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Fabrício Carpinejar


 

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Segunda-feira, Maio 30, 2005

MINHA NOSSA SENHORA DOS NAVEGANTES
Gravura de Juan Gris

Fabrício Carpinejar



Quando menorzinho dava comida aos santos. Não um santo qualquer. Santa era a professora primária. Não se chegava na sala de aula da escola pública sem ter alguma lembrança para dar. Uma rosa, um bolo inglês, um sonho, uma maçã. Não era dízimo ou chantagem, mas respeito e carinho. Professora vinha a ser mais importante do que a diretora da escola. Os alunos disputavam a atenção do melhor presente. Secundária a concorrência por notas. A mesa dela ficava abarrotada de ofertas, como uma padroeira, uma Nossa Senhora dos Navegantes. Faltavam apenas as velas. Receber um beijo de batom na bochecha significa alta distinção, como um "Ótimo" e estrelinhas de sua caneta vermelha. As mães preparavam a merenda e separavam um adereço especial para a 'tia'. Podia ser cartão ou um poema. Se o olhar materno esquecia, eu cobrava. Se não tinha nada para dar, esticava o caminho pelo bairro para furtar flores. Meus primeiros delitos sempre foram por amor. Um dia consegui o feito de roubar a rosa da própria casa da professora para entregar a ela. Eu iria saber onde morava? Ela me perguntou a origem da beleza e eu ri, para despistar a verdade. Depois disso, entrei no ramo dos alimentos, para não correr riscos. Afinal, os jardins de Petrópolis não teriam brotos para me sustentar até o final do ano. Doce e generosa estação, onde os professores acabavam como confidentes.

Não sei se esses presentes espontâneos ainda persistem, acredito que não. É uma pena e uma afronta perceber o ensino do professor como uma obrigação. Não está ali porque não encontrou um outro lugar ou como estágio de início de carreira. Comparece como escolha e vocação. Forma o caráter público do estudante (coisa que é bem mais complicada do que ensinar). Já não é valorizado pelo salário, que seja pela confiança pontual e dedicada de seus alunos.

A manhã ruiva de minha infância foi dividida em cinco períodos. O sino do recreio não superava o "bom-dia" da professora. Abrir a térmica com a fumaça cheirosa de leite não superava a inclinação dela em minha classe para me ajudar a resolver os problemas e corrigir as lições. A mordida da fruta ou do sanduíche não superava a fome pelo dia seguinte que recebia dela. Nem o jogo de futebol me fazia tão pleno.

Na mesa da professora, a lista de chamada, o apagador e a minha mão segurando firme a sua, que nunca quebrará como o giz no quadro-negro.

9:08 AM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Segundo Caderno
Porto Alegre (RS), 30/5/05, Edição nº 14525



OS SEIOS DE CLARISSA NO AQUÁRIO
Da série "Erico e os escritores"

FABRÍCIO CARPINEJAR



Fácil analisar o primeiro livro de Erico Verissimo antes de Erico, mas tudo se complica quando se examina esse primeiro livro depois de Erico. Será que ele sobrevive a si mesmo? Clarissa prova que sim, e representa a capacidade única e lapidar do escritor de universalizar a linguagem. Alçou um patamar popular, sem perder a exigência e as dificuldades de um clássico. Pode ser aplicado no Ensino Fundamental ou na universidade, pode servir como batismo na escada escolar (Monteiro Lobato - Erico Verissimo - Machado de Assis) ou enfrentar a extrema-unção de leitura em idade avançada.

Erico Verissimo foi uma parabólica, a transmitir vários canais estilísticos (político, satírico, psicológico e épico) ao mesmo tempo, em uma época que só se escrevia de um jeito. Clarissa, sua narrativa longa de estréia (1933), corria risco de ser apenas um dado histórico na biografia. Ou um romance de formação, a história de uma moça do interior, prestes a completar 14 anos, descobrindo o prisma adulto da capital e do seu corpo. Antes de tudo, significa a formação do romance de Verissimo e de sua gigantesca metáfora do Brasil. A pré-adolescente é a câmera escolhida pelo autor para narrar a tensão e os conflitos ideológicos de uma pensão, onde Clarissa está morando enquanto estuda.

A partir de uma temática despretensiosa, o crescimento de uma menina, Erico Verissimo cutuca as feridas e os atavismos sociais. Utiliza a inocência da personagem para não tomar partido, mas partir o homem em bocados de desilusão. Elabora uma poética descritiva, altamente cuidadosa com a linguagem: "Ela tem a impressão de que a sua imagem penetrou na vitrina, vaga e apagada como um fantasma, e como o aquário lhe fica à altura do peito, parece que o peixinho nada ao redor de seus seios". O erotismo incipiente da protagonista se mistura às expectativas exageradas de vida. Clarissa vai desvelando a complexidade das relações afetivas aos solavancos. Traduz seus pensamentos, para entender o que acreditava e o que deve deixar de acreditar. Acreditava que as cegonhas tinham um papel proeminente na procriação. É comovente seu esforço de racionalizar e converter as figuras de linguagem, os pés-de-galinha ou os rabos-de-galo, por exemplo, em alguma conexão com a realidade do galinheiro.

Clarissa é o esboço das mulheres fortes que viriam a aparecer e comandar a visão de mundo de Erico. Mulheres que desafiam a mentalidade de uma sociedade patriarcal com doçura e persistência. Melhor, com a persistência da doçura. É mãe espiritual de Olívia, de Olhai os lírios do campo (1938), e de Ana Terra e Bibiana, de O continente. Uma jovem precursora.

* Poeta e jornalista, autor de Como no céu/Livro de visitas

Clarissa (1933)
Clarissa é uma jovem interiorana morando em uma pensão em Porto Alegre e enfrentando o estranhamento da cidade grande.

O que já se disse:
"Eu queria (como Clarice Lispector diria anos depois, referindo-se às Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato) um livro para se viver dentro dele". Caio Fernando Abreu

9:06 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 29, 2005

UM VIOLINISTA NO TELHADO
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar




Às vezes, não perguntar é curar. Quando a mulher que ama, chega em casa abalada e desconsolada, a primeira reação é questionar: ¿o que aconteceu?¿ Mas não aconteceu nada que possa ser resumido, explicado, esclarecido. Não ocorreu um acidente, um terremoto, uma notícia, as vítimas são apenas sentimentos desarrumados e confusos. E diante da falta de resposta já se pressupõe uma traição, uma ofensa, e até mesmo, a quebra de confiança. Ao invés de ajudar, ele passa a cobrar a ausência de resposta. Piora a situação. Puxa uma briga em plena vulnerabilidade dela. Ataca um corpo ferido. Agrava o mal-estar com a tendência de se colocar sempre no centro do mundo, não admitindo que alguém possa se encontrar pior do que ele. Com a mania de adaptar a realidade para suas necessidades, é cego para outros desejos. Não percebe que ela está precisando somente de seu silêncio. É tão difícil doar silêncio, mais fácil doar roupas, doar alimentos não-perecíveis, doar sangue, doar vírus, doar esperma, doar dinheiro. Doar silêncio é quase um crime inafiançável. É isso que ela pede, algo mínimo, algo discreto, algo despretensioso: o silêncio da lealdade. A fé. A quietude da segurança. Que não fale nada, que não julgue, que não duvide, pois ela está cansada de ser abreviada, atalhada, sentenciada, concluída. Está farta de que falem por ela. Está farta de lutar para se defender, para ser compreendida, de começar de novo, quem não fica? Que a receba em seu colo e dedique horas a fio beijando os olhos, dando voltas nas quadras dos cabelos, consolando a pele. Que a sua curiosidade não estrague a comoção. Faça que ela durma assim, como uma criança, com a tevê acesa, no sofá, e arrume uma coberta para que não passe frio. Seja um pouco mãe, um pouco pai, um pouco filho de sua mulher. Não dê ouvidos para a tristeza, dê ouvidos para os barulhos da casa. Os barulhos da casa cicatrizam qualquer ferida. Desaparecer, não chamar atenção para si é um modo de estar presente nessas horas. Ao se acordar, ela não perguntará nada. Devolverá a boca, agradecida. E o abraçará como se tivessem conversado toda a noite sobre os problemas. Na verdade, conversaram sem a arrogância das palavras.

10:43 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 28, 2005

JORNAL DO BRASIL, CADERNO IDÉIAS, [28/MAI/2005]

CEMITÉRIO DE CARROS ROUBADOS
Última obra de Jorge de Lima, "Invenção de Orfeu" conta a história espiritual da poesia do Ocidente em dez cantos

Fabrício Carpinejar*
Jornalista e poeta


Invenção de Orfeu
Jorge de Lima
Record
432 páginas
R$ 49,90


O alagoano Jorge de Lima cumpriu um prodígio. Sua última obra, Invenção de Orfeu, publicada um ano antes de falecer, em 1952, até hoje é um enigma aos leitores e críticos, que se debatem em hipóteses e subterrâneos para entender seu longo poema de dez cantos. O escritor não facilitou o caminho para ninguém, criou um hipertexto lírico a inaugurar a pós-modernidade e as trevas na poesia brasileira.

O desafio novamente está posto. A editora Record recoloca Invenção de Orfeu nas prateleiras, depois de a obra ficar 20 anos fora de catálogo. A resistência ao livro, ainda culto de iniciados, deve-se ao predomínio de uma crítica realista no Brasil, que enfatizou a cotidianização da linguagem e o apelo ao engajamento social e à compreensão estrutural da realidade. Jorge de Lima, adepto da transcendência, ficou de fora do panteão dos clássicos. Aliás, é de se preocupar o medo que a crítica tem de ''Deus'' na poesia. Parece que o ateísmo virou, de modo equivocado, sinônimo de boa literatura. Cecília Meireles somente agora está sendo redescoberta (graças inclusive à acurada leitura de Ítalo Morriconi em sua antologia de cem melhores poemas), Augusto Frederico Schmidt desapareceu completamente das livrarias, Murilo Mendes sobreviveu em função do experimentalismo de Convergência, mas pagou alto o preço de seu catolicismo e de seu projeto que buscava restaurar a poesia em Cristo, ao lado do próprio Jorge de Lima, seu parceiro do livro Tempo e eternidade (1935). A tradição ibérica, barroca e religiosa foi catalogada como uma ramificação secundária quando, na verdade, é o tronco da literatura do país. Falsearam a história literária? É certo que o cânone seria outro, se uma produção inconsciente e mística tivesse chance de ser lida e discutida.

Jorge de Lima era considerado por Mário Faustino ''um pequeno poeta maior'', mas o ''nosso único poeta maior''. Invenção de Orfeu se constitui em o poema mais ambicioso da literatura brasileira, cosmogonia dotada dos mais altos vôos e das piores quedas. Magnus opus do autor ou fenomenologia do ser (''como conhecer as coisas, senão sendo-as''), relata a trajetória de um ''barão assinalado, sem brasão, sem gume e fama'' que relembra seus dias de aventura desde a fundação da ilha (metáfora do Brasil, arquipélago infernal onde permaneciam os heróis gregos) até o apocalipse final. O livro é um épico subjetivo, o que já era uma novidade na época. Pois todo épico pressupõe objetividade e Jorge de Lima não sustenta a linearidade, Não tem a segurança da narração, característica do épico, que tudo observa e julga, porém a insegurança de quem se descobre réu de sua história. Assim como não existe um tempo histórico, e sim um tempo ininterrupto de linguagem. Apesar do tema único, a obra não revela uma unidade. É um emaranhado de planos e interfaces, que ora se perfazem, ora se repelem. O manto lingüístico funciona como uma feitiçaria verbal, um fluxo de consciência, onde a ''voz poética'' não tem direito às censuras e mentiras, às fugas e evasões, vivendo um estado de permanente verdade, confissão e delírio febril. ''Para unidade deste poema,/ ele vai durante a febre,/ ele se mescla e se amealha,/ e por vezes se devassa''.

É pouco estudada a relação de Jorge de Lima pintor, premiado com menções no Salão Nacional de Belas Artes e na 1ª Bienal de São Paulo, com Jorge de Lima poeta. A natureza polifônica de Invenção de Orfeu talvez resida nesse cruzamento de técnicas. ''A pintura em pânico'', seu álbum de fotomontagens de 1943, revela o processo de Invenção de Orfeu. A colagem é a marca de um trabalho surrealista que mistura o sagrado e o profano, o vulgar e a erudição, em camadas sobrepostas de oratória. Uma medusa que aponta para todos os lados. Longe de um texto hierárquico, denota uma poesia convulsionada, que esconde, distorce e deforma, rica em signos, símbolos e excertos de diversas fontes em uma viagem sem volta. O crítico capixaba Luiz Busatto teve a clarividência de exceção e desvendou parte do segredo da intertextualidade, em Montagem em Invenção de Orfeu (1978). Jorge de Lima parafraseia, sem aspas, e edita trechos inteiros da Divina comédia, de Dante, Paraíso perdido, de John Milton, Os lusíadas, de Luís Camões, e Eneida e Geórgicas, de Virgílio. Desenraiza as identidades dos fragmentos, altera o chassi e raspa a numeração. Invenção de Orfeu pode ser visto como um cemitério de carros roubados.

Tal palimpsesto e com um ímpeto de transgressão modernista, Jorge de Lima reescreve sobre um texto clássico, introduzindo pequenas diferenças e paralelos e espelhando cada vez mais o fundo. Mais do que se pôr de igual para igual com seus mestres, reencarna-os na glosa. Um exemplo é a quadra de um dos mais belos sonetos do livro: ''A garupa da vaca era palustre e bela,/ uma penugem havia em seu queixo formoso;/ e na fronte lunada onde ardia uma estrela/ pairava um pensamento em constante repouso.'' O trecho remete à Geórgicas III, de Virgílio, em tradução de Antônio Feliciano de Castilho, em que a descrição da vaca igualmente começa com sua beleza e termina com seu repouso. E o pior, a vaca virgiliana apresenta a pedra-de-toque do verso: a ''fronte lunada''.

Lima não empregou impunemente essas paráfrases em sua corrente sanguínea. As apropriações têm um claro desejo e objetivo. Invenção de Orfeu almeja ser a história espiritual da poesia do Ocidente. É o poeta, todos poetas em um (Dante, Camões, Virgílio, Homero, Ovídio, John Donne, Rimbaud, Gerard Manley Hopkins), que está em julgamento. ''Éramos graves, éramos poetas'', no ''reino unido das abelhas, solo de ouro''. Daí ''o inventário do verso'', como caracterizou Mário Faustino, utilizando várias formas poéticas como oitavas clássicas, tercetos e sextinas. Entre os mistérios da morte e a efusão da infância, evoca os círculos do inferno e do paraíso, monstros e bestas, reinventa mitos como Inês de Castro. Poesia dentro de poesia, metalinguagem em estado puro. Um testamento coletivo, a biografia de uma fé. O poeta pede perdão em sua derradeira obra. Insinua que o verbo não salva, condena. O escritor seria um condenado. Invenção de Orfeu não é mesmo um épico, mas uma oração. Deus não escreve, tarefa confiada aos seus apóstolos. Somente Jorge de Lima poderia terminar seu livro com ''Amém''.

* Fabrício Capinejar é autor de "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand), entre outros.

10:10 AM :: Comentários:

J.U. ONLINE, 27/5/05
Entrevista: Zuenir Ventura

O PARAÍSO SÃO OS OUTROS
Jornalista e escritor Zuenir Ventura está lançando "Minhas Histórias dos Outros", pela editora Planeta.

Fabrício Carpinejar

Depois de abordar o pecado capital da Inveja, Zuenir Ventura, 74 anos, recompensa os leitores com o antídoto dela: a modéstia. Incapaz de escrever uma autobiografia tradicional e se envaidecer com a experiência, decidiu fazer uma outrobiografia, ou seja, contar sua história a partir da vida dos outros, de amigos e personalidades que marcaram seu meio século de jornalismo e literatura. Encarna literalmente verso de Manoel de Barros: "O melhor de mim são os outros".

Autor de dois best-sellers - 1968, o Ano Que Não Terminou e Cidade Partida -, o escritor realiza palestra na segunda (30/5), às 20h, no Auditório do Direito da Unisinos, em São Leopoldo (RS). Na quarta (1º/6), está lançando "Minhas Histórias dos Outros" (Editora Planeta, 272 págs., R$ 37,50), às 19h30, na Livraria Cultura, em Porto Alegre, obra que já desponta nas listas dos mais vendidos. É memória no sentido mais amplo e puro: de luta contra o esquecimento e tentativa de preservar do folclore a verdade e a realidade de personagens da história do Brasil, de Vladimir Herzorg a Leon Hirzsman. "Sou uma testemunha de um período de ouro, um observador nato. Gosto de acompanhar e ouvir. No livro, os personagens falam através de mim", afirma.

Zuenir Ventura é daqueles que não conseguem tirar uma fotografia sozinho. Sente-se culpado pelo espaço que sobra. Muito menos fazer um texto sem alguma referência especial a alguém. Cada um de seus artigos significa doação e partilha, diálogo e reportagem. Conviveu com toda uma geração de artistas obcecados pela morte, como Glauber Rocha (que anteviu sua morte aos 42 anos), Mario Faustino (que morreu num acidente aéreo aos 32 anos nos Andes) e Pedro Nava (que se suicidou na velhice). Mas não foi influenciado, já estava vacinado pela alegria, herdada do pai. "Não contraí o vírus do pessimismo. Herdei o entusiasmo do meu pai, que viveu até os 97 anos, com astral fantástico. Ele era pobre, pintor de paredes e vivia orgulhoso de sua vida. Adorava ler jornais, com sua educação primária", lembra, com carinho. Zuenir aceitava e aprendia bem com as diferenças. "Não sou profissional com a doença ou masoquista. João Cabral, por exemplo, visitava uma cidade e a primeira coisa que queria olhar e visitar eram as farmácias", recorda.

"Minhas Histórias dos Outros" revela esse anti-hipocondrismo, apesar dos temas áridos e ásperos como o atentado do Riocentro. Impera a leveza e o tom conciliador que desfaz o confessionalismo e o desabafo. Zuenir não acerta as contas com ninguém, faz questão de pagar a conta aos seus convidados na cabeceira da memória. Um deles é o cineasta Glauber Rocha. "Ele sofreu muito pelo país. Caracterizava-se como vítima de um assassinato cultural. Falava e se expressava sempre por metáforas. Tinha uma intuição impressionante, tanto que profetizou a abertura política e foi malvisto pela esquerda", comenta.

Zuenir Ventura é um contador de histórias. Porém, agora é a história que o narra. Sua alegria é dobrada: alegria de escrever a alegria de ter vivido.

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Quarta-feira, Maio 25, 2005

INVOLUNTÁRIO
Gravura de Escher

Fabrício Carpinejar



Sou mais engraçado quando banco o sério. Quando faço graça, sou tedioso. Minhas piadas não são piadas. Acontecem por acidente. Ou melhor, acontecem pelo acidente. Caio, me estatelo e o mundo ri. Não posso chorar porque os passantes vão rir ainda mais. Fadado a ser exagerado tentando evitar a queda. Deveria me conformar e cair com entusiasmo, não opor resistência. Mas me esforço em prevenir o pior e me proteger e me machuco o dobro. Minha escola era pródiga de escadarias. Corria atrasado e escorregava em minha ânsia de subir. Meninas riam com as mãos na boca. Meninos soltavam gaitadas mostrando o ferro dos dentes. Provocava risadas ao me machucar. Não provocava risadas ao me sentir bem. Criei platéias involuntárias. Não assisto meu desespero. Me envergonho e procuro um canto onde não sou conhecido. No meu corpo, por exemplo. Sorvia as merendas isolado, no banco de pedra, distante do alarido. Desembrulhava o pão e me inclinava a ele, como quem sofre de visão. Como quem precisa ler colado à folha. O pão não ia a minha boca, não se levantava. Eu tive sempre que ir até o pão. O pão e sua cadeira de rodas. O pão é mais pesado para quem não o cumprimenta. Transformei-me na garrafa térmica. Dentro, o leite e o desespero quentes. Fora, a cor azul pacificada.

Não entendo as piadas em minha língua. Meu senso de humor nasceu na Inglaterra. Minha risada fala inglês, apesar de nunca conversar em inglês. Há risadas que falam alemão; outras, chinês. Basta desenhar com gravador quem ri. Raros são os que estão rindo em seu idioma. A risada é uma pronúncia diversa, com barulhos estranhos, inimagináveis, produzindo cócegas no osso. Diferentes das vozes de seus donos. Há a risada muda, em que o som está engarrafado e demora para descer. Há uns dez segundos de suspense e de asma antes do estrépito. Nem é uma risada, é um espirro incompleto. Há risadas forçadas, abrindo latas. Risadas que descem lomba e não voltam. Risadas com espinho. Risadas de oliveiras, doces. Risadas de calhas, acumuladas. Risadas de ventilador, girando. Risadas comprimidas, de reprimidos. Risadas histéricas, de hienas. Risadas nostálgicas, de marulho. Risadas de fotos, induzidas. Risadas alérgicas, de luz intrusa. Risadas confusas, que cospem abelhas. Risadas nervosas, de separação. Risadas ácidas, de limão na mesa. Risadas compreensivas, com os cabelos penteados.

Não se escuta a própria risada, como acontece com o ronco. Acho que perdi minha risada quando vi sapos em frascos no museu de história natural. Ou fetos em exposição na sala de biologia da escola. Como pode o homem zombar do que não nasceu? Como pode a mãe deixar sua possibilidade de filho em um pote de conserva? Como pode o pai não abrir essa lata? Amigos mexiam nos frascos, sacudindo a criança no aquário de formol. Não eram peixes, mas escutava risadas coloridas, escamadas. A turma não se desesperava, mas permanecia excitada com a descoberta, em puxar o braço do boneco, excitada com a morte doméstica, de coleira e casa marinha. Dedos apontavam o que seriam os olhos, o que seria o queixo da criança, o que seria do que seria do que seria. Risadas fúnebres, de estertor. Queria soltar o bicho, soltar o próprio homem dentro do bicho. O bicho que o homem se torna quando não é enterrado. O bicho que o homem se torna quando não é velado. O bicho sem pouso. Nem toda sombra é calma.

Corria para o recreio a me acalmar. Havia pombas. Risadas de cisco, de susto. Colegas espalhavam restos de bolo para elas. Eu já espalhava aves para a comida. As janelas receberam grades porque andavam fugindo de mansinho. Gente respondia a chamada e as cortinas voavam. A sala terminava com dez alunos da linha da frente enquanto havia quarenta nomes na lista de chamada. Não cabulei as aulas, permaneci encabulado. A professora lia a relação de alunos com sobrenome. Levantava apenas o dedo. Estar presente era pedir demais.

O auditório do colégio transmitia documentários de escolas da banda oriental alemã da década de 60. Vinte anos atrasado, sem tradução. No escuro do audiovisual, toquei sem querer nas coxas de uma menina e passei a confiar em duendes. Confundia as coisas e dizia que uma pessoa ficava duende, não doente. Pois qualquer doente diminuía de tamanho com febre e assumia colorações verdes. Demorei um tempo para acertar as letras. Tropecei nos números romanos. O que não vi é mais caro. Não posso ir embora de minha vida, sem a certeza de ter entrado. Bate a esperança de chegar.

(Da minha coluna na revista Idéias, edição de maio de 2005, da Travessa dos Editores)

7:39 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 24, 2005

ALPISTE
Gravura de Henry Matisse

Fabrício Carpinejar



Quando recebo três perguntas, não respondo nenhuma. Eu esqueço da primeira com a terceira. Uma pergunta sempre responde a outra automaticamente. Nasci para assistir as perguntas e me deliciar com o intervalo da respiração. Bate-me a sensação que vivi mais do que a minha idade supõe. Será que me confundi e roubei outra vida no caminho? Tenho receio de falar a minha idade e alguém pedir para que devolva o excedente. Há em mim vida não usada? Ou toda vida vai sendo consumida na mesma hora? Ou só se vive o que se é exigido? E o que não é exigido não existe? Como descobrir onde sou capaz de chegar, se tardo em chegar para não acabar? Que o excesso de viver seja meu erro. Mas um erro imperdoável. Que me enterrem vivo, pois depois de morto poderei me mexer à vontade. As mãos quando amam têm a velocidade dos pés. Comovem o invisível a aparecer. Bebo vento. O vento é uma água mais longa. Desde criança, não dou comida aos peixes, dou comida para água. A água é também faminta. Quisera me familiarizar com as pedras a ponto de reverenciar as árvores. Quisera me familiarizar com as árvores a ponto de não duvidar do corpo quando se mostra em segredo.

10:43 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 23, 2005

JORNAL ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO
Porto Alegre (RS), 23/05/05, Edição nº 14518

Literatura

CARPINEJAR COMO PAI
Poeta gaúcho lança "Como no céu/Livro de visitas"

Um dos temas recorrentes do poeta Fabrício Carpinejar - trabalhado com maior ou menor intensidade, mas sempre presente em todos os cinco livros de inéditos - é a questão do posicionamento do indivíduo na equação da família.

Com a publicação de Como no céu e Livro de visitas (Bertrand Brasil, 204 páginas, R$ 29), o autor fecha um ciclo com uma constatação perplexa: seu próprio lugar na equação mudou.

- Sempre escrevi sobre a família, de um ponto de vista que privilegiava eu em relação a meus pais. Agora, também como pai, posso me ver em relação a meus filhos - diz o escritor, pai de Mariana, 10 anos, e Vicente, dois.

Como no céu/Livro de visitas é um livro duplo. Ou dois livros únicos. No sentido de leitura normal, a capa de Como no céu é um girassol amarelo, mostrando o lirismo solar de um livro que fala sobre a comunhão do casamento, a família como encontro, o amor físico, uma reflexão madura sobre a paixão.

A contracapa do livro é na verdade a capa de Livro de visitas - outro girassol, agora mostrado do avesso, talo sombrio em fundo escuro a ecoar uma poesia de versos curtos, densos, epigramáticos e que meditam sobre a tristeza, a finitude, as separações e as ausências. Um livro que perturba ainda mais por ser lido de trás pra frente, como se o leitor rebobinasse a voz do poeta enquanto vive a experiência de leitura.

Carpinejar vai autografar a obra no próximo dia 9, na Livraria Cultura, às 19h30min, com uma leitura de Mirna Spritzer. Um bom meio de ouvir os poemas de Carpinejar da forma como ele os cria. Em vez de rabiscar no papel, cada novo livro é composto pelo poeta em sua memória antes de passar para o papel. Um método original, mas arriscado, já que ele próprio admite que já esqueceu muitos poemas que havia criado.

- Minha poesia é um jogo com minha própria memória. Não é à toa que escrevi meus melhores poemas por medo de esquecê-los - define.



Poemas de Carpinejar

Penso ter vivido o
que escrevi
e deixo de viver
porque está escrito.
Minha letra não
torna meu
aquilo que anotei

de Como no céu

* * *

Já me viste rindo
nas fotografias?
Não adianta rever.
Sou mais fotogênico
na tristeza.

* * *

Arredondo os preços
por baixo,
para não causar
atrito
e inveja.
Me vendi por menos,
me comprei por mais.

de Livro de visitas


10:39 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 22, 2005

Revista Época, Edição 366 - 23/05/05

POESIA

LAÇOS DE FAMÍLIA
Carlos Nejar, Maria Carpi e Carpinejar têm estilos diferentes, mas biografias que se tocam

Federico Mengozzi


Nejar, Maria e o filho poeta

O pai, Carlos Nejar: E o tempo parou à porta./E a alva entrou no meu corpo/E meu corpo entrou na alva. A mãe, Maria Carpi: Eu não sou o erguido,/mas o madeiro e o tormento./Eu não sou o descido,/mas a mortalha e o desfazimento. O filho, Carpinejar: Tenho dificuldades/para cumprir o que me prometi./Não há ninguém para cobrar.

Pai, mãe e filho contaminados pela poesia, ou pelo sentimento poético do mundo. Pode parecer pouco, mas existem, se houver, raros exemplos de uma trindade assim, ontem ou hoje, em qualquer literatura. Três poetas em diferentes estágios da carreira, mas todos reconhecidos e produzindo. Carlos Nejar, gaúcho de Porto Alegre, procurador de justiça aposentado, membro da Academia Brasileira de Letras, morador em Guarapari, Espírito Santo, lançou recentemente Tratado de Bom Governo, poema em tercetos que evoca a pintura do pré-renascentista Simone Martini e faz, à maneira de Dante, um painel da condição humana. Maria Carpi, gaúcha de Guaporé, moradora em Porto Alegre, advogada e mãe de quatro filhos - Carpinejar é o terceiro -, começou a publicar tardiamente e logo recuperou o tempo perdido. As Sombras da Vinha é uma metáfora que, por meio do ciclo da vinha, dos parreirais despidos à brotação dos frutos, espelha o amor e a vida.




GAÚCHOS Carlos Nejar, Maria Carpi e Carpinejar, três vozes poéticas distintas, estão com novos livros de poesia na praça

Fabrício Carpi Nejar, o Carpinejar, filho de ambos, gaúcho de Caxias do Sul, é, aos 32 anos, uma das vozes mais festejadas da poesia brasileira contemporânea. Ele mora em São Leopoldo, apresenta um programa na TV, conduz debates em livrarias, ministra oficinas de literatura, dá palestras no interior do Estado. E escreve livros como os recém-lançados Como no Céu e Livro de Visitas, agrupados num só volume. Ele diz que o primeiro pode ser lido como um livro "católico", da frente para trás, enquanto o segundo, como um livro "judaico", de trás para a frente. Bem-humorado, Carpinejar diz que, ao contrário do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, é contra o nepotismo. Mas adverte que poesia não é cargo de confiança. "É confiança."

"Como filho", diz Carpinejar, "admiro meus pais. Como leitor, admiro os escritores. Temos estilos diferentes. Carregarei eternamente os dois em meu nome. Foi o jeito que o menino encontrou no adulto para vencer o divórcio dos pais quando tinha 8 anos. Afinal, (Maria) Carpi e (Carlos) Nejar estarão casados em mim, no nome Carpinejar, para sempre. Não é isso que toda criança deseja?" A mãe não se surpreende com o filho poeta, pois o alfabetizou com poesia. "Ele sempre foi um menino sensível e muito observador", lembra. "E a sensibilidade, quando cultivada, abre caminhos." O pai revela alegria igual. "Desde menino, mostrou inclinação poética. Um dia me disse: 'Pai, a casa do céu é a casa dos pássaros'. A poesia o descobriu. Fico contente com o fato de vê-lo caminhar com seus sapatos longos de poemas. Ele tem dicção própria."

Não fui o primogênito/para ser um segundo pai./Não fui o caçula/para tomar as dores da mãe./Sou o filho incerto, do meio/e do canto da mesa. Versos em que Carpinejar se situa no contexto familiar. Ele diz que não era para ser o "poeta" entre os irmãos, já que tinha pouca aptidão para o verbo. "Tive sérias dificuldades de alfabetização, falava errado, trocava as letras", confidencia. "Sou filho de minhas dificuldades. A insuficiência, o isolamento e o medo me fizeram entender que não estou sozinho. Em vez de procurar ajuda, fui ajudar a quem se sentia deslocado do mundo como eu. Não escrevo para fugir de mim, mas para me encontrar nos outros. Todo o caminho é pessoal, meus pais me ajudaram como filho, não como escritor."

Para Nejar, Tratado de Bom Governo conta, mais do que canta, as perplexidades de nosso tempo. "Falei dos mortos, alegoricamente, para tratar dos vivos." Para Maria Carpi, a metáfora da viticultura, contida em As Sombras da Vinha, é esplêndida. "Não só a vinha e sua cultura é uma metáfora da vida, como todas as metáforas são uma transposição da vida para outro plano." Para Carpinejar, Como no Céu é seu fim de semana, enquanto Livro de Visitas são seus dias úteis. "Um depende da memória do outro. São livros de amor, sem confessionalismo ou exagero. Não há idealização." A poesia brasileira agradece. Em nome do pai, da mãe e do filho. Amém.



TÍTULO
Como no Céu e Livro de Visitas
AUTOR
Carpinejar
EDITORA
Bertrand Brasil
PREÇO E PÁGINAS
R$ 29/224

Poemas dos livros Como no Céu e Livro de Visitas, de Carpinejar

COMO NO CÉU

Pág 77

Corrias entre lápides e ciprestes,
derrubando bules e flores.
O cemitério foi teu terreno baldio,
tua casinha na árvore.
Investigava os dizeres
dos velhos túmulos,
Interessada nas inscrições
como anúncios de emprego.

Deitava as bonecas nas camas de pedra.
Preparava chá e bolachas de folhas.
Dessa lembrança
decorre a tua indecisão
de escolher o epípeto
e os nomes das filhas.

Págs 115 a 120

Eu isolo os cabelos; ela ajeita as mechas negras;
eu sou verde, ela azul;
eu tenho o nariz de um dobrão espanhol,
ela alegra as frutas;
eu tenho os olhos renascentistas,
ela um olhar impressionista;
eu ando nos cantos dos caminhos,
ela solta os caminhos sem perceber;
eu me arrisco na arrebentação;
ela espera a visita do mar;
eu sou da meia-noite,
ela é do meio-dia;
minhas mãos são menores do que as dela,
suas mãos alcançam a chuva;
eu deito no lado esquerdo,
ela amplia o direito;
eu durmo de tevê acesa,
ela sonha com o rádio ligado;
eu esqueço moedas e passagens nos bolsos,
ela recolhe o resumo da roupa na máquina;
eu uso o telefone como orelha da porta,
ela é a chamada a cobrar;
quando distraído, eu faço poesia atenta,
quando atenta, ela faz poesia distraída;
eu tenho pés chatos e piso em falso,
ela enxerga duplo e aprecia em dobro;
eu danço fora da música,
ela dança com a música de dentro;
eu não sei fazer churrasco,
ela faz de conta que não precisa;
eu faço as contas,
ela enrola o terço na cama para dar sorte;
eu tomo café forte,
ela mede a fumaça com a colher;
eu chamo seu pai para consertar o chuveiro,
ela chama minha mãe para me confundir;
eu sou redundância,
ela é o eufemismo,
eu não uso aspas,
ela usa chapéu na praia;
eu leio estirado como uma chama,
ela lê com as pernas dobradas;
eu compro o fútil, ela compra o necessário;
eu me perco em lugares abertos,
ela se perde em lugares fechados;
eu falo sem parar,
ela ouve sem dormir;
eu prefiro estacionar nas esquinas,
ela me centra;
eu compro jornal,
ela é quem lê;
eu escapo dos deveres,
ela paga guardador de carro;
eu me visto sem olhar,
ela corrige o que não vi;
ela não fica doente,
eu adoeço quando estou nervoso;
ela pensa em tudo,
eu penso o que não sobra;
eu extravio nomes,
ela extravia rostos;
eu não guardo telefones,
ela memoriza a lista;
eu não canto,
ela me legenda o som;
eu erro na pronúncia,
ela é vento simultâneo;
depois do prazer, fico com insônia,
depois do prazer, ela quer dormir;
eu tenho um porão de lembranças,
ela tem um sótão;
eu entro nas recordações pelos fundos,
ela entra pela frente;
eu me alumbro com a mentira,
ela se deslumbra com a verdade;
eu não me repito,
ela imita sotaques;
eu faço amigos rápido,
ela exige convivência;
eu compro as verduras que não prestam,
ela cansou de me ensinar;
eu não sei contar piadas,
ela não gosta de piada;
eu imagino, ela desabafa;
eu fico calmo na tristeza,
ela explode de raiva;
eu alimento pressentimentos,
ela confia em fatos;
ela pede desculpas,
eu continuo acusando;
eu peço desculpas,
ela já esqueceu;
eu sinto ciúmes de velhos amores,
ela sente ciúmes de novos amores;
eu vejo a dor como uma trégua,
ela observa a dor como uma lacuna;
eu me interesso pelo objeto quando o perco,
ela se interessa quando o reencontra;
eu sou obcecado,
ela é cautelosa;
eu sou perfeccionista,
ela é comovida;
eu improviso,
ela planeja;
eu fujo do aniversário,
ela ensaia o seu com antecedência;
eu puxo sua cadeira,
ela me seduz de lado;
eu sou uma cidade de baixo,
ela é a cidade vista de cima;
eu me vingo,
ela perdoa;
eu sou passional,
ela pacifica;
eu me hospedo quando ela viaja,
ela reside em minhas viagens;
eu acredito em Deus,
Deus acredita nela;
eu rezo ao sair de casa,
ela reza ao chegar;
eu escalo árvores,
ela rega relâmpagos;
nenhuma noite é como as outras,
as outras noites são dias inventados;
nossa risada se bate no escuro.

Pág 53

Minha mulher, teus olhos, teus óleos,
teu jeito de me abençoar com os seios.
Dá-me a estrada entre a cama e os teus joelhos.
Tuas pernas abertas em minhas pernas fechadas,
tuas pernas fechadas em minhas pernas abertas.
Não devolveremos o espaço que criamos,
não há retorno aos limites.
Tampouco poderei escrever sobre tua letra.

LIVRO DE VISITAS

Pág 77

Influenciável, tremendamente influenciável.
Tudo o que não foi dito me influencia.
Um homem secando o suor com lenço
me influencia.
Uma mulher catando os anéis das latas
me influencia.
Um cão seguindo o cavalo
me influencia.

Pág 33

O sedutor é indiferente.
Não eu, não consigo me livrar
do ímpeto de permanecer,
de me desculpar mesmo
quando não errei.

Pág 27

A lembrança mais remota é a mais alegre.
Andava menino nos varais baixos, as camisas molhadas
batendo em minha testa. O olfato da lã, os dedos do ar, o pomar
da lâmpada. Corria de um lado a outro, pulando as páginas,
mais roupa do que peso. Meus cabelos, o teto do fogo.

9:39 PM :: Comentários:


Sábado, Maio 21, 2005

PEQUENOS FURTOS
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Existem pequenos furtos facilmente tolerados. Não estou me referindo aos sentimentos roubados, que são os piores crimes. Furtos leves que viram gracejos. Não entendo o motivo, mas são vistos como brincadeiras. O que faz alguém com posses, responsabilidade e educação furtar um cinzeiro de um restaurante? Botar na bolsa ou bolso o objeto com a despretensão de quem assoa o nariz. Sair com a impunidade de um sol de domingo. E não se coçar de culpa. Pois tenho uma parente bem resolvida, que transportou o cinzeiro, o paliteiro e o saleiro do restaurante. Ainda deixa a trinca roubada com nome e endereço do lugar em cima da mesa da cozinha, exibindo o troféu às visitas. Pode? Já fiquei com vontade de desfalcar a jarra do azeite para minha familiar completar a coleção. No momento da fuga, desisto. Consigo unicamente roubar de mim, nunca dos outros. Faço um olhar suspeito que até as lagartixas estranham. Sinto-me anti-social, excluído da estratégia adotada pelos grandes círculos. Visitava um amigo no interior de São Paulo e o que reparo na escrivaninha: um cinzeiro de restaurante de Porto Alegre. Sem comentários. Isso que ele nem fuma. Será que é falta de educação sair de um lugar sem levar nada? Acho que preciso me acostumar à moda. Essa pequena transgressão deve trazer charme às vidas regradas, comportadas, de guardanapo nos joelhos. É um sinal de desobediência civil ou de indulgência intelectual. Hotel é a principal vítima dessa modalidade de desaparecimento. Claro que o hóspede responderá ao fechar a conta: "consumi apenas água". Não falará que carregou o xampu, os sabonetes, as toalhas e, se perigar, o lençol do quarto, todos comprimidos na mala. Isso acontece porque não estamos em casa de amigos? Por que ninguém nos enxerga? Assusta-me o que se pode fazer quando não se é visto. A atitude é uma travessura ou uma necessidade? A desculpa para os desaparecimentos é uma só, a de querer uma lembrança do local. Pelo jeito, já não basta imã de geladeira, porém se deseja a geladeira. Testemunhei loja em incêndio, onde transeuntes exploravam o estabelecimento para abraçar o que pudessem encontrar pela frente. Gente de gravata e maleta, que corria como um indigente faminto para tirar vantagem da situação. Esses furtos invisíveis formam uma corrente, uma seita. Do avião, pega-se o cobertor. Do ônibus, belisca-se o travesseiro. Se fosse possível, transportava-se as cadeiras dobráveis do cinema. Não me interessa julgar, porém esses furtos devem ser perdoados. Não perdôo quem carrega chinelos de motéis. Aqueles patos desengonçados, ridículos, desconfortáveis. Tudo tem limite. Levar chinelo de motel é a decadência.

11:05 AM :: Comentários:

DESFILE EM POESIA E PROSA

Cansados de ouvir que toda a miss só lê "O Pequeno Príncipe", os escritores Marcelo Carneiro da Cunha e Fabrício Carpinejar decidiram mostrar que a beleza do texto é fundamental. Criaram um concurso de miss dentro da literatura, que vai acontecer mensalmente na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80 Tel.: 30284033), em Porto Alegre. Trata-se de um misto de recital e karaokê literário para eleger os melhores em várias categorias como dor de cotovelo, ex, Teoria da Relatividade, zagueiro de várzea, baboseira sentimental, entre tantos quesitos fundamentais para a saúde intelectual. Haverá um desfile verbal de narrativas e poesias com a participação do público, que elegerá ao final a Miss e suas princesas.

A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos de Fabrício e Marcelo sobre um tema específico. Qualquer assunto pode resultar em faixa e cetro. Os participantes votam na peça mais bela (ou inimitável) da noite, que será consagrado Miss Cultura durante o mês, com direito a gôndola e exposição na livraria. O texto com pior na votação ganhará o titulo de consolação de Miss Simpatia. Igualzinho ao que acontece no mundo lá fora.

Miss Cultura começa na segunda (23/5), às 19h30, no auditório do 2º piso, falando de "traição". A entrada é franca. O convidado especial é um segredo guardado a muitas chaves.

11:04 AM :: Comentários:

VARAL DE LETRAS RECEBE DONALDO SCHÜLER

Varal de Letras, série de debates mensais na Livraria Cultura com entrada franca, recebe o poeta, tradutor, ficcionista e ensaísta Donaldo Schüler, prêmio Jabuti 2004 como melhor tradução por "Finnegans Wake" (Finnicius Revem) e patrono da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre. Com o tema "Poesia brasileira", o evento apresentado por Fabrício Carpinejar acontece nesta terça (24/5), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033). O encontro conta com a participação especial de Tom Madalena.

Donaldo Schüler é licenciado em Letras pela UFRGS, doutor em Letras e Livre-Docente pela PUCRS, doutor em Letras e Livre-Docente pela UFRGS, professor Titular da UFRGS e pós-Doutorado na USP. Atuou nos cursos de Literatura Grega, Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Filosofia Antiga na UFRGS e em várias outras universidades, em níveis de graduação e de pós-graduação, além de proferir conferências em universidades nacionais e estrangeiras. Recebeu o prêmio de melhor tradução em 2003, da Associação Paulista de Críticos de Arte, por Finnegans Wake, de James Joyce. Outras distinções: Comenda do Infante D. Henrique, Portugal, l974; Medalha de Mérito concedida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário da Morte de Cruz e Souza / SC, em 1998; Prêmio John Jameson 2000, em Bloomsday, por sua contribuição à difusão da cultura irlandesa no Brasil; Medalha Negrinho do Pastoreio, concedida pelo Governo do Estado/RS, 2002. É sócio-fundador da Associação Gaúcha de Escritores, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Entre os ensaios publicados, "Aspectos estruturais na Ilíada", "A dramaticidade na poesia de Drummond", "A poesia modernista no Rio Grande do Sul", "Eros:dialética e retórica", "Heráclito e seu (dis)curso" e "Origens do discurso democrático." Em ficção publicou "A mulher afortunada", "O tatu", "Chimarrita", "Império Caboclo" e "Refabular Esopo". Em poesia, é autor de "Martim Fera" e "A essência da mulher". Além de "Finnegans Wake", de James Joyce; traduziu "Antígona", de Sófocles; "Édipo em Colono", de Sófocles e "Sete contra Tebas", de Ésquilo.

O já tradicional Varal de Letras está em seu segundo ano. Consiste num bate-papo franco sobre estilos, buscando valorizar a vida da leitura. Expõe a obra de novos poetas com humor e naturalidade, diminuindo o abismo entre as gerações literárias.

11:01 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 20, 2005

ADULTO AOS CINCO ANOS

Fabrício Carpinejar



Tinha a idade de meu filho Vicente. Três anos. Aniversário de cinco do irmão Rodrigo na casa da avó materna, em Guaporé (RS). Pela cor desnutrida do armário ao fundo, percebe-se que o avô morreu há pouco. A própria vó colheu as rosas em seu jardim para colocar na mesa. Deixou só uma para não esquecer do lugar. Tomávamos Guaraná Polar nos dias de festa. Era o dia. Mas uma tristeza está por debaixo da toalha de linho. Carla, 8, parece que vai colocar todo seu pulmão para fora. Rodrigo escova os dentes com o vento. Vai voar merengue com as velas azuis. Miguel, 1, no colo da avó, é o único que repara na câmera. Ainda de costas, faz um esforço de posteridade. Ninguém deixava pegar meu mano de cachos no colo - boneco muito pesado. Eu me segurei na quina para não cair. A cadeira com almofada tremelicava. Isso me lembro. O medo de cair na hora. O estranho da fotografia é que pai e mãe não estão lá. Na festa do filho. Pela primeira vez, não estão lá. 21 de dezembro de 1975. Não estão em parte. Na mesa, aparece uma foto deles, do casamento. Quem botou o retrato foi a avó. A imagem não olha para a gente. Propositalmente posta em direção à porta. Para dizer que estavam lá. Ou que podiam aparecer a qualquer momento. Era a primeira crise deles e a mãe viajou para reatar com o pai. Não sabíamos o que acontecia. A vó costumava rir ao fazer comida. A comida não gargalhava. Séria com suas curvas de serra e ladeiras do interior. Rodrigo ficou adulto aos cinco anos. E eu, Carla e Miguel foram seus primeiros filhos.

11:28 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 18, 2005

A RESPOSTA
Gravura de Michael Sittow

Fabrício Carpinejar



Posso ter demorado para perceber. Não me culpo. Saber antes não me traria nenhum benefício - falta-me jeito para fazer sala à verdade. A mulher não gosta de dar respostas. Explicar, argumentar, avisar, sinalizar, mostrar com o dedo. A vida não pode ser resumida aos três sinais do semáforo. A mulher não deseja ser mãe de seu homem. Não deseja ser professora de seu homem. Não deseja ser tia de seu homem. Muito menos avó, com chá de boldo na cama. Não fica excitada de colocá-lo de castigo. A mulher não deseja que ele concorde, longe disso. Deseja ser compreendida. Se o homem diz que a compreende, por que ela é obrigada a convencê-lo a todo momento? Não tem lógica. A mulher termina enfastiada com a idéia de repetir a mesma ladainha: "você não me entende?" E ele não entende, apressa entender, que é diferente. A mulher deseja silenciar, mas não silenciar um silêncio qualquer, um silêncio ríspido, um silêncio grosseiro, de talher e cabeça baixa, e sim um silêncio satisfeito, um silêncio de orla, um silêncio de calçadão. Quando a mulher se irrita, não lhe falta argumentos, ela apenas desistiu de falar. E o homem pensa que ela enfim aceitou sua opinião. A mulher não deseja dar a resposta, está esperando a reação dele. Nunca que pergunte: "o que está pensando", que é a mortalidade infantil do pensamento. Nunca que reclame ou edite o discurso a seu favor. Não adianta fazer ciúme ou fingir remorso. Teatro amador é na escola. A mulher não deseja dar a resposta, o que não significa que não deseja a resposta. É que responder perde a graça, o entusiasmo, o charme. A mulher joga cabra-cega com a boca. Não é um jogo, um mero resultado, a vida do relacionamento depende dessas poucas palavras. É arriscar ou encenar uma falsa sapiência durante cinco dias, cinco meses, cinco anos até acontecer a separação. A paciência tem limite, ora bolas. Ela não vai ficar dando resposta infinitamente. Tampouco deseja que o homem memorize a resposta. Repetir o que ela falou atesta que ele não estava ouvindo. A tática de reiterar a última frase para fingir atenção não funciona mais. Cansa voltar ao ponto de partida, como se nada tivesse existido antes. É simples. A mulher não deseja dar a resposta. Quer ser antecipada, sonhada, imaginada. Tanto faz que ele erre. Deseja ser sondada, visitada, pressentida. A mulher deseja ser adivinhada. A mulher não deseja a resposta certa, não há resposta certa. Deseja ser a resposta que o homem procura fora dela.

12:55 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 16, 2005

PAI MALUCO
Fotografia de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar



Não existe pai de primeira viagem. Todo pai faz, no mínimo, uma viagem de ida e volta. Uma para levar o filho e outra para buscá-lo. Sou pai de dois filhos, Vicente, 3 anos, e Mariana, 11. Vicente mora comigo e Mariana com sua mãe. Minha vida pessoal é cheia de explicações, a mãe da Mariana não é a mesma de Vicente, com quem vivo. E sempre estou a conciliar o que a mãe da Mariana pensa, o que a minha mulher pensa, o que Vicente pensa, o que a Mariana pensa. Isso sem contar o apelo das avós. Difícil? Não conheço vida fácil e nem quero. Os problemas estimulam e exercitam o afeto. Essa confusão só tem me ajudado. Não falta gente se importando e prestando atenção nas crianças, opinando e dando dicas. Sou conhecido em casa como 'pai maluco'. Ser chamado de pai maluco pode ser motivo de ofensa para alguns. Para mim, é orgulho. Pois confio no humor e na alegria como a verdadeira filiação. Desejo que meus filhos não sejam somente meus filhos, mas filho da alegria que passa por mim. A paternidade está associada à severidade, à censura e ao controle. Paternidade pode ser engraçada, solta e, ainda assim, ser didática. Ser pai não é um sacrifício, um trabalho, mas um dom, uma possibilidade que recebi para amadurecer e calibrar os olhos. É receber a infância de volta com juros e correção monetária. Há algo melhor? De manhã, levo sempre Vicente na escola. Faço questão. Brincamos muito no caminho. Faço de conta que preciso de combustível de beijos para chegar até lá. E dá-lhe receber beijos no trajeto, coisa não tão fácil, que consigo com facilidade quando está dormindo e não pode reclamar da barba. Depois sou o elevador para ele apertar o interfone da escolinha. Em dez minutos, realizamos uma vinda inteira de cumplicidade. Não vou dizer aqui que troquei fraldas, dei banho, virei a madrugada controlando sua febre, e tudo o que possa cheirar a prestação de contas. Erro muito, mas sempre que erro digo que errei e me desculpo. O amor não tem tempo para arrogância. Autoridade e paternidade não são sinônimos, talvez antônimos, paternidade é compreensão, não deve julgar, muito menos condenar. Não bato em meus filhos em situações de descomportamento. Converso. Conversa cansa e eles logo perdem a resistência.

Ao pai, não bastar contar histórias, é necessário ser a própria história ao filho. Não canso de inventar personagens e aparecer de repente na sala, cheio de trejeitos e manias. Teatro não falta para demonstrar carinho. Mariana foi alfabetizada pelo professor "Caramujo", que significa eu de chapéu e sem mãos. Crio personagens para lidar com possíveis dificuldades das crianças. Quando minha filha estava dispersiva, dei a luz ao "Canal", um guri insuportável, que mudava de conversa a toda hora (como um zapping da tevê) e não terminava sequer um assunto. Depois de conversar com o "Canal", Mariana ficou bem mais concentrada. Outros vieram: "Sapato de Gente", para colocar os pequenos na cama, espécie de ônibus gratuito, em que eles andam em cima dos meus pés; "Noturno", que surgia de noite e não podia receber a luz do sol em demasia; "Tristinho", que somente reclamava e não sabia valorizar os bons momentos, entre tantos. O último que surgiu, "Professor Prendedor", vem ensinando pronúncia ao Vicente. Ele usa prendedores de varal pela roupa e sua pedagogia é transformar cada palavra em música. Meu filho falava "tutu", que é uma comida, ao invés de "tatu", um bichinho. Agora fala ta-tu, separando para não errar, com a mesma fome. Minha galeria de protagonistas ajuda que eles entendam e possam organizar o temperamento a partir da contraposição e do confronto. Ser pai é se inventar.

(Revista Pais e Filhos, edição de maio de 2005)

11:46 PM :: Comentários:

MOTOR TURBINADO

Está no ar a edição de maio de Máquina do Mundo, revista digital de poesia, que organizo ao lado de Roberto Schmitt-Prym. A publicação chega ao seu segundo número, com um antipoema de Fernando Bonassi e inéditos da escritora portuguesa Maria Teresa Horta, Affonso Romano de Sant' Anna, Glauco Mattoso, Martha Medeiros, Manoel Ricardo de Lima, Renato Rezende, Charles Kiefer, Paulo Scott, Rodrigo Petrônio, Donizete Galvão, Mariana Ianelli, Fabrício Marques, Tom Madalena, Paulo de Toledo, Carlos Besen, Daniel Adrián Madeiro e David Cortés Cabán. A idéia é oferecer um panorama da produção lírica contemporânea brasileira, portuguesa e da América Latina.

11:43 PM :: Comentários:


Sábado, Maio 14, 2005

DOIS AMORES AO MESMO TEMPO
Para Clarice

Fabrício Carpinejar



Uma biblioteca desarrumada não significa que é menor. Estantes com filas duplas não sinalizam desordem. Um livro que não se encontra não está perdido. Não achar alguma coisa é mexer em obras esquecidas e ler o que não se esperava. Não sou contra a catalogação. Nada disso. É que livros lidos são naturalmente livros fora de ordem. Escapam do crivo, deitam em dormitório alheio, se misturam com ansiedade. Duvido de uma biblioteca ordenada em excesso, impecável, limpa. Parece que a única leitora é a traça. A vida não deixa nada em seu lugar. Como ler sem contrariar o rumor alfabético? Como viver sem contradição? O mesmo posso pensar dos amores. Desejamos ao longo dos dias ter um casamento regulado, com todos os volumes cadastrados e que sirva mais como um móvel para decoração do que uma escada de leitura. Amor, como uma biblioteca, não é posse, mas despertence. Quanto mais leio mais perco as certezas do começo. Quanto mais amo mais apresso o final. Um livro não dirá onde estamos, uma paixão não consola, ambos apontarão para onde podemos ir dentro do corpo. É possível viver dois amores ao mesmo tempo? Sim, é possível viver até três amores ao mesmo tempo, porém o esgotamento nervoso chega junto. Desde que um amor não seja a migalha do outro. Desde que o amor não seja a falta de solidão, e sim a solidão assumida. Desde que o amor não seja a segurança do egoísmo e sim a insegurança do diálogo. Desde que um amor não seja o complemento do outro. Pois amores não se completam, se bastam. Não adianta somar duas carências para gerar uma terceira. Dois amores são possíveis no início, para se desentenderem logo em seguida. O amor que é forte, luminoso, não permite concorrência. Amor é naufrágio, nem todos encontram madeira boiando para voltar a si. Dois amores são possíveis ao mesmo tempo porque um deles será o proibido. Porém, o proibido pode ser transar com a esposa, não a amante, e quem dançará sozinha depois é a amante. Difícil de compreender? Permanecer no casamento ou na estabilidade, desde que se amem, é hoje a mais alta transgressão. Aventurar-se fora de seus domínios cheira a regra. Não existe roteiro pronto. Assim como o marido pode segurar a vela de seu enterro e as duas arranjarem coisa melhor pela frente. O amor não está em uma instituição, mas na capacidade de suplantá-la.

Amor não se mede, se confunde. É impraticável comparar relacionamentos como ofertas de lojas. Um amor que não pode ser comparado é difícil de esquecer (ainda que a separação aconteça). Aquele que já permite comparação demonstra ser pouco consistente (ainda que os dois fiquem juntos). A gente ama para quê? Para não avaliar o amor. Não conseguir acompanhá-lo é quando vai bem. Quando se começa a ter consciência do certo ou do errado é aviso prévio. Sintomático que os casais peçam conselhos aos amigos para fazer em seguida tudo diferente. Amor muda as regras de propósito, muda o telefone, muda o endereço. Quem não está jogando não entenderá. É feito somente para jogar, não ser assistido. O mistério é não entendê-lo a ponto de preveni-lo. Prevenir o amor é matar a capacidade de aprender com suas conseqüências.

11:08 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 13, 2005

PIPAS SÃO CARVÕES DAS ESTRELAS
Gravura de Portinari
Para Menalton e Roseli, meus irmãos

Fabrício Carpinejar




Cáqui é uma fruta generosa, uma fruta que já vem com prato. O dente da frente é uma colherinha de café. Raspa o chocolate da polpa. A cidade tem luz envidraçada. A luz não lambe a pele. A luz é alheia à luz. As estradas são ladeadas pelo corte da cana. A cana resiste, queimada na ponta para ceder. Até o vento é amarelo chumbo. Caminhões passam a toda hora. A colheita não pára um minuto. A fumaça sobe aflita. O orvalho e a fumaça casaram obrigados pelos pais. As calçadas miúdas põem o mundo a andar fora delas. Nos fios elétricos, centenas de pipas enroladas, pretas. As pipas são carvões das estrelas. Aquecem o céu, que endoidece de roxo e besouros. A criançada desce a ladeira depois da escola. Dispara como pneu solto. Escuta-se o barulho das mochilas contra as costas. As casas são verdes e salmão e as bicicletas, vermelhas. Em algumas portas, o cartaz: "vende-se gelinho por 15 centavos". Gelinho é um picolé de saco, sacolé. Ganha-se a vida aos trocos. Indecisos, os armazéns ficam na esquina, com portas para duas ruas. Clima seco, sem umidade, o bebedouro é um olho espiando. Dar as mãos produz choque. A sede é um bem de família. Um retrato na gaveta. Etiqueta de mala. O tempo roça à maneira de canivete, não corta como faca, não corta como punhal. Um canivete dobrado, dormido em beliche no bolso. Um canivete feito lápis, para contar as estações na aliança. As mulheres lavam a frente de suas casas de manhã. A água diz o caminho para as formigas. O guarda-chuva mudou de sexo. Usado em qualquer dia. Como proteção ao sol. Homens jogam cartas nos bancos de pedra. De pé, lançam os naipes como dados. A compaixão não ofende. Serrana me avisa que ainda não sou uma cidade extinta por dentro.


11:19 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 12, 2005

INFANCIAMENTO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar




A infância não volta mais. Mas quem diz que não se pode recuar até ela? Infância é como descobrir a luz pelo cheiro da grama. Devo ter sido cavalo ou boi em outra poesia. A grama do jardim de casa me contava a vida um pouquinho antes dela acontecer. A chuva tinha um odor de pente. De espuma penteada. O sol tinha cheiro de sandália nova. A neblina cheirava a pijama. O mormaço exalava o olor de joelhos. Os travesseiros conversavam na janela. A poeira saltava das fronhas e apostava corrida pela sala. Apoiava meus cotovelos no umbral e comprava fiado as ruas. Careci de futuro depois, mas nunca me faltou passado.

Eu me escondia no porão. Enxergava as pernas das pessoas chegando em casa. Não adivinhava a minha família pelos rostos, mas pelas pernas. Pernas franzinas do pai, tortas do irmão, redondas da mãe, esbeltas da irmã. Sou um perneiro. Passei a consultar o dicionário quando não precisava mais dele. Infância não é uma palavra, não é uma moléstia que se cura, é um sinal de nascença. Guardo um sinal de nascença nas minhas costas. Fico triste que sou o único que não posso me reconhecer pelo sinal. Não pude saber, a não ser pela lixa dos dedos, como é o pontinho preto, quase sarda, quase espinha. Olhava-me no espelho, esguichado, dobrado, curvo, de lado e nada. Ele está onde meus olhos não chegam. Quando morrer, não saberei se sou eu. Infância é pipoca com mel. Lamber os dedos após comer a pipoca, lamber o mel com a sujeira do pátio, dos trincos, das patas. O mel possibilitava fazer bolas com a mão. Sentávamos todos no sofá para assistir qualquer filme. O filme só durava até restar pipoca. Com o fim da diversão dos grãos, cada um seguia para o seu quarto. Não se queria ver filme, se queria ver a pipoca. Não gostava de brinquedos novos, porém de encontrar brinquedos no chão. Montar baldios, desmontar geringonças. Ao ganhar um boneco de aniversário, quebrei o braço dele assim que recebi. Meu pai me bateu: "quebraste o boneco". Argumentei que não, que não havia quebrado. Havia dividido o boneco em dois brinquedos. "Hoje vou brincar só com o braço, amanhã brinco com o resto do corpo". Meu pai não me entendeu. Criança gosta de inventar parte do brinquedo, senão os brinquedos seriam todos iguais. Criança gosta de se criar para o brinquedo. Quebra-cabeça recebia igual ternura. Se perdia uma peça, não pedia outro. Pegava um pedaço de cartolina grossa, folha branca, pintava o que faltava, cortava no encaixe preciso e pronto!. O quebra-cabeça não me fazia perder a cabeça. A criança tem mais soluções do que respostas. Os adultos têm mais respostas do que soluções.

(Fragmento do texto sobre "Infância", Palavra Toda, Sesc/Araraquara, maio/2005)

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Terça-feira, Maio 10, 2005

ANA COMPLETA 36 ANOS
Gravura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



O dia não é mais um desconhecido, diferente do fogo preguiçoso que só lê um lado da folha. Tua vida me cumpriu pouco a pouso. A cintura dos teus olhos é da janela que se abre ao trem, não da porta que se chaveia. Acordarás com o abrigo e a blusa branca e pequena, pegarás o café e sentarás do lado da parede. Com as costas apoiadas na parede e as pernas dobradas em repouso. O umbigo aparecerá como uma fruta encostando no telhado. Lerás o jornal como se o dia fosse um desconhecido, mas não é. Nada haverá mais de ser, Ana. Nosso filho dorme e logo chamará o teu nome antes do meu, chamará teu rosto antes do meu. Teu rosto sempre me antecede. E teu rosto são os dedos, as pernas, os cabelos, os seios, o quadril. Teu rosto é um pátio que liga a casa às outras casas. Teu rosto é a lareira de abelhas crepitando no pão. O pão como uma mesa feita somente para a boca, coberta pela toalha da respiração. Não existe cansaço, jogo. Não existe renúncia, ruas inúteis. Em tudo que vejo em ti, Ana, há uma residência por voltar. Te procuro como quem escuta um recém-nascido no pulmão. E a criança se adianta ao homem que sou para brincar contigo. Todos que fui querem brincar contigo mais do que eu. Ana, o sino deitará seu vestido pela cidade e não terminará de despir os ouvidos. O que esqueci será lembrado de outro jeito. Lembrado com outra cor. Adquirido de outra forma. Eu me desacostumei a me servir. Alfabetizado para não me alfabetizar. Importo-me somente em aumentar o corpo para te dar as mãos nervosas durante a noite. E não vacilo em pedir teu corpo emprestado para chegar ao meu corpo. Nossas mãos se assemelham às parreiras guardando a chuva. Os ramos miúdos da chuva. Os ramos que abençoam sem mudar os traços. A chuva é vinho para quem vai acompanhado. O dia não é mais um desconhecido. Cantas no carro, alto, e a estrada se volta para tua voz. E a música que nunca pensei que seria minha insiste em retornar. Ana, nossas vidas nunca mais serão duas. Esperaremos o fim das palavras para entender o começo. Nem temos horta, jardim, para ilustrar as asas dos insetos. Quando fico triste contigo, ainda sou imensamente alegre. Quando fico alegre, sou uma árvore ajoelhada. Não trocarei as lâmpadas dos ombros. Ando no escuro para tocar onde não devo. Amor é tocar onde não se deve. E curar sem entender a doença.

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Domingo, Maio 08, 2005

ENTRE OS MORTOS E EU
Gravura de Pablo Picasso

Fabrício Carpinejar



Se eu pudesse falar com os meus mortos, não sentiria curiosidade pelo passado e pelo futuro. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não me atreveria a esclarecer boatos. Nem aos suicidas perguntaria algo a respeito das vontades inacabadas. Se eu pudesse falar com os meus mortos, falaria do tempo, da chuva e do frio, como faria com qualquer um na rua, falaria de assuntos gerais e recentes. Não me arriscaria a criar intimidade fora das roupas. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não seria trágico, ajudaria a franja descuidada a montar nos ouvidos. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não pediria perdão. As coisas não se desculpam em trânsito. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não sofreria pena e compaixão, que os mortos já não sofrem nada, a não ser a morte que lhes foi dada. Se eu pudesse falar com os meus mortos, comentaria o jogo de futebol, o azul de um telhado, uma açucena ainda cheirando o mundo antes de vir. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não daria notícia de mim, pois contar é perder a lembrança. Se eu pudesse falar com os meus mortos, trocaria um aceno cordial com a cabeça, como a respiração sigilosa entre o cocheiro e seu cavalo. Se eu pudesse falar com os meus mortos, teria vontade de limpar a caspa de seus capotes ou alisar a chuva na lã. Um gesto intuitivo, próprio dos cuidados dos vivos, que os mortos sentem falta. Se eu pudesse falar com os meus mortos, tomaria uma café com açúcar para escutar o metal raspando o fundo da porcelana. Se eu pudesse falar com os meus mortos, mostraria as fotos 3X4 dos filhos na carteira, sei que os mortos conhecem meus filhos, devem conhecer até os netos que ainda não nasceram, mas não conhecem o jeito como os rostos são protegidos pelos dedos. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não tocaria em religião ou política, a opinião e o voto dos mortos não são obrigatórios. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não colheria a alface crespa da horta dos pecados ou uma palavra para magoar. Se eu pudesse falar com os meus mortos, mexeria no bolso conferindo a chave de casa. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não teria a angústia de nascer, de prender a atenção. Se eu pudesse falar com os meus mortos, não resolveria nada, o mundo deles está cumprido, pago e não há a possibilidade de mudar sequer a gola de uma letra. Se eu pudesse falar com os meus mortos, escutaria uma música que me fosse especial, uma música sem letra para confundir. Se pudesse falar com os meus mortos, teria preguiça de acordar a língua. Se eu pudesse falar com meus mortos, não haveria pânico e medo, meus mortos não são perigosos, talvez tristes, talvez caseiros, até brincaria de fantoche com as mangas da camisa. Se eu pudesse falar com os meus mortos, lembraria de comprar pão. Se eu pudesse falar com os meus mortos, teria maior interesse em não ter interesse. Acho que os esqueceria no dia seguinte.

6:26 PM :: Comentários:

Estado de S. Paulo, caderno Cultura, 8/5/5

ARTESÃO DE TERNURA PARTIDA
Habilidade e originalidade se fundem para revelar o cotidiano em nova coletânea de Fabrício Carpinejar

Daniel Piza

Fotografia de Renata Stoduto/Divulgação

CARPINEJAR -Em sua poesia ressoam Bandeira e Drummond, além da natureza de Saint-John Perse e Ted Hughes

Um dos novos poemas de Fabrício Carpinejar diz: 'Quero dar nome./ O que não tem nome/ é enterrado como indigente./ Não posso aceitar, quero dar nome.' Fabrício Carpinejar tem alguns outros nomes. O de batismo é Fabrício Carpi Nejar, filho dos escritores Maria Carpi e Carlos Nejar.

Talvez ele tenha unido os dois sobrenomes como gesto poético. Além de colar pai e mãe, separados ainda em sua infância, criou uma palavra que, como observou outro dia Andréa Trompczynski no site Digestivo Cultural, parece um verbo: 'Carpinejaste as palavras', disse ela. E o apelido de Fabrício é Fabro - que faz pensar no cumprimento de Dante a Arnaut Daniel, reproduzido por T.S. Eliot a Ezra Pound: 'il miglior fabbro', o melhor artesão.

Carpinejar é um artesão que manipula cada palavra como argila e povoa a casa inteira de estatuetas, todas batizadas. Vide seu livro em lançamento, na verdade dois gêmeos siameses, um começando em cada capa: Como no Céu/ Livro de Visitas. É o sexto volume desse poeta gaúcho de 32 anos, o primeiro desde o excelente Cinco Marias, de 2004. Como no Céu tem 120 páginas e seu tema principal é o casamento. Livro de Visitas tem 104, numeradas de trás para o meio, e recolhe lembranças de infância. Ambos se somam no que poderia ser um auto-retrato, ou até uma auto-retratação, mas não é: 'Me apetece confiar em todos/ e não acreditar em mim./ Penso no mundo com tamanha ternura/ que só posso me repartir com violência.' É esse poeta de ternura partida que fala com o leitor, não só nesses versos mas também na prosa poética de seu já cultuado blog (http://carpinejar.blogger.com.br), e lá como cá mostra como é possível falar de seu cotidiano sem cair no confessionalismo, no diário de impressões automáticas. Seu trabalho é nomear, jamais rotular.

Carpinejar é um criador ciente do intervalo consigo mesmo: 'Esforço-me agora para desaprender'; 'Ao me confessar, pioro a estima'; 'Sou egresso da tosse'; 'Sou o que falta aprender'; 'Me vendi por menos, me comprei por mais'; 'A inocência é minha culpa'; 'Provoco como quem se odeia/ e não aceita divergências'. 'Quem não chegou a uma estação tarde de si/ a pressentir que o último ônibus passou?'; 'Estive à deriva, encalhado no vento'. Esse sujeito ao mesmo tempo amável e desconfortado, caseiro e inseguro, é o que entrelemos de um poema a outro e dá voz à assinatura.

O que caracteriza a poesia de Carpinejar, como a do Ferreira Gullar mais recente, é essa tradução de um estado de espírito caracterizada pela combinação de imagens concretas e pensamentos aforismáticos, pelo jogo entre ambos. É como o belo poema em que o narrador conta que dissolvia caramujos com sal (leia nesta página).

Nos três primeiros livros de Carpinejar, depois reunidos em Caixa de Sapatos (2003), essa aparentemente imensa facilidade de criar metáforas se convertia, muitas vezes, em quase hermetismo, em choque obscuro de sentidos. Aos poucos ele foi simplificando sua composição e com isso ganhando força poética; em Cinco Marias, atingiu um equilíbrio, ou melhor, uma harmonia ('Harmonia é mais penosa do que equilíbrio', diz em Como no Céu), que deu ao leitor um grupo de versos memoráveis e uma melodia geral, subjacente, como murmúrio de riacho. Em Cinco Marias visitamos toda a geografia daquela casa de mulheres.

Agora, porém, o risco é o oposto. Às vezes o poema não vai além do epigramático, principalmente em Livro de Visitas: 'Já me viste rindo nas fotografias?/ Não adianta rever./ Sou mais fotogênico na tristeza'. Ou podemos tomá-lo como argumento e discordar: 'Abandonar a si é coragem./ Abandonar ao outro é covardia' - pois não raro abandonar ao outro é também a coragem de abandonar a si. Certo, o valor emocional do conjunto é emprestado a eles na leitura seqüencial.

Mas quando se lê, sozinho na página em branco, o dístico 'O pulmão é uma tempestade/ que não aconteceu', depois de saber que o poeta tem asma e nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço, aí sim a intensidade ganha o rastro de uma imagem.

É CAPAZ DE CRIAR CENAS RICAS EM OBSERVAÇÃO DO HUMANO

Nos melhores textos, vemos que não existe poeta jovem brasileiro com a mesma fusão de habilidade e originalidade, capaz de criar cenas tão ricas em observação do comportamento humano como: 'e vou abrindo com as unhas/ as tranças da chuva, as labaredas de linho,/ escoando as calhas de suas pálpebras.' Depois de duas gerações em que a poesia se ressecou na vanguarda concretista, se sujou no engajamento social ou, depois, se perdeu nos delírios 'alternativos', não pode haver melhor notícia do que essa ascensão de Carpinejar. Em sua poesia ressoam Bandeira, Drummond e o Gullar de Muitas Vozes, além da natureza de Saint-John Perse e Ted Hughes - e da cosmovisão cética de Paul Celan e Fernando Pessoa: 'Eu me consumi/ antes de ter nascido./ Não ter mistérios/ é o maior deles.' Carpinejemos.

12:16 PM :: Comentários:


Sábado, Maio 07, 2005

COMO NO CÉU LIVRO DE VISITAS COMO NO CÉU LIVRO DE VISITAS



Meu novo livro chegou nas livrarias, publicado pela Bertrand Brasil. Na verdade, são dois livros em um, duas capas, sem contracapa. De um lado, acontece "Como no céu". Do outro, "Livro de Visitas". Um mesmo casal e finais diferentes. Reproduzo abaixo as orelhas de Millôr Fernandes e Manuel da Costa Pinto, cada qual escrevendo sobre um dos volumes.

APRESENTAÇÕES

COMO NO CÉU

Millôr Fernandes

Fabrício Carpinejar tem vergonha de ser autobiográfico. À altura dos 30 e já poeta consagrado o que quer que isso seja num país de 170 milhões e num mundo de 6 bilhões de gentes ele, envolvido nos tempos da poesia que vive, claro que jamais dedicaria um verso à Carolina, aquela do leito derradeiro, dando nome do cemitério e até número da campa. Não, a primeira tarefa do seu ser poético, do Fabrício, é codificar quem é, implicitar, não explicitar. Como num haicai em que o branco se torna subitamente mais branco, o poeta japonês, tiritando de frio, pretendendo dizer, sem dizer, que o inverno chegou. Quem quiser que entenda. Eu entendi. Como?

Como, há algumas décadas (não me perguntem quantas) abri pela primeira vez o Dicionário do Diabo, do Bierce, e vi a definição de Branco - preto. Era isso, claro! Fechei o livro e fiquei matutando, como faço sempre quando leio alguma coisa que me emociona (instiga é melhor) especialmente. Foi assim quando li, num pequeno livro sobre Rabindranath Tagore: "Seu pai, o santo, viu Abdul Kan, o último dos Imperadores Mongóis, soltando pipa na muralha de sua fortaleza".

Péra aí, "seu pai" (do Rabindranath, poeta, místico, um belo gigante, dançarino, prêmio Nobel), "o Santo" (um dos milhares de santos da índia, mas ser grande mahariishi não é pouca porcaria), "viu Abdul Khan, o último dos imperadores mongóis, soltando pipa na muralha de sua fortaleza?". Péra aí, de novo, esse imperador Abdul Kahn que idade tinha? Soltando pipa (papagaio?) em que fortaleza? Durante uma semana fiquei pensando: "o que é que estou fazendo aqui, no Rio, na Gamboa?". Millôr, o mundo já foi, já era, é muito distante, no tempo e no espaço.

O mesmo sentimento me vem agora quando procuro a biografia (a vida) do Fabrício na poesia do Carpinejar. Decifro-o. De parada em parada acompanho-o quando ele (é ele quem diz, retratando-se, sem querer, livro afora, não estou inventando nada): "Voltou ao estado de contenção e apuro, antes ou depois de se revelar homem de chorar em segredo, recupera o sentido das palavras que não foram usadas, desmemoriado como um santo. E segue adiante, como um sedado que não completa seus pensamentos, terrivelmente incompetente até para a desgraça - preso à pronúncia de um país. Não define sua maneira de falecer, as fórmulas, os teoremas, os temas, infâncias terríveis, com a maldade correndo dos dois lados. Pois amor não é indigência - pela distância que sobra na cama, deitar é um ritual. Tranqüiliza e concilia as diferenças do cansaço". E é ainda ele quem me diz: "Eu sou uma cidade de baixo, ela é a cidade vista de cima, eu me vingo, ela perdoa, sem exigir nada em troca. As fotos misturadas são sinceras".

E ainda é ele e sou eu, isto é, somos, falando do poeta Fabrício Carpinejar: "Deveria ser preso por atravessar uma praça ensolarada e não sentar". Mas ele autoriza, em outra linha: "Ponha esse sol de janeiro em minha conta".

Como fiz com outros no passado, paro de ler, ao pressentir que Fabrício solta pipa (pandorga) do alto da torre da Igreja da praça florida de São Leopoldo, incentivando o sino histórico a dar, pela milésima-milésima-milésima vez, a badalada da confluência de todas as horas, lembrando que já não somos crianças, somos adultos, do tamanho de um defunto. "Um cego não anda com as mãos no bolso".

Vai. Lê ele. Devagar. Decifra-o.
E ele te devora.

LIVRO DE VISITAS

Manuel da Costa Pinto

A obra de Carpinejar vem se afirmando na cena cultural brasileira em razão de um valor cada vez mais raro na literatura em geral e na poesia em particular: a experiência - entendida aqui como matéria bruta que a escrita poética transfigura, sem todavia esquecer aquilo que pôs em movimento a "máquina de trovar" (segundo expressão de António Machado).

Ao mesmo tempo, esse registro lírico dramatiza com angústia - mas também com boa dose de ironia - a impossibilidade da vivência, traduzindo assim nossa época de massacre da subjetividade.

Dois eixos percorrem esse Livro de Visitas. De um lado, a dicotomia entre público e privado, anunciada já na epígrafe: "A rua é tão-somente uma casa destelhada". De outro, uma tentativa de preservação da memória pessoal que vai sendo corroída por um estranhamento inoculado naquilo que é mais familiar (e que é um estranhamento de si mesmo).

Em ambos os casos, trata-se de cancelar essas oposições, fazendo-nos sentir que tanto os espaços externos (ruas habitadas pelo grito dos feirantes; pomares da infância com varais ondulantes) quanto os laços de sangue (com suas recordações escolares e seus álbuns de retrato) só existem como nostalgia de uma comunhão cuja impossibilidade a literatura vem redimir.

Carpinejar adota às vezes um olhar contemplativo que recolhe "as roupas do quarto com a nudez morna, esquecida de seus transtornos". Mas, por trás desses vestígios cotidianos, há sempre um desastre à espreita - que esse poeta avesso a convulsões formais enuncia de modo pacífico, com uma discrição que retira de cada momento uma sentença iluminadora.

"O que é visível já não é meu"; "quando estamos próximos de dizer é que não estamos mais aqui" - escreve Carpinejar em poemas nos quais a forma epigramática resume a situação de quem visita uma realidade cujas promessas de conciliação e hospitalidade sobrevivem apenas pelas palavras.

7:15 PM :: Comentários:

MINHA INFÂNCIA EM SP



Na quarta (11/5), farei palestra no Sesc Araraquara, dentro do projeto PALAVRA TODA. Falarei sobre a "Infância", às 19h30, com entrada franca. Endereço: Rua Castro Alves, 1315 Bairro Quitandinha Araraquara (SP).

10:47 AM :: Comentários:

JORNAL DO BRASIL, CADERNO IDÉIAS, 07/05/05

CARTAS AO HOMEM DE 40
O gaúcho Paulo Bentancur estréia na poesia com jeito de prosa

Fabrício Carpinejar
Jornalista e poeta


Bodas de osso
Paulo Bentancur
Bertrand Brasil
140 páginas
R$ 25

São poucos os escritores de estilo hermafrodita, capazes de atender tanto os caprichos femininos da poesia como os masculinos da prosa, sem misturar os gêneros ou criar uma interdependência nociva entre eles. Os mineiros Luiz Ruffato e Iacyr Anderson de Freitas e o gaúcho Fausto Wolff são bons exemplos contemporâneos de articulação nos dois gêneros com autonomia e discrição. Nenhum deles está fazendo prosa em versos ou versos em prosa. Suas obras acontecem em ambos os planos com suficiência salutar.

Bodas de Osso, estréia de Paulo Bentancur na poesia, é um livro que pende para a prosa. Não é um estigma, muito menos uma limitação. Trata-se de uma escolha do próprio autor: ''Isto não é um poema, não é/ nem mesmo uma confissão, não é/ sequer o olhar turvo de um espírito/ sem a luz de quem, ao lê-lo, poderá/ ver mais que um poema. Ou menos''. Natural de Santana do Livramento (RS), Bentancur já havia feito incursão lírica com Instruções para iludir relógios (1994, Artes e Ofícios), mas é a primeira vez que assume o verso como forma luminosa de sua voz. É verso por uma questão técnica, pelo espaçamento e formatação, mas não pelo espírito, que remete mais ao encaixe semântico da narrativa, e menos aos valores fônicos e musicais. Se a obra estivesse disposta em contos, também não sacrificaria o efeito e o método. Os períodos são longos, explicativos, carregados de conjunções, locuções e advérbios, que cessam subitamente o andamento. Assim encontram-se, com freqüência, poemas interrompidos como ''o silêncio é feito de muito,/ máquina de fôlego e paciência./ O barulho, no entanto, só resume, inibe, some,/ surdo ao que não o escute''; ''a saudade, isto é, a morte''; ''o trio, porém, ficou/ atiçando uma barata/ tonta'' e ''O prato, no entanto, a encher-se/ desse canto que a louça/ oferta a quem a empilha''. É possível detectar ainda terminologias, tal a do boxe, que sobrecarregam o texto de especificidades e não libertam a iluminação e o sentido: ''Só há uma paz:/ clinch quando/ ao punch anula,/ e a à gula do jab./ Mas uma hora cai,/ última paz.''

Essas marcações didáticas e figuras de apoio dificilmente são percebidas em uma narrativa, mas cumprem uma diferença fundamental na poesia, breviário da concentração e da leveza. Impedem o deslizar de azeite do lirismo. A poesia é como azeite aquecido, escorre e queima, borbulha e salta. Nada a impede de explodir. Em Bodas de Osso, o azeite está frio propositalmente, como a trancar e isolar um tema arenoso e pessoal: a infância sofrida. Não há o estouro, a culminância, mas um adiamento progressivo da proximidade com o fogo. O escritor conta uma história, de nenhuma maneira canta, tomado de uma timidez de quem ainda não se perdoou pelas escolhas feitas ou pelo rigor do destino. O humor irresoluto, enviesado, explicita o nervosismo. ''No primeiro Natal sem mamãe/ já tínhamos mais de quarenta/ e todos choramos./ Menos minha filha, admirada/ com a barba torta de Papai Noel.'' Não é um humor que provoca o riso, porém acentua a dor ainda mais. Não se caracteriza como humor negro, e sim humor amarelo, da piada triste, da impossibilidade da alegria.

A antipoesia de Bentancur é, curiosamente, sua força dramática. Impõe dispersão interna aos relatos, que oscilam com a veracidade e intensidade da memória. O leitor é jogado de volta aos acontecimentos escolares e caseiros de formação como o receio do filho que se concretiza ao perceber que ninguém veio buscá-lo na escola em sua primeira aula.

Uma comparação provocativa é enxergar o livro como uma série de cartas do escritor endereçadas a si mesmo, passando a limpo sua trajetória durante a crise dos 40 anos. E não há como não se emocionar com as ''desventuras epistolares'' de uma criança isolada, sem amigos e interlocução, de condições financeiras limitadas, a sobreviver da literatura longe da compreensão da família e com expectativa zero de sucesso.

Entra-se em contato com uma completa falta de esperança (ou seria de fé?) da persona poética de Bodas de Osso. O passado é desigual e avarento, o futuro tampouco presta. Essa dupla dificuldade é a senha do percurso, a dificuldade de se esquecer e a dificuldade de lembrar. O que um dia se viveu não será coberto totalmente pela terra ou redimido inteiramente pelo céu. O limbo é aqui.

10:43 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 06, 2005

UMA CLARIDADE
Gravura de Mark Rothko

Fabrício Carpinejar

O dia aqui está laranja. Como nossa infância. Laranja, recordas? Laranja que a gente pensava que emanava das lajes ou do telhado, mas vinha das mãos mexendo no futuro. Laranja de um sorvete que não existia, a não ser na luz que o comia. Laranja como a nossa convicção. Nunca pensei em laranja para vestir, hoje me acordei dentro dessa cor e lembrei o que não sabia. Laranja do interior da fruta, não da casca, do sumo que fica organizado para a boca e distribuído em lágrimas empacotadas, com o rigor de penas de um pássaro. Laranja dos olhos arregalados em fotografias. Laranja cristalino. Laranja crespo. Laranja como a crista do galo quando ele dorme. Laranja como a língua depois do xarope. Laranja como os pés depois de caminhar muito na areia. Laranja como as pontas dos dedos depois da maconha. Laranja como um pasto depois da fogueira. Laranja como a iluminação no túnel. Laranja da grama queimada na praia. Laranja de um chapéu de feltro guardado no armário. Laranja de uma cadeira de palha de três gerações. Laranja como o silvo do trem. Laranja como cavalos em celeiro. Laranja como um grito de criança na piscina. Laranja como um pátio sem cachorro. Laranja como um colete de lã dado pela tia. Laranja como o peito de um pássaro na minha grade. Laranja como uma lanterna de pilha fraca. Laranja como velas de igreja. Laranja como os joelhos invisíveis das abelhas. Laranja como um segredo enrugado. Laranja é quase loucura, se não fosse casa.

1:55 PM :: Comentários:

FIM DO SUSPENSE

A filósofa Márcia Tiburi, minha colega do programa "A Bela e a Fera" da TV Unisinos/Futura, foi confirmada no elenco do programa Saia Justa, do GNT, ao lado de Betty Lago e da atriz Luana Piovani. A jornalista Mônica Waldvogel é a única que permanece do antigo time e conduzirá o programa. Fonte: Terra

11:50 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 05, 2005

FÉ E ÁLBUM DE FIGURINHAS
Gravura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Eu tinha maravilhamento por álbum de figurinhas. Essa obsessão de colar, de armazenar as repetidas, de disputar bafo com os colegas, de ter um mundo em miniatura para cuidar. Assim como se zela por uma samambaia ou coleção de selos. Abrir o envelope era uma condição mágica. Como um presente, espiava primeiro dentro do pacotinho antes de pôr as mãos nas imagens. Sonhos curtos de um número ao seguinte. Ao acumular casas vizinhas, montei meu bairro, minha cidade. O curioso é que não concluí nenhum álbum, sempre fiquei perto, com uma ou duas figurinhas faltando. Mas não mandava, sob hipótese alguma, carta para o fabricante pedindo as que restavam. Considerava um meio ilegal e fácil. Existe uma ética na brincadeira, um contrato imaginário. Questão de honra conseguir as mais raras nas bancas, do mesmo jeito da maioria. Álbum nunca me serviu como um troféu, um boletim de escola, para mostrar aos pais e me orgulhar de sua perfeição. Significava o diário que não escrevia. O caderno ilustrado do tempo livre. Não ficava triste ao não completá-lo, minha felicidade consistia tão-somente em fazê-lo. Álbum é destinado para incompletude, disciplinar o esforço, respeitar os vazios. Se eu adquirisse todas as figurinhas, seria igual a tantos que concluíram o livro como uma tarefa. Se carecesse de uma ou de duas, o álbum torna-se particular, pessoal. Não concluir o livro é amor. Poucos terão as mesmas figurinhas faltando. Pode soar absurdo, entretanto, o álbum de figurinhas me ensina sobre a relação a dois. Não se deve completar tudo, preencher tudo. Há lacunas que nos alimentam. Há páginas que ficarão em branco, cromos que não serão colados, lembranças que não terão ilustração. A incapacidade de chegar ao fim é o que mais me comove, porque se reserva um espaço para companhia. Igual medida encontro no casamento. Não é a paixão. Não é a amizade. Não é a afinidade. Não é a convivência. Não é a sorte. Não são os filhos. Não são as conveniências. Nada disso determina a harmonia de um casal. Qualquer uma dessas causas não impedirá a separação. O que exerce a diferença e sustenta a permanência é a fé. Duas pessoas que se apaixonam uma pela fé da outra é amor. Duas fés juntas, nem Deus impede, nem o diabo separa, nem o azar dificulta. Fé é espessura. A fé que começa em um álbum de figurinhas e não termina com ele, a fé que começa com as mãos dadas no cinema e se transforma em nó de balanço, a fé que começa ao arrumar uma gravata do marido ou ao limpar a boca da mulher no almoço, a fé que começa sem importância, em uma miudeza que só quem tem fé repara. A fé, que não se importa com provas e acusações, que não mudará o que acredita por indícios e suspeitas, que perdoa antes de acontecer, que reconhece antes de ver, que compreende antes de ler. A fé que não é roupa para se achar no armário, muito menos memória para consolar. A fé.

10:31 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 02, 2005

PEDIDO
Gravura de Hans Hofmann

Fabrício Carpinejar



Traga-me o mar e as rendas das canoas. Traga-me o chá de ervas que colore as mãos depois do abraço. Traga-me os ombros na véspera do sol. Traga-me a cabeleira de astros e a lareira de grilos. Traga-me a glória do limo e os degraus dentro da estante. Traga-me um rosto surpreso e o gancho da porta para pôr o casaco. Traga-me um pensamento que não foi sentimento. Traga-me o visco mais duro, o céu inconformado, o verde aposentado. Traga-me teu sotaque de praia, teu dialeto de inverno. Traga-me tuas notícias sem jornal, a ambulância da brisa. Traga-me os insetos em frascos e a boca aberta de espanto. Traga-me o ritmo das cartas sendo embaralhadas. Traga-me teu álbum de fotos e as figurinhas repetidas para trocar. Traga-me a conversa de corredor, a porta observada. Traga-me o filho no colo, a carícia dos ouvidos. Traga-me as frutas do pé e a horta do fim da casa. Traga-me as jóias falsas para as pedras disputarem corrida no piso. Traga-me a caridade ainda não descontada, a insatisfação aumentando. Traga-me tuas pernas altivas, teus seios de lado. Traga-me os milagres que não aconteceram, a garrafa de água. Traga-me a renúncia, as gramíneas em caixotes, a colher do violão. Traga-me o medo da escada em caracol, as tampas de vidro dos perfumes. Traga-me teu nome do meio, a escritura do pessegueiro. Traga-me o cheiro da cidade natal, o estojo de linha e agulha. Traga-me o sótão de teus livros, a letra mais arisca. Traga-me teus problemas incomunicáveis. Traga-me a indulgência infantil ao açúcar. Traga-me o animal de estimação de seus cinco anos e sua desaparição repentina. Traga-me o perdão ao teu pai e à mãe, o pomar das gavetas. Traga-me a manhã depois de ter amado à noite. Traga-me a noite depois de ter odiado à tarde. Traga-me areia fora da ampulheta, o resto de música que fica no copo. Traga-me tua risada, a loucura, o palavrão. Traga-me alguma senha esquecida, algum pente esquecido na bolsa. Traga-me a covardia do salto, a timidez do sutiã. Traga-me a aparência de quem não chegou a tempo. Traga-me a Bíblia marcada com fita de cabelo. Traga-me os mistérios gozosos. Traga-me a salvo o ainda que não abrimos juntos.

11:02 AM :: Comentários:

DEU NO J.U. ONLINE

A Bela e a Fera na TV Unisinos
Márcia Tiburi e Carpinejar apresentam programa de comportamento, que faz sua estréia na quinta (5/5)

Fotografia de Renata Stoduto



O que esperar de um programa conduzido por uma filósofa e um poeta? A TV Unisinos (RS), sintonizada no canal 30 UHF no Vale do Sinos e no Canal 32 da NET em Porto Alegre e Novo Hamburgo, guarda a surpresa para quinta (5/5), às 18h, na estréia de "A Bela e a Fera", apresentado por Márcia Tiburi e pelo escritor Fabrício Carpinejar. Com tema livre e sem meias-verdades, "A Bela e a Fera" mostra que o humor pode ser um perfeito complemento da sensibilidade. De quebra, o pianista Paulo Bergmann dá uma canja e embala a conversa.

O primeiro convidado do programa é o jornalista e escritor Flávio Tavares, que recentemente publicou o sucesso "O Dia em que Getúlio Matou Allende" (Record), premiado como melhor livro de não-ficção pela Associação Paulista dos Críticos de Arte 2004. Nascido no Rio Grande do Sul em 1934, Flávio Tavares foi o principal colunista política de Última Hora, rede de jornais de Samuel Wainer. Preso em 1967 pela ditadura militar, saiu do país em 1969, junto ao grupo de 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos. Viveu dez anos no exílio. Atuou como correspondente internacional do jornal Excelsior (México), de O Estado de S. Paulo na Argentina e Espanha e da Folha de S. Paulo em Buenos Aires. Em 2000, ganhou o Prêmio Jabuti com o livro "Memórias do Esquecimento", que narra sua experiência durante a ditadura militar.

Com "A Bela e a Fera", poesia e filosofia tomam conta das urgências do cotidiano. No Café Armazém do Pão, localizado na Galeria da Biblioteca na Unisinos, num clima de final de tarde, Márcia e Carpinejar disparam o verbo num bate-papo franco sobre amor, política e literatura. O programa tem reprise às segundas, às 18h.

Vinculada à Fundação Padre Urbano Thiesen, a TV Unisinos é parceira do Futura no RS, produz dez programas em cinco horas de programação diária e um telejornal ao vivo, tem uma equipe de 50 profissionais, entre jornalistas, publicitários, técnicos e professores.

10:55 AM :: Comentários:

VITROLA DOS AUSENTES

Nesta quinta (5/5), acontece o relançamento de "Vitrola dos Ausentes", de Paulo Ribeiro, agora em nova roupagem e editado pelo selo paulista Ateliê Editorial, dentro da coleção LêProsa. O burburinho começa às 19h30, na Livraria Cultura (Bourbon Shopping Country, Av. Tulio de Rose, 80, Loja 302), em Porto Alegre. Antes da sessão de autógrafos, participo de conversa com o autor, Luís Augusto Fischer e Regina Silveira.

10:31 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 01, 2005

PENTEANDO O RELÓGIO
Gravura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Quando não havia essa obsessão pelo cinto e muito menos obsessão em agradar, ia de pé no assento de trás do carro. Enquanto meu pai dirigia, observava todos os outros motoristas pelo vidro traseiro. Acenava comovido, procurando despertar a simpatia de um casal, de uma solitária, de um senhor de chapéu. Em dias de neblina, desenhava com os dedos. Em dias de luz intensa, lavava as mãos com o sol. Andar para frente sempre foi olhar para trás. Isso deve ter ficado em mim mais do que a conta. Essa sensação de recuo involuntário. Essa sensação de olhar a janela do carro pelo retrovisor, não pelos lados. Essa sensação de esquecer alguma coisa importante e não recobrar com o tempo. Essa sensação de ouvir a música pelo fim, não no momento de seu início. Só converso com as ruas que me levam para casa. Com as outras, sofro dificuldades de me apresentar. Confio em avenidas com árvores nas esquinas. Minhas verdades foram mentiras com paciência para acontecer. Não admito mentiras piedosas, omissas, que reduzem fatos para diminuir a culpa. Mentir pode ser um ato de franqueza, pelo excesso incontrolável de verdade, não pela falta dela. Nunca vivi uma verdade verdade, que não tenha sido um pouquinho imaginada. Escrevia para melhorar o que faltava dizer, mas apenas piorava o que havia dito. Toda manhã devia me acordar pensando no pássaro, no barulho das venezianas, no café rilhando no escuro. Mas penso nos problemas a resolver. Crio problemas para não ficar ocioso. Poderia ter me facilitado, mas uma alegria inata perde a graça. Minha única virtude é preservar os vícios. O que não sei lidar é com a inimizade súbita. Brigar com alguém por trabalho e suportar essa pessoa levar a questão profissional ao plano pessoal. Não aprendi a vedar a tristeza. Ela vaza pela voz. De repente, percebe-se um desafeto onde ciscava segredos. E não adianta se explicar, desejo não se corrige. O que não foi solucionado existirá em mim mesmo depois da boca. O corpo pagará em dobro, o que gastou e o que a alma ficou devendo. Quisera desfrutar a amizade antiga dos bois com as ervas ou das folhas com as calhas. A amizade pela necessidade. Pois a necessidade é que gera a aceitação e tento justamente o contrário: a amizade pela compreensão, o que não gera a necessidade. Compreender não é concordar, é respeitar. Já necessitar é concordar antes de compreender. Quem cala o que sente está se protegendo, quem fala o que sente está protegendo quem escuta, ainda que provoque atritos e rusgas. Toda vulnerabilidade faz inimigos. De novo, sou o menino do vidro traseiro. Não deixarei testamento com antecedência. Meu original é o último rascunho. E ninguém entenderá a letra, passando a inventar o resto. Até meu testamento não será uma verdade verdade.

9:53 AM :: Comentários: