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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Março 31, 2005

MÉDIA COM PÃO E MANTEIGA
Cena do filme "Nostalgia" de Tarkovski

Fabrício Carpinejar



Quando a gente guarda a alegria, ela diminui. Quando a gente guarda a dor, ela aumenta. Meus sentimentos não freqüentaram igual escola. A esperança se formou em escola pública. A avareza saiu de escola particular. Meus sentimentos mudam de freqüência, não têm a mesma escolaridade. Muitos não completaram o Ensino Fundamental. Minha raiva é primária. Xingo mudanças de pista sem pisca no trânsito, enlouqueço em filas, abomino preconceito, conversa alta no cinema e ser abandonado no restaurante. A raiva vai agredindo antes de refletir. Minha ternura já é pós-graduada. Posso me condoer se um caramujo demora uma semana para atravessar a parede da sacada ou adoecer se um passarinho é pisoteado pela rua. Bipolar é pouco para mim, sou multipolar. A depressão é somente um entusiasmo que pensa demais.

Predomina o hábito maniqueísta de uniformizar o perfil das pessoas, de fechar a conta, de concluir se alguém presta ou não presta, eliminando as contraprovas. Se o cara é um péssimo marido, conclui-se que é também um péssimo pai. Não é assim. Pode ser um péssimo marido e um excelente pai ao mesmo tempo. Pode trair, discutir e brigar com a mulher e cuidar dos filhos de um jeito amoroso e único. Pode ser um gestor impecável no trabalho e se endividar sem limites em casa.

Minha dor é inteligente, minha alegria é burra. Não amadureci de todo, tampouco me infantilizei de resto. Sou desigual, como uma família que se divide e migra para tentar chance em outro estado. Não sofro parelho, harmônico, um naco por vez. Sofro para explodir, em uma única dose, até cansar de sofrer. O travesseiro detesta, mas nesse momento é rebaixado para toalha de rosto. Pior é quando ele se torna tapete do banheiro. Minha euforia é apressada, quis trabalhar cedo e largou os estudos. Trocou a mesada pelo cartão-ponto. Não existe harmonia entre as experiências. Minha generosidade ganha a vida trançando cestas de vime para roupas sujas. Minha criatividade monta pandorgas para engrossar o vento. Minha persistência fez MBA para se sobressair diante da concorrência. Na poesia, desenvolvo profissões extintas. Cada lembrança é uma personagem diferente em mim. Expresso a mais analfabeta emoção para demonstrar sábia serenidade mais adiante. Desisti de me censurar. Não mudo de opinião, mudo o sentimento da opinião.

1:09 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 30, 2005

DIA ÚTIL
Cena do filme "O Espelho" de Tarkovski

Fabrício Carpinejar



Com o fim do casamento, o alívio. O separado recupera sua liberdade. Depois das brigas, dos questionamentos, dos julgamentos, das histerias e suspeitas entre os dois, encontra-se novamente sozinho para fazer o que quiser. Vem uma alegria de poder sair de noite, de ir ao cinema, de não prestar contas e recibos, de viver de uma forma mais relaxada e solta. O separado tem um longo final de semana pela frente. Um delicioso domingo para dormir sozinho e se estirar em linha cruzada pela cama, um delicioso sábado para farrear e beber todas, uma deliciosa sexta para freqüentar a geladeira sem se importar em lavar os pratos em seguida. Tempo de sacudir a poeira da agenda, falar sem parar, tentar entrar no circuito social, apesar dos dez anos que o distanciam da rotina de solteiro. Quem se separa apenas quer sair do inferno. Qualquer saída, ainda que desesperada, é uma porção de céu. Os três primeiros dias acontecem de um modo inconsciente e mecânico, em ato reflexo. Nada é pesado, avaliado e a soltura lembra férias escolares. Mas e depois? Depois o separado entende que sua história não é mais sua, mas partilhada. E sente saudades fisicamente, uma dor de rim. E retorna para casa e espera e espera ela aparecer de súbito. E observa o telefone como uma tartaruga a sair da casca. Olha ao redor e não identifica mais seu território. Não tem ninguém para conversar, para animar e fazer valer acordar cedo para o trabalho. Um vazio o empareda num canto. É contar com uma morta íntima ao alcance dos olhos, que encontrará no café, na padaria e na locadora depois de enterrada. O separado tem o dom mediúnico de enxergar fantasmas. Pena que os fantasmas não o enxergam. Volta a procurar os amigos antigos e constata que estão casados. Os únicos amigos que têm são casais, também amigos da ex-mulher. Como xingá-la? Como dizer que precisa dela? Como expor o segredo? Perdeu confidentes e tenta apresentar força e coragem, não pode voltar atrás, tenta ser orgulhoso, não pode voltar atrás. Na verdade, voltaria correndo, como um vício, uma necessidade, uma dependência. Sua indecisão amplia ainda mais o isolamento. É deserdado da própria biografia. Os móveis da residência mostram o convívio, os lençóis ainda guardam o cheiro dela, a televisão insiste em reprisar os programas favoritos da esposa, as rádios tocam as músicas que dançaram, o cachorro fica cheirando o vão da porta infinitamente e pára de comer. Depois do feriado da separação, bate uma tristeza inconsolável. Porque o amor é um dia útil.

10:49 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 28, 2005

A FIDELIDADE DOS PÁSSAROS
Cena do filme "O Espelho" de Tarkovski
Inspirado em conversa com Paulo Flávio Ledur

Fabrício Carpinejar



O homem é um bicho curioso, sacrifica uma relação e parte para outra por ambição. Se casa cedo, pensa que faltou conhecer mais mulheres antes. Se casa tarde, acredita que quando solteiro havia mais chances de ser feliz. Homem é um bicho nostálgico. Nunca está satisfeito com o que tem. Fica enjoado com rapidez. Enjoa-se de si mesmo. Ao invés de melhorar e treinar com afinco, troca o técnico ou culpa a torcida. O homem cogita que é desfavorecido. Enquanto come olha o prato do outro. Deveria aprender mais com os pássaros. Um pássaro não morde vários frutos ao mesmo tempo, para descobrir o sabor de cada um deles. Não estraga os frutos pela ânsia da posse. Não quer ter todos, mas ser todos em um. Não destrói a árvore para fazer barulho. Ao pegar um fruto num dia, volta ao mesmo fruto no dia seguinte. É leal e econômico no afeto. Descasca o sumo de leve com o bico e toma cuidado para não assustar os insetos dentro. É devoto em sua escavação. Leva o alimento para os filhotes, abastece seus olhos africanos, engrossa seu ninho de estrelas e regressa ao seu ponto de origem. Um fruto durará uma semana em seus volteios. Até não sobrar nada, até a semente ficar lustrada de sol. O homem é um bicho insatisfeito. Deixa marcas, cicatrizes, tatuagens e provas de que esteve ali. Morde uma cesta inteira de maçãs sem sequer terminar uma delas, sem conhecer a alegria do pecado de se dedicar somente a uma delas. Pode amar para provocar ciúme, abandonar uma paixão para mostrar independência, trair para magoar, ferir para gerar autoridade. Interessa-se pela quantidade, por contar quantas mulheres teve, por contar quantas vidas perdeu. O pássaro é um bicho invisível. Não muda a ordem, é capaz de arrumar sua cama mesmo hospedado em hotel. O homem deveria observar mais os pássaros. Eles mordiscam os brincos das árvores e não derrubam as orelhas. Não precisam de platéia para matar a fome. São concentrados, não se dispersam na avidez. Os pássaros circundam, namoram, seduzem a fruta antes de pousar. Batem as asas com força para depois descer o próprio corpo flanando. Têm imaginação. A imaginação hidrata e faz a saliva subir. Um romance sem imaginação é livro técnico. Um amor sem imaginação é manual de geladeira. Um homem sem imaginação é um bicho esquisito. Ao transar sem imaginação apenas arruma sua gravata no espelho. Ao mastigar sem imaginação vai apoiar os cotovelos na mesa. Ao abraçar sem imaginação carregará garrafas vazias. Um homem sem imaginação é um bicho morto.

8:53 AM :: Comentários:

O QUE SUJA MAIS? O QUE É MAIS GOSTOSO?

A capital gaúcha é dividida entre duas facções de crianças, numa espécie de Gre-nal infantil, a turma da pipoca e a do algodão doce. Eu sou da ala da pipoca e Eduardo Nasi é da banda do algodão doce. Desempate o jogo na quinta (31/3), às 19h, nas Livrarias Porto, do Shopping Iguatemi.



8:51 AM :: Comentários:

CRONÓPIOS

Há uma nova revista digital no mercado, Cronópios, editada por Edson Cruz e Adrienne Myrtes (texto) e Pipol (arte). Assino a coluna Orelhão. Confira.

ORELHÃO

TATUAGENS TRAÍDAS

Fabrício Carpinejar



A linguagem pode trair ou tardar. Quanto maior o domínio sobre ela, mais ela confunde. A linguagem não expressa o que se quis dizer, mas o que se conseguir dizer, que faz uma tremenda diferença. "Tatuagens" (Escola, 128 páginas), do paulista Alfredo Líria, retrata a obsessão em transmitir mensagens pelas tatuagens e piercings e de expor juras eternas que serão - infelizmente - provisórias. A tatuagem simbolizaria, segundo Líria, um segundo registro de nascimento ou de óbito. "Como serpentes que trocam a pele familiar, a escolher o destino da primeira".

O autor demonstra maturidade na estréia, favorecendo a atmosfera de confusão da identidade de um adolescente, que tenta dominar o seu tempo, porém lhe falta a clareza da experiência. Confirma o pensamento do americano Ralph Waldo Emerson, em seu ensaio "Autoconfiança", onde chamava atenção para o desconhecido "oceano interno": não adianta pedir água ao vizinho antes de aprender a nadar em suas próprias idéias.

Em escrita elegante e solipsista, o escritor criou uma aventura psicológica, um laboratório de reações diante de um fetiche. É um conto alongado, entre o romance e a novela, a narrar o tormento de uma escolha precipitada e a angústia da punição. Seu único pecado é não prolongar a periferia do enredo, deixando de reforçar a camada de tinta e de densidade no retrato dos protagonistas. Como um relógio que necessita dar corda, as figuras centrais deveriam receber um pouco mais de espaço de desafogo para extravasar suas crenças. O ficcionista perde o brilho no combate imediato às adversidades e na formação apressadas de juízos, ao invés de prolongar as contradições, as lacunas e os antagonismos. Há uma certa preocupação burocrática em diferenciar o belo do sujo, o certo do errado, o inferno do paraíso, que não combinam com a reflexão profunda da linguagem que está em evidência.

"Tatuagens" remonta a história de Paulo Cartier, um entregador de pizzas de São Paulo, que decide gravar a pele com ideogramas. Ele coloca o nome de sua namorada, Lisa, na língua chinesa, esperando perpetuar uma relação que já está prestes a terminar. É seu último golpe para a permanência dela, uma jornalista que não suporta o desnível do diálogo e as veleidades da idade. "Ele sentou na poltrona para deixar um testamento em sua pele, indeciso entre as estampas de um álbum preto. A agulha esquentava, a evocar as obturações no dentista. O amor por Lisa seria uma fotografia impossível de rasgar. Ela não teria a chance de rasgar sua aparição da foto, da carne do tempo. Teve um medo poroso, porém não retrocedeu da decisão. Queria algo luminoso nas costas, não algo óbvio, uma estampa em outro idioma talvez, que pudesse traduzir ou vir a entender anos depois. Pediu ao tatuador: escreve Lisa em chinês e assim esqueceu a dor".

O rapaz repete "Cândido", de Voltaire, no sentido de sair ao mundo em busca do conhecimento e pagar caro pela sua ingenuidade. A opção dele acaba sendo traída. Carrega uma mensagem às costas, que não vê e apenas apressa o desmoronamento do namoro com Lisa. Não tem como a tirar, e isso o isola. De feição carismática e expansiva, assume a condição anti-social, amargurada e insegura no trato com as mulheres. Torna-se prisioneiro de um nome. Não entende como Lisa foi tão insensível a ponto de findar a relação depois dele mostrar a tatuagem. "'Eu fiz isso em tua homenagem¿, disse como quem faz uma oferta impossível. Levantou a roupa com o desprendimento de um stripper profissional. Seguia uma música que só ele ouvia, um assobio que ficou ao léu na boca. Dançava. Lisa riu encabulada até o momento em que deslizou com os dedos na marca ainda inchada. Ela entenderia, pensou, havia se formado em literatura chinesa pela USP. Abrupta, fechou o rosto e a bolsa. Partiu sem dizer nada". A falta de explicação acelera a desvalia de Paulo, que não suporta recomeçar a vida sem encerrar a reencarnação amorosa. Ao final, volta novamente à cadeira preta do tatuador (símile de tradutor) e reencontra o seu símbolo. Iria fazer uma nova inscrição, mas desiste quando lê a legenda de sua conhecida e atormentada penugem chinesa: "Foda-se".

8:45 AM :: Comentários:

PARADA PARA CAFÉ

Dois escritores gaúchos estão com blog: Luiz Paulo Faccioli e Tailor Diniz.

8:42 AM :: Comentários:


Domingo, Março 27, 2005

BARULHO BONITO
Cena do filme "Stalker" de Tarkovski

Fabrício Carpinejar



Os cabides azuis do hotel não olham de frente. Os cabides azuis do hotel são tristes como olhos verdes de vez em quando. Cansam de se despedir e não se apegam mais a nenhum cliente. Não tenho vontade de levar minhas roupas diante dos cabides azuis do hotel. Tenho ânsia de me deserdar. Mais triste do que os cabides azuis do hotel são cadeiras sendo puxadas. Cadeira que não se respeita. Cadeira como cadarço velho. Cadeira deve ser segurada com aflição, como um filho que não se teve. Levantá-la e apoiar sua cabeça contra o peito. Barulho bonito é de bambus, que prendem o ar como uma cigarra em caixa de fósforos. Barulho bonito é da chuva catando moedas nas calhas. Não sei como a chuva não fica rica. Barulho bonito é a risada do café da manhã. O pão ainda sonhando o fogo. Há barulhos bonitos que vou escutar mesmo depois de morto. Como o barulho dos dentes de minha mulher quando gosta do que come. Ou no momento em que não fala e tudo diz e arregaça levemente as saias para pegar sol nas pernas enquanto dirijo e finjo que não espio e finjo que desconheço qual caminho tomar. Barulho bonito é da pele, que muda o sabor conforme a boca. Barulho bonito é do mar jogando cartas de noite. Barulho bonito é do pomar quando as abelhas recém foram e o pólen está todo revirado. Barulho bonito é de uma porta de vidro, que torna a visita transparente. Barulho bonito é das sandálias, que aguardam o pouso de cada dedo e não se arrastam como os chinelos. Barulho bonito é de um baú sendo aberto, com a lentidão das bordas, sem a correria cega das gavetas. Barulho bonito é do lençol estendido na cama e as noites voando assustadas pela janela. Barulho bonito é da respiração acelerada quando recebe um beijo. Barulho bonito é do sino de corda; as badaladas entram em casa devagar. Barulho bonito é do cachorro pisando em poças. Barulho bonito é da lenha crepitando, o fogo datilografando seu livro. Barulho bonito é de uma criança rolando o pneu e o devolvendo à estrada. Barulho bonito é do vinho no cálice, a escada em caracol do líquido. Barulho bonito é da neblina suplicando lombas. Barulho bonito é do chapéu na mesa. Barulho bonito é da argola da rede. Barulho bonito é a corrida entre a vela e o vento. Barulho bonito é do telefone tocando quando não há ninguém em casa. Barulho bonito é do sabiá, com as asas fechadas, caminhando para imitar o homem. Barulho bonito é do homem se agachando ao prato para beber a sopa. Barulho bonito é do pêssego amarelo entre formigas. Barulho bonito é do varal esticado pela troca de estação. Barulho bonito é da faca em círculos na casca. Barulho bonito é de uma carroça em uma rua vazia. Barulho bonito é do fecho da mala quando estou voltando. Meu corpo desaprendeu a andar sozinho. Há de se procurar onde não há vida e ficar sentado esperando desejos.

9:40 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 24, 2005

ANSIEDADE
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar




Sou ansioso, tremendamente ansioso. Quando não há nada para acontecer, fico ainda mais ansioso. Aguardo algo só para dizer: eu sabia, eu sabia, mesmo não sabendo patavinas. Odeio guardar segredo, porque sei que vou ter que esperar ao lado de minha ansiedade. E ela é bocuda. Sou ansioso. Se faço a comida, posso passar mal até minha mulher pronunciar seu veredito. Ao preparar o jantar, evito comer e participar do júri. E escolher presentes? Tenho pavor da possibilidade de comprar o número errado, a cor errada. Sou ansioso, desde criança me sentava em uma janela para me aguardar adulto. Sou ansioso, daqueles que vão roer as unhas, mexer na barba, desabotoar os cabelos. Sou ansioso, minha sensibilidade parece que está de plantão. Não adianta me recomendar florais, chás, tranqüilizantes. Não farão efeito. O sangue não é água, não é fácil domá-lo. O sangue segue por ruas escuras. Quanto mais escuro, mais ele corre. Sou ansioso, o livro é minha bengala até o sono. Sou ansioso, canso de fazer careta ao chorar. Quando a esposa demora, quando o filhos tardam, enlouqueço as venezianas. Sou ansioso, bate uma vontade de escrever cartas longas, imensas, para que alguém sinta saudades de mim. Sou ansioso, de madrugada, arde um comichão para passar trote, ligar para desconhecidos, puxar conversa, acordar a família. Minha respiração está acelerada ainda que em repouso. É como se estivesse sempre atrás do que fazer, do que me ocupar, do que amar. Desejava entrar em dieta: os pratos são muito mais coloridos. Quem come em excesso não é pintor. Desejo errar a ortografia, para me corrigir em seguida. Perdi emprego pela ansiedade, perdi amores pela ansiedade, perdi namoradas pela ansiedade. Falo a verdade antes dela ser verdade e ninguém acredita. Sou ansioso e deveria me tratar, mas é tarde, mas é cedo, tarde e cedo resultam na mesma coisa. Eu atropelo, eu invado, eu inundo. Sou ansioso, não posso me acordar sem os chinelos brancos debaixo da cama, sem o café barulhando, sem dividir os cadernos dos jornais com a minha mulher, sem encontrar pentes e presilhas na pia, sem cartas na caixinha, sem livros novos para levar ao trabalho, sem telefonar para os pais, sem derrubar os controles da tevê, sem estender as roupas, sem brincar com Vicente e Mariana. Sou ansioso. Para muitos, ansiedade é imaturidade, despreparo, inexperiência. Coisa de jovem. Eu cresci e continuo ansioso. Não foi uma fase, uma adolescência, uma doença. Sou ansioso porque espero a vida com urgência. Sofro e me alegro mais do que a conta, mais do que o permitido, mais do que o suportável. Serei o teu melhor amigo, o teu melhor inimigo, serei devoto de cada palavra que ouvir, serei um fiel do improvável, um leitor de relâmpagos. Vou me alinhar com a chuva. Cair o andar para seu lado. Pisar no pé da chuva enquanto danço. Serei ansioso até o fim. Mas nunca, nunca serei indiferente.

6:19 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 23, 2005

CO-PILOTO DO TELEFONE
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Sofro de uma mania imperdoável. Peço para a minha mulher telefonar e passo a gritar atrás o que deve dizer. Sou um chato. Não deixo ela falar, cheio de idéias e detalhes repentinos. É desgastante passar a informação, raciocinar e ouvir o que acontece ao telefone e suportar um outro perto de si, despejando dicas, incomodando e corrigindo. Não é possível assistir dois canais ao mesmo tempo. A vontade é desabafar: "quer falar? então toma!" E meter o gancho goela abaixo do marmanjo. Há momentos que só Tom e Jerry explicam nossa vida. Qualquer mulher fica louca. O homem tem o insólito hábito de pedir um favor, meter-se drasticamente no meio da conversa, inspecionar o serviço e apontar somente observações negativas. Deixa de ser um favor para virar uma ordem, deixa de ser um carinho para virar uma disputa, deixa de ser uma gentileza para virar agressão. Os exemplos são simples. Ele não deseja ligar para sua mãe (conhece toda a incomodação que virá pela frente), mas precisa passar um recado urgente. A mulher decide generosamente fazer a ligação. Tem que agüentar o relato minucioso do dia da sogra e mais o marido soprando novas fofocas, detalhes e perguntas ao seu lado. Não há maior tragédia do que ser uma linha cruzada entre o marido e a sogra. É o mesmo que ser convidada para o próprio velório e ainda agradecer. Ou pode ser a encomenda de uma tele-entrega. Lá vai o marido listar o jeito que deseja a comida durante a ligação, com pedidos inúteis e caprichos intoleráveis. Nem sabe o que o atendente está dizendo e responde de forma paralela, com a naturalidade de um viva-voz. O cara não cala a boca: matraqueando letras para acelerar sua narração de turfe. É um cavalo nomeando cavalos. Assim que ela disca, o homem abandona a preguiça que não o fez telefonar, pula da cama, ganha uma disposição e eloqüência em instantes, entra em surto e se dispõe a comentar sem parar o assunto. Segue sua mulher pela casa, como uma sombra pegajosa e arrogante. Corre em círculos, uma criança abrindo a porta com os dentes. "Não esquece de pedir", sugere a cada dez segundos, para depois cobrar: "não pediste, né?" Demonstra um talento inato para provocar. Emerge o espírito brigão que o mantinha elétrico na infância. Se o homem reclama com insistência da co-piloto no carro ou tece piadas sobre a mulher no volante, não se dá conta que ele é o pior co-piloto que existe ao telefone.

1:30 PM :: Comentários:


Terça-feira, Março 22, 2005

BRINQUEDOS PELA CASA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Não tomei cerveja com o meu pai. Não conversei sobre mulheres com o meu pai. Não fui ao cinema com o meu pai. Não visitamos a Expointer. O máximo de aventura que enfrentamos juntos foi quando ele estacionava em local proibido na rodoviária ao pegar os jornais e me deixava esperando no carro. Suportava a seqüência de tormentos: as buzinadas de quem vinha atrás, o pisca ligado eternamente e o pavor da multa do guardinha. Não tive nenhum papo adulto ou cabeça com ele. Ele não me indicou caminhos, não reprimiu escolhas. Não assinava meu boletim. Não autorizava minhas viagens escolares. Não me ensinou história, literatura, português. Não me explicou o sexo, a única vez que chegamos perto do assunto foi quando comentei que seria pai e já era tarde demais. Ele saiu cedo de casa (ao menos para mim), quando tinha oito anos. Não joguei futebol com meu pai e seus colegas contaram que atuava de centroavante. Queria ter jogado ao lado dele, mesmo que seja para reclamar da falta de passe. Ele escrevia muito e o escritório vivia trancado, impraticável para corridas e pega-pega entre os irmãos. Não podíamos entrar pela frente da residência. É óbvio que arrumava uma escada para espiar o que ele anotava pela janela. É óbvio que não enxergava nada de diferente.

Quando caminhava pela calçada, meu pai andava com as mãos atrás. Como é sábio andar com as mãos atrás! Tudo o que falam delem, eu paro para escutar como quem necessita reconstituir a vida que não teve. Amigos, inimigos, amores e desamores. Ouço qualquer história dele com ardor e paciência. Compraria histórias e palavras de meu pai. Meu pai é uma agenda que não foi usada. Por isso, não reclamo quando recolho os brinquedos de meus filhos pelos corredores. A maioria xinga a bagunça, não eu. Eu me alegro. Posso estar cansado, acabado, sem reservas e arrecadarei um por um dos brinquedos com dedicação. É noite alta, vou recolhendo os destroços e colocando os bonecos na prateleira. Faço um altar, distribuindo os anjos de madeira, de palha e de pano nos degraus das arquibancadas. Dobro as roupas nas gavetas. Organizo os carrinhos, sou capaz de escutar as vozes dos livros, esbarro em algum brinquedo eletrônico que quase acorda a vizinhança. Às vezes me perco em admiração pelos filhos. Entro em um transe, acionado por uma expressão nova, um fraseado diferente, uma pergunta esperta. Permaneço quietinho diante deles, mexo seus cabelos, como que colorindo desenhos dentro dos traços. Eles pensam que estou distraído. Ah se soubessem que presto atenção, tanta atenção que me disperso de mim. Só neles. Ausente enfim de mim.

2:33 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 21, 2005

LEITURAS FRIAS
Gravura de Pieter Brueghel

Fabrício Carpinejar



Não queria incomodar. Nem a mim. Residência escura como uma noz intacta. Não tenho mapa de como é uma noz por dentro. O escuro é doce e quebra fácil. Pegava meus livros, andava com os dedos dos pés sem fazer barulho. Sempre que não quero fazer barulho, faço. Acontece um estalo inesperado nas pernas. Os cotovelos produzem uma comoção de fogueira. A cintura tranca. Ou sou mesmo atrapalhado ou os ouvidos ficam mais concentrados. Sentava diante da geladeira branca. Redonda com nome de inspetor de saúde: Steigleder. O verão andava alucinante. Produzia comichões antes dos mosquitos, que odiavam a concorrência. O velho ventilador lembrava pantufas, de tão lento. Lembrava azeite, de tão demorado. Lembrava escadaria de igreja, de tão longe. Muito quente. Bafo de cão no ouvido. Meu cão tinha hálito de cachaceiro - botava a língua para fora e seu estômago vinha junto espiar. Tentei escovar seus dentes e engoliu a escova, deduzi que não precisaria mais lavar sua boca por toda a vida.

A geladeira branca: um copo de leite. Escolhia livros com mais ilustrações, gorjeava luz da porta. A geladeira continha uma lanterna e ainda refrigerava o vento. A geladeira funcionava de ar-condicionado e luminária ao mesmo tempo. Sentava no chão da cozinha a folhear durante a madrugada. Nunca fui pego. Quando alguém se aproximava para tomar água, eu me escondia debaixo da mesa. Via os familiares como sonâmbulos, não abriam os olhos, apenas o suficiente para não derrubar seu corpo do último sonho. Meu irmão falava aramaico. Minha irmã cantava Rolling Stones. Minha casa cheirava a comida requentada. A reputação do lar estava na geladeira. Geladeira de solteiro cheira a margarina - é o que não termina. Quando tinha alguma coisa podre na geladeira, não podia ler. Catava um por um dos produtos para descobrir quem era o fedorento. Na maioria das vezes, culpava o queijo. Eu lia com o olfato. Perguntava para a mãe o que faria de comida no outro dia, pouco interessado em comer, mas para proteger a saúde das leituras noturnas. A mãe se espantava com minha curiosidade gastronômica e não compreendia como deixava tanta comida no prato. Odiava comer, perda de tempo, assim como dormir. Sono engorda. Brincava de trator no prato. O segredo consistia em deixar a comida na beirada e despovoar o centro, que dava a sensação da obrigação cumprida. Aproveitava a distração dos familiares com a conversa e dragava o arroz aos seus pratos, além de apoiar os cotovelos na mesa, com lassidão contrariada. Saía da cadeira vitorioso, por desistência dos concorrentes. Nunca limpei um prato na infância - e a faca só servia para amontoar minha esperança.

Quando a mãe fazia feijão, eu a ajudava no alguidar. Ambos na mesa grande, a ciência da escolha. O andamento de uma missa tal a gravidade das palavras e a rigidez dos gestos. Ela me explicava: 'os que estão com cicatrizes e feios não são para derramar na bacia'. Dava um dó dos grãos bichados, feridos. Colocava os imprestáveis em meu bolso, preocupado em não ser visto. Depois plantava na horta para mostrar que eles poderiam render, ao menos, mato. Mato é flor do purgatório. O mato torna qualquer abandono mais altivo. O mato tem altura de jogador de basquete. A geladeira me entenderia. O leite da garrafa é diferente do gosto do leite do plástico que é diferente do leite do saquinho. Os lábios misturam várias sobras, de uma paixão antiga a uma recente. Um dia esqueci um dos livros dentro da geladeira. O pai botou os filhos de castigo até descobrir quem fez a molecagem, que murchou a obra completa de Gonçalves Dias.

Gonçalves Dias morreu de hipotermia, congelado como uma múmia. Não abri o bico, festivo com o castigo coletivo. Sofrer com os irmãos era melhor do que sofrer isolado. Tem gente que só peca acompanhado. Eu sou assim. Dividir o pecado é dividir a pena e ficar com toda alegria sozinho. Depois fui saber que a comida estragava com rapidez, que a conta de luz subia vertiginosamente, que meu pai reclamou à companhia elétrica dos abusos e falhas na medição, que durante meses foi o assunto predileto das brigas do casal, que a mãe culpava o pai, que o pai culpava a mãe, que os dois se separaram na época, que houve pratos e discos de Chico Buarque quebrados. Eu e a geladeira crescemos sadios. Com a neutralidade das verduras na última gaveta.

(Coluna do suplemento Rascunho, março de 2005)

7:38 AM :: Comentários:


Domingo, Março 20, 2005

CIDADE PEQUENA
Gravuras de Guignard

Poema de Flávio Luis Ferrarini



As casas na cidade pequena
São vacas deitadas à sombra
As ruas são cobras tristes
Esticadas ao sol

Na cidade pequena as línguas
São enxadas que carpem intimidades
Como cobras tristes
Tristes como as vacas deitadas

Na cidade pequena as intimidades
São roupas esticadas no varal
Confissões de pequenas cobras
Sobre as vacas deitadas

Os rostos na cidade pequena
São molduras tristes
Como cobras à sombra
Das janelas das vacas deitadas

Na cidade pequena são os postes
Que vigiam as cobras das vacas
Se a língua neles encosta
Os postes desabam

Desabam os postes na cidade
Pequena de vidas menores
Sobre as cobras tristes
À sombra das vacas deitadas



VARAL DE LETRAS RECEBE FERRARINI
Encontros com poetas entram em seu segundo ano.

Varal de Letras, série de debates mensais que apresento na Livraria Cultura, recebe o poeta Flávio Luís Ferrarini, considerado "uma das vozes mais originais surgidas na década de 90" pelo crítico José Paulo Paes. Com o tema "A vida de interior e o interior da poesia" e entrada franca, o evento acontece nesta terça (22/3), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033). O encontro conta com a participação especial dos jornalistas Tom Madalena e Eduardo Lanius.

Flávio Luís Ferrarini nasceu em Travessão Paredes (RS), em 1961. É poeta e publicitário, autor dos livros de poesia "Volta e meia um poema na veia "(1985); "Olho vermelho no centro do espelho" (1988); "Minuto diminuto" (1990); "Cogumelos Amarelos" (1994); "Crônicas da cidade pequena" (1996); "A captura das águas" (1996) e "Outubro sobre arco-íris" (1999). Publicou ainda as novelas "Uma história sem elos" (1986); "O segredo de Ogliver Nut" (2000) e "Roger Bispo e a deusa Hator" (2003).

Ferrarini tematiza a solidão ferina, caústica e irônica das pequenas cidades. Em versos ora simétricos ora minimalistas, oferece cenas de vidas discretas, indiferentes e prosaicas do interior gaúcho. Realiza a metafísica do miúdo, das pessoas sem importância, que encontram Deus sem procurar. De acordo com José Paulo Paes: "os minutos interioranos da poesia de Flávio Luís Ferrarini valem bem horas inteiras de muito poeta de cidade grande".

O já tradicional Varal de Letras inicia a temporada de seu segundo ano. Consiste num bate-papo franco sobre estilos, buscando valorizar a vida da leitura. Expõe a obra de novos poetas com humor e naturalidade, diminuindo o abismo entre as gerações literárias.

11:31 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 18, 2005

CABELO NO PRATO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



No momento em que se encontra um fio de cabelo no prato, o que fazer? Trocar de prato, tirar educadamente o fio ou fazer cara de nojo e perder a fome. É uma encruzilhada. Um cabelo no prato faz emergir todas as repulsas. E se o fio é da tua própria cabeça? Terei nojo de mim? Como descobrir, em segundos, de quem é o cabelo? A sujeira envergonha? É óbvio que se pode culpar a cozinheira ou o garçom. Culpar o restaurante pela falta de cuidado. Fazer um escândalo como se a inocência castanha na comida fosse uma barata. Em um lugar chique, o cabelo é a fibra de uma verdura. Em um boteco, o cabelo é denúncia para o Procon.

São nesses atos levemente inúteis que a personalidade é revelada, a mostrar desapego ou obsessão, desprendimento ou rigidez. A pessoa que recusa o fio é capaz de dóceis monstruosidades em segredo. O fio é retirado para que ninguém veja ou por que se odeia? Somos maníacos pela limpeza, pelos bons modos e valores, e esquecemos que estar vivo é ser vulnerável. Contagiar, beijar, abraçar, suar, tossir, chupar, coçar. Redoma de ferro só em serviço de quarto no hotel. Rasguei o mosquiteiro da infância pois não suportava dormir com uma proteção. Dormir é se desproteger. Tinha a impressão de que a família estava me escondendo. É horrível sacrificar a noção espacial do quarto ou do corpo no quarto.

Cabelo no prato é a principal pergunta da vida, mais do que o suicídio, que pode começar ali. Abafar ou rir, mostrar ou disfarçar? O cabelo no prato é o desconforto em demonstrar a verdadeira emoção. Não demonstrar a emoção é uma emoção. Eu amava uma menina que não ria e cada vez mais me tornava um palhaço para provocar sua reação. Trabalhava para ela dia e noite, de graça. A convivência passou a ser um esforço ou um desespero. E nada. Um dia, ela me disse enjoada: por dentro, eu posso fazer o que quiser. Apesar do rosto imóvel, ela reagia. Isso me assustou, portanto seus reflexos aconteciam sem sinal na superfície. E muitos são assim: não choram, não levantam nenhuma contorção da boca. Pais que ralham com os filhos, criticam, apresentam uma impiedosa educação transmitem uma imagem de intolerância e frieza. E de repente não são o que irradiam. Dificilmente partilham e se doam, mas são outros por dentro. Tolhidos por fora, sofrem de uma hemorragia interna na linguagem. Defendem que a seriedade é amor, não o contrário. E amam preocupados, autoritários, soberbos, para evitar que a fragilidade de suas memórias prejudiquem a concentração. Isso mesmo, são concentrados em um papel, que decoraram dos seus pais ou de seus professores, de seus castigos e de seus traumas. Não admitem abrir a guarda, se divertir, transbordar. A intimidade dói e acorda pavores ainda não assimilados, ainda não compreendidos, ainda não sarados. A única forma que encontraram de falar da dor é não pensar nela. Quem não consegue se comunicar não está morto. Está morrendo pela ausência de socorro.

10:52 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 17, 2005

ENGOLIR SABÃO NÃO LAVA A BOCA

Fabrício Carpinejar



Morno não. Quente ou frio. Mas morno não. Eu brincava de encontrar brinquedos no jardim e o quente e frio serviam de pista para o caminho. Os irmãos gritavam a expressão-chave para decidir o rumo. Recusava ouvir morno, a mostrar que não estava nem longe nem perto. Estar no meio da palavra é ainda silêncio. A Bíblia confessa: "Deus vomitará os mornos". Realmente deve ser um gosto horrível. Até escutar essa frase não cogitava de que Deus também vomitava, tinha ressaca, exagerava no apetite e na gula, comia coisas estragadas, tomava chá de boldo.. Mas Deus odeia o morno e se engasga com a isenção.

A pior galeria da Divina Comédia de Dante não está no inferno ou no purgatório, mas em uma ala chamada de Vestíbulo, no princípio do livro, onde são depositados os que não tomaram nenhuma posição na vida. São as almas recusadas tanto por Deus como pelo Diabo, pessoas mornas, que não expressaram suas tendências, seus erros, suas verdades, suas predileções. O castigo delas é beber eternamente a água parada da chuva e comer a lama, de costas para o céu. Tomar um partido é necessário, mesmo que seja para voltar atrás um minuto depois. Não falar o que se pensa é não viver o que se deseja. A neutralidade é uma doença letal: ficar em cima do muro, esperando descobrir qual é o lado mais forte para se inclinar. Como é desagradável dizer "não sei" por preguiça ou comodismo, por medo ou indiferença. Um não saber que significa renúncia, não desconhecimento. Um não saber que é lavar as mãos para não comprometer a imagem. Um não saber que é tentar ficar de bem com os outros e não consigo. Como dizia Mario Quintana, "há males que vêm para o bem, mas há bens que vêm para o mal". Omissão é voto nulo, um empate sem gols. Essa indecisão permanente tem início nas saídas mais banais, como restaurante, onde a expressão "tu escolhes!" acaba sendo o endereço. Toda pergunta é um charme, desde que não seja simulação, desde que não seja fingimento. Por que não declarar o que se quer? É preferível do que cobrar depois por não ter ido ou vivido. Essa história de adivinhar o que o par pretende não significa amor, esconde a intolerância de não se falar no momento para reclamar durante a briga. Cheira a oportunismo. Os que não têm time de futebol, os que não têm opinião, os que não têm vontade de soltar palavrão, os que não se irritam, os que não cometem tolices e gafes, os que não se submetem a definir a cor dos olhos são neutros. Acreditam que sua biografia é uma janela para acenar e não atendem a porta e não escutam a campainha desesperada.

11:00 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 15, 2005

QUARTA COLINA:
SOLIDÃO A DUAS VOZES

Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar




Eu esmolo o passado
como meu futuro.

Obedecia a rapidez do sangue.
Antes de apodrecer a luz,
engolia tua altura de árvore.

Eu te vi dormindo ao meu lado,
suspiro da planura.
Eu lia tua nudez dormindo
mais do que o livro.
A lamparina da lã.

Folheava as páginas
com tua respiração.
Fazia culto das chuvas.
Pássaro saudoso
do impulso.

Balançava os ouvidos
em tua altura de árvore.
Faria rédeas da forca
em tua altura de árvore.

Tua pele de pão molhado.
Teu tronco firme como dentes.
E as limas dos joelhos
banhados de sol recente.

Converteu-se em vapor,
o espelho,
seguindo
a névoa da bacia.

(Nova versão de poema de "As Solas do Sol")

11:07 AM :: Comentários:


Domingo, Março 13, 2005

MINHA CAIXA DE FÓSFOROS

Fabrício Carpinejar



Eu desejo do amor a falta de cobrança da amizade e da amizade, a insistência obsessiva do amor. Dependo de um intervalo comigo para me experimentar - só depois terei condições de oferecer. Ninguém é capaz de me dar aquilo que me falta descobrir. Se não suporto a solidão, não suportarei a convivência. Se não suporto a convivência, não suportarei a solidão. Eu terei que fazer por merecer cada uma de minhas dúvidas. Fazer com que cada palavra possa suportar seu destino mais do que sua origem. Cortar estrada não diminui o peso do corpo e sua vontade de se exceder mais adiante. Que não recorra às chantagens, às pequenas implicâncias, para dizer o que penso. Que seja sem entremeios, sem contrapartida. Natural e urgente como a nudez.

O que não descobri em mim pode me destruir antes de ser descoberto. O que deixamos para depois pode vir a trancar a porta. Prontificar-se não quer dizer que se está pronto. Eu me devasto. Eu me contradigo. Eu me inundo do que não presta. A devastação é depuração. Não posso agregar ao meu mundo apenas o que tem valor. O valor é a circunstância, não a necessidade. Compadeço com quem não se atemoriza um pouco, se desespera um pouco, se destrói um pouco por dia. A vida não suporta o comedimento. Se meu filho padece de frio, e não há lenha, queimarei os livros que mais amo. Queimarei as roupas. Queimarei as fotos. Para sobrevivê-lo, queimarei o que julgava indispensável. Unicamente o amor é indispensável, o resto é apoio para se chegar até ele.

Ao encontrar um amigo ou amiga, converso como se fosse a última vez. Pergunto mais do que a conveniência permite. Abraço com convicção. Não é nada mórbido, não penso que vou morrer. É um hábito antigo, como usar preto para emagrecer o rosto. Tenho uma pressa na ausência de pressa. Uma vontade de permanecer mais do que de comunicar. No meu derradeiro encontro com a avó, não adivinhei que morreria. Falou de coisas frugais, de buscar o pão quentinho e tocá-lo antes com o indicador para evitar o vazio da casca. Não me abraçou langorosamente. Não foi trágica, derradeira. Não me assustou com sua morte, não me passou sua morte. Não chorou, não soluçou, não praguejou, não lamentou. Falou de coisas banais como os horários do ônibus, dos temas da escola, de sua costura. Despediu-se com o 'até logo', talvez um 'tchau', talvez 'um bom te ver'. Os segredos não são revelados com suspense, mas com simplicidade durante a convivência e por isso não lembramos. Os segredos são contados na distração. Os segredos são as distrações.

Caminho lento quando estou feliz, mas também caminho lento quando estou triste. Nas duas situações, caminho como se o tempo não fosse comigo. Fluo no tempo, não participo dele. Nem todo tempo é para ser gasto. Nem sempre o tempo tem troco. Nem todo o tempo é para se conquistar, para se perdurar. Alienado para se fazer devagar. Alienado para se refazer devagar. Alienado para abrir espaço por dentro e não ser menor do que a realidade de meu desejo.

7:04 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 11, 2005

O ESCURO QUEIMA
Foto de Edward Zvingila

Fabrício Carpinejar



Vou sair de noite com o meu filho pequeno e ele pede que eu passe bronzeador. Explico que não há sol. Ele insiste e entendo: o escuro queima. Atravessar uma noite em claro, com medo das dívidas, queima. O salário nunca será suficiente para cima ou para baixo - é apenas um adiantamento. Quem mais tem mais gasta, quem nada tem mais tenta gastar. Ambos enrolam saldos bancários como terços de papel. Jogo na Mega Sena e invento destinos para a bolada. É uma diversão garantida imaginar fiado sobre o que faria com milhões em minha conta. Poderia viver só com a CPMF da transação. Sou previsível até fora dos hábitos. Não é o dinheiro que manda na vida. É a falta de dinheiro. Tanto que ter crédito é mais importante do que ter grana. Muitos colegas usam o negativo como saldo positivo. Mudam apenas a fonte do empréstimo para pagar um antigo empréstimo. E não conseguem relaxar, descansar, oprimidos por uma generosidade ao contrário: de dar o que nem sequer desfrutam. Gastam o que não sentiram sequer o cheiro. Gastam o cheiro de sentir. O homem se consome em segredo, como uma úlcera, como uma gastrite, ácido que estoura pelo acúmulo. Entendo quem bebe para esquecer, quem esquece para beber, quem finge que é uma criança para ser levado pela mão. O desespero é uma ciência. Não importa o grau de instrução, na dívida se é analfabeto. Um iletrado. Um inconseqüente. Um irresponsável. O devedor pede desculpa já no café da manhã e não se perdoa de madrugada. Nada mais implacável do que encontrar uma maneira de amansar a fúria do dia seguinte e não contar com uma sombra familiar para repartir a inquietação. Nada mais implacável do que perder a casa por falta de pagamento e baixar o olhar, impotente, aos filhos enquanto o oficial de justiça e os policiais empurram tudo para fora. No despejo, a única honra possível é recolher suas coisas antes dos estranhos. Nada mais implacável do que recuar produtos na esteira no mercado, escolher entre o essencial e o essencial, para chegar a um valor suportável. Dívida segrega, é pior do que isolamento. É dor do cansaço, muscular, sem diagnóstico. E aquilo que é quitado não dura mais do que uma semana. O mês deveria ser semanal para diminuir o desastre. Um recibo é a única carta que se espera. Os problemas imaginados crescem em cativeiro. Os sonhos que não são compreendidos viram pesadelos. Como não se compreende dois terços do que se vive, persiste a desvantagem onírica. O escuro queima. Apavora. É como se o ladrão tivesse, em movimento inverso, dentro de casa procurando sair para a rua. A maioria é endividada e aparece com vergonha de ser descoberta. Pisar nos próprios ossos uma vez na vida é tão certo quanto escutar Ave Maria em um matrimônio. É estranho, mas amarravam latas nos leprosos na Idade Média e hoje amarram latas nos carros nas saídas do casamento. A pré-história da alegria é a maldade. Entrar no SPC não representa o fim do mundo. Não significa desonestidade, calote, roubo. A tristeza da dívida não está em si, mas em suas conseqüências morais como a humilhação. Crise, que todos temos, não é crime. Dificilmente alguém é um endividado por esporte, mas um endividado porque não houve um outro jeito. Presenciei em Porto Alegre, tempos atrás, um sistema cruel de cobrança, onde homens vestidos de vermelho visitavam os devedores, constrangendo e aviltando. Era um clássico: os vermelhos contra os amarelos. Torcia para o time dos carteiros, bonzinhos, que entregavam contas sem encarar o destinatário. Os vermelhos faziam ameaças e quebravam o adversário na linha de fundo. Quando apareciam, não havia como esconder o ridículo da vizinhança. A partir daquela data, o armazém não venderia fiado ao freguês abordado. A insinuação é mais destrutiva do que a fofoca, a insinuação não oferece direito de resposta. Agora, a pressão acontece por telefone, silenciosamente, em consultas e bloqueios. Não existe como fugir das dívidas. Nem fazer as dívidas fugirem. Falir no dinheiro é ainda melhor do que falir na amizade, na paixão, na filiação. Deve-se conhecer o inferno, no mínimo, por curiosidade. As histórias que mais me prendiam de pequeno eram as dos demônios mexendo em caldeirões. Descobri que eles sabem cozinhar, o que é um bom sinal. Fome ninguém passa no inferno.

(Esse texto é a minha coluna de estréia na revista mensal Idéias, da Travessa dos Editores, de Curitiba (PR), edição de fevereiro)

9:15 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 10, 2005

A FALTA DE OPÇÃO
Gravura de Frank Auerbach

Fabrício Carpinejar



Não se tem como adivinhar o que vem depois, não se tem como suportar o que veio antes, o que faz concluir que não se tem opção. A infelicidade de um casamento de 15 anos, de um namoro de cinco, de um emprego de dez. E não se muda nada, apesar da prisão e do desconforto, porque se botou na cabeça: não tenho opção. E se segue adiante com uma vaga expectativa de melhorar o ânimo, ou ao menos o cardápio do almoço. Com a vaga emoção de alterar o trajeto. Com a vaga noção de desentendimento. E se dorme e não se podia mudar pois os filhos estavam pequenos e se dorme e não se podia mudar pois os filhos estavam crescidos e se dorme e não se podia mudar pois os filhos estavam casando e se dorme e se esquece por oito horas, mas não é abafado o desânimo: a ferroada volta a arder e se cogita ter vivido à toa. Volta a suspeita de desperdiçar mais um dia da única eternidade que se conhece. E o corpo lembra um livro emprestado que se precisa devolver à biblioteca. Um livro que não foi lido, nem folheado pela curiosidade. E a multa aumenta e a vontade de ler diminui. E se botou na cabeça em alguma data indefinida: não tenho opção; em alguma latitude indefinida: não tenho opção; em algum aceno da cabeça, quando não suportava o silêncio tremer como uma boca chorando, quando não suportava os segredos escurecerem de mofo, quando não suportava a madeira nobre do armário perder as lascas da quina: não tenho opção. E se permanece num casamento triste, cego, morno, como se a luz fosse forte o suficiente para derrubar o telhado. A luz não fala alto. E se queria mais e se quer mais, e a resignação faz varrer as gavetas para queimar as pistas da inexistência. Não se acredita em mais ninguém, deixando a mão correr sem margens. Não se acredita em si, concordando para terminar logo o assunto. E se cala para não provocar briga e se desculpa por não conseguir vencer a timidez da falta de opção.

Quem diz que não tem opção ainda tem opção. Mesmo que seja para mudar de idéia, mesmo que seja para gostar novamente do que deixou para trás. Todos temos opção, sorrir ou ficar sério, brigar ou fazer as pazes, fugir ou pedir o divórcio, viajar ou pedalar o mar. Ao atravessar a rua, tenho a opção de olhar para a esquerda ou para a direita, para a amizade ou para sedução. Há opção na falta de opção. Há opção até depois da morte. Não admito essa covardia de escrever a própria vida sem assinar.

10:59 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 09, 2005

UM COPO DE ÁGUA COM AÇÚCAR
Gravura de Frank Auerbach
Para Rose

Fabrício Carpinejar



O que eu faço quando vejo alguém dependendo de minha ajuda, inseguro? Não dou chance para as dúvidas, falo sem parar. Fico destravado, desengonçado, guarda-chuva de vareta quebrada. Sanha incontrolável, falo sem pensar. Falo sem lógica. Falo para me antecipar. Faço perguntas desnecessárias, absurdas. Quando estou nervoso, falo como uma caturrita. Demoro mais tempo para achar meu tempo. É como se a pessoa em dificuldades estivesse tonta. Puxo conversa para evitar que ela desmaie e perca a consciência. A palavra é um copo com açúcar. Acalma, revigora, levanta.

Não conheço amor distraído, apenas amor preocupado. Escrevo para proteger alguém em mim. Sempre foi assim desde pequeno. Vivia preocupado em achar a pessoa certa mais do que a expressão certa. Mas não há pessoa errada, o que existe é pouca insistência. A bondade tem que ser um hábito esquecido: usar e esquecer para não emitir boleto de cobrança. Bondade não é favor, é recompensa. Creio que tenho uma inclinação para a tristeza; não admito estar feliz sozinho. Minha felicidade cria cúmplices, procura testemunhas. Se chego em casa de noite, esfuziante, entusiasmado e percebo que minha mulher está abatida, já esqueço de mim para cuidar dela. Ela faria o mesmo. Enquanto um prepara a janta, o outro faz a mesa. Enquanto um cozinha, o outro lava. No amor, a felicidade não aceita ser solteira. Ou ambos estão alegres ou ambos estão se protegendo para a tempestade passar. Ou somos cachorros fugindo dos carros ou somos carros buzinando para os cachorros. Um momento para ser advertido para em seguida advertir. A verdade acima de tudo, mas verdade sussurrada, com jeito de segredo, com jeito de revelar sem agredir. Não me envergonho de chorar, não me envergonho de minhas escolhas, não me envergonho de minhas dependências, não me envergonho de minha gargalhada, não me envergonho de usar diminutivos a dois, não me envergonho de ser ridículo, não me envergonho de cumprimentar gritando. Em minha vida, pouco fui solteiro. Tomo café puro e bate a saudade da colherinha. Sofro da preguiça do dicionário; não meço termos, mergulho na adivinhação. A arrogância é ter orgulho da burrice. Orgulho-me do que não vi. Não durmo do lado da parede. Não pretendo ser enterrado perto da parede. Que eu viva e morra no centro, no turbilhão, na inquietação. Até a fragilidade dos olhos tem cílios.

10:59 AM :: Comentários:

BREVIÁRIO DO MARINHEIRO POPEYE

- prefácio do livro "Fatais" (Casa Verde), coletânea de contos de Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Flávio Ilha, Laís Chaffe, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding. O livro será lançado no dia 22/3, a partir das 19h, no Jardim Lutzenberger da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736, 5º andar), em Porto Alegre -

Fabrício Carpinejar



¿ O escritor reescreve os livros que amou na infância e na juventude.

¿ Não me refiro a influências. Os livros não influenciam, contaminam.

¿ Escritor bom é que coloca sua obsessão no lugar do temperamento. Obsessão é cavar o mesmo lugar o tempo todo, ao invés de cavar vários lugares em uma prova de indecisão.

¿ Reescrever é a única forma de continuar lendo o livro que se quis escrever.

¿ Sherman Anderson não faz lembrar nada, mas foi o pai da geração de autores de William Faulkner. Foi tão bem reescrito que desapareceu.

¿ Faulkner dizia que se não o entendessem com duas ou três leituras, façam a quarta.

¿ Inspiração é um outro modo de chamar o espinafre.

¿ O que estou fazendo aqui é exercitar uma obsessão.

¿ O que Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Flávio Ilha, Laís Chaffe, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding estão fazendo aqui é obsessão.

¿ Escolheram entre ser escritório e ser escrito. São escritos sem gavetas para se guardar. Recomendo que ponha cada uma das narrativas dentro da íris esquerda com cópia carbono na íris direita.

¿ Não são estreantes, nenhum autor é estreante, todo autor é veterano de sua solidão antes de publicar.

¿ O título do livro Fatais lembra uma vida que não tem como mudar. Uma vida que não muda é acomodação. Os contos desse livro não oferecem fatalidades, mas escolhas precipitadas de personagens, que recorrem à interiorização, brutalidade e traição.

¿ O homem só pensa que é Deus na tragédia, concluo com o livro.

¿ Caco Belmonte mostra homens decididos de maldade. Um marido frio, um empresário que pensa em descansar a qualquer custo e a rotina de um jornal no dia de demissões em três estratos sociais. Caco Belmonte tem um cigarro na mão para torturar com queimadura. Ponto alto.

¿ Christina Dias recorre aos espaços íntimos como o pátio, quarto e portão para desenhar o abandono do mundo. São famílias desagregadas, que perderam o motivo e o frescor, que mexem unicamente os movimentos da memória. Há um único problema sério, dizia Camus: o suicídio. Completaria: o suicídio do mundo, não do homem.

¿ Filipe Bortolini utiliza um enredo policial para fazer trama de interior de Estado (afinal existe suicídio culposo?), a exemplo de séries televisivas que perduram a curiosidade, e o desconsolo de um homem para fazer solidão. Entre idas e vindas da garrafa, descobre que o fundo de um copo vazio é mais luminoso do que quando cheio. "Vocês já tiveram melhores rótulos, garotas, e minha cara já foi melhor".

¿ Cinismo é um jeito autodestrutivo de generosidade.

¿ Laís Chaffe não está no livro por acaso. O que ela quer é fuçar a ferida para ver sua altura. "Chega ou não ao osso?" Chega! Oferece dois painéis sobre o amor doméstico, que parece selvagem visto de dentro. Um pai é desmoralizado pela doença e um homem não aceita levar um fora discretamente, colocando sua mulher em pânico e empregando o gato como refém.

¿ Tudo é pacato até que se conheça verdadeiramente.

¿ Flávio Ilha é uma má companhia para a verdade. Mente para a literatura com a própria literatura. Inventa autores, livros e a si mesmo com pseudônimos. Metalinguagem para sinalizar que a vaidade não faz um autor, mas bem que pode destruir.

¿ Afetação é quando não se fala nem mais o silêncio sem uma citação.

¿ Dependendo, fatalidade entre tantas opções ruins é sorte.

¿ O conto muda sua idéia ao final. Não sei se é por veleidade ou por paranóia. O conto pensa que o leitor já descobriu o desfecho, teme que a história seja pirateada no início e muda o destino de repente. Luciana Veiga segue à risca a dissimulação. Estou a seguindo de carro e zás, ela sumiu. Em A Concha, o amor proibido entre primos desaba em escatologia pouco romântica. Em Quase uma mulher fatal, um assalto aproxima desconhecidos, pondo a namorada em desespero de ciúme.

¿ Luiz Paulo Faccioli tem uma pegada humanista, de descrever as miudezas e fechar os sentimentos no microscópio até surgir bichos psicológicos letais. Conta a trama de uma doença incurável e seus reflexos na consciência e de como o corpo é capaz de adoecer sem morrer. Em Mesa de bar e O teto do mundo, acentua o nervosismo em situações-limite. O nervosismo torna qualquer um loquaz e desajeitado em seus pensamentos.

¿ A doença é uma fatalidade que se leva ou à morte ou ao amor.

¿ Marcelo Spalding entranha-se em cortes súbitos da existência, puxando os vários lados do espectador. Visão de jornalista a serviço do escritor. Violência e miséria temperam acertos de contas entre parentes. O ódio começa em casa.

¿ Todo fantasma somente faz visita de negócios.

¿ Brutus e Olívia Palito comem beterraba.

¿ Popeye é marinheiro, mas o vejo unicamente em terra firme. Somos o que não enxergamos. Isso é uma fatalidade.

¿ O futuro não redime o passado, porque o passado já é memória inventada.

¿ As narrativas desse livro têm um mesmo encanamento na dor. A água sempre encontra um lugar para sair. Ainda que derrube as paredes.

10:56 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 08, 2005

E O ESPINHO?
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Sou desconfiado com o Dia Internacional da Mulher. Como sou cético com o Dia dos Namorados. Nessas datas, esquecemos de pensar para convencionar gestos e gastos. É um cuidado protocolar para não magoar a corrente, a enxurrada de manifestações, os compromissos festivos. Um dia de rosa deslocada dos espinhos. E qual é o espinho? Continuar comparando a mulher com o que o homem faz ou deixa de fazer. A mulher ganhou terreno no trabalho e assume cargos antes dirigidos por homens. A mulher conduz ônibus. A mulher joga futebol. A mulher apita jogos. A mulher comenta esportes. Só falta correr na Fórmula 1? Existe o hábito machista de dizer que a mulher se emancipou ou evoluiu tendo como referência a ocupação dela em atividades ditas masculinas, que na verdade nunca foram masculinas Ser dona de uma empresa e ser dona de um estádio não aumentam a cotação da mulher. Mulher não tem cotação, porém valor. Sempre foi política mesmo quando não podia se candidatar. Não depende de uma cota para ser votada. De uma chance para ser vista. De um amor para ser compreendida. De um emprego para dizer sua opinião. A mulher é incomparável desde sempre. Mania de moldar à mulher por uma realidade masculina. E o que elas fizeram antes dos homens, não conta? E o que os homens fizeram a partir dela, não conta? Não sei, não sei, é uma chatice tremenda falar de gênero quando não somos capazes de mudar a própria rotina intelectual. Mulher tem poder, que a autoridade masculina demorará a entender. Poder e autoridade são distintos. Poder é o que se conquista naturalmente, autoridade é uma adaptação social, provisória e efêmera. Meus filhos não me procuram quando estão doentes. Procuram a mãe. A confiança que emana dela vem do cuidadoso detalhe, a sinfonia corrigida à mão, o abraço que protege e conforta. A mulher oferece a intimidade da percepção, a capacidade periférica de enxergar do lado de dentro para fora. É atenciosa com o que não oferece utilidade. O homem importa-se com o domínio, não com a intimidade. Quantas vezes já vi um homem apresentar orgulhoso sua namorada como uma roupa exclusiva e cara para provocar inveja? A mulher tem a necessidade de ser feliz, o homem parece que tem a obrigação de ser feliz. Felicidade não se herda.

11:54 AM :: Comentários:

DIÁLOGO COM MEU FILHO DE 3 ANOS
Foto de Edward Zvingila



- Há muito muito sol lá fora.
- Não, pai, há um só.

9:07 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 07, 2005

A PACIÊNCIA DA FRAQUEZA

Fabrício Carpinejar



"Fiquei escura por dentro. Nada que dure muito, espero. Li numa carta do Caio F. A. "a fraqueza me deixa impaciente". Eu sinto a mesma coisa, e é o que acaba me salvando. De qualquer forma, não é um escuro árido, quase nunca é. Meus escuros são cheios de uma umidade familiar, uns cheiros salgados. Consigo me aninhar dentro deles e ficar lambendo o pêlo como um gato. Mas o brabo é aquela sensação física, sabe? Não é possível que só eu tenha! Uma sensação muito específica acima do estômago. Uma vez eu a descrevi para uma doida que ensinava técnicas de relaxamento (as coisas que eu já fiz!!!) como uma esfera de chumbo, ou um buraco negro, não sei qual das duas imagens se aplica melhor. Um peso horrível ou um vazio onde tudo cabe, e some. Mas sobretudo onde alguma coisa dói."

Minha amiga, há dúvidas que são anti-sociais: se isolam, não questionam, não levantam o braço, não pretendem se resolver, não aceitam companhia. Elas me dominam em alguns dias. Fecho-me na sala, no quarto, onde tiver paredes e calhas. E o silêncio me perturba, estar sozinho me perturba, estar protegido me perturba. Nesses dias, sou eu que me incomodo. Não ter nada para fazer, nada para pensar, nada para ouvir é profundamente aborrecido. Não depender de mim é insuportável. Mergulho nas coisas para me afogar e acabo as decifrando. Fracasso ao me ferir porque grito bem antes de machucar a pele, como uma criança que berra para negociar. As crianças são sábias, o que fazer com elas quando gritam em locais públicos? O pai e a mãe não descobriram se o melhor é ceder e não passar por vexame ou sufocar a manha com vigor e suportar o grito mais alto, o escândalo dos olhos e o julgamento da rua. Entendo essa umidade salgada, que é mais uma lentidão do que uma luz. Descobrir o que acontece não resolve. Não se diz nada, não se arrisca uma palavra, fica-se calado um tempo imenso olhando o inseto que pode ser a própria boca - qualquer pergunta o assustará. Desde piá, entro em lugares onde mais temo. Havia uma casa abandonada, fantasma, em minha rua. Enlouqueci de susto, mas pisei lá dentro. Segurei na maçaneta da porta e baixei o trinco - queria ter corrido no ato e insisti. Eu disputo corridas com o meu pavor. Os colegas exaltaram minha coragem. Toda coragem é uma interpretação equivocada, era o mais medroso da turma. Precisava me livrar do medo por isso entrei ali, o que não significa que não tenha medo. Tinha e tenho o medo em excesso. Às vezes procuro dar amor e dou medo. É involuntário, ele vem misturado no sangue.

O vazio não dói, senão haveria remédio. E como achar seu local, seu esconderijo preciso? Se pudesse explicar minhas manias, explicaria minhas virtudes. Por que unicamente freqüento meu banheiro e não suporto outros banheiros que não o meu? Por que não como nenhum salgadinho frio em festas e casa de amigos? Por que estaciono apenas em garagens ou em esquinas? A loucura não é o temperamento, é a ausência de temperamento. Minhas pequenas fobias me resguardam. São minha sanidade. A fraqueza me ensina a paciência.

Somente quem entra dentro de si pode dizer que conheceu o mundo, ainda que não se agrade com o que encontrar.

6:42 AM :: Comentários:


Domingo, Março 06, 2005

Estado de São Paulo, Cultura, Domingo, 06/03/05

"HÁ PERSONAGENS QUE SÃO MEUS CONSELHEIROS"

CARPINEJAR -Apreço pela Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo



Fabrício Carpinejar, de 32 anos, poeta gaúcho, é autor de As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998), Um Terno de Pássaros ao Sul (Escrituras Editora, 2000), Terceira Sede (Escrituras, 2001), Biografia de Uma Árvore (Escrituras, 2002), Caixa de Sapatos (Companhia das Letras, 2003) e Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004). Na Bienal do Rio lançará livro de poesia pela Bertrand Brasil. Recebeu vários prêmios, como Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); e o Açorianos de Literatura, edições 2001 e 2002.

Que livro você mais relê?
A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

E que livro relido ficou melhor?
Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado.
Antologia Poética, de José Chagas, escritor de São Luís. Citaria ainda o argentino Macedonio Fernández, que inspirou Jorge Luís Borges.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.
Uma experiência recente: Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé. Título convidativo e enredo pouco inspirador.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Assim na Terra, de Luiz Sérgio Metz, a mais densa prosa poética feita no Rio Grande do Sul. Peguei emprestado e não devolvi.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
Quando Riobaldo descobre o segredo de Diadorim. Ela está morta e ele recapitula o seu amor obscuro, sua neblina e doidagem (Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa). Ou o final de Macabéia, de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, quando a protagonista se encontra com sua profecia. E ainda a despedida de Morte em Veneza, de Thomas Mann.

Que personagens ganharam vida própria na sua imaginação de leitor.
Há personagens que são meus conselheiros. Brás Cubas, de Machado de Assis, é meu amigo mais antigo. Eu chego a sentir o irritante cheiro de sua loção pós-morte.

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
A Metamorfose, de Kafka. Não há nem saída de incêndio.

E que livro mais o fez pensar?
Poesia Toda, de Herberto Helder. Livro que exige pacto: ou o leitor está com o autor dentro do espelho ou o leitor não enxergará a si mesmo.

Literatura policial é um gênero menor? Se a resposta for negativa cite um livro maior do gênero. Se for positiva, diga por quê.
Não, literatura não estraga fora da geladeira ou da universidade. George Simenon prova a longevidade do romance policial. Dos brasileiros, Flávio Moreira da Costa (Três) e Luiz Alfredo Garcia-Roza (O Silêncio da Chuva e Achados e Perdidos).

Cite:

Um livro cansativo, mas bom
Paradiso, de Lezama Lima.

Um livro que você acha muito bom mas que jamais leu.
Não existe isso, mas Finnegans Wake me transforma em troglodita.

Um livro difícil, mas indispensável.
Sonetos, Fábula de Polifemo e Galatéia e As Soledades, de Góngora.

Um livro que começa muito bem e se perde.
Estorvo, de Chico Buarque. O começo - a partir de um olho mágico - é perturbador. Depois é muito pensamento difuso para pouca ação. O melhor dele é Budapeste.

Um livro que começa mal e se encontra.
O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco. Voltei seis vezes até pegar o ritmo.

Um livro pretensioso.
A Comédia Humana, de Balzac. No bom sentido. E Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Sem pretensão, não existe ousadia e invenção.

Um livro pior do que o filme baseado nele.
Um precisa salvar o outro. Se os dois são ruins, o diretor foi fiel ao livro. Não me lembro ou não quero me lembrar.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?
Os livros de Pablo Neruda, com exceção de Residência na Terra e Cem Sonetos de Amor. O autor se tornou uma grife, transformou suas metáforas em jogo e sacrificou a autocrítica pela popularidade. Palavroso. Prefiro a insolência do conterrâneo Nicanor Parra e a aridez do peruano César Vallejo.

De que livro você mudaria o final? Por quê?
Capitães de Areia, de Jorge Amado. A literatura perde o jogo para a ideologia. É um final conformado, açucarado, que tenta redimir politicamente o destino da criança.

Que livros que contrariam suas convicções mas que ainda assim você julga recomendáveis?
Viagem ao Fim da Noite, de Louis-Ferdinand Céline.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.
Obras assassinadas são aquelas que não são vertidas do idioma original. Excelente tradutor é Ivo Barroso, com a Poesia e Prosa Completas, de Rimbaud.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro (s) publicado (s) nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?
Eles Eram muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, e Lorde, de João Gilberto Noll.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?
Libertinagem e Belo Belo, de Manuel Bandeira. Pela explosão cotidiana.

Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Excluiria da lista qualquer livro que fez escola. Deixaria somente os que não deixaram herdeiros. Na poesia, um esquecido é Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima. Na prosa, Obra Completa, de Campos de Carvalho, o melhor de nosso humor lírico.

Sobre a crítica:

Que livro festejado pela crítica você detestou?
Um Escravo Chamado Cervantes, de Fernando Arrabal. Irritante e pernóstico.

E que livro demolido por críticos você gostou?
A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. Obscenamente divertido.

E que bons autores você só descobriu alertado pela crítica?
Georges Perec. Fiquei viciado depois. Vida, Modo de Usar divide minha preferência, em termos de virtudes imaginárias, com Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.

Cite um vício literário que você considera abominável.
No texto, prolixidade, pomposidade e arrogância. Fora do texto, colocar a mão no queixo, tipo O Pensador de Rodin e fazer pose de intelectual nas fotos.

Que virtude mais preza na boa literatura?
Simplicidade e arrebatamento.

11:46 AM :: Comentários:


Sábado, Março 05, 2005

MANDRAKE!

Fabrício Carpinejar



Não existe preparação para amar. Mesmo que eu decore as posições do Kama Sutra, na hora minha perna vai faltar com a palavra. Não existe roteiro. Não compreendi porque guardo manuais de instruções de geladeira, carro, liqüidificador, som. São totalmente dispensáveis. A primeira vez em que peguei uma ave com as mãos levei um tremendo susto. Fiquei em pânico, com medo de apertar demais e machucar o bicho ou afrouxar as asas e ele voar. Na vida, fala-se do meio-termo. Conseguir o meio-termo é uma bronca. Nas corridas da escola, dava um pique desgraçado no início, dominava a corrida até a metade e depois via os colegas me abanando em cada ultrapassagem. Controlar, suportar e esperar não combinam comigo. Sempre dormi ao fazer ioga. É muito confortável o vazio espiritual. Se careço de um parafuso a menos, deve ser justamente o ponto de equilíbrio. Ao perguntarem se desejo primeiro a boa ou a má notícia, peço a boa. Na segunda, já não estou mais ali. O amor é a arte da hesitação mais do que excitação. Cama é karma. Algumas regras de amantes:

- Descobrir a parte do corpo dela em que exala o perfume mais forte. Serão os pontos de maior excitação. Não precisas perguntar.

- Usar a respiração como voz.

- Não atalhar, abreviar e resolver. Mas avançar e recuar. Fazer o que mais quer para em seguida mudar de idéia. Voltar atrás como quem extraviou alguma coisa importante.

- Não pensar muito, mas pensar o suficiente para não ser refém do corpo. Assistir a si mais do que atuar.

- Namorar as regiões em que ela tem vergonha. A vergonha é discreta vaidade.

- Não atacar, conversar com as mãos, conversar pelas mãos, conservar a atmosfera sem as mãos, apenas com a proximidade da nudez.

- Defender-se para mostrar tua vulnerabilidade.

- Escutar o que ela não disse. Se ela falar, perdeu a graça.

- Não ter pudor. Fome é desejo. Expor-se à confissão.

- Procurar movimentos repetitivos e circulares. O gesto não termina de começar.

- Acariciar as costas com a cabeça e o rosto.

- Concentrar-se na dispersão.

- Não confundir preliminares com massagem. Não banque o sério pois entedia. Combinar tranqüilidade (estar à vontade) com insegurança (não saber o que vai acontecer). Despistar tua movimentação.

- Quanto maior a espera, maior será a eletricidade. Não aguarde respostas rápidas. Desprendimento é diferente de descompromisso. Desprendimento é doação.

- Não dormir depois. Não se afastar com pressa. Continuar se beijando mansamente.

- Não questione se ela gozou. Ela vai detestar ou mentir.

- Esquecer qualquer regra no momento.

11:39 AM :: Comentários:

POR DENTRO

Confira entrevista de capa do suplemento infantil Sininho, do jornal VS (Grupo Editorial Sinos), que abordou meu livro "Porto Alegre e o Dia em que a Cidade fugiu de casa" (Alaúde), ilustrado por Eduardo Nasi.

Vamos bater um papo com o nosso poeta?
Carpinejar brinca com as palavras para a gente conhecê-lo melhor

Por Rosana Sperotto


Como as pessoas se tornam poetas? Não tem faculdade pra isso, não é?
Não tem universidade e escola para se tornar poeta. Assim como não há escola e universidade para se tornar artista de circo. Poesia é alegria de brincar com as palavras, de fazer jogos de adivinhação. É como cabra-cega, a palavra se esconde e eu a procuro, eu me escondo e a palavra me procura. Quem se encontrar primeiro, bate na árvore. A poesia acontece naturalmente na infância. Depois todo mundo quer falar certinho, comportado e esquece de transformar as imagens e misturar as coisas. Falar diferente não é falar errado, e falar diferente é fazer poemas. Posso dizer que poesia é uma receita sem livro de instrução. Uma receita de olho.

Quando você descobriu que queria ser poeta?
Quando não sabia mais onde colocar minha vontade de amar o mundo. Meu quarto já estava cheio e a porta não mais fechava. Eu queria que meus amigos da escola se importassem mais com quem sofria em silêncio. Havia sempre um aluno triste no fundo da aula e eu escrevia poesia para o acalmar. Em alguns dias, o aluno triste era eu. Quando a gente escreve, a gente não aceita a realidade, a gente faz a realidade.

Já fazia poesia quando era criança?
Quando criança, eu desenhava. Desenhar é o começo da poesia. Todos os livros deveriam ser preenchidos com lápis de cor. Fui um menino dos telhados, dos muros, de roubar frutas e de jogar futebol até a luz cansar. Adorava espionar meus vizinhos, nunca tive binóculo, tinha uma ameixeira de seis metros, que era muito melhor. Acabava descobrindo tudo o que acontecia no bairro. Sou um fofoqueiro das coisas do coração.

Gostava de ler quando era menino. O quê?
Meus pais me contavam histórias. Mas não somente na hora de dormir. Em toda hora. No almoço, na janta, no carro. Vi que não precisava atravessar o mundo para ter aventuras. Bastava narrar um dia no pátio. Lia Monteiro Lobato e a coleção Vaga-lume, meus preferidos. O que eu mais gostava de ler nas horas vagas: enciclopédia e dicionário. Não entendia nada. Mas temos memória para guardar o que lemos até entender. Fazia um supermercado de letras na sala de casa. Vendia palavras estranhas como frutas. Minha mãe comprou várias palavras. Acho que ela colocou em seus livros. A palavra mais cara era saudade, a mais bonita de todas. Queria me casar com a palavra saudade, sem me separar.

Seus pais também são poetas. Como você vê aquele ditado ''filho de peixe, peixinho é"?
Não vivi num aquário, mas em alto mar. Ter pais poetas é morar em um barco. Vivemos pensando longe. E o único que tem cara de peixe na família sou eu, que fico de boca aberta. Tive problemas respiratórios quando pequeno. Asma e alergia. Respirava pela boca. Meus colegas diziam: 'tu tens cara de peixe morto!"

A gente acha que numa casa de tantos poetas tudo é poesia. É assim mesmo?
Não, há contas, rotina e amizade como em qualquer casa. Éramos quatro irmãos e cada um ajudava com uma tarefa: lavava a louça e varria a calçada. Quando estou cansado, vou lavar louça. É minha terapia. Gasto um litro de detergente. Faço bolha de sabão com as mãos. O melhor dos meus pais é que não ficavam lendo poemas, mas conversavam poesia como quem indica a localização de uma rua. O amor é simples. O amor é catar o miolo quente do pão. Não sei por que complicamos.

Dizem que os poetas vivem no mundo da lua. Dá para explicar isto?
Eu sou distraído mesmo. Quando distraído, é que estou concentrado na poesia. Já estendi roupa suja, pensando que estava lavada, já passei a roupa suja e guardei no armário. Minha mulher chegou em casa e perguntou o que eu tinha feito com as roupas imundas na máquina. Não sabia que ela não tinha ligado a máquina. Poeta não é astronauta. Não teria como pagar a viagem à lua.

Quantos livros você já escreveu?
Sete: As Solas do Sol (1998), Um terno de pássaros ao sul (2000), Terceira sede (2001), Biografia de uma árvore (2002), Caixa de sapatos (2003), Cinco Marias (2004) e O dia em que a cidade fugiu de casa, ilustrado pelo meu amigo Eduardo Nasi.

Dois deles têm nome de brinquedos. A infância deixou boas recordações?
Sim, a infância não deixou apenas boas recordações, a infância formou meu caráter. O que sou hoje é resultado dela. Falava errado, tinha língua presa, feio como uma tamanduá sem formiga. Aprendi a superar as dificuldades, a me divertir, a não ter medo da aparência. O que aprendemos com esforço valorizamos mais depois. Na primeira série, a professora disse que não teria condições de ler e escrever. Não se pode subestimar a fé de uma criança. Só é dizer que não posso fazer que faço, mesmo que seja por teimosia. Deus não tem limites. Nós que criamos limites porque não suportamos sua beleza.

É muito diferente escrever para as crianças?
Não vejo diferença, apenas que a poesia fica mais solta e a prosa corre mais livre. Não subestimo a criança a ponto de dizer que ela não vai entender algo. Ela entende mesmo o que não falamos. Não preciso dizer que estou triste para os meus filhos, eles se aproximam naturalmente procurando me abraçar.

Quantos filhos você tem? Eles gostam de livros, de ler e escrever?
Dois. Afora os leitores, meus filhos adotivos. Vicente ainda não lê. Tem três anos. Ele é atento quando eu e a Ana contamos histórias. Parece que está rezando de tanta atenção: os olhos arregalados e a ansiedade da boca. Mariana, de 11 anos, escreve sem parar. Disputa o computador comigo. Faz teatro. Declama. É deslumbrada pela música da poesia.

Você lê muito?
Três livros por semana, no mínimo. Mas fiz um pacto comigo: não adianta ler sem viver o livro depois. A cada livro, leio uma vida. Ou seja, escuto a vida de uma pessoa desconhecida Três livros por semana, três vidas a descobrir por semana.

Acha que é verdade mesmo que para saber escrever a gente tem que ler bastante?
Para ler bastante, é preciso antes escrever muito. Essa é a verdade.

Como nasce a inspiração? Quais as coisas que mais inspiram?
A inspiração nasce do mínimo, do traste, do que não tem valor, do que é recusado. O terreno baldio está cheio de poesia. Aves carregam ciscos para o ninho me inspiram. Casais de namorados brigando no ônibus me inspiram. Uma criança tocando sanfona com uma caixa de papelão me inspira. Quando fui pai, eu tentava dar brinquedos caros aos meus filhos. Percebi que eles não davam bola. Na verdade, estava dando os brinquedos para mim, não para eles. Eles gostavam de coisas ínfimas, um io-iô, uma corda, um jacaré de borracha. E gostavam mais de inventar seus brinquedos. Com uma fita adesiva e gravetos, criam o brinquedo que buscavam.

Você escreve poesia e histórias todos os dias?
Todo dia, inclusive quando estou conversando contigo. Escrever é musculação para o espírito. O espírito corre, joga, se exercita para ficar em forma.

Além de poeta, você é jornalista. Trabalhar sempre com as palavras não cansa?
Eu amo o que faço: sinto prazer ao ajudar as pessoas. Sinto prazer ao ver que um poema pode dar sentido a uma vida, pode dar sentido a uma recordação, pode dar sentido a alguém que havia perdido o sentido da própria vida.

Como você gosta de se divertir?
Eu sou a minha melhor piada: rindo de mim. Minha maior diversão é andar de mãos dadas com Ana: ir ao cinema, jantar fora, ouvir como foi seu dia de noite. Nada é mais divertido do que namorar.

Seu trabalho é reconhecido aqui e fora do Brasil. Como é ficar assim famoso?
Famoso? Eu serei sempre famoso para a minha mãe coruja. Todo filho é famoso para sua mãe. É essa fama que me conforta.

Vamos brincar de stop de mentirinha?
Um país: Portugal
Uma flor: Orquídea
Uma comida: Feijoada
Um filme: Monstros S.A
Um carro: Gol
Uma cidade: São Leopoldo e Porto Alegre
Um livro: O menino do dedo verde, de Maurice Druon
Um time: Inter
Um animal: Mundo real: cachorro. Mundo imaginário: lesma
Se tivesse que escolher as 10 palavras que mais gosta, quais seriam?: Ana, Vicente, Mariana, Saudade, Rumor, Pólen, Colméia, Oceano e Pomar

9:29 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 04, 2005

Últimos dias de inscrições
Carpinejar e Cíntia Moscovich realizam oficinas

Poesia e conto podem andar juntos. Fabrício Carpinejar e Cíntia Moscovich acreditam que sim. Os gêneros têm mais em comum do que a crítica imagina. Ambos contam uma história, com o arrebatamento ao final. Ambos cruzam realidades antagônicas e exploram o formato curto e breve.

Em função da grande procura pelas oficinas dos dois no Centro Cultural Diaglaser (Rua Dr. Alcides Cruz, 126, em Porto Alegre), os escritores decidiram abrir uma nova turma. Há 24 vagas até segunda (16/3). Para essa nova turma, Carpinejar e Cíntia Moscovich realizarão aulas de forma conjunta semanalmente, às quartas, das 19h às 21h20. Informações podem ser obtidas pelo telefone (51) 33785015 / 33785005 ou pelo e-mail marisa@diaglaser.com.br

Ainda estão abertas as matrículas para as oficinas feitas separadamente por cada autor, às segundas, das 19h às 21h20. Restam poucas vagas. Cíntia apresenta os segredos do conto e Fabrício mostra como é possível fazer poesia mais do que versos. Os objetivos das oficinas são desmistificar a figura do escritor, esclarecer a experiência literária e intensificar a leitura e o senso de observação da realidade.

(Jornal VS, Grupo Editorial Sinos, Variedades, 5/3/05)

10:58 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 03, 2005

AMOR PERFEITO
Gravura de Magritte
Para Rodrigo e Letícia, meus amigos

Fabrício Carpinejar



Namoros e romances interrompidos provocam uma irritante pergunta anos depois: como seria a minha vida se estivéssemos juntos? Novos relacionamentos não apagam a lembrança interrogativa. A marca. O número do telefone na agenda. A ausência de uma última chance. A esperança de um encontro acidental.

Um desejo pela metade ainda é um desejo inteiro. O amor não se encerra, se abandona. Amor com dedicação dos dois, e dedicação é compreensão, não pode dar errado. O que dá errado é o medo da responsabilidade, que gera cobrança. Quanto maior a chance de vingar o amor, mais se cria um jeito de interrompê-lo. São detalhes bobos e tremendamente ridículos que costumam separar. Um pouco de esforço, um pouco de paciência e nada teria acontecido. O orgulho é um péssimo confidente e não deixa voltar atrás.

Amor não é fácil. O que é forte perturba, não acalma. Não conversei até esse momento com nenhum apaixonado com a cabeça no lugar. Todos estão sem cabeça e uma boca imensa a murmurar sozinha. Assim como os separados têm suas razões e concordo com ambos os lados. Mas por que os separados tem tanta necessidade de explicar o fim do namoro ou do casamento? A gente só explica o que não conseguiu entender. Minha culpa é explicativa, minha confiança é lacônica. O amor que tinha tudo para ser ideal e não foi sofre do "passado do umbigo". O passado do umbigo é acreditar que a época mais feliz já aconteceu entre os dois e não há maneira de repeti-la. Concordo: não há como repeti-la. Só que o passado do umbigo não permite que a felicidade cresça de outra forma, diferente da circunstância anterior. A mínima mudança de repertório e ambos ficam chateados. Não percebem que mudaram de emprego, mudaram de idéias, mudaram de rotina. E por que não podem mudar a forma de amar? Termina-se prisioneiro do início da relação e não se busca amadurecer a diferença, e sim insistir, em grau da chatice máxima, com a semelhança (meu otimismo diz que sou muitos mesmo quando estou sozinho; um de mim deve prestar).

Outro sintoma que enfraquece o amor é a aparência diante dos colegas e conhecidos. Na hora que o par escuta: "vocês fazem um casal perfeito", cuidado, esse elogio é perigoso e apressa o vinho. Os dois são tratados como casados ainda que namorando. "O que queremos?" assume a condição deturpada de "o que eles vão pensar?". O casal passa a viver mais para fora do que para dentro de casa. A expectativa dos outros contamina a pureza do trato, do convívio, a solidão de raríssimas estrelas e terra escura. Namorar assume o despropósito de desfilar. Há tanta gente metendo bedelho na história que o par não consegue escutar suas vozes e vontades.

Casal perfeito é o que se separou alguma vez para voltar mais sereno e apaixonado.

12:30 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 02, 2005

VAIDADE
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Falei que adoro lojas, não nego, pode cheirar a vaidade. É vaidade. Mas a pior vaidade é a que tenta dissimular que não é vaidade. Ter vaidade é sadio, não ter vaidade é doença que pode levar à loucura ou à santidade, dois extremos de grave abnegação. A questão é administrar a vaidade e cuidar para que ela não se converta em veneno. A vaidade que desliza em poder e, depois, em autoritarismo termina com qualquer feição. É narcisismo e megalomania. Vaidade boa é se preparar para o outro, se preparar para ser amado, se cuidar para valorizar o cuidado. Eu tenho vaidade de meus filhos, tenho vaidade de minha mulher, tenho vaidade com quem me lê, tenho vaidade com os meus pais, tenho vaidade do que faço. Há dias tão alegres, com a luz batendo de lado para não me cegar, que tenho vaidade de Deus. É errado? Não vejo nenhum problema. Eu escolho as roupas por vaidade, escolho as palavras por vaidade. Vaidade é fútil, então sou vaidosamente fútil. Vaidade para mim é a necessidade de sair de casa. O que adianta trancar o mundo no quarto e esperar que o trinco se mexa espontaneamente? A futilidade é o fundo que sobe até a superfície. Quem não tem fundo não pode nem ser fútil. No tempo da faculdade, queria ser marxista, revolucionário, encarnava tendências que transmitissem com fidelidade a aura de intelectual engajado. Engraçado: era um tempo em que pregava paz, mas todas as conversas de bar terminavam em briga. Na política, extrapola-se a vaidade da ideologia. Não admitia ser contrariado, trocar de posição e opinião, ceder argumentos. Desejava mudar o mundo a minha maneira, quando o mundo não tinha maneiras para chegar em mim. Não havia saideira para apagar o incêndio. Odiava menção à moda, aos caprichos da roupa. Modelo significava alienação. Beleza significava superficialidade. Freqüentava sebos, nunca livrarias. Usava um macacão de oficina (às vezes sem camisa, acredite) e me interessava apenas em discutir a realidade política. Não notava, não percebia, mas portava uma vaidade ainda mais grossa que a da aparência: a das idéias paradas. Conheço gente que não aceita o contraponto, formas de se comportar e pensar senão a sua. A vaidade das idéias paradas fala que é contra o preconceito para ser preconceituosa. Vaidade que é autodefesa, condicionamento, violência. Vaidade que não é possível vestir, e ataca para não ser descoberta debaixo da pele.

11:01 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 01, 2005

ADORO LOJAS
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Fico cansado quando escuto "a futilidade das roupas, a futilidade das lojas, a futilidade de desfiles e modas". O discurso pronto a declarar despojamento e vida franciscana. É o mesmo que criticar os homens pelo futebol. Cansa a lengalenga conta o consumismo, de que devemos encampar valores altos, nobres e lúcidos da boca para fora. Não cola subir no púlpito para fingir desenraizamento. Não se agüenta ser profundo todo momento - seria um tédio letal falar de Sartre e Simone de Beauvoir a cada sinal de trânsito. A futilidade é a chance de reaver o descanso e o equilíbrio. Confesso: adoro lojas, adoro comprar roupas. Algum problema? É um exercício de imaginação. Provar, tirar, pôr as peças. É ser escalado para fazer o figurino de um filme, testar novas personalidades, impor personagens fora de minha rotina. Uma gravata muda o pescoço. Um casaco ajeita a cintura. Um sapato abre o rosto. Não se deve subestimar a mistura das cores. Escolher a roupa é ganhar o poder de definir se vai chover amanhã ou não. Ou alguém confia em quem combina o cinto com as meias? Posso estar cheio de problemas, atarefado, apressado, brigado, acabei de me desentender com a minha mulher ao telefone e esqueço tudo ao entrar em uma loja. Recebo a tranqüilidade de mão beijada. Toda loja se transforma em minha casa na serra, minha casa na praia. Fico anestesiado, festivo, brinco com as atendentes. Não há ninguém incomodando e xingando, suplicando ajuda, me questionando. Terei um tempo só para mim. Todo o provador se torna uma cama com espelho no teto. Intervalo em que visito meu corpo com satisfação. É narcisismo, talvez, narcisismo ao avesso, de procurar ser um outro bem melhor do que sou. E qualquer um pode fazer isso de graça. Não estou falando em dívidas. Experimentar não tira a carne. As lojas são o meio essencialmente democrático até a hora do pagamento. E que satisfação entrar em um número menor! Compro a roupa mesmo não gostando dela. Para usar de peça testemunhal em dias de desvalia profunda. Sou metrossexual, duvido. Dificilmente alguém com meu nariz será metrossexual. Aliás, nem sei como entrar no grupo. Tem que ter indicação como no orkut? Parece mais uma decisão sexual do que uma moda. Responderei a partir de hoje os questionário de embarque colocando um x em outras opções: não sou homossexual, heterossexual ou bissexual, sou metrossexual.

10:29 AM :: Comentários: