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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Dezembro 30, 2004

INGRATO
Gravura de Giotto

Fabrício Carpinejar



Naquela manhã, o azul não precisava estar no céu nem no mar para sugerir as mãos. O verde não precisava estar na árvore ou na grama para sugerir os pés. Naquela manhã, encontrei minha mãe sentada em uma cadeira de balanço na frente de sua casa. No meio dos arbustos. Como se os arbustos fossem ondas. Ela estava de banho tomado, cabelos ainda molhados e um olhar longevo, cumprido. Não pensava em nada, senti assim. Nunca vi minha mãe não pensar em nada, sem se preocupar em arrumar a casa. Esse era o dia. Perdeu momentaneamente parte da memória e dizia que tudo aconteceu porque lavou os cabelos. Confundi o ato com uma brincadeira, mas não achei riso antes ou depois. Ela caracterizava o lapso como "uma coisa estranha, muita estranha". Falava devagar. A sombra fala devagar. Olhava absoluta o próprio olhar, tal criança que vira as pálpebras para assustar seus colegas. Calma, mansa, serenada, um sinônimo dependia do outro para chegar a algum sentido. Não percebi sua velhice, mas a minha. Ali vi que eu e os meus irmãos envelheceram. Ela já tinha nos sustentado, educado, pago a universidade, feito mais do que podia e não havia nada a corrigir, não havia chinelos ao lado da cama, não havia lençóis para estender, janelas a fechar e toalha a sacudir migalhas. Minha mãe demonstrava uma vontade de ficar só. Uma vontade de sua solidão. Uma vontade de chavear o quarto, que permaneceu aberto com um banquinho todo esse tempo. Sempre era ela que lembrava dos telefones, das tarefas, dos remédios na hora da gripe, dos parentes, dos chás. Agora ela conversava com seu corpo. Seu corpo imenso deslembrado. Não adiantava perguntar qualquer coisa. Tratava-se do momento de responder.

Filho é ingrato. Definitivamente ingrato. Nunca está satisfeito. Acredita que mãe é provedora pela vida inteira, raramente a repara como uma amiga que depende de ajuda, de compreensão, de colo, de conselhos avulsos e atemporais. Todo filho quer ser reconhecido como filho único. Pede favores como se ela não tivesse vida, agenda, desejos que não os seus. Exige, não pede licença. A mãe não cobra devolução, recompensa. É a porta da cozinha, sem campainha. Ela se doa, deixa a si por último. Seus filhos têm irremediável preferência. É a última a se servir, a última a tomar banho, a última a receber presentes, a última a dormir, a última a fazer revisão no médico, a última a saber. Todo filho se imagina primogênito, o mais mimado, o mais dileto. Minha mãe inverteu a pergunta naquela manhã: eu sou a dileta de que filho?

Nenhum respondeu. A maternidade não repousa no sobrenome, nos traços, no molde genético, é um escapulário debaixo da camisa que não se vê. Uma pitanga, onde o caroço é quase do tamanho da fruta.

Minha mãe escolheu um santo para cuidar de cada filho. O meu é São Francisco; o da Carla, Joana D'Arc; o do Rodrigo, João XXIII e o do Miguel, São Sebastião. Ela criou seus filhos com a ajuda dos santos. E suas atitudes foram milagres, anônimas como milagres. Os santos levaram os créditos. Porque o filho é ingrato e esquece aquilo que não saiu dele. E pede novamente como se nada tivesse sido dado. O filho reza unicamente para cobrar, não para agradecer. Acredita que sua mãe é eterna, indestrutível, e não parou para descobrir de que modo ela conseguiu conciliar o trabalho com o mercado com a escola com os amores com os amigos com os pagamentos com as dificuldades com as dores com as alegrias e não parecer ocupada ou cansada em nenhum momento. Como ela fez isso?

A maternidade e a paternidade são um estado de insônia. E não termina em nenhuma idade: conferir se o filho pequeno respira com o espelhinho, aprender a cantar na marra, acordar antes do alarme, aguardar o filho voltar de madrugada das festas e que a agressão da adolescência vire abraço, festejar as vitórias das crianças mais do que a infância pedalava no balanço, intuir os problemas, esclarecer as dúvidas, amparar no isolamento, estreitar o convívio com os colegas, acolher os namorados e namoradas. Os pais são escandalosos de cuidados. Só o filho mesmo para ficar constrangido com o afeto. Porque é ingrato. Todo filho é ingrato, o que ele quer é para ontem e o que chega já é passado.

Naquela manhã, minha mãe esperava um ônibus. O ônibus de seu corpo. Desconhecia pressa. Não necessitava ler o letreiro - decifrava o destino pelo número das letras. Naquela manhã, entre o azul da mão e o verde dos pés, ela nasceu de seu próprio ventre. Os filhos tinham que ao menos ajudá-la a cortar o cordão umbilical. E não duvido que ela não o tenha cortado sozinha. Eles demoram muito, todo filho demora.

7:37 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 28, 2004

QUAL MOMENTO?
Arte de George Segal

Fabrício Carpinejar



Não há como definir o motivo para terminar com alguém. O que gerou a separação? O que provocou a absoluta segurança de encerrar o romance e abdicar do final feliz? Como que ocorre a transformação da companhia íntima, a qual se dividia segredos ao longo de anos, em uma estranha desaforada querendo arrancar o teu siso de ouro em uma vara de família? São movimentos subjetivos e sísmicos que definem a ruptura. Não é o peso, o rosto, as pernas que norteiam o amor. Nada o esclarece, muito menos o seu final e o distanciamento do tempo. O amor inicia na incompreensão compreendida, a confusão saborosa da identidade de não pensar em outra coisa, e termina em compreendida incompreensão, na confusão desastrosa da identidade de não querer pensar no assunto por mais um dia. De que modo algo que prometia aventura resulta na mais ferrenha apatia? Como um jogo com primeiro tempo eletrizante reduz o ritmo no segundo tempo e se conforma com o resultado?

Em que canto da memória, em que momento se toma essa decisão de que a pessoa com quem se vive não presta mais, de que foi um erro, de que se perdeu tempo ao lado dela. O que faz um homem ou uma mulher largar aquilo que considerava, uma noite atrás, seu santuário, seu universo, sua segurança. De onde parte esse instinto utilitário de que o par é um carro importado e é muito cara a reposição de peças. Não acontece de repente, tenho certeza. Tudo começa com a resignação, na certeza equivocada de que se sabe tudo. Quando se põe na cabeça que se cumpriu a apresentação, que não existe nenhuma surpresa porvir. Quando se deixa de perguntar para adivinhar as respostas. Quando se deixa de responder por não suportar as perguntas. Quando uma conversa com casais termina no insuportável álbum de retratos. Quando não se fala mais dele ou dela como uma novidade, porém como uma doença antiga, uma enxaqueca, uma tia distante. Acreditar que se domina a situação é pisar em falso. Amor não se assinala no calendário. Ou existe gente marcando uma ida no motel em agenda? O amor aceita apenas fiado. As dívidas aumentam sua longevidade. É falta de controle, imprevisto, improviso, nervosismo. Sem a covardia atenta, não há sedução. Sem o balbucio, não há sinceridade. Ninguém conhece tão bem o outro a ponto de dizer que verdadeiramente o conhece. Não vi mulher que não é no mínimo duas. Em algum lugar do corpo, desliga-se o aparelho. Fecha-se a conquista como se fosse um expediente comercial. Conquistei, ele é meu, ela é minha, deu. Abdica-se do esforço de explorar a personalidade em conversas e saídas noturnas. A tensão esfria e cada um se deita pensando uma forma mais rápida de se cumprimentar, de existir e, se possível, não se tocar. O beijo de despedida vai se especializando em acenar, tornando-se uma prova com barreiras. E não adianta seguir conselhos de amigos. Em estado vulnerável até leitura de horóscopo convence.

O único erro é confiar que o namorado ou a namorada, o marido ou a esposa, dentro de si é maior do que a figura que está fora, de carne e osso, mais carne do que o osso, apesar de estar mais interessado no osso para enterrar do que na carne para dividir a temperatura. A atração enreda, a convivência consolida, o tédio estremece, porém unicamente a falta de humor separa. Quem não tem defeitos também não tem virtudes. Rir dos limites e dos erros do relacionamento, por mais estranho que seja, é uma espécie de liberdade. Uma liberdade que só pode ser gozada a dois.

12:03 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

SEQÜESTRO DO MENINO JESUS
Gravura "A Adoração dos Reis", de Jan Gossaert (1502-1532)

Fabrício Carpinejar



Montar o presépio era certo em minha casa, mais certo do que as luzinhas e a própria árvore de Natal. Arrumava um espelho para imitar o lago, juntava barba-de-bode e palha para tramar o estábulo, ajeitava as personagens bíblicas por ordem de chegada. A lareira virava um teatro de marionetes e sombras, com um anjo da guarda em seu pórtico e uma estrela piscando como alarme de carro. Violetas entravam nesse mundo da lupa transformadas em gigantescas árvores, com platéia de figurantes pendurada nos galhos. Nem significava religião, mas ritual, costume familiar, herança da mãe. O Menino Jesus não aparecia, recolhido até seu nascimento. Ficava escondido nos mais diversos lugares para evitar a curiosidade insaciável dos filhos. Teve um momento em que esqueci onde o havia colocado. Guardei tão bem que guardei de mim. Bateu pânico no dia 24. Estávamos cantando as músicas folclóricas, de mãos dadas e com aquela sensação mais de final de ano do que de começo de vida e nada de me lembrar do paradeiro do Menino Jesus. Não o encontrei. Não sei se as crianças acharam antes, o quebraram sem querer e, envergonhadas, não contaram ou se sofri um bloqueio religioso. Foi o primeiro caso de seqüestro do Menino Jesus que tomei conhecimento. Fui obrigado a desfalcar um playmobil de uma coleção de bombeiros e o deitar às pressas na manjedoura. Tirei sua capa vermelha e ele entrou no bafo dos bichos, sem ensaio, currículo e entrevista, embalado ao som das nozes e da reverência das velas. Fez o maior sucesso, mas confundi a cabeça dos filhotes, que pensam que Menino Jesus é - na verdade - um playmobil. Ou que o Messias é uma surpresa do kinder ovo. A minha atitude abriu definitivamente as fronteiras de Belém. Desde essa data, bonecos das mais diferentes linhagens, com a única exigência de serem miniaturas, como bichos do zoológico, guerreiros estelares e barbies entram com passaporte falso pelas mãos dos filhos no presépio. Já vi inclusive dragão e pokémon na frente dos reis magos. Dinossauros coexistem com vacas e burricos no mesmo espaço. Coitado de Darwin! Os brinquedos passaram a seguir Jesus Cristo, convertidos e natalinos em suas obrigações. A migração doméstica não permite um vazio sequer entre as figuras. O que era para ser um modesto celeiro termina em hotel de lotação esgotada, num Fórum Social Mundial. Em todo Natal, revivo esse tumulto dos filhos em esvaziar as prateleiras dos quartos e encher a sala com badulaques diminutos e representantes dos partidos da infância, do PSTU ao PFL. Não censuro, não proíbo a entrada de ninguém. É Natal afinal, época em que volta com força a esperança de que vou reaver o pequeno iluminado e vingar o esquecimento. A esperança de recuperar algo perdido me faz arrumar o presépio como se fosse meu primeiro.

(Crônica publicada no jornal Zero Hora, caderno Cultura, 24 e 25/12/04)

8:06 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

SESTA, NATAL E GALINHA RECHEADA
Gravura de Portinari

Fabrício Carpinejar



Minha audição é preto-e-branco. Não me recordo de nenhum som colorido. Escuto longe mais do que perto. Escuto o que não quiseram me contar. Refaço o passado com perfeição patológica. Quando não se pode declarar a verdade, ensina-se o corpo a mentir. Me conheço por ouvir dizer, o que não é ruim nem bom. O que fui terminou sendo distração de minha parte. Juro que não busquei existir. Se algo permaneceu de mim foi involuntário. Sorte de veterano. O erro acerta, o que não faz dele um acerto. É apenas um erro menos errado. Descobri que a pressa me torna mais estúpido. Tento ser lento para não me mostrar estúpido de cara. Continuo estúpido, a diferença é que demoro a me entregar.

Como a cabeça do fósforo, sou uma escultura autodestrutiva. Posso ser diversos na alegria, mas serei sempre o mesmo na tristeza. Na alegria, pulo, disfarço, faço mímica e imito. Na tristeza, retorno à caixa d'água em cima do telhado, onde me escondia das humilhações. No Natal, esforço-me para ser uma árvore luminosa. O Natal é o carnaval dos suicidas. Até os anjos correm riscos de enjoar da imortalidade. Concentro-me para não me dizimar: entoar as músicas em ritmo de canto gregoriano, distribuir gentilezas, sortear amigo secreto porque o amigo tem vergonha de aparecer, fingir remorso no abraço. Fingir é fugir pela porta da frente. Na escolinha, recebíamos um chapéu com várias opções de presente da Estrela. A tia dizia que poderíamos pedir ao Papai Noel uma das opções da fábrica. Isso que estávamos falando de carrinhos com controle remoto, bonecos motorizados, coisas que não são para qualquer quarto. Escolhia um e colava no cone para mostrar aos familiares. Carregava o chapéu de papelão por duas semanas. Desfilava como o bobo da corte, minha ansiedade exposta no álbum aéreo de figurinhas. Orgulhava-me de ter esperanças, porém pedir não é ganhar. A escola criou uma geração de frustrados. Eu, pelo menos, não recebia nada do que desejava. A mãe divorciada não desfrutava de condições de adquirir geringonças barulhentas aos seus três meninos e uma menina. Queimava o chapéu na churrasqueira para não queimar a escola. A criança cresce pela propaganda enganosa. Todos os comerciais mostravam helicópteros em vôos rasantes e bonecos que atiravam e pulavam precipícios. Na hora de conferir como funcionavam os presentes nada funcionava. Helicópteros não voavam, bonecos não pulavam: brinquedos manuais. Os pais pagavam pela imaginação de seus filhos.

Natal e Ano Novo são datas em que tudo irrita. Se o telefone não toca, se o telefone toca. Ser lembrado é ser esquecido. Ser esquecido é ser lembrado. O único par de sapatos que sobrou foi aquele pintado de cinza brilhante, dos meus cinco anos, que o maternal transformava em adereço. Um par de sapatos com cor mortuária, encomenda de enterro. Odiava também a sesta. Sesta obrigatória depois do almoço. Quem inventou esse hábito? A mãe fechava a porta do quarto às 13h30. Eu e os manos socados no escuro de repente com um sol farfalhando lá fora. Um contra-senso. Perdíamos assim a sessão da tarde e a Lassie escapando dos donos autoritários. Quietos por dez minutos a controlar a desaparição dos passos maternos. Com a distância assegurada, começava a guerra de travesseiros e concursos de adivinhação. Os amuletos de cada um se completavam: portava um rádio de pilha, Miguel uma lanterna e o Rodrigo a bola, instrumentos necessários para enganar o escuro do castigo. Fugíamos várias vezes pela janela em planejamentos treinado, colocando cobertas amontoadas em nossos lugares. Chegamos ao despudor de recorrer a um gravador para imitar alguns roncos durante nossa ausência. Jogávamos futebol no campinho e voltávamos todos fedidos para debaixo dos lençóis, agradecendo à mãe pelas horas de sono. Ela nunca entendeu como seus guris suavam tanto ao dormir. Colocou um ventilador e não mudou muito a situação. As camas exibiam barro no lado dos pés. A sesta foi a responsável por gerar dupla personalidade. Desde criança, saio do meu corpo com a maior facilidade enquanto descanso. Costumo levar o corpo junto para não me sentir solitário. Meu corpo é meu irmão mais velho. Minhas roupas nunca se preocuparam em ter um corpo - por compaixão, me acostumei em dar carona. Dormir na infância era perder tempo. É estranho pensar que atualmente só quero dormir. Dormir hoje é ganhar tempo. O que não dormi na infância pretendo dormir na vida adulta. Saudades do que não aconteceu. Do recheio da galinha que a avó preparava, do armazém que vendia fiado e da geada que cruzava as pernas da estrada. Por favor, não me acordem com os fogos de artifício.

(coluna no Rascunho, dezembro de 2004)

8:17 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 21, 2004

CONSELHOS
Gravura de Georges Grosz

Fabrício Carpinejar



Não percebo quando estou recebendo conselhos ou dando conselhos. Não há um aviso: preste atenção, isso vai servir para toda tua vida. Conselho não é cerca eletrônica. É falar com fraqueza. A fraqueza é franqueza. E ocorre no momento em que não se pretende convencer ninguém, muito menos a si. Conselho é a total falta de persuasão, desobrigação. As linhas que sublinhei num livro são meus pensamentos. As linhas que não sublinhei são conselhos. Conselho não pode ser ralhado. Não pode ser imposto, ditado, planejado. Não é necessariamente para ser seguido ou compreendido. Não se trata de uma explosão, mas de um estalo. Suave, despretensioso e que é capaz de ser descoberto anos depois. O que acreditava que serviria a minha vida não prestou e o que não acreditava resultou em ensinamento. Talvez olhar de cara feia seja o sinal de que é um conselho. Fui um menino religioso. Religioso de conversar com os pássaros, de tomar chuva para esfriar a cabeça, de descascar bergamota no sol e alcançar gomos ao cachorro. Rezava terços aos nove anos, toda noite, enquanto meu irmão menor lia a revista Placar e o mais velho a Playboy. Tinha que me manter atento nas pedras para não pular passagens. Acompanhava a mãe nas missas, recolhia o dízimo, participava de grupo de jovens. A missa foi o primeiro karaokê que participei. Não havia nota, o que me salvava do vexame. Cantava altamente desafinado. Cantar era gritar. Imaginava os vitrais como a geladeira da luz. A luz permanecia fria naquelas imagens, conservadas da mortalidade que suava e deformava. Minhas roupas encolhiam de repente. Me vestia mal para não chamar atenção. Chamava atenção porque me vestia mal. Contava meus pecados com detalhes. Aumentava meus pecados com volúpia. O padre tinha sono, arrulhava na cabine. Por muito tempo, confundi o confessionário com provador de roupa. Ainda são misteriosos os motivos da grade que separava o mundo de Deus dos fiéis. Deus merecia venezianas. Eu me envergonhava de não ter pecados. Roubava os pecados dos outros para me sentir mais santo, para ganhar confiança. Minha fé sempre foi maior do que a forma que encontrei para rezar. Eu só queria me salvar. Queria me salvar de mim mesmo. Custei a entender que não posso me dar conselhos - não me escuto ou me escuto tarde demais.

10:42 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

VERÃO INESQUECÍVEL EM DUAS VIAS
Gravura de Georges Grosz

Fabrício Carpinejar



FÉRIAS ANTIGAS

Quando criança, não se encontrava filtro solar, artigo raro. Havia bronzeador. Uma pasta de amendoim, que se passava pelo corpo dando uma aparência brilhosa, espumosa, pegajosa. Vendida em tubos e com líquido que saltava longe. Uma marca era pior do que a outra. Podia se enxergar a pessoa a distância, cintilando como uma capivara sem pele. O bronzeador tinha a estranha capacidade de ser fedido e inútil ao mesmo tempo. Bastava empregar camadas durante dois dias e a carne ficava preta, preta de "Ministério da saúde adverte", de pão torrado, que nos obriga a raspar com a faca. A realidade se agravava ao tomar sol de costas. A orla tornava-se uma imensa frigideira, com banhistas transformados em bifes milanesas. Não, bife milanesa ainda é saboroso: bife de figado à milanesa. A areia grudava como se a carne fosse sabão. Namorar na praia exigia alto dom de abstração. Nem o mar salvava o cheiro de remédio de mosquito. Não, remédio de mosquito ainda é cheiroso: cheiro de 'boa-noite'.

FÉRIAS NOVAS

Verão em família pede paciência. A casa da praia fica tomada de parentes no final de semana, que não avisam e chegam com isopor e cerveja. "Surpresa!", ainda gritam com cinismo. A sala vira um bote de salva-vidas. A tranqüilidade dos sábias afugentada de repente por som alto de pagode, jogo de canastra e seja o que Deus quiser. A rede é disputada a tapas. Ir para o mar é uma romaria que não se quer voltar porque haverá alguém no banheiro. Pensar no almoço é outro trauma. Lavar a louça também. Queremos dar uma trégua para a fofoca dos dias úteis e de repente já se está falando mal dos próprios irmãos. A maldade não faz desjejum. Para tomar sol, é preciso antes passar o protetor nos filhos pequenos. Um por um, até que se esquece de se passar em si próprio e não há como encontrar lado para dormir em paz. Se chove então, o que fazer com tantos bichos na arca? Na praia, paga-se ingresso ao zoológico. Sei que é contraditório, mas desejo férias das férias.

7:41 AM :: Comentários:

O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO 2, COLUNA DE DANIEL PIZA
Domingo, 19 de Dezembro de 2004


DESTAQUES E DECEPÇÕES DO ANO

Daniel Piza
E-mail: dpiza@estado.com.br
Site: www.danielpiza.com.br


No final de 2003 escrevi um texto examinando o bom ano da ficção brasileira, que entre outros teve Budapeste, de Chico Buarque, e Mongólia, de Bernardo Carvalho. Neste ano não houve nada equivalente. Mas, em compensação, a poesia deu as graças com Cinco Marias, de Fabrício Carpinejar, um autor na linhagem de João Cabral e Ferreira Gullar e com uma maneira própria de combinar imagens e idéias ("fanologopéia", diria o crítico e poeta Ezra Pound). E nenhum desânimo quanto à ficção faz sentido porque 2005 promete com o novo romance de Milton Hatoum, os testes de amadurecimento de jovens revelações como João Paulo Cuenca e os testes de vitalidade de veteranos como Rubem Fonseca. Também Carpinejar vem com poemas recentes em Como no Céu/ Livro de Visitas.

Já a não-ficção continuou bem em 2004, com livros de história como os de Elio Gaspari e os de crítica como o de Willi Bolle sobre Guimarães Rosa (com algumas ilações forçadas, mas mostrando como Grande Sertão: Veredas embute uma visão crítica do Brasil), o de Luiz Tatit sobre O Século da Canção e o de Tatit, Lorenzo Mamm\ e Arthur Nestrovski sobre Tom Jobim, além do Sem Receita de José Miguel Wisnik. Mesmo a ciência passa a ter seus divulgadores locais, como Ivan Izquierdo (A Arte de Esquecer), neurologista argentino radicado no Brasil. São todos intelectuais que cumprem sua função primordial: lançar idéias controversas na vida pública.

Outro saudável hábito em retomada no mercado brasileiro é o das reedições. Desde autores consagrados, como Oswald de Andrade, Erico Verissimo e Cecília Meireles (cujo Romanceiro da Inconfidência, belamente ilustrado por Renina Katz, ganhou volume de luxo da Imprensa Oficial), passando por "clássicos esquecidos" como os da coleção da Planeta (que começou com o dostoievskiano Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto), até críticos como Moniz Vianna e Antonio Candido, escapa-se do imediatismo das redes de livrarias. Isso tem ocorrido também com autores estrangeiros, de Dostoievski e Stendhal a Henry Miller e Philip Roth (o divertidíssimo Complexo de Portnoy), passando por T.S. Eliot (suas Obras Completas, ainda que o ideal seja ler no original). Alguns ganharam novas traduções; além disso, uma nova geração de tradutores de idiomas como o árabe e o japonês vem fazendo belo trabalho.

Também a crítica e o ensaísmo começam a receber mais versões no Brasil. São autores como Giulio Carlo Argan (Imagem e Persuasão), que mostra como a teatralidade da arte moderna vem do barroco, mas sem as promessas de transcendência do barroco; e Charles Rosen (Poetas Românticos, Críticos e Outros Loucos), que mostra o caráter crítico da música e da poesia romântica, o que também influenciou o modernismo. Outro filão nutritivo neste ano foi o dos livros que refletem sobre o mundo depois do 11 de setembro de 2001, como as reportagens de Seymour Hersh, os desenhos de Art Spiegelman e a ficção de Philip Roth, entre outros. Livros de história em geral, como The First World War, de Lew Strachan, versão compacta de sua trilogia que já nasceu clássica, e biografias como a de Stalin por Volkogonov, estão em alta.

Os de ciência, também. O Que nos Faz Humanos, de Matt Ridley, é o livro mais inteligente lançado neste ano no Brasil, por derrubar visões simplistas como a de que os genes são uma carga estática que ou definiu todo o comportamento ou pouco influi diante do ambiente. E The Ancestor's Tale, de Richard Dawkins, é um "tour de force" muito bem escrito, capaz de nos fazer ler com prazer sobre as espécies de anêmonas. Um ano que deu pelo menos dois livros bons por mês não pode ter sido um ano ruim.

CADERNOS DO CINEMA

No cinema brasileiro o ano foi pior do que na ficção. O melhor filme brasileiro, e mesmo assim com o defeito da grandiloqüência do terço final, não é brasileiro: Diários de Motocicleta, de Walter Salles; o diretor é brasileiro, mas o elenco fala em espanhol e o dinheiro não fala português. Se há uma razão para a perda de bilheteria do cinema nacional no ano, é a carência de filmes de qualidade, não de leis de proteção. Já os documentários mantêm o padrão, com Entreatos, de João Moreira Salles, e Peões, de Eduardo Coutinho; pelo banquete visual, Pelé Eterno.

O cinema estrangeiro também não foi mais que mediano. Hollywood insiste nos épicos edificantes - aparentemente, mais um subproduto do 11/9. Não que filmes como A Vila e Colateral não sejam bem dirigidos. Mas Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michael Gondry e Charlie Kaufmann, é muito mais criativo, inteligente e emocionante. E pelo menos Quentin Tarantino, com os dois "volumes" de Kill Bill, tem amor pelo cinema como folia de som, imagem e diálogo. Má Educação, de Almodóvar, não é seu melhor filme; mais uma vez, porém, está em outro patamar de sensibilidade.

Fui, com minha filha de 7 anos, Letícia, ver Os Incríveis, da Pixar, novo fenômeno da animação. É muito engraçado até a metade, com as crises de um herói que não pode usar seus poderes por causa da "conspiração da mediocridade" e personagens como a estilista que faz suas roupas; depois entra no ritmo frenético e no esquema Super Amigos. Não é tão bom quanto Procurando Nemo. Mas a Letícia adorou.

DE LA MUSIQUE

Já a música jamais nos abandona. Ter visto ao vivo o embate nada egocêntrico de virtuoses realizado por Yamandú Costa, Armandinho e Paulo Moura, no Teatro Cultura Artística, foi um privilégio. E Brad Mehldau no Tim Festival. E Ibrahim Ferrer com sua banda desbundante no Via Funchal. E o concerto de Nelson Freire com Martha Argerich na Sala São Paulo. Isso para não falar no novo balé do Corpo, Lecuona, com canções cubanas, estilo renovado e, ao mesmo tempo, o humor anguloso das coreografias de Rodrigo Pederneiras.

Os CDs não ficam atrás. A música instrumental brasileira continua deliciando com André Mehmari (Lachrimae) e Nicolas Krassik (Na Lapa). O relançamento de Elis & Tom apagou todas as canções nacionais lançadas no ano. Bebo & Cigala juntou flamenco e música cubana e ainda, de sobremesa, a MPB. E Diana Krall voltou para provar que grande cancionista é seu novo marido, Elvis Costello.

Por falar nisso, a constelação de jovens cantoras & compositoras continua brilhando. Estou escutando neste momento Careless Love, de Madeleine Peyroux, uma herdeira de Mabel Mercer, Billie Holiday e Nana Mouskouri que - como Mehldau, Costello, Diana Krall ou Mehmari - pertence a uma geração que não faz distinção de gêneros. A gente gosta mesmo é de uma bela canção, com boa letra, boa melodia e ótimo entrelaçamento entre ambas. Peyroux canta blues (Hank Williams), Bob Dylan, "chanson" (Vincent Scotto) e suas próprias canções. A abertura é com Dance me to the End of Love, swingada composição do grande Leonard Cohen, que acaba de lançar Dear Heather, outro CD indispensável. "Vinhos, mulheres e canções", já dizia a valsa, são o tempero da vida.

A ARTE DE EXPOR

Exposições e mostras bem montadas, com boa seleção de obras, aparato informativo e elegância no marketing, são cada vez mais comuns no Brasil. Modernismo brasileiro, dadaísmo, manuscritos do Mar Morto - os temas são diversos. No momento São Paulo pode ver também Antoni Tàpies no Centro Cultural Banco do Brasil, a arte brasileira dos anos 50 no MAM, os vídeos e fotos de Miguel Rio Branco na galeria Milan Antonio. Do Rio, estou ansioso pela vinda de Antes, mostra da arqueologia brasileira. E em Brumadinho (MG) o Caci é um museu inovador e traz o melhor da arte contemporânea.

Outra tendência é a arte de expor argumentos, como se tem visto em cursos, seminários e festivais pelo Brasil. Na Flip, em Paraty, estiveram Ian McEwan, Paul Auster e Martin Amis, além de Chico Buarque. Timaço.

7:40 AM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 18, 2004

COMO NO CÉU
Gravura de Peter Lanyon

Poema inédito de Fabrício Carpinejar



Viemos de uma genealogia
que nunca dará adeus,
em nenhuma situação,
ainda que da morte
ou da feroz despedida.

Não nos daremos adeus,
ainda que o fundo do tempo
martele os joelhos
como um médico de família,
ainda que o barco vacile
e a terra se abra sem cumprimentos.

Não nos daremos adeus
por uma questão de caráter.

(Revista Mnemozine, número 1, dezembro de 2004)

3:58 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

ANOTAÇÕES NO COURO DA BOLA
Manuscritos de Van Gogh

Fabrício Carpinejar



Tudo é mão para erva do mato. Tudo é visita para erva do mato. Um animal, uma criança ou um vento desatinado. Qualquer toque, mesmo que não tenha sido encomendado, mesmo que seja para arrancar, é recebido como chuva. A erva do mato não é de escolher seus amigos. Não sou também de premeditar os amigos. Minha história nunca foi poltrona de teatro, com lugar marcado, mas poltrona de cinema, sem numeração. Chegava no escuro a definir um assento, desacompanhado, avulso, advérbio, como se o filme fosse me ver. Eu me arrumava todo, penteava o cabelo ao lado, para o filme me assistir. Não treinei a assinatura. Não preenchi páginas e páginas para testar uma letra que impressionasse. A assinatura é a única coisa legível em minha vida, infantil, súbita, como um cavalo sem nada além das crinas. Surgiu no momento de fazer a identidade. Não sofreu ambição, vaidade de permanecer e resistir. Invejo aqueles riscos ensaiados, que ninguém entende, a não ser o portador. A minha é uma caixinha para bicho dormir, com a pobreza da água: papelão, coberta e o cheiro úmido da respiração. Terminou apenas mais apressada pelo empurrão da tinta, mas é a mesma erva do mato, magra como a erva do mato, incapaz de engordar e esconder segredos a exemplo do feno. Não tenho pânico de rua sem saída. Admiro o beco, o paredão das casas, a falta de esquina. Quando guri, uma rua sem saída era a melhor rua para jogar futebol. Não passavam carros, permitindo lançar a bola de uma quadra à outra interminavelmente. Não perdíamos tempo preocupado com a utilidade da bola. O jogo terminava na vidraça ou na voz dos pais chamando para dentro. Naquela época, eu dizia alguma coisa quando não tinha certeza. Mais tirava de mim quando não tinha.

8:08 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 16, 2004

VIVA VIDA

"Quem vive muito vai parecer pouco / Quem vive pouco vai parecer muito." Esses versos são do próximo livro do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, um dos destaques da edição de dezembro da revista Bravo!, que já está nas bancas. São quatro páginas com inéditos do autor, ilustrados com fotos do artista paulista Cássio Vasconcellos. A nova obra de Carpinejar está prevista para sair em abril, pela editora Bertrand Brasil.

(Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Contracapa, Porto Alegre (RS), 16/12/2004)

1:00 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

CORRESPONDÊNCIAS TROCADAS
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Eu abro as cartas correndo. Não leio o destinatário ou o remetente. Abro com a voracidade de quem se espera no papel. Carta é o quarto da letra, ainda que seja uma cobrança ou pedido de doação. Carta tem inclinação, cola, cuspe, como um brinquedo antigo de criança. Pode ser comparada em nobreza a uma pipa ou a um pião, ao artesanato das pequenas gentilezas e vôos. Toda a carta é um origami, com uma dobradura de presente. Embrulha-se a respiração, sem borrar a tinta. Rasgo as cartas como quem se invade, se busca, se derrama. O problema é quando recebo correspondências trocadas. O dilema me apavora. Em um momento, abri uma conta de um vizinho. Não havia como reparar que não era minha pela folha padronizada. Festejei que o aluguel do box havia diminuído. Vibrei até ler o nome do titular do aluguel. Surgiu o primeiro impasse. Violei a carta alheia e, o pior, notei que pagava bem mais há dois anos por uma garagem enquanto o vizinho, pelo mesmíssimo espaço, pagava a metade. Havia sido enganado. Liguei para a imobiliária e cobrei a diferença, usando o Procon como Deus na terra e fiador no céu. Consegui diminuir o valor, mas teria que devolver a carta. Como? Não tinha condições de me denunciar, dizer que usei o vizinho como exemplo. Cheiraria a um ato planejado. Sei que é ridículo, mas decidi fechar a carta novamente, inclusive restituindo a folha pontilhada. Foi um trabalho de restauração de uma hora, com pinça e meticulosidade de falsificador. A segunda parte consistia em devolver com discrição. Fiz de madrugada. Acordei às 2h para desconfiança de minha mulher, desci com a justificativa abobada de levar o lixo (oito horas atrasado) e voltei para dormir em paz. É evidente que minha mulher perguntou por uma semana o que aconteceu comigo aquela noite. Hoje ela ficará sabendo.

A educação é capaz de me tornar subitamente um desesperado. Nem louco consegue manter sua aparência insana por todo o dia. Quando esquecia de fazer um tema na escola, minha vontade era tomar um atalho e não aparecer. O medo de ser repreendido era maior do que a reação das mãos. Quando fui ridicularizado por um amigo que baixou minhas calças na frente de uma menina deixei de sair para o recreio durante um mês inteiro. O medo de ser identificado era maior do que a nudez do rosto. Na última semana, recebi uma longa carta, li com vagar no trem e não me lembrava quem era o remetente. Acreditei que fosse natural me esquecer, já que fico amnésico ao final do ano. Até a minha memória precisa de férias. Só que o depoimento me comprometia, me colocava em lugares que não estive, dizia que fiz coisas que sequer cogitava. Era uma declaração amorosa, torrencial e febril, em letra miúda. Notei que a mulher havia economizado espaço e preenchido a folha mais do que as linhas permitem. Fiquei orgulhoso, envaidecido. Gosto do jeito que os animais bebem. Cão, gato e cachorro bebem com barulho. Suas sedes têm barulho. Diferente da gente, educado a beber silenciosamente, reprimir o som da boca e da garganta, não mostrar o que se sente. Aquela carta tinha barulho de sede. Chorei involuntariamente. Espumava uma vivência com tal intensidade que eu assobiei para disfarçar os olhos. As margens se deslocavam em violenta caligrafia, puxando o corpo para trás, para frente, de modo incansável, dando sentido para as falhas, os erros de português, para a pressa de acabar com o frio. Depois do impacto, revisei o destino e descobri que não era para mim. Outro erro da caixa de apartamento.

Agora estou com a carta aqui em minha mesa, não há como devolver, é um assunto muito pessoal. Eu li e vou transparecer isso ao baixar a cabeça na hora de entregar ao seu verdadeiro dono. Não sou pomba ou carteiro, elementos neutros. O envelope está estropiado, rasgado, pouco amigável, pronto para uma ensandecida reclamação na agência. Como reaver a pele? Espalhei comida no chão e pisei em cima. Como justificar que não li o nome do destino? Sempre que digo uma verdade parece que estou mentindo, sempre que digo uma mentira parece que conto a verdade. Para tomar o caminho errado é necessário dois caminhos. E se não existe um segundo caminho a escolher? Ah, a consciência, pássaro teimoso que canta como se fosse a própria árvore. É tarde para mim, cedo para eles. Posso estar interrompendo e modificando uma história de amor. Se a pessoa espera ardentemente a carta? Se a correspondência não chegar e produzir estremecimento em ambas as partes? Se estou separando um casal que demorou para tomar uma atitude? Não sei o que fazer. A carta em papel rosa não me reconhece e não fala mais comigo.

9:20 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 14, 2004

- NÃO TENHO CABEÇA PARA PENSAR
- ENTÃO PENSE SEM ELA

Gravura de El Greco

Fabrício Carpinejar



Quando pequeno, a última colher de comida nunca era a última. Percebe-se que era no máximo a antepenúltima. A última colher não existe. Uma forma de convencer a criança a mastigar a contragosto. Uma forma de persuadir que é o fim para chegar ao fim. É uma das primeiras mentiras involuntárias dos pais, decorrente da generosidade de ajudar. A última colher deveria significar que é 'para valer", mas identifica-se em seguida que não vale nada e a papinha continua insistindo em entrar. A partir desse momento, o último passa a criar o gosto de não ser o último. Entende-se o último como algo que não acontecerá. O último - na verdade - é um começo disfarçado. O último amor. Não há como declarar taxativamente o último amor, porque o desejo admira a incoerência, a contradição, o ciúme. Como já ouvi gente, depois de uma desastrada separação, afirmando que não amaria mais e está hoje no terceiro casamento. Talvez tenha sido último amor naquele dia. Não se termina nada: amizade, livro, filme, casamento. Fica inacabado, adormecido, avulso. Temos a incapacidade natural de findar qualquer coisa. Quem pensa que terminou a relação, como se terminar a relação fosse mérito de quem disse primeiro, apenas adiou seu final. Haverá uma gaveta para colocar o que não se concluiu, um armário para esconder o que não serve mais, uma garagem para o imprestável até o momento. Não conheço sucata que não atenda alguma emergência. O último é somente um início mais convicto, em voz alta. De igual modo, um minutinho é uma hora, um momento é uma eternidade. O último cigarro, por exemplo, é a ladainha do anti-social, que avisa os amigos que está parando, faz um carro de som de sua abnegação e não larga o vício. Encontra logo um problema para justificar a retomada. Num bar, a situação é a mesma. A última cerveja não será a última, a saideira se repete tantas vezes como as colheradas na boca da criança. O último é um fundo falso. Os pais replicam ao filho que é a última vez e não é a última vez. Facilmente desistem da despedida. É a última vez que levará o filho ao restaurante. É a última vez que vai à praça. É sempre a última vez e a criança entende que amanhã voltará tudo ao normal. Na hora de escutar o "último" o ideal é pensar "de novo".

2:01 PM :: Comentários:

JORNAL DO COMMERCIO, RECIFE (PE), 14/12/2004
Coluna Escrita, Schneider Carpeggianni


OS DEZ LIVROS QUE MARCARAM 2004

A Morte Sem Nome (Santiago Nazarian) - A história de uma suicida serial (!!!) que procura as diversas possibilidades de uma morte perfeita e nada silenciosa, escrita por um dos nomes mais interessantes da nova literatura brasileira.

Diana Caçadora/ Tango Fantasma (Márcia Denser) - Márcia Denser é barra pesada, um fantasma vivo regado a noitadas que nunca acabam, cercada pelos maiores clichês masculinos e femininos que só uma cidade grande pode nos oferecer. Esse livro, na verdade, é o relançamento de dois títulos clássicos dos anos 80, no velho esquema -dois em um-, que estavam fora de catálogo. Vale a pena correr atrás também do último de inéditos de Márcia, Toda Prosa, lançado em 2002.

Memoria de Mis Putas Tristes (Gabriel García Marquez) - No dia em que completa 90 anos, um homem decide comemorar a data fazendo sexo com uma adolescente virgem e se depara com a dificuldade de lidar com o amor e todos os demônios que acompanham esse sentimento. García Marquez continua, sim, sendo um clichê ambulante, mas poucos conseguem fazer um clichê tão bom quanto ele. Ainda não lançado no Brasil, o livro pode ser encomendado pela Livraria Cultura no original em espanhol - www.livrariacultura.com.br.

Política (Adam Thirlwell) - Uma das novas sensações da atual literatura inglesa nos lembra aqui que sexo não é só um jogo envolvendo corpos e suor.

Lendo Lolita em Teerã (Azar Nafisi) - Metade confessionário da situação feminina no Oriente Médio, metade documento de como a literatura pode agir de forma definitiva no destino das pessoas.

Invenção Recife 1 (vários) - Urbana, neurótica, confessional - essas são algumas das chaves para se entender o que os poetas recifenses andam aprontando.

Arquitetura do Arco-Íris (Cíntia Moscovich) - Em 12 contos, a autora gaúcha nos lembra que o inferno nem sempre são os outros.

O Vendedor de Passados (José Eduardo Agualusa) - Um romance que vende ao leitor a idéia de que tudo o que foi vivido pode ser, ao menos, reescrito. Agualusa foi a grande estrela da Festa Literária Internacional de Parati deste ano. Do mesmo autor, Nação Crioula também está disponível no Brasil.

O Xará (Jhumpa Lahiri) - Em poucas palavras: o estrangeiro (e não estamos falando aqui só do clássico de Camus).

Cinco Marias (Fabrício Carpinejar) - O poeta gaúcho lança seu melhor livro em que graves problemas familiares descortinam algumas das maiores angústias humanas. Vale também conferir Caixa de Sapatos, reunião dos principais poemas desse autor de carreira meteórica.

10:31 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 12, 2004

SOLIDÃO NÃO É PREJUDICIAL À SAÚDE
Gravura de Vermeer

Fabrício Carpinejar



De todas as mesas postas, a do café da manhã é a que mais me influencia. Ser o último a levantar, as migalhas denunciando a família na toalha. Varrer o chão de linho com as mãos. O rosto inchado, aos poucos desinflando. A cozinha parada como nata. Escolher entre o mel e a geléia e não errar em nenhuma das decisões, dourar o pão sem pensar em nada, nadificar o pão. Tomar um gole de café forte como quem engole a luz. Barulhar o leite. O som do leite na garganta já é a voz querendo sair. O café da manhã torna-se a única refeição que não me sinto sozinho desacompanhado.

Não sou daqueles que vê alguém isolado e pensa que está infeliz, exilado, apartado da sociedade. Se a pessoa persiste fora do grupo numa festa, no trabalho, numa poltrona, de repente está alegre consigo mesma. Alegre com sua solidão. Há uma necessidade cultural de puxar conversa com quem está calado. Como se a conversa fosse companhia. Como se falar fosse um favor. Há a necessidade cultural de criticar quem mora com independência, como se fosse falta de opção. Há a necessidade cultural de chamar de coitado ou coitada quem não depende de um telefone para levantar os braços. Há a necessidade cultural de condenar a solteira e logo deduzir que não arrumou namorado por descrédito pessoal. E será que não é escolha? Na tradição familiar, as tias sofriam o maior dos preconceitos. Só viravam tias por incompetência, caso não casassem. Há uma necessidade cultural de chamar para se divertir um filho que lê um livro no quarto. Será que aquilo também não é diversão? Escutei muito: 'vá brincar lá fora, tem sol'. Dentro não pode ter sol? Duvido sim dos que não ficam um pouco em si, mergulhados, imersos, centrados, costurando as palavras com os cílios da agulha, tramando uma figura no pano de prato, uma figura que nunca terá legenda. Os pensamentos conversam quando paramos de ouvi-los. Cada um é seu próprio amigo em segredo. Solitário, respira-se a medicação do verde, limpa-se os óculos na camisa e sopra-se as lentes. Não é ruim querer ficar em seu canto, com seus hábitos, alargando os chinelos com o uso e desabotoando a boca com chocolate. Não se enxergar como a parte ofendida. Não ser refém do movimento para circular o sangue. O respeito não chega com a cor dos cabelos. A mata fechada tem sua clareira no solo. Assim é possível se preparar para amar mais o que não está na gente. Nem tudo que é par é completo.

10:46 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

BILLY NÃO USAVA COLEIRA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar

Minha mãe liga de noite chorando. Minha mãe ligou umas três vezes na vida chorando, o que é pouco, o que significa o quanto pode ser grave. Perco o ar do outro lado. Ela gagueja algo, peço para repetir, temendo que ela repita. "Billy escapou, pulou a janela, passou um carro e atropelou o nosso bichinho". Billy (nunca escrevi o nome dele e não sei se é assim ou Bili ou Bily) era o cão poodle do Miguel, meu irmão mais novo. Ficava na casa da mãe alguns dias enquanto ele preparava sua mudança de Salto do Jacuí para Agudo. Miguel é o caçula e será eternamente, apesar dos trinta anos. Introvertido, quieto, cuidadoso. O mais organizado dos filhos. O mais preocupado com os irmãos. Sempre me pergunta, preocupado com as dificuldades de poeta, se preciso de alguma coisa. Billy tornou-se sem querer o mascote da família. Viajava com Miguel e alentava temporadas nos finais de semana em Porto Alegre. Eu reclamava do cachorrinho na casa materna, pensava que era incomodação e que daria trabalho. Afinal, que amor não dá trabalho? Errei, fui egoísta. Envolvi-me com seu jeito espumoso de levantar o focinho para esperar o arremesso da bola ou quando pulava na cama das pessoas para acordar com suas lambidas desaforadas de afeto. Havia uma casinha na sala. Uma casinha azul. Um abajur aceso todo dia. E três folhas jornal de classificados demarcando o território. O Billy abanava o rabo e as tranças, o corpo ao mesmo tempo, como quem toma banho e se esforça para ficar sujo e vivo novamente. Vicente criou uma paixão pelo filhote. Tanto que passou a chamar a vó de "a vó do au-au". Não sei como contar ao meu pequeno que Billy morreu. Como se explica a uma criança que alguém foi embora? Dizer que se encantou? Dizer que partiu para Deus? Mas o que ele entende por Deus? Não adianta, depois de muito ouvir, depois que penso que ele compreendeu, me olhará firme e perguntará onde está o 'au-au'. A incompreensão dói porque já é compreensão. Vicente e Billy se encontravam debaixo da mesa para brincar. Trocavam de papéis: Billy era criança e Vicente o au-au. Os dois permaneciam horas conversando um idioma de pássaros, pedras e chuva, ciscando lã e cabelos um dos outro. Um idioma que o adulto não entende pela pressa da boca em falar com os ouvidos. Riam. O cachorro ria, ouvia com nitidez. Nunca percebi que cachorro gargalhava. Vicente alcançava a comida e acalmava sua ânsia: "tá bom, tá bom". Como minha mãe avisará o Miguel? Tampouco imagino, ainda mais com a sua responsabilidade da guarda. E a Mariana? Minha filha disputava corridas com o cãozinho no pátio a desencavar o céu.

Billy entrou na família sem querer e ensinou que querer não se ensina. Morrer é improvável. A rua Lageado é pacata, de poucos carros. Dessa vez, veio um à toda, assim como aconteceu com o cachorro Sete quando ele escapuliu dos meus oito anos. Viver é perdão. Na tardezinha de quinta, a mãe recolheu o cachorro, para incredulidade do vigia, deitou-o generosamente no banco da varanda, onde assisti toda a minha infância, no banco mais antigo do que o jardim, mais antigo do que o próprio porão, e me telefonou em choque: "seu rosto ainda está quente, seus dentes ainda estão quentes, seu coração ainda está quente".

10:01 AM :: Comentários:



ORELHAS DO LIVRO
"ATÉ NUNCA MAIS POR ENQUANTO", DE LUÍS ANTÔNIO GIRON


Fabrício Carpinejar

Quando não se tem mais expectativa de invenção na literatura, ela trata de recarregar as baterias. Até nunca mais por enquanto, de Luís Antônio Giron, não tem medo do escuro, do salto, da ousadia. Traz um "desespero fictício" que convence imediatamente pelas suas analogias com a realidade: cadáveres descongelados, índios escolhendo seus dotes virginais, a questão do duplo, quedas de boneca, manuscritos envenenados de vaidade. São vinte histórias e muitas outras invisíveis e embutidas na contida e discreta numeração da tábua de pesadelos. Puro deleite. O autor apresenta um estilo definitivo, pessoal e intransferível, que se insere na melhor tradição satírica, honrando vertentes abertas por naipes como Campos de Carvalho. Confia na depuração verbal, no jogo semântico, na força sonora das fábulas. A estranheza e a irreverência dos títulos dão o tom: "Obstáculos Isolda", "Musa imunda", "Nimbado de cloro", "Execrável belvilacqua ou eternos chefes", e assim sucessivamente. Dificilmente encontra-se um escritor altamente inconseqüente, capaz de acertar inclusive quando se erra. Uma ilustração é o texto "Apologia a Betty Boop", em que desfaz a falsa antítese sexualidade e infância. A partir do desenho animado, cria estranho quadro de sedução tendo como ponto de partida as pernas e a testa de Betty e suas figuras de apoio, como o cachorro Toddy.

Impressiona o humor macabro, a excentricidade visual, capaz de combinações poéticas inéditas e surrealistas como "a luz ofegava como um cão esfaqueado" ou "coágulos do crepúsculo". O lirismo age como indutor expansivo da imaginação. Datas aleatórias e historiografia servem para confundir, mas o papel da literatura é, acima de tudo, confundir para aclarar. Nenhuma certeza surge sem "noites culpadas". O autor mitifica o falso e embaralha o verdadeiro, evidenciando a gratuidade dos acontecimentos.

Outro ponto positivo é o caráter altamente dramático e cênico da obra, com profusão de onomatopéias. Giron é uma espécie de "Cobra Norato urbano da prosa", evocando título significativo do poeta gaúcho Raul Bopp. Valoriza os relatos elípticos, evasivos e sugestivos da tradição oral, recorrendo a uma pureza da fala enquanto aprendizado, imprimindo talento ao reproduzir a língua "falada" mais do que a escrita.

9:57 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

NA JANELA DO QUARTO ANDAR
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar

Vou para trás, a fila sempre começa bem antes do meu nascimento. Da porta do trem, vejo o Vicente me esperando no janelão do apartamento. Está à frente das cortinas, a silhueta miúda aguardando o pai, um sentinela e seu apito a cuidar dos rumores da vizinhança. Quatro andares e apenas ele adiantado, desperto, decidido. Ninguém o demove dali, é seu próprio relógio. Só ele e mais seu rosto, ele e o prato do seu rosto. Não me vê mas acena. Acena para qualquer possibilidade de pai que está saindo do trem. Eu levanto o braço e aceno para qualquer possibilidade de filho no edifício. Todos as vezes é a mesma vez. Em nenhum outro momento consumo tanta esperança, tanta convicção, tanta religião, tanta fé. Chego em casa pela chance de observar sua paciência se aproximando devagar. Como um avião aterrissando, as formigas das pupilas crescem. Desço a escada rolante, sem despregar os olhos do varal de seus quinze quilos. Duas quadras e abrirei a porta, porém já abri a porta desde que pulei do vagão. Sua generosidade formando as primeiras frases. É comigo, é comigo, ele me devolve a textura da parede, a alegria de não terminar em meu corpo, a alegria de não terminar o melhor do dia no trabalho. Só queremos na vida uma janela acesa se importando com os horários. As raízes de uma cadeira. Os chinelos como um ventilador desligado. Uma roupa no armário para mudar as escolhas de cor. A confiança de Vicente é o que preciso para nunca deixar de voltar para dentro de mim.

11:08 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 07, 2004

PORTO ALEGRE
Gravura de Iberê Camargo

Fabrício Carpinejar



Nunca vai nevar em Porto Alegre, apesar dela acreditar em milagres. Se a cidade fosse previsível, não estaria nela. O Guaíba é um engradado de cerveja. De vez em quando alguma garrafa explode com o pôr-do-sol. E o casco espuma. O vento briga com o vento, como dois cães brincando. Há ilhas em sua volta, uma ilha em volta de ilhas. Amo a possibilidade de caminhar pela cidade a esmo. Posso atravessá-la e não estender a mão. Ir do estádio Beira-rio ao Olímpico e não reclamar do cansaço. Dá a certeza que chegarei em casa. Apanho a cidade com o canto do olho. Não é desesperada, atônica, nem alegre demais, afônica. É uma cidade sábia, como alguém que envelhece e não se aposenta. Em Porto Alegre, é possível pedir uma informação fora do guichê, ficar no banco sem parecer desempregado, cochilar no ônibus e ser acordado no ponto final. Não progrediu agredindo, nem retrocedeu censurando. Ficou do jeito que o último morador a deixou. Fruta que é mais gostosa verde. Porto Alegre foi engolida ainda no pé. Cidade baixa, que não serve aos suicidas. Exibicionistas não encontram trapézio nos viadutos. O viaduto é apenas uma criança subindo no muro. Porto Alegre tem um jeito residencial, mesmo no centro. Infantil, como um jóquei que deixa o cavalo crescer em seu lugar. Há mais lendas do que histórias, pelo estranho hábito de transformar em lenda a falta de notícia. Porto Alegre é de um lado ou de outro, não aceita meio-termo. Ou é Inter ou é Grêmio, ou é petista ou antipetista (assim como antes era dividida em trabalhista ou antitrabalhista, getulista ou antigetulista, brizolista ou antibrizolista). As árvores aparecem de forma suficiente a não percebê-las. Não são numerosas, nem reduzidas, são. As nuvens se concentram em shoppings como balões promocionais. A orla é uma bicicleta, a curva de bicicleta - só cabem dois para olhá-la. Porto Alegre é uma cidade sem segunda-feira, começa tudo na terça. São seis dias por semana. Quem nasce em Porto Alegre recebe um dia de desconto. O domingo de sol cheira a churrasco. Cidade que usa pantufas, não chinelo de dedo. Se Porto Alegre quer frio vai para a serra, se quer praia vai ao litoral. Não sofre sozinha. O azul é de azulejo sem peças de reposição. Não se entra em pânico para atravessar a rua. Não se morre de vergonha em Porto Alegre. No máximo, se morre, e isso ainda é discutível. Não se acorda de noite para comprar um maço de cigarro, até as assombrações têm preguiça. O escuro conserva os vaga-lumes. A vida é como ela não poderia ser. Cidade vaidosa do seu passado mais do que seu futuro. Os recados são deixados nas paredes, não na geladeira. As velhas casas usam quadros-negros. As praças surgiram depois das estátuas. Deus é chamado em caso de urgência. Em Porto Alegre, não existe urgência.

10:45 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 05, 2004

ANDANDO LENTAMENTE DEPRESSA
Gravura de Vermeer

Fabrício Carpinejar



Para alguns agora é manhã, para outros agora é crepúsculo. Não há como retomar a vida no ponto em que se parou. A vida também se mexe sozinha. Mania de pensar que aquilo que se deixou de se fazer estará esperando intocado, sem mudança alguma. Que um amor antigo não teve outros amores. Que uma amizade fiel não teve vontade de se matar. Que a fruteira da esquina de sexta-feira oferece o mesmo mamão maduro de segunda. Que uma obra lida aos treze anos guardará igual espanto aos cinqüenta. Pensar que se conhece alguém é desconhecê-lo por inteiro. O que conheço duvido para conhecer sem a minha aparência. Não posso me acostumar com o que fiz como se fosse meu. O que fiz não é meu, não me devolverá o tempo. Ter um filho é aprender a deixá-lo ir, a me deixar ir. Quando pequeno, os pais diziam-me: ande depressa!. Passei a caminhar correndo, ofegante de escuro. Hoje escuto deles: ande mais devagar! Voz de velocista não se torna de repente voz de fundista. Qual é a morte mais rápida; a que vai dentro de mim ou a que está fora de mim? Acostumei-me a respeitar o espaço de minha liberdade. Não me dou bem com excesso de liberdade, fico extraviado. Dormi na infância no alto do beliche, sempre sabendo que sobrevoava o sono do irmão. O beliche foi uma canoa, onde colocava os pertences debaixo do travesseiro. Quando o rio é maior do que minha canoa não tem sentido. Até a minha sede é do tamanho de uma canoa. Minha casa não é a disposição dos móveis, mas suas infiltrações invisíveis e correntes de ar. O jeito que o vento entra em casa determina o temperamento dos seus moradores. O jeito como o sol bate no edifício pode me deixar mal-humorado ou bem-humorado. O desejo tem suas doenças, a saudade é a menor delas. A verdade que está nos livros só será verdade se permanecer fora dos livros.

12:24 PM :: Comentários:

O COTIDIANO POR BAIXO
Gravura de Vermeer

Fabrício Carpinejar



Antes me julgava preciso. Conhecia poemas de cor, usava números quebrados, ditava preços exatos, descrevia cenas com um detalhismo impressionante de mapa geológico. Esse comportamento foi tremendamente alterado. Desinteressei-me da arrogância das casas depois da vírgula. Recordo ultimamente de um verso ou de outro e preencho as lacunas com o que surge no momento, esqueço do que iria falar quando escuto, relato cenas com ações básicas. Não significa que fui envelhecendo, mas que o cotidiano me moldou para urgências. O casamento, o trabalho, a literatura, as crianças, os dias apertados me inspiraram a arredondar os valores. Não me interessa a objetividade, e sim a impressão, o impacto das vivências, a generosidade do erro. Ao consultar o peso na balança não digo 69,2, arredondo para 70, assim como há quem arredonde para baixo. Se o filho está com febre, não falo 38,8, arredondo 39. Ao comprar algo, arredondo o cheque. Minha vida perdeu os centavos, o troco. Tudo é alta distração.

12:22 PM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 04, 2004

VICENTE, MEU FILHO DE DOIS ANOS, ME RETRATOU:

E DESENHOU A ANA:

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Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

PINTASSILGO

Fabrício Carpinejar

Não se aponta para um pintassilgo e se diz: "olha ali um pintassilgo!". Não, isso acontece com um pardal, um sábia, um bem-te-vi, um canário, um quero-quero. O pintassilgo (repare que palavra bonita) é o vira-lata dos pássaros. Ninguém o prende em gaiola, não é animal de estimação para exibir aos amigos, moeda de contrabando. Pintassilgo faz cócegas na mão, não avisa de sua chegada. Canta baixo somente para se ouvir. Bichinho despretensioso, que capina a calçada e as ruas ao sol e logo desaparece de noite. O máximo de pessoalidade que recebe é "olha o passarinho!" E não há nada de errado nisso. O pintassilgo acaba sendo transparente, discreto como a grama, camuflado, uma árvore andando de costas, um ninho pousando, amontoando os resíduos e trastes como se levantasse as próprias asas. Fantasma de algum fruto extinto, rasteja no húmus com a elegância de uma nuvem. Deseja apenas um muro branco para não se confundir com a sombra. A maioria das pessoas quer ser gavião ou águia, dependendo da ambição e do tamanho do bico. Procuram se preparar para o mercado como se fosse uma guerra, a entornar sanha predatória e salivar com os olhos. Já vi muito pintassilgo inflando o peito para se passar de pavão. Todos querem sucesso, estabilidade, projeção. E o que fica? Ou o caminho é voado ou avoado. As delicadezas são passageiras e intensas e surpreendem quando não estamos prestando atenção. Talvez a alegria seja a que escapa, a que não foi prevista, a que não se esperava. Revelações miúdas, troco de pão, baganhas no chão. Como descobrir que o vento nos arbustos é quando a floresta janta. Ou que as parreiras fazem lâmpadas para a chuva. Ou que os magros têm voz gorda e os gordos têm voz magra. Ou que as cortinas acenam desesperadas aos passantes. Se a aparência é tudo, a nudez deve ser nada. Quando visto nada estou aparentemente nu. Eu me vejo como um pintassilgo, parecido com o que não fui, e não um gavião. Minhas raízes são de caber em um sapato. Martelo com os cotovelos. Minhas pálpebras só rendem fio para um ninho, sem sobra para casaco. Tenho mais vontade de dormir diante da palha do que de uma cama. Não posso depender de uma ambição para me encontrar e do sucesso para me justificar. Não sei me explicar, explicar é se acusar. Prefiro me confundir para não terminar de falar. Reconhecer minha pequeneza é o que posso oferecer para estar em dia com a consciência. Não sou grande, não nasci para ser grande, mas para ser esquecido como elástico de cabelo, autoria de provérbio, ramo de hortelã, concha arredondada de espuma. No fundo de cada palavra, alguém está sonhando. Bato na porta da palavra para acordar seu hóspede. Moro em um pintassilgo. Vivo com um bando de minhas patas, a engolir o vôo e iluminar a fome.

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