadas. Arrasto a respiração para arder. Não amo em troca da nudez. Uma vela é um pião girando, a corda invisível na cera. A dor me escondeu para me alfabetizar. O fundo do poço é água voando. Brigo com os fatos para favorecer a imaginação. Minha caligrafia é um telefonema por engano. O caranguejo recua porque deixou a chaleira do mar acesa. Não conheço homem que chore com chapéu. Usar óculos é o equivalente a comer com os cotovelos apoiados na mesa. Vim do interior onde tapetes eram os lençóis dos astros. Sou mais ágil dividido.

10:47 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 04, 2004

CHAPÉU DE RECADOS
Gravura de Van Gogh

Fabrício Carpinejar*



Podes me tirar tudo: o orgulho de ter nascido antes de mim, a arrogância de ter morrido depois de mim. Podes me tirar os livros, os meus preferidos perto da cama, as idéias que seriam geniais se não fosse o bom senso. Os suspensórios dos olhos. Podes me tirar a compreensão, o perdão, os ossos contados como dias nas paredes da carne. Podes me tirar a madressilva da porta, a porta, o meu jeito de comer. Podes me tirar o apartamento, o espaço da fala, as flores do túmulo. Podes me tirar o riso, a independência do riso, os conhecidos, as festas de corredor. Podes me tirar a memória e até o esquecimento. Podes me tirar o egoísmo e a paixão, a cultura que adquiri às pressas, a serenidade para julgar, a severidade do combate. Podes me tirar as metáforas, a fuga, minha saída do sangue. Podes me tirar o nome, o sobrenome, a neblina entre minha casa e a praça. Podes me tirar a alfabetização, o que escondi na infância e não achei de volta, o que escondi no amor e não pedi de volta, a própria volta. Podes me tirar a segunda chance, o voto de confiança, a remissão dos pecados. Podes me tirar os excessos do mínimo, o idioma, meu receio de ficar sozinho. Podes me tirar a anestesia, a dormência dos dentes, o telefone sem fio, a vigília do abajur. Podes me tirar as chaves, o caderno, o chapéu de recados. Podes me tirar o vício, o cigarro, a loucura amarrada nas patas de um corvo. Podes me tirar o colo, a sesta, a audição das escadas. Podes me tirar o desejo e pôr a inquietação em seu lugar. Podes me tirar os traços dos filhos, os hábitos de minha mulher, o respeito dos outros. Podes me tirar a liberdade que confundi com justiça porque nenhuma das duas se conheceu a tempo. Podes me tirar a esperança que embaracei na fé, a amizade dos cotovelos. Podes me tirar os instantes em que não vivi na rua, o apego ao quarto, a diferença. Podes me tirar a voz e a garganta da chuva. Podes me tirar a angústia, o tédio, as sobrancelhas divididas em três fatias de pão. Podes me tirar o consolo do medo, a confissão da manhã. Podes me tirar a genealogia, a geologia das falhas, os rins em vida, cortar minhas roupas. Podes me tirar as cordas do balanço, os gestos obscenos, o vento marinho. Podes me tirar a praia e a serra, o centro e a fogueira, a transparência da lua e as videiras do sol. Podes me tirar a tranqüilidade dos pés, os quadros, as formigas ruivas e o açúcar. Podes me tirar o trabalho, o certificado de dispensa militar, o CPF, o RG, as contas bancárias, denunciar-me por propaganda enganosa, por falsa identidade. Podes me tirar as possibilidades das mentiras, os anjos de jardim, os varais que cruzam os pátios. Não há castigo infinito. Não há dor infinita. Um dia a gente termina para começar, começa para terminar, refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes. Deixe-me apenas uma cadeira de palha, amarela, para olhar com piedade o que fui e me deslumbrar com as ruínas.

9:12 AM :: Comentários:

CONVITE

No sábado (6/11), às 19h, faço sessão de autógrafos do livro CINCO MARIAS (Bertrand Brasil) no Pavilhão Central da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega da capital gaúcha.

9:10 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 02, 2004

FRAGMENTOS DE UM PALETÓ NO BRECHÓ
Gravura de Natalia Goncharova

Fabrício Carpinejar


Estou em crise, o que me ajuda a serenar. A maldade é uma espécie de paz. Ninguém permanece vivo por acaso. O que eu não consegui ser morre comigo. Com a enchente, o rio entrou pelos fundos e sentou ao redor da mesa do pátio. Debaixo do mar, os livros só têm ilustrações. Toda nudez é retroativa. A intimidade que comove é a que não é dita. A palavra diminui o valor. O sino fala como se uma árvore estivesse sendo cortada. Eu respiro como quem sobe uma escada. Apareceu um sono terrível, que não me lembro para sonhar de novo. Deveria pedir desculpa ao que sonhei para acordar a linguagem. Atravesso a rua para cumprimentar o sol. Os dentes resvalam na fruta e ficam para caroço. A solidão dos animais é muito acompanhada. Quando a casa encontra a velhice até os telhados se abrem como janelas. Desconfio das azeitonas, parecem uvas que não deram certo. Alarmar a mãe é um sinal de respeito. Nunca entendi para onde vai o desvio de septo. A experiência é uma sabedoria atrasada. Convido-me a me retirar.

12:38 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 01, 2004

JORNAL ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO, 1º/11/04:

Contracapa, coluna de Roger Lerina



Eduardo Nasi, reprodução/ZH

O desenho fofo aí é uma das ilustrações do livro Porto Alegre e o Dia em que a Cidade Fugiu de Casa - lançamento que inaugura a coleção infantil Paralelepípedos, da editora paulistana Alaúde, junto com São Paulo e o Imperador da China, de Luiz Bras (na verdade, Nelson de Oliveira) e Teodoro Adorno. Fabrício Carpinejar e Eduardo Nasi foram os escolhidos para retratar a capital gaúcha para todo o Brasil. Carpinejar escreveu e Nasi ilustrou o volume.

A obra conta a história de um guri que, vestindo um poncho, toma um ônibus por engano e descobre que Porto Alegre é maior do que seu bairro - na verdade, é um território infinito, com cachorros de três pernas, parques no aumentativo e avião que faz cocô.

O personagem atravessa os principais pontos da cidade, como o viaduto da Borges de Medeiros, a Usina do Gasômetro e o Parque da Redenção.

9:23 AM :: Comentários: