Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Fabrício Carpinejar


 

Arquivos:

Blog

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

CONVERSA SÉRIA
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar




Pede-se transparência como se fosse fácil. Falar os assuntos com franqueza, esquecendo que existe a fraqueza por detrás. Conversar com os filhos abertamente, com o namorado abertamente, com os pais abertamente não é dizer tudo. Relação aberta é também não falar. A honestidade termina quando cai no constrangimento ou na vergonha. A conversa não pode diminuir o interlocutor, fazê-lo sentir culpado, ínfero, humilhado. Cito duas cenas de ilustração. Um amigo se masturbava no banheiro. Sua irmã mais velha pegou a cópia da chave e o flagrou no ato. Não bastando, gritou a sua colega de escola que o irmão estava batendo punheta. Pelo que sei, citou até o tamanho do pênis. É óbvio que o amigo ficou vexado a ponto de não olhar para suas calças durante um mês. É traumático confundir liberdade com intimidade. A linguagem não permite a clareza integral, muitas vezes não dizer é um modo de compreender. O escuro conforta e oxigena. Nada demais em se masturbar, eu faço, a maioria faz. Que ridículo seria o pai ou a mãe chegar do trabalho e perguntar: " filho, te masturbou hoje?" Abordar o sexo não é torná-lo uma religião, com minúcias extravagantes e irritantes. Hábitos são saudáveis desde que não transformados em caricaturas ou depreciados em manias. Não é justo apagar o sentimento da jogada. O amigo estava reagindo com a sua sexualidade de um modo espontâneo e natural. O problema não era dele, mas da irmã, que o retorquiu como se ele fosse uma aberração. Duvido quando sou convidado para uma conversa séria, sei que terei que enfrentar um novo trauma pela frente. Conversa séria é quando não existe o que expor, desembocando nos preconceitos e projeções distorcidas. "Olha, queria te avisar, meu filho, que é recomendável ter cuidado ao transar?" Não encontro saída de incêndio: ou desliza para o sermão, moralista e duvidoso, ou às censuras, intimidando a expressão. Não sugiro nenhuma conversa séria, com trilha sonora de filme de terror. Quero falar as verdades me importando com as verdades de quem eu falo, não sobrepondo as minhas verdades às verdades dele. Não sou zelador em vida das pedras dos dez mandamentos. É fundamental sair do meu ponto de vista para não ficar cego. Conversa séria pode ser divertida, imbuída de alegria e autocrítica. Recordo que a primeira vez que transei em casa sujei seriamente os lençóis. Não tinha noção do funcionamento da máquina de lavar. Passei um sufoco para me livrar do pânico: o que a minha mãe iria concluir? Escondi os panos no armário da lavanderia. Era patético esconder naquele canto, numa caixa de papelão, alguém perceberia a falta, porém quando estamos com receio realizamos as coisas mais absurdas. Minha mãe deve ter encontrado os lençóis (sumiram dali em três dias), lavado e não me comentou uma nuvem. Não me censurou, não me deixou culpado. Sua educação me protegeu e me inspirou a confiar nela. Não me vi como um animal acuado, e sim como alguém aprendendo a lidar com a vida. Relação aberta é também respeitar o silêncio.

2:09 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

MANCHAS

Fabrício Carpinejar



Não sou de esfregar manchas com vinagre e sal. Ficar esbaforido com uma toalha tentando reparar o estrago ou estender o pano na pia como um alucinado procurando a aliança no ralo ou me banhar de talco como um bebê. Minha memória é feita de manchas. A que eu mais admirava era a do fundo do estojo do lápis de cor. Não queria trocar a caixinha de madeira. Iniciava o ano letivo e riscava o estojo da lista de material escolar. Fazia beiço. O fundo tinha a graça do risco involuntário, emaranhado de cores que buscavam cada uma a sua maneira gritar mais alto. A paleta resplandecia intensa, úmida, pintura na rocha. O estojo fazia barulho com a tampa. O barulho me acordava para a aula. Outra mancha que me tranqüiliza é a do vinho na toalha da mesa. Meu pai bebia um cálice e não havia jeito da toalha passar imune à borra na janta. A mancha do vinho significava a hora de dormir. O círculo vermelho no linho me anoitecia, um relógio de pano. Sempre fui de me sujar, de me espalhar, de pular cercas de arame farpado e muros. Raramente voltava para casa com os joelhos lisos. Respondia ao apelo do chão e curava as varizes das árvores. Subia descalço para não escorregar. Que delícia farejar as pontas dos troncos com os pés. Preparei minha tez com a rapidez do mato. Roubava frutas usando a camisa como cesta, que terminava pigmentada de ameixas, bergamotas e amoras. Fazia estampas sem querer. Chegou um momento em que a mãe desistiu de limpar e aceitou a volúpia da imaginação das frutas, do suor das frutas, do suco silvestre. Limitou-se a avisar que não tinha conserto. As manchas me davam a nobreza de ter vivido e me arriscado. Não mudo o que de ruim aconteceu em minha vida. Não adapto a história de acordo com as intenções. Mudo de idéia, mas não de passado. Não sou de me remoer em resignações. Já escutei muito de amigos: "se eu pudesse apagar o que eu fiz?" Se apagasse o que não concordo, o que colocaria no lugar? Eu seria mais espaço à venda do que habitado. Arrepender-se do que foi feito não é apagar, mas aceitar a contradição, a oposição, a experiência negativa dentro da gente. Admitir que o divórcio, a separação, o fim do namoro ajudam nas novas relações. Não há culpa onde houve vontade de acertar. Se errei, é que o erro também precisava de mim. Não conheço alegria que não deixa sinais. As manchas indicam que exagerei para o bem e para o mal. Todo excesso é amor. Não sou de esfregar o passado na cara do outro. As manchas são minhas, intransferíveis, e o vinagre não combina com a pele.

2:31 PM :: Comentários:

ESTADO DE MINAS, EM CULTURA, 24/02/2004, BELO HORIZONTE (MG)
LITERATURA

PAMPAS ROMPEM FRONTEIRAS
Escritores do Sul do País extrapolam seus territórios e têm livros publicados por grandes editoras nacionais. Destaque para o Rio Grande do Sul, em maior escala, e para o Paraná

Carlos Herculano Lopes

Divulgação / Renato Stoduto

O poeta Fabrício Carpinejar acredita que a passionalidade seja a vocação do Sul

De uns tempos para cá, vem acontecendo uma verdadeira explosão da literatura do Sul no restante do País, especialmente aquela feita pelos novos escritores do Rio Grande do Sul, em maior escala, e, também, do Paraná. Autores até então restritos às fronteiras gaúchas, como Cíntia Moscovich, Fabrício Carpinejar, Marcelo Carneiro da Cunha, Juremir Machado da Silva, Luís Antônio Giron, Luiz Paulo Faccioli, Daniel Galera, Letícia Wierchowski, só para ficar nestes, estão sendo publicados por grandes editoras do eixo Rio-São Paulo, como a Record, a Companhia das Letras, a Objetiva, Bertrand Brasil, entre outras.

Uma das explicações para esse fenômeno, que tem feito com que os olhos do Brasil se voltem para as letras dos Pampas, é dada pelo professor e ensaísta Flávio Loureiro Chaves, atual coordenador do programa de pós-graduação em letras da Universidade de Caxias do Sul. De acordo com ele, que é autor de Érico Veríssimo: o escritor e seu tempo, no qual traça a trajetória do autor de O tempo e o vento a partir dos anos 50 e 60, do século passado, houve uma geração literária muito forte no Rio Grande do Sul, da qual eram expoentes, além do próprio Érico, autores como Dionélio Machado, Mário Quintana, Reinaldo Moura, Ciro Martins etc, que estabeleceu parâmetros altos, fazendo com que nada que surgisse em seguida estivesse no mesmo patamar de suas obras.

"Foi necessário então que transcorresse mais de meio século para que se desse uma renovação do processo literário gaúcho, em relação a esse padrão de excelência. E isso está ocorrendo agora, com um novo espaço histórico sendo aberto para expressões originais", diz Loureiro Chaves, que entre os novos expoentes da literatura dos Pampas cita, além do poeta Fabrício Carpinejar, Assis Brasil, com seus romances históricos, e ainda as novelas de Cíntia Moscovich. São autores que, de acordo com ele, "já não padecem da inibição provocada pelos grandes textos escritos por nossos autores dos anos 50 e 60 do século XX". De certa forma, também, segundo o professor, isso ocorreu na literatura brasileira como um todo. Ninguém que pertenceu à geração pós-Guimarães Rosa e Clarice Lispector foi capaz de criar obras que se igualassem às deles.

Autonomia Quem também está atento a essa avalanche literária do Sul é o romancista e crítico literário José Castello, que já há mais de dez anos está vivendo em Curitiba. Para o escritor, que é autor de Fantasma, existe no Rio Grande do Sul um sentimento muito saudável, que é o de preservar a cultura e a autonomia locais. E se isso, a princípio, pode ser visto como uma coisa fechada e regionalista, na verdade não é bem assim, pelo menos em se tratando das letras. "No Rio Grande, hoje, faz-se uma literatura pluralista e sofisticada, que tem produzido escritores de estilos próprios e inconfundíveis, como João Gilberto Nool, Lya Luft, Moacyr Scliar, entre outros, todos de vôo próprio, cujo trabalho é pautado pela diferença", afirma Castello. Dos novos, ele cita a poesia de Fabrício Carpinejar, autor, entre outros, de Cinco Marias.

Já no caso do Paraná e, especialmente, de Curitiba, que segundo ele é uma cidade muito introspectiva, há muita gente produzindo boa literatura, embora ela ainda não tenha alcançado a mesma visibilidade da gaúcha. "Apesar de a maioria dos grandes escritores daqui, como Dalton Trevisan, Cristóvão Teza, Wilson Martins, Valêncio Xavier, Wilson Bueno, entre outros, publicarem seus livros em editoras do Rio e São Paulo, surgiram, nos últimos anos, alguns catalisadores, que vieram ajudar a combater a dispersão: o suplemento Rascunho, que, hoje, é uma grande aventura literária, e a Travessa dos editores, dirigida pelo escritor Fábio Campana, que edita a excelente revista Etecetera", afirma José Castello. Ele cita, ainda, no Paraná, a literatura de Miguel Sanchez Neto e Décio Pignatari, um paulista que vive em Curitiba.

UMA GERAÇÃO DE GARRA

Uma das autoras gaúchas que começa a alcançar ressonância nacional é Cíntia Moscovich, que estreou em 1996, lá mesmo em Porto Alegre, com o livro de contos O reino das cebolas. Há algum tempo, a Editora Record, que está investindo pesado nos novos autores do Rio Grande do Sul, lançou mais dois livros da escritora: o volume de contos A arquitetura do arco-íris e o romance Duas iguais. Vivendo em Porto Alegre, ela afirma que sempre existiu uma efervescência literária muito grande no seu Estado, reforçada há cerca de 20 anos, a partir da experiência bem-sucedida de uma oficina mantida por Assis Brasil na PUC Rio Grande do Sul. "Vários autores da minha geração, como Letícia Wierchowski, Amilcar Bettega e eu, que, agora, começam a alçar maiores vôos, iniciaram-se nessa oficina", afirma Cíntia Moscovich.

Para ela essa explosão da nova literatura gaúcha em nível nacional, que começou há pouco mais de um ano, deve-se, também, em parte, ao enfraquecimento das próprias editoras da terra e, ainda, a um nicho de produção literária muito forte que existe por lá e estava precisando se expandir. "Quando Luciana Villas-Boas, da Record, ficou sabendo disso, pegou um avião lá no Rio e veio nos buscar", conta a escritora. Na sua bagagem, Luciana levou, além de Cíntia Moscovich, autores como Marcelo Carneiro da Cunha, Luiz Paulo Faccioli, Juremir Machado da Silva, Luiz Antônio Giron e outros, todos com trabalhos lançados pela editora carioca.

Preparando-se para publicar seu novo livro, que irá sair em abril pela Bertrand Brasil, o poeta Fabrício Carpinejar concorda com Cíntia Moscovich em relação à Oficina Literária de Assis Brasil, que, segundo ele, ajudou, e muito, na formação desses novos autores gaúchos. "Somos uma geração de garra, que não se acomoda com o livro, porque estamos mais preocupados com a própria literatura. Também queremos nos fazer compreender, nos fazer sentir e provocar sentimentos", afirma Carpinejar, para quem tudo no Rio Grande do Sul acontece de forma exagerada. "A passionalidade é nossa vocação", finaliza.

2:28 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

DAR UM TEMPO
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe. O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos. Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos. Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto. Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense. Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio. É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga. Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas. Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo. Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer. Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.

Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente". É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo. É um jeito educado de faltar com a educação. Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes. Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo. Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo. Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo. Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola. Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes. Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo. Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo. Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido. Melhor a clareza do que os modos. Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir. Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus. Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.

Resumir a relação a um ato mecânico dói. Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. Espera-se algo que escape do lugar-comum. Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste. Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois. Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo. É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo". O que se adia não será cumprido depois.

5:01 PM :: Comentários:

SEVERINO E O PODER

Fabrício Carpinejar/ Jornalista e poeta

Não se ouvia falar de Severino Cavalcanti, azarão na disputa à presidência da Câmara Federal. Era mais um Severino entre "muitos iguais em tudo na vida", tomando emprestado verso de João Cabral, em Morte e Vida Severina (1954-1955). Superou a pobreza, largou os estudos e encontrou na política sua tábua de salvação, como antes se entrava na Igreja e no Exército para ter um prato de comida. Até o momento da eleição, representava mais um Severino entre tantos no Congresso, a declarar discriminação sem medo de represália. Fazia parte do baixo clero, que decidia sem aparecer. Deixou de ser Severino, de uma noite para outra, para ser presidente dos parlamentares em surpreendente votação. Aproveitou a divisão do partido governista, indeciso entre dois candidatos petistas. Sua estratégia foi simples: defendeu o corporativismo dos 513 parlamentares. Prometeu aumentar o salário atual de R$ 12,8 mil (afora R$ 48 mil de ajuda de custo) para quase o dobro, o equivalente a R$ 21,5 mil. A votação secreta apenas o ajudou, já que nunca saberemos o que de ruim um homem pode realizar em segredo. E não faltou com a palavra. Ratificou o aumento na primeira aparição pública como presidente da Casa. Foi natural e espontâneo como se estivesse escovando os dentes. Convicto, parecia que Deus falava a ele através de um ponto eletrônico. Tornou-se porta-voz do seu contracheque, acreditando que o eleitorado apoiaria a iniciativa descabida de equiparação dos seus vencimentos ao de ministro do Supremo Tribunal Federal.

É assustador perceber a falta de pudor de seus princípios. Avisa que não haverá mais baixo clero, e sim a igualdade entre os deputados. Pelo jeito, igualdade entre os deputados não é converter todos ao baixo clero, mas alçar todos ao alto clero com aumento abusivo. Outra de suas afirmações é defender a família. A sua família, assim entendo, de deputados e cabos eleitorais. Nunca o eleitor, esse parente distante. Nem menciono seu preconceito contra homossexuais, abortos em casos de estupro e iras pouco santas, que o desqualificam como isento.

João Cabral, grande poeta pernambucano, não poderia prever que o nome de um dos seus personagens, escrito em protesto ao alto índice de mortalidade em Pernambuco (nos anos 50 era maior do que a Índia), e casualmente conterrâneo chegaria ao poder com a desfaçatez de legislar em causa própria. Se nos versos de Cabral, Severino morria "de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia", hoje morre de uma doença ainda mais letal e silenciosa: a politicagem.

(artigo publicado no jornal Zero Hora, 22/02/05, Porto Alegre/RS)

10:13 AM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Segundo Caderno
Porto Alegre (RS), 22/02/2005, Edição nº 14427

UMA CIDADE DO TAMANHO DA INFÂNCIA
Fabrício Carpinejar lança livro infantil sobre Porto Alegre

PATRÍCIA ROCHA



Fábula escrita em forma de prosa que mais parece poesia
Foto(s): Eduardo Nasi, divulgação/ZH

A missão era fazer uma história sobre Porto Alegre para crianças. O poeta Fabrício Carpinejar aceitou o convite e cumpriu-o a sua maneira. O resultado está em Porto Alegre e o Dia em que a Cidade Fugiu de Casa (Alaúde, 28 páginas, R$ 18,50), uma fábula feita para qualquer idade em forma de prosa que mais parece poesia.

O livro, juntamente com São Paulo e o Imperador da China, de Luiz Bras (codinome de Nelson de Oliveira), inaugura a série infantil Paralelepípedos sobre as 27 capitais brasileiras. Para apresentar Porto Alegre, Fabrício voltou à própria infância, no bairro Petrópolis, quando era um menino de olhos "desmanchados de verde". O personagem refaz o caminho do autor: um dia, pega um ônibus ao acaso, certo de que todas as ruas terminariam na sua casa. E então descobre que a cidade ia muito além do armazém e da igreja. Havia viadutos, muitas quadras e um laçador "que não podia levantar a mão para coçar o nariz".

- É um personagem meio autobiográfico. Um dia, também me perdi de ônibus. Desci na Redenção, e aquilo era muito grande para eu conseguir me encontrar - conta Carpinejar.

Autor de seis livros de poesia, Carpinejar estréia na prosa como poeta. Há frases que mais parecem versos: "Descobri que redenção é o lugar onde as crianças brincam até o dia murchar em noite. Não tive mais dó do que não conhecia" ou "Eu disse que não poderia estar perdido porque não me encontrava ao menos para me perder". Talvez o resultado não pareça de fácil leitura para crianças, mas a história tem ritmo, humor e brinca com a perspectiva infantil ("Ônibus demorava mais do que dois períodos na escola"). O mesmo olhar de menino está no traço do ilustrador Eduardo Nasi, editor do caderno Patrola, de Zero Hora.

- Não subestimo a criança a ponto de fazer uma linguagem inferior para ela entender - diz Carpinejar, pai de Mariana, 11 anos, e Vicente, dois.

O fato de morar em São Leopoldo há oito anos também não foi um impedimento.

- São Leopoldo pode ser minha mulher, mas Porto Alegre é minha amante. Não há como apagar o alumbramento da infância.

( patricia@zerohora.com.br )



Porto Alegre e o Dia em que a Cidade Fugiu de Casa (Alaúde, 28 páginas, R$ 18,50)

10:11 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

AS PATAS DO PÁTIO
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Todas as xícaras de minha avó, porcelana francesa, apresentavam a asa quebrada. Eu ardia de frio ao entrar na casa amarela de esquina. Medo eufórico, de criança escovando um cavalo. Medo do coice, do imprevisível. Não havia olho mágico. Pelo estilhaço da porta, identificava-se as visitas. Não consertaram o vidro, que apressava a pupila até a rua. Os móveis antigos, descascados. O pó e a luz se embaralhavam a ponto de serem derivados do leite. Uma cidade submersa, enluarada de insetos. De noite, ratos corriam no assoalho. De dia, os primos destruíam a rala nobreza do piano, do lustre e das mesas do século passado. Meu avó paterno cumprimentava e era toda sua fala. Minha avó vivia deitada na cama. Na despensa, chocolate bis e aspirina, casal que completava bodas de ouro. Havia algo libertino na infância, uma depravação contida, um balbucio desregrado. As primas cresciam as pernas e os seios de repente no sofá verde. Desabotoavam as sandálias e ficavam com as pernas cruzadas, trocando de posição com lentidão. No chão, espiava o papel jornal das suas coxas, o escuro das fotos. Passavam a língua nos lábios para provar o suor e o gesto involuntário me excitava. Qualquer gesto involuntário excita. Banho frio me esperava no fim da tarde, o chuveiro não funcionava. Os familiares usavam talco e não compreendia porque as crianças tinham que ter cheiro de velhos. O cheiro doce de velhos. O talco me irritava, pela asma. A vó doente dizia: "sabonete não é suficiente, guri". E enchia meu pescoço com o tapete branco. Faltava ar para revidar. A casa amarela tinha cílios nas janelas: dez gaiolas balançavam. Era impraticável conversar na sala. Os pássaros ligavam alto o volume de suas plumas. O alarido alpistava. As aves disputavam o vento que sobrava, pulavam freneticamente nos trapézios, enfurecidas, ariscas. Éramos hóspedes daqueles pássaros, não o contrário. Eles ameaçavam, cobravam espaço, mandavam-nos ir embora. O pátio suspirava. O pátio e suas patas presas no abacateiro. Comia bolachas com sal em latas de alumínio. Comia sem ouvidos. As bolachas nasciam pisadas. Farelos entravam nas unhas. Meu vô era bonito e não precisava falar. Minha vó era feia e não parava de falar. Aquela residência carecia de horários, almoçava às 4 horas da tarde, jantava à meia-noite e dormia quando as pessoas desapareciam. Tudo era proibido. Tudo era permitido depois de ser proibido. As escadas levavam a um quarto fechado. Contavam a história de que ali vivia uma tia solteira, que foi abandonada no altar. O vexame a enlouquecera. Não mais tirou o vestido de noiva. Permanecia sem roupa de baixo, os pêlos à mostra no tecido transparente, com a grinalda na cabeça e um olhar satânico, esperando que alguém se aproximasse da porta. Qualquer um, para se livrar do par intocado de alianças. Quem entrasse naquela escuridão não voltaria inteiro. Nem pela metade. Imaginei tanto seu rosto que sou capaz de reconhecê-la. Ela freqüentou minhas primeiras ereções.

Os pássaros morreram em um único dia, sincronizados. Dizem que foi veneno de rato, mas os ratos continuavam marchando no assoalho. Veneno de rato mata só passarinho? Ou o passarinho dentro do rato? Será que os ratos voam? Na casa amarela, não duvidava. Havia muito escuro para treinar asas. Os pássaros morreram em um único minuto, e o barulho ensurdecedor permaneceu o mesmo sem eles. Havia muito eco para voltar. O vazio ardia. O odor de palha e papel molhado aumentou na escassez. Os pássaros não têm ossos para virar fantasmas. As pipas são os fantasmas dos pássaros. O vô não abaixou as gaiolas, como um terno no cabide, como um chapéu na mesa, como uma bíblia em sua gaveta esquerda, como um revólver em sua gaveta direita, como o chocolate bis e a aspirina na despensa. As gaiolas foram os ossos da casa amarela da esquina. Ninguém me ensinou a assobiar. A casa amarela subiu o que pôde, uma pipa enrolada na luz.

Todas as xícaras de minha avó, porcelana francesa, apresentavam a asa quebrada. Dava uma pena ver as peças trincadas. Perguntei para vó quem fez aquele estrago, louco para condenar um parente e conquistar a intimidade da tristeza. A vó riu sozinha: "fui eu!". Pegou uma chave pequeníssima, presa em seu colar, e abriu a gaveta a mostrar uma pilha de asas de xícaras. "Assim as xícaras nunca serão roubadas".

(Coluna do Rascunho, fevereiro de 2005)

11:25 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 20, 2005

MATÉRIA DE CAPA DO CADERNO DONNA, JORNAL ZERO HORA
Porto Alegre (RS), 20/02/05 Edição nº 14425

UM CLOSE NO AMOR
PATRÍCIA ROCHA


Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen no filme "Perto Demais"
Foto(s): Columbia, divulgação/ZH


Adriana Deffenti (à esqueda), Fabrício Carpinejar, Léo Henkin e Paula Taitelbaum (à direita)
Foto(s): Adriana Franciosi/ZH


"Cara, minha ex-namorada foi ver Perto Demais e depois me ligou indignada."

O desabafo acima foi ouvido em uma roda de amigos em Porto Alegre, na semana passada, e ilustra bem o impacto causado no público por este pequeno fenômeno do verão. O filme Perto Demais (Closer), de Mike Nichols, se tornou o assunto do momento - em casa e nas mesas de bar - ao traçar um retrato cruel das relações amorosas contemporâneas.

No filme, Anna (Julia Roberts), Dan (Jude Law), Alice (Natalie Portman) e Larry (Clive Owen) se apaixonam e se traem, trazendo à tona ao longo da trama o que há de mais inconfessável no amor: egoísmo, manipulação, falsidade. Desde a estréia, Perto Demais tem pautado colunistas de jornais e revistas, todos tentando pinçar detalhes reveladores escondidos nas entrelinhas da história (confira trechos ao longo da reportagem). Esnobado pelo Oscar (concorre apenas nas categorias melhor atriz e ator coadjuvantes), o filme deve ultrapassar neste final de semana a marca de 1 milhão de espectadores no país.

Na semana que passou, Donna ZH reuniu quatro artistas gaúchos para discutir o filme em um café: o escritor Fabrício Carpinejar, 32 anos, o guitarrista e compositor do Papas da Língua, Léo Henkin, 44, a escritora Paula Taitelbaum, 35, todos casados, e a cantora Adriana Deffenti, 28, solteira. A idéia era reproduzir, sob o olhar da repórter, as conversas na saída do cinema que o filme tem provocado.

Fabrício foi assistir com a mulher e saiu se perguntando como os personagens ainda estavam vivos depois daquela "luta livre". Léo e Paula também foram ao cinema com os respectivos parceiros e saíram mudos. Adriana, depois de passar a tarde com uma amiga discutindo por que alguns relacionamentos não dão certo, saiu com ela em busca de um filme leve. Escolheu Perto Demais e chorou ao fim da sessão:

- Saí achatada. O filme mostra o que não queremos enxergar nos relacionamentos.

Juntos, os quatro passaram em revista a história, os personagens e as inquietações que eles provocam. Um dos poucos consensos a que chegaram é revelador e até serve de alerta.

- Não é um filme para discutir com o parceiro. Vai falar do quê? Do fracasso das relações? Perguntar com qual dos personagens ele se identificou? - diz Paula. - Melhor conversar com um amigo.

Esse foi só o início da conversa, que durou 1h30min, pontuada por diálogos e frases do filme. Se você ainda não assistiu a Perto Demais, fique tranqüilo: o texto revelará apenas alguns detalhes do filme - sem pistas do final. E fique à vontade para se apropriar das impressões a seguir quando for a sua vez de discutir a trama. Ou a relação.

Larry: Você gostou de fazer sexo oral nele?

Anna: Sim, gostei.

(...) Larry: Esse é o espírito. Muito obrigada por sua honestidade. Agora, desapareça e morra, sua cretina.


Os personagens do filme falam o que ninguém deveria dizer ao parceiro. Nem perguntar. Essa, ao menos, foi a conclusão da mesa: sinceridade total não quer dizer intimidade.

- Não digo que me identifiquei com o filme, mas, logo que saí, pensei: "Droga, já fiz isso, já falei demais" - afirmou Adriana. - Mas há coisas que não devem ser ditas. Toda mulher um dia encontra um homem e pensa: "Ele poderia ser melhor que meu marido". Mas não vai contar isso para ele. E vai estar mentindo?

- Todo mundo vai ter que mentir, deixar de dizer algo em algum momento. E isso não é pecado - respondeu Léo.

O cartaz do filme provoca ainda mais: "Intimidade é uma mentira que contamos a nós mesmos". Fabrício preferiu formular seu próprio conceito:

- Intimidade é humor e autocrítica, coisa que esses personagens não têm. São vaidosos, narcisistas, não conseguem enxergar o outro, e isso leva a apenas um destino, a posse.

- O filme é real, mas elevado ao cubo - disse Paula. - Até porque seria muito difícil quatro personagens assim se encontrarem.

Ainda bem. Foi o que permitiu a Fabrício sair do cinema e pensar:

- Não foi comigo.

Dan: Eu a amo porque ela não precisa de mim.

Ao ouvir essa frase, uma das personagens leva um fora. E os quatro debatedores da mesa engrenam mais uns 15 minutos de discussão. Se é difícil ser deixado, pior ainda decretar o fim.

- Já passei pelas duas posições e acho que o mais difícil é romper. É preciso ter muita coragem para ser odiado, deixar de ser o objeto de adoração - afirmou Paula

- E quem rompe sempre fica com a culpa - emendou Adriana.

E há perdão para quem trai? Um dos personagens é categórico: quem ama perdoa.

- Já vi de tudo, e não há regras - disse Fabrício.

- Eu já diria "Só um pouquinho, meu amor, eu te amo, mas me amo muito mais" - encerrou Adriana.

Dan: Quero Anna de volta.

Larry: Ela fez sua escolha.

Dan: Eu te devo desculpas. Me apaixonei por ela. Minha intenção não era te fazer sofrer.

Larry: Então, onde estão as desculpas, seu idiota?


Todos na mesa concordaram: os homens no filme (e talvez na vida real) são bem mais competitivos entre si do que as mulheres - os troféus da disputa. Ao longo de toda conversa, Fabrício insistiu numa tese que, a princípio, causou estranhamento, mas, no finalzinho, já estava quase convencendo Adriana e Léo:

- Se analisar o filme a fundo, o que existe é uma atração homossexual mal-resolvida. Os homens tentam encontrar resquícios um do outro através das mulheres.

Paula defendeu outra tese:

- Acho que se trata mais de uma demonstração do sentimento de posse dos homens. Se há uma gostosona que todos querem, não é apenas por vontade de transar com ela, mas de ostentá-la. Acho que as mulheres fazem um pouco menos isso. Ainda. Mas, em geral, estamos muito materialistas, e as pessoas quase virando objetos.

- Antes se dizia ficar. Agora estão falando "Peguei fulano" - disse Adriana.

- E o que se pega é objeto - apontou Fabrício.

Damien Rice: Não consigo tirar você da cabeça. (...) Até encontrar alguém novo.

O músico irlandês Damien Rice não é um personagem de Perto Demais, mas será tão lembrado quanto o filme. É dele The Blower's Daughter, a música-tema que emociona os espectadores. E também dá seu recado.

- A música fala de alguém que não sai da tua cabeça, quase uma obsessão. E isso é paixão, viciante, como quem precisa do prazer imediato da droga. Diferente de quando se ama: a pessoa está presente na tua vida, mas não o tempo inteiro - teorizou Paula.

- A música é o ponto alto - resumiu Fabrício. - Sem ela, se perderia muito: é a única esperança que há na história.

Então, por que ver algo tão desesperador? Paula respondeu:

- Depois de um filme como esse, a sensação é a de que não sou tão horrível nem tão culpada. E o bom é que a trama ainda te faz pensar: "Ops! Cuidado, não vá cair nesse jogo!". Afinal, perto demais se perde o foco.

"Logo que assisti ao filme foi desanimador. Mas, em seguida, as informações foram assentando e vi luz no fim do túnel.", Adriana Deffenti

"Não me identifiquei com o filme porque é muito DR - discutir a relação. E desejo não se dicute, se vive. O que se discute é a falta do desejo", Fabrício Carpinejar

"O filme é sobre a impossibilidade de chegar à verdade. Todo mundo quer ser o mais verdadeiro e isso é uma utopia.", Léo Henkin

"Não é o tipo de filme em que saio do cinema, vou comer uma pizza e esqueço. Saí mexida, mas não triste ou incomodada. Ao contrário, saí fortalecida.", Paula Taitelbaum

9:17 AM :: Comentários:


Sábado, Fevereiro 19, 2005

CAJA DE ZAPATOS
Gravura de Magritte



O portal espanhol da Fundação Cultural das Américas publicou uma entrevista comigo feita pela jornalista Ana Marques Gastão. Confira.

EL POETA DE LA LUPA
Entrevista con Fabrício Carpinejar




por Ana Marques Gastão*

-En una caja de zapatos (título de su antología) se guarda lo muy pequeño, pero en ella cabe también una metáfora del universo. ¿Qué descubrirá el lector dentro de su caja de zapatos?
-Una caja de zapatos representa lo que cabe en la palma de una mano. Cuando envejecemos, procuramos aligerarnos, despojarnos, y vamos disminuyendo los bultos, los equipajes, el tráfico e incluso el espacio del cuerpo. Quedamos reducidos a lo esencial. A partir del recuerdo del deseo puede reconstruirse el deseo entero, arder sin querer, sin fecha ni alarma. En una pequeña caja de cartón hay tizones de la memoria que juzgamos caducos, pero que se encienden con la respiración próxima.
Una caja de zapatos representa un auto-robo. Hurtamos de nuestra propia casa para dar un sentido personal a la existencia, un modo de justificar que no vivimos en vano, que conservamos una reserva de la intimidad y de lo desconocido.

-¿Se trata, pues, de una reconstrucción fragmentaria de la memoria?
-Puede ser algo así como un mazo de naipes, una pequeña fotografía de la infancia, una carta ilegible del abuelo, una brújula ahogada, un reloj amputado, ¡tanto da!, lo que importa es que nuestros fragmentos mantienen la unidad y la fuerza del conjunto. Yo preparé una caja de zapatos con mis poemas. Mis versos son cordones. Unos cordones de zapatos que fueron columpios de alguna niña, columpios de algún olvido más atento en la ventana. Yo soy mis propias ruinas. Mis ruinas tienen tejado de hierba. No escojo el lugar, sino que el lugar me escoge a mi. Crezco en cualquier suelo. Especialmente, en la boca de un pájaro.

-Esta antología constituye como una cosecha reelaborada de cuatro libros, unidos por una hebra narrativa. ¿Puede considerarse un balance de la obra de un poeta joven, sin embargo ganador del Premio Oliva Bilac de la Academia Brasileira de Letras? Poesía: ¿un ejercicio o una revelación?
-Una revelación. Procuro desaparecer para que el texto sea visible. En el amor a la literatura debe tenerse la humildad de vencer el orgullo y la vanidad. El poeta no es quien habla, sino quien escucha errado. Escucha el susurro, no la voz. Escucha la caída, no el vuelo. Escucha el alma de las cosas antes que el cuerpo sonoro. La precipitación, no la consecuencia. Yo ejercito el anonimato. Yo me anticipo. No hay como hacer retroceder el fuego.

-¿Ha reordenado usted su trayectoria poética?
-Mi propuesta era reescribir mis libros en otro orden, hacerlos vibrar diferentes, sin el enredo que unifica mis obras como capítulos de un romance versificado. Yo quería mantener la poesía más de que el poema, la atmósfera de encantamiento y sorpresa, de voluptusidad y búsqueda, de pérdida y resistencia. Yo soy tantos que no me reconozco. Necesito alguien para identificarme. Necesito salir de mi para ser más. No existe una edad que me defina. La vida no pregunta la edad antes de llegar. Hay toda una eternidad para acusarme. Espero ser condenado.

-¿Hay lugar entonces para una especie de heteronimia?
-Fernando Pessoa hubo de multiplicarse para continuar único. Yo tuve que dividirme para lograr lo mismo. Yo soy como un niño que nunca ha abandonado a su amigo imaginario, la poesía. Creció, maduró y ha permanecido, pero yo dejé de existir.

-Existe una faceta novelesca, ficcional y fabulatoria en su poesía, que no prescinde de lo elegíaco y es fértil en el aforismo...
-Procuro conciliar fábula y aforismo, ser sencillo, escribir como quien conversa y narra una historia, sin la pretensión de ser más inteligente ni sensible que el lector. Suspiro por una música hablada. El poema es más suave que una canción, algo como un silbido. No quiero que se fijen en mi, sino que el lector tenga la impresión de que se está leyendo a sí mismo. Aprendí a vagar dentro del texto. No es humano quien siempre acierta. Me aproximo a lo falible, al error, a la comprensión : el poema como acto extremo de perdón. Sin embargo, yo no me perdono por no ser como yo pienso, ni por no llegar nunca donde hube soñado, ni por caer cansado en medio del camino, ni por haber desistido de algo. Perdonar es permitir lo imprevisto, la necesaria extrañeza, la alegría imprevista.

-¿En su obra asume una dimensión de algún modo diarística?
-Procuro lograr esa inclinación diarística. Escribo el diario de quien no fui : lo que imaginé es mi verdadera memoria. Lo que imaginó el hombre es también vivencia y biografía. Lo real comienza en el pensamiento, no existe solamente después de éste.

-Bachelard habla de la lupa del botánico, refiriéndose a una infancia que devuelve la mirada engrandecedora del niño. ¿Carpinejar es un poeta de la lupa?
-Bonito : poeta de la lupa. Mi hermano quemaba hormigas con una lupa. Yo un día tiré la lente de la lupa y libré el hormiguero de la amenaza de la luz. Parto de la creencia de que las palabras innecesarias son las más importantes, los detalles semiperdidos son los más decisivos, que una manía se expresa mejor que lo bello. Nunca me libré de la infancia, mis ojos continúan recostados como una litera. Yo prefiero lo ínfimo, la intimidad de lo que se desperdicia. Soy un catador de lo mínimo, de lo que no sirve al periodismo. Un observador indiscreto. Escucho las personas por lo que éstas no dicen. Escucho lo que pretenden esconder. Lo que pretenden esconder es mi poema.

-En su poesía viaja desde la infancia a la vejez. Llega a anticipar la vejez en "Terceira Sede" (supuestamente escrito en 2045, a los 72 años). ¿Cómo se recuerda usted en su infancia, hijo de poetas, Maria Carpi y Carlos Nejar, el niño "que hablaba mal, sin la erre" y "feo como un espectro"?
-Mis defectos no mejoraron : apenas aprendí a convivir con ellos. Mi autocrítica es terrible, soy el primero en abrumarme. Tengo vocación para delatarme a mi mismo. Recibí en la infancia los apodos más terribles. La primera regla en este aspecto es no preguntar nunca por qué te ponen un apodo : la respuesta puede ser mucho peor de lo esperado. Yo llegué a reirme de mi mismo antes que de cualquier chiste. Me reía de mi mismo a solas. Hablaba mal y para que no se me notase comencé a pronunciar las palabras deprisa. Tan deprisa que se convirtieron en música.

-¿Tuvo una infancia solitaria, pues, que le dio una singularidad nacida de una intolerancia hacia lo banal?
-Mi infancia fue de una soledad húmeda, de invierno y leña en el patio. En casa no había paredes, sino estanterías. El texto de cualquier libro era subrayado por mi madre y por mi padre. Yo comencé a subrayarlos también, para relacionarme con ellos. Toda mi obra se ha transformado en las cartas que enviaba y las cartas que recibía. Mi infancia fue la vejez que Dios puede darme. En la infancia, el exceso de imaginación. En la madurez, el exceso de memoria. Ambos extremos se tocan y se mezclan. Mi obra se hace, desde su final a su comienzo, buscando el vientre.

-¿Cómo entiende el envejecimiento : acaso como el naufragio de quien "tiene miedo de dormir a la luz" y se enfrenta con el amor que se va?
-Mi ignorancia nunca será mayor de lo que el conocimiento y ello salva mi intuición. Me he cansado de ver al viejo estigmatizado, rejuvenecido en la publicidad, como si le avergonzase envejecer y solamente se presentase maquillado, andando de "jet ski" o resbalando por la pendiente. Me niego a aceptar tanto una edad luminosa y sabia como una caricatura sombría y deformada. Yo me avergonzaría si no envejeciese, si no aceptase nunca mi condición transitoria, si fuese inmutable y quedase preso de una opinión única. Respeto los límites : éstos me enseñan a lidiar con lo que soy. No me soportaría infinito. Envejecer es encantarse con las chispas. Dormir más temprano, acortar el día, de lo contrario el día se retrasa para el trabajo.

-Ha escrito que "Se descubre el amor / en la inminencia de perderlo". ¿Es el amor ese "darse sin retorno al deseo sin límite" de que ha hablado Blanchot?
-El amor nunca se va del todo. Es más fuerte en sus restos. La ausencia es incluso carne. Discrepo de Blanchot: el deseo requiere únicamente la estrechez de un cuerpo, la pequeña extensión de una barca, y no depende del mundo para sobrevivir. Toda donación exige retorno. El retorno de la conciencia propia. Nadie ama sin recogerse, sin contraerse, sin retroceder, sin antes sollozar alto, sin masticar el grito propio. Lo que yo escribí es para preservar un amor que había perdido ya o para ganar un amor que ya era mío. Mi cobardía me empuja a la valentía. Cuando sentimos miedo del miedo nos vemos obligados a no tener miedo.

-Mientras tanto, el amor surge en su obra no solamente en la perspectiva jubilatoria, sino también como vértice de la incomunicabilidad, del tedio, del terror al hábito ("La alianza ya es un hueso en el dedo")...
-Amar a una persona es el camino más rápido para olvidar. Amamos los hábitos, no a quien está tras ellos. Intento demostrar que el amor solamente puede ser afirmado si hay también un desconocimiento, una reserva de extrañeza entre la pareja. El amor tiene que ser lento como un río esculpiendo sus riberas. Nada disminuye la soledad como el casamiento. La soledad es soltera para toda la vida. Con el casamiento, disminuímos el aislamiento y la soledad se hace habitable.

-En "Biografia de uma Árvore", el doctor Ossian recibe de Avalor aquello que creía ser la oreja de un árbol : un libro que conserva la voz de Dios. ¿Qué Dios es el suyo y cómo se enfrenta con el absurdo o con la injusticia?
-No hay un Dios mío. No es un objeto rezado. Hay un Dios y una libertad que es responsabilidad. Existe la creencia de que ser libre es hacer lo que se quiere. Pero ser libre es celar, conservar, proteger. Yo soy libre con mi mujer y mis hijos en la medida en que busco serlo. La independencia es educarse para el convivio y se hace en la dependencia amorosa. Yo me enfrento a la injusticia en mi propia casa. Mi mundo son los tres versos con cuatro estrofas que mi ojeada abarca desde la ventana.

-¿No es un atrevimiento despedir a Dios con justa causa como hace en ese libro?
-No deja de ser un atrevimiento, pero despedir a Dios también puede ser leído como retirarlo del servicio de la oración, del turno funcional, de la omnisciencia, de la omnipotencia, de la responsabilidad de que él lo haga y lo resuelva todo. Dios es un chivo expiatorio perfecto para nuestra falta de acción. Dios no podría tener nombre para no ser domesticado.

-La muerte, por otro lado, es "nudo firme" en la visión de usted, algo fetal, perturbador, pero al mismo tiempo casi afable...
-La muerte no es una violencia. La vida sí que es una violencia. La muerte madura en nosotros, desde el principio, la adelantamos o la retrasamos de acuerdo con la voluntad del cuerpo. La muerte posee un huso horario diferente. No cuenta el tiempo, sino la intensidad de lo que se vive.

-Ha escrito usted que la pampa es el patio de su casa. Siendo gaucho, su poesía huye de lo regional para universalizarse. En cuanto paisaje, ¿acaso traza el itinerario de alguien que lanza un desafío a la nada de la evidencia?
-Nunca tuve de pequeño separación alguna entre el patio y la pampa. El paisaje es mi medio para inclinar a la audiencia. La tierra es mar que se abre. Los árboles actúan como señales de lejanía. Yo combiné ese lado ancestral con una urbanización urgente. Hablo del autobús, del casamiento o del bar. Lo mismo que veo mis libros como meditación sobre un núcleo único : la familia. Allí está toda la sociedad, los nervios y el humor, la imposibilidad y la herencia que se dilapidará. Lo que se asume de la familia influye incluso lo que no somos.

-Existe una faceta profundamente imaginista en su obra que aprende a desescribir. ¿Hay acaso alternancia entre coloquialidad y erudición?
-Mi erudición sirve para desbastar y destruir. Que mi literatura sea modesta y sincera, que no dependa de comillas para sobrevivir. No pedí prestada ninguna grandeza. Poesía no es complicar, sino interrogar con sorpresa. La imagen es el pensamiento puro. Yo me comunicaba mediante imágenes y me discipliné para comunicarme por una filosofía discreta. Después de haber escrito, se inicia una travesía más ardua : desescribir. Renunciar a la autoría para ser poema.

-¿No es el poeta nunca el verdadero negador? En la medida que desea revigorizar sus palabras, ¿es acaso un falso nihilista?
-Yo miento con sinceridad. Mi mentira es un exceso de imaginación. Durante mi adolescencia, criaba enredos y autores que no debieran nacer. Pero un día nacieron, al revés de lo que yo había dicho. La mentira anticipa la verdad. Quien conoce la esperanza, no necesita tener fe. Yo soy lenguaje principalmente cuando no hablo.

-Cioran dijo que "la poesía es el absoluto de nuestras horas negativas". ¿Así es también para usted?
-La poesía no es el absoluto y esta afirmación acaba confinando el género en una maldición de elegidos. Poesía no es exclusión, sino donación. Todos se comunican mediante poesía. En el fútbol, sábana y ventanita son metáforas. Todo se hace mediante metáforas, chiste de imágenes. La poesía escrita causa pánico porque origina la imagen del poeta deprimido y antisocial. Hemos de aproximarnos a la poesía hablada para superar los prejuicios y mostrar que el poema es más que el libro, acaso una interpretación del mundo o un alfabeto de agua. Contrariando las "horas negativas", "El Cantar de los cantares" es un poema alegre. Otro tanto, los versos de San Juan de la Cruz. La desesperación no llega ni siquiera se aproxima a la electricidad de la alegría.

-Ha escrito usted que no sabe concluir un libro ni prescindir de una frase. ¿Y cómo se da por finalizada esta entrevista?
-Comienza fuera de nosotros. Como una llama que aparentemente se apaga con los dedos, pero queda impresa en la mano.

Leia ainda três poemas inéditos do autor.


* Ana Marques Gastão es poeta, periodista y crítica literaria en "Diário de Noticias" de Lisboa.

10:58 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

EMBRULHE-ME COM JORNAL

Fabrício Carpinejar



Como ler jornal várias vezes. Não há nenhuma notícia de interesse, nota e fato que despertem atenção, mas ainda assim volta-se a pegar o jornal para passar o tempo. Conhece-se o conteúdo, espia-se as editorias de novo, repassa-se as chamadas e a atitude é repetida à exaustão. Do início ao fim, do fim ao início. Os cadernos, os anúncios, as colunas, os obituários, as notícia recebem democrática distração. O jornal revela uma companhia fiel, como um cão ou um copo com gelo. Será lido até que se torne inofensivo. No balcão do zelador, na mesa da manicure, na escrivaninha de um arquiteto, será sacado o exemplar amarfanhado para cobrir o intervalo e a breve folga. Durará uma semana em um único dia. De dobrado e manuseado, terá estrias de deserto. Como explicar essa teimosia? É como se houvesse códigos ocultos entre as letras, um suspiro de sentido, uma descoberta a fazer. A mensagem cifrada não é para ser conhecida, a procura é a chegada. O jornal é relido pela esperança de que alguma coisa mudará de um minuto a outro, de que uma notícia que nos diz respeito aparecerá de repente. Assim me sinto com os filhos. É o mesmo texto lido de forma diferente. Ler de forma diferente é reescrevê-lo, apesar de não ter mudado absolutamente em nada o arranjo das páginas e a ordem dos parágrafos. Os filhos não são os pais, os filhos são o que eles precisam. Não os elogio quando parecem comigo, porém quando se parecem com as suas próprias verdades. Aqui faço um apelo a quem lê sua vida com a insistência de um jornal. Aqui faço um apelo aos pais que se separaram e cuidam dos seus filhos em casas separadas. Não fale mal do ex ou da ex na frente da criança, não subestime a sensibilidade dela. Se não consegue resolver seus problemas, ao menos não os aumente. A criança não merece herdar o seu ódio, o seu desafeto, a sua raiva. A criança não foi casada com a mãe ou com o pai, não adianta transferir as broncas. Não há continuidade espontânea, é sempre induzida. A herança genética não é uma religião, com velas acesas diante de santos. E não falo de palavras, e sim das caretas, do esgar, do repuxo das sobrancelhas. O filho capta o desprezo ou a indiferença nos gestos. No telefonema seco e irritante. Nas piadas mórbidas. Até no silêncio e na omissão. Palavra é também o que não nasce da boca. Sua experiência represará o sangue dos filhos e pode reprimir possíveis e autênticas escolhas. E eles se verão divorciados, desquitados e viúvos antes de casar. Já houve uma separação, para quê duas? Não diga que o ex ou a ex não presta, porque não encontrou utilidade como queria. Não houve futuro ao casal, então que não se apague o passado. Os anjos conhecem o inferno por ouvir falar. Falar já é fazer o inferno. Depois não adianta procurar um psicólogo para o filho e argumentar que não o entende. Ele se vê dividido entre duas chantagens, entre duas promessas, entre duas vidas. É natural explodir, cobrar e se desesperar. A criança mal se aprendeu e precisa optar por aquilo que não viveu. Não tirou a carteira de identidade e é obrigado a definir sua assinatura. Trata-se de uma carga excessivamente nociva para sair com a urina. Duvido de todo amor que se transforma em vingança, da confiança reduzida à represália, do conselho que vira ameaça, da proteção que termina em dependência. É desumano transformar o filho em garoto de recados. É desumano fazer indiretas, confundir onde existe lealdade, invejar os segredos que não foram contados. Toda guerra é suja, ainda mais a psicológica, onde crianças são usadas como escudo humano para parcelar dívidas. Na ausência de amizade, serve a cordialidade e o respeito. Para ser pai ou mãe, é necessário ter sido filho e não ter esquecido. Como ler jornal várias vezes.

2:04 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

PÁSSAROS COMEM NA MÃO
Gravura de Giacometti

Fabrício Carpinejar



A minha dor, eu sei resolver. Ainda que seja a custo alto, sei resolver. Pode ser com um calmante, um trabalho físico, um desabafo. Pode ser mexendo na horta, organizando as roupas no armário, limpando a casa, xingando Deus, sei resolver. Ainda que demore, mas resolvo. O que não sei resolver é a dor do outro. Fico mudo, meu braço sobra, minha mão falta, minha boca treme algum vento sem força. A dor do outro não se comunica. Não dá não tira emprego. A dor do outro me isola. Tento uma brecha para falar, porém sinto-me intruso, incômodo, solteiro. Como uma casa em reforma. Toda dor só é compreensível no idioma da dor. Quem está fora não entende, não tem razão, não alcança sentido. A dor não busca conselhos, a dor busca a pele para colocar por cima, busca cicatrizar a ferrugem e a maresia. A dor do outro é pedalar com a respiração. A dor do outro me desfalca, me devassa, me faz duvidar que podia ouvir. A dor do outro é a minha dor mais pessoal, porque é indiferente a minha própria dor. A dor do outro é uma parada de ônibus sem ônibus porvir. Uma parada de ônibus para sentar e não ir. A dor do outro fica no lugar da dor, não suporta um passo além do círculo de sua lembrança fixa. A dor do outro tem a altura de um grito que não é dado para não desperdiçar a dor. A dor do outro não ri porque séria chega mais rápida ao fim da dor. A dor do outro não se empresta, é dor de osso, dor que não se enxerga de dia e não se enxerga de noite. A dor do outro é neblina com a roupa presa nos galhos. A dor do outro é uma escada sem mureta, sem apoio. Uma escada desigual como a cintura ao dormir. A dor do outro me esconde, me segrega, me empurra com os cotovelos para onde não desejava voltar. A dor do outro me pede ajuda para não ajudar. É severa como uma verdade antes da morte, severa como uma mentira depois da morte. A dor do outro é banal, irrisória e tola para os que não mergulharam em dor. A dor do outro é hipocondríaca e carente aos que não enterraram seus pés ao correr. A dor do outro é discreta pois os sons não se encontram na pronúncia. A dor do outro tarda para retornar a ligação. A dor do outro parafusa a lâmpada para quebrar. A dor do outro não usa agenda, não recorre ao diário, a dor do outro é escrita esquecida. Não se escreve na dor, se escreve para manter distância dela. A dor do outro não encontra dentes para mastigar. A dor do outro se mastiga com a língua. A dor do outro não consulta horóscopo, não requer meteorologia, a dor do outro não muda, é igual ao que não se entende. A dor do outro é caseira, pois sair de casa é levar a casa. A dor do outro é destelhada. A dor do outro é uma árvore avessa, uma alegria avessa, uma água que já estava na boca. A minha dor, eu resolvo. A dor do outro, não sei onde colocar, onde me colocar. Faço como minha avó Elisa. Quando alguém recusava um abraço, ela pedia para devolver. Devolver o abraço é a dor do outro.

11:22 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

VOLTO DIA 20
Gravura de Mark Gertler

Fabrício Carpinejar



Não sei se a minha infância foi feliz nela ou depois dela. Ou será que a infância é feliz porque o resto fica bem mais difícil? A saudade alegra. O que lembro me conforta. A lembrança esquece a dor e fica com a lembrança. Nas viagens de ônibus de pequeno, gostava mais de estar indo do que chegar. Lia todas as placas e letreiros pelo caminho. Ainda recordo o cheiro do estofado vermelho. Cheiro de hortelã. O cheiro da despedida e da chegada, quando rumava para a casa dos avós no interior. Não perguntava "quanto tempo falta?", perguntava "quanto tempo eu tinha?". Em trânsito, recebia suco, refrigerante e bolachas. Em casa, não havia mordomias. Viajar era ter o colo da mãe por perto e os ouvidos da estrada. Abria a janela para engolir vento e cuspia de volta, não agüentava o peso do ar. O peso da serra, das curvas, do verde crepitando. O peso da altura. Porto Alegre ao longe. Ia subindo para o céu, sem me importar com o tamanho da queda. O rio Muçum serpeava, marrom, como meu primeiro cachorro. O rio tinha sardas e abanava o rabo antes de entrar em Guaporé. A infância assustava, como toda alegria assusta. Só depois de muito tempo é que estamos preparados para enxergar pela primeira vez o que já vimos. Com a saudade não há distância, a vida surge simples como levantar a colher da córnea à boca. Descomplicada, sem conspiração e vozes cochichando estradas secundárias. Meu bairro comportava a igreja, o supermercado, o cinema e a sorveteria. O mundo estava completo desse jeito. No cinema Ritz, assisti meu primeiro filme: Marcelino Pão e Vinho. A sala escureceu e disse para a irmã Carla que não queria dormir, ainda era dia. Estava acreditando que era mais uma sesta planejada e forçada pelos pais. Ela pediu silêncio e não sussurrei nenhum som depois da reprimenda. Deus aparecia preso no assoalho, como um pássaro esfolado, a receber pão e água. Sei que chorei e não combinava comer bala azedinha com o sofrimento Dele. Não me explicaram o filme, não perguntei. A televisão se apequenou depois do cinema. A televisão com os santos em cima. Pequena como meus olhos, como as bolitas que jogava na escola, procurando abrir a vala com o arremesso. Abrir a cova do riso. Cresci porque meus olhos não suportaram sozinhos tanta infância. Acho que a gente não cresce, desiste. Quantas vezes desisti sem me despedir? Desistir é voltar com ânsias do começo. É na desistência que aprendemos a amar desobrigados.

11:35 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

MENTIRINHAS
Gravuras de Roy Lichtenstein

Fabrício Carpinejar




A mentira não é monogâmica. Ela troca de parceiro rápido. Ao chegar uma verdade perto dela, já vai se abrindo e apagando sua origem. Talvez esse seja o motivo da mentira durar pouco no casamento e durar muito mais fora dele. A mentira no casamento confunde o nome, escorrega no tempo, perde a força de vontade. Suporta no máximo três perguntas consecutivas. A mentira ri ao falar e se entrega. Não consegue ser séria. Ela se diverte sem querer, involuntariamente cínica. Não tem estabilidade, emprego, casa. A mentira ama ser dita quando abusa dos detalhes. Mas quem abusa dos detalhes exagera. Exagero é sedução. A mentira é inconseqüente como a sedução. Faz promessas impagáveis. A mentira não volta a ser verdade - o estrago está feito. Não há verdade depois da mentira. Há perdão ou desculpa. A mentira estraga o que toca porque esquece como começou. Ela não tem controle para terminar. Bebe dirigindo. A mentira pensa que todos estão a olhando quando todos estão duvidando dela. Nem a mentira acredita em si, mas quer acreditar. A mentira avisa o que seu portador não tem mais do que aquilo que ostenta. A mentira é uma ausência necessária. O que falta na formação da mentira é castigo. Pode ser vista com facilidade no final de festa, festa com nenhum amigo por perto para desmenti-la. A mentira é charmosa no princípio e irritante ao final. Não admite que a chamem de mentirosa - odeia redundâncias. A mentira tem seus primeiros minutos de futuro e depois vai se adaptando ao passado. Joga com a discórdia para ser generosa. A mentira não tem costas como a pedra, pode ser traída pelas costas a qualquer hora. Ela descobriu seu talento no ato de contrição: "prometo ser bom e não pecar mais". A mentira continua mesmo depois dela. Tem inveja da fofoca. É individualista, não suporta trabalhar em equipe. Não existe mentirinha boba, é conversa de adulto mesmo na infância. A mentira é tão covarde que se encoraja de medo. Toma banho a cada dois dias e se suja como a piada. A mentira não apresenta seus familiares. Sofre de alergia em ambientes fechados como elevador. Lê os livros pelas lombadas. Desfaz mal-entendidos para ganhar credibilidade. Confunde para esconder sua fragilidade. A mentira não se dá com o casamento, pois não aceita concorrência.

7:19 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005

CILADAS
Gravura de Giacometti

Fabrício Carpinejar



Quando tua namorada ou namorado diz que podes confiar e contar, que nada mudará na relação, é mentira. A sinceridade te inspira a abrir os segredos para te jogar em seguida na parede. O amor é um jogo de convencimento e persuasão que termina invariavelmente em desconfiança. A pergunta que é feita por ela ou por ele de modo inocente não é uma pergunta, quem dera, pouco guarda da modéstia de uma pergunta, que aceitaria a contrapartida sem ofensa. A pergunta é uma suspeita. Não se deseja uma resposta, e sim "a resposta". A resposta deve somente confirmar uma evidência. A resposta é a evidência que estava sendo cavada.

Sigilo não existe. Quem guarda segredo apenas fingiu que não falou. A diferença é que alguns fingem bem. A pessoa pede a franqueza e afirma que tudo aceitará, que tudo permitirá, para julgar e atacar quando descobrir tudo. O charme inicial e a caridade do gesto são ciladas. Entra-se em uma investigação, não em uma discussão e diálogo. No fundo, há a intenção de conspirar contra aquele amor, de atestar que ele ou ela não presta, de que foi um erro. É incompreensível verificar que o ceticismo surge nos melhores momentos, como a avisar que não pode ser verdade, que a felicidade errou o endereço. Em cada um pisca o dispositivo antifelicidade, detonado para expulsar a intimidade e possíveis alegrias.

Se alguém se torna imprescindível, a estima arruma um jeito e um pretexto para mandá-lo logo embora. Algo que ocorreu no passado mais longínquo vai afetar como se tivesse acontecido há poucos minutos. Se a mulher fala que já trepou com três homens ao mesmo tempo, o cara concluirá que ela é promíscua e terá medo de ser apresentado aos antigos parceiros em alguma festa. Amar é uma paranóia interminável, porque não se tem aquilo que se é e não se pode ser aquilo que se tem. Difícil encontrar no amor o meio-termo, que não resulte em posse, muito menos em indiferença, que não desemboque em obsessão ou em tolerância. Desde quando não se pode ter passado e experiência? Não dá para compreender que casais acreditem que o par tem que ser um objeto lacrado, um carro zero, inviolável. Se ela transa bem é que aprendeu com antigos namorados, é óbvio. E daí? Que bom. Ambos definirão o seu dialeto a partir de idiomas anteriores. Chega de autoritarismo, de transformar a casa em um campo de desmemoriados.

Não se fica generoso com amor, fica-se egoísta. Só se pensa a princípio no nome de quem ama para depois só pensar no próprio nome. O começo é um desapego irrestrito, o final é uma proteção absoluta. No início, há a renúncia em favor do bem-estar da nova paixão. No decorrer da convivência, passa-se a criar mecanismos de defesa para se afastar.

Os opostos se atraem, mas não conseguem permanecer juntos (os parecidos se repelem e ficam juntos). O que parecia maravilhoso e definitivo, a sedução da diferença, a atração de um continente desconhecido é substituído pela tentativa de moldar o outro aos seus gostos. O respeito desanca em dominação. Não importa que ele saía com os amigos, que jogue futebol, que tenha grandes amigas desde que ele deixe, pouco a pouco, de sair com os amigos, jogar futebol e perder de vista as grandes amigas.

Ainda com complicações, é possível ser casado com a memória. De maneira nenhuma com a imaginação. A imaginação é sempre solteira. Se o marido não liga, demora para chegar, é evidente que a imaginação o viu com duas ou três mulheres em meia hora. A imaginação não aceita a confiança, procura o pior para depois gritar que já sabia. "Eu sabia" é a frase mais irritante de todo relacionamento. Mostra arrogância e, o mais grave, sinaliza a certeza do fracasso.

10:12 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 06, 2005

O LÁPIS E O LAPSO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Quando esquecia o nome de um cineasta, de um filme, de uma atriz, de uma praça, de uma rua, de um autor, de um livro, tornava-me obcecado em descobri-los no ato. Forçava a nuca, parava de conversar, entrava em um transe respiratório a recolher o destroço. Não admitia um minuto de silêncio, porque o morto era eu. Uma palavra fora do contexto e o teto deixava de ser seguro. Algo que não mudaria o sentido do todo trancava a estrada. Lançava-me pelo mar para salvar a bóia, ao invés de receber a bóia para me salvar. Chegava a ser mal-educado com quem estava comigo, apenas para me livrar dessa idéia fixa. "Como é mesmo o nome?" "Eu já vou me lembrar..." O tormento me anulava, me comprimia a boca. Se fosse preciso, ligava na hora para a mãe ou algum conhecido que entenderia o que estava falando, sem me taxar de louco. Passei por situações constrangedoras pelos lapsos. O vexame não vinha dos lapsos, mas do modo como reagia a eles. Como se fosse necessário ter uma continuidade lógica ao pensamento. Como se fosse necessário ser uma enciclopédia para ter o que dizer e acumular sinônimos e verbetes. A cultura não pode ser maior do que o esquecimento. Minha lembrança não é mais a mesma, é bem mais exigente, com autonomia para apagar ou ressuscitar quem quer que seja. Não pede mais minha autorização e assinatura - sou um acionista minoritário do que vivi. Não quero acordar como um mendigo pedindo moedas para a memória. Quero esquecer sem sofrer. Não entrar em desespero, porque o desespero é que não me faz lembrar. O desespero muda o sentimento da recordação. Com a emoção alterada, não encontro a informação, o dado, o ano, o paradeiro, o termo. A evocação, como os dedos, depende da humildade da água, andar alturas devagar. Senão afundará como a pedra, que é mais profunda parada do que qualquer profundidade andando. Antes memorizava versos com a facilidade de um assobio. Um moedor de chilreios. Hoje não guardo nada de cor, muito menos o que anotei. Um dia tive que gravar um de meus poemas para um DVD e esqueci da última linha. A câmera me olhava com morbidez e a última linha havia embranquecido, como fax depois de um ano, fotos polaroid depois de um ano. Acho que a memória já exige óculos, tive que fechar os olhos e me aproximar do passado com o astigmatismo evocativo. Não consegui. Inventei outro verso no sufoco, com alívio de cancelar um compromisso e colocar outra pessoa em meu lugar. Não foi criatividade, foi sobrevivência. Não posso usar minha memória, ela me carrega. Tudo o que escrevo diminui o lápis. Não me importo de deslembrar, os restos de um rio ainda são margens. O que não alcanço me leva.

9:42 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

OFICINAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA

Desmistificar a figura do escritor, esclarecer a experiência literária e intensificar a leitura e o senso de observação da realidade. Essas são as propostas da minha oficina de poesia e da oficina de conto de Cíntia Moscovich, que estão com inscrições abertas a partir de 10/2.

As aulas começam em 7 de março, sempre às segundas, das 19h às 21h20. Cíntia apresenta os segredos do conto e mostro como é possível fazer poesia mais do que versos. As matrículas podem ser feitas na Rua Dr. Alcides Cruz, 126, em Porto Alegre. A mensalidade custa R$ 120,00. Há somente 10 vagas para cada oficina. Informações podem ser obtidas pelo telefone (51) 33785015 ou pelo e-mail marisa@diaglaser.com.br

10:00 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

O GAGO
Gravura de Sérgio Godoy

Fabrício Carpinejar



O gago engole a seco a palavra, a aspirina da palavra. O gago odeia que alguém termine uma frase por ele. Não é ansioso, não é nervoso, é violentamente calmo. O gago não precisa de ajuda, precisa de tempo. Não é o gago que tarda, é o ouvido que se apressa a ir embora. O gago sofre porque todos falam rápido o que não pensam. O gago pensa rápido o que não fala. O gago se desculpa por aquilo que não disse. O gago tem tudo a perder e abre a boca para empatar. O gago daria sua garganta para a ave e ela cantaria melhor do que a própria árvore. O gago não quer seu pai dizendo fala, sua mãe dizendo fala, sua namorada dizendo fala. O gago despreza sinais, sua pronúncia volta enquanto vai. O gago negocia o preço de cada palavra, administra o recuo de cada letra, recupera o desejo de cada som. O gago não promete fiado, paga adiantado. O gago tem uma asma sem cura, uma tosse sem fim. O gago não boceja, tem a insônia dos lábios. O gago joga cartas e espera para abrir. O gago sussurra para chamar. O gago quando grita não tem nada a pedir. O gago vive uma timidez involuntária. O gago soletra o nome das coisas como se fosse um sobrenome estrangeiro. O gago nada no idioma no inverno. O gago ama em versículos. O gago ajeita a direção do rosto no espelho. O gago tem ânsias de calar o que não completou. O gago enxerga o mundo por dentro e entende o mundo por fora. O gago é um cego sem ombros. O gago vive seu segredo como se fosse mudar um dia, como se o dia fosse mudar por ele. O gago não fala em público, o gago é seu público. O gago não convence, o gago se comove. O gago espicha seus dentes a recolher a caneta do chão. O gago é um aluno exemplar desde que seja esquecido. O gago tem muitos em si e não chega a um acordo. O gago se despede breve como quem cumprimenta um estranho. O gago se sucede a todo instante. O gago corta a conversa, o cabelo, e espera que eles cresçam de novo. O gago tira fotografias do sopro. O gago acaricia o vazio e treme debaixo da luz. O gago faz sombra aos olhos. O gago sobra no ar enquanto o ar é ralo. Sobra no tom enquanto o ar é raso. O gago não desperdiça, puxa os farelos da mesa com a concha das mãos. O gago chove do lado contrário. O gago respira como quem beija. O gago é seu respeito pelo atraso dos outros.

9:53 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

GLOSSÁRIO DA LÍNGUA PRESA I
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Começo agora meu dicionário de palavras que evito empregrar no meu cotidiano. São palavras que tenho uma vocação para falar estranho, impronunciáveis por alguma razão afetiva ou caminho errado dos dentes. Procuro um sinônimo para substituí-las. Nem sempre encontro. No momento de falar, engasgo e engulo de volta.

Fonoaudióloga - essa deveria ser a primeira palavra que minha fonoaudióloga deveria ter me ensinado durante os quatro anos de consulta.

Arara - a única que enguiça completamente. Fica alala.

Cataflam - não tem remédio. F seguido de l faz a minha boca correr. Falo rapidinho para ninguém perceber.

Panóplia - fora de moda. Para quê mesmo vou usar armadura de cavaleiro da Idade Média?

Pampulhinha - restaurante de Porto Alegre. Posso até ir, gostar, mas não recomendo por incapacidade comunicativa. Sai Bambulhinha.

Claridade - sim, prefiro transar com a linguagem no escuro.

Detrito - d e t são gêmeos. Não vejo pintas e diferenças no som deles.

Baobá - cultivo outras árvores.

Completo - triste constatar que nunca serei.

2:17 PM :: Comentários:

IMPERDÍVEL
Gravura de Miró



Duas grandes escritoras brasileiras estão com blog: Cíntia Moscovich e Ivana Arruda Leite.

2:15 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

A VINGANÇA DOS GUARDA-CHUVAS
Gravuras de Magritte

Fabrício Carpinejar



Tenho um pesadelo com freqüência: que todos os guarda-chuvas que perdi ao longo da vida vão voltar para se vingar. Pela desatenção, formei um pequeno exército, batalhão inconformado, rebelde e sanguinário. Já esqueci guarda-chuva no ônibus, na escola, na universidade e no trabalho. Esqueci por vocação, o tempo muda e não percebo sua falta. O guarda-chuva sofre com o déficit de atenção. O dono não pede seu retorno, não briga pela sua posse. Raros são os que voltam para buscá-lo. Ele é esquecido e se compra outro. Ele quebra e não é consertado. Ele não funciona e se troca na loja. Não é um objeto de casa, tampouco um objeto da rua. É um objeto do trânsito, da passagem. Não tem um lar, no máximo consegue uma bolsa. O guarda-chuva foi - curiosamente - o primeiro sem-teto. É muçulmano, esconde o rosto das mulheres. É bipolar, está de bom humor quando todos estão irritados, está irritado quando todos estão de bom humor. Odeia luz, adora gripe. Tem ciúmes das calhas. Se ele não é enterrado, não está morto - voltará como os dizeres de adesivos religiosos. É vendido por pechincha nas esquinas. Vida de guarda-chuva é de constante queda. Permanece na área de serviço ou no banheiro para não molhar o tapete. Abandonado, humilhado, torturado.

O guarda-chuva é definitivamente órfão. O orfanato de guarda-chuvas está preparando sua vingança em segredo e serão mais numerosos do que os seus portadores. Se extraviei quinze guarda-chuvas em meus trinta anos, a média do ataque pode ser de 15 por 1. Não haverão guarda-sóis para conter essa milícia enlutada. De marquises ambulantes, os guarda-chuvas perdidos vão se tornar armas de guerra, facas na ponta dos fuzis. Soltarão suas varetas, esticarão seus panos com violência e ainda usarão o cabo para puxar suas vítimas. Será o Juízo Final, o segundo dilúvio. Em todas as coisas não encontraremos repouso. Os guarda-chuvas terão a ala dos acrílicos, mais leves, para artes marciais; a ala das sombrinhas, para saltos de pára-quedas; a ala dos modelos infantis para recolher as crianças, que nada tem a ver com a paranóia adulta. As mães também serão poupadas, as únicas que insistem para não se esquecer o guarda-chuva. Por tempo de serviço, os guarda-chuvas de cabo madrepérola assumirão o comando de generais, já que estão acostumados a fazer o papel de bengalas para senhores de idade.

Tomaria cuidado ao falar na frente de um guarda-chuva. Ele é ressentido, controla a movimentação da casa, o lugar das gavetas e os encontros proibidos. Não protege, oculta. Não conversa, xinga os carros. Contrariado, fecha a cara. Nessa guerra, ao menos, posso garantir que ninguém ficará molhado.

1:00 PM :: Comentários:

O GLOBO, Versão on line

PLANTÃO

Carpinejar terá obra lançada na França
31/01/2005 - 18h28m

O Globo

RIO - Mais um autor brasileiro terá sua obra apresentada aos franceses. O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar assinou contrato com a editora francesa Eulina Carvalho, de Paris, para o lançamento de "Cinco Marias", editado no Brasil pela Bertrand, selo que pertence ao grupo Record.

Eulina Carvalho é a mesma editora que já lançou livro de Ferreira Gullar na França. "Cinco Marias" conta em versos a história de uma mãe e suas quatro filhas, envolvidas com o misterioso enterro da biblioteca e o desaparecimento do homem da casa.

12:57 PM :: Comentários: