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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Junho 30, 2005

QUEM FOI VIÚVO NUNCA MAIS SERÁ SOLTEIRO
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Agora entendo a vontade de morrer depois que a esposa morre. Depois que parte a confidente de nossa boca. Pensava que era fraqueza, covardia ou egoísmo. Mas não. É o pavor de que os próximos dias apaguem a memória dos dias anteriores. Além de perder quem amamos, passamos a perder a memória de quem amamos. Ela morrerá de novo todo dia. Cada dia que passa crescerá a possibilidade de suplantar o dia em que se estava junto dela. Viver adiante é deixar de viver atrás. E a imagem dela real e carnal, presente e ubíqua, vai se rareando, enfraquecendo com as obrigações. De vez em quando, se travará o passo no meio da rua, para reconstituir um detalhe. Todo o pensamento se tornará decisivo. Não haverá concentração capaz de segurar as curvas da convivência. Desaparecem as sutilezas, o que não vi para ao menos lembrar, o que não ouvi para opinar. Doerá o que não aprendi a tempo de ensinar.

O que acontecia de forma natural e espontânea ficou impossível, o corpo próximo ao beijo ficou impossível, os telefonemas ao seu trabalho ficaram impossíveis. Percebe-se que se amava tanto que se esquecia de viver esse amor como deveria. A casa se transforma em um quarto de hotel, impessoal e distante. Os travesseiros serão lavados, o olor dela estará debaixo da carne como uma idéia. De que importa dormir, sem esbarrar nela, sem abraçar em concha, sem a respiração como um ar condicionado permanentemente ligado? De que importa despertar, sem ter ao menos alguém para contar o pesadelo?

Sua xícara de café com dois terços de leite e a cadeira da direita que ela se acostumava a sentar para se escorar na parede não têm mais sentido. Separar as roupas com antecedência para não acordá-la não tem mais sentido. Reclamar do saco de pães aberto pelo lado e de sua impaciência para tirar o nó não tem mais sentido. Conferir se a porta está chaveada não tem mais sentido. A reforma no telhado e a pintura das paredes não têm mais sentido. A jardineira não tem mais sentido. O gosto dos lábios não tem mais sentido. Abrir o fecho de um vestido não tem mais sentido. Encostar a porta com chinelos não tem mais sentido. Os livros que não lerei não têm mais sentido. Suas músicas, que dizia não gostar para provocá-la, não têm mais sentido. O teclado em que digitava com quatro dedos não tem mais sentido.

Aceita-se viver da sorte de ter sido amado um dia.


9:42 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 29, 2005

_ _ _ C_
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



O relacionamento é um bicho de sete cabeças. Cabe decepar cinco delas e deixar duas pensando. Não permitir que outras cabeças intrusas mandem mais do que a do casal, ainda que seja a mãe, a sogra, a melhor amiga ou amigo. Aprendi a amar jogando Forca na escola. Deduzir as letras que faltam para não deixar morrer a linguagem. É evidente que complicamos o amor. Pois o amor nos torna confusos, eufóricos, instáveis. Nada apaga a incerteza do começo. Quando se fica junto e ainda não se tem convicção do enlace. Qualquer sinal pode aproximar ou sacrificar o início. Nenhum dos dois confessa o namoro. Ficam juntos, não conseguem voltar para casa, arrumam pretextos e não se fala o que se queria. Ambos rodeiam com palavras outras para se aproximar da palavra aquela. Já descobriram a intimidade, a empatia, as afinidades, mas há o medo de apressar. Mas há também o medo de demorar. Como é difícil acertar o ritmo de fora com o ritmo de dentro. O abraço serve para apartar o excesso de palavras, assim como no boxe o abraço serve para conceder trégua aos socos. Quanta violência na vagueza. É dormir de tarde e se acordar de noite. O amor rouba o fuso, o contexto, a simplicidade. É uma mudez carregada de fragilidade. Apaga-se a luz ou apaga-se o corpo para diminuir o receio de não ser aceito. O amor aperfeiçoa os defeitos. Os defeitos ficam charmosos, simpáticos, expansivos. O amor devolve a transfiguração. A realidade não basta. Percebe-se no lampião sua touca de vidro. E se acha graça do fogo usando touca de banho, para não molhar os cabelos. De repente, se está rindo sozinho, do absurdo de ver mais do que se deveria, pelo excesso de contigente da imaginação. O que era impensável parece adequado. Não se enxerga somente o passado de quem se ama, mas o que se oferece de futuro. Da mesma forma, nada apaga a incerteza do final. Volta-se ao mesmo 'não-sei-o-quê", o doloroso balbuciar destinado a encerrar uma história. Nenhum dos dois pede a conta - o temor de que o estrago seja maior do que o fundo. Não se toma o partido, a iniciativa. Há o risco de errar feio e se enganar com a previsão. Calam-se e discutem por qualquer coisa porque não se tem a coragem de se discutir o que interessa. É um estado de nervosismo permanente, de vulnerabilidade extremada. Vontade de terceirizar a vida e deixar que os outros administrem e tomem as decisões em nosso lugar. Vontade de largar a casa, os móveis, mudar de identidade e retornar assim que tudo estiver resolvido. A falência amorosa é como a falência de uma empresa. As centenas de funcionários demitidos são as lembranças. São postos na rua preceitos, frases e ideais antes caros à memória. A indefinição é que faz o amor permanecer ou ir embora. E não existe modo de diminuí-la. A vida se faz de expectativas. Talvez a vida seja curta para cumpri-las, talvez seja longa para entretê-las. Não se pode esquecer o que aconteceu atrás, antes do amor. Como disse Ana: "Fazíamos máscaras caseiras com pepino, passávamos ovo e outras podridões no cabelo, fazíamos touca e usávamos meia calça cortada embaixo dos vestidos (nas mangas) para não passar frio. O pior é quando se voltava da festa com outras amigas. Eram três horas de papo para entender o que aconteceu (na verdade, por que não aconteceu)". Que o amor seja indefinido para durar. Só se fala do que se tem a necessidade de compreender.

9:36 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 27, 2005

PUNHADO DE CAFÉ
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Não sou de pacotes fechados, de peso definido, que se pegam na estante e se gastam automaticamente. Ainda sou descendente das sacas e dos potes, onde se comprava café e farinha a granel. Separava o café como quem completa a sombra. Emagrecia os dedos. No bolso, dinheiro trocado, esparso. Se ultrapassasse o valor, entregava de volta. Descobria-se na concha o que se precisava. Decidia-se a vida no punhado. Não se levava mais ou menos. Queria o suficiente, para não sobrar depois da sobra. Meus olhos são a granel. Meus braços são a granel. Meus pés são a granel. Devolvem o que não usaram. Os armazéns de esquina tinham portas de ferro e balanças indulgentes, com a marcação de mão. Os números quebrados me tornavam inteiro. Nem 1kg, nem meio quilo. Tudo se resolvia em gramas, minha vida feita intensamente de cada grama. Esperava ansioso acertar a cota. Ir no armazém era mexer por dentro de uma ampulheta, dentro do vidro. Segurava a areia quente no momento da descida. Ir no armazém era tão importante quanto comprar uma passagem na rodoviária. Despertava cedo para ganhar preferência de conversa no balcão. Não mudei. Escolho a paixão a granel, a amizade a granel, a fidelidade a granel. Meus filhos, minha mulher estão na velocidade das unhas. Meço minha fome, o que empregarei no almoço, o que ficará para a janta. Há uma única forma de doer, mas tantas formas de enfrentar a dor sem se rebaixar a ela. O sofrimento é mais egoísta do que o prazer. Não admitimos que o outro sofra em nosso lugar. A gente só se desentende depois de se conhecer. Sou lento, demora muito tempo para um sentimento em mim virar pensamento. Meus pais me ameaçavam: "se queres sair de casa, agüente as conseqüências". Fui saudável para suportá-las. Minha memória não dorme sozinha. Não temo a solidão. Em último caso, eu me acompanho. Dividir o passado com quem amo não deixa de ser um modo de alterá-lo.

4:45 PM :: Comentários:

FOLHA DE SÃO PAULO, ILUSTRADA
São Paulo, segunda-feira, 27 de junho de 2005

LITERATURA

DA PASSARELA DAS BIBLIOTECAS, ESCRITORES ELEGEM MISS
Chico Buarque é vencedor do 2º Concurso Miss Cultura para trechos literários; Adélia Prado leva Miss Simpatia

JULIÁN FUKS
ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE

Foto de Rodrigo Rocha


Palavras bem torneadas, rimas rijas, estilo no caminhar das frases. Respiração autoral equilibrada, espinha dorsal ereta, olhar alto e preciso, abrangente. O balançar de um lado a outro das sílabas, como cachos de uma cabeleira, no molejo do salto alto a passear pela passarela das páginas. Vinte centímetros de prosa, 30 de verso. Cacofonias e deslizes verbais são desclassificatórios.

"A beleza do texto é fundamental", dizem os escritores Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha, organizadores do 2º Concurso Miss Cultura para trechos literários. Um concurso de beleza em que as beldades são os livros.

Os dois idealizaram o concurso como forma de fazer um sarau diferente. A cada mês, junta-se a dupla um convidado especial. Com a convidada desta edição, Cíntia Moscovitch, também escritora gaúcha, eles apresentam em leitura cada uma de suas cinco candidatas postulantes ao título supremo e universal, escolhidas após 30 dias de processos seletivos prévios, na biblioteca mental de cada um dos três. O público, cerca de 40 pessoas em uma livraria de Porto Alegre, ouve atento aos textos e vota para definir a cada mês a mais nova Miss Cultura.

Como tema desta edição, o fantasma abominado pelas belezas tradicionais: comida e dieta. Os candidatos, com perdão do ofensivo trocadilho, são autores de peso. O primeiro a desfilar é Fernando Pessoa, com o poema "Dobrada à Moda do Porto", lido por Moscovich. Em seguida, João Guimarães Rosa, montado num lindo "O Cavalo que Bebia Cerveja", também entra na passarela.

Mais tarde, o americano Philip Roth desfila com seu "O Complexo de Portnoy" e o argentino Juan José Saer expõe as delícias de um churrasco canibal em "O Enteado". Todos são, braços cruzados às costas e olhos ansiosos esperando o resultado, lado a lado derrotados.

O vencedor, Miss Cultura de Junho de 2005, desponta na passarela sob rumores e polêmica. "Com vocês, meu terceiro candidato", anuncia Cunha e nada lê. Do alto, o som na caixa, e a música "Feijoada Completa", de Chico Buarque. Carpinejar não se contenta, quer a desclassificação imediata do candidato: "Não é literatura". Moscovitch pondera, é, não é, é, não é. O público vota e decide: Chico Buarque não é desclassificado e mais tarde será novamente votado pela maioria, para abocanhar o título de beldade-mor.

O segundo lugar, Princesa da Noite, é disputado em segundo turno pela zebra José Candido de Carvalho, com "Bifes à Milanesa com Farinha de Caco de Vidro", e Adélia Prado, com seu adequado "Casamento". Cunha faz a defesa de seu candidato: "Os textos de Carvalho são as coisas mais humorísticas que eu conheço na literatura brasileira." Carpinejar se indigna novamente: "Mas que discurseira é essa aí? Agora vai fazer tese?" Prado pertence a Moscovitch e acaba ficando com o terceiro lugar. Não deixa de ser boa ironia: Adélia Prado é eleita Miss Simpatia. Resta saber o que pensaria a própria autora disso.

Hora das justificativas

A teoria por trás da divertida prática do concurso vai além de parodiar o mundo fashion. "Estamos afirmando a necessidade de beleza no texto literário, o que significa reflexão, contemplação e construção de frases belas", diz Carpinejar, tão seriamente como esperariam os leitores de seu livro de poemas "Como no Céu", recém-lançado pela Bertrand Brasil.

Cunha, autor de novelas infanto-juvenis e do romance para adultos "Nosso Juiz" (Record), completa: "É grego o negócio: a arte é o que é belo aos olhos e aos ouvidos". Aproveita ainda para justificar a pertinência do evento: "O sarau é uma forma de socializar a experiência da literatura, que é quase sempre solitária e linear. Agora recuperamos essa tradição antiga de ler textos em público, mas de um modo menos formal do que no passado".

Promover a votação do melhor texto e também a competição e rixa fictícia entre aqueles que os selecionam previamente são ingredientes fundamentais à receita do evento. "A proposta é que tanto nós quanto o público encarnemos o texto, que o tomemos com o mesmo zelo e religiosidade como se fosse nosso", diz Carpinejar, cujas leituras dramáticas entusiasmadas irritavam Cunha. "Nada de leituras histriônicas", ele estabelecera no início. Carpinejar se recusou a obedecer a ordem, seguindo, talvez, a idéia central de tudo o que se fez ali.

SARAUS VOLTAM A REUNIR LITERATOS
DO ENVIADO A PORTO ALEGRE

Se o Concurso de Miss Cultura para trechos literários é algo provavelmente sem precedentes na literatura brasileira, os saraus -tradição antiga no cenário da literatura mundial e nacional- parecem estar ganhando cada vez mais força nas cidades brasileiras.

"A história da literatura está repleta deles, e agora estamos voltando à prática", diz Marcelo Carneiro da Cunha, lembrando que boa parte dos textos antigos começa com expressões como "Esta história que você vai ouvir..."

Porto Alegre é também centro dessa atividade, contando com aquele que talvez seja o maior do país, o Sarau Elétrico, criado pela jornalista Katia Suman. Promovido há cerca de cinco anos no Bar Ocidente, toda terça-feira, já chegou a reunir mais de 300 espectadores.

São Paulo não fica atrás. O Sarau do Charles, que vai completar dez anos, localizado num galpão aos fundos da casa 921 da rua Harmonia (Vila Madalena), tem a sua própria maneira de descontrair. Intercalada à leitura de poemas, há apresentações musicais, circenses e teatrais. O próximo se realizará no dia 16 de julho, das 23h às 5h.

Não tão distante dali, a pequena Livraria da Esquina (rua Caetés, 489, Perdizes) recebe escritores, no fim da tarde, em sarau organizado pelo contista Claudinei Vieira. Já passaram por lá autores como Ivana Arruda Leite, Indigo e Tony Monti. O próximo ocorre no dia 30 de julho.

2:03 PM :: Comentários:

ANA AUTOGRAFA NA TERÇA

Minha mulher Ana faz sua estréia em livro, na antologia "Contos de bolso", provando que a quantidade de linhas não determina a qualidade. Está entre os quarenta e três autores que aceitaram o desafio de realizar uma micronarrativa com até 500 caracteres. O resultado será conhecido na terça (28/6), com sessão de autógrafos a partir das 19h30, no Dado Bier do Bourbon Country, em Porto Alegre.

Ana Lúcia Nejar adotou o nome Ana Baggio (em homenagem à mãe). Abusa de mordacidade e do humor. Exemplo é um dos seus minicontos: - Menino ou menina? - Mioma. O universo feminino é explorado também nos outros dois textos apresentados.

A coletânea Contos de Bolso tem prefácio de Marcelino Freire e foi organizada por Laís Chaffe, idealizadora e integrante do grupo Casa Verde, que conta com oito escritores. O planejamento gráfico da obra é de Auracebio Pereira, da PrintMaker, e a capa é de Luciana Veiga.

OS AUTORES: Alexandre Guardiola, Amilcar Bettega, Ana Baggio, Caio Riter, Cardoso, Carlos Urbim, Celso Gutfreind, Cíntia Moscovich, Claudia Tajes, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Daniel Rocha, Eduardo Nasi, Fernando Neubarth, Gustavo Finkler, Jaime Cimenti, Jane Tutikian, José Eduardo Degrazia, Leonardo Brasiliense, Lourenço Cazarré, Luís Augusto Fischer, Luís Dill, Luis Fernando Verissimo, Marcelo Carneiro da Cunha, Mario Pirata, Marô Barbieri, Paula Taitelbaum, Paulo Bentancur, Paulo Scott, Ricardo Silvestrin, Sérgio Capparelli, Sergio Napp, Tailor Diniz, Valesca de Assis e Walter Galvani.


1:56 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 26, 2005

JORNAL DO COMMERCIO, CADERNO C
Recife (PE), Domingo, 26/6/05


ENTREVISTA /FABRÍCIO CARPINEJAR

POESIA É DEFEITO DE COMUNICAÇÃO
Por Diana Moura

Fotografia de Renata Stoduto


"A gente não deve se desculpar pelo que viveu, só precisa se desculpar por não ter vivido." Foi com essa frase que o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar concluiu uma entrevista pontilhada por poesia e reflexão sobre a vida. O ponto de partida da conversa, realizada pelo telefone, foi o lançamento do livro "Como no céu/ Livro de visitas", um volume com dois livros (e duas capas) que discorrem sobre o lado solar e a face sombria do amor. Não qualquer amor, mas um amor que convive, reside sob o mesmo teto e tem lado certo na cama para dormir à noite. Além de escritor, Carpinejar trabalha como jornalista (sua "identidade secreta") de um site de informação, apresenta um programa sobre literatura no Canal Futura do Rio Grande do Sul e mantém dois programas de leitura na Livraria Cultura de Porto Alegre. Dono de uma poesia delicada, em "Como no céu/ Livro de visitas" o autor desenrola novelos de sentimentos até atingir o nervo das questões que aborda, do amor diário. Mas nunca concede ao tema o tom de uma navalha. Mesmo quando está empenhado em evidenciar (retirando-as) as camadas de insegurança e estranhamento que são o reverso da cumplicidade e do carinho, ele o faz com ternura: "Não conto os meus pesadelos ao acordar./ Não termino mais uma frase inteira./ O começo de uma conversa é difícil/ Depois mais difícil se torna/ Quando ela aconteceu/ Sem começar".

Jornal do Commercio - Por que lançar dois livros em um só volume?
FABRÍCIO CARPINEJAR - Eu quis enfrentar a poesia catártica amorosa, aquela poesia que é desabafo, que é loa, que é elogio, encenação. Então, a minha idéia é mostrar o relacionamento como ele realmente é. Contraditório. Sempre tem um lado escuro (Livro de visitas) e um lado solar (Como no céu) que se enfrentam e se completam.

JC - Mas, nos livros, o lado escuro também tem momentos doces. E o lado solar, às vezes, inclui as adversidades.
FC - Eu acredito que eu não poderia ser purista, extremista, a ponto de um lado não se interpenetrar no outro. Eles conversam entre si. Eu acho que no Livro de visitas há mais o peso do cinismo, do isolamento. "Ela não é capaz de me entender. Ele não é capaz de me entender." Na medida que você fala isso no relacionamento, você está decretando o fim. Enquanto no Como no céu, há a afirmação da compreensão. "Ele me entende. Ou, ainda que seja difícil, ela me entende." E mesmo quando há uma falta de compreensão, há um encantamento por essa falta de compreensão. É isso que eu busco. Em Como no céu, há a graça, a leveza, a comoção pelas imperfeições. É um humor diferente do Livro de visitas, que tem o cinismo, a ironia. Porque, num casal, aquilo que é imperfeito no início, deixar os frascos abertos no banheiro, a toalha molhada na cama, depois se torna uma marca de cada um, uma virtude, e você começa a sentir falta do próprio defeito do outro. Porque são os sinais da convivência.

JC - Então, quando se sente falta do outro, também se sente falta do que no começo era imperfeito e se queria corrigir?
FC - Aquilo que a gente tenta corrigir, com o tempo, na verdade nos corrige. Como no céu, por exemplo, tem uma cena em que a mulher que não gosta de tomar café, não gosta de passar o café, na ausência do marido, ela o faz, porque o cheiro do café diminui a solidão. O livro expressa esses detalhes, essas distrações, que a gente não acompanha pela pressa, pela maneira de concluir. A gente fica muito mais preocupado com o futuro do relacionamento do que com o passado. A gente trata o amor como uma relação cambial.

JC - Mas os seus dois livros tentam se desvencilhar disso, e tratar outras faces da relação, não é?
FC - Sim, acho que tem pelo menos o ímpeto da superação. Porque, por exemplo, um homem concluir: "Tolerava teus amantes como reencarnações atrasadas", isso é um avanço. É bonito. Porque a gente sempre quer ter a posse da pessoa. E essa posse significa apagar tudo o que ela fez. Ou seja, ela não pode falar de algum outro relacionamento, que a pessoa já sente ciúme, inveja. Eu acho isso errado. A gente não casa com uma pessoa, a gente casa também com a memória dessa pessoa. Se não, ela nunca estaria ali com você. O costume é querer zerar os relacionamentos na medida que se começa um novo. Isso é uma mentira.

JC - Numa entrevista, o escritor Ariano Suassuna disse acreditar que por trás de todo impulso de criação literária, estão a música e a poesia. Você concorda com essa afirmação?
FC - Totalmente. Ele é um poeta. Toda a operação do romance dele é pela poesia. É pelo arquétipo, pela imagem. Eu concordo, porque a poesia é um impulso erótico na linguagem. É onde a linguagem mais dança. Mais busca o outro corpo. Mais sai de si. É como fazer a história do mundo como uma história de imagem. É uma transformação ininterrupta. Você não fica contente com uma única forma. Quer outras formas sempre. É esse erotismo incansável.

JC - E como você lida com outras formas de escrita que não a poesia? Porque, no seu blog, você escreve muita prosa, mas que é totalmente poética.
FC - Isso é um defeito de comunicação. A poesia é um defeito de comunicação. Eu não sei pensar diferente. Meu pensamento vai ser sempre poético. Seja em crônica, em contos, ou em qualquer outro suporte. O que eu quero, realmente, é o arrebatamento. Eu acho que a poesia tem essa gravidade, essa urgência do desaforo. Na hora que você xinga, mobilizas todo o seu pulmão, todo o seu corpo. Você quer mudar aquilo. Acho que a poesia é realmente uma intervenção. Ela não vai agradar ninguém. Acho que a gente nasce para perturbar, conturbar. A gente já nasce gritando. Poesia é manter a força do grito inicial.

JC - Quer dizer que, em qualquer suporte que você esteja escrevendo...
FC - Eu vou estar incomodando...

JC - Ou pelos menos vai estar sendo poético?
FC - E o que é a poesia? A poesia é incomodar o senso comum. Aquilo que você tem como verdade, a poesia é do contra. Ela vai tentar mostrar que não é bem assim, que pode ser de outro jeito. Um exemplo: lá no blog, eu fiz um texto sobre dar um tempo. Eu acho essa expressão "dar um tempo" totalmente equivocada. Na verdade, o que se tem que dar é distância. Num outro, eu questiono o fato de as pessoas lamentarem quando a paixão se transforma em amizade. Pior é aquela paixão que não se transforma em nada. Mas é ótimo que uma paixão se transforme em amizade.

JC - Falando nisso, qual sua relação com essas outras escritas, o blog, o jornalismo? Elas te atrapalham? Você pensa em escrever um romance?
FC - Primeiro, a poesia não é trampolim para nada. A gente lida com aquela história de que "ele escreve poesia... quando ele vai escrever um romance?" Como se fosse uma promoção. A minha competência pode ser o fato de ter escolhido bem cedo a minha incompetência, que é não escrever romance. A minha competência é a poesia. Então, não vou ser promovido (risos). Agora, em relação a outras escritas, como o blog, acho que tudo isso é um processo permanente de investigação. Eu não me diminuo para escrever no blog. Pelo contrário, eu me dedico a aquilo, como se fosse um ritual, um momento extremo da minha vida. Tem pessoas que pensam que vou colocar um texto intermediário do blog. Não. Eu quero é a comunicação. Eu não escrevo para ser ilegível. Tem pessoas que acabam escrevendo para si mesmas. Ou seja, são tão egoístas, que só elas entendem o que estão escrevendo.

JC - Você acredita que por causa dessa tentativa de comunicação, você e outros autores de sua geração têm conseguido desmistificar a poesia para um público mais jovem?
FC - Acredito e espero que sim. Porque não adianta não comunicar nossas experiências. Eu acho que a gente está num tempo rápido, tem que aproveitar a clareza e a claridade. Há que se tirar proveito dela. É muito mais importante participar desse tempo, do que ficar pensando numa imortalidade. Por incrível que pareça, ainda há uma teimosia em comprar cadeiras no céu. Eu não aceito isso. Acho que a literatura tem que ser uma cadeira de praia, dobrável, que se pode levar consigo.

JC - Seu blog tem uma quantidade enorme de leitores, mas quase nunca os comentários são assinados por leitores do sexo masculino. Porque as mulheres ficam mais à vontade para falar sobre poesia?
FC - Não sei se isso não está mudando. Às vezes o homem sentia vergonha de suas dúvidas, de se expor. Mas eu acho que isso está mudando um pouco. Tem alguns homens que deixam comentários, mas realmente a predominância é de mulheres. Eu não sei se falo mais para o público feminino, será que é isso? Se bem que, como as mulheres, eu também adoro discutir relacionamento (risos).

JC - Seu livro suscita algo de biográfico. Essa impressão é verdadeira? Quanto da sua vida tem neste livro e o quanto foi imaginado?
FC - Aquilo que eu imaginei também é memória. A partir disso eu complico tudo o que é discernimento biográfico. Porque eu posso ter um impulso a partir de uma vivência, mas ser apenas um impulso. Eu posso chegar onde o fato não conseguiu alcançar. Mas a melhor forma de guardar um segredo é realmente mostrar ele. Então, eu me exponho. Se você fala o segredo com a informalidade de algo simples, você não vai estar chamando a atenção para ele, e as pessoas até vão esquecer. Eu me exponho de uma tal forma, que as pessoas não acreditam que aquilo seja minha vida. Ou pode acontecer o contrário. Eu posso expor algo que eu imaginei com tanta intensidade, que os leitores acreditam que é minha vida. Eu escrevi vários textos sobre separação. Então, recebi uma quantidade enorme de mensagens no correio eletrônico, tentando me consolar. Mas eu nunca me separei, eu nunca tive num momento tão bom na minha relação.

JC - Então, para ficar no clichê, você é um fingidor que sente?
FC - Realmente, você tem que estar provocando o sentimento. Eu sou uma esponja, uma antena. Escuto tudo o que me falam, e aquilo vai fermentando em mim, adubando, eu preciso sempre dar uma resposta. E essa resposta vai ser sempre uma pergunta ao senso comum. Eu acredito então que me exponho com muita violência. E porque eu exponho a minha intimidade com violência? porque a gente está no tempo de celebridades, em que a gente tem uma falsa intimidade com as pessoas. A gente sabe que um ator se separou, é informado de todos os detalhes, mas a gente não tem a intimidade de uma vida. Não é uma relação consolidada (entre as celebridades e o público). E eu sou contra a separação entre a vida e obra, entre a privacidade e a literatura. Eu quero confundir tudo, porque eu desejo que o leitor tenha uma densidade de experiência ali por detrás do texto. Eu não quero a falsa exposição da celebridade. Eu quero a verdadeira exposição de alguém comum.

JC - Você pensa em escrever para criança?
FC - Eu escrevi o livro infanto-juvenil Porto Alegre, o dia em que a cidade fugiu de casa, que faz parte de uma coleção na qual 27 escritores retratam uma capital do País. Conta a história de um menino que achava que a cidade se resumia ao seu bairro. Um dia, ele pega um ônibus errado e se assusta com o tamanho do lugar onde vive.

JC - E essa história é mais ou menos real?
FC - A história é real, os desdobramentos dela é que não são. Eu sou um mentiroso compulsivo. Há duas formas de mentiroso, o maligno, que quer substituir a verdade. E o mentiroso benigno, que não está compentindo com a verdade. Ele quer dar mais valor à verdade, chamar a atenção da verdade.

JC - Você ordena o mundo pela poesia? Ela é uma maneira de mostrar as coisas pelo seu ponto de vista?
FC - É. A poesia é uma maneira de organizar o mundo. É isso que eu tento fazer com a escrita. Organizar o mundo nessa caixa de sapatos que eu tenho.

JC - Se existe essa tentativa de ordenamento, pode-se dizer que, num primeiro momento, a sua poesia trata de embaralhar o mundo, de questionar o óbvio, de confundir as coisas, mas ela vai reordenando o mundo enquanto o embaralha? Sua idéia é que, ao finalizar o livro, o leitor pense de forma semelhante àquela que você propôs como fio condutor da obra?
FC - Talvez o que eu faça seja confundir o que é dado como certo, o evidente, o óbvio, para trazer uma nova organização, que é a intimidade. Porque a intimidade é uma organização, é uma ordem doméstica. Eu acabo provocando um caos para organizar o caos depois. Então, eu acredito que eu faço isso. Mas o meu mundo sempre vai ser a miniatura da família. Eu sempre estou falando das relações familiares, eu acho que todos os fantasmas, toda a opressão, todas as euforias estão ali numa pequena família. A família acaba sendo um fantasma da sociedade. É um espelho da sociedade. Por mais que você tente dominar, muitas coisas só serão entendidas depois, são atos involuntários, reflexos, condicionados.

JC - São aqueles momentos em que você se pega dizendo as mesmas coisas que seus pais diziam?
FC - Pois é. Coisas que você odiava, e de repente está repetindo de forma exatamente igual para seus filhos. Eu acho que é necessário se ter muita atenção nas próprias relações familiares para não repetir estruturas arcaicas. Tem que queimar receita. Mesmo que você erre, mas que erre com perfeição.

3:19 PM :: Comentários:

TRIBUNA DO BRASIL, Saber, página A7.
Brasília (DF), 20/6/05

A TERCEIRA MARGEM DA POESIA
O gaúcho Fabrício Carpinejar lança livro duplo, que investiga o amor em suas oposições, e comprova força entre os escritores brasileiros contemporâneos

Mateus Baeta

Não é fácil contextualizar a poesia nos dias de hoje. Mas ninguém melhor que um poeta para fazê-lo. "A poesia não é um passatempo, uma brincadeira, é uma necessidade. Fui um menino asmático, com problemas de dicção, feio e desajeitado. A poesia me defendeu, foi minha arte marcial", conta Fabrício Carpinejar. Seria apenas um detalhe em uma biografia não fosse Fabrício o responsável. Dono de obra invejável, com seis livros lançados e prêmios internacionais no currículo, o gaúcho Carpinejar é grande revelação, com voz destacada entre os contemporâneos.

O livro mais recente, Como no Céu/ Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 224 págs.), lançado este mês, ratifica a opinião dos especialistas, e dos interessados. São duas obras, na verdade. E elas se valem de oposições para solidificar sua estrutura. Fabrício pela primeira vez fala apenas do amor em sua banalidade. Os dois livros juntos contam a história de um casal, um homem, uma mulher, o cotidiano e só. Mas Como no Céu é claro, solar. E Livro de Visitas é feito de sombras. O primeiro pode ser lido normalmente, e vai até a metade do volume. O segundo começa de trás para frente e segue até alcançar o ponto onde o outro parou.

O próprio design do livro explicita as diferenças. A capa, de Como no Céu, é um girassol aberto em pétalas; a contracapa, de Livro de Visitas, é o outro lado da mesma flor, suas costas, sobre tons escuros. Juntos, os dois são um esforço rumo ao equilíbrio. "Nossos sentimentos são contraditórios, mudamos toda hora de opinião, podemos ficar tristes na mais alta alegria e alegres na mais insana tristeza. O amor é bipolar, os piores sentimentos acontecem das mais puras intenções. O ciúme, por exemplo, ocorre por amor e pode destruir o próprio amor. Os dois livros carregam essa condição misturada", resume Fabrício.

Com linguagem caminhando em direção à realidade, Carpinejar mudou seu ponto de vista. Ele não é mais o filho. É marido, assumiu a paternidade. O resultado é duramente próximo. É possível achar lembranças próprias em cada verso. E as reminiscências muitas vezes dão a impressão de serem parte do poeta, de sua biografia. Mas Fabrício alerta: "Eu falo a verdade mentindo. O que imagino é também experiência. O que sondei é também experiência. O que observei também é meu. O poeta não simplifica a vida, ele a intensifica". Cava espaço, assim, para a poesia, feita de forma corajosa. "As pessoas não buscam um livro para fazer a cabeça, buscam um livro para fazer seu coração".

10:36 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 24, 2005

A SOLIDÃO CUSTA CARO
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Ela vai sair de noite. Reserva o dia para se arrumar. Faz chapinha por R$ 30. Faz as unhas, a preço de R$ 20. Faz depilação com R$ 30 a R$ 60. Compra roupa com R$ 200. Arranja um par de sapatos a R$ 100. Na brincadeira, contando por baixo, gasta bem mais do que um salário mínimo. A arrumação aumenta a expectativa de conseguir um par, um laço afetivo na festa ou na balada. Aumenta também a exigência - não será qualquer um a desarrumá-la. As amigas vão juntas para disfarçar a solidão e o desejo. Durante o convívio, dança avulsa com a dispersão de um farol. Busca a si mesma em cada um que circula. Quando a gente anseia amar a gente se busca, não busca o outro. É a identificação que gera depois a diferença. As horas correm, o sono chega, a cota de consumação termina. Apesar da conversa alta, do som predileto, das indiretas, nada surge. Nem bêbada fica. Produziu-se como nunca e passa em branco. Os homens não reparam, em sua maioria, o investimento que uma mulher realiza em nome de uma possível paixão. Quantas horas e ansiedade para ficar daquela forma? É como se ela nascesse pronta. Aliás, a mulher tem o dom de tornar natural o seu próprio esforço, de transmitir indiferença quando está ligada aos suaves movimentos do mundo com todo os poros. Imagine a frustração de quem se preparou inteiramente para aquele momento, viveu as vésperas como uma guinada decisiva e não acontece sequer um encontro digno de ser anotado na agenda. É desesperador. Pense ainda que a mulher pode estar pagando uma babá para ficar com o filho, raramente se arrisca a procurar novos relacionamentos e decidiu ceder à insistência das colegas que a viam muito solitária. Após a saída, arrepende-se de tentar, sua esperança se rareia com as dificuldades, pois é tão extenuante transformar um caso em casa. Definir no calor da hora, com parcas palavras, uma atração que renda uma semana. Hoje andar de mãos dadas é mais complicado do que descolar um beijo. Não adianta subestimá-la dizendo que ela está caçando. Está procurando, que é bem diferente. Caçar é matar a fome, já ela quer aumentar a fome acompanhada. Não adianta zombá-la dizendo que é carente. A carência é uma virtude da fidelidade. Essa mulher entendeu, infelizmente, que a solidão custa caro.

11:10 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 23, 2005

PEQUENO PRÍNCIPE

Rola nesta quinta (23/6) o segundo Miss Cultura, concurso de beleza para textos cuja passarela é o auditório da Livraria Cultura, no Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre (RS). O desfile começa às 19h30, com os escritores Marcelo Carneiro da Cunha e Fabrício Carpinejar, mentores do vale-tudo literário, lendo textos para a platéia, que no final elege o mais belo.

O mais votado ganha a faixa de Miss Cultura - faixa mesmo, no duro - do mês. O segundo lugar se torna Princesa e o terceiro ganha o prêmio consolação de Miss Simpatia.

A função conta também com um convidado surpresa, e o tema dessa edição é Dieta, comidas e similares. A entrada é "de grátis".

(Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, Contracapa, 23/06/05)

1:43 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 22, 2005

ESSE GEMIDO
Pintura de Francis Picabia

Fabrício Carpinejar



Não costumo sentir ciúme. Mentira, eu sinto, mas disfarço. Eu somente sei disfarçar o ciúme quando não o sinto - a verdade é essa. Mas não imaginava que chegaria a tanto. De repente, minha mulher começa a gemer ao comer queijo e goiabada. Corta devagarinho, em fatias mínimas, para não extraviar nada do prato. Um gemido gostoso, intercalado, luzindo os dentes. Um gemido que me faria gemer para que ele não terminasse. Um gemido que domina os ouvidos por inteiro, ainda mais mobilizador do que um sussurro. Um gemido com o pescoço esticado - se é que sou claro -, altivo, intermitente. Um gemido discreto, de quem não quer entregar o prazer de uma só vez, que abafa o prazer para que ele aumente secretamente. Um gemido igual ao canto das cigarras, que se avoluma com a noite. Um gemido que deixará batom no guardanapo, no talher, no dedo. Um gemido sem herdeiros. Um gemido sem água mineral. Um gemido bebendo a sede. Assistia o gemido com inveja. Com raiva. Todos os sentimentos ruins o admiravam. Ainda que tenha dado alegria para ela, nunca provoquei esse gemido. Esse gemido é filho único dela com ela. Não há como participar. Não é um gemido de irritação, da rotina, da longevidade da tristeza. É um gemido assobiado. Um gemido musicado em flauta. Um gemido de varanda, não de janela. Um gemido que é vento contido. Ela ficou uns quinze minutos sem falar, sem a necessidade de comentar, de se fazer presente, de chamar minha atenção, entretida com os movimentos faciais. Emudeci para não atrapalhar o andamento. Não encontrei um assunto importante para interrompê-la. Era uma reunião de trabalho com a saliva. Sua língua limpava o canto dos lábios com a rapidez da luz. Não sobrava nenhuma réstia do lado de fora do rosto, para que entendesse a comoção. Contentamento egoísta, passional. Os cílios faziam escova a cada escuro das pálpebras. Poderia ficar excitado se não estivesse apavorado. Não conhecia esse gemido. Não o tinha ouvido antes. Surgiu inesperadamente na mesa. Ela me traiu com uma porção de Romeu e Julieta. Depois de comer, apenas disse, satisfeita: "vamos embora". Como se não houvesse alguma coisa mais importante a descobrir e esperar. Recusou café. Não repetiu o prato. Gemido não se repete, o que explica a gravidade de meu ciúme.

9:33 AM :: Comentários:

MINAS GERAIS



Tenho receio de falar de Belo Horizonte. Como diz Calvino, o receio de perder a cidade ao descrevê-la. Foi valiosa a apresentação no Sempre um papo, que me permitiu conhecer vários de meus leitores do blog. Chego aqui e não vou reler meus textos, corro para os comentários. Um por um, como uma carta escrita a mão, com os acidentes generosos da espontaneidade. A efusão do encontro, da convivência. Sou tão afeiçoado aos comentários, que memorizo quem entra e adivinho suas biografias. Meus visitantes se tornaram personagens. Personagens maiores do que o autor. Maiores do que a possibilidade de romance. Personagens vivos, febris e intensos. Acima mostro como Lucinha Horta me enxergou na noite.

9:00 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 21, 2005

NO RADICCI

Charge de Iotti




Jornal Zero Hora, Primeiro Caderno
Porto Alegre (RS), 19/06/05 Edição nº 14545

9:54 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 17, 2005

DESAMARRADO
Para a poeta Fran
Pintura de Van Gogh

Fabrício Carpinejar



Meus cadarços duram apenas vinte minutos. O nó é infiel. Não sei amarrar. É uma de minhas tantas fraquezas. Se corro um pouco mais, lá estão os cordões desembrulhados, lambendo o chão. Eu tropeço em mim. Dou nó em gravata, mas com o sapato me perco na hora de fazer a ponte. A mão sempre quer passar por cima como um pedestre, não por debaixo como um barco. Tentei seguir um desenho na infância e o máximo que fiz foi colori-lo. Proponho um laço de cabelo quando na verdade deveria montar uma barraca. Meus sapatos não são capazes de falar adeus, suspiram um "até logo". Não terminam relacionamentos, adiam o final. Na escola, passei grande parte do tempo escondendo essa imperfeição. Deixava a corda embutida no feixe. Amontoava ciscos em ninho. O vento aproveitava a ausência de prendedor.

Quando jogava futebol, não foram poucas as vezes em que o tênis voou junto com a bola. A sensação é que andei toda a minha vida com pantufas, o couro folgado, carretel de lã. Impregnei-me de uma ternura vadia, de crepúsculo e odor de chuva na terra. O sapato frouxo faz barulho de gripe. A língua para fora, cachorro com sede. As meias são devoradas no tornozelo. Os sapatos acabaram insaciáveis, curiosos, boêmios. Vivem longe de casa. Comem o que ainda nem andei. Desagradável é ser notificado em cada esquina por escoteiros: "teu sapato está desamarrado". Quase respondo: "será que posso cair mais?" Mas me controlo e finjo amarrar. Ajoelho-me com freqüência para orar lesmas.

Poderia recorrer a mocassins, só que os defeitos são narcisistas. Metade de meus atrasos deve ser creditado aos fios soltos. Criei uma série de táticas para não ser observado. Como um mágico embaralhando cartas, sou rápido para confundir. Minha letra é feia em função dessa falha dos pés. Não posso escrever educado, pois não sou capaz de educar o que caminho. Não posso andar na linha, minha caligrafia é um mapa cardíaco. Isso explica também a minha adoração pelo uniforme escolar, porque descia as lombas do corpo com zíper.

Caio com naturalidade. A queda não deixa de ser uma rua. Alumbramento aconteceu na residência de minha mãe. Eu já adulto e ela se agachou para cruzar seus cadarços. Notei que ela tampouco sabia. Acho que meus irmãos enfrentaram o mesmo destino em silêncio. Minha mãe me ensinou os tropeços.

9:56 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 16, 2005

NA CADEIRA ALTA
Fotografias de Leandro Selister

Fabrício Carpinejar

No ônibus, eu sento no banco alto do fundo. Tenho uma predileção em repousar lá em cima. Com o lado todo do vidro, as ruas escoando pelos joelhos, deslizo os olhos como um segundo motorista. Lembro da cadeira de manivela do barbeiro. O ritual de ficar adulto. Pensamentos sérios acontecem naquela altura. Nunca serei completamente o que devo ser. Um pouco de mim sobrará, não será usado, será esquecido. Interpretar-me não me muda. Trocar a aparência do cabelo ou da barba não me muda. Posso ser um pássaro da cintura para cima e ainda assim não aprenderei a voar. Um pássaro não voa com uma única metade. Procuro a vida inteira uma outra metade de pássaro a me agarrar para alçar leveza. Mas me convenceram de que devo ser um homem respeitável e fui cortando as garras como se fossem unhas. Só que um homem com duas pernas ainda é um pássaro manco. Ao nascer, se destrói a plumagem ou a casca. Alguns não se sentem incomodados em viver no escuro. Não sei relatar a minha história, porque me falta crueldade para editá-la. Aquilo que brota espontaneamente é difícil de comunicar. Na maioria das vezes em que pedi desculpa não me conscientizei de que estava fazendo errado. A retratação não é um auto-retrato. Permitir é se proibir depois. Não, não sofro medo de ninguém. Entretanto, qualquer um pode despertar meu medo de mim. Carrego admiração e temor ao mesmo tempo, simpatia e repulsa. Não busco a independência, busco ser cada vez mais dependente para não viver sozinho. Herdei momentos sombrios - são os momentos de maior luz e clareza que tornam exigente o mais adiante. Quem viveu um grande amor cedo vai comparar as novas relações com essa intensidade perdida. Não se assassina o passado, o corpo anota tudo o que foi dito pela vida. O corpo é um taquígrafo disciplinado. Vejo que careci de bondade em meus comentários, me defendia sem ser atacado. Transformei em provocação o que dizia, transformei em ironia a delicadeza, transformei em sarcasmo a censura da imaginação. Recuso a serenidade, as mãos frias de um morto. Saber me atrasa. Adivinhar me adianta. Que Deus não me revele nada depois da morte. Que seja um desinformado eterno. Todo rosto masculino tem algo de uma mulher. Meu rosto guarda as orelhas. Casei-me com os ouvidos. A dúvida é livre. O desejo é uma dúvida inalterável que troca as perguntas. Tudo o que se observa com muita atenção vira reza. Rezo minha mulher. Rezo meus filhos. Não se pode rezar para si. Descuido-me com facilidade. Quando a gente se arrepende de amar já estamos amando novamente pelo arrependimento.

9:50 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 14, 2005

EUGÉNIO NÃO SE CONTENTOU
EM NASCER UMA SÓ VEZ

Um dos maiores poetas da língua portuguesa, Eugénio de Andrade morreu na segunda (13/6), aos 82 anos

Fabrício Carpinejar




José Fontinhas, filho de camponeses, morreu na segunda (13/6), aos 82 anos, em Porto, como um desconhecido.

Dentro do corpo de José Fontinhas, morreu na mesma segunda, aos 82 anos, um dos maiores poetas portugueses: Eugénio de Andrade, Prêmio Camões de 2001, traduzido em 20 línguas, autor de extensa obra, tendo publicado mais de 30 livros de poesia, e outros de prosa, infantis, antologias e traduções.

Assim como Pablo Neruda (que se chamava Ricardo Neftalí Reyes Basoalto), Eugénio de Andrade criou seu nome e inventou seu espírito. Um desígnio de quem não se contenta em nascer uma só vez. Na pátria de Fernando Pessoa, era valorizado como um ícone a tal ponto que chegou a batizar importante fundação literária. Empurrou a "jangada de pedra" além fronteiras. Jorge de Sena saudava sua musicalidade como "firme e fluente em estado de milagre momentâneo". A romancista francesa Marguerite Yourcenar comparava sua poesia como "o som de um cravo bem temperado", instrumento de cordas com um som ligeiramente ácido, que lembra mais o alaúde do que o piano moderno.

Foram mais de seis décadas de poesia, desde a estréia em 1942, com "Adolescentes". Alheio aos movimentos literários, aos quais se referia como clubes desportivos, Andrade recusou as mordomias, a clausura de panelinhas como os neo-realistas, os cadernistas e os surrealistas. Amargou a exclusão e dela tirou proveito em benefício da originalidade.

Com uma escrita solar, seus versos são curtos, ásperos e rugosos como pequenas fatias de um pão de centeio. "De repente,/ vi o mar subir a prumo,/ desabar inteiro sobre os ombros" (Ostinato Rigore, 1977). Alternava a atmosfera do mar com a do campo, sempre respondendo a um apelo, especialmente olfativo. Há o predomínio de imagens que partem do cheiro do feno, da resina, de limão e de poeira. Utilizava o olfato como motor sensorial da lembrança e condutor do passado em pura expansão visual. Conferia materialidade a uma manifestação espiritual, permitindo o arrebatamento corporal. "Que cheiro doce e fresco/ por entre a chuva,/ me traz o sol,/ me traz o rosto" (Coração do Dia, 1958). É lirismo da delicadeza. Estava próximo da elementaridade da condição humana, evocando a natureza como alter ego. Soube conservar o conhecimento adquirido na tradição oral, relativo ao ciclo biológico dos animais, à mudança de correntes do oceano e ao exercício da lavoura. Fez falar o que não tem palavra: a pedra, a neve, a chuva, os pombos. Ecoa as vozes familiares da aldeia simples onde nasceu, Póvoa de Atalaia.

As pausas dominam sua poética. O silêncio é maior do que o dito. "Gastamos tudo menos silêncio" (Os Amantes sem Dinheiro, 1950). A leitura é realizada a partir de escombros, pedaços, fragmentos que resistiram ao peso das vivências. A criação fica reduzida aos excedentes da mudez, às palavras que sobreviveram à omissão. O texto visível é apenas o ponto de partida, pois o leitor é transportado com freqüência para fora do poema. A poesia importa como rastro, lacunas, expressão evocativa da fuga. A impressão é que Eugénio de Andrade não está dentro do que escreve, acabou de sair, deixando a tinta úmida na folha. Trata-se de um diálogo pretérito, em que o lamento mistura-se ao acento da saudade.

De maneira um tanto paradoxal, ele expôs a procura desesperada de um sentido para a vida na contenção da forma. "Agora é verão, eu sei/ tempo de facas/ tempo em que as cobras perdem os anéis/ à míngua de água" (Limiar dos Pássaros, 1975)

Eugénio de Andrade não circulava no tempo presente, falava de um tempo consumado ou de um personagem distante. O tempo era disposto na obsessiva ocorrência a estações. Talvez estivesse seguindo um preceito de Gaston Bachelard, em "A Poética do Devaneio": "As lembranças não têm data definida, mas uma estação." Setembro aparece como o mês da venenosa claridade. Em julho, os cavalos procuram beber a água do sol nos olhos das crianças. No verão, todo o rumor é ave. Durante o inverno, os pássaros lembram casas lentas e usadas, de coração apagado. O tempo entra na pele, na intimidade dos objetos domésticos, não para repousar ou enferrujar, e sim para animar e dar mobilidade ancestral à matéria. Tem-se a decadência do mundo descrita pela vitalidade da percepção, combinando a síntese dos epigramas gregos com a dança e rigor verbal de Cesário Verde.

O autor reescreve sua infância consciente que ela não teria volta. Encontrou a gravidade da morte na graça do erotismo. Pisou no limiar da própria sanidade, no extremo de uma lucidez que pode ser loucura. "Creio que foi o sorriso,/ o sorriso foi quem abriu a porta./ Era um sorriso com muita luz/ lá dentro, apetecia/ entrar nele, tirar a roupa, ficar/ nu dentro daquele sorriso./ Correr, navegar, morrer naquele sorriso" (O Outro Nome da Terra, 1988).

Sem desbancar ao hermetismo, Eugénio de Andrade descobriu o equilíbrio entre a serenidade e o transbordamento, entre a imanência e a transcendência. Como afirmava em "O Sal da Língua" (1995): "a poesia adora andar descalça nas areias do verão". Basta seguir suas pegadas, antes que a maré ou o vento as apague.

"Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!"

Frente a Frente

9:08 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 13, 2005

PAPEL-PRESENTE
Detalhe de Van Gogh

Fabrício Carpinejar



Discordo quando escuto a afirmação, em tom melancólico, de que o casal se separou porque a paixão virou amizade. Confesso que sinto inveja desse casal. Ruim é quando a paixão termina em nada. Nem carvão, nem cinzas, coisa alguma. Nenhuma carícia que restaure a confiança. Nenhuma lembrança de ternura. A amizade é uma paixão recatada, o pudor de não ofender com palavras incertas. Uma paixão abençoada debaixo de quadros, meticulosamente escolhidos, pregados com esmero para abaixar os telhados. É motivo de pena a paixão que não se transforma, que não deixa o quarto para a sala, que permanece um acordo sexual de provocações, que não se dobra sequer um momento para dormir defeitos. Uma paixão só virtudes e encontros esporádicos. Uma paixão apenas com o lado bom, servil, sem personalidade. Uma paixão enquanto satisfação da hora.

A amizade é amor, podem discordar, não acreditarei. Sinceramente me emociono ao testemunhar um casal de velhinhos, andando com a plumagem das roupas, devagarinho, cuidadoso para não acelerar o passo, cuidadoso com as dores, cuidadoso com os hábitos, capaz de discordar do mundo para proteger a memória. Quantas angústias, quantas vezes ambos cederam para permanecer juntos, quantas juras fizeram e renovaram no leito, quantas telas de abajur colaram no rosto um do outro, de repente pela noite, para acalmar o medo? E não se enjoaram e não se enojaram da intimidade. Não fugiram do compromisso de se entenderem até o fim, do pacto de abrir a janela como quem busca manteiga na geladeira. É possível enxergá-los em silêncio durante uma manhã inteira, cada qual fazendo as suas coisas. E que silêncio! Um silêncio de compreensão que não se encontra em nenhuma igreja. Um silêncio de horta, não de túmulo. Um silêncio espesso de cristal, não de vidro. Eles não praguejam o tempo, sábios e serenos. Porque o tempo não torna os casais apagados - isso é um engano. O tempo não mata a relação - isso é um engano. O tempo não amortece a guarda - isso é um engano. O tempo enobrece a aparência, dignifica os degraus. Escurece o papel em pedra e aclara a pedra em tesoura. Um casal de velhinhos é o amor mais ofensivo que posso descobrir na vida. Suas gavetas são forradas de papel-presente.

8:36 AM :: Comentários:

EM ANEXO

Sou o palestrante do projeto "Em Anexo" do segundo semestre, que consiste em diálogos abertos ao público, voltados para esclarecer diferentes processos de criação. O programa é uma promoção do Atelier Livre da Prefeitura, em parceria com Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul. Minha intervenção acontece na terça (14/6), às 19h, na sede da Apergs (Av. Cel. Marcos, 938), em Porto Alegre.

Escolhi como tema TERRENO BALDIO E BRINQUEDOS DESTRUÍDOS:

Quem diz que no terreno baldio não há simetria? O terreno baldio é um jardim para o fundo da terra, não para sua superfície. É um jardim para os pés, não para as mãos. A poesia se move com os ciscos, os detalhes, os esquecimentos e as distrações, em um estado de vadiagem flutuante e passionalidade do gesto. O terreno baldio, assim como a literatura poética, concentra os refugos, as recusas e os lapsos, o que o homem abandonou e não concluiu, o que escapou do senso comum e não retornou. Deformar é inventar. Os brinquedos destruídos são os mais amorosos e fiéis.

8:33 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 11, 2005

RETRATO DOS ANIMAIS DA CASA
Gravura de Camille Pissarro

Fabrício Carpinejar



Meu avô não queria matar os bichos de casa. De modo nenhum. Não era vegetariano. Só admitia comer os animais dos outros. "Onde já se viu comer bicho que já escutou minha voz? Vou comer minha voz dentro do bicho", ele afirmava. Tanta vida por viver desentranhada. A vó imaginava que o marido havia passado da idade de ter razão, para entrar na idade de ter desejos. Queria cozinhar e não havia rendimentos para pechinchar no açougue a cada manhã. Os vizinhos o viam como doente: soltou-se do prumo, do juízo, do cabresto de Deus. Criança não apresenta opinião formada, mas braços arrepiados. Meu avó, personagem de si mesmo, nunca me deu tempo para criar amigos imaginários. Fui convidado a ajudá-lo no sistema de proteção. Sacudia levemente a cadeira de balanço na varanda, com a bengala engatilhada, e eu no primeiro degrau da escada de madeira, com a funda em punho. Boi, vaca, porco e galinha ganharam escolta dali por diante. Os primeiros animais do bairro engordados para envelhecer. Boi, vaca, porco e galinha não diziam muita coisa. O vô teve sua primeira idéia de seguro de vida dos animais. "O que recebe nome não pode ser morto, tornando-se crime." Começou dar nome para todos os bichos. Virou um Messias septuagenário a batizar um por um dos animais que encontrava em sua pequena chácara. A galinha ruiva virou "Marlene", o cavalo baio assumiu a condição de "Misturado", o porco dengoso apareceu como "Rolando", a vaca manca ressurgiu na forma de "Medéia". As árvores foram nomeadas por engano. Os cachorros, os únicos que realmente recebiam apelido, se sentiram constrangidos com a concorrência e deixaram de latir.

Como esquecia os nomes que havia dado depois de uma semana ou trocava o boi pela galinha, o avô preparou um caderninho de fiado para anotar, com as características e sinais de nascença dos animais. A avó estava horrorizada com a obsessão do seu velho. Internar não se podia, internar um velhinho no interior significava, no máximo, colocá-lo no quartinho. Tudo se resolvia sem escândalo, com a indiferença. O ruim é que a indiferença se assemelhava à tolerância e o vô tomou coragem para urinar cada vez mais sorrindo na horta. Quando a galinha ruiva virou galinha recheada no Domingo dos Ramos, o avô iniciou um longo jejum. Magro como copo de cerveja parado. Comia vento e rejeitava inclusive os farelos do vento. Alegria das moscas. No fatídico dia, percebeu a galinha esparramada e dourada e suspirou: "Marlene, Marlene, perdoa, eles não sabem o que fazem?". Tampouco comi a Marlene, sofria de impotência infantil. A Marlene merecia um perfume melhor do que o orégano. O avô ficou revolto, viraluto. Uma de suas teorias era o embrulho do pão: papel jornal estraga o gosto, o pão devia ser enrolado em papel fino, seda. Ele sofria coisas fora de hora. Sofrer é sentir as coisas sem pensar. "Onde já se viu comer bicho com nome? Vou comer meu nome dentro do bicho", afirmava. Aprendia o segredo. Não entendia as palavras por inteiro, entendia o final delas. As brigas me animavam. Amor que não se dói é dano. Em nossa volta, a luz queimava como um seio fora da blusa. Dar nome a um animal não o impediu de morrer, assim como homem de muitos nomes vai embora sem dó. Vô não desistiria da tosse. Seu silêncio não baixava a cabeça. Na surdina, traficava metade de meu prato a ele e a cidade se espantava que continuava de pé depois de quarenta dias sem comer. Havia gente fazendo aposta no bar do Português. "A morte existe para ser respeitada entre os vivos. A morte nada é para os mortos", avisou. O vô teve, então, sua segunda idéia de seguro de vida dos animais. Conseguiu uma máquina de fotografar emprestada do filho da capital e foi ao campo. "Animal com nome e com fotografia não pode ser morto, tornando-se crime", sentenciou. Deus ou é assunto ou é alucinação. O banhado transformou-se em estúdio. Minha missão consistia em ajeitar o rosto dos animais para foto. A vaca baixava a baba para o capim, obrigando-me a levantar seu queixo várias vezes. O cavalo cuspia feno, avarento, e o cerceava para possibilitar um ângulo apropriado. Salpiquei a galinha, a outra, a Lurdes, de maquiagem de pó, a dissimular sua brancura. Depois de um mês e aproveitando a saída da mulher para a feira de verduras, o avô colou a coleção de fotos na parede da sala. Vinte e dois animais 3X4. Foto de passaporte, de identidade, de carteira de trabalho. Foto séria, para não mostrar o prejuízo dos dentes. Ajeitou-se na mesa, enrolou um cigarro de palha e morreu fumando, com os olhos boiando em sua Arca de Noé. A brasa escorria a boca. Sua boca cintilava sozinha.

(Da minha coluna na revista Idéias, Travessa dos Editores, Ano II, número 22)

2:38 PM :: Comentários:

LANÇAMENTO EM BELO HORIZONTE:



2:20 PM :: Comentários:

JORNAL O PIONEIRO, ALMANAQUE
Caxias do Sul (RS), 11/6/05.Edição nº 9204

Comportamento


BLOGUE-SE
Diários na Internet ganham credibilidade e viram espaço para experiências literárias

MARCELO MUGNOL



O som dos dedos clicando teclas do computador não é semelhante ao som das teclas da máquina de escrever. Muito menos se aproxima do som do rabisco das penas sobre o papel. A única semelhança que une esses processos é o ato de escrever. Mas a batalha, ora silenciosa, ora catártica, com a página em branco, segue impávida. A página em branco agora está dentro de uma tela de computador, mas ainda é confronto. Uma febre que deixou de ser só cool, deixou de ser só banalidade e que deixou de ser só entulho é o blog.

Blog é uma espécie de diário virtual. Mas vem deixando de ser coisa só de adolescente. Gratuitos ou não, hoje esses sites são encarados com credibilidade e têm nutrido o impulso criativo de muita gente. É claro que ainda há uma penca de lixo virtual trafegando por aí. Mas, afinal de contas, você é ou não um bom velejador para navegar nesse mar sabendo dosar curiosidade e inteligência? Há estimativas de que o fenômeno blog alcance a marca de 53 milhões até o final desse ano. No Brasil, segundo o Ibope/NetRatings, só em abril, 7 milhões de pessoas acessaram blogs ou fotoblogs.

Nesse emaranhado de informação tem gente criando, tem gente experimentando, tem gente dando a cara para bater, tem gente ousando. E também tem gente aproveitando o espaço como um exercício para a escrita. Alguns, com um olhar certeiro na possibilidade de publicar um livro.

- Acho que o blog não deixa pronto ninguém - argumenta o poeta Fabrício Carpinejar.

Mas há exemplos por aí que revidam esse conceito, como o livro Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, de Clarah Averbuck, coletânea dos textos publicados no blog Brazileira!Preta, já extinto. Além disso, é inegável que o espaço provoque no mínimo uma discussão e confronto entre leitores e autores. O próprio Carpinejar reconhece a importância dessa nova relação:

- O blog é uma concepção maravilhosa porque permite ao escritor ler o leitor - avalia.

Augusto Sales, editor da revista literária Paralelos (www.paralelos.org), tem acompanhado de perto a efervescente nova geração de escritores, principalmente no Rio de Janeiro. Para Sales, os blogs são, sim, uma boa maneira de entender a produção de jovens autores, aspirantes, jornalistas e toda sorte de gente que escreve.

Sales reconhece que os livros publicados a partir do que os autores escrevem nos blogs nem sempre são as versões originais da Internet. "Seus autores experimentaram (ou experimentam) estes espaços para interagir com seus leitores, apresentar seus textos e até testar formatos", escreveu o editor.

Fernanda Obregon
www.petitpois.weblogger.com.br

Fernanda é um bom exemplo do vício. Sim, porque blogar-se é um vício. Ela é leitora de blogs há pelo menos cinco anos. Esse tempo todo deu a ela um certo faro para filtrar muito bem o que lê, reconhece.

- Naquela época eu acessava o blog da Clarah [Averbuck]. Ah, eu também lia muito o 02 Neurônio. Achava o máximo. Hoje eu acho uma bosta. Aquelas mulheres precisam crescer. A Clarah também, talvez, nem tanto - revela.

Essa leitura inevitavelmente despertou o desejo de Fernanda também criar o seu blog. O Petit Pois é recente, inaugurado em abril desse ano. Ela pede, por favor, para citar na reportagem que essas suas experimentações não são literatura.

- Enrolei quatro anos até que tomei vergonha na cara e criei o Petit Pois. Não acho que eu faço literatura. Seria muita pretensão minha dizer: Eu? Literatura? Eu estou mais para piadista, para escritora de e-mails - brinca.

Mas, Fernanda acaba reconhecendo que pode sim haver lá na frente, num futuro para ela ainda distante, uma possibilidade de publicar um livro. Depois de fazer filhos e plantar muitas árvores, diz ela.

- O que eu faço no meu blog é puro exercício, na minha opinião tudo está incompleto - avalia.

Fabrício Carpinejar
http://carpinejar.blogger.com.br

Esse é um dos raros exemplos de blog (quase) exclusivamente literário. Quase porque vez ou outra Carpinejar fala sobre literatura. Claro, comenta seus livros. Mas, diferentemente da grande maioria dos blogueiros, o poeta desvia pouco da literatura. Nessa semana, por exemplo, postou um e-mail que recebeu. Na real, uma brincadeira onde colocaram ao lado da foto de Carpinejar a foto de Mikhail Kuzmin, para que fossem comparadas as semelhanças físicas. Afora essas exceções, o poeta publica diariamente uma crônica e ainda poemas, em boas doses para alimentar a curiosidade em relação à sua obra. Senta religiosamente à frente do computador e escreve pelas manhãs.

- É como se fosse escrever para um jornal que eu sempre quis participar - analisa.

Guilherme L. Póvoas
Gabriel Silveira

www.oliterato.blogger.com.br

O blog O Literato é exclusivamente de textos com intenção literária. Infelizmente, os caras não adam atualizando-o mais. Ainda não, pelo menos. O último texto, A Empáfia do Pateta, foi postado no dia 23 de maio, por Gabriel Silveira. Eis um pequeno trecho: "Esconjurado eu, o pateta dos patetas. Jogado ao léu pelo vento, choram de rir os demônios do monte leste, gargalhando a empáfia do pateta. Depois torcem o nariz, dançam cercando-se de utopia e voltam a gargalhar, apontando-me a falsa alegria".

Marcelino Freire
www.eraodito.blogspot.com

Bom humor, conversa franca sobre literatura, e certos furos jornalísticos. Esse é o blogueiro Marcelino Freire.

- Não consigo escrever ficção no blog. Não consigo aparecer na sala de pijama - reconhece o escritor pernambucano, rindo de si mesmo e do que ele chama ser uma situação constrangedora.

Além disso, essa histeria de atualização diária acaba de ser exorcizada por Freire. Ele postou uma mensagem na quarta-feira dessa semana revelando sua nova rotina de trabalho: "agora, para não acabar o estoque e eu ter mais tempo etc. e tal, a coluna será quinzenal".

- Meu blog acabou virando um site jornalístico. Tempos atrás antecipei no blog que o João Filho iria participar da Flip (Festa Literária Internacional de Parati) e nem ele mesmo sabia. Aí ele me ligou pedindo se era verdade - diverte-se.

Cardoso
www.cardosonline.com.br

Antes de mais nada, Cardoso é apelido. Seu nome verdadeiro é André Czarnobai, mas se até os pais dele o chamam de Cardoso, é porque o negócio é sério. Enfim, voltando. É impossível falar de Cardoso sem antes mencionar o Cardosonline, também conhecido como COL. Aos desavisados, COL não é blog. O projeto, criado em 1998 em virtude de uma certa greve da UFRGS, era o seguinte: as pessoas se cadastravam e recebiam semanalmente um e-mail com diversos textos de colunistas e alguns colaboradores. Isso virou uma febre tão grande que, logo a seguir, segundo Cardoso, foram criados Brasil afora pelos menos 40 outros modelos iguais.

- Muita gente se criou lendo o COL. O projeto acabou há quatro anos, mas ainda recebo e-mails de cadastramento. Explico que acabou e tal, mas as pessoas insistem - revela.

www.insanus.org/cardoso

Depois que o COL acabou - por consenso dos colunistas - ocorreu um movimento migratório inevitável. Alguns escritores criaram seus próprios blogs. Outros, ainda, como Daniel Galera, Daniel Pellizzari e Clarah Averbuck, além disso, publicaram livros. Cardoso mantém hoje alguns blogs, mas o seu "principal", por assim dizer, é o Tripa Nelas Tudo. O nome ele colheu da rua. Leu essa pichação numa parada de ônibus em Porto Alegre e nunca mais livrou-se da expressão. Seu blog tem entre 800 e mil acessos diários.

- É bizarro, eu também acho. É bastante gente. Estamos dentro da média que os especialistas estipulam, de crescimento anual de 20% na leitura de conteúdo para a Internet - avalia.

Cardoso enfim vai publicar seu primeiro livro, Cavernas e Concubinas, mas revela que é por exclusiva pressão da editora DBA. Quando? Aguardem os próximos meses e cobrem da sua livraria preferida.

Cecilia Giannetti
www.escrevescreve.blogger.com.br

O blog de Cecilia Giannetti traz de uma forma bem-humorada o que você pode encontrar clicando lá. "Anotações quase diárias sobre livro quase pronto, nóias do processo, um espelho virado para dentro, lugares que não conheço, pessoas que nunca fui". A porção diário tem desabafos do tipo: "Lançamento é um porre", a respeito da coletânea de contos (Dentro de) um Livro, com textos de Luis Fernando Verissimo, Lygia Fagundes Telles, Fernando Bonasi, Cardoso, Cecilia Giannetti, entre outros. Agora, se você ficou curioso para saber por que ela está nessa coletânea, corra e digite o endereço do blog dela.

Xico Sá
http://carapuceiro.zip.net

A Solidão do Emplasto, até o fechamento dessa edição (quinta pela manhã), era o texto mais recente que Xico Sá havia postado. Aí segue um trechinho: "Somente a solidão, essa pantera, velho Augusto, o dos Anjos, foi minha companheira inseparável? Tudo bem, lindo, podemos nascer e morrer sozinhos, como diz o homem-comício, mas essa solidão se revela ainda mais na hora em que a geografia esquisita das costas recebe o mais torto dos emplastos".

Daniel Galera
www.insanus.org/ranchocarne

Cria do COL, Daniel Galera é um dos criadores da editora Livros do Mal (www.livrosdomal.org) e tem dois livros publicados, Dentes Guardados (2001) e Até o Dia em Que o Cão Morreu (2003). O blog do Galera, Rancho Carne, não tem pretensões literárias.

- Hoje em dia, considero a Internet essencial para divulgar e manter contatos, mas não para produzir e publicar literatura - explica.

Esse fenômeno que se espalha com uma intensidade vertiginosa e vem ganhando mais credibilidade, na opinião do escritor, pode ser um bom termômetro para identificar a nova geração.

- Acho que é importante para compreender a ebulição de novos autores e a popularização dos registros literários e autobiográficos por escrito na rede, mas não creio que seja determinante para as características temáticas, estéticas e formais da literatura da nova geração - argumenta.

( marcelo.mugnol@jornalpioneiro.com.br )


Outros blogs
http://atirenodramaturgo.zip.net
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Crie seu blog
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Sobre literatura e internet
www.paralelos.org


2:14 PM :: Comentários:

CORREIO BRAZILIENSE, CADERNO PENSAR, 11/6/05, Brasília (DF)

Literatura
O CONTO DO VAMPIRO AOS 80
O curitibano Dalton Trevisan, que faz aniversário na próxima terça, lança mais dois livros e o país novamente se curva diante de um dos maiores mestres da narrativa curta

Sérgio de Sá
Especial para o Correio


Reprodução/Dalton Trevisan

Você pode até não gostar, mas indiferente não há de ficar diante de uma ficção que fratura até a medula, fragmenta o indivisível, fricciona as boas intenções. Mas que não é frufru nem cricri, por favor. Dalton Trevisan faz 80 anos na próxima terça-feira, 14 de junho. E os vampiros sairão pelas ruas de Curitiba, pelas ruas de todas as cidades das letras, para brindar ao mestre do conto. Com gosto de sangue, na companhia de Nelsinho e da Polaquinha, duas das personagens possíveis dentro de um universo especial.

Dalton Trevisan é homem que se fecha pra valer, capaz de romper para sempre com quem quebra o pacto da reclusão. Os amigos são bem-vindos, desde que calados da porta de casa para fora. Jornalistas, nem pensar. O autor de Novelas nada exemplares fez mito em torno de sua excentricidade. Nem sempre foi assim. Ele teve uma existência, vamos dizer assim, pública. Em 1946, criou uma revista mensal de arte, a Joaquim, homenagem "a todos os joaquins do Brasil".

Ilustrados por Poty e outros artistas plásticos, os 21 números da publicação paranaense marcaram época. Depois, só ouvir falar.
Volta e meia, as histórias escapam e o escritor ganha algum volume real. Para deleite dos que o veneram à distância. O caminho entre a leitura e o baque, a palavra e a sedução. "Amo o Dalton, reverencio o Dalton, tenho um altar dedicado ao Dalton na entrada de casa", derrama-se a escritora Cíntia Moscovich, ela própria contista de mão-cheia. "O minimalismo, a recriação crua, a crueldade pura, esse cinismo que vira humor de uma maneira oblíqua, o jeito de escrever com graça somente o que é essencial, são as maiores virtudes do moço, são as virtudes que todos, ao escrever, perseguimos."

Para o também contista Marcelino Freire, Dalton é simplesmente genial: "Se não for o maior contista, é o maior minicontista que temos. Microcontista porreta, sei lá. Uma vez afirmei que o Dalton escreve na velocidade da sombra. É tudo rápido, mas lentamente, entende? Como um anoitecer, de repente. Vôo de vampiro que ninguém vê. Denso e vupt, vapt", define - trevisanamente - o autor de Angu de sangue.

Em 2004, Marcelino organizou a antologia Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê Editorial) e confessa que fez o livrinho-livrão em homenagem a Dalton Trevisan. "E ele não podia deixar de participar. Mas e agora, o que fazer? O homem vive trancafiado, será que vai responder ao meu chamado? Escrevi uma carta e esperei. Nem contava mais com a resposta, quando um envelope chegou à minha porta, manuscrito: 'De Dalton Trevisan para Marcelino Freire'. Eta danado! Quase tive um minitroço. Abri o envelope e o microconto estava lá. Sem contar que ele aproveitou para mandar, de presente, dois livros dele. Genial! Dalton é danado."

Quem também teve a sorte de ser, digamos, correspondido foi José Salles Neto, presidente da Confraria dos Bibliófilos do Brasil. A vontade era publicar uma antologia de contos. O contato foi feito por um intermediário, Eleutério, ex-proprietário de uma livraria freqüentada pelo "vampiro de Curitiba". A primeira resposta demorou oito meses para voltar: Dalton topava ser editado pela Confraria, mas queria que fosse seu único romance, "A polaquinha". "Eu vibrei e, depois, acho que ele gostou bastante do resultado. Me mandou uma carta em que dizia ter ficado 'absolutamente encantado' com o livro", conta Salles, um dos poucos felizardos a receber os famosos folhetins que Dalton produz de modo caseiro e deixa em alguma livraria de Curitiba para serem encaminhados ao destino final.

Além do folclore

Dalton Trevisan, porém, vale muito mais do que o folclore. O abismo é mais embaixo. "Bobagem falar da decisão de permanecer oculto. O que realmente importa é o fato de ele ter encaminhado sua literatura para o máximo de concisão, antes mesmo de outros perceberem a importância desse gesto, e até quando escritores nem sequer tinham começado a esbravejar contra o leitor apressado. Trevisan sorriu (sorrateiramente) para esse leitor, poupou-o de qualquer adiposidade", comemora Paulo Paniago, jornalista e mestre em Literatura Brasileira. "Sei que ele existe porque os livros dele existem. Ele conseguiu fazer dele mesmo ficção, um personagem a nortear a produção literária, e a própria poética do conto brasileiro", diz Cíntia Moscovich.

E, afinal, surge a pergunta que não quer calar: Dalton Trevisan é ou não é o maior contista brasileiro vivo? "Dalton Trevisan é o maior contista brasileiro. Vivo ou morto. Ao lado de Sérgio Faraco e Rubem Fonseca", elenca o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar. Para a crítica cultural mineira Eneida Maria de Souza, o autor de Guerra conjugal continua sendo um dos melhores contistas brasileiros vivos. "O humor, a concisão de linguagem e a criação de personagens comuns e caricatas são a sua marca registrada."

Sobre a aparentemente inevitável comparação com Rubem Fonseca, talvez pela influência sobre as gerações posteriores, talvez pela mesma idade (Fonseca completou 80 em maio), Eneida afirma não ver relação entre as duas poéticas. "Ambos respondem por diferentes concepções de literatura. A única semelhança que os une é o culto do escritor invisível, da construçao de uma política autoral ligada ao desaparecimento gradativo da imagem pessoal e da vida privada."

Na opinião do jornalista e escritor José Castello, Trevisan é, sem dúvida, um dos grandes contistas brasileiros do século 20. Entretanto, "observada a obra em seu conjunto, não há dúvida de que os contos de Rubem Fonseca são tão, ou mais, importantes que os de Trevisan." Além disso, Castello afirma concordar com a tese - bastante difundida em relação aos dois autores, diga-se - de que, a partir de certo ponto, Trevisan passou a se repetir. "Toda a busca do 'conto mínimo', que parte da crítica tanto festeja, me parece mais um sinal de cansaço do que de riqueza", analisa.

Cíntia Moscovich duvida que o próprio Dalton fosse gostar de ser considerado "o" grande contista. "E quando um sujeito como o Dalton, superior e imbatível, vira o maior e o melhor, a gente pode se apavorar, porque é difícil ultrapassar a própria obra. O Dalton não é o maior contista brasileiro vivo, mas, ao mesmo tempo, só ele pode se ultrapassar, e isso pode ser uma maldição e uma bênção. Dalton só vai ser o maior contista brasileiro vivo a seguir, amanhã, depois. Só quando ele lançar o próximo livro. E o próximo, e o próximo e o próximo de uma seqüência que a gente quer que seja infinita. E que vai ser."

E, ao que parece, será um futuro cada vez mais poético, como se pode perceber nos recém-lançados Rita, Ritinha, Ritona e 33 Contos Escolhidos (leia resenha na página 5). "Em seus últimos livros, Dalton vem trabalhando com uma técnica de miniaturização (que lembra a técnica do bonsai). Ele está trabalhando na fronteira entre a narrativa e a poesia. Como se ele despisse a narrativa de tudo o que é supérfluo. Isso é poesia. Não são os temas que interessam em Dalton. É a forma", explica Adalberto Müller, poeta e professor de literatura da Universidade de Brasília.

Com ele concorda Carpinejar. "Dalton pode ser visto como um contista de surtos líricos. De haicais ferozes, revelando um estado de espírito alterado e incomum. Valoriza a teatralidade da descrição, a introdução de uma atmosfera densa e precisa, com o aproveitamento máximo das imagens com o mínimo dos caracteres. Os diálogos estão em avançado poder de síntese. Rabisca croquis do inusitado. São lampejos de efeito (mais do que frases de efeito), perpetuando a contradição, o avesso e os instantâneos mágicos. Funde, numa mesma equação, o arrebatamento final do conto com o gancho final do poema. Dalton é um contrabandista do lirismo na prosa", sentencia.

E estamos conversados, e muitos anos de vida, amém.

1:57 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 09, 2005

DIÁRIO CATARINENSE, CADERNO VARIEDADES

Literatura

A INCAPACIDADE DE NÃO SER POETA
Fabrício Carpinejar lança Como no céu / Livro de visitas, duas obras num único volume trazendo os seus novos poemas

MÁRCIO MIRANDA ALVES

Foto(s): Emilio Pedroso/agência RBS

Claro-escuro: Carpinejar diz que o livro duplicado pretende mostrar a relação a dois sem fachadas




Um dos poetas mais expressivos da poesia brasileira contemporânea não pára de inventar moda. Após o aclamado Cinco Marias (2004), o gaúcho Fabrício Carpinejar retorna à cena com dois livros em um. Ou um em dois. Como no céu / Livro de visitas, que será lançado nesta quinta-feira na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre, trata do mesmo tema num exemplar duplo e sem contracapa. O segundo é lido de trás para frente, como um espelho do primeiro.

Cinco Marias foi traduzido para o alemão e rendeu ao poeta elogios sinceros de escritores que estão acima da crítica como Carlos Heitor Cony, Ignácio de Loyola Brandão e Antônio Skármeta. Em Como no céu / Livro de visitas (o sexto livro), Fabrício Carpinejar atinge o nirvana da criação poética no que ele mesmo classifica de "crônica lírica de costumes" acerca de um casal protagonista.

É nesta dualidade que serve de sustentáculo para o desejo que o poeta de São Leopoldo, nascido em Caxias do Sul, formata poemas que "conversam em voz alta, com os ruídos da casa e os cheiros da rua".

Nesta entrevista concedida por e-mail para o DC, Fabrício Carpinejar poetiza sobre o seu trabalho, o processo criativo e a condição de ser poeta no Brasil.

Diário Catarinense - Tu inovastes ao publicar dois livros em um, sem contracapa. Opção criativa ou ânsia de se fazer ouvir?

Fabrício Carpinejar - Nem uma nem outra. Ânsia de se fazer ouvir, não tenho, porque não suporto minha voz por muito tempo e não desejo essa tortura para mais ninguém (risos). Opção criativa seria o equivalente a um jogo. Não estou jogando com a poesia, estou vivendo a poesia. Ela é minha suprema incapacidade de ser qualquer outra coisa. O livro surgiu duplicado por necessidade: queria mostrar a relação a dois sem fachadas, aparências, meias-palavras. Uma poesia do amor substantiva, não exagerada, adjetivada, carregada, falsa. Uma poesia cotidiana, com os ímpetos de acertar mesmo quando se erra. Procurei combinar o claro-escuro, o amor e o ódio, a dependência e a liberdade, essa dualidade e tensão que permeiam todo o casamento. Como no céu representa a vontade de aprender mais do que ensinar. Livro de Visitas é a vontade de ensinar mais do que aprender. Qualquer casal escolhe uma das formas. Acredito que não deveria existir a dominação, mas a compreensão. Se cada um risse um pouco mais, haveria no rosto menos covas e mais boca.

DC - E o tema do amor? Me parece que é a primeira vez que enveredas por esse caminho.

Fabrício - De uma forma direta, é a primeira vez. Terceira sede era um canto de perda, de um viúvo que sente uma terrível falta de sua mulher. Esse é um canto de presença, com a eletricidade da pessoa perto, vigiando, opinando, completando, se opondo. São livros conversando entre si, como um casal. Procuro derrubar o biombo dos preconceitos, encontrar a emoção onde havia pressa. Os casais são educados para julgar, sentenciar, impor regras e limites, ao invés de partilhar. A criatividade não pode ser subjugada pela rotina. Casamento não é amor, é apenas uma forma de chegar até ele. Ao me entranhar nessa seara, sabia dos riscos. Sem riscos, não há prazer. O poeta alemão Hölderlin dizia: "Cresce o perigo, cresce também a salvação". Todo mundo já fez um livro de amor, costuma ser o suicídio do poeta. Precisava passar pelo medo da morte para entender a esperança. Reconheci a gentileza das pequenas carícias e doações. Como a mulher que não gosta de café e passa o café quando seu marido viaja para não se sentir sozinha. O cheiro diminui sua solidão.

DC - Escrevestes no Biografia de uma Árvore que "Não ter para onde ir é uma forma de sempre chegar". Teus poemas vagam a esmo ou procuram uma cancela para entrar?

Fabrício - Se tem uma porta aberta, não espio, entro. Não sou de me importar com formalidades ou perder tempo falando o que não acredito. "Não ter para onde ir é uma forma de sempre chegar" quer dizer que todo lugar pode ser o ideal, basta estar presente o suficiente para povoá-lo. Há o costume de planejar demais a vida (vou ser isso, quero isso, desejo aquilo). Não adianta, a vida é improviso. Não fico mais irritado quando a biografia acontece de um modo que não esperava. Fico até feliz que a vida pede mais do que posso dar, assim me procuro onde não estou, onde não cheguei. Não termino de me escavar.

DC - Teu livro Cinco Marias foi traduzido para o alemão e agora será para o francês. Encaras a linguagem como barreira ou (re)transformação dos signos?

Fabrício - Retransformação dos signos. Quando traduzido, trata-se de um outro livro. Novamente criado e escrito. Possibilidades que não adotei surgem em outros idiomas. Até a força do vento muda a língua. Sugestões e texto oculto, ligados à coloquialidade, podem sumir e devem encontrar efeitos semelhantes. Não é uma tarefa fácil do tradutor, ele começa do zero.

DC - Teus versos parecem que vêm ao mundo como uma criança que não chora, mas está viva. Esse parto é sempre natural?

Fabrício - Bonita imagem. O parto é sempre natural. Mas o fôlego é treinado. Como digo em um poema: era para ter nascido no sábado e só vim numa segunda como quem começa um emprego.

DC - Ser poeta num país de poucos leitores é crime ou castigo?

Fabrício - Entre ser sádico e masoquista, prefiro ser sádico. Chega da poesia como expiação dos pecados, como espaço de sofrimento e dor, purgatório e confessionário. Pode ser arrebatamento, fé incontrolável, euforia. Encontrar uma palavra para alguma lembrança, entender uma situação que se viveu, despertar a vontade de amar são alegrias dadas pelo poema.

DC - E ser filho de poetas (Fabrício é filho de Carlos Nejar e Maria Carpi) é uma pedra no caminho?

Fabrício - É o próprio caminho. Me possibilitou ser mais exigente comigo, educar meus medos, superar a comparação, entender que o conhecimento não é posse. Quanto mais sei, mais dúvidas tenho. Saber é questionar, adiar o final. Eu me sinto pleno quando me esvazio e deixo espaço dentro de mim para as outras pessoas.

DC - Tu dissestes que o poeta é um "fofoqueiro do inconsciente". Não sabes guardar segredos?

Fabrício - Não sei guardar. Todos os poemas foram segredos que eu me contei e agora estão publicados. Até peço para o confidente: não me fale, é uma tentação que não sei administrar.

DC - A criação poética para ti é inspiração, transpiração ou alucinação?

Fabrício - Transpiração alucinada. "Custa muito ensaio ser espontâneo." Acabo transpirando tanto que alucino e a febre toma gosto em ficar. Não acredito em inspiração, acredito em respiração. A asma me ensinou o quanto é valioso escutar a respiração tranqüila. Só a possibilidade de respirar sem crise já me deixa saciado e pronto para escrever. Não há melhor música do que se aproximar do rosto dos filhos ou da mulher dormindo e sentir aquela textura do ritmo, a sinfonia do sopro.

DC - É possível o poeta ignorar o autobiográfico na articulação dos versos?

Fabrício - De jeito nenhum. O poeta deve encarar situações fictícias sempre com um sentimento biográfico. O sentimento deve ser biográfico, não necessariamente o verso ou a cena. O poeta leva o desaforo que o outro recebeu para casa. Pega desaforos emprestados e devolve em livro.

Como no céu / Livro de visitas, Fabrício Carpinejar. Bertrand Brasil (Rio de Janeiro). 224 págs. R$ 29

( marcio.alves@diario.com.br )
Florianópolis (SC), 07/06/05. Edição nº 6993

8:47 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 08, 2005

LANÇAMENTO DE COMO NO CÉU/LIVRO DE VISITAS NA QUINTA
Livraria Cultura, Bourbon Shopping Country, Porto Alegre (RS), 9/6, 19h30
Apresentação Flávio Loureiro Chaves e leitura de poemas por Mirna Spritzer.



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9:04 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 06, 2005

NÃO HÁ DE QUÊ
Gravura de Monet
A partir de conversa na Serra, com Luiz Paulo e Cíntia

Fabrício Carpinejar



Eu fico tonto com as folhas amarelas dos plátanos, as estradas pontilhadas de um amarelo que me dá paz sem me sossegar. Uma paz que não é conforto, que não é ajuste. Uma paz que é entusiasmo, agitação, inquietação. Vontade de amar o que a terra não mostra. Vontade de riscar o chão e soltar aquelas folhas todas por cima do corpo, como um desmaio vegetal. Não, nada do que aconteceu foi tão alegre. Não é isso. Não fui tão alegre quando criança, não fui tão alegre quando adolescente, não fui tão alegre quando adulto. Mas, ao me lembrar, me torno naturalmente eufórico. Recordar já é uma alegria. Mesmo que seja um desmemoriado, será uma alegria. Andar no ouro movediço das folhas é recuar à casa da avó, ao tanque de figos, ao piso de tábua e ao quarto colado à rua, onde se escutava com nitidez cada travessia noturna, com as sombras escoando pelas venezianas. Só é triste quem não se recorda, quem não mistura os fatos com as impressões. Toque-me no pescoço, o braço ficará arrepiado e será um acontecimento. Toque-me na memória e vou me encontrar mais do que me pertenci. Nenhuma separação é maior do que a possibilidade de restauração da memória. Não existe escombro que não possa servir de pedra novamente. A memória devolve o que não tínhamos. A memória é a saudade do que virá. Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar. Escrevo na água, no vento da água. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. Sem as folhas dos plátanos.

9:09 AM :: Comentários:

O QUE ACONTECEU EM MEU RETORNO A CAXIAS:

JORNAL O PIONEIRO, CADERNO SETE DIAS
Caxias do Sul, 606/05, Edição nº 9199

Literatura

GERAÇÃO 90: CAOS E VIRULÊNCIA
Escritores e jornalistas encerram o Seminário Jornalismo e Literatura: A Fronteira entre os Gêneros

MARCELO MUGNOL

Foto(s): Ricardo Wolffenbüttel/Pioneiro

Escritores Fabrício Carpinejar, Marcelino Freire e Cardoso falaram dos meandros e labirintos da atual literatura brasileira em encontro na UCS, sábado

Uma bancada. Quatro escritores. Três deles discorreriam sobre o mesmo assunto. Um deles deveria ter encarado o personagem mediador. Resultado? O fim justifica o meio. E o início foi um prefácio à moda gonzo para jogar a platéia dentro do assunto: Tendências do Jornalismo e da Literatura - Caminhos Paralelos e Geração 90. O encontro de sábado encerrou o Seminário Jornalismo e Literatura: A Fronteira entre os Gêneros. Todas as palestras ocorreram na UCS, sob coordenação do Diretório Acadêmico de Jornalismo.

Os escritores convidados do último dia do seminário foram Marcelino Freire, Fabrício Carpinejar e Cardoso. E, como mediador - que assumidamente disse que não seria um mediador -, o escritor e professor Paulo Ribeiro.

Cada um dos três flerta com a literatura por um caminho diferente. Freire é contista, organizador de coletâneas e um dos olheiros da nova geração. Carpinejar é poeta e vem abrindo uma nova clareira nesse mato espinhoso da literatura. E Cardoso, que ainda não publicou livro algum, vem provando que a Internet não é a vala comum. Dessa mídia surge uma nova galera interessadíssima em ler e absurdamente ávida por escrever.

Na abertura da palestra teve de tudo. Freire leu um conto do livro Contos Negreiros, ainda inédito. Cardoso contou uma de suas histórias bizarras em recente encontro com estudantes. E Carpinejar recitou Fernando Pessoa andando pela platéia até o final apoteótico subindo na bancada.

Assim que essa euforia dissipou, veio à tona, enfim, o tema da palestra. Mesmo com essa mudança de rumo necessária, o bom-humor se manteve.

- Gosto de me aproveitar muito e inventar histórias. As pessoas não sabem o que é verdade e o que é mentira. Uso isso pra instaurar o caos e a confusão - revela Cardoso.

Já que se o assunto é confundir, é a voz de Carpinejar que pede espaço. Para o autor, o que a grosso modo se pensa e se escreve sobre poesia no Brasil é de ficar com raiva.

- Parece que é crime ser legível. Quanto mais inacessível, melhor - provoca.

Essa virulência de Cardoso, misturada à indignação do poeta Carpinejar, são bons exemplos dessa nova geração de escritores surgidos no Brasil recente. Ambos são jornalistas e estão preocupados com a proximidade com o texto, ora caótico, ora preciso. Em nenhum momento, entretanto, preocupados em "tornar o leitor uma pessoa melhor depois da leitura".

- Tem de acabar com a burocratização da prosa e da poesia. O escritor não tem obrigação nenhuma de melhorar a vida de ninguém. Quem faz livro pra melhorar a vida de alguém é escritor de livro de auto-ajuda - ironiza.

O resumo dessa breve ópera é que a geração de 90 abriu muitos caminhos. Escancarou portas. Rompeu barreiras. O uso que se fará disso, nem eles sabem.

- Escrevo coisas que gostaria de ler - argumenta Cardoso.

Aí está um bom guia dessa geração. Não há só eles, no entanto. Sábado, eles foram apenas os porta-vozes de uma galera que ainda precisa ser lida. E muitos outros que sequer lançaram suas obras. Pois, mãos à obra. Leia. Ajude você também a escrever essa história.

9:06 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 03, 2005

PARA NÃO MUDAR O LEITOR
Gravura de Raoul Hausmann

Fabrício Carpinejar



Fico com pena do texto eterno, permanente, que anseia atravessar gerações, que paga o preço dobrado para não ser incomodado. Desejo que meu texto tenha o direito da velhice, da morte em domicílio, do cansaço, da casa cheia, dos ruídos dos talheres. Que possa se despedir como um segredo, um dia de sol, uma lembrança imaginada. Não apareça no testamento, na modéstia, no casaco de ninguém. Que o poema seja para uma circunstância, para uma tarde pisada de amoras, para sumir de repente como uma idéia. Que seja guardado em uma boca enquanto dura a polpa. Atormenta-me quem busca a posteridade e faz tudo para "permanecer" mais do que "viver". Viver não é permanecer, viver é queimar. Ao planejar a vida, deixamos de segui-la. Quantas vezes se jurou um amor definitivo que justamente foi o mais rápido a acabar? Quantas vezes não se deu nada para uma situação, um encontro, e de repente ele avançou mais do que se esperava?

Não sou de reclamar da falta de tempo. Quanto mais ocupo o tempo, mais ele oferece espaço. Quanto mais nos prontificamos a ouvir, mais vontade temos de falar. Quanto mais acenamos, mais o gesto se alarga. Quanto mais a chama se deita, mais ela subirá depois. Cada conversa, mínima que seja, aspira à descoberta e à invenção. Na parada de ônibus ou na fila do banco. Proteger-se do convívio é se desperdiçar. Sempre pensei que um livro mudava a vida do leitor. Concluí que estava errado. Precisamos de livros que não mudem a vida do leitor, porque ele não viveu em vão, não viveu um engano. É arrogância pensar que o leitor tem que mudar. É arrogância dizer que uma mulher casada ou um homem casado devem se separar para ter liberdade. É arrogância dizer que um solteiro ou uma solteira estão infelizes porque não desejam casar ou criar filhos. A aparência tem preço, a satisfação tem valor. O livro necessita dar motivos para que a pessoa não mude sua vida e acredite ainda mais nela.

8:20 PM :: Comentários:

CAXIAS, SARAU E LANÇAMENTO

* Nem acredito: é o fim da maldição. Depois de 30 anos, voltarei à cidade em que nasci, Caxias do Sul. Não conseguia por força das circunstâncias entrar em suas fronteiras. Fiquei meus primeiros dois anos de vida lá e depois todas as minhas viagens programadas foram canceladas em cima da hora. Entrei várias vezes em Bento Gonçalves, que fica do lado, mas nunca em Caxias. No sábado (4/6), às 14h30, estarei participando da mesa "Tendências do Jornalismo e da Literatura - Caminhos Paralelos", ao lado dos amigos Marcelino Freire, Cardoso e Paulo Ribeiro. Será no Auditório do Bloco S, na UCS.

* Na terça (7/6), às 21h30, sento no banco dos réus do Sarau Elétrico, no bar Ocidente, em Porto Alegre. O tema será "A busca do verso perfeito", conduzido pelo quarteto Kátia Suman, Luís Augusto Fischer, Frank Jorge e Cláudio Moreno.

* Na quinta (9/7), às 19h30, acontece o lançamento de minha obra "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil) na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80 Tel.: 30284033), em Porto Alegre. A sessão de autógrafos será antecedida por um debate com o crítico Flávio Loureiro Chaves e leitura de poemas pela atriz Mirna Spritzer.

8:16 PM :: Comentários:

JORNAL VALOR ECONÔMICO
Eu& Fim de semana, 3/6/05


Conexão

A PROSA DE BRAFF E O VERSO DE CARPINEJAR
O gaúcho, Carpinejar, 32 anos, acaba de lançar "Como no Céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil), publicação que o coloca entre os grandes da literatura atual. Na conversa com seu conterrâneo Menalton Braff, ganhador do Prêmio Jabuti de 2000, ele fala sobre as influências que marcam sua vida e obra.

Foto: Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar

Menalton Braff: Quem sai aos seus não degenera. Você é poeta, logo não degenerou. Considerando que "de tudo resta um pouco", o que restou em você dos (poestas) Carlos Nejar e da Maria Carpi?

Carpinejar: Herdei o amor espontâneo à linguagem. Não declamar, mas reclamar poesia. Em casa, não havia a solenidade da leitura do verso, ninguém batia no copo para falar, no máximo quebrava-se o copo. O livro acontecia fora do livro, ao estender a roupa ou trocar dedos de prosa na sacada. Sou poeta não como a profissão que segui dos pais, mas como uma solidão incurável que não podia fugir. Uma vontade de exceder o corpo, de compreender as pessoas. Falava errado, trocavas as palavras. A poesia foi minha fonoaudióloga. Para um guri tímido, que não sabia se expressar, escrever era uma benção. Ninguém me corrigia, zombava, troçava de minha voz no papel.

Braff: Em seu último livro, os títulos "como no céu" e "livro de visitas" estão colados um nas costas do outro, como o homem primordial, aquele homem esférico, completo e perfeito. Eles já se encontraram ou ainda não foram separados? Enfim, qual dos dois é ele e qual é ela?

Carpinejar: Que livros mal-educados, hein? Um de costas para o outro. Já falei para eles, mas não tem jeito. Estão "brabos", cada um deles quer ser o preferido. Não me interessa o homem perfeito, tão seguro de si, que não procura se atualizar. Eu me interesso pelo homem insuficiente, o que desenvolve sua capacidade de comover e de se questionar e não se esconde em fachadas na linguagem ou frases prontas. Estamos em uma época em que o homem se envergonha de não saber, mas sem a dúvida não há mais o que aprender. A ignorância é o atalho para a inteligência. "Como No Céu" e "Livro de Visitas" são obras de amor, de brigas e impasses, de delícias e arrebatamentos, porém não significam versos declamatórios e exagerados para agradar. A verdade não agrada. A verdade ensina. Falo de detalhes do relacionamento a dois, do que esquecemos de reparar pela pressa em concluir. No amor, deveríamos ter menos pressa para finalizar e conhecer tudo sobre quem vivemos. Agradeço o que ainda não conheço de minha mulher. Assim posso me surpreender um pouco por dia.


Menalton Braff

Carpinejar: Bem, Menalton, e você, que muda de livro para livro. "Na Teia do Sol" (Planeta) cobre a insolação e o esconderijo de um refugiado político da ditadura militar e a escrita se amplia em círculos, a reverberar a tensão do medo e a fadiga dele. Em "Que Enchente me Carrega?" (Palavra Mágica) é a história de um artesão quase extinto e demitido pela sociedade e os períodos longos reproduzem um estado de angústia. Já "Castelos de Papel" (Nova Fronteira) oferece a crise de identidade de um empresário e a prosa encontra o formato de um quebra-cabeça. Vejo que não são os personagens que se adaptam ao autor, mas o autor que se adapta aos personagens. Sua técnica é se interiorizar na psicologia dos protagonistas?

Braff: Uma das primeiras preocupações do narrador é encontrar a forma adequada ao que pretende narrar. Além disso, procuro fazer literatura apenas com o que me encanta ou com o que me espanta. Me parece que a origem da mudança está na diversidade das situações e das personagens com que me deparo diariamente e na variação das técnicas narrativas com que procuro encontrar a forma justa. "Na Teia do Sol" e "Que Enchente me Carrega?" têm em comum o fluxo de consciência, pois ambos têm como protagonista um ser solitário, que durante o tempo quase todo está sujeito ao diálogo consigo mesmo. "Na Teia do Sol", contudo, por apresentar uma situação mais radicalmente de solidão, radicaliza também o fluxo de consciência.

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Quarta-feira, Junho 01, 2005

A SIMPLICIDADE
Gravura de Raoul Hausmann

Fabrício Carpinejar



Vivemos em voz baixa, recriminando nossos atos, censurando. Quem não se flagrou falando sozinho, a praguejar uma idéia? Quem não teve a mania de se piorar, para gerar pena e complacência? Quem não se exagerou para recuperar a solidão? Apagamos a simplicidade, o sol assanhado lavando a calçada, os pássaros ajudando as árvores a tirar a camisa, os cachorros com o olhar familiar de mendigos, as pequenas delícias de fazer parte do mistério. Não podemos ter vivido tão errado, tão torto, a ponto de não deixar nada. Não acredito em páginas brancas. Alguma coisa está por baixo. Alguma coisa poderá ser lida com o relevo da claridade. Que minha mulher possa se lembrar dos momentos em que não prestava atenção à alegria para ser a alegria. Que ela possa achar graça, sem a minha ajuda, quando procuro desajeitado as contas na gaveta. Que possa se emocionar de preguiça quando levanto de noite para ver se fechei a casa. Que possa se render quando deito no chão de igual para igual com os filhos a brincar de bolinha do banheiro ao quarto. Que a rotina não seja tudo igual, e sim uma maneira silenciosa de ser diferente por dentro. Que não critique a mãe quando ela recordar da minha infância em público e acrescente um detalhe às lembranças. Que ponha semente no chão, não no lixo, a esperar que uma delas venha a me surpreender com a minha altura. Que possa tocar no assunto com volúpia. Se eu fui afetado, ambicioso e irresponsável, que a ternura me devolva o equilíbrio e peça desculpas distraído, beijando a mão do vento. Que meus amigos tenham confiança em mim e fiquem com vontade de beber mais e conviver mais quando meu nome aparecer na conversa. Que tenha sido um leitor dedicado quando amante, com os olhos fechados pela pressão dos lábios. Que algo que tenha dito de carinho venha aparecer ao lado de um palavrão. Que encontre cartas e cartões em meio aos livros e leia como se fosse a primeira vez que estou os recebendo. Que não seja tolerado, que não seja útil, que seja necessário mais do que sou. Que não volte com conversa abatida de que nada dá certo. Que seja corajoso a dizer o que pensava do que a não dizer o que pensava. Que tenha uma religião, mesmo que seja uma coleção de selos, e acredite que o mundo é um complô de Deus para me proteger. Que tenha companhia no trem, a abafar o apito da porta. Que possa viver desapegado do nome e da condição do nome, como um boi que não se envergonha da terra. Que possa aquecer a cama antes da minha mulher entrar. Que possa aquecer meu corpo antes de minha mulher entrar. Que possa aquecer o que já estava esquecido em mim.