Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Fabrício Carpinejar


 

Arquivos:

Blog

Domingo, Julho 31, 2005

BANHEIRA VERDE
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar





Um dos alvoroços da infância foi quando o pai decidiu que colocaria uma banheira em casa. Uma banheira para qualquer criança na época significava meia piscina. Em nossa situação, o máximo que poderíamos chegar perto de uma piscina (Desculpa, o pai não decidiu, o pai só decidia depois de muita persuasão da mãe. O pai concordou). Eu e os três irmãos atravessamos noites inteiras confabulando banhos em equipe, pulos, saltos, guerra de espuma, lavagem dos brinquedos. A agitação e excitação nos faziam gaguejar. A alegria tem sempre tanta pressa. Não havia conversa que não mencionasse a troca do chuveiro rápido pelas águas lentas. Iríamos mergulhar - imaginávamos. Cogitamos todas as cores possíveis, descartando o rosa preferido da irmã.

Enfrentávamos a reforma da residência, uma bagunça sem igual, com valas enormes abertas no pátio. Homens prorrompendo e saindo pela cozinha com as botas sujas de lama. O abacateiro, nosso caminho ao telhado, fora cortado com a compensação da banheira. O construtor trouxe vários modelos no caminhão para se experimentar. Postos no chão, o pai se agachou por dez segundos no primeiro que viu, levantou rápido e disse que desejava aquele. Na verdade brincou de morto-vivo. Lembro que observávamos o teste, loucos para pousar na nova frigideira de louça. Ao redor dela, o chuveirinho nervoso de nossas mãos. Não houve chance. Negociação rápida. Não sei se o pai estava de mau humor, definiu num aceno de cabeça a ansiedade de semanas. O construtor ainda perguntou: "E os outros? Há novas opções?" Resmungou que não. "Aquele". Percebemos que o pai não entrou na banheira, era pequena, entrou com as pernas dobradas, o que não valia muito. Entrou em posição de seqüestro. Não compreendi como ele pagaria uma banheira para se encaixotar, para se dobrar, desconfortável. A banheira verde foi instalada com sussurros de velório. Mirrada. Minúscula já para os meus oito anos. Parecia uma pia avantajada de lavanderia. A mãe reclamou ao pai: "Ficaste maluco?" Ele tossiu para ganhar autoridade: "Pensei que ficaria maior com a água".

Na semana seguinte, o pai avisou os filhos que iria se separar da mãe. Era - agora sim - sua decisão, tomada bem antes da reforma. Moraria em um hotel por enquanto. Ouvimos o ralo sugar a voz paterna.

O que me deixou mais irritado é que ele nunca usou a banheira. Nem ao menos devolveu o abacateiro.

7:44 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 30, 2005

Jornal do Brasil, caderno Idéias, sábado (30/7):

O ENCANTADOR DE SERPENTES
Poesia reunida de Ivan Junqueira é prova do único e indivisível poema

Fabrício Carpinejar
Poeta

Arquivo

Ivan Junqueira: é impressionante constatar como o escritor é fiel à sua estréia, com Os mortos, de 1964


Poesia reunida
Ivan Junqueira
A Girafa
365 páginas
R$ 55

Dificilmente alguém vai rir em um concerto de Johann Sebastian Bach. O tom solene e denso da música gera a concentração do corpo nos ouvidos, em uma seriedade dramática e arrebatadora. A lírica de Ivan Junqueira segue o mesmo diapasão da sensibilidade litúrgica, constatada na Poesia reunida, lançamento cuidadoso da Girafa e que apresenta, entre os inéditos, o belo e longo poema camoniano O rio.

O leitor não encontrará várias fases de um autor, peles recicláveis de um camaleão, mas o autor de um único e indivisível poema, o que é raro e exemplar na volubilidade da poesia brasileira. É impressionante constatar que o escritor é fiel à sua estréia, com Os mortos, de 1964. O conteúdo é seu estilo. Mantém um alto nível de exigência crítica desde então, o que explica suas poucas obras, uma meia dúzia em quarenta anos. Recusa-se a se curar ou se desfazer do primeiro livro, costume da maioria dos escritores. Pelo contrário, tenta propagá-lo em ecos no decorrer das décadas. E ecos cada vez mais fortes e altissonantes, refinando temas até a exaustão metafísica como a morte, a infância, o mistério da encarnação.

Ivan Junqueira não muda, pois amadurece para dentro de sua própria voz. Compreende a literatura como um continuum de Homero até T.S. Eliot, de Cruz e Sousa a Dante Milano. Não rompe o elo entre as produções, porém preserva o cordão umbilical com a nascente oral. Seu vocabulário é clássico, imbuído de arcaísmos e de uma organicidade métrica. Os largos poemas, que se assemelham a meditações monocórdias, provocam uma estranheza mística, um distanciamento reflexivo. Ao não empregar o vocabulário coloquial, concentra os efeitos na profundidade das palavras, na confirmação de um sentido de conjunto. Parece um poeta à moda antiga por se tratar de um poeta antigamente novo. Absorve a herança simbolista da valorização da música para uma investigação filosófica moderna. Sua imaginação atende os princípios da fábula, da recriação de todo andar, inclusive o mais prosaico, no formato de dança. No plano do maravilhoso, é capaz de enxergar ''duendes frágeis'' nos dedos de um menino desenhando com lápis de cor.

Como o flautista perante a serpente, Junqueira exerce um cerco às imagens por todos os lados. Um emparedamento dialético, em afirmações cada vez mais detalhadas, ziguezagueando no claro e escuro da existência. Um exemplo é Meu pai, doloroso reencontro com o pai morto: ''Eu vi meu pai nas franjas da neblina/ Eram tão frias suas mãos defuntas,/ Eram terríveis suas órbitas vazias./ Eu vi meu pai, a voz quase inaudível,/ chamando-me ao seu colo desvalido/ e a fronte me cingindo com um nimbo/ de flores e de ramos já sem viço./ Eu vi meu pai. E ele sorria./ Os lábios se entreabriam como lírios/ de alguma extinta e lívida ravina./ Seus pés imensos a distância percorriam./ E o que entre nós fora conflito e abismo/ agora se fundia em íntimo convívio./ Eu vi meu pai. Vi-lhe a loucura, as tíbias/ finas, o pigarro, o edema, a hipocondria./ E os cavalos, o baralho, o vinho./ Era ele, sim, não quem eu vira um dia/ inútil e seráfico no esquife,/ enfeitado de flâmulas e espinhos./ Eu vi meu pai. Era um prodígio/ que encantava madonas e meninos, /e numa esfera aprisionara um grifo./ Eu vi meu pai. Era um dândi e um mendigo./ Foi-se embora à tardinha. O céu/ se desfazia em púrpura e agonia./ Já se foi. Agora é lágrima e vertigem''.

Enquanto o poeta toca sua flauta, o poema - tal a naja - ergue-se do subterrâneo do cesto e dilata o capelo, deixando-o na posição normal de defesa. Os movimentos que o encantador de serpentes exerce são acompanhados pela cobra, enquanto ela fixa os olhos nele, sempre engatilhada para atacar. Nesse poema do autor, a cena começa escura, difusa e embaçada, com o pai na neblina. O ritmo cresce espiralado, com detalhes do corpo do pai a surgir precisos e imponentes, permitindo o reconhecimento filial. A naja dilata o capelo no momento decisivo em que o poeta diz com nitidez e assombro: ''Eu vi meu pai. E ele sorria''.

Daí por diante o duelo é imprevisível, de ordem psicológica, com oscilação dos impulsos da submissão à surpresa, e o pai deixa de ser exposto pelas suas características físicas para ser descrito pelas manias, desejos e escolhas emocionais. Assume uma condição híbrida de fantasma e carne, de realeza e falência (''um dândi e um mendigo'').

Assim como o embate entre o toureiro e o touro significava o extremo da arte para João Cabral, a naja dos versos de Ivan Junqueira não sofre a extração das presas, e ele se arrisca a duelar com o medo da infância e enfrentar a possibilidade de ser mortalmente atingido. Esse risco total que permeia a poesia funciona como uma hipnose, um enfrentamento legítimo entre o que se pode dizer e o que se pode cantar. Junqueira tem a consciência de que nem tudo o que pode ser dito pode ser cantado poeticamente e se esforça para tomar de assalto o inaudito e os caminhos do silêncio.

Ivan Junqueira é um encantador de serpentes, na acepção da Índia antiga em que o encantador também atuava como narrador popular de idéias. Infunde intimidade sacra em situações profanas e vice-versa, não fugindo de expor as ''vísceras do pátio'' e as experiências cruciais da sua vivência.

Persegue a morte como um recomeço, pois não a percebe como uma zona de desaparecimento e extinção. Conclui que os mortos duram nos vivos, não são os vivos que duram na morte. Compreende a morte como um universo invisível e paralelo desde o nascimento. Quando os familiares falecem, não se termina a conversa, é quando ela se inicia.

9:14 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 28, 2005

O CAÇULA
Pintura de Chagall
Para Miguel, meu irmão mais novo

Fabrício Carpinejar



Sou o filho do meio. Pensando bem, nem do meio. Sou o penúltimo filho de número par. Mas não posso deixar de invejar o caçula. Uma inveja do bem, mais admiração e respeito do que ciúme. O caçula é o que ficará mais triste quando a casa está triste, é o que ficará mais alegre quando a casa está alegre. É a tomada, o trinco, a aldrava, o último a deixar a mesa, o último a trocar de quarto, o último a sair da residência, o último a casar, o último a receber as más notícias e o primeiro a descobrir as boas. Não é o mais mimado, todos os demais cresceram muito rápido e ele foi o raro que permaneceu perto dos pais. O caçula é o mais ponderado, ordeiro, generoso. Limpa a sujeira e se cala quando não formou opinião. Escapa dos vícios dos mais velhos, tampouco faz de si uma virtude. É a vítima da piada, não o algoz. Não devolve a ofensa, guarda para adubo. O caçula é nostálgico, o que viveu nunca será suficiente para se convencer de vida. O caçula é o filho inesperado, o amor inesperado, a amizade inesperada. Não tem jeito de profeta, tem jeito de profecia. Seria o anjo da família se não houvesse castigo. Seria o anjo da família se houvesse tempo. O caçula não tem vergonha de amar a mãe. Tem disciplina de amar. A mãe envelhece perante os demais, não para o caçula. O caçula não permite o asilo. Pode ser homem feito que continuará o caçula. É ele que colocará uma coberta de noite quando a mãe dorme. É ele que vai se distanciar do grupo para colher amoras para a mãe. É ele que vai arrumar o computador da mãe quando os outros dizem que estão ocupados. É ele que virá de longe para os aniversários. É ele que telefonará aos seus irmãos perguntando se precisam de alguma coisa. É ele que perdoará o pai com o fim do casamento. A família desmorona, mas o caçula não. Recomeça dos escombros como um animal resistente. A vitória do caçula é vista como obrigação. O caçula não culpa os outros, culpa a si mesmo. Não corrige, passa a limpo. O caçula dá a mesada que recebe, reparte o salário que não tem. É o sótão, a vitrola, os móveis antigos, enxerga fantasmas, porém não delata o que vê. O caçula abraça como se fosse uma despedida. Chega a doer o abraço do caçula. Dor alegre de irmão que não quer se separar. O caçula é o mais fiel dos amigos, pois deve ter sido o único que conheceu realmente a solidão. Duvida até da morte para se aproximar um pouco. O caçula acredita em qualquer lembrança contada que tenha seu nome e desconfia de qualquer lembrança que partiu de sua memória. O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.

8:45 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 26, 2005

CEM MIL
Pintura de Paul Klee



Nosso blog chegou ao número de 100 mil visitantes e mais de 125 mil acessos em menos de dois anos. Agradeço a todos que participam dessa história, deixando comentários ruidosos ou passando silenciosamente na ponta dos pés da boca, concordando ou discordando, me amando ou me odiando, mas nunca indiferentes. Como homenagem, deixo abaixo o horóscopo que fiz para encarte especial da revista ET CETERA Número 5, editado pela Travessa dos Editores, de Fábio Campana.

NUNCA VI NADA IGUAL

Fabrício Carpinejar

19 (72) MÍNIMAS

ÁRIES
20/3 a 20/4


* Os insetos são flores suicidas.
* Não há maior violência do que a suavidade.
* Vivo me espalhando, o único modo de me concentrar.
* A sombra é apressada para quem foge dela.
* Nunca chego a um trato com quem deixei de ser.
* Arrumo os poemas como um álbum de fotografias de uma família que não tive.

TOURO
21/4 A 20/5


* Vou devagar para o longe chegar perto.
* Quando se tem razão é aconselhável negar.
* Ter desejado é minha única posse.
* Ainda não sei se queria morder teus lábios ou tua voz.
* Não confie nos objetos do antiquário. Eles mentem sua idade.
* Faço amizade comigo para tomar uma cerveja.

GÊMEOS
21/5 A 20/6


* Ela não guarda as cartas de amor; ela se guarda para as cartas de amor.
* As mentiras, quando escritas, não se tornam verdades.
* Metade do que vivo é imaginação. A outra metade é conseqüência dela.
* A solidão é uma saudade sem destinatário.
* Passei um tempo enorme para fazer um estilo. Agora o trabalho maior é desfazê-lo.
* O elogio da modéstia é a pior vaidade.

CÂNCER
21/6 A 21/7


* Somos milagres habituados.
* - Sabe, aqui dentro a sensação é que não se tem futuro.
- Não, aqui dentro a sensação é que a gente não tem passado.
* Quando o casamento acaba, somente os erros são devolvidos.
* Minha mãe fala "pronto" ao atender o telefone. Não estou preparado.
* A água é muito influenciável. Toma a forma do que vê.
* Eu tenho da verdade o pressentimento.
* As fotografias são fiéis ao que ficou fora delas.

LEÃO
22/7 a 22/8


* Não quero alma gêmea. Isso é incesto.
* Antes sem modos do que seguir moda.
* O violino é um porão de cordas. Desço as escadas no escuro.
* Transborda-se com o mínimo.
* Os botões atrasam a nudez para não perder nada.
* Não há maior vaidade do que se abandonar.

VIRGEM
23/8 a 22/9


* Quem tem letra ilegível passa a complicar todo o resto.
* Mais se faz um poema rejeitando as palavras erradas do que escolhendo as certas.
* Só converso com Deus se tenho carona de volta.
* O dicionário é a agenda da eternidade.
* Uma beata espantava os demônios com os mistérios gozosos.
* Mais fácil dividir a migalha do que o pão.

LIBRA
23/9 a 22/10


* Uma árvore é enterrada de pé. Como uma guitarra.
* O sobrenatural é a rotina. Repetir tudo exatamente igual não é fácil.
* A feição envelheceu com unidade. Até os óculos acompanharam.
* O que eu vou ser quando crescer é o que não tive tempo de fazer na infância.
* A poesia é como os pedais do piano, o leitor presta atenção nas mãos do pianista.
* Há dois tipos de ex-mulher. A que torna todas as escolhas futuras erradas depois da separação e a que torna todas as escolhas futuras acertadas depois da separação. O resto é poesia ou Vara de Família.

ESCORPIÃO
23/10 a 21/11


* Se as mulheres soubessem o que os homens falam entre si, sentiriam vergonha de seu ciúme.
* Eu assusto meus próprios medos.
* Desconfio quando estou livre e sem marcação. Deve ser impedimento.
* O poema é uma mão tremendo. Seguro no poema, não para aliviar o tremor, para ser contagiado por ele.
* Nem eu sou meu discípulo.
* Não confio no copo. Deixo todo veneno em minha boca.

SAGITÁRIO
22/11 a 21/12


* Quero morrer sem sobrar vida para contar.
* Agradeço meus limites. Não me suportaria infinito.
* Por que temos a impressão de que o tempo passa rápido mas o que ocorreu na semana passada parece ter sido algo de outro século?
* Meus fantasmas são discretos como um prato de sopa.
* - Tens urgência de rio?
- Não, mas curiosidade oceânica.
* Deus faz comício, mas o domingo é o único dia que não quero me salvar.

CAPRICÓRNIO
22/12 a 20/1


* Costumo repetir o que não aconteceu.
* Dificilmente o vento encontra um tradutor competente que não o transforme em brisa ou em dilúvio.
* Procuro uma rua sem saída para subir os olhos.
* Quando não há ninguém para incomodar, arruma-se encrenca com a própria estima.
* Sobre o surgimento de Adão: "como pode um homem sem infância?"
* Meu pai se barbeava sem espelho. Minha mãe se penteava sem espelho. Sou filho da cegueira.

AQUÁRIO
21/1 a 18/2


* Música é dar voltas na mesma frase.
* Eu vivo o que não consegui imaginar.
* Ninguém nasce para não perturbar.
* Ao receber excremento de aves, chamo a sujeira de sorte.
* A brasa dorme sempre com a chave do lado de fora.
* Não fui avisado que estava vivo. Como uma corrida que começou e não ouvi a contagem.

PEIXES
19/2 a 19/3


* O que não foi vivido totalmente volta.
* O mar dorme tentando se ouvir.
* a paisagem muda com a cigarra muda
* A luz é cicatriz.
* Se cada um é o segredo da vida do outro, todo encontro é uma denúncia anônima.
* Ignorar Deus é ainda um jeito de permiti-lo.


11:40 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 24, 2005

DE BANHO TOMADO
Pintura de Gustav Klimt
Para Érico Fumero, meu amigo.

Fabrício Carpinejar



A primeira vez que a diretora da escola chamou a mãe para conversar, em razão de minhas atitudes estranhas, foi por motivos de amor. E no jardim de infância, aos seis anos. Comecei rápido. Havia furtado as jóias da mãe, embrulhadas em cartolina amarela, e dado para a colega Ana Maria. No verso, fiz um desenho de caverna, com um casal subindo em árvores.

Aproximei-me da menina, ofereci o presente e a pedi em casamento. Não me lembro se ela aceitou, mas recebi um beijo, que estalou onde hoje tenho barba.

Ana Maria chegou em casa com uma série de colares, como quem encontra tesouros em tumba do Antigo Egito. A múmia era eu. É evidente que seus pais ficaram assustados e pediram para falar com a direção. Devolveram os objetos e a mãe fora alertada da minha precoce passionalidade. Fui vigiado e não consegui mais me aproximar de Ana Maria, que em seguida trocou de escola. Nem nos acenamos na despedida. Ela não virou seu pescoço para me localizar no alto da janela.

Desde o princípio, pulsa a obrigação de demonstrar o que sinto. Obrigação. Como se me fizesse mal deixar os pensamentos guardados. Estraga-me, me corrói, a incerteza me abóia. Remorso não se guarda em bolso, não se pede troco. Não sofro de preguiça para brigar comigo. O sossego simples depende de dizer o que ainda não pensei. Pensar duas vezes é sofrimento. Até porque o pensamento odeia se repetir. Meu desejo sempre muda algum trecho do pensamento na hora de copiá-lo. O desejo copia errado. Pode parecer bobo, é ridículo mesmo, mas não queria ser astronauta, aviador, médico, advogado, contador. Queria apenas amar alguém e dar presentes. Minha alegria não dependia de teste vocacional, de exame psicológico, das perguntas sobre cores e desenhos.

Soube bem: queria amar, assim como quem lava os cabelos de uma mulher. A mulher deitada na banheira e minhas mãos encaracolando espuma, friccionando a pele com a ponta dos dedos. Desamarrar um por um dos cílios. A cabeça dela para trás, os olhos fechados à espera, o poço de plumas. Podes tentar, é como cumprimentar a relva logo cedo. Antes de morar com uma mulher, deve-se lavar seus cabelos. Levar a dor de cabeça dela para longe. O beijo não escorrerá dos lábios. Subir suas costas com as costas dos braços. Apanhar os cachos de uvas pelos ramos e repousá-los na cesta. Apertar levemente a esponja das sobrancelhas para completar o rosto. Não exagerar a chuva com os relâmpagos. Não exagerar a chuva com o vento. Enquanto se vai, a luz virá baixa do outro lado. Não se descuidar sequer um momento. Depois, levantar as mechas com a devoção de ervas curativas, ervas medicinais. Correr com a ligeireza da água pelos ombros.

Para amar, basta seguir a água. Não se precisa de mais nada. Basta imitar a água.

11:40 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 23, 2005

JORNAL O GLOBO, CADERNO PROSA & VERSO
Rio de Janeiro, 23 de julho de 2005


CENAS DE UM CASAMENTO POÉTICO
Como no céu & Livro de visitas, de Fabrício Carpinejar. Editora Bertrand Brasil, 224 páginas. R$ 29

Cíntia Moscovich


Fotografia de Renata Stoduto


Ele já foi de tudo: já foi sol, já foi sede, já foi seu próprio ancestral, já foi filho que chama de volta o pai ao pampa, já foi árvore, já foi mãe que deu à luz quatro irmãs. Agora, com o lançamento de 'Como no céu" e "Livro de visitas", duas obras integradas em um único volume, Fabrício Carpinejar se converte em substância de amor que atravessa o céu e o inferno do casamento - e, juntando os pedaços de sua própria existência, nunca conseguiu ser assim tão inteiro.

Aos 32 anos, nascido na cidade gaúcha de Caxias do Sul, morando na também gaúcha São Leopoldo, Carpinejar é um dos poetas mais vigorosos e aclamados da cena nacional. Batendo na marca de sete livros lançados - ou oito, se for considerada a unidade intrínseca de cada um dos novos volumes -, o autor investe no lirismo e na invenção formal. "Como no céu" e "Livro de visitas" têm início, cada qual, em uma face do volume, arranjo que faz com que se leia um dos livros de trás para a frente: o final de ambos se encontra para recomeçar uma sucessão infinita.

Composições que desacomodam o leitor

Praticando uma escrita de extração narrativa, com direito a personagens, enredo e ações encadeadas, característica que o aproxima da essência metafórica e imagética da própria poesia, Carpinejar explora o casamento por dois pontos de vista: um luminoso e harmônico (em "Como no céu") e outro mais sombrio e meditativo (em "Livro de visitas"). Vocacionado para colher instantâneos e para as composições que desacomodam o leitor, o poeta dispõe-se a escavar a palavra com a intenção de, lá no mais fundo do miolo, extrair a gema da significação. Dito de outro modo: ele espreme o significante para deformar seu significado - ou algo parecido.

Talvez isso, a prestidigitação semântica, essas torções de imagens que desembocam na estranheza, seja a maior marca carpinejariana - e, de quebra, o que tem colocado parte da crítica de cabelos em pé. Um bom exemplo do jeito do poeta está em "Como no céu", na cena de um casal tomando café da manhã. O flagrante doméstico é interrompido: "O relógio na cozinha/ pupila de faca". Aproximação torta e estranha, mas dá no que pensar.

Ao mesmo tempo em que continua raspando seus textos na busca da exatidão, do essencial e necessário, exercício ao qual se dedicara no livro anterior, "Cinco Marias", de 2004, e que contraria o caudaloso "As solas do sol", com que estreou em 1998, o autor se esquiva do aforismo, daquelas sentenças judiciosas e cheias de poses conclusivas ¿ mesmo que pratique o verso curto, namorando com a construção breve do epigrama. O que ele quer mesmo é contornar a miséria de sentido das coisas sem incorrer (muito) na metafísica: "Meus deveres minerais./ Meu amor mineral./ E o batimento ali,/ pontual, despreocupado,/ pardal de água na pedra".

Ao lançar as bases de um universo singular, o poeta não teme valer-se da própria história de vida. Sem cerimônia, ele abre a porta da casa a seu leitor: ali estão a asma, os filhos descontados em folha de pagamento depois da separação, o menino feio sujeito às maldades dos colegas, a criança que custou a ser alfabetizada e que trocava as letras, o corpo da mulher nua em pêlo. Talvez isso, a intimidade escancarada, o tom confessional, que não é exclusivista, a dicção biográfica, que não se torna auto-retrato, faça de "Como no céu"/"Livro de visitas" volume que contém um lirismo quase desavergonhado, indecente mesmo: "Ela senta ainda com o sêmen/ entre as pernas, a invasão/ indefinida, pressionando o fluxo/ a lavar a promessa de filhos". E, enquanto isso, o poeta recolhe as roupas espalhadas pelo chão. O amor tinha pressa.

CINTIA MOSCOVICH é escritora, jornalista e autora de "Arquitetura do arco-íris", entre outros livros

10:12 AM :: Comentários:

PALCO HABITASUL

Como tradicionalmente faz no Dia do Escritor, o Palcohabitasul promove um encontro com um autor para conversar sobre seu processo de criação. Sou o convidado desta edição. O bate-papo será na segunda (25/7), às 12h30, no Palcohabitasul (rua João Manoel, 157), em Porto Alegre (RS), com entrada franca.

10:10 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 22, 2005

O FOGO É UM VASO INSATISFEITO
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



A rua da minha infância não tem asfalto. As cordas vocais, intactas. Impressão de subir em telhado, andar inclinado como uma vela. Desnível de férias e de feira de verduras. A rua da minha infância é tarada. As mulheres cuidam para não perder o salto. Mania de segurar as pernas das mulheres e não soltar. De beijar as pernas das mulheres e bafejar o vestido delas para cima. Quisera ser uma rua espiando as pessoas por baixo. Portar óculos dos porões, colecionando sapatos e cadarços.

De pequeno, o que mais me acalmava era ficar na altura do solo, com o ouvido colado para escutar meu ouvido. Rilhar o carrinho na pedra, na areia, e fazer barulhos similares com a boca. Barulhos incompreensíveis, a imitar bichos que não foram inventados. Ou que foram extintos antes de nascer. Depois me senti perseguido pelo Velho do Saco, fui me acostumando a crescer. Como o velho não seqüestrava adultos, enganei a idade até chegar a ela. Amadureci por medo, jeito mais rápido de envelhecer.

Cavava a terra certo de que a luz surgia de dentro dela. Não do céu, de fora, mas de dentro. O abismo é preguiçoso, não se cava mais. O abismo não merece sua profundidade. Profundidade depende do esforço das mãos. As minhocas foram os meus peixes. Pescava o lodo da horta. Com o caniço das unhas. O remorso de cortar a minhoca involuntariamente. De fatiá-la ao meio e não diferenciar o grão do movimento. A minhoca sofre muita coceira. Vive se enroscando, procurando as costas em seu bolso.

Sou homem de inverno, dos casacos na cadeira, do fogo lambendo o osso. A geada fez uma cópia de chave em meu rosto. Se a eternidade for um verão interminável, precisarei alugar um chalé no purgatório. Meu escuro é selvagem, não domino o que não vejo. Eu me canso quando fico triste. Meus vizinhos gostavam de cachorro, gato, hamster. Eu desejava cuidar de um cavalo caolho. Um cavalo que resumiaa estrada em um só córnea. Um cavalo só com um lado da moeda. Meu pai disse que a casa não permitia cavalo. Falei que sim, argumentei que sim, um pátio onde dormia um abacateiro permitia cavalo. Ainda mais um cavalo caolho, que não olhava de frente.

Sou um pacote amarrado por cordas. O avô fazia cordas em suas remessas pelo correio. Quem é antigo ainda usa as três voltas no envelope. Suspensórios das cartas. Admirava a correspondência dele, mas temia seu violino. O violino como uma faca perto da garganta. Muita coragem para tocar com a lâmina pressionando a pele. Todo violinista é ameaçado de morte pela música. Mexe o arco para se defender.

Não me convidei para viver, é estranho ter permanecido tanto tempo em mim.

11:48 AM :: Comentários:

VIVER COM ARTE



Toda a miss quer a paz mundial. Os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha tentam mudar a resposta e o lugar-comum. A terceira edição do "Miss Cultura" tem como tema A arte de vive, buscando na literatura exemplos memoráveis de quem curte a vida sem descuidar do verbo. O evento acontece na segunda (25/7), às 19h30,na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80 Tel.: 30284033), em Porto Alegre.

Trata-se de um "karaokê recital", com desfile de fragmentos de contos, romances e poesias. A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos de Fabrício e Marcelo sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a gôndola e exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

A competição não esquece dos detalhes. Tanto que o artista gaúcho Leopoldo Ernesto Schneider, figurinista de espetáculos teatrais e de dança, confeccionou as faixas para os livros premiados. É o mesmo estilista que já fez as faixas de Miss Rio Grande do Sul e desenhou as coroas de Miss Santa Catarina e Miss Rio Grande do Sul.

No último certame, a Miss Cultura de Junho, foi uma surpresa. Não foi um livro, mas uma música: "Feijoada Completa", de Chico Buarque. O segundo lugar, Princesa da Noite, ficou com o humor de José Candido de Carvalho, com "Bifes à Milanesa com Farinha de Caco de Vidro". A Miss Simpatia terminou nas mãos de Adélia Prado, com os versos de "Casamento".

A entrada é grátis. O convidado especial é um segredo até a hora do encontro.

11:47 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 20, 2005

BRINCAR DIFERENTE
Pintura de Miró

Fabrício Carpinejar



Vicente, meu filhote de 3 anos, pediu para que consertasse a moto miniatura dele. Parei de escrever para atendê-lo. Quebrou um pino e não havia jeito de pôr em ordem. Ele repara no meu esforço em vão, nas várias tentativas, se compadece com a minha inabilidade e me consola: - pai, deixa assim, que eu brinco com a moto de outra forma. Foi uma iluminação. Não me falou para comprar uma nova. Não me avisou que botaria no lixo. Afirmou com naturalidade: "brinco de outra forma'.

No amor, quantas vezes a gente se fixa no erro e não desenvolve distintas maneiras de enxergá-lo? A imperfeição se torna uma obsessão. Se alguma coisa saiu do plano, parte-se do princípio que não mais dará certo. Se o namorado ou namorada, se o marido ou a mulher quebrou a confiança conclui-se que nunca mais haverá a mesma fidelidade e lealdade. Há uma rapidez tremenda em se desfazer daquilo que nos incomoda e nos enfrenta. Há uma predisposição em desmoralizar os sentimentos, como os brinquedos que perderam seu contorno original, e descartá-los. Não se aceita memória danificada, casamento com altos e baixos, namoro com tropeços. Deseja-se um roteiro superficial e perfeito, desprovido de personalidades. A inclinação é colocar fora, virar de costas e seguir adiante, esquecendo que o passado está à frente pronto para se repetir. Surge um problema do relacionamento e todo dia o problema tem que ser discutido, como se discutir fosse consertar o problema. Com a repetição, no mínimo, a desvalia será agravada. Uma ferida não se cura olhando a cada minuto para ela. O que um problema mais quer é a atenção exclusiva, para abafar as virtudes. Numa briga, todo mundo fala mal um do outro acima do que se acredita. Não contando com um repertório de ofensas para tanto tempo de raiva, inventa-se desaforos no calor do bafo, agride-se mesmo não confiando na veracidade da bile. A necessidade de convencer, de mostrar-se certo, é maior do que a verdade, do que os ouvidos, do que o entendimento. Muitos só querem ter razão, ao invés de ter desejo. Muitos demonstram interesse, o que não é paixão. O que o par ambiciona é um pedido de desculpa. Mas o que adianta um pedir desculpa para uma agressão que é dos dois? Não é agradável confundir a casa com a sacristia de uma igreja. Errar é comum e faz bem. Culpar é que aniquila e anula a possibilidade de aprender com erro.

O amor começa por palavras de menos, termina por palavras a mais. Não se volta pelo caminho que se chegou. Qualquer volta é um novo caminho na boca. A dispersão ajuda o humor. De vez em quando, cabe não levar a sério a discordância. Não é o amor que estragou, é a imaginação que não vem se esforçando. Sempre existirá um jeito de brincar de outro modo, de brincar diferente.

8:45 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 18, 2005

COBRANÇAS
Pintura de Guayasamin

Fabrício Carpinejar



Pedir um abraço, cobrar um beijo e exigir carinho não combinam com o amor. A cobrança aniquila com a possibilidade de oferecer e de receber o afeto. Como beijar depois de escutar "não me dás mais beijo"? Como transar depois de ouvir "não transas mais comigo"? O que é voluntário vai parecer obrigatório, o que é escolha vai parecer induzido, o que é vontade vai parecer condicionamento. Por que transformar a convivência em coleta de impostos? Será que não se está levando o trabalho para casa, a empresa para a casa, o demônio do cartão-ponto para dentro da carne? Qual é o prazer de pressionar, de impor resultados e regras, de controlar o que é para ser incontrolável? Por que difamar a única verdade que se tem?

É fácil perguntar, difícil é ouvir a resposta sem se mexer, até o final. É fácil atacar para aumentar a culpa, difícil é compreender sem defesas. Cobrar afeto é pior do que agredir fisicamente. Incha mais do que um tapa na cara. É cortar as palavras mais do que os lábios. Assume-se a condição de credor, como se o amor fosse uma dívida. Assume-se uma posição superior em relação ao cobrado. Uma posição hierárquica, de chefe reivindicando o cumprimento dos prazos. Não se cobra o que é espontâneo. Entra-se no solo movediço e insano do recalque. O recalque é uma carência que não conversa mais. É uma carência arrogante, cleptomaníaca, que furta do amor para gastar com a solidão.

Não estou me referindo ao ciúme. A cobrança por afeto não decorre do ciúme, da insegurança, mas se origina no excesso de segurança que beira o autoritarismo. Representa a posse, a mania totalitária de não permitir as imperfeições e desejos contrários. Ah, se a pessoa com quem amamos não está a fim de um beijo ela não me ama mais! Que exagero infantil. Toda hora se deseja ouvir 'eu te amo" como se o amor fosse chiclete para ocupar a boca. Talvez seja mais linguagem de sinais. Depende de reciprocidade, de atmosfera, do outro estar com a cabeça leve e descomplicada para fluir. Não depende só da gente. Nem sempre se está disposto a viver em voz alta. Há períodos destinados a sussurros e cochichos.

Não se pode amar por caridade ou por orgulho, senão cobraremos. Assim como é necessário diferenciar a expectativa do amor, a euforia da alegria, a depressão da dor, pois são sentimentos bem diferentes.

Deve-se tomar cuidado para que não seja criado dentro alguém que não existe fora. Ou criar fora alguém que não existe dentro. O amor não é versão de Windows que é atualizado a cada ano para girar mais rápido. O amor é lento mesmo.

10:21 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 17, 2005

Estado de São Paulo, Caderno Cultura, 17/07/05, página 06

Idéias

OS DESCAMINHOS DA MEMÓRIA
Morto em maio, Antônio Carlos Villaça combinava lucidez do ensaio com densidade da biografia

FABRÍCIO CARPINEJAR
Especial para o Estado



VILLAÇA - 'Ternura umedecida, olhar longo como seu rosto, à procura do absoluto, de Deus ou, ao menos, do vazio de Deus'

Nada é mais ingrato a um memorialista do que ser esquecido. Nada mais triste do que não receber em troca o que foi dado com suor e sangue. Logo ele que fez da memória dos outros a sua única ficção. Logo ele que retratou seu tempo com uma fome insaciável e se desperdiçou para economizar seus pares. Premiado com o Machado de Assis (2003), da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, autor de mais de vinte livros como O Nariz do Morto, O Anel, O Monsenhor e Degustação, o carioca Antonio Carlos Villaça faleceu sem alarde, no final de maio. Morreu em silêncio, anônimo como sua cama, anônimo como seu abajur, atendendo o dever da carne, depois de dedicar mais de meio século à literatura, desde sua estréia com a biografia do Barão de Rio Branco.

Villaça tinha uma ternura umedecida, olhar longo como seu rosto, à procura do absoluto, de Deus ou, ao menos, do vazio de Deus. Admirado pelos poetas Cassiano Ricardo e Carlos Drummond de Andrade, foi durante décadas uma referência obrigatória na literatura brasileira. Um místico que narrou suas perplexidades e inquietações sem o pudor de esgotá-las. Era de uma geração que lia francês como uma segunda língua, que aproximou a poesia da filosofia e da teologia, que viveu sob a influência da visão cristã de Teilhard de Chardin, Jacques Maritain, Charles Pegúy, Julien Green e Paul Claudel, que conversava como quem escrevia. Não temeu a vocação de arder as contradições do homem. Não sofreu as duas desgraças para um escritor: 'não saber a língua por dentro e não saber que não tem assunto' ( O Anel). Constituiu-se uma espécie de oráculo a revolver o fundo das coisas, acompanhado tão-somente da fidelidade de suas lembranças.

FOI DURANTE DÉCADAS REFERÊNCIA OBRIGATÓRIA PARA OS AUTORES BRASILEIROS

Em O Nariz do Morto (1970), sua obra mais conhecida, descreve sua tentativa de ser um monge beneditino e explica sua desistência em nome da solidão literária. 'Eu suponha que seria feliz no futuro. Não suponho, sei que supunha. Mas não era feliz. Sempre fui uma criança atormentada por não sei quê. Ernesto, esse dizia que eu era: desensofrido'.

Para usar seu pensamento, não fazia ordinariamente o extraordinário, mas extraordinariamente o ordinário. Tudo o que via, ouvia e sentia virava evocação imaginária, emanação elegante e imprescindível de um texto claro e ritmado, de frases curtas, simétricas, como pedras de um rosário. Suas vírgulas não sobravam, pontuais com a respiração. Sem o rigor da cronologia, preocupava-se com a duração espiritual do que estava sendo dito. Utilizava virtuosamente o fluxo de consciência, aberto a revelações e improvisos do inconsciente. Preservava o mistério de não compreender totalmente o que compunha. Como se fosse um mensageiro de seu talento, que escreve para se ler, que anota primeiro para se interpretar depois. 'Creio nas forças obscuras da irracionalidade. Creio na extrema lucidez do irracional. (...) Terei eu medo de alguma palavra? Terei eu medo de alguma realidade? Não serei capaz de exprimir todas as realidades? Ou serei capaz apenas de exprimir certas realidades no escuro? Que significam para mim ódio e amor? A grande arte não admite pressa. Mas a grande arte exige amor e ódio.' (O Nariz do Morto)

Recriava sua vida como forma de viver a disciplina. Em si, dialogavam a pobreza e a misericórdia, a compaixão e a sinceridade. Não produziu livros, produziu experiências. Bastava-se como testemunha, em reconhecer a grandeza de seus contemporâneos como Alceu Amoroso Lima, Gilberto Amado, Augusto Frederico Schmidt, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, que viraram personagens de seu inesgotável diário, de sua intermitente Comédia Humana. Nunca pediu grandeza emprestada. Representava genuinamente um memorialista atormentado em ampliar a noção da vivência. Misturava ensaio com biografia, seguindo o filão aberto por Joaquim Nabuco, em Minha Formação, encorpado por Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere e que encontrou seu intérprete perfeito em Pedro Nava. Mas a memória não foi vaidade. Não se elogiava em nenhum momento de seus livros, muito menos se arrogava o direito de ser mais história do que seus convidados. Era súdito ao texto, como um celibatário que não contraria sua fé. A literatura foi sua religião e o salvou da mortalidade.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Como no Céu/Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005)

8:44 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 16, 2005



CRÍTICA POSITIVA

Luís Augusto Fischer elogia "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil, 2005), ao lado de "Memorabilia", de Susana Vernieri, e "Bodas de Osso", de Paulo Bentancur, em texto publicado no sábado (16/7), no jornal Zero Hora, caderno Cultura. O crítico analisa três novos livros no gênero. Repasso o que fala de meu lançamento.

"A nova publicação de Fabrício Carpinejar não tem nada desse tormento que Susana Vernieri bela e tristemente expõe. Para ele, a poesia é um espaço para dizer, não para hesitar ou lastimar. Não há nele a angústia, nem a da forma, nem a da expressão. Fabrício parece funcionar, em poesia, como uma antena à procura da frase de efeito, da imagem impactante, sempre posicionando a voz que fala em uma ética de pureza, genuinidade e verdade, com o poema sendo o depoimento de uma alma que não se deixou contaminar pelo cinismo moderno, nem pela hipocrisia adulta.

No volume atual são dois livros em um, Como no céu e Livro de visitas (Bertrand Brasil). Mas os dois, ainda que reciprocamente isolados pelo tema geral, dão a sensação de um mesmo magma transbordante. Não há página sem uma associação semântica em busca da vertigem, da tirada epigramática notável, candidata a figurar em antologia, como "Abro bem os olhos de cada palavra, / como quem pisa em telhas". Isso, mais o ar de narração, sempre presente em sua poesia, me parece ser motivo suficiente para seus livros estarem ganhando leitura e evidência: Carpinejar é um sopro de vida, de vivacidade, de pulso latejando."

("Poesia nova por aqui", Luís Augusto Fischer")



CRÍTICA NEGATIVA

Rogério Eduardo Alves castiga "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil, 2005) no caderno Ilustrada, da Folha de SPaulo, no sábado (16/7). Simplesmente não gostou da obra e respeito sua opinião com todo o carinho. Em tempo: Rogério já exaltou minha poesia, como em matéria/entrevista sobre "Biografia de uma árvore": "as palavras do gaúcho Fabrício Carpinejar mergulham no estado vegetal estabelecendo um contraponto com a superficialidade e espetacularidade do agora."

Um dia para pedra, outro para o pássaro.

Carpinejar perde-se com "filosofia"
ROGÉRIO EDUARDO ALVES
ESPECIAL PARA A FOLHA

O que sempre chamou a atenção na poesia do gaúcho Fabrício Carpinejar foi sua inventividade narrativa. A maioria de seus livros conta com uma moldura ficcional como a de "Biografia de uma Árvore" (2002), no qual há personagens, como Ossian, e um tempo imaginário (a referência é ao ano de 2045). Quando o escritor enfraquece os elementos da fábula, entregando-se ao lirismo, seu texto desanda em uma desgastada "filosofia".

Se isso já era observado na antologia "Caixa de Sapatos" (2003), fica patente no novo volume, que traz dois títulos encadeados: "Como no Céu" e "Livro de Visitas". A combinação no avesso - os livros começam em faces opostas e se encontram no centro - traduz a atmosfera das duas partes.

Em resumo: os versos de "Como no Céu" registram as sensações de uma vida conjugal, suas delícias e agruras, enquanto o "eu lírico" do "Livro de Visitas" tem os olhos voltados para si mesmo tentando encontrar-se.

Assim como não há referências que justifiquem esses poemas como autobiográficos, não há elementos suficientes para delimitar um contexto fabular. As belas imagens deixam de fazer parte de um universo determinado para se constituírem como expressão da lírica amorosa.

Versos como "É necessário suportar a tristeza / para merecer a esperança", sem as balizas da narrativa, enfraquecem-se, lembrando mais os livros de auto-ajuda. Essa forma imperativa dos versos de Carpinejar, que se querem instrumentos de veiculação de sabedoria e reflexão, é apenas uma das características que podem ser identificadas na poesia contemporânea brasileira. No avesso, produzem-se poemas cujo objetivo está além das palavras escritas, como em "Visibilia", do paranaense Rodrigo Garcia Lopes, publicado agora em reedição ampliada (Travessa dos Editores, R$ 22; 94 págs.) do volume de 1997.

Enquanto conjunto de visualidades, os poemas adensam-se para registrar em imagens o impalpável. Entre o discurso que quer ensinar e aquele que age sobre a sensibilidade através da sugestão de imagens do irretratável, impossível estabelecer o mais poético, salvo pelo gosto do leitor. Nos vários caminhos da poesia de hoje, a única certeza é o medo. Medo de enfrentar com versos reflexivos o mercado e os paradoxos do país, variáveis que não cabem nas páginas que se desejam tecnicamente perfeitas, lacradas ao risco.
--------------------------------------------------------------------------------
Rogério Eduardo Alves é mestrando em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP


9:25 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 15, 2005

O MAIS CAFONA

Fabrício Carpinejar

Quem não sofreu acessos de riso diante dos álbuns de família? Os pais são as vítimas prediletas, já que os avós são perdoados pela idade. Em tardes de domingo, revisar as fotografias é mais instrutivo do que preencher palavras cruzadas, mais delicioso do que pipocas com mel. Grita-se a cada folheada expressões como "olha só!", "não acredito!", "que horror". A calça boca de sino, as camisas xadrez abertas, as correntes em peitos peludos, as cores extravagantes, a brilhantina, as franjas com jeito de rodo, as escovas com armação, os tubinhos de circo, o cinto combinando com os sapatos brancos, o tênis linguarudo. Na revisão do passado, não são a gordura, o acréscimo de peso, a celulite, a calvície ou a bunda caída que chamam atenção. É o figurino de terror. O pior é lembrar que no momento da foto havia a certeza de estar agradando, de ser o cume da montanha. Evidentemente, o cume da montanha um pouco antes da avalanche. É possível ler, com uma pontada de compaixão, os lábios do fotografado: estou lindo. A posteridade é implacável. Assim como a literatura. Muitos dizem que a literatura melhora as pessoas. Acho que a literatura não melhora o homem. Mas sei que pode torná-lo bem pior. Tomar cuidado com a linguagem é um avanço.

Um indício para detectar o inevitável amadurecimento é quando a gozação pende para o nosso lado e se passa da figura de algoz para a vítima da história. Dificilmente alguém sairá incólume dos anos 80. A época mais tenebrosa em termos de hábitos. Década que se assemelha a um imenso museu de cera, um macrobrechó de departamentos. Saía-se de casa pronto para uma festa à fantasia. Muito babado e babão. É impossível não escancarar a boca diante das ombreiras, das mangas morcegos e da saia balonê. Quero ver alguém colocar uma fotografia daquele período como identidade no orkut?.

Algumas fotos deveriam ser queimadas. Ou se fica com vontade de gargalhar da moda e do que se teve coragem de vestir ou se chora de vergonha. É brabo eleger o detalhe mais cafona da imagem abaixo. Peço auxílio em um pergunta de múltipla escolha. Vote nos comentários.



a) cabelos sertanejos, franjinha e rabo de cavalo;
b) cinto de boiadeiro, estilo América;
c) calça listrada, sanfonada. O pior: com bainha para fora, metros de manto dobrado. Percebe-se que foi herdada do irmão mais velho;
d) sapatos batidos, macerados, de quem só tem um par social;
e) broche de máscaras de teatro;
f) barba a fazer, tipo Rambo;
g) todas as alternativas estão corretas.

9:52 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 14, 2005

POR FAVOR
Pintura de Guayasamin

Fabrício Carpinejar




Quero te conhecer menos, mexer menos em teus objetos, em tuas gavetas, em tuas roupas.
Que seja dispensado das cartas, do que levas na bolsa, de teus filmes prediletos, de teus diários, de teus pentes, de tuas jóias em estojo de diploma, de teu escapulário da primeira comunhão, de teus blusões em fila dupla, de teus varais com as roupas ao avesso, de tuas superstições de consultar as portas de noite, de tua fobia em atender telefone, de tua ânsia em me contar as novidades, de tua loucura em me agüentar, de tua sabedoria em me acalmar, de tua facilidade em se dividir com as amigas, de tua coleção de brincos quebrados, dos álbuns de fotografias em ordem cronológica, dos clipes emendados uns nos outros no computador, dos bilhetes amarelos na geladeira, de tua compulsão em comprar presentes, de tua mania de consultar o horóscopo, dos teus quindins, de tua mania em dormir enroscada, de salgar a comida um pouco mais do que se deveria.
Não me mande mais nada. Não me dê lembranças, músicas, poemas, sapatos, isqueiros, não quero juntar esmolas de tuas coisas, não quero fazer um santuário de tuas coisas, não quero encaixotar tuas coisas, não quero peregrinar as mãos em tuas coisas como se fosse tua mão esperando na mesa.
Minha mão ossuda depende de tua pele para respirar folgas.
Tiras proveito da consciência que vou formando de ti enquanto me desinformo do mundo.
Não desejo descobrir o que tocaste senão amarei muito mais do que se tivesse tocado.
Não me fales "gosto daquilo" que já estarei gostando junto. Evite comentários.
Não me digas "vamos naquele restaurante" que será mais um lugar para te esperar.
Não inventes deitar na grama no domingo que o sol grudará nos dentes.
Não narres aos ouvidos da cama o que podemos sentir.
Não ponhas trilha no celular, não troques as almofadas, não escolhas as toalhas e os lençóis, controla essa mania de se espalhar por tudo, de botar teu cheiro por dentro de minha boca.
Não abras mais o leite sem romper o lacre, não deixes a gaveta entreaberta, a torneira entreaberta, meu corpo entreaberto. Não reclames do que não fiz, que farei de novo para chamar tua atenção.
Não arrumes minha gravata, que me acostumarei a pedir conselhos. Não arrumes minha gola que o vento é mesmo enviesado.
Quero te conhecer menos para não sofrer depois tanto tua perda. Mas deveria ter dito isso antes.

9:47 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 12, 2005

UM DIA A MENOS
Pintura de Guayasamin
Para Miriam

Fabrício Carpinejar



Nem todas as pessoas têm 365 dias ao ano. Algumas têm 364. Quem perdeu alguém ao longo do caminho em uma morte prematura sacrifica uma data para sempre. O filho de uma amiga morreu em 13 de julho. Faz cinco anos e é como se fosse ontem. É um antianiversário. A ferida não consulta o calendário, a ferida é o calendário. O 13/7 não existe mais para ela. Ou existe em demasia. E não consegue, por mais que tente, esconder o luto, fingir compromissos, abafar a tristeza. Entre a manhã e a noite, o pavor de receber a notícia se repete. A impotência. A injustiça. Qualquer passante se parecerá com o médico que baixou definitivamente a cabeça. O azul do céu se revelará o avental do pronto-socorro. Morde-se os dentes para não morder a língua. Uma mãe grava o dia da morte do filho com a nitidez de uma unha encravada. Um filho encravado não se cura. Nem botando o próprio corpo fora.

Filho falecido é uma dor de inverno. Mexer nos casacos do armário e encontrar bilhetes e papéis no forro. As golas com o cheiro do pescoço. As golas como os pêlos loiros do pescoço, somente reconhecíveis pela respiração. As roupas não deixam nunca ninguém morrer integralmente. Um rastro, uma mecha de vento, uma loção permanecem. Cheira-se a lã e reinventa-se a memória.

Depois de cuidar de toda a vida do filho, uma mãe não se contenta: cuida toda sua vida da morte do filho. Adota a morte como uma criança no orfanato. Não que a morte seja seu filho, é o que mais se assemelha ao seu filho naquela hora. Depois de ver a vida do filho se ir, não pode deixar a morte do filho morrer.

Mesmo ele não estando ali, uma vez ao ano, ela dá de comer a sua ausência, conversa baixinho, na cartilagem da ausência, com os garfos dos cílios. Um filho não é assunto de Deus, é assunto privado da carne. A chaleira dos ouvidos passa da hora e não se encontra forma de findar o zumbido. Não ter contado com a chance de acenar e abençoar, de dizer boa sorte, volte logo, tchau e até breve consomem a boca.

A morte deveria ser educada e permitir despedidas. Entretanto, é grosseira, não admite ser menos importante do que o amor. Se o sofrimento traz pontadas no resto dos dias, neste dia é avassalador. Perder um filho é não perder ainda a esperança do filho. O gosto do filho. A alegria do filho. O suspiro do filho. Tudo é observado com zelo de uma reza. Reconhece-se na sola o quanto se caminhou. Os ouvidos são círios boiando na água. Flutuam em vozes conhecidas para manter a calma.

Minha amiga diz que não pode me abraçar nesse dia com sua fisionomia triste. Diante da perda, há o costume de se isolar, de não querer incomodar os outros com sua dor. A dor não incomoda. O que incomoda é quem não sente a dor. Peço a ela a chance de abraçá-la. Não para abafar o fogo, mas deixar que se alastre. Não para confortar, mas para não apagar essa dependência, essa fidelidade ao nascimento.


10:50 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 10, 2005

INCORRIGÍVEL
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Toda semente que jogava na terra, direto da boca, acreditava que germinaria. Não botava os grãos no lixo. Cuspia os caroços ao longe da grama e da terra, jurando que cresceriam naturalmente. Tangerinas, maçãs, pêras, laranjas. Arremessava com vigor e acompanha com simpatia os movimentos da desova nos dias seguintes. Se fosse assim, a casa de minha infância teria se transformado em bosque espesso e intransitável. Criança confia nas esperanças minúsculas mais do que nas esperanças maiúsculas. Ainda sou assim, afeiçoado ao engano como uma verdade. Sou fácil de ser passado para trás. E não sinto pena dessa minha crença absurda, dessa fé infantil, dessa ingenuidade inata. Melhor do que ser um pessimista que dedica sua vida a duvidar da vida. Melhor do que ser um cético que não muda de dor e não sente a súbita vontade de cantar no banho. Não sou daqueles que crê até que se prove o contrário. Creio em tudo mesmo quando já se provou o contrário. Surge uma esperança vã e ela toma conta de meus papéis e dos clipes. Uma palavra alegre que complementa o aceno e já penso que posso fazer amizade. Um assobio e me denuncio virando o pescoço. Na escola, se uma menina demonstrava atenção, eu começava a imaginar que poderíamos namorar. Ficava anos a fio deduzindo e sonhando aproximações que nunca aconteceram. Ou por timidez ou porque ela tinha sido apenas cordial comigo, assim como era com qualquer um, e exagerei nas conseqüências. Devo ser um especialista em relações platônicas ainda que não seja muito leitor de Platão. Continuo com esse dom infalível de completar os inícios das histórias. O pai de um amigo, advogado, uma vez por semana, abria e folheava os livros de sua biblioteca, para ventilar. Ele me dizia: "os livros pensam que estão sendo lidos e duram mais". Identifico-me com esses livros folheados. Sem uma esperança, o livro e homem se acabam e cortam a costura da lombada por dentro. Facilitam o ingresso aos cupins e traças. Podes me subtrair o amor, a paixão, o emprego, mas a esperança não. Minha esperança é intocável. Talvez tenha se fortalecido pela memória falha. Não sou rancoroso a ponto de planejar vinganças com esmero. Esqueço o que fiz de ruim comigo rapidamente. Tinha motivos de sobra para ser meu pior inimigo, porém me perdôo ao dormir. Nenhum trauma é maior do que o cansaço. Acordo serelepe e pronto para me conciliar com outras expectativas. Afinal, nunca é tarde para o bosque nascer de meus dentes.

11:10 AM :: Comentários:

SÃO LEOPOLDO

Realizo sessão de autógrafos da obra Como no céu/Livro de Visitas (Bertrand Brasil) em São Leopoldo. O lançamento na cidade acontece na quarta (13/7), às 19h, no café Hollywood, do Bourbon Shopping, com apoio da livraria Esquina das Letras e da Secretaria Municipal de Cultura. Farei leitura de poemas ao lado de Maria Carpi, Frank Jorge e Jarí Maurício da Rocha.


11:09 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 07, 2005

AMOR VIRTUAL
Pintura de Miró

Fabrício Carpinejar




Acredito em amor virtual. Não adianta se valer do ceticismo da carne e dizer que a distância engana, que as pessoas não se conhecem, que pode haver desfeita e desilusão. Acredito em amor virtual. Pois nada é mais expansivo e verdadeiro do que se conhecer pela linguagem. Nada é mais íntimo e pessoal do que se doar pela linguagem.

Não serei convencido da frieza do relacionamento na web, da articulação de fachadas e pseudônimos, da ironia e dos subterfúgios denunciados nos chats. O que acontece na internet reproduz a vida com seus defeitos e virtudes, não se pode exagerar na desconfiança. O amor virtual é tão real quanto o sangue. Não preciso enxergar o sangue para verificar se ele corre. O amor virtual trabalha com a expectativa e a ansiedade. Como um teatro que se faz de improviso, com a ardência de ser aceito aos poucos, sem o temor e os avisos em falso do rosto.

Na correspondência, há a esperança de ser amado e de entreter as dores. A esperança aceita tudo, transforma todo troco em investimento. Um gesto de redobrada atenção, uma resposta alentada, uma frase diferente, um cuidado excessivo, a cordialidade do eco e o amor se instala.

Não há o julgamento pelas aparências (que se assemelha a uma execução sumária), mas o julgamento em função do que se imagina ser, do que se deseja, do que se acredita. São raros os momentos em que se pode fechar os olhos para adivinhar. Adivinhar é delicioso - é se dedicar com intensidade às impressões mais do que aos fatos. Alguns dirão que é alienação permanecer horas e horas teclando ou diante de uma câmera e do computador. Mas é envolvimento, amizade, compromisso. É pressentir o cheiro, formigar os ouvidos, seduzir devagar. Não conheço paixão que não ofereça mais do que foi pedido.

Quem reclamava da ausência de preliminares deve comemorar o amor virtual? Nunca se teve tanta preliminar nas relações, rodeios, educação. Fica-se excitado por falar. Devolve-se à fala seu poder encantatório de persuadir. Afora o espaço democrático: um conversa e o outro responde. Findou o temporal de um perguntar para outro fingir que está ouvindo. No amor virtual, a linguagem é o corpo. Dar a linguagem é entregar o que se tem de mais valioso. É esquecer as roupas na corda para escutar a chuva. É recordar de memórias imprevistas como do tempo em que se ajudava à mãe a contornar com o garfo a massa do capeletti. Conversa-se da infância, dos fundos do pátio, do que ainda não se tinha noção, sem ficar ridículo ou catártico. Abre-se a guarda para olhares demorados nos próprios hábitos. A autocrítica se converte em humor; a compreensão, em cumplicidade. É uma distração para concentrar. Uma distração para dentro. Vive-se com mais clareza para contar e se narrar.

Amor virtual é conhecer primeiro a letra, para depois conhecer a voz. A letra é o quarto da voz.

12:59 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 06, 2005

MIRANTE

O poeta Nei Duclós e o crítico Adelto Gonçalves escrevem sobre minha nova obra Como no Céu/Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005).

Máquina do Mundo, revista digital de poesia que edito com Roberto Schmitt-Prym, entra em seu terceiro número com inéditos de 21 poetas. Imperdível.

Cronópios publicará textos selecionados do blog. Há uma entrevista comigo feita por Edson Cruz.

Nesta quarta (6/7), estarei fazendo sarau em Santa Cruz do Sul, a partir das 20h, na Feira do Livro, patrocinada pelo Sesc.

9:21 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 04, 2005

VISTA GROSSA, MALHA FINA
Pintura de Toulouse-Lautrec

Fabrício Carpinejar



Quem não alugou um apartamento e sofreu com a mudança? E quando se pensava conhecer a história do imóvel que está se deixando, cada centelha do lugar, cada porção de seu mistério, vem a vistoria com uma lista de defeitos que não se previa. A imobiliária trata de encontrar motivos para aumentar o custo da reforma antes de aceitar a chave de volta. O tapete apresenta manchas. Que manchas? Preparo-me para a briga, mas daí me lembro de uma garrafa de vinho que derrubei ao dançar com Ana (para atestar como danço bem!). O vidro está trincado. Confesso que nunca vi esse detalhe devido à proteção das cortinas e desconfio que é anterior ao ingresso no apartamento. Como saber? Na hora em que se entra na casa, não se dá bola para o relatório. Como fazer a exumação em pleno nascimento? Impossível pedir que se liste os danos no ingresso quando o que mais se quer é curtir a rede na varanda.

A imobiliária não esquece uma vírgula. A perfuração dos quadros lembra uma colmeia. Massa corrida em minha boca. A porta de correr ficou danificada. Negocio a troca. Havia um aspirador de pó no armário que faliu de asma. Sou obrigado a pagar o conserto de um dinossauro. Por que fui mexer no bicho? É tarde para remorso. Conta-se cinzeiros, ganchos, trincos, estantes, coisinhas mínimas e ordinárias, como riscos nos azulejos da cozinha, rachaduras de passarinhos, cabelos de lagartixas, problemas microscópicos incorporados como ofensas de uso. Em minutos, passo do viveiro ao antiquário. É como se fosse um desmemoriado recebendo de novo sua memória. Será que terei que repor o jacarandá que cortaram do outro lado da rua? Será que terei que restituir o sol que sumiu devagarinho pela construção ao lado de meu prédio? Será que terei que ressuscitar o gato do vizinho que deixou de miar de noite? Ou raspar o musgo, excitado com as chuvas, que surgiu nas paredes de fora? Não duvido.

Algo semelhante e destruidor é reprisado nas relações afetivas no momento de se mudar de uma vida para outra. No começo, a euforia não deixa ninguém reparar nas falhas. Pretende-se enxergar unicamente as virtudes. De modo nenhum os pequenos acidentes ou promessas de engano. É uma cegueira otimista. Assume-se a biografia do par com a calmaria entusiasmada. Há uma generosidade no contrato, tudo pode ser resolvido, consertado, arrumado.

No final, no instante de deixar o casamento, as pessoas ficam avarentas como a vistoria imobiliária. Nada pode ser deixado para amanhã. A ofensa é para agora. Ambos só identificam os defeitos. Só apontam os lapsos. Só reclamam da usura. Fecham-se para o que se aprendeu, o que se dedilhou, o que se amou. Apontam as infiltrações, os rumores das paredes, as torneiras indigentes. O longo cotidiano amoroso é esvaziado em itens, rasuras e grosserias. Culpam-se pela ausência do desejo, pela união arruinada. É uma cegueira pessimista. Agem como vândalos, saqueando a própria residência e transformando a partilha em roubo. Não são educados ao sair como foram ao entrar. Ela diz que ele ronca, come rápido, não transava bem, usava sua escova de dentes. Ele diz que ela é frígida, vive gastando, cozinha mal, está gorda. Não há como discernir as mentiras das verdades, já que a raiva mistura as duas para ser mais contundente. Os defeitos existiam desde o princípio, não se melhora ou piora com o relacionamento, se amadurece. Conciliar a entrada da casa com sua saída é aceitar o que as pessoas são, não o que deveriam ou poderiam ser. Faltou perceber que não se destrói a memória com as palavras. Muito menos a imaginação. Uma casa somente é preservada quando povoada.

10:42 AM :: Comentários:

DICAS

Marcelino Freire faz o pré-lançamento do seu "Contos Negreiros", seu primeiro livro pela Record, na Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim), em Porto Alegre (RS), na terça (5/7), a partir das 19h. Xico Sá solta o gogó na apresentação da obra: "Marcelino Freire escreve como quem pisa no massapê, chão de barro negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos diminutivos dobrados nas voltas da língua. É doce, mas num é mole não."

Na quarta (6/7), será a vez de Rodrigo Schwarz com "A ilha dos cães" (Bertrand Brasil), história de Richard Francis Burton, que se torna um náufrago depois de um acidente de barco entre a América e o Oriente. A sessão de autógrafos ocorre na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), às 19h30.

10:41 AM :: Comentários:

SARAU

Nesta terça (5/7), participo do SARAU ELÉTRICO para falar de ESPERANÇA, ao lado do professor Cláudio Moreno e de Kátia Suman. A canja musical é de ILDO CARBONERA, tocando só Raul Seixas. No Ocidente, em Porto Alegre, às 21h. Entrada: 5 pilas.

8:24 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 02, 2005

NÃO SER AMADO
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Passa-se da idade de casar, como se houvesse idade para isso. Passa-se da idade de ter filhos. Suporta-se o desespero de guardar um cheque em branco assinado, com o temor de nunca descontá-lo. Quem colocou limite em nosso tempo? Regulamos nossa vida em comparação com as outras, desde a infância até a maturidade, desde o jardim até o asilo. Semelhante a dirigir com o velocímetro quebrado e comparar o que se anda pelos demais carros. O ritmo não pode ser imposto por fora. Convence-se de que se não é amado.

Não ser amado é pior do que ser invisível. É narrar o que faltou acontecer. Fica-se grávida da vida que não se teve. O peso de um corpo que sequer existiu para continuá-lo em pensamento.

Não ser amado é pior do que ser invisível. Pois nascer não é o bastante para ninguém. Não ser amado é o mesmo que carecer de pálpebras. É o mesmo que sofrer uma insônia parcial, somente nos ouvidos. É chamar atenção para as virtudes quando os defeitos não param de falar.

Não ser amado é pior do que ser invisível. As portas do guarda-roupa são as venezianas que espreguiçam a casa e nada é suficientemente justo para dar folga à alegria.

Não se amado é não encontrar cintura para as palavras. É um castigo mais severo do que o ódio. É mais grave do que esquecer.

Não ser amado é perder a possibilidade de contestar o próprio destino. É morrer de uma saúde incurável. É participar do mundo como se ele estivesse sempre por ser criado. É colar o fogo porque não há carta para ser queimada.

Não ser amado é se diminuir para dormir, se aquietar no almoço familiar, não mudar a assinatura de adolescente. É apressar os fatos por não fazer parte deles. É sentar em uma escada para não cair em falso. É não levar uma foto 3x4 na carteira. É correr o domingo para chegar na segunda. Não ser amado é um crime que não se teve culpa, um castigo que errou de irmão. É voltar onde não se esteve.

Não ser amado é concluir que o final poderia ser diferente se houvesse um começo. É escolher tudo da vida para contar com receio de faltar história. É a velhice avançar sem trazer vergonha, é a velhice avançar com a indiferença ao colo. É voar como um pássaro e ser chamado de morcego. É gastar o parapeito da janela mais do que a porta.

Não ser amado é acreditar que o amor significa apenas receber.

1:12 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 01, 2005

AMOR E DOR
Revista CLÁUDIA, edição de julho 2005
Seção "Os livros que a gente ama"
Julho/2005, página 82

São dois livros em um, com capas opostas, cada um abordando uma face da relação amorosa. Os poemas de COMO NO CÉU falam da delicadeza do amor que encontra seu caminho (com versos como "Não te compreender não me fez te amar menos"), enquanto os de LIVRO DE VISITAS expõem o desgaste do cotidiano ("Toco o sexo, toco, movido pelo tédio"). O novo trabalho de CARPINEJAR (BERTRAND BRASIL, 29 REAIS) enche o coração de luzes e de dor, prova maior do talento do jovem poeta gaúcho.

Como no céu/Livro de Visitas, de Carpinejar


6:08 PM :: Comentários: