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Fabrício Carpinejar


 

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Sábado, Janeiro 29, 2005

GÊMEOS
Gravura de Piero Della Francesca

Fabrício Carpinejar



As leis não pesam o espírito. Nem a linguagem pode falar tudo. O que não se entende a tempo ainda é tempo. O que não está no corpo ainda é corpo. O que não está no mundo ainda é mundo.

Vanessa está grávida de gêmeos. O menino morreu aos quatro meses de gestação e a menina permanece viva. Os irmãos estão juntos no ventre, dividindo o mesmo espaço, as mesmas cordas, o mesmo degrau, o mesmo tecido. Não há como interromper a gestação do primeiro sem influenciar a saúde do segundo. Não há como tirar o que partiu para proteger aquela que ficou.

Vanessa continua alimentando os dois com a igualdade do início da gravidez. Reconhece ambos como palpitações vivas, nervosas, definitivas. Os ruídos que escuta são dois nomes. Tenta adivinhar quem está chutando, quem está empurrando seu passo para mais adiante, quem está socando as camadas da pele como vento espantando as cortinas.

Lá dentro a irmã conversa com o irmão do jeito que pode, o irmão conversa com a irmã do jeito que sonha. A mãe confia em milagres, mesmo que os milagres se atrasem. A mãe confia que os dois sairão gritando, de mãos dadas, apesar da avaliação do médico de que um deles não sobreviveu, apesar da onipotência do exame e da descrença dos conhecidos. A mãe não perdeu a esperança porque alterou o rumo dos móveis, duplicou a cama, apequenou o salário, esticou os ossos do velho armário, teve trabalho, andou ao seu extremo, preparou roupas, experimentou em si o amor de ler o que escreveu, o amor de entender que o mistério é esperar que cada gomo seja suco diferente nos dentes.

Ela acorda quando um deles berra por ajuda e fome na noite de sua carne. E, insegura, não tem certeza de quem chama. Não tem mais certeza sobre a própria voz. Não diz nunca que um morreu, com medo de que morra em sua boca. Ela reconhece por adivinhação e não precisa ver para testemunhar.

Quanta coragem de Vanessa em segurar em seu útero os dois berços, um anoitecido e o outro amanhecido, sem favorecer e mimar um deles. Quanta coragem a de travar o carrinho do corpo na escadaria das pernas e esperar e esperar e esperar contra a ansiedade. Quanta coragem em seus tornozelos inchados, suas mãos rosadas e seu sobrepeso de telhado e chuvas. Quanta coragem em rezar debaixo das cobertas, debaixo do zumbido dos besouros, debaixo do formigamento. A mãe Vanessa curva seus ombros para que seus filhos não passem frio, como toda mãe se derrama em raízes para subir o rosto lentamente. Quanta coragem em assegurar o direito à vida aos gêmeos para que só assim eles possam ter direito à morte.

Metade do que ela come vai para os dois, a comida em dois pratos, quatro olhos. Metade da vida que vive vai para os dois. Metade da vida que não vive vai para os dois. Metade de seus cabelos vai para os dois. Metade de seus joelhos vai para os dois. Metade de sua sede vai para os dois. Metade de seu riso vai para os dois. Metade de seus segredos vai para os dois. Metade de seu lamento vai para os dois. Metade da metade da metade ainda é muito quando a palavra é intenção de música. Quando a palavra não depende da melodia ou da letra para ser ouvida. A gravidez é uma respiração sangue a sangue, mais atenta, mais rápida do que a respiração boca-a-boca. A respiração já é luz no escuro.

Vanessa está grávida de gêmeos. Um morreu e a outra vive. Não importa agora se somente uma das crianças nascerá. O parto aconteceu bem antes, na confiança. A criança que nascer será sempre duas, porque o amor da mãe foi sempre dois, sempre maior do que a realidade permitiu.

6:10 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 25, 2005

ANTES DE MIM
Gravura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Dependia só de mim para ir à escola. Caminhar quatro quadras, entrar na maré humana na parada de ônibus e ficar quietinho na sala de aula até a professora apanhar o giz. Rito certo e infalível. Não incomodava para não ser incomodado. Falava nada para minha falta de assunto não transbordar. Tentava não chamar atenção das meninas para não ser percebido, dos meninos para não ser zombado. Tinha as condições ideais de temperatura de uma cerveja no verão. Não podia se apanhado pelo casco, mas pela garganta, senão congelava. Fui assim nos dois primeiros anos da escola. No início da terceira série, minha mãe me chamou ao canto e disse que precisava mudar, que agora cuidaria do meu irmão caçula. Miguel entraria na primeira série e era de minha responsabilidade. Jurei de tremer de jurar. Não conseguia me controlar, como mostrar ao meu irmão segurança? Fugia do convívio, como transmitir envolvimento com os colegas? Peguei-o pelos braços e caminhamos juntos o trajeto de minha solidão. Antes conferi sua merendeira e expliquei como abria sua térmica e a duração do recreio. Lembro que avisei: o recreio dura metade da metade de um tempo de futebol. Ele fez sim, com a cabeça, compassivo. Mudos, cumprimos o mapa em linha reta. Miguel era solto, decidido, com os cabelos encaracolados e um dente da frente a menos que surgia a mais em seu sorriso. Um anjo de avental vermelho, diferente da minha retração de domingo. Na manhã nublada, não prestei atenção na aula, ansioso por movimentos e aparições na sala do outro bloco. Fiquei em uma classe que me permitia enxergar vultos nas demais janelas. Contraía o olho esquerdo para empurrar o direito mais longe. Meu batimento doía, como uma prova onde sequer intuía como começar o assunto. Não era prova, mas o dia da primeira responsabilidade. Nunca cuidei de ninguém, de repente lá estava imbuído de deveres, ungido pai de ocasião. Paternidade que não conhecia direito desde que minha mãe havia se separado há dois anos. Paternidade inventada a partir de livros e gibis, em que fazia cartões com palavras roubadas de revistas. Paternidade que descobri depois quando deixei de condenar meu pai por aquilo que não compreendia. No recreio, fui catar Miguel e o percebi extremamente articulado com amigos, brincando de corrida e alheio à preocupação. Enrugou a boca em um rápido "oi" e apressou o passo para não atrasar o ritmo da brincadeira. Em um dia, Miguel conseguira amizades que não fizera em três anos. Isso não me deu alívio, confirmou a suspeita do meu despreparo para a função de olheiro. Despreparado para recolher as palavras de volta. Senti inveja de sua facilidade inata, inveja por não tê-lo ensinado absolutamente nada. Eu tinha pena de mim, porém a pena de mim era o único sentimento que me consolava. Mordi muito o lápis nos últimos períodos. Se lápis fosse faca, não teria boca para assobiar. Todo recreio era uma explosão. Não importava se a professora estava falando um tema importante, logo a interrompiam. O ranger das cadeiras era biológico, pontual, definitivo. Quando o sino transformou a porta em janela de incêndio, corri na frente para aguardar meu irmão na praça, local em que combinamos o encontro. Em dias anteriores, saía em disparada para não ser acompanhado por perguntas de onde moro, o que faço de tarde e quem são meus pais. Naquele meio-dia, permaneci observando as turmas deixarem ruidosas o pavilhão da escola. A vida dos outros parecia mais feliz do que a minha. Mais alta, mais pátio para correr, mais interessante. Reparava inclusive os movimentos bruscos dos pássaros, o deslizar monótono da cor. O que não vivia era mais meu. Quinze minutos depois, a angústia concentrou a respiração. O pensamento tornou-se repetitivo e letal. Nada de meu irmão aparecer. Desci novamente a escola e vistoriei sua sala, o refeitório, o campo de futebol e novamente nada. Vazio como um lago recuado pelo sol. Trinta minutos depois, desesperado, passei a rezar. Rezar de pé não adiantou. Pensei que seria ouvido se me ajoelhasse. Não podia voltar para a casa sem meu irmão. Encolhido no meio-fio, rezei, rezei, rezei e de repente já estava chorando no meio da reza e vestia o pai-nosso de ave-maria. Pensei que não seria ouvido chorando. Alguém se apoiou nos meus ombros. Era a mãe. Gritei que havia extraviado o Miguel. Ela reagiu com calma, como a não entender a gravidade do som.
- Ele está em casa. Estamos preocupados é contigo.
Eu havia me perdido, não o Miguel. No dia seguinte, lembro de escutar, atrás da porta, a mãe pedindo ao meu irmão menor que me cuidasse.

(Coluna do suplemento Rascunho, edição de janeiro de 2005)

8:06 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 23, 2005

RINGTONES
Gravura de David Hockney

Fabrício Carpinejar



As campainhas eram raras na minha infância. Chegava-se ao portão para gritar: "ó de casa!', acompanhado de palmas. A presença de cães e a gravidade dos latidos ajudavam a identificar a presença da visita. Abria-se a janela para ver quem era (a porta em último caso). A voz servia como instrumento rudimentar e infalível para atrair os residentes à rua. Tempo simples onde o timbre passava pelas grades até atingir o fundo da casa. Se a garagem estava aberta no pátio, o eco voltava. Dispensáveis os alarmes, interfones, dispositivos de segurança e de proteção. O grito convencia. Havia na época um telefone fixo, convencionalmente preto, no escritório, que tocava como um relógio de cuco, espaçado e lento. Discreto, não chegava aos pés do barulho das teclas da máquina de escrever.

O telefone não tinha o cacife de uma televisão ou de um rádio, utilizado para recados e conversas urgentes. Os encontros e as visitas ainda repercutiam como o melhor modo de conviver. Os orelhões mobilizavam monstruosas filas, já que as linhas não eram fáceis de adquirir. Cansei de perder fichas em seus gargalos. E se vivia bem.

Não estou dizendo que se vive mal atualmente. O problema é a facilidade. A facilidade acomoda quando não incomoda. A maioria tem um celular no bolso. E o celular, ao receber uma ligação, apresenta uma campainha personalizada, com a música predileta escolhida pelo usuário (ringtones). São muitos barulhos, avisos, alarmes, chamadas, que conversar mesmo olho no olho só em casa. O silêncio tornou-se criminoso, fora de moda. Criou-se um estado permanente de alerta, a qualquer momento surge uma ligação para interromper o que se está fazendo. É impossível dar seqüência de meia hora a um pensamento. Todos viraram médicos de plantão, com o bip acionado no intervalo de quinze minutos para falsas emergências. Nunca se está no lugar certo, sendo chamado para outro lugar e outro lugar e outro lugar. Essa necessidade dispersiva de estar em vários locais abstrai o próprio corpo. Fala-se vários assuntos sem terminar algum deles.

No trabalho, os celulares dos colegas, incluindo o meu, tocam simultaneamente, além dos telefones fixos, o que transforma o expediente em uma festa rave. É uma parafernália sem fim, com despertadores caminhando na mesa. Cada aparelho oferece uma música e uma pulsação diferentes. Um DJ não produziria essa alquimia sonora. A sensação é que entrei em uma balada. E poucos atendem na hora, para ouvir com calma a música do celular. Quem telefona é menos importante do que a canção favorita. O que deveria ser recepção é um réquiem. De instrumento, o aparelho se constituiu em um fim. O aparelho assobia, assim como se assobiava antes por medo da solidão.

Na minha infância, os brinquedos não eram maiores do que a imaginação: pião, cinco marias, pipa, bola, amarelinha. Feitos de madeira, barbante, couro, pedra e pano, simples como a voz que chamava ao portão. Com um impulso, a criança inventava o resto. Armado de uma tampa de lixo e de um galho, o piá se transformava em guerreiro medieval. Percebo que os adultos estão com brinquedos maiores do que sua imaginação, se julgam importantes porque não desfrutam de um minuto para pensar. Desculpa, me esqueci, pensar é coisa para vadio.

11:35 AM :: Comentários:

VERSONÂNCIAS NO V FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Fotos de Rodrigo Rocha





Minha poesia vai virar dança e música. Com produção de Dinorah Araújo e direção de Alecsandro Dall' Olmo, o espetáculo Confissões inventadas em caligrafia pequena é uma das atrações do V Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), e reúne coreografia dos bailarinos Alecsandro Dall' Olmo, Cecília Bazzotti e Gerson Berr e música do acordeonista suíço Olivier Forel. Estarei lendo e interpretando uma série de poemas no palco. A apresentação valoriza a simultaneidade e a interferência entre verso, som e dança. A fusão dos três movimentos é caracterizada pelo diretor Alecsandro de 'versonâncias'. A estréia nacional acontece na quinta (27/1), às 22h, na Arena Odualdo Vianna Filho, construída especialmente para o FSM 2005, com entrada franca.

"Confissões inventadas em caligrafia pequena" é o resultado de pesquisa corporal e musical sobre meus textos. Trabalha a poesia como vibração cênica e estado de espírito, em um diálogo que passa por partituras como Tango no más, Valsolive e Tema para a vagabunda II, além de Bach e composições inéditas de Olivier Forel. O fundo sonoro resgata o nervosismo do cotidiano, feito de urgências e da expressividade do corpo. Entre os versos, destacam-se excertos dos livros "Biografia de uma árvore" (2002) e "Livro de Visitas/Como no céu" (ainda não publicado). São poemas que relatam situações-limites do homem comum, momentos em que cada um vive o que escreve sem direito a rascunhos.

11:28 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

NATUREZA VIVA
Gravura de David Hockney

Fabrício Carpinejar



Eu reservo para comer o que mais gosto no final. Não sei como começou esse ritual. Pensando bem, é desde que me ensinaram que não se fala na mesa. É evidente que não obedeci o mandamento do silêncio. Falo com a boca cheia, bem melhor do que não falar de boca cheia e morrer de tédio.

Inicio com a salada, pouco inspirado, parto para o arroz e feijão e, depois, diminuo a velocidade da garfada com o bife milanesa e a batata frita. Não significa que como esse prato todo dia, mas batata frita ficará para o final em qualquer cardápio. É o meu desfecho predileto. Engulo o verde por obrigação e, aos poucos, amanso o hábito para uma fisgada contemplativa. Minha respiração muda de acordo com a intensidade e expectativa das etapas, do sopro ao suspiro. Dificilmente vou rir de alguma piada durante a salada. É muito esforço e concentração e não posso me dispersar um segundo para não fazer careta. Já posso rir até do que não tem graça com o bife milanesa. É impressionante como o apetite abre a guarda e as defesas. O estômago é a região mais sensível dos olhos. Meu pai tentou um dia ser duro com seu editor em Porto Alegre e exigiu um aumento de antecipação de direitos autorais. O editor escutou, escutou e escutou a longa reivindicação em seu escritório, impassível, sem nenhuma objeção. Quando o pai pensava que o tinha convencido, entra na sala um garçom com uma fornada de pastéis. Meu pai é um devoto dos pastéis, a ponto de parar de noite num posto deserto em uma cidade remota para provar a fritura. Nessa pausa, o editor contra-atacou, revidou argumento por argumento e ainda conseguiu baixar o valor da antecipação ao autor que estava assegurada. E o pai saiu da sala radiante, como se tivesse alcançado seu objetivo inicial.

Será que a ordem das coisas altera a natureza das coisas? Imaginava que era um crime morrer idoso, distanciado da infância, desprotegido e abandonado de seus contemporâneos, que foram fechando as malas em breves obituários. Defendia a teoria que se deveria nascer velho e rejuvenescer em sentido anti-horário: maduro, quarentão, adolescente e, por final, criança. Seria muito melhor para cada uma das fases. Por exemplo, não podia ser permitido cair na adolescência sem preparação. Assim como não faríamos tantos erros de relacionamento com uma imaginação experiente e uma memória prodigiosa, de trás para diante. E o asilo seria uma creche e a creche seria um asilo. Ninguém faria também cirurgia plástica para esticar a pele e ficar novo em folha, porque todos desembocariam fatalmente para a juventude. Mas encontrei um ponto negativo que destruiu minha tese: eu iria morrer tão passarinho. Odeio a possibilidade de morte na infância. Argola de caixão pequeno é trinco da porta do inferno. Inexplicável.

A ordem dos fatores não altera em nada o resultado, porém confunde, confunde. Fui educado para namorar, noivar, casar. Acabei casando, namorando e agora estou noivo de minha mulher. Dá para entender? Sou feliz desajeitado. De certeza, apenas que guardo a batata frita por último.

4:03 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

FUNDO MUSICAL E O FUNDO DA MÚSICA
Foto de Marco Antonio Filho

Fabrício Carpinejar



Há uma situação que me enternece: as bandas e artistas que tocam em lugares ermos para fundo musical. Estão tocando e o público conversa mais alto do que o próprio som, entretidos com o chope, o pastel, o bauru e a menina. Os espectadores não foram convidados para a festa, jantam com o desprendimento de uma tevê ligada. A mesa mais procurada é a que fica longe do microfone. E os músicos atentos e concentrados como se a casa estivesse cheia só para vê-los. Não importa se tocam bem ou mal, não serão descobertos naquele ponto. São invisíveis, não têm cartazes com seus rostos, cds com suas letras e muito menos produtora para desabafar. Não saíram no jornal, ninguém comprou ingresso para assisti-los. Não são escolhas, mas acasos da rotina. Entraram anônimos e vão deixar o ponto anônimos. Devem trabalhar no turno inverso para sustentar a família e as contas. No expediente comercial, sonham com essa uma hora e meia de palco, ainda que em shoppings e restaurantes. Suas maiores alegrias são a véspera da alegria. Em caso de local lotado, os circunstantes não escondem o desprezo: desejam paquerar, comer e curtir a noite. Batem palmas no final da música do mesmo modo mecânico que levantam a mão para o garçom. Se está vazio, é possível identificar os familiares e namoradas em duas mesas, incentivando com o escândalo de tietes. Nota-se que é um entusiasmo filial, não espontâneo; a platéia familiar grita os apelidos dos músicos, para desespero dos músicos. É comoção pura, não é complacência e pena. Diria que é até inveja. Invejo a relação pura que eles alentam com a música, sem retorno, sem ambição, senão a de estar conversando com o violão, com o timbre, encontrando o melhor tom e escala. Nada têm para querer. São livros inéditos na gaveta. Esses artistas confiam em si o que os outros desconfiam. Transbordam intuição. Confiam no talento, na esperança, na insistência. Resistem às dificuldades, à descrença, às vaias e ao descaso. Sentimentos que sozinhos já fazem um estrago; juntos, então, nem se fala. De repente, não serão conhecidos, mas estão tentando. Se não são futuro, ao menos, não são passado. Afinam as idéias, soltam sinais entre si para as próximas canções, vibram de olhos fechados. Mostram suas composições, lutam contra a algazarra paralela do público e com a solidão das cadeiras. Recebem uma ninharia ou nem isso. Não é o dinheiro que está em questão, e sim a oportunidade, o espaço aberto, a chance, o milagre do diálogo. Para quem escuta é obrigação, para quem canta é vocação. Para quem escuta é entretenimento, para quem canta é show. Eu pego uma cadeira e escuto. Não peço nada, escuto. Estou sinceramente comovido, porque há gente que acredita na arte mais do que no mercado. Arte como a única forma de sobreviver à falta de arte.

9:51 AM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 18, 2005

SOU O PRIMEIRO A ME CRITICAR
Gravura de George Grosz

Fabrício Carpinejar




"Sabes qual é a última?", essa é a pergunta que escuto no começo de uma conversa. A última notícia. A última fofoca. O último boato. Não se fala da primeira, da segunda ou terceira. Estar bem informado é saber apenas da última, não a de ontem, anteontem, depois depois de ontem. Perdeu-se interesse pelas atitudes ínfimas que não serão notícia, que não versam sobre morte, picuinha ou terror. Raramente vou em um lugar onde não se está falando mal de outro. No trem, no restaurante, na parada de ônibus, no corredor do trabalho. Até na igreja, Deus recebe encomendas de vingança. É infalível comentar um pouco o calor, as condições do tempo, para chegar logo ao inferno das relações. Caso os edifícios aqui tivessem mais de cinqüenta andares, a conversa no elevador teria o mesmo fim. Espicaçar, destruir, zombar, troçar. O que prende a concentração é a maldade, o detalhe mórbido, a indiscrição, ao invés da boa vontade, da cultura e da empatia das virtudes. Não estou falando de julgar, condena-se de saída. Aquele não presta, aquela é venenosa, aquele faz aquilo comigo, aquela busca me destruir. A discordância é transformada em intolerância. Basta fazer um teste: entra em uma conversa de repente e todos que falavam sem parar vão ficar mudos. O silêncio súbito é sinal de luto, algum sujeito que conheces estava sendo enterrado. Pode ser inclusive tu ou eu. É triste perceber que não se consegue manter mais de dez minutos de generosidade, de amizade pura, de afeto. Para ter graça, nada melhor do que a desgraça alheia. Nada mais forte do que a solidariedade da inveja. Acredito que não somos promovidos, só rebaixamos quem subia, o que dá a falsa impressão de nossa altura. Em um papo com os desconhecidos, o time ou os políticos serão as vítimas. Em um papo caseiro, será a mãe, o pai, o irmão e a esposa. Em um papo de trabalho, sobra para qualquer colega que não é submisso. Não se respeita a voz. A fraqueza responsável da voz. A maioria se enxerga no paraíso, mas como é difícil exercê-lo antecipado. Parece que se tornou necessário quebrar a laje com violência para abrir o veio subterrâneo. Falta a paciência da água, a insistência da água - somente a água cava a pedra sem quebrá-la. A curiosidade deveria amadurecer em intimidade, não em desconfiança. A última notícia não me diz respeito. Quero a primeira, lenta como cama desarrumada no domingo, antiga como verdade esquecida. Quero conversar afirmando as minhas idéias, não negando as dos demais. Praticar atos inúteis desenvolve o humor, a autocrítica, a imperfeição. Quem se julga acabado não vê suas costas. Se todos falam mal, sê a exceção. A realidade não pode mandar em casa.

10:09 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

DEIXA A CRIANÇA SER TÍMIDA
Para Gabrieli
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Excesso de mimo estraga tanto quanto a falta dele. A criança não pode perder a possibilidade de escolha. Tem direito ao pudor, à cautela, ao mistério, à insegurança A timidez ajuda a conhecer e preservar a solidão. Vejo pais que sobrecarregam os filhos de expectativa. Transformam de repente seus pequenos em atrações turísticas da casa. Se aparece uma visita, a mãe logo convoca a criança a cantar. Se estão jantando com amigos, o pai chama o filho para contar histórias. Desde quando criança é entretenimento? Criança também precisa ficar sozinha e isso não é defeito. Não se consegue ler com barulho ao redor, assim como não se consegue escutar o barulho de viver se a família fala ao mesmo tempo. Ordens, contra-ordens, há a mania de mandar e ser mandado, ainda mais disfarçado no afeto e na proteção. É evidente que as intenções são nobres, de querer mostrar os filhos, de valorizá-los, de demonstrar o orgulho do amor. O que surge como diversão para uns, aparece como castigo para outros. A vida não é plana, cada um tem seu ritmo e rosto. A vida não é encomendada, o testamento vai sendo atualizado a todo instante. A criança lançada a agradar os adultos torna-se dependente da reação externa, deixando de tomar os seus próprios caminhos. A medição do dom pelo ibope anula a autocrítica. A audiência é um seqüestro sem volta.

Para alcançar a aceitação, o filho passa a ser o que os familiares querem e a infância que é o seu lugar imaginário, onde exerce seu direito de ser ninguém, de adivinhar personagens, de fazer de conta, termina se profissionalizando no elogio. E o elogio que é costume vira obrigação. Da mesma forma, é inútil forçar a criança a pedir desculpa se ela permanece com razão dentro dela. Cabe conversar e mostrar as possibilidades. Não sou contra a partilha de talentos, e sim contra a imposição da exibição deles. Basta a criança riscalhar uma folha com têmpera e os pais estão comparando as garatujas com Picasso ou Miró. Não é muita pretensão? Só falta vender os quadros ou montar uma vernissage com cachorro-quente e coca-cola. Tocar bem um piano não transformará ninguém em Mozart, até porque Mozart já existiu e outros virão com seus nomes e singularidades. Há um desejo insano de que o filho seja um gênio, um superdotado para exibição em pré-estréia. Mas raros são os que aceitam ser pai ou mãe dos problemas dos filhos. Deve-se tomar cuidado para não projetar desilusões e converter a confiança em cegueira. O maior talento da criança é ser criança. Não será a música, a matemática, o balé, a natação, o futebol. Ela pretende apenas brincar e ficar na sua. Forçar a responsabilidade precoce é um passo para a ausência de diálogo no futuro. É equivocado entusiasmar a criança a imitar o adulto, numa espécie de infância cover, e achar engraçada sua mímica e inspirar que cresça o mais rápido possível. Ser adulto não é uma solução. A criança que vira o centro das atenções tem dificuldades para chamar atenção ao que realmente interessa para ela. Perguntar não ofende, responder sem perguntar ofende.

11:40 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

LIVRO DE VISITAS
Gravura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



O homem é resultado de suas mulheres.
Abro a janela se escuto uma voz.
Abro uma porta se pressinto passos.
Eu me antecipo para depois me adiar.
O homem é resultado de suas mulheres.
Tive uma manhã, não uma noite,
uma manhã como amantes casados.
Com a luminosidade intensa,
cerrei os olhos para enxergar.
Tive um pouco mais que uma vida
em uma manhã.

Confira mais inéditos na revista digital Patife.

7:59 AM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 11, 2005

AUTOBIOGRAFIA NÃO-AUTORIZADA

Fabrício Carpinejar



Minha biografia é um rascunho para romance. Não estarei nela. Quando pequeno, preservava uma caixinha de sapatos com bonecos de madeira, pequenas lascas de árvore em que desenhava rostos e afiava corda. Gastava um abajur riscando fósforos nas paredes dos bonecos. Minha faca não me ensinou a assobiar, cortava as lições pela metade. De dia, a irmã me mandava pastar; de noite, me mandava tomar banho para me lavar da sujeira que me mandou da primeira vez. Escrevia mais no tempo em que era analfabeto. A infância é mais um susto do que outra coisa. O que vi em meu bairro de guri matando gato e passarinho não tem cabimento. Juntava os passarinhos mortos do bueiro com a taquara de roupas e prepara enterro no pátio de casa. Acredito que o pátio de casa até já voou com tanto passarinho enterrado. Não mexia nos gatos. - fediam a sete mortes. Usava as meias pretas do pai como mortalhas. Ele não encontrava seus pares na gaveta e saía combinando meia marrom com preta. Era desajeitado demais para me sentir vivo. Uma das professoras advertiu a minha mãe que não iria completar os estudos, que não teria condições de ler, terra viciada em capim. Só tirava NS no ditado. No final do ano letivo, uma súbita mudança. Estalei para o verbo, a partir de jogos infantis com as letras que a mãe criou. O estalo foi de osso quebrado. Minha linguagem é manca. Como não consegui vencer meus inimigos, juntei-me a eles para rir de mim. Não levo tudo muito a sério porque não gosto de carregar nada. Recebi os mais implacáveis apelidos na infância, aceitava, ria e tocava a respiração adiante. Não me sentia humilhado. Me antecipava das piadas sobre minha feiúra e elas ficavam velhas nas bocas dos outros. Sinto uma timidez terrível. Mas sinto medo de ser tímido para não sofrer - é o que me faz não ser tímido. O medo de ser tímido é maior do que a timidez. Sou expansivo por falta de opções. Quando encontramos as legendas, demoramos mais para apagar as imagens. Terminei sendo um ponto e vírgula, não tenho coragem de terminar uma frase e muito menos certeza para começar outra. Eu apenas me interessava por fatos que ninguém conseguia explicar. A desistência da explicação é o início do poema. Ninguém mais se observa. Se observar com atenção alguém saberei mais dele do que ele próprio. Pouco conservo de mim, mas não me suporto de lado. Superei a fase de torcer pela minha desgraça. Houve um tempo em que rezava erros para contar com a desculpa de errar de novo. O elogio da desgraça é uma forma de vaidade. Fui vaidoso de infelicidade. Cada tragédia era bem-vinda. Eu me divertia com o sofrimento. Assim desfrutava de mais histórias para narrar. O problema da alegria: é muito lacônica, guarda o melhor para si. A tristeza é bem mais loquaz, reparte o pior com todos, escandalosa como uma tia míope, que andava sem calcinhas na hora de abraçar os sobrinhos. Não posso falar dela. Vibrava quando o ônibus vinha lotado. Podia me esfregar nas meninas sem me importar com a educação. Não me esqueço da menina que disse que ficou grávida de pé no ônibus. Depois disso, tomei cuidado até com a roleta. O mesmo aconteceu quando me informaram que o peixe tem uma bexiga natatória. Não mais comi peixe, pensando que ela nadava em seu mijo. É engraçado quando escuto que um casal se apaixonou pelo destino. O casal não fala que se separou pelo destino. Quem vai pelo destino volta por outra rua. Não há uma consciência em nós que sabe tudo, mas que ela mente, mente mais do que as verdades. Vou a um estádio de futebol para ficar sozinho. Alcançar objetivos me dá sono. Como deixar as camisinhas no bolso da calça e perceber ao estender as roupas. O que levamos do mundo não significa que conhecemos. Convenci-me de que era um gênio incompreendido, em seguida botei na cabeça que era um tolo incompreendido e, ao final, me satisfazia em ser apenas um tolo. Ao menos, venho me reduzindo ao essencial. Nunca tive dezoito anos - isso posso afirmar com segurança. A adolescência é morar ilegalmente no corpo. A realidade anda tão irreal que prefiro negá-la para não ser considerado louco. O pressentimento pesa. A impaciência me salvou de enlouquecer. Não esperei o final de minhas idéias para me concluir. A liberdade e a felicidade são antagônicas. Eu fui mais feliz preso a uma mulher do que longe dela. O mundo pode ser dividido entre os que concordam rápido e os que discordam igualmente rápido. Meu avô patenteou óculos para os ouvidos - morreu cego. Há sinais que queimam em segredo. Tinha uma namorada que reencontrei madura e não a reconheci. Eu sabia seu sobrenome pela pinta perto da boca. Ela tirou a pinta e não havia mais nada a conversar. Eu amava sua pinta mais do que sua boca. Ficou desdentada de pinta. Meu esquecimento não é um objeto de interpretação. Um dos cheiros que não quero perder é o do braço da avó. O cheiro de sua velhice. Figos em calda. Pele macia, como se não houvesse mais veia esticando o sangue. Cadeira de balanço não precisa de almofada, essa era minha vó. Não dependi de bigode para mostrar que cresci. Não fiz a crisma para não chegar tão rápido na extrema-unção. Emprego a sobriedade somente para pedir um café. Rumino o que as pessoas umedecem, como uma esponja. Humedecer é melhor do que umedecer, demora mais para secar. Ser o que não sou é também continuar sendo. Desejo ser mais boato do que notícia. O boato exagera, a notícia omite. Aquilo que uma mulher ou homem imaginaram também existiu. O que imaginamos também é biografia. Se eu não confesso um amor, não significa que ele não ocorreu, porque ele me fez existir. Não uso relógio. Relógio é perigoso por dentro, serve para montar explosivos, com peças miúdas cheias de contra-indicações. Estou atrasado se não encontro determinado passageiro ao meu lado no banco do metrô. Desisti de fumar na praia. Na verdade, apago o cigarro para o vento, que fuma o filtro sozinho e morre de câncer no pulmão antes de se tornar tempestade. Fui funcionário público e me cansei de fingir que trabalhava. Meu rosto virou uma praça sem brinquedos. Corto a vegetação alta a cada dois meses. Como asmático, me afogo quando não nado. A única saída de emergência ao poema continua sendo a morte, não a gaveta. Minha unha é marcador de página. Conheci gente que se excitava com uma mera lambida de seu cachorro, mas não dou nomes. Os girassóis se comovem cedo demais. Minha pureza ficou com as putas. Abro a janela do carro para me despentear dos dois lados. O beco é o cotovelo do bairro. Um bairro sem beco teve seu braço amputado e ficou com mão única. Eu me encosto para germinar ombros. As dunas não viram o mar. Excesso de luz dói mais do que excesso de escuro. Não renuncio de brincar mesmo quando estou trabalhando, pois a seriedade facilita angústia. Não há vagas nas horas. Quando morrer espero que seja tarde para morrer. Não preciso de fiador. Sei falir sozinho.

(Publicado na revista GV - Fundação Getúlio Vargas, encarte especial de cultura do Digestivo Cultural, dezembro de 2005)

8:58 AM :: Comentários:

IDÉIAS QUE DESAFIAM O SENSO COMUM

"Hoje o desejo secreto de cada um é ser Google." Esse é o nervo de meu artigo "Ninguém mais diz não sei", publicado na seção Superpolêmica, da revista Superinteressante, edição 209, de janeiro de 2005.

8:56 AM :: Comentários:

O MELHOR DE 2004
Revista Aplauso, nº 61, Ano 7, Porto Alegre (RS)

JOGANDO COM A POESIA



A cada livro, Fabrício Carpinejar afirma seu nome entre os grandes do país. Com um jogo de palavras tipicamente seu, Cinco Marias (Ed. Bertrand Brasil) é o quinto livro do poeta (sem contar a coletânea Caixa da Sapatos). E também a sua primeira incursão pelo universo feminino, criando uma analogia entre o jogo-título e a relação entre uma mãe e quatro filhas. Em livros anteriores, ele jogava com a herança poética do pai, Carlos Nejar. Agora joga com a da mãe, Maria Carpi. O poeta dos paradoxos está em plena forma: "Fazer as coisas pela metade/ é minha maneira de terminá-las".

8:53 AM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 08, 2005

DISTÂNCIA E DISTANCIAMENTO
Gravura de Peter Lanyon
Para Larissa

Fabrício Carpinejar



Sendo obrigado a ficar separado da namorada ou namorado, do marido ou da mulher, o que fazer? Morar em casas diferentes, cidades diferentes, países diferentes não revela distância. A distância mais difícil de ser superada é a do costume: a psicológica, a que não permite abraços efusivos e brincadeiras, que paralisa e planifica os sentimentos com os anos de convivência.

É um lugar-comum dizer que é fácil uma relação dar certo sem que os dois se vejam. Mas quem namora afastado não está convencido da conquista e se põe a trabalhar para surpreender. Acautela-se para não sacrificar o que está começando. Exercita mais antes de falar. Procura a toda hora uma forma de chamar atenção. Fiscaliza, atualiza a relação, olha ao telefone ou a caixa de mensagens com curiosidade inquisidora. Corre risco, cobre a aposta, suscetível a enganos, comédias e foras. Aprende a ver longe para não permanecer longe. Distância não é distanciamento. A primeira é física, o segundo é emocional.

Tudo é questão de matemática. Melhor ser dois no tempo sendo um no espaço do que ser um no tempo para ser dois no espaço. Dividir o mesmo teto é pouco perto de dividir o mesmo texto. Os casais separados pela força das circunstâncias não ficam com receio das juras e das promessas. Preocupam-se com sutilezas e detalhes. Não têm vergonha da vergonha. Não estão condicionados ao amor como posse, mas como incerteza. Conhecem quem são pela intensidade de sua busca. Esforçam-se para que a carne seja a lembrança de outra carne, a pele seja a lembrança de outra pele. O esforço é compreensão e a esperança, uma espécie de justiça.

A falta de imaginação termina com qualquer coisa, das atitudes mais complexas às mais simples. Como não colocar um ingrediente a mais ao seguir uma receita? É inevitável. Os melhores cozinheiros são de olho. Minha avó nunca anotou nenhum de seus pratos, porque me dizia: "a comida é que me diz quando está pronta, não eu". Erra-se para acertar. E quando se acerta, com um toque pessoal, parece um milagre.

Sem reagir à vida, não há experiência, há acomodação. Não é de estranhar que o medo de ver um nascimento é maior do que ver uma morte. Desmaiar num parto é mais fácil do que desmaiar diante de alguém que parte. Casais que se julgam definitivos porque moram juntos perdem o medo solidário de nascer (todo mundo que nasce precisa de ajuda) para deixar o medo mesquinho de morrer tomar conta da relação (todo mundo que morre, morre sozinho). O desejo não combina com segurança e senhas. O desejo é não saber o que vai acontecer depois. Os namorados e namoradas apartados por uma questão de trabalho, de residência ou de família estão dispostos a se encontrar dentro dos próprios desencontros. O círculo perfeito é muito apertado. Agrada-me a elipse, a hesitação, a fresta para arejar os afetos. Uma alegria breve pode vir a ser uma alegria interminável.

6:21 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

DEUS TEM MUITOS NOMES E NENHUM APELIDO
Gravuras de Peter Lanyon

Fabrício Carpinejar



Barulhos que fazem parte do meu silêncio. Barulhos necessários, que me acalmam e me condenam a ouvir. Barulhos como fundo de vozes, não vozes de fundos. Da cadeira do barbeiro. Da vassoura recolhendo as mechas. Do zíper da Bíblia. Do reumatismo da geladeira. Da lâmpada falhando. Do trem, único varal elétrico onde os pássaros não pousam. Do ferro de passar entre os botões. Dos fósforos úmidos. Da esteira das malas. Do giz quebrando no quadro negro. Da grama amanhecida. Das sandálias chutando o vento. Das pernas cruzadas para o café. Das venezianas e seu coração de nozes. Das gavetas e sua milícia de guardados. Da conspiração de roupas do armário. Do encontro das cordas com a roldana de um barco. Da resistência do livro antigo. Do filme rebobinando. Da rugosidade do lápis. Das abelhas e seus cílios de asas. Da respiração vaporosa dos filhos. Da boca de minha mulher antes das dúvidas. Das calhas fazendo corrida. Do anzol serpeando na água. Dos cachorros desidratando a terra. Dos gatos em telhas soltas. Das laranjas fermentando o pátio. Dos goles dos pés no piso de madeira. Da árvore quando se espreguiça. Do sabiá fazendo costura para fora. Das mãos dispersas no cinema. Das mãos concentradas nos cabelos. Do fogo adolescente da lamparina. Do fogo infantil de uma vela. Do fogo adulto de uma lareira. Do cristal hiperativo do lustre. Dos sapatos sem cadarços. De lenha empilhada. Das cobertas transformadas em travesseiros na janela. Do suspiro a esmo. Do pão a separar os dentes. Do mel escorrendo da faca. Do estômago quando se deita em um colo. Da espuma parada no balde. Dos ciscos nas portas de correr. Da tristeza incurável. Da agulha no disco de vinil. Do telefone no domingo. Da alegria incurável. Do esforço inútil de sentar no mar. Do ajuntamento de formigas em restos de comida. Da cicatriz de vinha na parede. Das oliveiras debruçadas no portão. Dos vasos rachados pelo excesso de cuidados. Do medo puro da noite. Do medo desatento da claridade. Da caixa de jóias e correntes misturadas. Dos brincos viúvos. Dos atalhos enviesados da mata. Da tesoura cortando o caule. Da tosse benigna dos sinos. Da poeira espalhando a estante. Do sopro de arrepio. Das estrelas escamadas. Do degelo dos arbustos. Do início covarde da ponte. Do beijo que se afasta para ler o que escreveu nos lábios.

10:13 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

OLHANDO DE COSTAS

Fabrício Carpinejar



Não se voa olhando para trás, ciscando as asas. Eu vôo ou vou assim mesmo sem voar. Um poema que não chama para fora não tem nada dentro. Enquanto permaneço com 70 quilos e 1, 76 m, o desejo aumenta o corpo da linguagem. O desejo não depende da pele para sangrar. Não me pergunte o que já sei. Tampouco quero saber de mim, sou um assunto enjoado há 32 anos. Há muito deixei de ser meu tema preferido. Quando jovem falava só de mim. Percebi que me enganava. Quando adulto, só falava mal dos outros que é uma forma de continuar falando só de mim. O óbvio alucina. A grama mascada pelo cavalo é mais influente do que a mescalina. Basta olhar o jeito como ele corre depois. A realidade é um alucinógeno. Quem vive fora da realidade é que está sóbrio. Em toda a igreja da infância, havia uma escadaria enorme para subir. Igreja sem escadaria não fazia sentido. Deus não admite atalhos. Deus não tem costas, o que deve ser um incômodo. Ficar sempre de frente diante dos problemas. Custava subir para Deus, mas descer Deus era fácil. O vento abelhava nos ouvidos. Quando tenho água na boca tenho sede. A vida não me apresentou para a família. Não confio no acaso, mas em diversas vidas dentro do ocaso. Seria diferente ao tomar o trem às 7h50 e não às 8h15? Seria diferente se não entrasse cedo na universidade? Se eu não tivesse passado naquele bar e visto minha mulher dançando com um estranho? É cômodo pensar que escolho a realidade errada e existe uma mais favorável se desdobrando de forma paralela. É muito luxo e egocentrismo dividir a conta com o que não aconteceu. Não é assim: nenhuma realidade se cumpre sem o corpo. Ninguém iria salvar seu filho se tivesse lá, no momento da perda. Ninguém iria salvar um amor se estivesse conversado mais. Ninguém teria compreendido o pai se nascesse antes. Ninguém estaria a salvo dos complexos se guardasse a memória dos primeiros anos. A vivência que fugiu não teve coragem de ficar. O real não multiplica, unifica. Aceitar o que se passou é preferível do que passar em branco. Não mudaria nada das minhas dores. Elas me ensinaram a doer menos. As possibilidades continuam a existir ainda que não escolhidas. Não morrem com o tempo. O que não fiz hoje poderá me fazer mais tarde. Não confio no destino para confiar na falta de destino. Ao mesmo tempo, se alguém está feliz não cabe questionar o motivo da felicidade. A pergunta diminui a alegria. Meus olhos fecham a cada dois segundos. As pálpebras lubrificam, ainda que não chore. Um segundo é perdido em dois segundos visíveis. Quantas horas da minha história enxerguei de olhos fechados? Um terço, no mínimo. Uma década até agora. Alguma coisa devo perder. Ou ganhar. Se aquilo que não escolhi não será lembrado, aquilo que não escolhi será imaginado. A memória não admite ser contrariada. A imaginação é a contradição necessária, contrapõe-se à biografia para serenar sua arrogância. Imaginar é treinar antes do jogo. Eu jogo melhor no treino.

9:51 AM :: Comentários: