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Fabrício Carpinejar


 

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Quarta-feira, Agosto 31, 2005

FABRÍCIO
Pintura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Não tive medo de fracassar na vida. Isso não! Eu sempre me senti o próprio fracasso. Seria desnecessário me assombrar. Restava-me não ser descoberto com facilidade. Fingi que escutava, que estava presente, que me interessava pela minha história.

No fundo, não contei com outra alternativa. Acreditei em mim porque ninguém iria acreditar em meu lugar. Como desejava que algum colega tivesse feito o difícil trabalho de confiar em mim e me dado um pouco de folga. Queria dizer "cuide de minha vida, que já volto", assim como quem deixa um par de chinelos na areia para mergulhar.

Apartar-me um pouco da briga louca que é provar a todo momento que tenho sentido. Desde que nasci, não encontrei descanso, sujeito a perder a qualquer instante o respeito. Receio de perder os irmãos, os pais, a mulher, os filhos, os amigos. Perder a chance de ser lembrado. Perder a si por incompetência, já que não me ensinaram a ser o Fabrício. Deram-me um nome e me acostumei a atender os chamados para aplacar a fome e a sede. Não tive mérito, um cão faria o mesmo por necessidade.

A solidão foi o meu caráter. Descobri que não é se matando que me tornarei importante em minha vida. Não é me abandonando que me tornarei importante em minha vida. Não é fugindo que me tornarei importante em minha vida. É amando o que me faltava amar: eu. Ali, escondido, mirrado, o menino que gostaria de ter sardas e ser ruivo, que passava horas sozinho para não ser obrigado a interromper o assobio. Não sou de chorar. Quando estremeço, sou de abraçar, de costas para as lágrimas.

Nasci sem expectativas. Não diria que conformado, que nunca fui. Mas é como se estivesse em desvantagem. Demoro para aprender. Eu tentava, mas um pensamento ficava atrás, saía do ritmo e não havia como buscar a turma depois. Consentia com a cabeça para não atrapalhar a lição. Não aceitava abandonar pensamentos de repente enquanto todos se apressavam em anunciar resultados. Não sobrei em casa, careci. Durmo até hoje encolhido. Achava a cama de solteiro espaçosa. Batia-me a culpa por desperdiçá-la. Um degrau me contentaria.

Raramente consigo me recordar da infância. Meus três anos? Meus quatro anos? Meus cinco anos? Só com hipnose e ainda duvido. Escrevo não por excesso de memória, pela fartura de vivência e aventura, e sim pela precariedade dela. Anoto compromissos em agendas antigas, atrasado em preencher os dias em que não vivi. Invento lembranças para não parecer tão à toa e de passagem por aqui. Tão a esmo. Tão vadio. Ser processado por desviver e povoar um nome sem propósito e ambição. Faço um esforço para me mostrar ocupado, que nenhum emprego me faria suar dessa forma. Nas redações escolares, odiava temas como "conte-me suas férias". Era capaz de plagiar os alegres veraneios da menina ao lado. Minhas mentiras são necessárias pelo simples fato de que não existem recordações para substitui-las. Em apuros, tomo a memória de meus irmãos como se fosse minha.

Amadurecer é não estar preparado. Quem afirma o contrário envelheceu antes de amadurecer.

9:09 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 30, 2005

FIXAÇÃO
Pintura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Tenho recebido dezenas de cartas, é difícil escolher. Eu me imagino em cada uma delas. Prossigo com meus palpites poéticos, que podem não resolver, mas confortam. Luanda viveu um relacionamento em quatro atos com James. Conheceram-se aos quinze anos dela, ele sempre um ano mais velho. O primeiro capítulo foi áspero e confuso, na negociação entre amizade e algo mais. Ele queria namorar, ela não, influenciada pela opinião das amigas e dos ditames da aparência. Por aquilo que entendi, Luanda é bonita e sociável. James compensa a falta de beleza física com uma introversão afetiva. Atravessaram a adolescência com essa indefinição de porta, entra-e-sai. Aproximaram-se pelas conversas na internet, conviveram, ela na defensiva e ele no ataque, encontraram pontos em comum, prolongaram a sintonia. Quando Luanda percebeu que poderia o perder, decidiu se declarar. Ficaram realmente juntos em abril, durante dois dias. Luanda caracteriza como dias "mágicos, encantados e sublimes". O que poderia correr para o final feliz, de repente amornou. Apostaram em uma relação aberta, garantindo que nada alteraria a atração. Em seguida, James se fechou e hoje mal se falam e trocam apenas cumprimentos genéricos por e-mails.

Luanda me questiona: o que ocorreu? Antecipa uma possível represália de James com sua resistência do início ou indica um pendor depressivo do rapaz, temeroso de uma futura rejeição.

Eu percebo que ele pode ter desconfiado da relação aberta. Foi uma jogada alta no pôquer, uma demonstração precoce de desprendimento quando estavam se firmando. Não recomendo blefar quando não sabemos o valor do que está em jogo, inclusive quando a liberdade é o preço a pagar.

Já os erros que você cometeu no passado não significam nada, não contribuíram para o impasse, porque mostrou o que desejava e é natural mudar de opinião. Se ficou moldada na época pelo parecer das amigas que não o achavam a criatura mais formosa e atraente, tudo bem. Logo depois correu atrás dele. Saldou o prejuízo com delicadeza e atenção.

Vejo que a história apresenta o narcisismo do primeiro amor, na fronteira indecisa entre paixão e teimosia. É como se não quisesse crescer. Busca a lembrança arrumada quando a vida desorganiza com facilidade as crenças. Mas será que ambos não viveram o máximo que poderiam. Nem mais. Nem menos. Pensou nesta perspectiva?

Empreende um recuo proposital à inocência. Com a intenção de preservar o passado, esquece a realidade imediata. Percebo um medo gravíssimo de errar, o que facilita o seu julgamento rápido. Sem o medo de errar, não existe coragem. Eu deixaria páginas em branco e a relação suspensa.

O que mais a irrita é que ele mudou: está hoje alegre, despreocupado, aprendeu a gostar de outras coisas que não fechavam com o perfil intimista. Outro indício de que procura fixar um momento idealizado e não evolui com as circunstâncias. Ao demonstrar que ele não precisa de você, não adianta espernear. Não vai salvá-lo. Ele não se torna certo do seu jeito. Até porque é egoísmo salvar alguém para se salvar. Ele não é e nunca será o que espera dele. Talvez seja um outro esperando uma chance para se mostrar. A projeção é evidente, identifica suas próprias virtudes como as melhores qualidades dele.

Como a história apresenta altos e baixos, uma constante instabilidade, não notei uma seqüência que garanta a longevidade dos laços. A relação parou no patamar de provocação, de disputa, da cisma e briga intelectual. Não esclareceram as preocupações. Confiaram nas meias palavras, que não são palavras inteiras. O vento distorce o que ficou a dizer.

Amor não aceita adiamentos ou concessões. Pede sempre o mais difícil e para agora.

Há de se cultivar as diferenças e o imprevisto. Já leu o jornal de manhã cedo com o namorado na cama? O primeiro passo é dividir os cadernos, depois encostar os pés. Não haverá silêncio por mais que atmosfera suscite o recolhimento. Um dos dois quebrará a quietude e fará a leitura de sua página em voz alta. Com a companhia e a interferência, dessa única forma, os dois conseguem ler o jornal inteiro. Sozinhos, permaneceriam lendo somente seus interesses.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

9:54 AM :: Comentários:

SARAU POÉTICO

Ao lado do músico e poeta Frank Jorge, participo do quinto sarau poético promovido pela vereadora Sofia Cavedon este ano. O encontro acontece na quarta (31/8), a partir das 19h, no Entreato Pub Café (Rua da República, 163 - Cidade Baixa).

9:13 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 28, 2005

DESCONFIAR É TRAIR A SI MESMO
Da série "Consultório Poético"

Fabrício Carpinejar



Recebo uma carta em que Andréia se vê desesperada com seu ciúme. Tem medo de ser traída, de ser passada para trás. Confessa que ativa o sistema de desconfiança diante de simples dez minutos de atraso do marido Paulo. Assegura que não há como confirmar traições dele até o momento, porém enlouquece com a hipótese. Como ele se relaciona bem com as colegas, apresenta uma vida de negócios atribulada, é bonito e inteligente, ela cria o inferno das especulações. Não bastando, invade a privacidade dele, mexe em seus e-mails quando pode, na caixa de mensagens de seu celular, nos bolsos do casaco, nas gavetas, à procura de alguma prova. Fica braba sem que ele entenda.

Andréia, o que posso dizer é que ainda não está convencida de que conquistou Paulo. Pensa que ele fez um favor casando contigo. E não é verdade, ele não estaria contigo há cinco anos por compaixão. É natural ter ciúme sem sentido, desde que não seja costume. Todo contato exterior é, para você, um indício do fim. Transformou o casamento em um inquérito. Procura o crime, não o amor. Procura um motivo para se separar, não para permanecer junto. Procura a suspeita, não a lembrança. Procura o fim do amor e esquece de viver o que gerou seu início. Deve amá-lo tanto que não quer sofrer com a chance remota de um divórcio. Então, antecipa o divórcio para sofrer tudo de uma vez. Mas não há o que sofrer, não há o que falar, esse é o problema. Desperdiça sua vida em um estado permanente de desconfiança. O que é pior: conviver com a amargura de traições sucessivas infladas pela sua imaginação ou ser traída? Ainda acho que correr o risco da traição é mais confortável e justo do que pressenti-la a cada momento. Qualquer um pode ser traído, mas não é possível tomar a infidelidade como regra ou conseqüência da rotina.

Desconfiar é quebrar o pacto de partilha. Se Paulo foi mulherengo no passado, como conta, não significa que ele continua sendo. Nenhum homem segue o raciocínio em linha reta. O ciúme excessivo indica curiosamente sua falta de liberdade, não a dele. Vive somente para Paulo, não para si. Busque sair com as amigas, esfriar a idéia fixa, fazer o que mais gosta. Está presa na prisão que criou para ele. Não notou, mas você engoliu a chave do cárcere. Deve cuspi-la enquanto é tempo. Ele demora porque sempre o está esperando com tremenda antecedência. A necessidade de posse do amado é o pretexto para que deixe de viver e não assuma a responsabilidade pelos seus atos.

Seu receio é que ele a envergonhe publicamente com a traição, que seja ofendida perante a família. Eu me preocuparia com a verdade pessoal, não com a vaidade social. O amor carrega no colo o fiasco. Não há como dissociá-los. Sem o fiasco não encontrará a autenticidade.

A paranóia despropositada somente acentua o clima de desgaste e de esgotamento, de confronto e de expiação, que levará ao término da lealdade e, agora sim, às autênticas traições. Quem antecipa deseja que aconteça, não concorda?

Aconselho a amar o percurso acima do resultado final. Vem apagando o trajeto para apressar sua chegada ao endereço e ao nome dele. Que Paulo não seja o destino, mas um caminho. Que a pedra, a árvore, a praça, a padaria, as casas em fila indiana, as crianças brincando na calçada sejam amadas antes de entrar em casa. E assim o musgo das escadas, a formiga carregando a balsa da folha, um pássaro costurando o casaco do ninho poderá ensinar algo novo sobre os dois.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

2:11 PM :: Comentários:

MISS CULTURA ABORDA DOR DE COTOVELO

Chorar por amor, desesperar-se por uma paixão não correspondida, desabafar as mágoas com sede de vingança. A quarta edição do Miss Cultura retrata os melhores textos sobre a a indesejada dor de cotovelo. Os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha tentam combinar beleza com dor, buscando na literatura exemplos memoráveis de quem não derramou lágrimas em vão. Com entrada franca, o evento acontece na segunda (29/8), às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80 Tel.: 30284033), em Porto Alegre. O convidado especial é um segredo até a hora do encontro.

COMO FUNCIONA

Trata-se de um "karaokê recital", com desfile de fragmentos de contos, romances e poesias. A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos de Fabrício e Marcelo sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a gôndola e exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente ao assunto.

EFEITOS ESPECIAIS

A competição não esquece dos detalhes. Tanto que o artista gaúcho Leopoldo Ernesto Schneider, figurinista de espetáculos teatrais e de dança, confeccionou as faixas para os livros premiados. É o mesmo estilista que já fez as faixas de Miss Rio Grande do Sul e desenhou as coroas de Miss Santa Catarina e Miss Rio Grande do Sul.

EDIÇÃO ANTERIOR

No último certame, que tinha como mote a "Arte de viver', só deu poesia. Em primeiro lugar, João Cabral de Melo Neto recebeu a consagração estética com o poema final de "Morte e Vida Severina". Em segundo, no posto de Primeira Princesa, ficou o português Fernando Pessoa com versos do livro "Poesia de Alberto Caeiro". Mário de Sá-Carneiro foi eleito Miss Simpatia, com "Feminina", de "Poemas Dispersos".

2:09 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 26, 2005

INDECISÃO
Da série "Consultório Poético"
Pintura de Klimt

Fabrício Carpinejar




Ele reza toda noite para encontrar outra mulher. Não é força de expressão. Tudo para esquecer alguém que sequer diz sim ou não, que não descarta a possibilidade, muito menos assegura certezas. Ele tem namorada. Ela tem namorado. Há três anos se amam em segredo e explodem quando juntos e se esfriam quando separados. Não mudam de vida. Ele já arriscou completamente: ficou solteiro, se distanciou dela, avisou que não mais se encontraria e não houve jeito de convencê-la. Mas ao receber uma mensagem dela no celular, ele corre para tentar de novo. E tenta como se fosse a primeira vez. E tenta como se fosse a última vez. Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar. Ele não se sente vivo para fazer mais do que isso. Ele não se sente morto para desistir. Perdeu a confiança ao longo do período. Não entende o que o impede de ser feliz com ela.

Em si, não estão as respostas. Em si, está a falta de respostas. "O que fazer?", ele me pergunta. A vida costuma troçar dos indefinidos. O natural é que nem ela nem ele fiquem um com outro e com seus respectivos pares. Cada um partirá para uma terceira opção. Porém, não posso recorrer a cálculos genéricos quando se trata de amor. Amor é trabalho. Pode-se conquistar por simpatia e carisma em fração de segundos, mas para viver junto é necessário longa persistência e vontade. Amar não é um dever, e sim um direito. Quando se torna dever nasce a cobrança, a rotina e a dependência. Ela tem o direito de escolher - o que não está fazendo -, ainda que seja errado.

Ele me questiona: "Pode ser afirmação pessoal?" Respondo que sim, não há paixão que não seja também amor próprio. Elegemos para amar quem precisamos ser. Ao mesmo tempo, deve-se tomar cuidado para não confundir amor com obsessão. A obsessão não inclui a generosidade. É egoísta, quer apenas o par para servir seus propósitos e envaidecer suas opiniões.

A situação dele está no limite entre a repulsa e a atração. Hoje, mesmo sendo o amante, é ele que se vê traído e não suporta imaginar o que ela faz sem ele. Não percebe uma recompensa pela sua dedicação, ainda que tenha a consciência de que o amor não traz recompensa, não é seguro de vida.

O impasse dos dois é que nunca se doaram por inteiro, para ver se realmente são complementares. São metades cômodas se desperdiçando e se consolando. Da minha parte, não conviveria com essa dúvida de que poderia dar certo e não deu. Viver durante décadas com a sensação de que não se foi até o fundo. É preferível conviver com a frustração do que com o medo.

Ele reza toda noite para encontrar outra mulher. Constatou que não adianta rezar contra ela. Ela é a sua fé.


A partir de agora, abro o "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado". Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento e tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

11:48 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 23, 2005

FULMINANTE
Pintura de Klimt

Fabrício Carpinejar



Eu me planejei não me planejar. Amor para mim é doideira, descontrole, soluço de árvore na estrada. Andar de cadarços desamarrados, levar os ciscos e as ervas para a casa. Arrastar as folhas e o solo. Varrer a rua em direção à casa, em movimento inverso. Sujar a casa de mundo, de premência. Invejo quem programa seu casamento com antecedência, com dois ou três anos de noivado. Nunca fui assim, de fazer maquete, de brincar de casa de boneca, de planejar cada passo. Família não é uma empresa. Fali na família antes de ganhar alguma coisa. Invejo quem só casa após segurança financeira. Amor nunca me concedeu segurança. Invejo quem condiciona o enlace a uma lua-de-mel no exterior. Que seja na saúde e na doença de cara, na alegria e na tristeza de cara. Relâmpago não é tão bonito sem chuva. Relâmpago sem chuva pede esmola. Quero a chuva junto do clarão, o marulhar das calhas, a água nas escadas das telhas. Sou do amor fulminante, como um enfarte. Perder a razão. Casar na hora, em dias, esquecer que não era possível, esquecer as dificuldades, esquecer os entraves e pormenores. Não dar tempo para criar problemas. Não dar tempo para ponderar com opiniões dos próximos. Não aceitar conselhos de ressaca, decidir ébrio e arrepender-se amando. Ultrapassar-se. Não sei como montei minha casa. Amor junta os pertences, não reclama. Faz funcionar o que não existe. Deixo a demora para Deus, sou mesmo apressado em mim para ser lento no corpo dela. Invejo quem faz lista de presentes em lojas e recebe metade da casa mobiliada depois da aliança na mão esquerda. A aliança nem conheceu minha mão direita. Mal cumprimentou. Não recebi nada que está em casa, não tive poupança, fundos de investimento. Recebo os amigos. Sobrevivi, pois precisava. Não há desculpa para sobreviver. Invejo quem premedita o casamento, conhece os pais dela devagarinho, faz as reivindicações antes do contrato, briga por teimosia e capricho pelo tom das paredes e marca dos ladrilhos. Que escolhe a cor do cachorro para combinar com o capacho. Não consigo. Caso para quebrar as regras, para me aproximar no ato, para não deixar o inferno dourar a pele. Entro no primeiro apartamento e fico. Os livros já são estantes. Ponho o colchão no chão e subo devagarinho com os meses. Caso rápido porque nunca fui sozinho dentro de mim, porque a saliva é água potável, porque amor é urgência. Ajeita-se a vida como pode. Um dia a menos não será depois um dia a mais. Caso em segredo, a dois. Beijo tem muito despudor para ter medo. Não me exibo, caso. Não faço futuro, caso logo para fazer passado.

8:54 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 22, 2005

NEM TODO ARROZ É SOLTEIRO
Pintura de Max Ernest

Fabrício Carpinejar



Recomendo que se continue a falar mal do casamento. Tem sido a melhor propaganda matrimonial. Quanto mais se lastima, denuncia ou deplora o azar da união, mais corajosos se sentem excitados a enfrentá-la. No fundo, todo mundo diz para si: comigo será diferente. O cara com quem ela está saindo tem fama de cafajeste: ela sabe, ele sabe que ela sabe. Mas nada do que será dito a ambos mudará a escolha. No fundo, ela sussurra para si: comigo ele será diferente. A esperança de ser a exceção confirma a regra. Em coisas de amor, o único ouvido é a boca.

Os conselhos sábios, lúcidos e sinceros dados para quem está amando não servem para nada. O casal apenas tem a vontade de receber arroz na saída, não está disposto a ajudar a separar os grãos sadios dos estragados. Aliás, não entendo o motivo do arroz tanto chover nos casórios. É o arquétipo dos solteiros. Passa a maior parte de nossa tradição fazendo ponta para o feijão (isso quando não é o parceiro de dança do strogonoff). É como se o arroz não tivesse talento e nutrientes para ser a própria refeição. Bobagem. O arroz está farto de ser posto por baixo e de lado. Um solteiro pode ser completo sozinho, um casado pode estar pela metade acompanhado.

O amor oferece uma estranha mania de grandeza, de salvação pessoal. Forja a expectativa da conversão. Não se mergulha no casamento pela idéia de continuar a relação firmada no namoro. Persiste a mobilização subterrânea e insaciável de transformar a rotina. Se algo estava ruim, vai melhorar. Se algo está bom, vai ser melhor. Não há vontade mais mística do que entrar em uma relação pensando alterar o temperamento de uma pessoa. É mais fácil multiplicar os peixes e os pães. Se o par não era o ideal no namoro, por que casar? A simplicidade é desacreditada nas horas da escolha. Casar virou uma solução caseira para o tédio.

Longe de mim o moralismo, dizer o que é certo e errado. Unicamente não concordo em enxergar o casamento como uma terceira pessoa, um terapeuta, um milagre, que resolverá o que ficou pendente na pré-história da relação. O casamento não modifica o que existia, somente evidencia as virtudes e defeitos com a convivência.

A compulsão do apaixonado é idêntica a do jogador que busca acertar seis dezenas na loteria, ainda que as chances matemáticas nunca sejam favoráveis. Não importa o resultado negativo, preencherá o bilhete a cada semana e fará conjeturas das operações financeiras do prêmio que não ganhará.

Para alguns, casamento parece ser a desculpa perfeita da infelicidade. A fachada para a frustração. O que o sofredor mais quer é sofrer com público, sofrer com audiência, sofrer acompanhado, e, de sobra, ter ainda um cúmplice para botar e dividir a culpa no fim da história. Encontra-se um parceiro ou parceira para reclamar de não ter feito com a vida o que se deseja fazer. Cuidado, a loucura é descomunal a ponto do marido e a mulher serem responsabilizados por aquilo que não aconteceu.

O casamento não merece se tornar sinônimo de tristeza institucionalizada. Ninguém hoje foi obrigado a adotá-lo. Com padre ou sem padre, o livre arbítrio não nasceu definido. O primeiro casamento deu errado, por que logo se tenta um segundo, um terceiro, um quarto? Será que é vício?

Suspeito que alguém está mentindo. Antes, durante ou depois do casamento.

9:17 AM :: Comentários:

CURITIBA

Farei sessão de autógrafos de minha obra Como no Céu e Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 224 páginas, R$ 29) em Curitiba (PR), na quinta (25/8), às 15h, na Fnac do Park Shopping Barigüi (Rua Professor Viriato Parigot de Souza, 600), dentro da programação da 16ª edição do Perhappiness, tradicional festival de poesia do país.

O PERHAPPINESS acontece de quarta a domingo (24 a 27/8), com ciclos de palestras, debates, cinema e espetáculos musicais. Promovido todos os anos pela Fundação Cultural de Curitiba, começou como uma homenagem ao poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989), criador da expressão "perhappiness" ( talvez + felicidade).


9:16 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 21, 2005

PAI MATERNO
Texto publicado na série "Homens no raio X", da Revista Cláudia, edição de agosto/2005
Pintura de Guayasamin

Fabrício Carpinejar



Não fui pai observando meu pai (que hoje é um grande amigo). Aprendi a ser pai observando minha mãe. Quando guri de sete anos e memória de sonho, meus pais se separaram e a vida não foi fácil. Minha mãe cuidava de dois empregos, trabalhava de manhã, fazia o almoço, voltava ao trabalho, pagava as contas, encaminhava os quatro filhos à escola, limpava a casa, e ainda escrevia e ainda se arrumava toda bonita com seus lenços no pescoço e ainda corrigia os temas e ainda arranjava tempo para rir no sofá entre a gente, como se fosse um feriado o fato de estar em família. Nunca a vi xingando. Praguejando. Cobrando. Pressionando. Transferindo culpas. A fatia do queijo era rala, mas o doce da goiabada sobrava e nos fazia esquecer a escassez. Lá em casa cada um cumpria uma tarefa: era o lavador de pratos; Miguel, o varredor; Rodrigo, o arrumador de camas e a Carla, a responsável pelas saídas em equipe de mãos dadas. Dentro de mim, nunca fui sozinho. Se não havia um pai por perto para me ensinar a ser homem, havia um irmão, havia uma mãe, havia uma irmã, havia a telepatia do afeto. Ser pai não é instruir o filho a lavar o carro, a mijar de pé, a fazer churrasco, a falar palavrão, a desenhar a letra, a namorar, a perder a virgindade, a sair de uma desilusão. Não, não é isso. Ser pai é somente compreender. Ao compreender meus filhos (Vicente, 3 anos, e Mariana, 11), estou sendo eles mais do que poderia chegar a me cumprir. Ao ouvi-los, estou sendo eles mais do que seria capaz de escutar a minha própria voz. Eu imito minhas crianças, sou um mímico de seus traços. A cada dia, não são eles que se parecem mais comigo, sou eu que me esforço a me parecer com eles. Sou eu que me esforço a merecer seus rostos, que ficam sobrepostos ao meu. Tem horas que me pego cantarolando canções deles no trabalho e me dá uma vontade de começar tudo de novo pelo prazer de assisti-los. No filme de meus filhos, não quero perder nem os trailers. A maternidade é inata, a paternidade é adquirida. Eu escolhi ser pai para cuidar do filho que fui e acabei sendo filho de meus filhos. Converso, brinco, ponho eles no degrau de meu ombro, encontro uma liberdade que só existia antes em minha solidão. Minha solidão está ensolarada com os filhos. Agradeço a minha mãe que não se limitou a me alimentar durante nove meses e soube transformar a residência em seu ventre.

9:57 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 19, 2005

A MULHER É UM FIGO
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Figo. Assim que eu vejo o amor. Como um figo. Assim que vejo a mulher. Como um figo. O figo não tem o caroço apartado do sumo como a maioria das frutas. Pode-se engolir a semente sem perceber. A semente é também polpa. Não existe o medo de mordê-lo e prender os dentes. O figo é servido para a língua, para o beijo. Figo é para ser lambido, não mastigado. Com a pressão do céu da boca, ele se desmancha. Figo não desperdiça o suco. É úmido, como um pão quente. Ele hidrata sem escorrer. Goteja pássaros. Ele não apodrece, amadurece. Não me lembro de figo que fique sozinho no chão. O sol o transforma imediatamente em terra. Ele somente deita aos lábios, ninguém mais. No solo, cai de pé, pronto a germinar. O figo tem os galhos e as raízes em si. É o coração da romã. Vidraça para o vento desenhar.

Como a mulher, não há alas separando os quartos, paredes separando as sombras, gomos separando o gosto. O figo é inteiro, quase um fogo. A alma é corpo, o corpo é alma, ambos se defendem e se revezam. Suas cores são casadas. Por fora, um verde com azul tal rio manso. Dentro, o vermelho se abre generoso ao amarelo. A casca é um vestido fino, um tecido suave, que deveria ser roçado com o rosto. Não poderia ser chamada de casca, mas de pele. A casca já é parte interna da fruta. O começo tem a lentidão doce do fim. A pele é saborosa como seu suco. Não se usa faca para desenrolar a casca, e sim a unha. Um pouco de cuidado e ela se despe. Figo não é destinado a pressa, aos afoitos. É fio de riacho a se recolher da pedra com a concha das mãos. É passar da esperança reparando na beleza.

Figo não é o pecado, é o pecador. Fruta para ser apanhada direto da árvore, posta junto da camisa. Não mancha, lava o dia. Nunca é tarde para o figo. Nele, os tempos estão sobrepostos. Perfume da manhã quando a manhã ainda é noite. Não atende a passatempos e urgências. Exige dedicação. Quem se aproxima do figo, não volta cedo. O figo oferece a intimidade da carne enquanto pólen.

O figo são os pêlos loiros dos telhados. Como o amor, é macio. Como a mulher, é sensível. Completa o ouvido do ramo com a independência de um brinco. Não se dispersa a exemplo do colar. O figo é o chapéu, não a esmola. Tem pescoço de um violino. O caule o mantém aceso entre os dois mundos.

O figo não mente seu desejo, mente sua idade. Em nenhum momento, se arrepende de ter sido.

8:05 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 17, 2005

LEVEZA
Gravura de Henri Michaux

"É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma"
Paul Valéry


Fabrício Carpinejar



É preciso ser leve como uma brasa, não como uma chama. Leve como um aceno, não como um grito. Leve como uma horta, não como um jardim. Leve como um livro, não como uma página. Leve como um poema, não como um verso. Leve como uma duna, não como o vento. Leve como um vestido, não como um lenço. Leve como o cristal, não como o vidro. Leve como o pão, não como a migalha. Leve como um temporal, não como o relâmpago. Leve como o varal, não como o casaco. Leve como o telhado, não como a telha. Leve como uma árvore, não como o fruto. Leve como o caroço, não como o inseto. Leve como as mãos, não como a aliança. Leve como o mar, não como a espuma. Leve como uma geada, não como a nuvem. Leve como vinho, não como a fumaça. Leve como a ofensa, não como o elogio. Leve como o clarão, não como a lâmpada. Leve como a pá, não como a faca. Leve como o cavalo, não como a lã. Leve como o armário, não como a gaveta. Leve como o moinho, não como o chapéu. Leve como o rosto, não como o pente. Leve como o mel, não como abelhas. Leve como a rocha, não como a erva. Leve como uma varanda, não como a janela. Leve como a voz, não como o silêncio. Leve como a meia-noite, não como o meio-dia. Leve como a despedida, não como a volta. Leve como uma casa, não como um quarto. Leve como as córneas, não como as moedas. Leve como um corredor, não como um quadro. Leve como uma escada, não como um degrau. Leve como uma mesa, não como o prato. Leve como o caráter, não como a opinião. Leve como uma fome, não como o apetite. Leve como desejo, não como a vontade. Leve como o amor, não como a paz. Leve como o corpo, não como o sangue. Leve como uma porta, não como um pêndulo. Leve como o inverno, não como o verão. Leve como a confidência, não como o segredo. Leve como a alegria, não como a euforia. Leve como a memória, não como a papoula. Leve como o balanço, não como a corda. Leve como a insistência, não como a dúvida. Leve como um casal, não como a solidão. Leve como a boca, não como a língua. Leve como a música, não como a palavra. Leve como a migração, não como o pássaro. Leve como o ninho, não como o ramo. Leve como a pata, não como a asa. Leve como uma cicatriz, não como o traço. Leve como o espanto, não como a reza. Leve como o medo, não como um morto. É preciso ser denso para ser leve.

10:05 AM :: Comentários:

TRANSEUNTES
INTERVENÇÕES EM ESPAÇOS PÚBLICOS
Gravura de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar

Laura Leiner (música)
Thais Petzhold (dança)

624 - São Borja. Aparelho ortodôntico em até 24x. Embarque. O corpo é um quimono. O frio roça. O frio desliza para a sobriedade do vento. Sem sapatos, Thaís dança. Pula a chama ainda vindo. O inverno é um fogo mais sério e invisível. Laura olha para o olho da guitarra. Cisca os cílios da guitarra. Penteia os cílios da guitarra, o pulmão da guitarra é uma baleia chiando na areia. Quem vai? 632 - Fátima. Os pés dobram sem osso. A unha é um osso fraco. Finca, fica. Não atravesse na faixa. O telhado amarelo poderia ser as costas de um violoncelo. Chuva desafina depois. Thaís é uma manga sem fio, bem doce. 8 passos por 2,00. Laura é um caqui chocolate branco. 15 acordes por 2,00. 656 - Passo das Pipas. O mundo acorda com a bolsa na cintura. Com a bolsa no ventre. Com a bolsa entre o braço esquerdo e o desaforo, entre a esquina e o ônibus que se dobra como uma cobra sinuosa na erva. 615 - Sarandi. Ela se defende, reage, volteia, se insinua entre o que vem e o que não vai chegar. Não cede seus cabelos. Verdura crespa. Atravessa a rua, não atravessa a si. Atravessa o corpo, atravanca a memória com o que não é palavra. O que não é palavra é desejo. Acontece sem ter sido dito. "Sai de mim, para não te perder", grita o taxista. 614 - Leão. Enrola-se no corrimão, enforca-se com uma corda que arrebenta com o peso. Não desaba, o suspiro desaba antes e amortece. Mão ajuizadas de cinza. A cinza acostumou a terra a queimar. 633 - Costa e Silva. Thais voa para descer. O corpo é uma parada errada, uma parada antes da casa e depois do nome. Toda parada errada é a certa. Engane-se mais. O trabalho vai esperar o atraso. A vida é um atraso necessário. Catraca, catarata no olho da guitarra. O motorista e o cobrador são o mesmo uniforme. Nenhum dos dois tem troco para devolver a estrada. Ela se mexe no mesmo lugar, violácea, as veias de sua boca são as que mais dançam. Mexe-se no mesmo lugar, cavalinho de madeira. Cadeira de balanço. Infância acenando na cintura das janelas, passando por baixo da roleta. 703 - Vila Farrapos. Pede passagem: metade do valor. Mortalha seria mais tola. A manta é dividida em duas como fatias de pão. Come o vento, come menina. 652 - Ipiranga Hospital. Embarque. "O que ela faz é dor", diz Joel dos Santos Gomes, que limpa a rua, que limpa o sol da rua. A rua esverdeada do sol, adubo do escuro do escuro do rio. "Essa dor eu já senti, foi quando me separei de minha mulher e os filhos ficaram longe", fala Joel, com a pá atenta. A pá que revolve, não resolve, que desenterra, não esconde. Dor não se leva na sacola. Dor não se lava, infecciona esperança. Dor não anda de ônibus. Passe livre. 703 - Vila Farrapos. Saindo.

7:48 AM :: Comentários:

JORNAL ZERO HORA, ZH DIGITAL, 17/08/05
Porto Alegre, 17 de agosto de 2005. Edição nº 14604

FERRAMENTA PARA FORMAR LEITORES
Escritores usam blogs como espaço literário

Mais que um diário, o blog também pode ser um espaço literário, principalmente se o blogueiro é um escritor conhecido, como o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar.

- O blog não é uma literatura menor. Hoje, as editoras estão visitando os sites, reconhecendo esse território legítimo da língua, não o vendo apenas como terreno baldio - afirma.

O escritor considera as páginas virtuais ferramentas de formação de leitores.

- O leitor do blog acaba se tornando leitor do livro. Também é interessante porque posso ler os leitores, algo que tu não tens no livro - completa.

Quem concorda é a escritora Cíntia Moscovich:

- Há casos de amizades que fiz pelo blog. Pessoas que nunca tinham me lido, caíram lá, e resolveram comprar meus livros. O blog também é uma maneira de saberes o que as pessoas estão pensando sobre tua obra - destaca.

Cíntia só se incomoda com os comentários não-assinados.

- Acho o anonimato um horror. Existe uma regra de conduta para o blog que é a mesma da vida. Se vens na minha casa e começas a me xingar, pelo menos diga quem tu és para que eu possa me defender - desabafa.

- Tens que ter muito peito para manter a transparência já que os comentários são abertos. Há pessoas que podem entrar lá só para te atacar - lamenta Carpinejar.

Enquanto para Cíntia o blog é uma maneira de visitar as pessoas, Carpinejar o considera um local de encontro do texto.

- No meu blog estou fazendo literatura ou biografia inventada. Tem uma seriedade como se fosse vida ou morte, assim como faço com meus versos - comenta o poeta.

Saiba mais

Cíntia Moscovich - www.cintiamoscovich.com/blog
- A escritora, que tem a preocupação de atualizar seu blog para "não deixar ele morrer", gosta de tratar de assuntos de seu interesse, como a literatura e a crise política.

Fabrício Carpinejar - www.carpinejar.blogger.com.br
- O poeta aborda temas correntes em sua obra, como a infância e relacionamentos. Carpinejar, que tem blog desde agosto de 2003, orgulha-se por não ter trocado de endereço nem mudado o layout da página.

7:46 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 15, 2005

DESAMADOR
Pintura de Max Ernest

Fabrício Carpinejar



Não sou capaz de amar por piedade. Amar é estar no mesmo nível, com a mesma altura dos ombros, o tremor de balbuciar e logo beijar para não esquecer o que o corpo pede. Não é rebaixar ou cumprir um favor. Amar não é uma compensação.

Amar não dá poder, é o despoder. Ensina a generosidade, a vontade de se diminuir para que o amor aumente. Amar é ceder o gosto, a vida, o futuro. É oferecer a metade da gaveta, da cama, da luz, do banho, da mesa, da folha. É oferecer o que ainda nem se chegou a conhecer.

Tenho sim piedade daqueles que empregam o amor como forma de tirania. Que falam em vão do amor como se fosse fácil encontrá-lo. Que não exercitam a delicadeza, a retribuição e o cuidado atento e gritam com quem quer apenas sussurrar. Armam-se do autoritarismo, da vassalagem, da discórdia. Não aceitam o contraponto, a discordância. Para assegurar o domínio, rebaixam seu par para que ele fique dependente, menor, indefeso (não forte, confiante e otimista como deveria ocorrer e que acarretaria independência). Que envenenam com ofensas indiretas ou ironias quando sua vítima está desprotegida. Que não entendem que toda palavra é um pedaço da boca e que a boca sangra com facilidade. Que acreditam que o parceiro ou parceira não tem escolha e que ficará se sujeitando aos seus terrores e dissabores.

Da figura do desamado, o que sofre solitário, surge o desamador, o que desagrega a solidão e faz sofrer. Porque ele recebe o amor e troça de sua força. Seduz por diversão e hábito, pouco se importando com o envolvimento que se segue. O desamador dirá depois de usar o amor: "Não prometi nada". Lavará as luvas para não comprometer as mãos. Omitirá compulsivamente, que é mais repulsivo do que mentir. O desamador não tem nada a perder, pois não ama.

O desamador chamará qualquer cobrança de neurose, de doença, de loucura. Fará a pessoa se sentir torta, infeliz, incriminada de rancor. Depois ainda vai contar por seus amigos e amigas que está sendo perseguido e apagará o que não combina com sua versão.

O desamador não fica doente, adoece o mundo. O desamador não é facultado ao ódio, quem dera. O ódio ainda facilita o amor. O desamador recorre à intolerância. Chora somente no sufoco, pede desculpas no momento de ser desmascarado, mas não muda, continuará maltratando com a indiferença. Ele não é bom muito menos ruim, é apático. Seu autoritarismo é negação da fraqueza. Tudo o que acontece de errado em sua vida vai transferir para quem está ao seu lado.

O desamador emprega a crueldade da reticência, do subentendido, não assume suas escolhas. Induz sua companhia a entender sem dizer nada. O desamador gera culpa, dúvidas, incertezas. Não declara sim ou não. Delicia-se com a confusão. Quanto mais culpa, mais ele exercerá sua autoridade. Parte da ilusão de que ele ou ela não voltará atrás. Condiciona seu afeto a uma esmola.

Custo a crer que o desamador nasceu do ventre de uma mulher.

8:02 AM :: Comentários:


Sábado, Agosto 13, 2005

Folha de São Paulo, caderno Folhinha, 13/08/05:

REPETÊNCIA
Pintura de Miró

Inédito de Fabrício Carpinejar*



Na infância, queria me repetir. Jogar futebol todas as tardes. Içar pipa todos os sábados. Salvar passarinho de arapuca todos os domingos. Diferente dos adultos, a criança ama a rotina. Bastava sol lá fora e o resto se resolvia. Eu me divertia com bobagens. Por exemplo, ao olhar um duelo de um gato com uma lesma. O gato confunde a lesma com sua língua e não entende como ela fugiu de sua boca.

Na escola, não sabia o momento de parar de colorir. Mangueirava a cor no papel como se fosse um jardim. O trabalho dos colegas terminava e continuava riscando. Só acabava quando quebrava a ponta do lápis.

Desenhava árvore sem chão e a professora ficava assustada. Tentava me interpretar quando eu interpretava a árvore. Não havia como explicar que uma árvore sem chão tem terra dentro do tronco. Não contava com o amor da professora, mas com seu susto, o que era um começo. Quando se assustava, se mantinha perto de mim. Cheiro doce de cabelos molhados. Passei a falhar no desenho para prender a atenção dela. Eliminava os galhos, as frutas, as folhas da árvore de propósito para ela se preocupar comigo. Desejei rodar na 1ª série para repetir a professora.

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil) e "Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa" (Alaúde). O conto acima é do livro infantil inédito "Filhote-de-Cruz-Credo"

2:09 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 12, 2005

PETER PAN COM GANCHO NA MÃO
Pintura de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Abro o jornal. Delúbio Soares diz: eu errei. Duda Mendonça diz: eu errei. Marcos Valério diz: eu errei. José Genoíno diz: eu errei. Roberto Jefferson diz: eu errei. Lula logo dirá: eu errei. Todos choram no velório da verdade. Alguns choram de rico diante da câmera, a maioria chora endividado em frente à televisão. Fecho o jornal.

Infelizmente não estamos brincando do jogo dos sete erros, a conta dos erros passou longe desde o começo da CPI dos Correios. Pode ser batizado de jogo dos sete acertos. A complexidade é descobrir ao menos sete virtudes dos depoentes.

O Congresso lembra um jardim de infância, crianças engravatadas arremessando culpa aos seus colegas. Pede-se desculpa para aliviar o castigo. Ninguém quer crescer ou assumir as responsabilidades. Rouba-se com o cinismo de um adulto, mente-se com a ingenuidade de uma criança. Peter Pan com gancho na mão.

Será que neste país ninguém acerta? É tão difícil não adotar o caixa dois? (Ah, já sei a desculpa, é que o caixa dois não tem fila). É raro não enriquecer na política, não tomar dinheiro informal para a campanha? É normal desviar recursos ao exterior, receber pagamento e não questionar a forma?

Lamento Ortega e Gasset, mas o homem é sua circunstância menos ele. A honestidade que deveria ser orgânica e corrente é quase um milagre no governo. Agora fico com vontade de votar em gente honesta, nem me preocupando se é competente, tamanha a falta de opção. Ser honesto é hoje a exceção, um item a adicionar no currículo. A cena se assemelha a marido apanhado em flagrante traindo a esposa. Ele desabafa que errou porque foi pego no ato. Se ninguém o visse, continuaria traindo. O problema não é a infidelidade, e sim o desprezo, o descaso com quem se afirmava amar.

O respaldo confortável da impunidade é o que mais me irrita. A invisibilidade ilícita. Tudo bem mexer no nariz no quarto. Tudo bem cutucar a orelha no elevador vazio. Tudo bem soltar fedores estando sozinho no carro. Mas furtar o bolso do contribuinte, em uma época de severidade tributária, é imperdoável. Confessar o erro não diminui a raiva, não traz desculpa. Confessar com a boca o que os olhos já viram apenas democratiza a culpa no corpo. Quebra-se a confiança e a lealdade. Não há esquecimento que cicatrize.

Não mereciam isso os eleitores e a maioria dos filiados do Partido dos Trabalhadores, políticos que não roubaram, muito menos aceitaram acordos financeiros para votar projetos.

Vocês não erraram. Não é um erro, é um crime.

9:46 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 10, 2005

CEDER
Pintura de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Ceder deveria ser riscado do glossário do casamento. Ceder nunca é bom, algo como perder com honra, não ter conseguido. Lembra o time que cedeu o empate no final. Qualquer torcedor concordaria comigo que é frustração. Estar perto da vitória aumenta a derrota. Ceder assemelha à renúncia, à mutilação. Não é generosidade, deixou-se de cumprir por falta de liberdade ou concordância. É um otimismo pessimista, quando acontece algo ruim e a pessoa se conforma, aliviada, de que poderia ser pior. Quem cede no casamento se separa. Ceder se transforma depois em cobrança, em ofensa, em mau humor. Quem cede uma vez exigirá que o par ceda em seguida. Ceder é vicioso, uma vingança planejada. Entra-se no jogo intelectual da retórica, em que ambos têm razão e pouca alegria.

Ceder é esforço, não é inspiração. Cede-se para calar, não para ouvir. Ao ceder, é feito caridade, sacrifício. É a negação da vontade. Ofende-se a crença com o abandono: engolir a seco a fé, cuspir a fé como gripe. Ceder não oferece compreensão, mas evidencia uma guerra silenciosa, autoritária, de persuasão e posse. Ceder afirma a dependência pelos defeitos. É uma carência resignada.

Na relação, parece que é consenso alguém abdicar de sua felicidade em nome da felicidade do outro. É como se a casa não permitisse duas felicidades. Tem que ser uma de cada vez. Por quê? Elas não podem se completar? Não podem coexistir? Fazer a vontade de quem se ama não é uma prova de amor. Em primeiro lugar, amor não depende de provas. Amor não é castigo, a ponto de exigir a anulação de identidades. Que a oposição permaneça dentro de casa, que é melhor do que ceder. Quem cede não muda de opinião, apenas concordou provisoriamente para discordar em seguida.

Ceder é o primeiro sinal do cinismo na convivência. Cinismo consiste em falar o contrário do que se diz, omitir o pensamento. Não conheço verdade que não tenha nascido de alguma discordância. Ceder é alienação, não esperar mais nenhuma reação de entendimento. Privar-se da possibilidade de ser acompanhado. Mentir que não tem importância. Encerrar a conversa para não se incomodar. Resume o egoísmo das duas partes em apagar as diferenças.

Não merecer a atenção no casamento é a mais grave humilhação.

8:29 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 08, 2005

TUDO POR SER
Pintura de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Não recordo quando parei de acreditar em mim. O dia, a hora, a palavra. Foi no momento em que lembrar virou sinônimo de perda de tempo e passei a me aborrecer ao rever álbuns de fotografias. Confesso a vergonha de minhas imagens. Um despropósito ocupar tantas páginas da família diante do que ficou vazio mais adiante. Centenas de fotografias quando criança e quase nenhuma de adulto. Sofro o temor de não ser o que me prometi. O cansaço de não ter feito. A fome que se satisfaz ao engolir a saliva. Não recordo se foi algum amor banido o motivo do desânimo. Pode ter sido o amor próprio não correspondido.

Desejo recuperar o estado de ingenuidade, de crença, de obstinação da infância e início da adolescência. A consciência de estar a caminho. O encantamento das coisas por acontecer. Acordar como se fosse realmente novo o dia. Nada improvável, nada impossível. Na época, não havia mortos para enterrar, religião para se esconder, lugares proibidos. Os dentes trocavam de lugar e se ria de qualquer jeito. Os pássaros criavam parentesco com os muros. Minhas decisões não influenciavam o mundo, não me arrependia da responsabilidade de agir. Podia escolher a profissão, sem medo de descartar as outras. Ser motivo de brincadeira sem me ofender. Amar sem que isso fosse sedução. Contar histórias sem me preocupar com o estilo. Era tudo por ser. Não usava marcador de página. O livro recomeçava no instinto. Encontrava nuvens sujas apenas no varal. Aceitava todo o convite da luz e afirmava me negando.

Em algum trecho da vida, me flagrei encerrado e consumido. Disse 'basta' e fui precipitado. Se não fosse orgulhoso, voltaria atrás. O orgulho não me permite amadurecer. O orgulho me envelhece. Meus olhos antigos se parecem ilhas desabitadas, longe para o nado. A alegria não é pessoal como a dor, por isso não a consegui prender perto de mim. Hoje posso me barbear com a lâmina da música, mas só me corto com a poesia. Depois da chuva, a terra se desarruma na boca. Crescem ervas e flores estranhas que desconheço o nome para cuidar. Fui arrancado de mim para dar espaço ao que não nasceu. Meus ombros me carregam por costume.

Em algum trecho da vida, ouvi que não devia, que era feio, que não merecia e abafei a resposta. Tranquei a porta do quarto para chorar baixinho. Nunca chorei para ser ouvido. A vergonha de chorar é a mãe de todas as vergonhas. Isso faz a maior diferença. Meu desconsolo não fez amigos.

8:20 AM :: Comentários:

PARADA DE ÔNIBUS
Pintura de Henri Michaux



- Como é teu nome?
- Ácio
- Diferente. Deves ter inaugurado esse nome?
- Não, meu avô e meu pai se chamavam Ácio. Já é um nome usado.

8:18 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 05, 2005

BIPOLAR
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Eu amo desorganizado, desenvergonhado. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso. Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional. Uma solidão emprestada. Sou daqueles que pedirá desculpa por algo que o outro nem chegou a entender, que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer. Basta alguém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança. Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, como exigir isso?

Um dia li uma frase em Hegel: "nada de grande se faz sem paixão". Mas nada de pequeno se faz sem amor. A paixão testa, o amor prova. A paixão acelera, o amor retarda. A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo. A paixão incrimina, o amor perdoa. A paixão convence, o amor dissuade. A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo. A paixão não pensa, o amor pesa. A paixão vasculha o que o amor descobre. A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha. A paixão facilita o encontro, o amor dificulta. A paixão não se prepara, o amor demora para falar. A paixão começa rápido, o amor não termina.

Não me dou paz sequer um segundo. Medo imenso de perder as amizades, de apertar demais as palavras e estragar o suco, de ser violento com a respiração e virar asma. Até a minha insegurança é amor. O pente nos meus cabelos é faca enquanto é garfo para os demais. Sofro incompetência natural para medir a linguagem das laranjas, acredito desde pequeno que tudo o que cabe na mão me pertence. Minha lareira não dura uma noite, esqueço da reposição das achas, do envolvimento da lenha no jornal, de assoprar o fundo. Brigo com o bom senso. Ou sinto calor demais ou sinto frio demais. Uma ânsia de ser feliz maior do que a coordenação dos braços. Um arroubo de abraçar e de se repartir, de se fazer conhecer, que assusta. Parece agressivo, mas é exagerado. Conto tragédias de forma engraçada, falo de coisas engraçadas como uma tragédia. Nunca o riso ou o choro acontece quando quero. Cumprimento como se fosse uma despedida. Desço a escada de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus. Esse sou eu: que vai pela esperança da volta.

9:40 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 03, 2005

A BELEZA DORMINDO
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Tenho insônia, resistência, força de vontade, consigo me controlar e abdicar de uma torta de nozes, de um mousse de chocolate, de um quindim. Claro que com muito esforço e concentração. Mas é impossível resistir a minha mulher dormindo. Pode testar com a sua. Tente assistir a um filme na cama. Ela pedirá de propósito para abaixar o volume da tevê. Você aceitará o apelo para aumentá-lo depois, quando não estiver controlando a imagem. Ela deita de lado, como uma árvore aprendendo a assobiar. Sussurra baixinho. Não é ronco. É respiração densa, uma sinfonia do seu batimento. Um vento com estilo. Uma brisa depois da porta. Uma música sendo composta. O pescoço aberto para o seu rosto, espaço ideal de concha. Os cabelos penteados pelos lençóis. A nuca perfumada do banho. Os pés dela no fundo das cobertas como um leme alterando a direção dos seus. Tudo meticulosamente planejado para desistir das legendas. Um convite inaceitável do escuro.

Teimoso, avança até a metade da fita e algo estranho acontece. O diretor, os atores, o enredo que comentou ao longo da semana tornam-se secundários. Difíceis. Incompreensíveis. Os três travesseiros já não serão suficientes para mantê-lo sentado. Há um ciúme do sono dela, uma inveja imperdoável. Ela ainda ri espaçadamente para aumentar sua curiosidade. Solta palavras apressadas. Resmunga relâmpagos. Aproxima-se da boca para escutar com precisão e calma. Os lábios parecem contornados de lápis de cor, tamanha a euforia das linhas. Perguntará a si mesmo: "O que ela estará sonhando? Será comigo? Será que existo mais nela do que em mim?" Nesse momento, você caiu na cilada da beleza descansando. Não existirá volta ao filme.

Seus olhos passam a desistir, avermelhados da leitura do corpo feminino. Buscará em vão aumentar as letras dos cílios, porém o som das calhas é invencível. O som de uma mulher respirando é melhor do que o barulho da chuva. Se não tem óculos para tirar ficará pior. Não contará com um sinal de abandono de causa. É como capotar com o livro no peito (o livro sempre foi meu sutiã de noite). Adormecerá automaticamente, tomado de doce anestesia. Perceberá que quem manda é ela: capaz de seduzi-lo inclusive dormindo.

9:54 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 02, 2005

BANCO IMOBILIÁRIO
Pintura de Leon Kossoff

Fabrício Carpinejar



Sofro quando me convidam para ser padrinho de casamento. Não é que não queira. Evidente que direi 'é uma honra'. Mas não posso deixar de acreditar que sou pé-frio. Dos três casamentos que apadrinhei, todos os casais se separaram. Não sobrará nenhuma foto comigo. Sou queimado vivo com a separação. Ou alguém vai se lembrar de um casamento que terminou em baixaria na Vara de Família? Durante a partilha, nenhum dos separados faz questão de levar a amizade do padrinho para seu novo lar de solteiro.

Fico angustiado com a minha invencibilidade negativa. Parece que eu sou o culpado, portador de uma maldição silenciosa. Como ser torcedor de um time que só perde. Já pensei em procurar um analista e reconstituir minhas participações matrimoniais. Deveria ter comparecido nos ensaios, bebido menos nas festas, não pensar bobagem na hora do sim. Influenciei de algum jeito o andamento das coisas. "Até que a morte nos separe" virou somente pretexto para seguro de vida. Ninguém morreu e muitos dos casados entraram esbanjando saúde na terceira união. O recorde de um casamento em que atuei foi de cinco anos. Nem meus presentes duraram. Sei que a geladeira que dei para o primeiro casal está na casa de praia da mãe da ex-noiva. O conjunto de louça do segundo quebrou mais da metade em arremessos na parede. A cafeteira do terceiro engasgou de bronquite asmática.

Ser padrinho de casamento é perder a noção do certo e do errado, mergulhar na cegueira do otimismo. O padrinho funciona como um garçom de Deus. Serve e pronto, nada de reclamar do cliente ou pedir dez por cento para si.

O que me desconcerta é a banalização da figura do padrinho. Casamentos atuais contam com dez, quinze, vinte padrinhos e madrinhas. Constrangedor. Há mais gente no altar do que assistindo à cerimônia. Antes era um time de futebol de salão agora time de campo com reservas, técnico e preparador físico. A turma inteira, a família inteira, o bairro inteiro fazendo pressão na sacristia. O convite partia para os amigos verdadeiros e passou a ser estendido aos conhecidos e colegas. Não duvido que desconhecidos sejam escalados no último minuto para cumprir ponta no filme. Além de aumentar a possibilidade de azarados como eu, o mal-estar vem da constatação de que o padrinho tornou-se sinônimo de casa mobiliada. Quanto mais padrinhos, maior o número de itens contemplados na lista da loja. Não seria mais fácil reunir o pessoal para jogar banco imobiliário?

Talvez tenha nascido para casar. Quando me convidam para ser padrinho, a vontade é contestar: "Tem certeza disso?". E logo providenciar uma relação de outros nomes com histórico bem mais saudável.

No fundo, não posso me culpar. O difícil é chegar ao fundo. Em uma confissão, uma amiga relatou suas omissões como pecados. O padre não deixou ela concluir: "Bom bom, deixa alguma coisa para Deus fazer".

9:07 AM :: Comentários:

AMILCAR BETTEGA BARBOSA AUTOGRAFA NA CULTURA
Autor é convidado do Varal de Letras com entrada franca na Livraria Cultura e autografa "Os lados do círculo" (Companhia das Letras), em Porto Alegre, cenário de sua ficção


Radicado na França há três anos, onde vive em Orléans, o escritor gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, um dos mais importantes narradores da nova geração, reencontra Porto Alegre para autografar seu mais recente livro, "Os lados do círculo" (Companhia das Letras). O evento acontece em 4/8, às 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033).

Antes da sessão de autógrafos, Amilcar é a atração do Varal de Letras, programa de debate com entrada franca conduzido pelo poeta Fabrício Carpinejar. O já tradicional Varal de Letras está em seu segundo ano. Consiste num bate-papo franco sobre estilos, buscando valorizar a vida da leitura. Expõe a obra de autores contemporâneos com humor e naturalidade. É uma espécie de entrevista aberta, com a interação do público e participação especial de Tom Madalena.

O tema da conversa, "Contos Circulares", tem como ponto de partida analisar a trajetória do convidado. Em "Os lados do círculo", a cidade de Porto Alegre é palco de adultérios, assassinatos e acessos de loucura, acontecimentos descritos com variedade de recursos estilísticos. A experimentação constante faz com que o universo que está sendo retratado adquira forte carga de instabilidade. Como afirma o jornalista José Geraldo Couto, com "orquestração 'cinematográfica' do ponto de vista, Amilcar Bettega Barbosa não apenas atesta seu perfeito domínio técnico, mas uma incessante inquietação criadora e, sobretudo, um talento ímpar para construir uma prosa que alia as qualidades aparentemente paradoxais da autoconsciência crítica e da espontaneidade".

Natural de São Gabriel (RS), Amilcar, 40 anos, foi premiado com o Açorianos e Bolsa de Escritores da Fundação Biblioteca Nacional. São dele "Deixe o Quarto Como Está" (Companhia das Letras, 2002) e "O Vôo da Trapezista" (WS Editor, 1994). O escritor publicou seus contos em diversas revistas e suplementos literários e participou de coletâneas, como "Geração 90: Manuscritos de Computador".

9:03 AM :: Comentários: