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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Abril 29, 2005

O PRECIPÍCIO DO PECADO
Gravura de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Tenho desvio de septo. Operei as adenóides em hospital inclinado de morro. Foi esquisito e lúbrico ficar com um camisolão aos 7 anos, com a bunda de fora. Os pais não entraram comigo na sala de cirurgia. Calcei pantufas enormes. Lembrava uma criança brincando com as roupas do pai, zanzando com as gravatas nos joelhos e esquiando com os sapatos paternos pelo corredor. Não me recordo de detalhes, vi o refletor aceso e a anestesia adoçando o sangue até adormecer. Acredito que os médicos quebraram meu nariz na operação. Antes não era tão torto ou talvez tenha crescido espontaneamente, apesar de não entender como ele cresceu mais do que a feição. Minha vida prefere suspeitas do que curiosidades. Adorava palavrão. Palavrão não tem sermão. Entre o palavrão e a homenagem, escolho o primeiro que não tem discurso.

Todos os meus complexos residem no fato de que fui obrigado pela fonoaudióloga a usar bico. Precisava expandir o céu da boca estreito e a arcada dentária minúscula. Tive boca de anão em um rosto de jogador de basquete. Dez anos e usava bico, a recuperar o tempo perdido e a ausência de mamadeiras e chupetas na infância. Mamava o ar enquanto os colegas ostentavam aparelhos nos dentes. Como poderia ser normal usando bico? Ciúme das instalações elétricas na boca. Meu bico, insosso bico, me emprestava deficiências. Ioiô dos lábios. Virei a boneca predileta da professora: falava e fazia xixi.

Mas gostava mesmo do colo de minha tia gorda. Vestido estampado, quadriculado, xadrez. Um sofá. Eu me esparramava no colo dela e assistia tevê. Minha tia era mais fofa do que colchão d' água, apresentava braços longos de poltrona, fazia barulhos divertidos com o estômago e eu não corria o risco de cair. Uma amiga da tia, a vizinha Isolda gritava, urrava de noite, arfava "Ah Ah Ah Meus Deus". Perguntava ao pai se ele iria tomar alguma providência e parar com aquela briga. O pai argumentava com a cabeça: "não é nada". O irmão mais velho debochou que ela gozava. Pensei que gozar significasse rir. Não entendia a indiferença das diferenças. Não é que uma manhã ela foi encontrada morta depois de ser abandonada pelo marido. Olhei bem severo ao meu pai e não o perdoei: "eu te avisei!".

Minha mãe não rezava missa para morto. Rezava missa para vivo, defendia que o vivo ainda tinha salvação. Ela se antecipava de rezas. "Morto tá resolvido, os vivos que podem cair no precipício do pecado". Durante noites, sonhei que caía no precipício do pecado. Minha vertigem surgiu dessa expressão. Peco com medo de altura. Os joelhos de minha prima iniciavam o precipício do pecado. A mãe nunca me contou, deve ter rezado umas quantas missas em meu nome. Fui coroinha involuntário.

Um dia não achava o cadarço para jogar futebol. Amarrei o tênis com o terço. Fiz três gols e quebrei a perna. A alegria custa caro. Ao me defender dos zagueiros, o terço perdeu três dentes na briga: desfalcado de duas pedras da ave-maria e uma pedra do pai-nosso. Felizmente, as orações foram abreviadas em casa. Meus amigos deixaram sua assinatura no gesso e esqueceram o bico. Quando melhorei da perna, sumiu a atenção dos amigos. Minha vocação é ser uma parede pichada.

Um dos meus horrores foi descobrir que a barata sobreviveria à bomba atômica. Não entrava na minha cabeça que um bichinho esmagado por uma sola de chinelo agüentaria a radiação. A barata tem um jeito de tevê portátil, com antenas maiores do que as patas. O homem é uma barata entre Deus e os anjos. Não desaparece e, de vez em quando, arruma asas. Barata voadora é como santo levitando. Os santos se isolam para ficar a sós com os demônios - não deixa de ser um encontro amoroso. Tremo ao ouvir histórias de quem saiu de seu corpo. Se eu pudesse sair de meu corpo um pouquinho, não voltava. Não desperdiçaria essa chance. O corpo é uma penitenciária de alto risco, cercada do alto mar da respiração. Tentei me hipnotizar e o relógio parou. Também não dá para se hipnotizar com relógio de corda! Os pais avisavam que me parecia com o avô. Cheguei ao avô e pedi com urgência que escrevesse sua vida para me poupar trabalho. Não encaminhou nenhuma receita e se ofendeu com a proposta e comparação. Na verdade, eu me considero mais rascunho do meu filho do que o original de meu avô. Estou atrasado de traços. Meu pai sorria quando diziam que ele estava bem conservado. Falar que alguém está conservado é elogiar sua velhice, não sua juventude. Que diga que estou acabado, daí é elogiar a juventude.

(Da minha coluna na revista Idéias, edição de abril de 2005, da Travessa dos Editores)

11:43 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 28, 2005

COMO NO CÉU
Gravura de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Nossas viagens giravam
em torno do que esquecemos de pôr na mala.
Com o casamento, deixamos algo para trás.
Temos uma vida inteira a definir
quem de nós ficou em casa?

* * *

Sacrifiquei uma amizade
por uma palavra a mais,
um amor por uma palavra a menos,
uma leitura pela falta de insistência.
Modifico a infância ao avançar.
Esqueço a data ao preencher o cheque.
Uso chapéus dentro de casa.
Deveria ser preso por atravessar
uma praça ensolarada e não sentar.
Atravessar uma vida sem atalhar pela praça.

Eu somente não sou cínico com as crianças.
Mesmo com elas, tenho que me controlar.

* * *

Eu me assustava
quando partias sem nada dizer.
Mais assustado ficava
quando regressavas sem nada dizer.

O relógio na cozinha, pupila de faca.

Botavas o prato e a comida na mesa,
em obrigação ofendida.
Comia tuas confissões
com os talheres trocados.
Só os ouvidos se mexiam.

Nossos espelhos foram
se consumindo
no forro das portas.

(Revista Cronópios, 28/4/05 - poemas da minha nova obra, que está sendo lançada pela Bertrand Brasil, como um dos destaques do selo para Bienal do Livro do Rio de Janeiro)

9:56 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 27, 2005

CAIXA DOIS DO AMOR
Gravura de Thomas Gainsborough

Fabrício Carpinejar




Como o amor pode ser tão perdulário em seu início e tão pão-duro em seu final? Como um homem ou uma mulher se doam no começo como santos para se expulsarem depois com a implicância de demônios? Como a celebração desemboca em exorcismo? Será que a avareza do final foi disfarçada no começo? Ou aquilo que temos deixamos de ser?

Complicado equacionar essa resposta. Se o homem ou a mulher fossem o que são no enlace não haveria desenlace. Mas eles mudam. Mudam drasticamente. No início, o amor é perdulário. Gasta o que não viu. Dedica-se a seduzir como um disciplinado marceneiro. Tudo é plaina e curva. Rosa de madeira e pétalas líquidas. Enamoradas, as pessoas contam tudo, abrem suas histórias, memórias, acidentes, virtudes e proezas com uma franqueza incomparável. Em três dias, parecem que nasceram para estarem ali, um de frente ao outro, um no outro. Não se desgrudam, não se soltam. Cedem para agradar, dançam se não gostam de dançar, escutam jazz se não gostam de jazz, comem o que sentem alergia. Vencem os preconceitos e os princípios com uma espontaneidade infantil. Entregam seus mais valiosos bens sem fazer inventário. Quando conseguem ficar juntos, a entrega mútua assume a formalidade do compromisso e os dois vão esfriando a passionalidade e entram no transe 'de já nos conhecemos". E ficam ríspidos, rigorosos, rígidos dia após dia. A generosidade seminal se transmuda em indigência. As questões se reduzem à rotina e ao que precisam comer no jantar. O sorriso é esgar, contração facial involuntária, de quem não se mantém atento e está em coma. Adentra-se no terreno da audição seletiva, do fingimento. "Eu finjo de escutar e tu finges falar; tu finges escutar, eu finjo falar". Transam pela proximidade física, não pela proximidade afetiva. Antes abertos e transparentes, agora não se fala mais nada, não se confessa mais nada, se amam e dizer isso de vez em quando basta. Não basta. Sabe-se que não basta dizer "eu te amo". A gente não pode amar uma certeza. Ama-se uma verdade. Ama-se uma mentira. Uma certeza, nunca. Pode-se no máximo concordar com uma certeza, não participar. O amor é um quebra-cabeça ao contrário, há sempre uma peça por começar, nunca uma peça por terminar.

O que acontece para a troca total resultar em privação adulta? Poupa-se o amor. Economiza-se o amor. Canaliza-se a energia do amor para outros fins (afinal, ele continuará existindo). Todo amor tem um caixa dois. Todo amor tem um ladrão, um paraíso fiscal, onde alguém desvia os recursos, as experiências e a vontade que deveriam ser utilizados para a aproximação constante do casal. O amor termina não pela falta de compreensão, de amizade e de desejo, termina sim porque um dos dois quis tirar vantagem sozinho e deixou de colaborar para a imaginação. A corrupção do amor é mais alta do que a corrupção do político, pois envolve pureza e lealdade. O amor ainda não conheceu verdadeiramente a democracia.

10:13 AM :: Comentários:

GRAVAÇÃO

Nesta quarta (27/4), ocorre a gravação do novo programa que apresento ao lado de Márcia Tiburi. Poesia e filosofia para discutir o amor, o comportamento sexual dos mamíferos, as asas assustadas dos flamingos, traumas e ilusões da democracia, miudezas do inconsciente, sonhos que não ganham o jogo do bicho e desejos que apostam alto. É um bate-papo franco e deliberamente suicida sobre tudo o que acontece na vida e não se pára para pensar. Com o nome "A Bela e a Fera", haverá sempre um convidado especial. O programa terá sua estréia em maio e será exibido pela TV Unisinos no canal 30, no sistema aberto para a região do Vale do Sinos, e Canal Futura pelo canal 32, no sistema Net. Quem quiser assistir e participar da gravação, que recebe hoje o casal de psicanalistas Mário e Diana Corso, basta chegar, às 18h, no café da Livraria Cultural da Unisinos.

10:08 AM :: Comentários:

CRÔNICA

Depois de dez edições da sua oficina de crônica "O vôo da gaivota", o escritor e jornalista Walter Galvani promove a remodelação completa e transformação do texto da apostila em seu próximo livro. Já nesta edição em Guaíba (RS), durante a 16ª. Feira do Livro, nos dias 3, 4 e 5 de maio, será aplicado junto aos participantes, o novo modelo de oficina, mergulhando profundamente na história do gênero e trazendo à tona os melhores exemplos, a fim de qualificar os participantes para a escrita, seja como lazer, seja como opção profissional.

As inscrições podem ser feitas junto à Setudec, rua Sete de Setembro, 460 e informações pelo telefone 491.18.88. A oficina terá vagas limitadas para facilitar o trabalho de orientação a todos os participantes.

10:06 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 26, 2005

INSÔNIA
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Queria ter um corpo para dormir. A casa dorme em paz. A paz sempre é barulhenta. A respiração dos filhos é como uma chaleira que me faz chegar perto. Lembro do cueiro, dos paninhos, dos aventais, dos bordados, das fraldas, das gavetas assistidas diariamente. Não faltaram panos para esticar a infância. Cheiro a nuca, contorno as golas, arrumo suas cobertas e a respiração deles não deixa a minha boca. Será que o vento que apaga a chama não é luz também? A chama é apenas um vento visível. Talvez seja assim. De pequeno, mirava o céu durante horas a descobrir quem soprava as estrelas. Acreditava que as estrelas eram nuvens que não foram capturadas. A noite não ri para as fotos. Não dormirei de olhos limpos. Não lavarei os meus olhos ao acordar. Ficarão sujos, sujos daquilo que ainda não vi. Sujos como o uniforme da escola, entre a gripe e a fome. Sujos da euforia de escorrer o queixo com a fruta. Sujos dos beijos do chão. Sujos do ciúme, da ponta das unhas na pele, das pontas do cigarro pisados. Sujos da ventilação do sangue. Sujos da ciência do soluço. Sujos do balcão das oliveiras. Sujos do que ainda não amei ou não podia amar ou julguei desnecessário amar e hoje me faz uma falta danada. Não fecho o meu caixa, devo ter somado errado, devo ter deixado alguém de fora da minha indecisa eternidade. Sujos de quem atravessou o meu caminho e não troquei um aceno sequer. Sujos da insatisfação que poderia ser desejo se fosse mais organizada. Sujos do tanque de pedra, do limo do tanque de pedra. O tanque de pedra de minha avó era tão verdadeiro. Não há verdade igual, ao menos verdade que tenha nascido de ventre feminino e não da boca de um homem. As roupas de molho recebiam braçadas de figos ao longo do entardecer. Minhas roupas cheiravam a figueiras. Corriam espantadas de pássaros. Eu me distraio. Distraído dos filhos à perturbação dos astros, dos astros ao nervosismo dos chinelos, dos chinelos aos remédios vencidos, dos remédios ao sentinela que come a marmita diante do televisor, do sentinela ao cachorro revirando o lixo, do cachorro ao carro que passa sem reparar que estou aqui no quarto andar de minha paz. Na aula, vivia distraído com o que acontecia fora da aula. Fora da aula, distraído com o que acontecia dentro da aula. No casamento, distraído com o que acontecia fora do casamento. Fora do casamento, distraído com o que acontecia no casamento. Eu me disperso com facilidade. Minha dispersão é amor avulso. Se me despedir, as ervas continuarão surgindo das frestas do muro. Se me despedir, o corpo não deixará de ser água correndo. Não me despeço, me disperso, porque crescerei contra a minha própria vontade. Sou possessivo, que mal há nisso? Sou possessivo. Nada melhor do que chamar "minha mulher", "meus filhos", "minha alegria". Não posso deixar as lembranças se tornarem impessoais. Meu egoísmo é enraizamento. Às vezes me bate um desejo de viver tanto, tanto, que até me esqueço de falar.

2:31 AM :: Comentários:

BERTRAND DO B

A editora Bertrand Brasil criou um blog para divulgar seus livros, autores, curiosidades, últimas notícias, lançamentos e encontros literários. É um espaço para comentários e sugestões. Confira.


2:27 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 24, 2005

DESABOTOANDO A CAMISA
DA CINTURA AOS SEIOS

Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Na minha infância, até ver as horas tinha que tirar o relógio do bolso; tinha que ir à sala; tinha que consultar a posição da luz; tinha que aguardar o galo e os latidos do cão. O tempo não estava no pulso, não estava evidente. O corpo se acostumava a segui-lo por dentro. Raro também era o telefone de teclas, girava o disco pesado de cada número para completar a ligação. A voz ficava parada em um único lugar, não havia jeito de fazer duas coisas simultaneamente. Telefone público provocava filas de banco. Escutar a conversa do outro acabava sendo uma fatalidade. Aprendi a sair de mim com a porta fechada do quarto. Pressentia as visitas pelo barulho na grama. Passo rancoroso: adultos. Macio: gatos. Suave: crianças. O portão emperrava quando vinha o carteiro.

Há feridas que não se curam, apenas se esquecem de doer. Há alegrias que não se completam, mudam de vento. Estar informado não é satisfação. Hoje estamos mais informados, porém bem mais insatisfeitos. Conhecemos tudo o que acontece ao nosso redor, o que não amansa a solidão. Pelo contrário, agrava a solidão. A informação não resultou em paz. Porque informação não é intimidade. A paz chega somente da intimidade.

Seduzir não é encantar, mas se estranhar. Amar virou prova de estudo, de erudição. Manuais, livros, revistas transmitem o receituário básico de conquista. Como conquistar alguém sem se perder? Como conquistar alguém sem a insegurança de não saber fazer na hora de fazer? Sacrificamos a intuição pela técnica. Seguimos uma receita que tudo é possível esquecendo de se tornar possível antes. Não existe liberdade sem personalidade. Talvez o amor seja possível, nós não. São detalhes esperando a dispersão da lanterna. Minha mulher dorme com o rosto emoldurado pela coberta. Sempre tapa os ouvidos. Parece uma astronauta se protegendo da gravidade. Ela também dobra as pontas dos travesseiros como se fossem cachos. Ao deitar, espero que ela faça esse ritual. É o meu relógio. Minha mulher quebrou dois saltos em sua vida. Para que guardo isso? Para nada. Ao amar, busco dados que só servem para amar ainda mais. Não poderei dizer o que me arrebata, o que me arrebata são os silêncios dela se cumprindo sem me perguntar. Como seu modo de desabotoar a camisa da cintura para os seios, não como o costume, de cima para baixo.

Sei que quando ela vai ao salão passa por uma loja e reserva algumas roupas. Não compra no ato. Depois de uma semana, volta lá e compra. Grande coisa? Para mim é o que interessa. Desejos se alimentam de inutilidades. Minha mulher não coloca suas roupas novas em cabides, e sim no armário, dobradinhas, durante dois meses. Seu jeito de sentar sobre uma perna revela seu jeito de encarar os problemas. Quando está com raiva, procura a janela da cozinha. Quando está feliz, recorre à janela da sala. Minha mulher pode ser a mais pacata e tediosa para quem não convive com ela, mas comigo é sobrenatural e intensa. Não nos desperdiçamos em interrogatórios; observamos. Cada sombra dela me interessa porque não sei explicar e ainda assim me faz bem.

Há o sol de gripe, que me faz espirrar; o sol de inverno, que me põe a sentar; o sol do verão, que encurta as marquises; o sol do entardecer, que troca a minha pele. Quantos sóis circulam na respiração dela?

O que me liga a ela não contarei aos amigos. Não será tema de mesa de bar. Não exaltarei aos familiares. É discreto demais para ser motivo de fofoca ou para agregar fama. É discreto como esticar uma cadeira de praia na varanda. É discreto como a fumaça de um chá em manhã de inverno. É discretamente fundamental. Nenhum homem conta o que realmente importa. O medo de ser entendido é maior do que o medo de não ser entendido. Não importa adivinhar se minha mulher fez as unhas e os cabelos se não consigo adivinhar quando ela não fez as unhas e os cabelos. Não procuro em minha mulher a mudança, visível e aberta, mas a permanência, a que a torna diferente em mim.

11:57 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 23, 2005

JORNAL ZERO HORA, CADERNO CULTURA
Porto Alegre (RS), 23/5/2005, Edição nº 14487
:

VOZ ALINHADA AO TAPETE DE ASTROS

O compositor, músico e escritor Vitor Ramil concede uma entrevista antes do show de lançamento do CD Longes em São Leopoldo. Enquanto conversa, alisa os frisos do palco à procura de linhas harmônicas e de uma ordem íntima que só ele enxerga. Sem o público e diante de si, é um menino de olhos grandes, ainda assustado com o tamanho da vida. Nem os cabelos levemente brancos o envelhecem. Evoca sua infância e as relações familiares, comenta o livro que está escrevendo e explica seu temperamento recolhido e caseiro, demorado no silêncio e nos detalhes.

FABRÍCIO CARPINEJAR*
Fotografia de Renata Stoduto


"Quando criança, tentaram me levar para uma colônia de férias. Eu me agarrei no portão e não entrei de jeito nenhum. De certa forma, continuo agarrado ao portão"

Qual a palavra que a infância roubou?
Não sei.

O que você mudaria em sua infância?
Minha infância é meio misteriosa para mim, talvez tenha tanta coisa para mudar que eu não consigo nomear ou talvez não tenha que mudar nada.

Sua infância é o esforço de nomear?
De alguma forma, acho que sim. Passei minha infância tentando nomear coisas. O que faço hoje em dia é resultado disso. Estou escrevendo um texto hoje que é a repetição de mim mesmo. História de um sujeito cuja vida foi um esforço para compreender e explicar racionalmente sua subjetividade. Isso de alguma forma comprometeu seu capital de imaginação, o atrapalhou, o bloqueou. Tive um pai que era de verdades absolutas e julgamentos definitivos. Não posso dizer que minha imaginação se perdeu na infância, porque sempre vivi graças a ela. Mas muito de meu esforço de renomear vem desse período.

Na sua permanente invenção, tem a necessidade de corrigir sua vida?
Toda correção me aproxima do que fui.

Há um Vitor real, fora do espelho?
Não existe um real, mas um Vitor aproximado, a gente muda permanentemente. Somos feitos de instantes compridos. Não sei se estou me dirigindo a quem eu era, se estou me tornando quem eu era ou apenas reagindo a isso.

E a figura materna em sua formação?
Engraçado é que escrevi Pequod sobre o pai do personagem e o que estou escrevendo agora tem na mãe uma figura de destaque. Minha mãe era uma figura muito diferente da do pai. Se o pai era quieto, a mãe tocava a vida diária e fazia a ponte entre os filhos. Os anos me fizeram repensar e tento me ver como eles me enxergavam. O adulto é mais complexo. Quando criança, tudo acontecia direto, com demandas imediatas. Quando adulto, a gente mede as experiências, faz projeções e inversões.

Sua mãe fazia seu pai existir?
Eles se completavam. A vida não ocorre gratuitamente.

Enfrentou dificuldades de adaptação?
Tenho uma tendência ao isolamento. Quando criança, tentaram me levar para uma colônia de férias. Eu me agarrei no portão e não entrei de jeito nenhum. De certa forma, continuo agarrado ao portão.

Reza?
Rezo às vezes. Posso rezar meditando ou rezar com o que aprendi na Igreja Católica. Tanto num momento de desamparo e angústia como num de bem estar.

O que o agride, quando quer ficar só?
Não entendo o motivo, mas busco sempre ficar com pessoas que já conheço, com pessoas de minha casa. É um dos meus dilemas na carreira de músico e cantor, deveria estar mais disposto, mais presente, estabelecer mais relações pessoais. Sou muito apegado aos hábitos. Tanto que voltei para a casa em Pelotas, onde vivi minha infância. Recuperei a casa antiga em um trabalho de reconstrução de mim mesmo. Vivo um processo investigativo por retomar a minha origem. Escrevo para só depois perceber. Como em meu livro inédito, que o personagem volta à terra natal aos 30 anos, que foi justamente o que fiz. Aparece Simões Lopes Neto, que diz ao protagonista: "Eu me sentia mais um inadaptado do que um artista". O personagem se vê como um inadaptado e volta para procurar entender as lacunas de sua vida. Na infância ele brincava de tapar um dos olhos e assim alterar o campo de visão, criando zonas de sombra. Na idade adulta as zonas de sombra reaparecem pedindo luz. Quando vou escrever é que recebo notícias de mim.

Há uma inclinação para tristeza?
Sim, embora não saiba explicar. Mas faço muito as pessoas rirem. Tenho dois extremos. Como ouvi alguém dizer uma vez, o que resta a um filho caçula é fazer a família rir. Eu aprontava macaquices para a avó, tecia comentários engraçados. Posso ser uma companhia muito divertida; por outro lado, parece, em alguns momentos, que a tristeza nunca vai se afastar de mim.

Fazer rir não significa que está alegre. Se acha engraçado?
Não, não consigo rir de mim.

Passa a sensação que está com a cabeça sempre em outro lugar?
Sou desligado. Tudo se desloca para outro lugar.

E não toma carona de volta?
A verdade é essa: vou longe e não é possível voltar rápido.

Qual o som que lhe conforta?
As Variações Goldberg, de Bach, por exemplo. Mas sou capaz de me satisfazer durante anos com um disco só, me satisfaço com pouco. Pego um livro para ler, leio parte dele, e me dou por satisfeito. Às vezes, não vou ao final. Pode me disparar para a criação e esqueço dele e retomo a leitura um ou dois anos depois. Vivi inúmeras leituras interrompidas, discos interrompidos pela metade. Não tenho apego excessivo por nada. O Kurt Vonnegut conta num livro que gostava de rolar com seu cachorro no tapete; que o cachorro se desinteressava logo, enquanto ele poderia rolar ali para o resto da vida. Eu me identifico com o cachorro. Não há chance de ser um sujeito viciado em drogas - não me apego a nada. Eu me vejo flanando.

E o som do mundo, qual é o preferido?
Moro em uma casa antiga com diversos sons que me acompanham. Gosto deles. São um mundo: som da madeira, das tábuas corridas; som das portas batendo com vento, a maioria está sem trinco e não quero perfurá-las; som de gato no forro; tem dias que gosto das goteiras (são insolúveis em minha residência), tem dias que eu as odeio (mandei arrumar mil vezes e nunca fica bom). Casa antiga exige dedicação. Raspar as madeiras e a história com cuidado. Existe uma mania e cultura de amar as coisas novas e destruir as velhas. Eu amo as velhas Se tu estás em um lugar sólido, com passado, te sentes parte de um processo e andando para frente. Em casas novas olho para trás e não tenho nada, a impressão é que começarei do zero. Sou fiel às amizades antigas.

Quando compõe uma letra e não consegue concluir? Tem dó, guarda ou rasga?
Agora eu espero pelas letras sempre. Antes fazia música e letra ao mesmo tempo. Elaboro uma música e deixo de lado até que um dia a letra se impõe. Já aconteceu de eu esquecer a melodia de tanto que a letra demorou.

Está cada vez mais difícil sua relação com a linguagem?
Não, cada vez mais fácil. Vem com naturalidade quando escrevo literatura. Letras de música, nem tanto. Meu último disco, Longes, é mais sólido no tema e tratamento, mais consistente do que os outros, que reuniam canções de uma sentada. A música Perdão, por exemplo, inspirada a partir de Bach, demorou um tempo para vir a letra. Até surgir a idéia de pedir perdão às coisas que te fazem bem, criando um paradoxo. Pedir perdão ao contrário, invertendo a máxima franciscana. É o tipo de letra que não me surge rapidamente.

Para quem pediria perdão?
Eu pediria perdão a mim mesmo quando criança. Apesar de toda a minha capacidade imaginativa quando pequeno, poderia ter rendido mais na minha vida criativa se não tivesse perseguido tanto a racionalidade. Eu me questiono volta e meia. Vivo disso desde sempre, componho praticamente desde criança, e ainda me pergunto: será que não estou equivocado?

Nunca ficará satisfeito?
Não, porém gostaria. No sentido de ter paz. Eu invejo a imagem de Picasso e sua facilidade criativa, ser criativo em tempo integral, com um desimpedimento total. Só que os caminhos são tortuosos. Um longo corredor que é necessário vencer. Não paro porque é a única forma de me relacionar com o mundo, rebatizar o mundo. É minha conexão com as coisas e as pessoas.

Não é exigência excessiva?
Sou o sexto filho de uma família onde todo mundo tocava e era criativo. Não posso dizer que ninguém reparava em mim nessa época.. Mas talvez eu tenha tido que imprimir um tremendo esforço para ser notado e isso tenha se estendido para toda a vida.

Diante de sua discrição e introversão, identifico sua constante vontade de desaparecer?
É um fato contraditório a um artista.

Realiza um movimento contrário a sua infância. Se tivesse condições do violão representá-lo em cena, seria ótimo?
Se pudesse, nem o violão viria. E é ruim para shows, apresentações e produção, e isso que estou bem mais social do que antes. Ser social não é natural para mim. Eu me desinteresso rapidamente. Em uma conversa, me ocupo dos detalhes. Não consigo ir às festas e conversar amenidades. Receber prêmio em algum lugar acontece abaixo de empurrão.

Essa profundidade não o deixa tonto, sobrecarregado?
Às vezes. Talvez seja um desperdício produzir com intensidade e fazer tão pouco para que o público entre em contato comigo.

Mesmo mudando, continua sempre o mesmo?
Posso mudar muito, de estilo, de roupa, de disco, mas estarei sempre sendo eu. Se tenho um modelo para isso é o Miles Davis, que foi um cara diferente em cada época. Em sua trajetória, ele sempre se desvencilhou de uma linguagem e partiu para uma nova, arriscando-se sempre. Explicou-se numa confissão pro Wayne Shorter: "Sabe por que não toco mais baladas? Porque eu amo tocar baladas".

Mostra seu livro antes de publicado?
Sim, não guardo segredo, mostro aos amigos, tenho curiosidade em saber o que os outros pensam. Um olhar de fora me parece necessário.

O que irrita em teu comportamento?
Vagueza. Muitas vezes não ouço o que me dizem na primeira e na segunda tentativa. Em casa falam comigo, não ouvi nada, e daí digo: "O que foi?". Sou abstrato.

Disfarça?
Com estranhos, disfarço. Tenho uma memória ruim: esqueço facilmente. No geral, apago rostos, nomes, citações, minhas letras.

Todo escritor tem suas obsessões, existe o receio de se repetir?
Parafraseando a Marguerite Yourcenar, entro numa floresta escura ao escrever. Entendo o que meus personagens querem depois deles. Faz 10 anos que escrevi Pequod. Em música, faço um disco de quatro em quatro anos. Tenho que me apressar, faço 43 anos este mês, e daqui a dez terei somente dois discos a mais. Teria que mudar o ritmo, mas talvez não deva forçar a barra. Sou lento no todo, embora no dia-a-dia apresente uma velocidade louca. Eu prezo a lentidão.

Imagina chegar à velhice?
Eu idealizava entrar no palco com 90 anos e tocar, como um Compay Segundo. Mas ultimamente isso me parece inviável. Pela primeira vez, sinto que a música não me motivará por muito tempo. Nada no mundo me motiva o suficiente. Mas atenção: essa declaração não deve ser levada muito a sério. É quase habitual que eu desista e volte rapidamente. Li meu inédito em outro dia e decidi que não escreveria mais. Então, como que desafiado por mim mesmo, reli, reescrevi e retomei o trabalho cheio de entusiasmo.

É detalhista?
Estou sempre ajustando, arrumando. É a minha doença de menino. Quando estava na sala da infância, alinhava o tapete de acordo com as tábuas. Organizava a sala por horas. Olhava alguma poltrona e mudava constantemente sua posição para encontrar a ideal. Essa intuição é tão exercitada em mim que não torna meu texto cerebral, é uma disciplina poética de filtrar e organizar já devidamente incorporada e transcendida. Eu libero a imaginação para depois organizar o caos.

O que é mais difícil: desafiar sua voz ou seu silêncio?
Não sei.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Cinco Marias, entre outros livros.

10:10 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 21, 2005

MARCA D' ÁGUA
Gravura Tributo/Paul Klee

Fabrício Carpinejar



A luz na água é vista como parte da água, mas não deixa de ser luz. Minha mulher é água para a boca e não deixa de ser clareza para os olhos. Há um detalhe que me enternece nela. Que reparo sempre quando chega a chuva. Que procuro no momento em que deixa o banho e se demora a escolher as roupas diante do armário. Que aguardo com a serenidade de um pedido antigo. A marca da vacina em seu braço direito. A marca da vacina feita em seus cinco anos. É a fotografia que guardarei dela. A fotografia que não enjaulo em porta-retrato, em álbum, na carteira. A vacina em que ela controlou o choro, para impressionar os pais; que conteve a dor da agulhada, para se impressionar. A marca da vacina que todos têm e que muda conforme a esperança. A marca da vacina que a acompanhou vida adentro, que guardou segredos, bocas, beijos, amantes e permaneceu fiel à infância. A marca da vacina que enrugou com o tempo, diminuiu com o tamanho da memória e não se apagou, como um umbigo que se fecha e ainda mantém o elo entre os dois mundos. A marca da vacina que alisou uma porção ínfima da pele, com os efeitos de uma cicatriz. A marca da vacina que não abre com o tato, que não cede com o medo. A marca da vacina que combina com seu pijama, com seu vestido, com seu jeans. A marca da vacina com a leveza de um cisco e o poderio do sol. A marca da vacina que não é um sinal de nascença; é um sinal de obediência, um sinal de sacrifício, um sinal de modéstia, um sinal de confiança. A marca da vacina que poderia ser um rosto no recheio de uma bolacha, um rosto desenhado com a língua. A marca da vacina que perfurou o chão para ouvir o sangue. A marca da vacina como uma moeda na toalha da terra, de felpas amansadas. A marca da vacina como uma pedra do mar, excesso de espuma. A marca da vacina como uma ostra espiando. A marca da vacina que continua me olhando quando ela vira a face para o outro lado. A marca da vacina como a gola de um casaco, com os pêlos arrepiados ao derredor. A marca da vacina que não me conta o passado e o preserva, que não mente e não reduz os fatos. A marca da vacina com o cheiro de uma maçã em papel manteiga, com a altivez de uma palavra em hebraico. A marca da vacina como uma horta, não um jardim, como uma varanda, não um pátio, como azulejo de cozinha, não vidro. A marca da vacina dela, meu décimo primeiro dedo da mão.

12:18 PM :: Comentários:

Ensaio no site literário Germina, edição de abril de 2005:

POESIA COMO PONTO EM FUGA
Moacir Amâncio é um biólogo da poesia. Exuma o corpo ainda vivo. Oferece a celebração da carne e da luz em "Óbvio" (Travessa dos Editores, 123 páginas)


Fabrício Carpinejar

Todo poeta deixa um lembrete do seu próximo livro na obra anterior. É um bilhete de despedida, uma carta, uma pista. Soa como educação, não é bom ficar demais na casa dos outros, mas convém ao menos deixar um aviso ao sair.

Não que a poesia seja produto de investigador. Não é isso que quero dizer. A poesia está muito próxima da obsessão. Uma imagem aparece, em um vislumbre, e insiste em teimar e propor espantos. Moacir Amâncio, poeta paulista, é o ouvinte da repetição. A repetição como intimidade, envolvido em apanhar o máximo de variantes possíveis de seu repertório e arquétipos. Acaba de lançar seu sexto livro de poemas, disposto em três seções "Luz Acesa", "Arghvan" (em inglês) e "Óbvio" (que dá título ao volume).

Voltando um pouco mais atrás, em "Do Objeto útil", de 1992, Amâncio escreve: o frasco guarda/ a pergunta do sopro". Já em "Contar a Romã", de 2001, diz: "na mão fechada a/ paleta do sopro". Em "Óbvio", a metáfora ganha uma outra denotação: "A cor: toda espessura, ar e sopro". Impressionante observar que em cada imagem há uma história de imagens, em cada metáfora existe uma história de metáforas do autor. Não se trata, portanto, de um livro apenas, mas de uma coleção de espumas, assim como se colecionam borboletas. Amâncio respeita a linguagem como carne e fotografa sucessivamente sua desmoralização perante a luz, suas modulações e velhice. É um biólogo da poesia, exuma o corpo ainda vivo. Fascinado em esmiuçar o que muitos pensam que explicam pela evasão ou, de acordo com o politicamente correto, pela sugestão. É detalhista, meticuloso, palpável. Articula um abstracionismo com o impulso surrealista. É como se fosse um Magritte convertido em Pollock. Estuda a composição pictórica da claridade, remetendo à "Teoria das Cores", de Goethe. "A fruta o garfo o apetite perdem vermelhos e roxos, /a intensidade reversa".

O título "Óbvio" resume o ato de exposição intensa do escritor a uma idéia (que se fixa e não é fixa). Porque é o óbvio que não se enxerga, é o óbvio que não se estuda, é o óbvio que se põe de lado. E é justamente o óbvio que oferece as verdadeiras chances de autenticidade da língua. O extraordinário estaria residindo, contraditoriamente, no lugar-comum. O poeta tornaria comum o que é considerado incomum. Provoca uma espécie de permanência do lado de fora do idioma. "por fora dos espelhos, simplesmente// porque espelho será sempre plural./ Antes e depois, abertos aos leques".

Amâncio é mais fiel ao devaneio, sonho acordado, do que a reflexão, impossibilidade do sonho.

"A mão pela primeira vez grafou
um círculo e por dentro firme ponto.
Depois pensou o sol, amplo em esquadros,
ou a libertação do curvo em ângulo.
O ponto se desmancha, abre a rua,
a escada pára numa rosa, intenso
sobrepor conseqüências paralelas,
ação das cores, a íngua em sua fala,
as propriedades únicas da sombra.
Mas será contrapor qualquer nuance.

Os quadrados, retângulos, esferas
confabulam o estar de estrelas, sala
dentro da sala, que outra, reduzida,
relevo sobre azul, com entre espaços.
exercício de mínima presença a
vírgula se coloca nesta frase."

Moacir Amâncio explora perspectivas, desenha com a voz, a anunciar o espaço a um cego ou ao desconhecido de si mesmo. Sugere suspeitas, que se desdobram rapidamente em novos indícios, o que gera a descontinuidade e um estado de pavor (não há como escolher, as ações têm o mesmo peso). No poema acima, primeiro vinga-se um círculo; em segundo um sol; na seqüência, há a libertação da curva e as esferas se transformam em um "estar de estrelas". O traço automático acentua a espontaneidade do pensamento, que se cumpre vacilante e indeciso, nunca afirmativo e peremptório. Mas é um traço automático limpo do seu excesso, pensado, trabalhado. Uma espontaneidade que vem da responsabilidade de falar até onde se entende a fala. Quebra a facilidade, em uma torção, ao tensionar a comunicação. Dificulta o acesso pré-fabricado do raciocínio. Uma das grandezas do livro é que não recorre à paródia para desmontar clichês. Não usa o vício para sair do vício.

É incorrer em erro acreditar que essa poesia é dispersiva, sua concentração é que provoca a dispersão. O leitor pode ser dispersivo, não o poema, imbuído de um motor inclusivo, a recolher o insignificante ao grandioso com igual generosidade. Toda etapa do livro é uma provação, serve de passagem e iluminação para a seguinte.

A subversão sintática, quando usada, atende ao apelo de estranhar para entender mais. Sua biologia é a fenomenologia de dizer as coisas enquanto elas duram. Não de dizer para que durem. Não deseja a durabilidade, porém a interpretação da decomposição ou da formação. Celebra o momento pois ele se perderá um instante depois e não é a palavra que o salvará. A palavra faz o escritor sacrificar o momento interessado em dizê-la. Sua capacidade de desregrar cenas, divorciar expressões e reaglutinar logo adiante é fabulosa: "algumas luas cheias, bastam fósforos". Poderia ser um haicai em função da intensidade da carga, mas está encaixado em uma proposta de compaixão do homem à sua própria precariedade. Ver ainda não é perceber, parece advertir o autor. Sua atuação em diversas línguas e frentes ao elaborar aqui poemas em inglês (como fez anteriormente em espanhol e hebraico) indica sua adesão a um ato inaugural e original, da linguagem poética como corpo intraduzível.

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Quarta-feira, Abril 20, 2005

NOJO
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Não sou enojado, mas há algo que não suporto: casal que se diverte espremendo espinhas. Não sou enjoado, mas não agüento esse fliperama nas costas. A namorada estourando as inflamações com ânimo alterado. Catando uma por uma das bolinhas com a severidade de um corregedor da pele. E ainda festejando cada explosão. Narrando cada explosão. Comentando cada explosão. Espremer espinhas nas costas não é sensual, não é caridoso, não é um momento para se valer no futuro, para contar aos filhos, para subornar no jantar. Espremer espinhas indica uma compulsão materna, de adotar o que deveria ser o namorado. Só falta cortar as unhas dele. Para quê? Não sei. Será que o casal fica emocionado? Não é acupuntura, não é massagem, é caça e depredação. Espremer espinhas é dependência, não independência, é simbiose, não partilha. Os namorados estão no parque estirados ao sol, lagarteando e, ao invés de beijar com o vagar das árvores, a menina se debruça no namorado, se insinua a escrever com apoio das costas e inicia a depuração. Dá-lhe fincar as pontas! As mãos se transformam em esporas, tesouras, punhais. O namorado não nota, porém vira um cavalo na hora, para não dizer outro quadrúpede. Espremer espinhas é viciante como brincadeiras no celular, paciência no computador. Pode vir com uma cartela de pontuação: dez espinhas estouradas valem um jogo completo da Avon, vinte espinhas e se ganha uma máscara facial. Funciona com regras de um jogo, assim como tem gente que se diverte com corrida de cachorros ou briga de galo. "O barulho da erupção é importantíssimo", recomenda os especialistas em espremer espinhas. "Não se pode fazer de cima, trata-se de um suave beliscão", avisa a vencedora do último Torneio Pan-americano de Espremer Espinhas. Fazer em público é muito pior. Será que vão cobrar ingresso? Querem impressionar? Tara de confundir a praça com um imenso banheiro público. Desculpa, mas espremer espinhas não é excitante, não é uma aventura, não traz conforto e idéia de afeto. Espremer espinha é somente espremer espinha. Não há metafísica, poesia, arroubo no gesto. É um atitude individual, assim como limpar os ouvidos, aparar a barba ou depilar as pernas. Essa história de não ter nojo para nada não ajuda o relacionamento. Quem é muito maduro já apodreceu. É bom manter nojo de alguma coisa, seja barata, seja mosca, seja espremer espinha.

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Segunda-feira, Abril 18, 2005

TAMPA DE VIDRO
Fotografia de Fernando Rozano

Fabrício Carpinejar



Fui trocar o gás de cozinha e o entregador verificou o vencimento da mangueira. Disse que estava vazando e já fazia mais de cinco anos que não era trocada. Certo, falei, vamos lá. Não corro o risco do pior depois de pensar o pior. Gás e crianças não são bons amigos. O cara ficou repondo a peça enquanto arrumava a pasta do Vicente na sala. Até que escuto um estouro de boiada na cozinha. Sim, o arrumador se apoiou no vidro do fogão e espatifou a tampa. Começa a romaria: minha mulher liga para dezenas de ferragens, vidraçarias e fornecedoras à cata de uma tampa de fogão. "Não há desse modelo!", "É melhor trocar de fogão" e "Não sei quem faz" foram algumas das frases ouvidas. O fogão está funcionando normalmente, atende com eficiência e me recomendam trocá-lo porque não fabricam tampas de vidro. Convenhamos. Vender o certo pelo detalhe. O pior é que muitos encontram nisso o motivo de trocar o aparelho, pois não o suportam sem tampa. Olham ele e só se lembram que havia um vidro brilhando decorado por um pano de prato floreado, onde podiam escorrer os copos e piscar o sol. Não olham o que dá certo. Olham o que falta. Nos relacionamentos, é a mesmíssima coisa. Todos têm uma tampa de vidro em sua vida. Tantos são os que findam um romance porque a tampa de vidro quebrou. Não quero julgar, eu gostava da tampa de vidro. Mas passei a gostar da tampa de vidro depois que ela quebrou. Antes nem cogitava que poderia quebrar ou que existia. Um ciúme bobo, uma teimosia à toa, uma briga sem finalidade provocam o rompimento do tampo. Excesso de pressão não pode resultar em pressa. E que atitude tomar? Praguejar que o passado do fogão, o passado do par, foi uma droga. Mentir, disfarçar, convencer-se de que o fogão é deficiente e colocar fora, de que a memória é deficiente e comprar outra. A obsessão pelo capricho estraga a verdade. A verdade é imperfeita, de vez em quando nem toma banho e ainda assim encanta. Fazer a casa pela aparência não significa residir nela. Reclama-se da rotina, porém defende-se a rotina arduamente. Se alguma coisa sai fora do lugar, da ordem, do previsto, há o escândalo para defendê-la. Não é um contra-senso? Admiro agora meu fogão, as seis bocas sorrindo sem aparelho. O fogo amadureceu para falar.

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Sábado, Abril 16, 2005

POSSO PRECISAR
Gravura de Magritte

Fabrício Carpinejar




Ela me pergunta: por que não joga fora os jornais? Sempre repito: um dia posso precisar. Ela me pergunta: por que não joga fora os sapatos? Um dia posso precisar. Ela me pergunta: por que não joga fora então as caixas de sapatos? Um dia posso precisar. Ela me pergunta: por que não repassa adiante alguns livros? Um dia posso precisar. Um dia posso precisar de argila quando carecer de argumentos para comer o pão. Um dia posso precisar do enxoval do filho para o neto. Um dia posso precisar da viuvez da letra. Um dia posso precisar da falta de espaço para me mudar. Um dia posso precisar de um presságio para ir adiante. Um dia posso precisar vagar como um domingo. Um dia posso precisar de um casaco laranja. Um dia posso precisar de papel presente para embrulhar flores. Um dia posso precisar de uma roupa gasta para me ver confortável. Um dia posso precisar ter estilo como água. Um dia posso precisar não ter estilo como o incêndio. Um dia posso precisar de um pente de três dentes. Um dia posso precisar de um barbante para amarrar um pacote. Um dia posso precisar da tosse para limpar o armarinho. Um dia posso precisar andar somente pela direita no labirinto. Um dia posso precisar trocar as mãos pelos pés. Um dia posso precisar ser invisível. Um dia posso precisar da agulha grossa para costurar almofadas. Um dia posso precisar da panela sem a tampa. Um dia posso precisar da tampa sem a panela. Um dia posso precisar de um verso anti-social. Um dia posso precisar de uma gripe para ficar em casa. Um dia posso precisar das garrafas vazias. Um dia posso precisar de uma pedra para equilibrar a mesa. Um dia posso precisar de uma corda para o varal. Um dia posso precisar de uma flauta para secar os olhos. Um dia posso precisar de uma noite magra e de uma tarde ruiva. Um dia posso precisar de sardas para completar o rosto. Um dia posso precisar andar de chinelo de dedo com meia. Um dia posso precisar dos cupins para diminuir as estantes. Um dia posso precisar de um escapulário para recuperar minha avó. Um dia posso precisar de um chapéu, já que a borboleta voa mais com suas antenas do que com suas asas. Um dia posso precisar desviar o relâmpago para iluminar a sala. Um dia posso precisar da cola do orvalho. Um dia posso precisar dos recibos de compras. Um dia posso precisar de um cartão de visita de uma visita que não recebi. Um dia posso precisar de uma caneta no bolso para anotar um telefone. Um dia posso precisar do conselho que não quis escutar. Um dia posso precisar de palavras que não estão no dicionário. Um dia posso precisar de suspensórios para aposentar o cinto. Um dia posso precisar trocar de lugar sem fazer barulho. Um dia posso precisar trocar de alegria sem chamar atenção. Um dia posso precisar pisar em um retrato para beijá-lo de novo. Um dia posso precisar bater em meu medo para não apanhar dele. Um dia posso precisar de um bigode para esconder a boca. Um dia posso precisar de óculos para reaver cílios. Um dia posso precisar sentar no túmulo de um estranho para aliviar o cansaço. Um dia posso precisar de mim, ainda que não me encontre.

7:29 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 13, 2005

BODAS OU APOCALIPSE?
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar




Não existe amor errado. Existe somente amor que não se convenceu. É senso comum defender que o casamento desmorona após dez ou quinze anos. Que chega a monotonia, o tédio, o marasmo. Os casados têm que atravessar uma praga, uma maldição dos divorciados, desbastar o olho gordo, resistir a essa música bate-estaca nos ouvidos. Quem pergunta 'quanto tempo tem seu casamento?' e recebe uma resposta acima de uma década, solta uma risadinha cínica. A risadinha cínica está a afirmar: "espera, a tragédia virá!". Casado, me vejo como um ingênuo, um idealista, como uma criança que olha sexo na tevê e o pai apaga e avisa que no futuro ela entenderá. Não concordo com o hábito de ser pessimista para não sofrer depois. O pessimista sofre duas vezes, antecipando e cumprindo. O otimista, no máximo, sofre uma única vez. E nem sempre se aprende com o sofrimento. Já vi gente que sofre barbaridade e não muda nada. Sofre e termina mais egoísta, mais cético, mais isolado, mais frio. Pode-se aprender com alegria, não? A alegria ensina, ainda mais depois das dificuldades.

Da onde vem essa fobia da longa convivência? Será que a mulher com quem vivemos se torna indiferente, deixa de oferecer toda a intensidade de antes, ou o amor é que se torna mais exigente com o tempo e se especializa em reivindicar. Poucos param para sondar essa hipótese: é natural o amor ficar excessivamente severo, já que agora tem uma história e a fortuna dos dias, a tal ponto que cobra o que nem precisava. Não é o amor de antes que acabou, o amor de antes ficou tão grande que vê tudo como falta de amor. Perto do que se transformou, o mundo é pequeno para alojá-lo.

O amor é insaciável. Quanto mais obtém mais quer. Diferente da amizade que não aposta alto e se contenta em proteger o que obteve em vida. A amizade larga a roleta ao empenhar um único lance. O amor não. O amor se endivida até pedir falência. O amor tem uma fome obscena, pois devora a própria memória se necessário, devora a própria imaginação se preciso.

O que cada um representa individualmente é diferente do amor dos dois, assim como um filho é diferente dos pais. O amor dos dois é uma outra entidade, resultado de todos os momentos em que sentaram juntos e dividiram os movimentos das sobrancelhas. O amor dos dois é mais forte do que o amor pessoal. O amor dos dois faz com que o passado seja pouco, que o futuro seja pouco, que o corpo seja pouco. O amor dos dois é justamente o que pode apartar. Incrivelmente o marido e a mulher sentem ciúme do amor que criaram.

10:53 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 12, 2005

PESSO
Gravura de Monet

Fabrício Carpinejar



Fico arrependido ao brigar. Não planejo minha raiva a ponto de soltá-la devagar, com humilde arrogância, se é que existe algo assim. Não saio de uma discussão com a convicção de estar certo. Não saio leve, com a calma de quem fez o que deveria fazer. Não saio impune, a jogar futebol e beber depois. Não saio amasiado, esperando o pedido de desculpas do outro. Saio ofendido, alterado, com a respiração presa. Como se tivesse sido espancado por abelhas. Entro em desativação total. Discutir me faz mal, como um luto. Subir a voz, empurrar, sortear desaforo. Eu me sinto grosseiro, egoísta, ínfimo. Os vizinhos escutam os berros, as cobranças, as ironias, a bateção de portas. Eu me vejo como um mentiroso, que não soube tocar e amar a não ser pela violência. Exagerei na maldade, falei o que não quis dizer, mas falei e agora há uma responsabilidade em ter inventado. E as palavras que eu disse involuntariamente serão cobradas por quem xinguei. Serão catalogadas, fichadas, examinadas com rigor. Brigar é estornar o depósito da fidelidade. É desmerecer. É desqualificar. É rebaixar logo o que mais valorizamos, para aparentar seriedade e preocupação. É bancar o triste e ofendido para convencer que sou mais triste e ofendido do que qualquer um. Briga-se para assegurar exclusividade da dor, quando poderia garantir no lugar a exclusividade da alegria. Pode ser ciúme, inveja, incompreensão. Nenhuma briga começa por um motivo generoso, e sim por banalidades. Saio de toda bronca querendo fazer as pazes. Não suporto dormir em cama separada, não suporto atravessar a noite no desentendimento, não suporto as indiretas, não suporto observar o desconcerto dos filhos, no meio, fingindo olhar a tevê. Acho que sou fraco, sou tolo, porém engulo de volta o orgulho, como quem é obrigado a tomar um remédio amargo de uma só vez. Um remédio para controlar a acidez da memória, a acidez do estômago, a acidez dos lábios. Peço desculpas ainda que não seja o culpado. Tento fazer a amizade com o riso. Tento apelar para o abraço. Tento inclinar o dorso em barco, ainda que o barco engatinhe em terra seca, ainda que o barco demore para a chuva, ainda que o barco seja o leme de uma árvore. Ao brigar, procuro os cartões que recebi de meus filhos. Os primeiros, dos 3 aos 5 anos, feitos com desenhos e letras garrafais, com uma distância enorme entre as palavras. Na época do presente, corrigia o português deles, procurando inspirar a escrever certo. Que ridículo. Não era o momento de corrigir nada. Hoje admiro qualquer erro de concordância que encontro na antiga cartolina, nos postais com colagens de revistas, nas cartas de aniversário, pois há espontaneidade no ato de dizer. O deslize na ortografia é a paz que não encontro mais em mim. O deslize na ortografia é como um beijo que salta do rosto e estala nos ouvidos. Prefiro muito mais o 'pesso que Deus pássaro te proteja' de meus filhos pequenos do que o 'peço' adulto, que é uma ordem, não uma reza. 'Pesso' é quase uma pessoa. 'Pesso' é Deus.

11:32 AM :: Comentários:

QUINZE ANOS DE LITERATURA DE MARIA CARPI

Com "As sombras da vinha", o seu oitavo livro e seu primeiro publicado pela Bertrand Brasil, a poeta gaúcha Maria Carpi comemora quinze anos dedicados à escrita e se reafirma como uma das mais originais vozes da poesia feminina brasileira. A sessão de autógrafos acontece nesta quinta (14/4), a partir das 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Avenida Túlio de Rose, 80 - Loja 302 Telefone: 3028-4033). Antes, haverá debate sobre a nova obra com a participação do jornalista e escritor Flávio Tavares, autor de "O Dia em que Getúlio Matou Allende" e "Memórias do Esquecimento".

Criada na serra gaúcha, Maria Carpi passou boa parte de sua infância e adolescência observando o cultivo dos vinhedos - algo que faz parte do dia-a-dia daquela região. Premiado com a Menção Honrosa no Casa de las Américas (Cuba), o livro reproduz esse ciclo natural, que vai desde a semente que brota no solo até o fruto que apodrece à sombra da mesma árvore que o gerou. A autora, no entanto, transforma esse ritual cotidiano em poesia ao transportá-lo a outros universos. Thiago de Mello salienta a originalidade da atmosfera: "Nos versos de Maria Carpi não há categorias de apoio. Cada palavra, inclusive os monossílabos de conjunção, tem sua função expressiva. Todas as suas palavras unem-se umas às outras por atração mágica inexorável.Todas têm boca, densa música".

AS SOMBRAS DA VINHA
Gravura de Van Gogh



Quero estar rente a tudo,
roçando as vísceras,
cheirando a acúmulos.
Quero apresentar-me
com a cara e as mãos
de quem acabou de fuçar
as hortas. Em desalinho,
em farpas, em suor misturado
aos sucos, com manchas
de frutas que não alvejam.
Os cabelos emaranhados
de folhas e presságios.
As sardas da longa
exposição à inclemência.
Quero ser, da poesia,
o bicho mais bravio.

11:30 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 09, 2005

MEDO DE VIVER SOZINHO
Gravura de Marc Chagall



Fabrício Carpinejar


Meu maior medo não é morrer sozinho, ainda que morrer sozinho, sem visitas em um hospital ou sem pássaros num asilo, é tão triste quanto uma pilha de discos de vinil para vender. Meu maior medo é viver sozinho e não me acompanhar. Meu maior medo é ter um dia de aniversário por ano para lembrar de que não nasci, de que estou "apenas olhando". Meu maior medo é perder a curiosidade da solidão. Ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance. Meu maior medo é ser reconhecido por aquilo que poderia ser. Meu maior medo é dizer sim para desistir depois, dizer não para querer depois. Meu maior medo é não ser avisado pelo medo. Meu maior medo é fingir que estou bem e me contentar em afirmar "o problema não é você, sou eu" em cada fim de relacionamento. E não acreditar nisso, seguir sendo o problema dos outros para me livrar de meu problema. Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.

11:28 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 07, 2005

BOA EDUCAÇÃO
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar




Estudei em escola pública, com greves infinitas. Em qualquer momento, eclodiam férias inesperadas. Não compreendia o sofrimento dos professores, sem receber salário e reajuste, mas exaltava a minha possibilidade de jogar futebol, de assistir televisão e brincar sem parar. Vibrava com a greve. Se já virava entusiasmo um período sem aula, o que poderia dizer de meses? Fazia cara amuada de vítima para tirar proveito e chantagear a mãe. Os professores tinham obrigação de ensinar (não observava o outro lado da questão). Aprendi a ser vítima do sistema e, o pior, apreciar a posição. No fundo, curtia desesperadamente o tempo livre.

Há um ponto de vista diferente do meu esperando ser percebido. Um contraponto. Uma opinião que não reparei ou não deixei que falasse. Desagrada-me estar certo, assim como estar errado. Estou pensando, adiando o ponto final. Um exemplo de ausência de senso é rebaixar o aluno ou o profissional que contou com o apoio da família, estudo e estrutura. Menciono o aluno que termina uma prova primeiro, antes do tempo mínimo. Todos os outros candidatos vão deduzir que a prova dele ficou em branco, que não teve acertos. Mas não, ele gabaritou. A facilidade irrita quem tem a facilidade e quem testemunha a facilidade. Minha irmã mais velha não estudava para os exames e alcançava os melhores resultados no boletim da família. Foi chacotada a vida inteira. Era vista como CDF, mas não estudava. Forçaram adjetivos para excluí-la. Parece que apenas o esforço enobrece a inteligência. É natural ouvir alguém de boa família, depois de um excelente resultado, ser menosprezado e desqualificado em exame: "ele nasceu com tudo, com condições, não teve méritos". Quem é capaz de avaliar méritos? É preconceito criticar em função de uma estrutura financeira, tanto o que vive na pobreza como o que vive na riqueza. Quem vive em melhor situação se sente culpado socialmente pelo conforto e se volta contra os pais. Quebra o pau porque asseguraram seu crescimento. Como não tem coragem de xingar os colegas, transfere o ódio aos mais próximos.

Da mesma forma, é preconceito creditar uma vocação a uma herança genética. Sou filho de poetas e ouvi com insistência que a poesia estava no sangue. Pelo jeito, nasci escrevendo. Não foi assim. Alfabetizei meu sangue sozinho, como qualquer um. Escrever não é uma escolha, mas uma necessidade. O que deve ter sofrido Ricardo Ramos, o filho de Graciliano Ramos, também maravilhoso escritor. Cansaram de o comparar ao pai e não a ele mesmo.

9:45 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS RECEBE PAULA TAITELBAUM
Poesia erótica é tema de encontro com entrada franca na Livraria Cultura

Varal de Letras, série de debates mensais na Livraria Cultura com entrada franca, recebe a publicitária e poeta Paula Taitelbaum. Com o tema "Poesia de alto tesão", o evento apresentado por Fabrício Carpinejar acontece neste sábado (9/4), às 15h45, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033). O encontro conta com a participação especial de Tom Madalena.

Tesão ou tensão? Clima ou clímax? Pornografia ou radiografia? O que há por trás de um poema erótico? Seguindo a linhagem explosiva e transgressora de Hilda Hilst, Glauco Mattoso, Safo e Aretino, Paula Taitelbaum propõe versos desbocados e espelhos no teto da linguagem. Usa o sexo como metáfora e meio de expressão. Depois dos livros "Eu Versos Eu" (Fumproarte, 1998), "Sem Vergonha" (L&PM, 1999) e "Mundo da Lua" (L&PM, 2002), a poeta gaúcha desperta a libido com "Porno Pop Pocket" (L&PM), lançado em 2004. Suas palavras de alcova podem ser libertadoras, aliciadoras ou mesmo ameaçadoras. Não mede a língua com régua e regras, explicita o que não pode ser dito, a partir de confissões de quarto e segredos a dois.

A idéia é discutir o "Kama Sutra" de Paula e sua poética caracterizada por Lya Luft como "lâmina que toca, corta e abre, revela, deixa sair o sangue e a dor, e depois nos dá o conforto da beleza".

O já tradicional Varal de Letras está em seu segundo ano. Consiste num bate-papo franco sobre estilos, buscando valorizar a vida da leitura. Expõe a obra de novos poetas com humor e naturalidade, diminuindo o abismo entre as gerações literárias.

VARAL DE LETRAS
9/4, sábado, 15h45
Livraria Cultura, Porto Alegre
Apresentação: Fabrício Carpinejar e Tom Madalena
Tema: Poesia de Alto Tesão
Convidada: Paula Taitelbaum


9:43 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 06, 2005

CORAGEM DE NÃO SE ACOSTUMAR

Fabrício Carpinejar



A alegria pode deprimir. Não é exagero. A alegria deprime mais do que o sofrimento. A pessoa adquiriu a casa, formou a família, os filhos crescem com saúde, tem um carro na garagem, um trabalho proveitoso, está casada com quem gostaria e no final da noite um vazio volta a atormentar. A noite vem tão rápido que ela pensa que é um chapéu. Nada está errado e isso incomoda terrivelmente. O que reclamar? Quem culpar? Chegou até o topo e falta expectativa e vontade para descer. A dor torna-se somente uma preguiça de se levantar. É semelhante à depressão pós-parto. Uma ânsia de destruir as conquistas para reiniciar. O receio de não suportar o pique do entusiasmo, de não valorizar o que foi feito, de não ser merecedora do espaço. Uma desvalia que aparece no mais profundo orgulho.

Depois de uma alegria intensa, de cumprir os desejos, uma coceira nos olhos enterra os olhos: e agora, o que vou fazer? Não há nenhum motivo óbvio para se lutar com garra. Não há dívidas e problemas para se preocupar. Não há um obstáculo, uma doença, uma teimosia, uma conspiração, um ódio. Não há motivo para falar mal de si e dos outros. Nada que seja levado a sério e que imponha uma força extra. A alegria passa a ser previsível, equilíbrio, rotina. Os horários estão ajustados: a musculação de manhã, o inglês de noite, o cinema semanalmente, os jantares e alguma coisa diz que ainda não está bom porque está bom demais.

O tédio prospera com quem conseguiu tudo e com quem nada conseguiu. A precariedade e o fastio são parentes. O tédio é democrático. Enfrenta-se o terror de que depois de uma alegria forte teremos alegrias menores, risos de meia boca. O dia seguinte de um grande amor é uma tristeza só. Um abandono. Depois das alturas, rastejar entre a cama e a cozinha. Raros confessam, porém a cabeça fica nas nuvens, desligada, não sobrando chance de repetir um enlace igual. É insuportável cogitar que acabamos de viver o máximo da existência e ainda assim continuar vivendo para cumprir tabela. Não, ninguém gosta de jogar amistoso, sem o risco de perder feio ou ganhar apertado. Felicidade é não se acostumar com ela. Entende-se o motivo de muitos que jogam fora a felicidade em uma briga ridícula e depois se arrependem. Jogam fora porque são vítimas da alegria, não da tristeza. Querem cobrar o que veio de graça.

11:24 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 04, 2005

A AMIZADE DAS ROUPAS
Gravura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Agradeço a tolerância da roupa, a fidelidade escura. Ao transar, piso nela, arrasto-a pelo quarto pouco me importando com seu preço, sua estréia, suas prestações, seu destino. Arrasto-a como chinelos de tamanho menor. Quem diria que na mesma tarde deslizei com paciência o ferro em seu tecido para expelir as dobras? Quem diria que a coloquei no cabide abrindo espaço entre os casacos? Quem diria que joguei trajes fora para ela não sofrer asfixia? Quem diria que poderia brigar o dia inteiro para remover sombras de mancha? Quem diria que não a emprestaria, sob hipótese alguma, para um amigo?

Agora sou a memória do outro. Elas dormem no chão, humilhadas, ofendidas pelos sapatos, desalinhadas e abandonadas. Cobrem o piso tal jornais antes da pintura das paredes. Foram arrancadas com fúria, despejadas do corte preciso, desdenhadas do acabamento. O cinto é uma cobra morta a pedradas. A calça é uma sanfona sem ar. A camisa é uma poça de vento. Defenderam a nudez e foram penalizadas com o desterro.

Ao acordar, sou o outro da memória. Alço as peças com caprichos de um restaurador. Reponho a ordem da luz. Pressiono a blusa de minha mulher contra o rosto e cheiro com vontade enquanto ela descansa, cheiro cada um dos vincos, a malha perfumada, investigo o sabonete escolhido, o xampu, a loção de pele, as invasões do tato, e reconheço sua nobreza que permitiu ao corpo se alastrar pela casa.

8:56 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 03, 2005

4 de julho de 1980
Gravura de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Minha mãe nos acordou cedo, bem cedo, antes do armazém do Seu Alencar descer sua porta de ferro. Botei um conjunto azulado, com gravata. Os outros três irmãos faziam fila no banheiro para se arrumar. Eu não completara oito anos e ainda não havia aprendido tabuada, o que não fazia nenhuma diferença. O pão torrado lembrava comida velha. Mastiguei com receio. Toda vez que mordo com receio, eu engasgo. Os farelos irritaram a garganta e tossi durante o percurso do ônibus. O papa João Paulo II estava passando pela primeira vez em Porto Alegre. "Imagina, meus filhos, veremos o Santo Padre", minha mãe exclamava, repetitiva, querendo acreditar no encontro. A professora ensinou a semana inteira a cantar uma letra para recebê-lo: "A benção, João de Deus, nosso povo te abraça. Tu vens em missão de paz. Sê bem-vindo e abençoa esse povo que te ama". Parecia final de Copa do Mundo, a cidade atiçada na rua. Recebi uma bandeira branca, que quebrou a haste pela força do vento na janela. Meu brinquedo durou nada. Botei o pano no pescoço para disfarçar a gravata de Mickey. Aquele dia foi uma missa interminável, sem sermão. Cada um recebeu um sanduíche de mortadela. Entramos na varanda de um prédio, de frente à rótula da avenida Erico Verissimo. A mãe puxava nossos braços, uma carroça com rodas soltas. "Não podemos nos perder um do outro", ela gritava. Invejava quem se perdeu de sua família. O muro da varanda era mais alto do que meus 1,30m. Via unicamente os outros apartamentos do outro lado da rua. Miguel, o caçula, ocupou o único lugar possível no colo da mãe. Eu enxergava as infiltrações da parede e imaginava o rosto do papa desenhado nas rachaduras. Foram quatro horas esperando. "Ele fala português", a mãe contava detalhes e narrava o invisível. "Como se falar português fosse difícil", pensei. Um cachorrinho manco subiu à varanda. Não compreendi como chegou são e salvo. Andava com três pernas e seu trote aspirava à elegância ensaiada de uma marcha militar. Começou a lamber minha mão. Reparti meu sanduíche de mortadela. Comeu desesperado, subindo com os dentes mais do que deveria. Trincou minhas unhas. Ainda por cima era vesgo. Mancava também de uma pupila. Era um cão de três patas e um olho. Reduziu seu corpo a peso pluma. Brinquei com sua penugem amarela e acalmei seu susto diante da multidão de tênis, que pulava, flexionava as solas, pisava em qualquer carne macia. O papa atravessava a avenida em carro aberto. Acenava com seu hábito branco de botões grandes de capote. Milhares de fiéis cantavam o bordão. Na hora, eu me esqueci da canção. Eu decoro para esquecer. Ou decoro somente o esquecimento. A falta de Deus também está nos detalhes. Até hoje digo que vi o papa para a mãe. Na vida, estive sempre muito perto de minha ausência.

4:49 PM :: Comentários:

A MÁQUINA DO MUNDO



Está no ar a primeira edição da revista de poesia Máquina do Mundo, inspirada no clássico poema de Carlos Drummond de Andrade (foto). Ajudo a editar, ao lado de Roberto Schmitt-Prym, autor do projeto. A publicação é um desdobramento da revista de contos Bestiário, destinada a contos e com um ano de sucesso.

Participam da edição com poemas inéditos desde o americano Johnny Lorenz até o português Gonçalo M. Tavares, mapeando a produção contemporânea.

Confira a "estrada palmilhada" de Pedro Maciel, Cristina Castello, Alberto Pucheu, Yván Silén, João Tomaz Parreira, Iacyr Anderson Freitas, Renato Dias, Salomón V. Cruz, Eduardo Sterzi, Floriano Martins, Patricia Antoniete, Luis Dolhnikoff, Luci Collin, Marcelo Montenegro, Jussara Salazar, Ricardo Aleixo e Valéria Tarelho.

11:08 AM :: Comentários:

MELHORES DIAS

Dois blogs estão me encantando: Frankamente, de Lúcia Carvalho, e o de Carlos Besen. Lúcia fez um texto delicioso sobre "furinhos na camisa". Besen, poeta gaúcho, é capaz de frases memoráveis como "quero ser escritor para me recusar."

11:05 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 02, 2005

PATINHO FEIO

O Caderno Cultura do jornal Zero Hora faz uma homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, um dos autores mais conhecidos da literatura infantil, nascido há 200 anos. Pediu novas versões de suas fábulas para escritores contemporâneos. Dei uma nova roupa do rei ao Patinho Feio.

CISNE DE CANTO

Fabrício Carpinejar



Ele preferia ser um pato bonito do que um cisne feio. Como cisne, não oferecia nenhuma atenção junto de seus iguais. Seria mais um entre tantos, pouco educado e de modo selvagem. Os outros cisnes não dariam bola para sua plumagem branquíssima de lençol, às suas pernas situadas muito atrás e ao seu fôlego para percorrer grandes distâncias - todos teriam as mesmas qualidades. Em sua turma de patos, ao contrário, todos reparavam em suas habilidades sobrenaturais e o admiravam. "Olha o que ele faz?", exclamavam os colegas, estupefatos (ou estupepatos). Ficou sendo conhecido como "o santo voador". Treinou hábitos de guerrear contra os caçadores e de gritar com fúria para invasores. Era um cisne afinal, mas que diferença faria ser pato ou cisne naquela lagoa que era na verdade um açude de água artificial? Que diferença faria ser pato ou cisne se a patroa continuava a chamá-lo de pato? O pato ri ao falar qualquer coisa: quáquáquá! O cisne já é tão sério e vaidoso, parece que está desfilando e sendo avaliado por uma comissão de carnaval. Decidiu ser um patinho falso junto de patinhos verdadeiros para ser um cisne verdadeiro diante de cisnes falsos. Os patos não contavam com a escada de seu pescoço. Ele acabava sendo o primeiro a ver a tripulação inimiga avançar e ganhou uma importância de mirante no bando. Não revelou a ninguém o segredo, nunca, especialmente quando descobriu que "canto de cisne" significava um canto de morte. O cisne morria quando cantava. E ele não queria aprender a cantar para morrer. Melhor ficar de canto e ser um pato vivo do que cantar e ser um cisne morto. Não abriu a boca para ter uma vida longa, bem mais longa e próspera como pato.

(Caderno Cultura, jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS, 2/4/05, Edição nº 14466)

9:34 AM :: Comentários: