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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Setembro 30, 2005

O AMOR DÁ TRABALHO
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



A asma me prendia para perto do corpo e não conseguia ficar longe dele. Nunca tive bonecos para fazer dormir, preocupado em cuidar da sobrevivência e do luxo de uma noite de sono. Eu era meu próprio boneco. Na Educação Física, buscava superar o cansaço e a inapetência respiratória. O professor pedia para dar vinte voltas pelo colégio. Não me agüentava, e ia. Sempre fui quando não me agüentava, a verdade é que sempre sou quando não me suporto. Se o professor dizia que não precisava fazer, eu fazia. Na corrida, condenava-me a ultrapassar a asma, além dos meus colegas. Enquanto todos retornavam à aula de matemática como se nada tivesse acontecido, eu permanecia mais de meia hora no banheiro apertando a bombinha na boca. Nunca respeitei meus limites, como reconhecê-los se não morrer por eles? Não me desculpo por antecedência.

Vejo o amor da mesma forma. O amor dá trabalho. Cansa. Pressiona. Conheço amigos que sofrem no casamento e não se separam. Eu pergunto: "por que fica se não está feliz?"

"Não sei" é a resposta. O "não sei" faz com que cada um resista décadas numa rotina com qual não se sente parte. Reclamam do marido ou da mulher com uma indiferença mortuária e logo voltam para residência a finalizar o tédio. São os cansados mais do que casados. Não querem discutir nada que possa alterar suas horas de sono e prazeres individuais. Esperam um milagre ou um seqüestro, uma paixão em que possam dividir a culpa da fuga.

A preguiça mantém a infelicidade. Muitos não se separam pela incomodação. Terão que refazer a casa, brigar com fúria, enfrentar fiascos, ficar longe dos filhos, defender-se das acusações, livrar-se da culpa, freqüentar com traje social a Vara de Família. E serão canalhas, crápulas, infiéis, mentirosos por meses diante dos amigos.

Admiro sinceramente a pessoa que teve a coragem de casar quatro, cinco vezes. Pode dizer qualquer coisa sobre ela, menos que é preguiçosa. Será que ela errou porque não encontrou a estabilidade? Será que fracassou porque não se acomodou? Creio que não. Pior é se reduzir a um "não sei" a pensar sobre a vaidade. Deixar de lado o que antes mais se valorizava: a espontaneidade. Deixar de lado a vontade de conversar e conversar com as bocas próximas, pescando as palavras que serão memória.

Não se é obrigado a acertar as seis dezenas num único bilhete. Que o casamento não seja o motivo da infelicidade, pois existe para abençoar, não amaldiçoar. Não percebo facilidades na vida. Conhecer na intimidade é diferente de conhecer no namoro. É difícil mesmo a empatia, a convergência, a liga. É raro. Que cada relação complete a outra. Mentir a si não torna nada depois disso uma verdade.

8:35 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 27, 2005

MEDO DE SE APAIXONAR
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

8:26 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 25, 2005

GÍRIA MASCULINA
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



A linguagem dissimula mesmo quando procura ser transparente. É oblíqua ainda que siga a linha reta. Vamos para diferentes situações. A namorada fica sabendo que seu homem se encontrou com uma colega. É óbvio que, em algum momento do dia, depois de muita coceira, a namorada encontrará um jeito nada discreto de perguntar como ela é. Pode ser no momento de cortar a salada, depois de léguas do assunto. De repente, fulminante, a pergunta surgirá com a folha amarga nos dentes. Se ele disser que é normal, deve-se concluir que ela é linda. Cuidado, ele separou os beiços e respira pela boca.

O homem só afirma que é normal para sua companhia não ficar preocupada. Mas quando fala isso ele já está preocupado com o que pode acontecer, tentando rebaixar a beleza da possível ameaça. Ou seja, ele leva tão a sério a beleza da outra que procura esconder. O homem esconde o que teme e apresenta o que não é decisivo. Fala demais o que não é necessário, fala de menos o que interessa. Faz de conta que é neurose ou perseguição da sua namorada, pois realmente há motivos para neurose e perseguição. Deita-se na ausência de provas para negar, mas no fundo tem ciência da possibilidade. O homem resmunga que é ciúme depois de ter avançado o sinal. Defende-se porque percebeu em si uma pontinha de culpa, uma raiz de razão e uma dose de premonição. Com a mulher normal, pode instalar um GPS nele sem receio.

Voltando a cena principal. Se o homem diz que a menina é de uma beleza exótica, o contexto não é desesperador, nem por isso menos tenso. Beleza exótica, na gíria masculina, talvez renda um caso. É o jeito dele falar da sensualidade dela, de destacar a volúpia. Não ficou vidrado nos traços ou na aparência, e sim na imposição de temperamento. Beleza exótica é um elogio à inteligência, à conversa, ao inusitado. A mulher não é bonita, porém o torna bonito (são as mais perigosas). É uma projeção da vaidade. Depende de circunstâncias favoráveis para acontecer o enlace (diferente da mulher normal, em que o homem criará as oportunidades a qualquer custo).

Se o homem diz que a menina com quem conversava é simpática, a definição tranqüiliza. Você pode comer a verdura até o fim e fingir independência. Simpática quer dizer delicada. Delicada quer dizer que não rolará briga ou inveja. Convide-a para sua casa. Será quase como uma irmã mais nova.

Se o homem não diz nada sobre a menina, aí sim é o momento de quebrar cabides, abrir as gavetas, recolher cópias das chaves. O mal está feito.

9:28 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 24, 2005

APAIXONADO PELA AMIZADE
Pintura Matisse

Fabrício Carpinejar



Não é só a traição que separa. Guilherme conta sua história. Depois de sete anos de relacionamento, sem qualquer infidelidade ou mentira, sua mulher fica seriamente deprimida e é recomendada a fazer uma viagem para espairecer. Ele banca e dá ânimo para que ela visite velhos amigos e familiares. Afinal, apenas se separaram em função do tratamento médico. Ele é extrovertido e alegre, não há dúvida que a ama e tenta entender a tristeza dela, ainda que assustado com os efeitos. No primeiro mês, começam os problema. Ela liga avisando que ficaria mais do que o prometido e que procura um emprego. Guilherme hesita entre dizer para que ela volte ou deixar que ela melhore. Ele desabafa: "Por dentro queria mesmo que ela voltasse para casa e tentássemos retomar nossa vida, afinal a amo muito e sinto que a nossa história acabou precocemente. Tinha muito o que dar. Minha angústia é essa, caro amigo, entrego o jogo ou permaneço esperando que um raio me ilumine e traga minha mulher de volta?"

Por mais dolorido que seja, está fazendo o certo. O amor é egoísta e prende inclusive o que não vive mais. Superou o egoísmo pela generosidade, ainda que a felicidade dela seja sua desgraça. Agüentou o nó na garanta para entusiasmar a mudança de vida dela. Creio que você não está arriscando tudo à toa. Não há felicidade sem o perigo da destruição.

Não fale para voltar. Não se deve mendigar o que é natural. Ela está consciente do seu sacrifício. As marchas precisam de um ponto morto para ganhar velocidade. Concordo que você apostou alto, mas o que adianta estocar o que não será gasto. Bondade é contrariar a própria vontade.

Existe a crença de que casar é um jogo de pequenos favores para render grandes favores. Ao deixar ela encontrar o que gosta não faz um favor: é respeito. Não obterá somente o respeito dela, obterá a admiração, porque respeitaste ela mais do que você. Podes me perguntar: "O que farei com admiração se quero o amor?" Admiração é amor. No casamento, em primeiro lugar, devemos ser apaixonados pela amizade.

Ela não o esquecerá. Entendeu algo difícil e raro: duas pessoas não podem dividir o mesmo ar se uma delas não está respirando. Para que ficar com ela deprimida e sem norte, será que ela seria ela? Você não está salvando apenas o relacionamento, mas a vida, o temperamento e a leveza dela, que vem antes de qualquer coisa. Um casamento não pode eliminar a vocação da discordância, não pode eliminar a possibilidade drástica de ir embora, não pode anular a instabilidade pela tranqüilidade, não pode abafar o talento pela finalidade.

Casar não é indiferença, moldar e fazer olho grosso se a mulher quer seguir uma vocação que não renderá dinheiro, que diminuirá o orçamento da casa, que a deixará livre para outras amizades. Casamento não é prisão domiciliar, não é financiamento de casa, com parcelas fixas. Casamento é também mudar de opinião.

Se alguém casou com 18 anos, aos 30 anos não será igual. Sentirá a necessidade de outro mundo ou de destruir o mundo que iniciou. O marido terá que conquistar sua mulher de 30 anos assim como conquistou a de 18 anos.

Não acredito na crise dos 4, 7 ou 15 anos de casamento. Acredito na crise em todo e qualquer dia. Sem ela, não há desejo, porém conformidade e não se descobre o que o outro pensa. Ter prazer não é ter alegria. A alegria é um prazer que não termina tão fácil.

Caso sua mulher permanecesse em casa, ela o culparia para falta de chance. A frustração nunca é não conseguir, a frustração é não tentar. Ela se dispôs ser diferente a experimentar um estado flutuante de covardia.

Um dia ela pode voltar e nem descobrir o que amargou em segredo. Não precisa falar. Você não cobrou o amor porque o mereceu.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

11:38 AM :: Comentários:

MISS CULTURA NA PALAVRARIA
Desenho Matisse



O tema deste encontro

Fracassar num emprego, conhecer o olho da rua, não ser compreendido pela família. A quinta edição do Miss Cultura retrata os melhores textos sobre os desajustados sociais. Os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha realizam uma estranha seleção de emprego para quem não nasceu para o trabalho. Buscam exemplos memoráveis de personagens e poemas que não deram certo na vida mas deram certo para a literatura.

Local, dia e hora

O evento acontece na quarta (28/9), às 19h30, na Livraria-café Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 - Bom Fim Telefone 51 3268 4260 palavraria@palavraria.com.br ), em Porto Alegre. A entrada é grátis.

O que é o miss cultura?

O programa funciona como um "karaokê recital", com desfile de fragmentos de contos, romances e poesias. A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos de Fabrício e Marcelo sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

O convidado especial é um segredo até a hora do encontro.

Efeitos especiais

A competição não esquece dos detalhes. Tanto que o artista gaúcho Leopoldo Ernesto Schneider, figurinista de espetáculos teatrais e de dança, confeccionou as faixas para os livros premiados. É o mesmo estilista que já fez as faixas de Miss Rio Grande do Sul e desenhou as coroas de Miss Santa Catarina e Miss Rio Grande do Sul.

A última edição

No último certame, que tinha como mote a "Dor de Cotovelo', Rubem Fonseca arrebatou o cetro e lavou as mágoas com o livro Pequenas Criaturas. O mestre da desilusão Lupícinio Rodrigues foi eleito Primeira Princesa com a letra Vingança. Manuel Bandeira, com o lirismo de Tragédia Brasileira, de Testamento de Pasárgada, recebeu o título de Miss Simpatia.

10:59 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 22, 2005

OLHAR FIXO É ESTAR LONGE
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



O que as mulheres pensam, não há como dizer o que as mulheres pensam. Posso dizer o que a minha mulher pensa e ainda assim correr o risco de pensar por ela. Pensar por ela não é desejar com ela.

As mulheres não são uma única mulher. As mulheres amadurecem conforme a intensidade da descoberta. Cada infância será uma velhice diferente; cada adolescência, uma revolta diferente. Cada paixão conduzirá a boca a abrir de um lado. Cada ventre exigirá uma dilatação distinta. Cada cheiro muda a palavra. A mulher não procura ter tempo para cuidar do tempo, procura o tempo para consumi-lo. O que fazer com o tempo que não foi gasto? O tempo perde o valor se não é utilizado.

O homem que fala para todas as mulheres não fala para nenhuma. A impessoalidade é superficial como o inferno. É um erro repetir a mãe na esposa, repetir a esposa na amante, repetir a filha na neta, repetir amores como se não existisse diferença. A vida é confronto, não se conforma com tréguas.

Uma mulher não suporta a idéia de ser igual a todas, ninguém suportaria. As mulheres não são unânimes, são discordantes entre si. Ao tocar numa estrela do mar, ela mexerá a água como um músculo. A água é carne na estrela do mar. A estrela do mar é parede para quem não a percebe como porta.

Uma mulher se assemelha a um livro líquido. Ela não é somente a espuma. Tanto que a espuma não será vista durante o mergulho. A espuma é de menos. Não se lê a água, a água escreverá sobre as mãos. No fundo, a corrente fria e a corrente quente se alternam, as estações se provocam e se completam. O sentimento não se finaliza, plumoso e dispersivo.

O corpo é um dialeto que pode ser extinto se não é exercitado. Quantos idiomas morreram pela crença de que as mulheres são uma única mulher?

Não desperdice a memória de sua mulher com a sua imaginação. Sua imaginação é também memória dela. Ainda não foi compreendido que o mundo não é separado por classes e gêneros. O mundo é misturado para que o detalhe se imponha. Nem tudo pode ser dividido entre banheiro feminino e masculino. Não existe conversa de mulher ou papo de homem. O fogo não pergunta o sexo para alumiar, a árvore não pergunta o sexo para dar sombra, o mar não pergunta o sexo para correr.

A mulher é unicamente estrangeira com o homem dentro dela.

8:02 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 20, 2005

AINDA É MESMO QUANDO JÁ FOI
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



O amor não morre de pé. O amor morre deitado para confundir os cabelos e ousar de novo. Toda separação é um laço. Todo divórcio é um vínculo. Conheço gente que se separa só para se aproximar de outro jeito. Para provocar, para atrair a atenção, para pedir o retorno. Não há ofensa que não tenha uma carícia em seu início.

Fazer as malas é a última tentativa. Fazer as malas é preservar o armário. A mala pode ser o túmulo do armário ou uma outra cama de casal. Na mala, as roupas enfim se deitam, se amam, se roçam, sem a proteção e o biombo dos cabides. As mangas entram com malícia em bolsos, os botões abertos são brincos, o zíper é uma gargantilha, camisas experimentam gravatas, calças andam com uma única perna.

O amor não se resolve sozinho, não é de onde nasceu. O amor é natural de onde morreu. O sofrimento é o contrário: morre onde foi parido. Morre sem trocar de cidade.

Mesmo que seja maltratado, estiolado, reduzido a pó, o amor volta, se regenera com facilidade. O amor tem pele de sobra nos olhos. No amor, a pele é córnea. Quem ama não é capaz de morrer por um amor, é capaz de voltar a viver por um amor. O amor perdoa o que Deus condenaria, o amor condena o que Deus perdoaria. O amor é imprevisível. Não tem lógica. Torna a presença imaginada ou torna a ausência real. O amor cria sua própria necessidade. O amor não é uma obrigação, é uma opção. Não se é obrigado a amar, até é possível viver uma vida sem amor, mas não é possível viver o amor sem dar a vida em troca. O amor é se encostar para dormir e ficar ainda mais acordado.

O amor ilude, contraria, engana. É instável e machuca, abre ferimentos graves e invisíveis, confunde um pássaro com fruto e prende as patas em um caule, corta as asas como se fossem gomos, esvazia a casa, arruina a fé, cria os piores fiascos, infantiliza os joelhos, devasta o certo e o errado, inventa lugares para se esconder, quebra as lentes dos óculos, expulsa amizades, prepara escândalos, esconjura atrasos. Ainda assim é melhor do que o tédio. Ninguém se agride pelo tédio, pois ele anula qualquer vontade.

O amor é como o rio, não deixa de barulhar represado de pedras. Sofrer é pouco ao amor. As lágrimas nunca serão fartas como a saliva. A saliva é a lágrima da alegria.

1:23 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 17, 2005

PEDACINHO DE VIDA
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Marga, 29, expressa sua insatisfação quanto à fugacidade dos laços. Depois de viver um casamento de nove anos, passa por dificuldades para se enraizar novamente. Lamenta que os encontros sejam somente sexo. Desabafa com legitimidade: "Não vejo qualquer esforço de outra parte para que aquele aparente relacionamento se torne ao menos uma amizade fracassada".

É curioso Marga, as pessoas atualmente procuram a intimidade para fugir da intimidade. Não desejam desejar, desejam se entreter, o que não é seu problema, mas acaba sendo por empréstimo. Fogem de qualquer possibilidade de instabilidade. Amor é instabilidade. Fogem das ameaças à mudança de rotina, à alteração na agenda, nas baladas e nos amigos. Estão mais preocupados em contar que não ficaram solteiros em uma noite do que em enfrentar os recalques de uma vida inteira. Fogem do próprio medo. Logo se despem para não mais se preocupar com a nudez. A nudez é um obstáculo porque exige dedicação. A nudez não é o que se mostra, é o que se descobre. É facilmente esquecida quando não foi imaginação. Se não é imaginada, não é vista.

É fácil seduzir no início. Seduzir se ambos não sabem nada um do outro. Tudo será fatalmente perfeito. É fácil mentir os vícios, jogá-los para trás com os cabelos. Apresentar disposição e entusiasmo, defender princípios tomando vinho, concordar que os ex foram canalhas para agradá-la. Isso é bajulação, não autenticidade. Uma mulher não quer ouvir um elogio, quer ser o elogio.

A conquista começa depois do sexo. Não antes. Não com palavras fabricadas, telefonemas súbitos, presentes inesperados. Depois do sexo é o instante em que o homem vai revelar seu caráter, se ele se importa contigo ou apenas cata um espelho para confirmar a vaidade. Naquele instante em que junta as roupas. Com a cabeça baixa, denunciou que não está ali. Que foi embora antes da despedida. Aquele instante já é o dia seguinte.

Não há nada mais erótico do que a compreensão. O erotismo é ultrapassar o ouvido com a amizade, com o conhecimento cada vez maior do corpo.

Não se está pedindo para casar em todo encontro, porém que o encontro sirva para consolidar o apego à vida. Não me importaria com quem não telefona depois. É difícil ser gentil? Creio que sim, pois a delicadeza só é feita para grandes homens, que não têm receio de se mostrar por inteiro, com seus riscos e alternâncias. Pode reparar que a sinceridade sempre vem junto de uma autocrítica implacável. Um parceiro que mostra seus defeitos de cara será mais aberto a um compromisso.

Na carta, confessa que talvez não tenha feito boas escolhas. Não concordo, não há como abolir o erro. O erro é aprendizado e lhe fará chegar mais rápido ao que busca. Sem o erro, poderia demorar ainda mais. O importante é que não se diminua diante da resistência, não aceite mudar porque não é compreendida. Como ensina Millôr: "De erro em erro, nasceu a alta culinária."

Continue acompanhada de uma ausência, até que alguém possa ser mais inteligente do que uma cadeira vazia.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

7:08 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 14, 2005

FUI O QUE AINDA POSSO SER

Fabrício Carpinejar



Eu amo quando não me forço a existir. Reduzir meu corpo e o dela a um barco estreito e deixar todo o resto para o mar. O que falta fazer não me cansa. Ainda não cumpri tanta coisa, que não me apresso em pontuar. Farto-me de esperança. Vou imaginando devagarinho para não acabar. Gostaria de preparar as bainhas da calça dela com alfinetes e perguntar de baixo: está bom? Gostaria de descobrir em suas costas uma pinta de infância e conversar com a pinta com a calma de um biólogo. Gostaria de cumprir realmente uma surpresa, sem a ânsia de contar metade pelo caminho. Gostaria de dar presentes pouco interessado na retribuição. Gostaria de segurar a escada quando ela puxa as roupas de inverno do armário, não me preocupar com a demora e ajudar a escolher as peças que ainda prestam. Gostaria de chegar adiantado a um compromisso, sentar em alguma escada para que pudéssemos lembrar de músicas antigas e inventar o que foi salteado. Gostaria de encontrar restaurantes pequenos, desconhecidos, e beber o riso e rir da bebida. Gostaria de ser seu confidente, escutar o que ela diria ao meu respeito e concordar com as mudanças, desprezando a vaidade. Gostaria de reparar quando ela emprega uma palavra diferente e cuidar para não gastar tanto as velhas. Gostaria de adivinhar o que ela está pensando para devolver seu desejo antes dele tomar banho. Gostaria de cortar suas cutículas para entender sua solidão. Gostaria de soprar as formigas do pote de açúcar, cuidando para não transbordar o vento. Gostaria de perceber o momento em que o café e as giletes estão terminando. Gostaria de enterrar minhas mãos no bolso do casaco dela e esgarçar o forro. Gostaria de ser bem-humorado ao errar e mal-humorado ao acertar. Gostaria de dormir até tarde e só virar para prendê-la. Gostaria de deixar os vidros fechados antes da chuva. Gostaria de dar três voltas na chave e não esquecer que estou dentro de mim. Gostaria de parecer inteligente diante de pinturas abstratas. Gostaria que ela não perdesse os amigos para ficar comigo. Gostaria de levá-la ao cinema para depois recuperar as legendas em sua boca. Gostaria de me assustar mais seguido para procurá-la com veemência. Gostaria de recolher as migalhas da mesa e arremessar o alvoroço das aves pela sala. Gostaria de sussurrar comida na colher de pau. Gostaria de conduzir um táxi para comentar o tempo. Gostaria de espalhar cigarras e vaga-lumes pela grama e vê-la tropeçar em minha voz. Gostaria de ter sempre a sinceridade de quem sente fome.

10:12 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 13, 2005

DESEJO NÃO É CARÊNCIA
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



O desejo tem suas leis. Precisa de regras até para perder as regras. Não se adota de qualquer jeito. O desejo não pode ser humilhado e ofendido, não é passageiro e involuntário. O desejo investiga seu amor como se fosse sua morte. O desejo tem responsabilidade, por mais que isso pareça despropositado. O desejo apresenta ética, princípios, caráter. Não é inconseqüente, como se convencionou chamá-lo. O desejo não apela para golpes baixos. O desejo não suporta quem aproveita a carência de outro para se aproveitar, que finge amizade para seduzir. Que é educado apenas para agradar, que se julga melhor do que o seu próprio desejo. Que escuta confidências para avançar o corpo. Que envenena para se aproximar. Que dá um ombro cobiçando a perna. Que mexe nos cabelos para tapar os olhos. Que não respeita a fragilidade, as dúvidas e as inquietações de uma crise. Que se esbalda no medo para oferecer proteção. Que apressa a mulher para esquecê-la, que não se afasta um passo, um pouco, para lembrá-la. Que invade a intimidade para expô-la ainda mais. Que é dedicado na véspera e brusco na despedida. Que não observa o quarto para recolher as roupas. Que culpa o desejo pela posterior falta de desejo. Que diz sim já antecipando o não. Que afoba para destruir, que não estará depois da espuma para alinhar o mar. Que espanta as aves de perto para não ser contrariado. Que encontra desculpas para se esconder. Que não paga o insulto de viver. Que mutila o braço do rio por não saber segui-lo.

O verdadeiro desejo espera a mulher se recompor, espera a serenidade, que ela fique mais forte e possa escolher uma nudez que não seja tolerância e fraqueza.

É devagar e denso, raiz carregada do visco e das sombras, quietude amadurecida do sumo e da nata.

O verdadeiro desejo não teme inclusive o risco de ser recusado. Não é uma circunstância, é linguagem. Como uma foto, o desejo não será dobrado. Como uma foto, o escrito vai no verso, não sobre a imagem.

O verdadeiro desejo não é predatório, não é egoísta; é generoso, se preocupa em chegar ao final obediente ao início, em chegar ao início obediente ao final. Não se rebaixa. Não significa um alívio, mas a contenção, a alegria alta da corda de um sino.

É muitas vezes prender o prazer para se conhecer mais.

1:54 PM :: Comentários:


Domingo, Setembro 11, 2005

ENCRUZILHADA
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Uma leitora mineira, Magda, de 22 anos, manda uma carta, avisando que namora sério um paulista de 25 anos e está em dúvida se aceita possível mudança com o rapaz. Leonardo foi aprovado em concurso de Brasília e gostaria que ela o acompanhasse. Ela pergunta: É cedo para esse passo? Existe uma idade certa para se comprometer de fato?

Posso garantir que não há idade certa, há desejo na hora certa ou desejo na hora errada. O desejo na hora errada envelhece antes de gozar a juventude, se apaga antes de acender. O desejo depende da pontualidade para se transformar em casamento. Talvez seja a hora certa de desejar. Daqui a dois anos, o desejo pode ser nostalgia ou amizade.

Explica-me que namora sério, as intenções são as melhores possíveis (casa, jardim e crianças) e não existe nada que possa impedir a experiência. Seu problema é justamente a falta de problema. O terror de dizer sim e deixar a família, o emprego, a cidade, o que é conhecido e desde sempre foi seu ponto de referência. Pelo jeito, gostaria que demorasse mais a chance da residência em conjunto. A decisão nos apequena. Vive um estado de descrença (não acredito que aconteceu) e de pavor (não sei se faço a troca). Misto de esperança e ceticismo. Uma esperança cética própria da criança, que cobiça o novo brinquedo na vitrine mas não gostaria de largar o que possui nas mãos.

Escolha significa renunciar algo, para valorizar a encruzilhada e o passado. Não tem como trafegar em duas ruas e vidas simultaneamente.

Vou contar uma história que talvez a tranqüilize. Faz de conta que ele está no pedágio pedindo carona. Passa com seu carro por ali. Sua formação a ensinou a não arriscar e a se proteger, a não conversar com estranhos, a não permitir inconvenientes, certo? A atitude comum seria pagar o bilhete, cruzar a cabine e desprezar a figura simpática e desesperada com o polegar abanando. Porque pensa apenas em seu medo, no medo de oferecer ajuda e, em troca, se deparar com um louco ao seu lado. Mas não cogita que o caroneiro sofre de medo idêntico e até maior, que pode estar entrando em um carro com uma louca e terminar refém do desconhecido.

Mude a perspectiva, saia de si, tome o lugar do outro e encontrará a resposta. Ele também sofre o receio de começar uma vida nova, mesmo que tenha feito o convite em aparente coragem. Não é só você que está optando, ele também fará sacrifício e abandonará sua cidade, família e referenciais. Não é uma escolha unilateral, terão a possibilidade de escolher juntos. Toda escolha partilhada já é amor.

Moral da história: se não dá chance ao azar, não dá chance para a sorte.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

11:51 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 09, 2005

AMOR NÃO É SOFRIMENTO
Pintura de Diego Rivera

Fabrício Carpinejar



Sofia relata sua dificuldade em amarrar o amor. Teve duas confusões. Um namoro de cinco meses e outro quase do mesmo período, salteado. No primeiro, insistiu mesmo ciente de que ele não "amava do mesmo modo", que ele encarava como uma tentativa. Por diversas vezes, Sofia serviu como confidente e amiga. Na segunda relação, a atração pesou mais alto. Só que ele não oficializava o namoro. Não apresentava Sofia para a família (ambos moram com os pais). Ficou como uma história clandestina, ainda que não tivesse nada para esconder. É evidente que brigaram. Ficam juntos ainda por acaso, ao se encontrarem em bares ou shows, pela comodidade das circunstâncias. O que fazer? Será que podem ficar juntos?

Na história inicial, não havia jeito de desarmar. Se atuou como confidente, já cristalizou a figura de amiga. Na carta, confessa que sabia que ele não gostava de você com a mesma intensidade que gostava dele. A transparência, portanto, pouco importa. Queria reverter a situação. Mal ou bem, exigiria dele o que estava exigindo de si. É natural cobrar igual ímpeto. Não se entra com baixa expectativa em um envolvimento. É mentira. Sempre desejamos fixar uma lembrança. Pode-se até dizer que é um caso, que não deseja ficar presa, que tem outras preocupações, mas ninguém perde tempo com nuvens. Na verdade, insistiu com o que não existia. Pagou duas entradas para assistir o filme sozinha.

No segundo percurso, o caso é de tirar o couro do rapaz, escapelar no mínimo. Tosar como uma ovelha. Se ele não a apresentava como namorada, exibia vergonha de assumir o relacionamento. Falta de oportunidade não é desculpa. Com a proximidade de uma seriedade nos laços, a tática é pedir tempo para pensar ou dizer que é cedo. Conversa fiada. Amor precisa do medo para tomar coragem, não para engrossar a covardia. Por que então ele continuava a ficar contigo quando se encontravam casualmente? Pela facilidade. Ele ambiciona uma relação onde não sacrifica nada, não perde nada e continua do jeito como está, disponível para o mercado. Não admitiria essa posição de suplente. Não conheço paixão que não ponha tudo a perder. Quando se ama, não há limite para a negociação. Até a vida entra no balaio com preço de saldo. O amor desvaloriza o mundo para valorizar um único destinatário.

Fala de sua teimosia, que vive encontrando justificativas para a atitude dele. Vejo que é implacável consigo e tolerante com o resto, o que desgasta a própria vaidade. Comenta que liga para ele mesmo depois das mais assombrosas e esfarrapadas indelicadezas. Imagino o orgulho do cara, que não mexe uma palha para arrebatá-la e ganha o dia pronto. Ele não enfrenta o risco de perdê-la. Nunca enfrentou e não vai valorizá-la desse jeito. A esperança não é engano, como vem ocorrendo contigo, a esperança é força de vontade e depende de um sinal (que não aconteceu).

Tampouco percebo o amor como sofrimento. É uma herança moral que recebemos de que amar é sinônimo de dor e desilusão. Amar é alegria inesperada, súbita. Não se pode esquecer que o sofrimento neutraliza o erotismo, pois apaga a afirmação e a ousadia. Persiste em suas atitudes uma carga ancestral feminina de que se deve fazer o impossível por uma pessoa e, inclusive, se anular. A democracia começa dentro de casa. O que vale viver uma democracia fora do portão e aceitar um regime de totalitarismo em seu quarto?

Sofia, sua beleza é indômita. Não corra atrás de quem não acompanha sua respiração.

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3:06 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 07, 2005

QUERO BRINCAR DE NOVO
Pintura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Mel teve duas fortes histórias de amor. Nas duas, os homens mentiram e ela se desencantou. O primeiro romance levou quatro anos, ambos já tinham inventado com antecedência os nomes dos filhos e dos cachorros. No segundo relacionamento, ela já entrou com um pé atrás até que se rendeu aos indícios e decidiu investir e recuperar os atrasados. Quando se entregou, recebeu o golpe de misericórdia e descobriu a farsa do rapaz.

Ela confessa que não tem mais vontade de brincar e arriscar. Não especifica quais foram as mentiras da dupla. Infidelidade? Suponho que sim, mas ainda é suposição. Percebi que repete a mesma fórmula de relação, não importando o sujeito. Teria que desligar a indisposição congênita e destruir a receita. Você fez com o segundo o que o primeiro não fez ou foi fazer com o primeiro o que desejava no segundo. Monta um brinquedo com os destroços do anterior, ocultando a autêntica natureza.

Os homens, ainda que tenham sido canalhas, são moldes de sua vontade ou falta de vontade. Eles não entram com o conteúdo. Mostra um perfil de caçadora, o que não consiste num estigma. Gasta todas as energias no ataque e se ressente das defesas depois de anos de convivência. Importa-se acima de tudo com a conquista e adrenalina da confirmação do namoro. O problema surge com a estabilidade. No momento de formar realidade, cria rapidamente o tribunal. Realiza uma gincana amorosa, com etapas e desafios para cada pretendente vencer. Só que eles não foram avisados dos testes e se perdem nos exercícios.

Começa e termina do mesmo jeito. Já inicia pressionando o desastre. Cria um novelo de expectativa que é difícil desembaralhar no chão. Na primeira história, incorreu no risco da vida eterna ao batizar nomes e filhos que não existiam. Para que correr tão rápido ao futuro se ainda o casal não tinha lembranças? No segundo caso, escolheu o contrato temporário e confundiu o amor com uma distração. Mas o que queria? Acredito que parecer ocupada, com medo de ficar sozinha. Um grande medo. O medo de sobrar sozinha é maior do que o amor, o que acelera a atração e a posse. O medo engana, abrevia, é um desejo prematuro, que não amadureceu. Sua tese é "melhor acompanhada do que sozinha".

Noto também que divide as relações entre passageiras e permanentes. Mas como adivinhar qual será a verdadeira? É arrogância determinar de saída quem importa. A vida nos desmente com facilidade.

Nas duas situações, o amor nunca era amor de início, e sim tentativa. Catava provas do amor, que curiosamente prova que não amava. Quando se racionaliza em excesso, se projeta com margens de segurança, o amor desaparece em nome do conforto. Provas? Palpitação pode acontecer no enfarte ou no namoro. É muito fácil se confundir. O amor é um crime sem corpos. A gente nunca tem certeza do lugar onde foram enterrados. Não há como incriminar, porque os sentidos são mais fortes do que os fatos. Os sentidos são os fatos.

Talvez ainda não tenha encontrado sua verdade, o que faz com que as mentiras que enfrentou sejam filhas de outras verdades ou verdades de outras mentiras. Fui claro?

Não perderá a cabeça com chocolate de coração e flores. Estou convencido de que as mulheres procuram hoje é o humor. Alguém que saiba rir de forma inteligente, seduzir com graça e que não use estampas idiotas nas camisas para dizer o que pensa.

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7:40 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 03, 2005

FUI TRAÍDO, ADOTO A VINGANÇA?
Pintura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



É impressionante como recebo cartas de homens sobre o relacionamento, o que prova o pouco espaço masculino para falar dos seus medos. Pensava que a maioria da correspondência seria feminina, mas não. Está parelha de aflições entre os sexos. Derrubado o preconceito, vamos ao próximo confidente.

Sandro vive uma situação de angústia em seu casamento. Mora há quinze anos com Mônica, é apaixonado e nunca pensou que poderia viver sem ela. Até o último mês, quando ela confessou que o traiu com o ex-namorado. Mônica afirma que errou, pediu desculpa e se arrepende amargamente da decisão. Sandro explodiu, mas está confuso. Com uma situação de infelicidade, cogitava que sairia de casa e nunca mais falaria com ela. Sua natureza pregou uma peça. O amor disputa ferrenhamente queda-de-braço com o ressentimento. Ele me questiona: se toma o caminho da vingança ou da reconciliação?

Não é uma resposta fácil, Sandro. A vingança, ou seja, você trair sua mulher com outra pessoa em represália, é uma maneira de eliminar a culpa de Mônica. Mas assumiria a culpa no lugar dela, entendeu? A vingança é um remédio para aliviar a consciência dela, mas um veneno para sua desvalia. Trata-se de uma atitude previsível. Não sabendo o que fazer, faz igual e ainda pior, com o acréscimo da premeditação (que não foi o exemplo de Mônica, me parece). Usará alguém que não tem nada a ver com o seu problema como cobaia. Envolverá o sentimento de um terceiro elemento no relacionamento. Será a melhor saída? Atestará com a ação que não existe possibilidade remota de convivência.

Já o perdão não é um artigo comum. Não posso aconselhar. É raro e depende da superação e autocontrole. Com o perdão, não assumirá a culpa. Não terminará como o vilão da história, nem como a vítima. Ao mesmo tempo, não eliminará a lembrança ruim, tentará entendê-la dentro do possível. Perdoar não é apagar, é reconhecer as limitações de cada um. Nesta hipótese, o relacionamento poderá ficar ainda mais forte e inquebrantável. Não estou pedindo que ponha uma pedra no assunto. É ela que deverá recuperar sua confiança. Não é mais contigo. Ela o perdeu, necessita ganhá-lo de volta. É ela que deverá mostrar que foi apenas um temporal passageiro. Deverá telefonar com freqüência do trabalho para dissipar a paranóia. Você cumpriu sua parte, permitindo um voto de confiança, mas não pode ficar casmurro, acabrunhado, como cão de rua. Seja receptivo. Não volte mais ao tema, mesmo que ele venha com a força de uma sinusite. Nada de mendigar consolo. Assuma o orgulho de seu passado. Deixe ela conduzir o retorno do casal à lealdade. Ela terá que reconquistá-lo. Como ensinava Nelson Rodrigues, fidelidade não é um dever, é um merecimento. Agora Mônica precisa merecer sua fidelidade.

A única rusga que me preocupa é a reedição de um namorado, o fato dela retomar uma antiga relação. Se fosse um estranho ou uma atração casual, mais fácil de processar. Antes de tomar a definição pelo perdão ou vingança, esclareça o conteúdo dos parênteses. Por que ela cismou em ressuscitar um fantasma? Qual o motivo dele estar vivo e acessível na rotina dela? Isso tem que ser perguntado. Não se pode cuidar de duas feridas. Uma de cada vez. No final, a boca somente cicatriza com a outra boca.

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9:27 PM :: Comentários:

CRIAÇÃO POÉTICA

Estão abertas as inscrições para minha oficina de criação poética no Espaço Tessituras (Av. Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre. Serão doze encontros. O curso acontece às segundas, das 9h às 11h. Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br

9:25 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 01, 2005

ENTUSIASMO OU SERENIDADE?
Pintura de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Dante está apaixonado. Depois de uma noite com ela, mantém contatos pela internet e telefone. Tem medo de perdê-la, na encruzilhada entre exagerar na empolgação e mostrar indiferença. Não sabe como proceder daqui por diante. Ainda mais que ela diz que não deseja se apegar e aproveitar mais um pouco a vida de solteiro.

Meu amigo, seja natural para que ela possa conhecê-lo desde já. Se é apressado e eufórico, que continue assim. Se é sereno e paciente, siga o seu ritmo. Claro que a paixão atropela, exige, reivindica a proximidade. É um estado de exceção, não admite receita de comportamento. O corpo é o único na história que está atento.

Eu não sairia de perto. Não deixaria a relação esfriar em amizade. Insistiria com brincadeiras. Usaria o humor para revelar as verdades. Não daria tempo para ela fortalecer seus mecanismos de defesa ou se arrepender do envolvimento. Cuidaria, entretanto, para não pressionar. A teimosia se transforma com facilidade em chatice. E o chato é o feio por dentro, não há plástica possível.

Não vale a pena também bancar o sedutor e fazer estratégias. Pode até funcionar no começo, mas logo enjoa. Ninguém gosta de premeditações, o crime fica mais grave e a pena mais longa.

Espera a reação dela, escute com infindável interesse, devolvendo cada palavra, cada mistério que ela confidenciar. A mulher adora ouvir que você está a ouvindo. É simples. Pode falar pouco, desde que a ouça com a ultra-sensibilidade das baleias (é uma metáfora, não estou o chamando de gordo).

Na paixão, nada de treino. É perigoso jogar tênis com a parede e ainda perder. A ansiedade, o balbucio e o nervosismo colaboram para a intensidade. Quando ela comenta que não quer se envolver ou gostaria de curtir a liberdade é um sinal de que ela quer se envolver e deseja que amplie a liberdade. Leia o contrário. Não é uma censura e impedimento. Ela testa sua intenção. É uma forma de perguntar se está disposto a ser verdadeiramente feliz. No momento que vocês conversam ao telefone, quantas vezes se despedem? No mínimo, umas cinco vezes, né? Pois se despedir é um convenção. Modo educado de não atrapalhar. Não é para desligar, é para começar outro assunto.

O curioso é que as pessoas se aproximam pelas afinidades, porque são parecidas. Um festeja o gosto em comum do outro, como se fosse questão do vestibular. Mas aviso que são as dessemelhanças que confirmam a convivência e estimulam a atração. Quanto mais respostas diferentes entre os dois, mais poderão aprender novas perguntas.

O "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" recebe colaborações. Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana. E-mail: carpinejar@terra.com.br

11:26 AM :: Comentários:

MÁQUINA DO MUNDO

Está no ar a edição de setembro de Máquina do Mundo, revista digital de poesia. A publicação chega ao seu quarto número, com inéditos de Armando Freitas Filho, Fernando Paixão, Neide Archanjo, Horácio Costa, Angela Leite de Souza, Antônio Moura, Celso Gutfreind, Nei Duclós, Edimilson de Almeida Pereira, Flávio Viegas Amoreira, Jorge Lucio de Campos, Paulo Vieira, Prisca Agustoni, Ricardo Lima, Sergio Mello e Sergio Napp.

A idéia é oferecer um panorama da produção lírica contemporânea brasileira, portuguesa e da América Latina. Edito a revista com Roberto Schmitt-Prym.

Editorial

AGORA

Talvez seja mais válido comprar o tempo do que perdê-lo. Comprar o tempo em um jantar chique, com vinho de safra prodigiosa e menu com sotaque. Não para a poesia, que perde o tempo para ganhá-lo. A quarta edição de Máquina do Mundo oferece pedaços de história, ruínas de pássaros, florestas marinhas. Autores consagrados como Armando Freitas Filho, Fernando Paixão, Neide Archanjo e Horácio Costa apresentam inéditos e costuram por dentro as epifanias, para que ninguém enxergue o que não é palavra curada de sabedoria. Quem reclama do vazio e da falta de originalidade do cenário contemporâneo vai morder a língua. É possível descobrir as surpresas da renovação poética com Angela Leite de Souza, Antônio Moura, Celso Gutfreind, Nei Duclós, Edimilson de Almeida Pereira, Flávio Viegas Amoreira, Jorge Lucio de Campos, Paulo Vieira, Prisca Agustoni, Ricardo Lima, Sergio Mello e Sergio Napp.

Persiste a antipatia de pensar a poesia brasileira como um estacionamento reservado a alguns eleitos. Paga-se a multa, mas não se cala a boca. A poesia aqui estaciona na frente de uma garagem e não deixa ninguém sair de casa até resolver o ódio. Procura provocar o vizinho, tirá-lo de sua comodidade, fazê-lo encontrar na raiva a agitação necessária da paixão. Só a paixão perdoa e redime. Ansiedade no lugar da indiferença, passionalidade no lugar da omissão. Comer frio nem depois de morto. E depois de morto, tanto faz, estaremos mesmo de jejum.

11:21 AM :: Comentários: