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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Outubro 30, 2005

CADERNO 2 O ESTADO DE S.PAULO
Domingo, 30 de Outubro de 2005

SELEÇÃO DE POEMAS PARA CANTAR
Antologia Veneno Antimonotonia privilegia compositores contemporâneos e esquece jovens poetas

Fabrício Carpinejar*
Especial para o Estado



Quando se chama um músico de "poeta" é, invariavelmente, uma declaração de competência. Quer dizer que ele é capaz de realizar uma composição inspirada, efusiva e inteligente. Quando se caracteriza um romancista de poeta nem sempre é um agrado, trata-se de uma forma de reduzir seu campo de ação e leitura. Poeta virou um adjetivo, não mais um ofício. Ele é só elogio fora da literatura.

Não é por acaso que os compositores Renato Russo e Cazuza são considerados os grandes poetas da década de 80. Não é por acaso que ao comentar a trajetória de Chico Buarque ou Caetano Veloso a primeira palavra que vem à mente para sintetizá-los é justamente poeta. Chico surge como o poeta que entende a alma feminina, Caetano como o poeta múltiplo e vanguardista. O contrário não ocorre: raro enxergar um poeta ser entronizado como um virtuoso letrista ao escrever obras de poesia.

É interessante pensar em tudo isso ao ler a antologia Veneno Antimonotonia, organizada pelo excelente Eucanaã Ferraz (Desassombro e Rua do Mundo), que se propõe a reunir os melhores poemas e canções contra o tédio. A polêmica surge naturalmente à medida que letra e poema estão lado a lado, em igualdade de condições e temperatura. Se autores debandaram, nas décadas passadas, para a letra de música, inspirados por Vinicius de Moraes, à procura de um maior público e apelo, retornam com força total ao gênero da poesia, em busca da confirmação da crítica. Antonio Cícero e Wally Salomão são exemplos entre dezenas de carreiras embebidas na música e amadurecidas nos odres das canções que regressaram ao livro bem mais tarde. Ser poeta virou moda entre os compositores. Dá status e fornece uma condição de perenidade às suas visões de mundo. Ser poeta apenas não é moda entre os próprios poetas.

Veneno Antimonotonia cumpre seu papel de leveza e prazer, apesar de toda antologia produzir a sensação incômoda de um imenso shopping de estilos e variações. Não ensina, entretém; não abala, conforta. Extremamente agradável de ler, é disposta em seções de linha espiritual que alternam versos e estribilhos como "Eu tomo alegria!" e "De repente a gente brilhará". São 20 autores, dentre eles sete compositores (Adriana Calcanhotto, Aldir Blanc, Caetano Veloso, Cazuza, Chico Buarque, Gilberto Gil e Noel Rosa), dez poetas (Ana Cristina Cesar, Armando Freitas Filho, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Francisco Alvim, João Cabral, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Murilo Mendes e Oswald de Andrade) e três poetas-compositores (Antonio Cícero, Wally Salomão e Vinicius de Moraes).

Uma das virtudes da publicação se refere à adoção de poemas com uma musicalidade intensa, que fariam bonito musicados. Verifica-se a unidade pela maleabilidade sonora dos versos, que reforçam a qualidade poética das letras. Não há um fosso semântico entre poema e canção. Poema é transposto também como canção e canção como poema. O conjunto representa mais poesia para cantar do que música para ler. Surpreendente a combinação de Manuel Bandeira (Não Sei Dançar) com Gilberto Gil (Barato Total). Em ambos, a percussão da algazarra e o deslumbramento confessional. Bandeira e Gil dançam em igual ritmo, como que sintonizados em um único headphone. Os versos bandeiranos "Uns tomam éter, outros cocaína./ Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria" completam a batida "Quando a gente está contente/ Tanto faz o quente/ Tanto faz o frio/ Tanto faz", de Gil.

Das problemáticas, a escolha privilegiou de modo ostensivo a letra de música contemporânea. Uma ilustração: cinco composições de Adriana Calcanhotto ombreiam com outros cinco grandes poemas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Têm o mesmo peso, o mesmo espaço, o mesmo valor de acordo com a coletânea. O que é curioso, pois João Cabral e Drummond garantem legitimidade e emprestam valência à letrista. A companhia dos dois clássicos alça Calcanhotto a um estágio de maestria na linguagem, dado discutível, já que não era o propósito dela fazer poesia e sim música. Uma explicação possível é a inclusão de meia dezena de trabalhos de cada autor e a proporcionalidade equânime entre eles. Entretanto, Noel Rosa está representado com duas músicas e não vinga a hipótese. Se a luta era contra o marasmo independente da brochura, caberia entrar no time Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, João Gilberto, Ary Barroso, Tom Jobim (este último, com certeza). Um pouco de samba e bossa desses pensadores musicais funcionariam como antídotos ideais à pasmaceira, afora a compatibilidade genética deles com o lirismo. Paulo César Pinheiro, duplamente compositor e poeta, Chico César, Carlos Capinam, Paulo Leminski e Vitor Ramil teriam condições de incrementar o elenco e gerar choques culturais de outras regiões. Assim como Renato Russo é uma falta irreparável. Diante de critérios etéreos da seleção, a conclusão é que predomina o gosto pessoal do organizador.

Poderia ter sido feita uma inversão e valorizar a poesia contemporânea, o que não foi adotada. Colocar Paulo Henriques Britto (outro ausente), autor de Trovar Claro e Macau, na companhia de Noel Rosa. Não seria possível? Percebe-se, porém, a preocupação da antologia em enfatizar a letra de música atual em detrimento da poesia jovem. Talvez seja um recurso para levar ouvintes de MPB e rock a apreciar leituras dos poetas. Um embalo mercadológico, algo como: "Se gosta de Cazuza, não deixe de ler Murilo Mendes." Mas não leva esses mesmos ouvintes a conhecer a produção e inquietação de poetas que não aparecem em questões de vestibular e não são estudados em sala de aula. Os poetas mais recentes coletados são Armando Freitas Filho, Francisco Alvim e Ferreira Gullar, todos acima dos 60 anos, sem nenhuma suspeita, com antologias publicadas e consagração estética. Nisso não houve o risco e a ousadia de apostar em novas vozes. E a rotina ganhou novamente.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Como no Céu/Livro de Visitas (Bertrand Brasil), entre outros

11:49 AM :: Comentários:


Sábado, Outubro 29, 2005

DIÁRIO DE UM APAIXONADO V
Ilustrações de Richter

Fabrício Carpinejar



O apaixonado é um obsessivo. Pode ficar uma noite inteira repetindo o mesmo gesto como se fosse novo.

* * *

Dormir é de menos. Emenda noites seguidas. O apaixonado não dorme, desmaia.

* * *

O apaixonado muda de lugar no restaurante e esquece os óculos.

* * *

É um preguiçoso, vai escolher uma música ou um poema para dizer o que sente.

* * *

O guarda-chuva é o chapéu dos apaixonados. Melhor ainda se for uma sombrinha verde.

* * *

É um consumidor contumaz das coisas que não prestam.

* * *

Passa a se amar mais, tanto que o amor próprio é o único rival de sua paixão.

* * *

O apaixonado é um viúvo alegre.

* * *

Jamais toma sopa.

* * *

Quando o apaixonado começa a falar de admiradoras secretas, o caso já é público.

* * *

Debruça o tronco na mesa sem as mãos. Como uma marionete.

* * *

O apaixonado duvida do que ele mais acredita. Finge duvidar para ouvir outra vez.

* * *

Sua memória é a do peixe.

* * *

Pensa o pior para viver melhor, antes pensava o melhor para viver o pior.

* * *

O apaixonado faz diálogos sem edição. Encontra um motivo para falar de quem está amando mesmo sem motivo.

* * *

O gosto da boca do apaixonado não se altera conforme a comida. Pode vir espinafre que continua bom.

* * *

Termina a relação toda hora para sempre recomeçar.

* * *

Está somente doente para o trabalho.

* * *

O apaixonado cheira a sexo mesmo quando não transou.

* * *

Está enterrado entre dois seios.

* * *

"Apesar de tudo" não existe para o apaixonado, só para os conformados.

* * *

A poesia pode aparecer antes ou depois do sexo, nunca durante.

* * *

A ansiedade do apaixonado é a de um fanático.

* * *

Corrige o que foi dito com o suspiro.

* * *

Não consegue ser sucinto, nem escrever um telegrama ou um epitáfio.

* * *

Não procura sentido para a vida, basta não ter sentido para vivê-la.

* * *

Facilita denúncias. Conta unicamente para sua paixão o que não podia contar.

* * *

Tudo o que não fez numa vida completa em uma noite.

* * *

O apaixonado mente para melhorar suas verdades.

* * *

Tem o estranho hábito de não ter hábitos.

* * *

Não lê jornal. Tanto faz o mundo.

12:31 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 28, 2005

SUPERCOLUNA



O Consultório Poético em minha coluna na Superinteressante não pode parar. Conheça as dúvidas de Lúcio e os novos palpites amorosos. O tema é "Acho uma para esquecer outra ou esqueço primeiro para procurar depois?"

Continuo a receber e-mails com dúvidas de relacionamento pelo carpinejar@terra.com.br

9:52 PM :: Comentários:

PONTEIROS DA BALANÇA
Pintura de Fernando Botero



Ana Baggio, ou Ana Lúcia Nejar, minha mulher (êta homem possessivo!), está com blog. Conta histórias divertidas de uma falsa magra. Confira.

1:23 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Do livro Inédito "MEU FILHO, MINHA FILHA"
Pintura de Miró

por Fabrício Carpinejar



Minha filha, colocar
o pulôver em ti é uma arte.
A cabeça não entra na gola.

Puxo com força, já receoso
de raspar teu rosto.
Será que termino

ou desisto e escolho outra roupa?
Naquelas frações de segundos
em que permaneces coberta,

no escuro de estopa,
na solidão do tecido,
queima na língua a possibilidade

de tua ausência e, sem que entendas,
te ofendo com raiva
de tanto amor desajeitado.


Poema publicado na revista Cortiça.

9:21 AM :: Comentários:

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE



Esta é a minha participação na 51ª Feira do Livro de Porto Alegre, que começa na sexta (28/10) e vai até 15/11. Estarei mais na Praça da Alfândega do que em casa. São treze encontros (já participei de um em agosto).

Data: 30/10/2005 Hora: 16h
Título: Em busca do Borogodó perdido (Antonio Maria)
Participantes: Joaquim Ferreira dos Santos, Luis Fernando Veríssimo e Fabrício Carpinejar
Sala: Sala dos Jacarandás
Local: Memorial do RS
Área: Artes
Encontros com o livro (adulto)

Data: 30/10/2005 Hora: 18:00
Peças breves "Miss Feira do Livro". Sarau sobre tema Viagens, dentro do universo de Júlio Verne
Participante(s): Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha
Sala: Sala dos Jacarandás
Local: Memorial do Rio Grande do Sul
Área: Artes
Encontros com o livro (adulto)

Data: 2/11/2005 Hora: 14:00
Papo-cabeça "Filó e Fulô: filosofia e poesia".
Encontro para o público jovem
Participante(s): Fabricio Carpinejar e Marcia Tiburi
Sala: Casa do Pensamento
Local: Armazém A do Cais do Porto
Área: Juvenil

Data: 2/11/2005 Hora: 16:00
Iracema de José de Alencar: entre a música e a literatura. Parceria Governo do Ceará
Participante(s): Escritora, cantora e compositora Mona Gadelha
Mediador(res): Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar
Sala: Sala dos Jacarandás
Local: Memorial do Rio Grande do Sul
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 2/11/2005 Hora: 19:30
Versiprosa
Participante(s): Fabrício Carpinejar
Sala: Biblioteca do Patrono
Local: Praça da Alfândega
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 4/11/2005 Hora: 19:00
O silêncio da razão: a função do enigma na literatura e psicanálise
Participante(s): Fabrício Carpinejar, Luciano Fialkowski e Maria Nestrovski Folberg
Sala: Sala Leste
Local: Santander Cultural
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 5/11/2005 Hora: 18:30
Sessão de autógrafos
Como no céu/Livro de Visitas e As Solas do Sol (nova versão)
Fabrício Carpinejar
Local: Pavilhão de Autógrafos

Data: 5/11/2005 Hora: 19:30
Alemanha na Feira: Literatura alemã contemporânea ¿ Bate-papo sobre uma nova literatura de uma nova Alemanha.
Parceria com o Instituto Goethe
Participante(s): Escritora alemã Jana Hensel
Mediador(res): Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar
Sala: Sala dos Jacarandás
Local: Memorial do Rio Grande do Sul
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 9/11/2005 Hora: 17:30
Mempo Giardinelli "O Santo Ofício da escritura"
O escritor argentino (Luna Caliente e Revolução de Bicicleta) volta à Feira, contando suas últimas experiências como escritor, oficineiro e diretor da Fundação Cultural que leva seu nome
Participante(s): Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar
Sala: Auditório Barbosa Lessa
Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 9/11/2005 Hora: 19:30
Me Leva Brasil - Senhores passageiros, boa viagem! O destino é um país chamado Brasil. Brasil com "s", um "Brasil brasileiro", como cantou um dia Ari Barroso. Um país cheio de personagens e muitas histórias
Participante(s): Maurício Kubrusly
Mediador(res): Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar
Sala: Sala dos Jacarandás
Local: Memorial do Rio Grande do Sul
Área: Encontros com o livro (adulto)

Data: 9/11/2005 Hora: 20:30
Sarau "O Verbo Literário e a Sua Fusão com as Novas Mídias"
Debate show.
Apresentação de Alessandra Marder e participação de músicos e atores convidados
Participante(s): Paulo Scott, Xico Sá, Rodrigo Penna, Fabrício Carpinejar e Frank Jorge
Sala: Auditório Barbosa Lessa
Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Área: Artes
Encontros com o livro (adulto)

Data: 14/11/2005 Hora: 14:30
Leitura de trechos da obra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
Participante(s): Fabrício Carpinejar e Luiz de Miranda
Sala: Sala O Retrato
Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Área: Encontros com o livro (adulto)

9:20 AM :: Comentários:

GOIÁS

Confira minha entrevista ao jornal Opção e revista Bula, de Goiânia, conduzida pelo jornalista Victor Hugo Lopes e escritor Carlos Wiliam. 40 graus de provocação.

9:16 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 26, 2005

ESQUECIDOS AMIGOS
Gravura de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



Ao reencontrar ao acaso um amigo antigo, do colégio, mas bem amigo mesmo, não tenho nada para falar. Eu e ele ficamos mudos, incômodos, quase que deixando logo o número do telefone para se despedir. Rezo para contar com a possibilidade de fingir distração e não o abraçar, de mudar de calçada e olhar para as vitrines, de atender o celular e me entreter. Frente a frente, o silêncio é constrangedor. O máximo que se sussurra é: "Tem visto o fulano? E o sicrano?".

Depois de revistar a turma inteira e descobrir que não enxergamos nenhum conhecido em comum nos últimos anos, somos obrigados a nos separar rapidamente. Somos obrigados a fugir e desaparecer, melhor dito. O ímpeto é mudar a rota no dia seguinte e riscar aquela rua do mapa da cidade.

"A gente se liga". Como pode a intimidade virar hostilidade? Me explica?

Um amigo que dividi as confidências, que servia como álibi para fugas e aventuras, não consegue entabular uma conversa que não seja de parada de ônibus ou de taxista. Um amigo fiel que fazia festa comigo, que jurou amizade por toda a vida, que segurou a fossa quando me separava das namoradas é convertido em um amnésico depois da colação de grau.

É regra de sobrevivência, o tempo esfria as relações, elimina os vestígios e os laços, muda as opiniões e as atitudes. Na verdade, trabalhamos para o tempo, não para a intimidade.

É mais fácil prosear longamente com um colega de trabalho, sem afinidades, do que com um amigo de infância e da adolescência. É mais fácil a superficialidade do aceno do que a sucção da profundidade. É mais fácil comentar amenidades e a novela do que transpor as barreiras das épocas. Até com desconhecido, a efusão é possível. Menos com os velhos amigos. A expectativa atormenta, o medo engasga.

Creio sinceramente que há um bloqueio para retomar a convivência. Nossa cultura ensina a trocar de cúmplices conforme o contexto. Existe uma facilidade para iniciar relacionamentos e uma dificuldade espinhosa de reviver fases. Pisa-se no pânico psicológico. Complicado atualizar o passado, mexer nas lembranças, nos sentimentos ainda irresolutos e perigosos de nossa formação.

Afora a vergonha implícita, o cara que pretendia ser médico não chegou a concluir a faculdade. O amigo antigo é uma espécie de fiador dos sonhos. O reencontro não deixa de ser uma cobrança do que se desejava ser e não se cumpriu. Algo como "vim aqui para ver se você saldou a promessa". Nota-se o medo de que segredos e detalhes inoportunos venham à tona, de que apelidos e escândalos sejam revividos, de que o lado jovem e inconseqüente troce das convicções atuais e conservadoras.

Não tenho idéia do que perguntar sem que soe como interrogatório policial: "Está casado? Tem filhos? Onde trabalha?" Já tentei fazer isso, mas as respostas do interlocutor são tão curtas que me falta imaginação para prosseguir. Tudo cheira à tolerância. O pior é quando o amigo está acompanhado. "Esta é a minha mulher", ele apresenta. Claro que deve ser a segunda ou a terceira e não quero cometer grosseira e sou mais genérico possível.

Ao reencontrar ao acaso um amigo antigo, sinto que não aprendi a ser leal.

10:34 AM :: Comentários:

BARULHANDO AS ÁGUAS COM ANGÉLICA RIZZI
Foto de Jorge Bueno



A cantora gaúcha Angélica Rizzi realiza show de pré-lançamento de seu primeiro CD "Água de Chuva" neste sábado (29/10), às 19h, no auditório da Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80, fone 51 - 3028-4033), em Porto Alegre (RS).

Apresenta pela primeira vez o repertório de sua coletânea, que reúne músicas próprias como "Banho de Chuva", "Moleque" e "Águas do Mar", faz uma releitura especialíssima para o sucesso "Canos Silenciosos" de Lobão e ainda interpreta a canção "Nas Curvas da Guitarra", versão musical de Jottagá para poema de Fabrício Carpinejar.

Poeta e compositora, tem na suavidade da sua voz e na força cênica de sua interpretação o ponto de equilibrio de seu trabalho. Articula-se numa fusão de estilos como samba, bossa nova, rock e baladas. Estará acompanhada dos músicos Chico Merg ao violão e guitarra, Dener Valério na percussão e Jaca Vasconcellos no baixo e violão. Conta também com a participação especial de Jottagá nos vocais.

O ingresso é um quilo de alimento não-perecível.

10:21 AM :: Comentários:

JOGO DO VELHO



Rosana Almendares acolchoa as paredes. Tudo o que é descartável vira objeto de arte, cuspe de pássaro, orvalho de árvore no portão. Sua exposição é como uma casa andando. Os objetos repetem desenhos, com fundo em preto, branco e cinza. A repetição é ritmo. A repetição é sexo alfabético. A linguagem é ritmo repetido. Tal como o amor que pede a reincidência. Tal como as batidas de um coração que não se enjoa de começar.

São imensos jogos da velha, em que o imprestável torna-se pensamento, o impensável transforma-se em prestável. Talvez um jogo do velho: o que é abandonado pelo consumo volta a reintegrar a sociedade liberto do prazo de validade. O lixo converte-se em observação lírica do cotidiano, caligrafia caprichada. A beleza exubera, harmônica, calculada, como partituras de um músico afixadas na parede. As gavetas abertas derramam justamente a música das formas. O que serão as figuras? Tulipas? Colheres? Fósforos? Tochas? Cotonetes? Pirulitos? Pequenos travesseiros de bonecas? Ou um modo de envelhecer com dignidade?

Fabrício Carpinejar,
poeta

Exposição Descartável, de Rosana Almendares
Abertura: 26/10, às 20h30
Visitação: 27/10 a 19/11
Segunda a sexta das 9h às 12h e das 14h às 19h
Sábado das 9h às 12h

Rua Casemiro de Abreu, 153 Novo Hamburgo/RS

10:14 AM :: Comentários:

ESTAREI LÁ



O amigo endiabrado Paulo Scott lança nesta quarta (26/10), às 19h, a ficção Voláteis (Editora Objetiva) na Livraria Cultura, no Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre (RS).

10:04 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 23, 2005

LULU E A SUA MÃE
Pintura de Vermeer

Fabrício Carpinejar



Lulu não escuta a chaleira chiando. Lulu não escuta o sussurro. Lulu não escuta a grama encurvando antes da chuva. O vento nos quadros. Os chinelos chegando. Lulu não escuta o soluço. Lulu não escuta as vozes ao telefone. Lulu pede para repetir. Lulu não escuta a música. A escada. Os galhos cerzindo casacos de frutas. Lulu não escuta o barulho do estômago. O batimento cardíaco. O assobio. Lulu não escuta o girar da chave. A maçaneta dobrando. As venezianas batendo. Lulu não escuta a fumaça do café. Lulu não escuta os passos. A campainha. O lençol no varal. Cinqüenta por cento no ouvido, quarenta no outro. Lulu não escuta. Lulu não escuta os latidos. A algazarra do recreio. O despertador. Lulu não escuta o relógio. Lulu não escuta as aves tremendo de frio lá fora. As roupas do seu armário. Lulu não escuta o som abafado do verão. Lulu não escuta as pulseiras. Lulu não escuta as batidas na madeira. O apontador descarnando a cor. A lista de chamada. O apito da escola. A sirene do bombeiro. Lulu não escuta os insetos, o pincel das asas. As moscas na janela. Lulu não escuta a mangueira ligada. Os brindes dos copos. Lulu não escuta as ondas, o elevador, o chuvisco da torneira. Lulu não escuta o telhado. As goteiras. Os aviões ao longe. Lulu não escuta o escuro. O giro do corpo. Os saltos flamencos. O portão. Lulu não escuta o zíper do vestido, o borbulhar do azeite. O leite derramado na vasilha. Lulu não escuta as gavetas arrastadas. O livro caindo. A vassoura recolhendo as folhas. Lulu não escuta o choro miúdo. O gemido. O arrepio da lã. Lulu não escuta a caneta. O jasmim do papel. O celofane do presente. Lulu não escuta o vaso quebrando. O prato posto na mesa. As pálpebras. Lulu não escuta os óculos no chão. As pedras rolando. Os talheres. A tosse do corredor. Lulu não escuta os remos na espuma. O barco amarrado no cais. As correias da bicicleta. Lulu não escuta o que é baixo, o que é discreto, o que é suave, não escuta a vida formigando. Sua mãe passou a não escutar também, para não mostrar vantagem, para não mostrar superioridade, para domar o medo. Para entender o silêncio da filha feita de olhos enormes, ávidos, crespos. O verdadeiro amor renuncia. O amor escolhe estar junto, não importa como. Lulu e sua mãe se escutam.

10:52 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 21, 2005

MEU ANIVERSÁRIO
Fotografia de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar



Meu apelido de casa é Bito. Até os oito anos, não falava Fabrício, saía Bito. Fui me reduzindo para ser feliz. Ou para não sofrer, que dá no mesmo a uma criança que ainda desconhece até onde a carne voa. Não sei cantar. Confesso, sofro de vergonha. Timidez de ouvido. Nunca participei de nenhum karaokê. O fato de falar errado em minha infância me travou, barrou a garganta. Troquei os dentes de leite, não a língua. Minha língua é de leite. Ouvi algumas vezes que a minha voz era horrível e acreditei e me calei. Faço aniversário no domingo (23/10) e não adianta, sinto vergonha inclusive para cantar parabéns. Bato palmas com força como modo de me perdoar. Não desejava ser assim, o diafragma fechado. Em shows, canto baixinho, porque ninguém me escuta. No chuveiro, não abro o bico. A igreja que freqüentava decidiu musicar o Pai Nosso e fiquei novamente bloqueado. Pulei trechos da missa. Minha vergonha não abriu exceção para Deus. Na escola, fazia mímica do hino nacional. Nos coros que participei forçosamente, fingia movimentação dos lábios. A professora fazia de conta que me escutava e me deixou como um anjo de cera no grupo. Não sei cantar e queria muito, quero muito. Minha voz se atrasou para a palavra. Falo rápido para não ser reparado. Meu irmão Rodrigo elaborava letras para uma banda de rock do bairro. Acompanhava os ensaios. Era uma vassoura entre as guitarras e os violões. Calado, comovido, louco para ajudar, mesmo que seja carregando os instrumentos. Fiz várias letras mas me faltou coragem de entregar. A poesia foi o máximo que consegui chegar perto da música. A poesia é a música que não escrevi. Não saber cantar me impediu de dançar. Quando menino usava botas ortopédicas, com ferro nas pontas. Ainda as uso, não tiro para dormir. Por dentro da pele. Ainda não tirei as botas. Por dentro da pele. Osso de peixe sem mar para correr. Elas pesam mais do que as pernas. Eu arrasto meus pés e minha língua. Não sei dançar e queria muito, quero muito. Minha solidão pode ser de pássaro, pensei que fosse de palha. Tirem-me os sapatos, por favor. Tirem-me os sapatos de minha boca.

12:11 PM :: Comentários:

ANALISTA DE SÃO LEOPOLDO



Meu Consultório Poético da Superinteressante está com nova coluna. Confira outros palpites poéticos e sugestões amorosas. Continuo a receber e-mails com dúvidas de relacionamento pelo carpinejar@terra.com.br

11:48 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 20, 2005

DIÁRIO DE UM APAIXONADO IV
Sintomas de um bem incurável

Pintura de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



O apaixonado não deixa seu par terminar de falar. Ele interrompe e vive pedindo desculpas.

* * *

Quer agradar a qualquer custo. Pode inclusive negar sua personalidade para convencer. O problema é que a mulher pode se apaixonar por outro que não é ele. Das duas uma: ele será obrigado a assumir o papel a vida inteira ou será desmascarado ao assistir futebol.

* * *

O apaixonado cisca o prato em jantares românticos, não põe uma vírgula na boca. Aliás, por que os apaixonados saem para jantar se não comem nada? Eles passam a imagem de educados e contidos na hora para assaltar a geladeira de madrugada.

* * *

O apaixonado esperando no cinema ou no bar queima como um incenso. Não há como disfarçar seu perfume exagerado.

* * *

Quando o apaixonado diz uma frase de efeito, repete duas ou três vezes até provocar impacto (ou tédio).



* * *

O estômago pode ficar embrulhado, mas ele não tem direito a ir no banheiro. Todo apaixonado sofre de prisão de ventre.

* * *

O apaixonado é o maior fazedor de escândalos que existe. Cobra o que ainda nem começou.

* * *

A paixão - platônica ou não - prova que a realidade não faz a menor diferença.

* * *

O apaixonado infantiliza a linguagem, carrega no diminutivo, dá apelidos ridículos e usa expressões de casa de bonecas.

* * *

Ciúme é charme para o apaixonado. Depois de casado, é doença.

* * *

O apaixonado jamais usa pijama para dormir.

* * *

Calcinha cor de pele está fora de cogitação. É reencontrar a avó entre as pernas.

* * *

O apaixonado gagueja quando tenta consertar uma grosseria.

* * *

O apaixonado só gosta de reprises.

8:22 PM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 18, 2005

DIÁRIO DE UM APAIXONADO III
Sintomas de um bem incurável

Pintura de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



O apaixonado não consegue decidir nada. Recebe um cardápio e faz de conta que é uma televisão. Tudo está bom, tudo ele aprecia. Pode atravessar a pé uma cidade sem se importar com o cansaço ou dar voltas no mesmo bairro de carro e ainda elogiar as ruas.

* * *

Ri mais do que fala. Aliás, o apaixonado emprega a risada para dizer sim.

* * *

O garçom reconhece o apaixonado pelo braço ansioso de náufrago.

* * *

O apaixonado se preocupa com a roupa de baixo. A mulher não usará time misto. Qualquer momento pode ser derradeiro.

* * *

Quando está nervoso, o apaixonado segura as mãos da companhia para ganhar tempo com o tato.

* * *

O apaixonado gosta de saber se a pessoa está sentindo o mesmo do que ele, mas precisa ser igualzinho. Fica horas no telefone acarreando os sintomas com o par. Descreve os efeitos da paixão em seu corpo com minúcias de uma doença a um médico.

* * *

Acorda toda manhã de ressaca de algo que não bebeu. Como se sua vida fosse emprestada.

* * *

O apaixonado é o último a acreditar que está apaixonado.

* * *

Muda de idéia com facilidade. Fica seguro para se mostrar desesperado em seguida. Dois minutos é muito tempo para um apaixonado.

* * *

O apaixonado não respeita sinais de trânsito. Dentro de si, um engarrafamento interminável. Passa o dia inteiro entre a primeira e a segunda marcha, entre a primeira e a segunda pessoa do singular.

* * *

Joga xadrez com a música.

* * *

Caminha envaidecido com marcas no corpo. Alisa as unhadas como esboços de uma tatuagem.

* * *

O apaixonado desaparece do trabalho de repente, de modo discreto. E reaparece espalhafatoso.

* * *

O celular do apaixonado está fora da área de cobertura ou desligado.

* * *

O apaixonado é um guia completo dos bares da cidade.

* * *

Esquece dos amigos e só volta a falar com eles depois da primeira crise.

* * *

É possível montar um retrato falado do apaixonado a partir das pessoas que freqüentam rodoviárias e aeroportos. Ele está sempre partindo com as vestes do corpo.

* * *

O apaixonado perde bem mais do que a cabeça.

* * *

O apaixonado não aprendeu a mentir. Sua sorte: mente tão mal que se assemelha a uma verdade.

10:06 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 17, 2005

CONSULTÓRIO POÉTICO NA SUPERINTERESSANTE



Meu "Consultório Poético - para complicar o que já estava complicado" agora está em novo endereço: no site da revista Superinteressante. O espaço é semanal. Leia a minha estréia na SUPERcolunas com o texto-conselho "De tanto sofrer não tem mais nada a perder". Continuo a receber e-mails com dúvidas de relacionamento pelo carpinejar@terra.com.br

4:17 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 15, 2005

Folha de São Paulo, Caderno Folhinha, 15/10/05

MINICONTO

FILHOTE-DE-CRUZ-CREDO
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Sou feio, feio de nascença, mais feio do que você possa desenhar. Não fiquei feio com o tempo, mas também o tempo não me deixou bonito. Meu nariz é indeciso, tem um desvio que não termina em ponta. É uma batata quente. Parece que apanhei em um briga. Apanhei ao nascer. Quando me olham, perguntam o que houve comigo? "Não houve nada, por quê?", replico. "É que teu nariz saiu do lugar", falam. Acho que meu nariz não gosta de ficar sentado no mesmo lugar no rosto. Deve ser isso: dói a coluna do nariz. Queria dizer que sou feio por um acidente e contar as histórias mais tristes do mundo, mas não teve acidente. Não cai da bacia, não tive nada que me deformasse. Sou assim: feio feio. Naturalmente feio.

Ser feio chama atenção. Às vezes mais do que gente bonita. Passa um feio e as crianças e os adultos ficam apontando: "Olha lá a cara dele". Ser feio é quase uma profissão. Qualquer um recebe apelidos. O feio recebe uma porção deles, tanto que poderia vir ao mundo sem nome que não sentiria falta. Acho um desperdício dar nome a um feio como eu, não vão chamá-lo desse jeito mesmo.

Fabrício Carpinejar é poeta, autor de "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil) e do infantil "Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa" (Alaúde)

11:08 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 14, 2005

QUANDO ELA GOZA
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar




Depois de amada, estendeu seu corpo ainda tremendo. Quase chorava de tanto que se expulsou. Quase chorava de tanto que se recebeu de volta. Não me aproximei. Não podia interferir em sua solidão. Dizer o quê? Não podia me aproximar de sua solidão. Dizer o quê? Seus músculos ainda estalavam, o sangue aquecia os ouvidos, dizer o quê? Qualquer palavra é intrusa. A boca eram seus cabelos boiando. Dizer o quê? O homem deveria se distanciar depois que a mulher goza. Não tomar para si a glória ou o prazer. Não reivindicar autoria. Não sujar a parede com sua letra. Não cobrar o que não nasceu dele. Deveria ter pudor de pálpebras, que se fecham para imaginar. É ela e seu corpo redimidos. É ela e seu corpo abraçados. É ela e seu corpo alinhados como joelhos. É ela devolvida a si, devolvida às alegrias proibidas, às alegrias quando se tocava em segredo. É ela e os medos superados, a culpa liquidada, os seios observando as janelas.

A rua da cintura e a chuva, para não andar, para ficar debaixo das marquises esperando passar.

O homem deveria sentar em uma cadeira ao longe, como se fosse um milagre e lhe faltasse fé para reconstituir os detalhes. O homem não deveria estragar com sua presença aquele momento, mas silenciar, esquecer os comentários, jejuar os dentes, reprimir o ímpeto. Nenhuma brincadeira, nenhuma certeza, nenhuma crença.

É difícil desaparecer, sei que é difícil. Homem, não lhe resta outra opção! Desapareça estando ali. Nenhum movimento brusco, não procurar água, a sede, o casaco. Desapareça aos poucos para que ela enfim se veja dançando para Deus.

2:11 PM :: Comentários:

RECIFE

Participo no sábado e domingo (15 e 16/10) da Bienal do Livro de Recife. Farei duas palestras e sessão de autógrafos da obra "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil). Confira a programação.

2:11 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 12, 2005

12 DE OUTUBRO

Fabrício Carpinejar




Minha primeira festa de aniversário aberta aos amigos aconteceu em 12 de outubro, onze dias antes da data oficial. Sempre quis receber uma caravana de presentes, depositá-los em uma caixa de supermercado e depois esparramá-los em minha cama. Presentes grandes como travesseiros de vó. Observar todos reunidos em torno do bolo, todos me invejando por estar ali no centro da mesa soprando as velas. Depois de longa insistência, ao completar cinco anos, a minha mãe convidou os colegas de turma. O meu nome no convite me deixou orgulhoso. Mais orgulhoso do que meu nome na certidão de nascimento. Havia centenas de doces e salgados, garfos de plástico e pratos de papel, guaraná, língua de sogra e balão. A família preparou a comida durante uma semana. Eu me vi vivo e não me acreditava. Lembro que vesti um macacão e uma camisa listrada. Na época, não usava pescoço. Minha cabeça rebolava solta nos ombros. Os cabelos foram penteados ao lado, acentuando a testa. O pai me emprestou sua loção pós-barba, que eriçou uma penugem imaginária. Às 17h, sentei na escada diante do portão de ferro para aguardar as pessoas. O portão de ferro, pesado. Meus olhos oblíquos e os olhos lisos da maçaneta. Escutava os passantes, as formigas se movimentando, os sapatos afobados passando pela casa e não entrando. Escutava minha própria ansiedade. "Será que me acordei no dia errado?" Contei os furos de meu cinto, seis. Estava no segundo. Contei os buracos de meu tênis, seis. Contei os botões de minha camisa, seis. Contei esconde-esconde e ninguém aparecia para bater no muro. Fui murchando o rosto na gola. Envergonhado pelos pais. Envergonhado pelos irmãos. "O que pensariam?" Às 18h, a mãe pediu para entrar. Eu gritei: "não, só mais um pouquinho. Tô ouvindo, tô ouvindo chegar". Ouvia as cigarras sacolejando a grama, as baratas escondidas nas garrafas, o murmúrio das correias de uma bicicleta. "Tô ouvindo chegar". Ouvia o escapulário indo de um lado para o outro nos seios de minha irmã. Mas o mundo não chegava. O portão de ferro escorria vento em seis frestas. Sei que me puxaram com força, me pegaram no colo, e não chorei de tanto que desejei chorar. Não chorei porque não podia. Não chorei pois a boca não ajudou. Fiquei mudo, embrulhado, adivinhando o que havia dentro de mim pelo barulho solto de alguma peça, de alguma lembrança, de algum menino.

11:49 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 09, 2005

DIÁRIO DE UM APAIXONADO II
Sintomas de um bem incurável

Pinturas de Henri Fantin-Latour

Fabrício Carpinejar



Baixei todas as roupas do meu guarda-roupa, não tive nenhuma compaixão com alguma peça. Deixei somente os conjuntos que realmente uso. Metade do armário foi embora. Antes ficava em dúvida. As roupas eram mais lembranças do que pano. Perdoava as manchas, os rasgões, os trechos puídos. O apaixonado é um desmemoriado. É óbvio que tomei a atitude depois de comprar três conjuntos de camisas, calça e sapatos. Não sou tão forte assim.

* * *

O apaixonado precisa de uma gaveta para colocar seus pertences de bolso. O resto ele vai esquecer. A bandeja do aeroporto já é suficiente.

* * *

O pulmão do apaixonado é como o fígado ao bêbado. A abstinência só faz pensar bobagem. Não se é inteligente na dependência, mas se é muito mais engraçado.

* * *

O apaixonado perde o apetite. Um prato é muito distante. Come para não desmaiar. É movido a sexo. Ou pela antecipação do sexo. Realiza regime forçado. Deve ser o excesso de saliva que atrapalha a dentição.

* * *

Os monges invejam a crise de silêncio do apaixonado. Ele pesca horas a fio uma palavra e volta sem nada para a casa. Desossa o peixe que não existe, frita o peixe que não existe e lava a louça que ficou intocada. O apaixonado tem uma imaginação intensa como a de um terreno baldio.

* * *

Um dos problemas do apaixonado é que ele estranha novamente seus defeitos. Depois de aceitá-los com generosidade, depois de uma convivência pacífica e conformada, descobre que foi tolerante e revisa o peso, a altura e a massa muscular. Tudo é subitamente esquisito, seja a cintura, sejam as rugas, sejam os pés primitivos. O apaixonado deixará de conferir o espelho com tanta pressa. Se o par comentar algo que não gosta, não saberá disfarçar o mal-estar.

* * *

O apaixonado entra na relação independente e autônomo, afinal já passou por relacionamentos anteriores e pretende usar sua experiência. Finalmente vai colocar em prática o breviário da sedução e exercitar os conselhos dados aos amigos. No começo, parecerá implacável, seguro e confiante. Criou uma fortaleza de dar medo. Depois de alguns beijos e de entortar o pé sem perceber, sacrificará as táticas e será sincero como nunca na vida. Falará dos seus medos, confessará segredos que nunca ousou contar, irá se declarar de modo precoce contrariando sua idéia de que não poderia fazer isso. É necessário colar o adesivo de "frágil" no apaixonado, não sobrevive de um endereço a outro, de uma certeza a outra. É um corpo em mudança.

* * *

Não é aconselhável escutar uma conversa entre apaixonados. Que idioma é aquele? Filme eslavo? Nada sociável. Nenhum dos dois entenderia se não houve a paixão entre eles para explicar e traduzir. Cheia de sinais, arrebatamentos e questionamentos imprevistos. Uma conversa epilética, com ninguém por perto para segurar a língua.

* * *

O apaixonado avisa que não quer se envolver para depois cobrar cada minuto da separação.

* * *

A repetição é o que o apaixonado mais gosta. Ele fala a mesma coisa durante horas sem enjoar. O vocabulário torna-se de uma criança de cinco anos. Nenhum apaixonado consulta o Aurélio. Pois a linguagem separa.

* * *

O bar para um apaixonado é como se fosse sua casa. Ele não repara, mas espalha os casacos e as bolsas pelas cadeiras. Não tem pudor, não pensa no pudor, apaga o restante dos fregueses, quer ficar junto de qualquer jeito.

Com apenas um casal de apaixonados, o bar está lotado.

7:06 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 08, 2005

DIÁRIO DE UM APAIXONADO
Sintomas de um bem incurável

Ilustrações de Jean Cocteau

Fabrício Carpinejar



Perdoai a boca, não salta como os olhos. Perdoai os olhos, guardo sua nudez em minha boca.

Não desejo beber outra sede, quero fechar os lábios ao café, ao vinho, à água. Nada brilhará mais os dentes. Deixarei o mel de sua fome crescer em mim com a rapidez da barba.

O gosto do seu sexo não é doce, não é salgado, é ao mesmo tempo toda a mesa.

* * *

Respeito mais as ausências, deixo as pessoas passarem em minha frente, não ri tanto como agora. Aceito críticas com o desprendimento de elogios. Nunca amei tanto as crianças ou a infância que me faltou. Os pátios têm a religiosidade de vitrais. Observo os cachorros como anjos atrapalhados acomodando suas asas. Fico comovido na janela com o jeito que lambem as patas, os becos das patas. Sou capaz de demorar três horas olhando os cachorros dormindo, para não aprender nada a não ser os cachorros dormindo. O apaixonado é um comovido à toa. Pára de repente em si como se fosse chuva. Pula de repente de si como se fosse tarde.

* * *

Vontade de conversar com você mais do que tive de me conhecer. Vontade de morrer o mundo e ser pego em flagrante. Vontade de encolher a cidade em um quarto. Vontade de respirar sua respiração, pensar ter falado e não falar. Vontade de não ter existido antes para não me contradizer.

* * *

O apaixonado não é egoísta. Ele larga seus hábitos, para conhecer verdadeiramente quem ele gosta. Faz greve de sua personalidade. Muda a rotina, os horários, se esvazia dos preconceitos. No momento da paixão, cria necessidades súbitas. O que considerava fútil torna-se útil, o que considerava útil vira fútil. Se ele não gosta de bossa nova e ela sim, sairá à cata de tudo o que houver sobre o assunto. Vai se transformar em um especialista numa semana. Cursos intensivos são perfeitos aos apaixonados. Mais do que isso, não presta atenção. Menos do que isso, não convence.

* * *

O apaixonado é um ansioso. Precisaria ser dispensado do emprego durante o período. Suas distrações são maiores do que os acertos. Qualquer empresa deveria proibir a presença dos apaixonados - eles não estão nem aí. A produtividade cai, os contatos rareiam, as desculpas aumentam. Não entendo como não existe uma licença maternidade e paternidade para a paixão.

* * *

O apaixonado é um feriado. Ele se perde no trabalho porque está concentrado na falta. Ele é a própria falta. Preste atenção no jeito de um apaixonado sentar, torto e desajeitado, ele não ocupa toda a cadeira, é como se dividisse seu canto com alguém imaginário.

* * *

O apaixonado pode fazer as cenas mais hilariantes na rua sem perceber. Chorar no meio-fio da calçada, arrepiar-se de ciúme, gritar diante de um bar lotado. Seu sentimento é uma pessoa. O apaixonado muda de opinião com receio de ser abandonado e se abandona para se encontrar diferente.

* * *

Ninguém entenderá o apaixonado a não ser ele mesmo. Ele volta a fazer amizade com sua solidão.

11:42 AM :: Comentários:

JORNAL ZERO HORA, CADERNO CULTURA, 8/10/05

MÁQUINA DE DEMOLIÇÃO
Novo livro do gaúcho Carlos Eduardo Caramez funciona como o diário de uma desintoxicação - física e política

Fabrício Carpinejar*

Ilustração de Jean Cocteau


Carlos Eduardo Caramez possui o dom de nunca se adiar ou se protelar. Escritor gaúcho, representa uma aparição fulgurante na poesia brasileira. Lançou Construção das ruínas (Leitura XXI, 86 páginas), sua segunda obra, que completa e prossegue a Última safra do silêncio (1998). Os dois livros têm igual subtítulo: Poemas incuráveis, envoltos na mesma placenta de inconformismo e luto. Poesia visceral, apressada, fendida, que não leva desaforo para casa. A leitura acontece em desafogo, em desabafo, para ser feita com estetoscópio. Em cada passagem, há a gravidade de um segredo sendo dito, de uma confidência urgente. A sensação é que o autor segura no ombro do leitor para falar e acentuar a gravidade da revelação.

Caramez se impõe como se fosse tarde mas ainda necessário, com um desencantamento que resgata a raiva fria e a bílis de José Régio e de Álvaro de Campos. "Não vou para o futuro / já conheço Deus / desobedeço o Diabo / atravesso o escuro / transgrido o tempo / prefiro correr outros riscos // troco meu nome na lista / saio da fila de embarque // resolvi não esperar mais / não deixar nada pra depois / fico infinito aqui mesmo / o mais bonito que posso / não vou brilhar além disso // me encontre daqui a pouco / amanhã pode ser tarde demais".

Retrata uma geração que foi fundo nas drogas, na ideologia, no amor e ainda não se curou dos limites. "Tudo que tem passado não me serve", diz em um dos dísticos, confessando que essa geração, hoje cinqüentona, se encontrou com o futuro e não se reconheceu. É uma celebração da insônia, da vigília, do anonimato. O tom é noturno, próprio da impaciência, da agressão que se defende, não a que ataca.

Um paralelo é perceber o livro como a transposição de um drogado ou de um bêbado em estado de desintoxicação, como fez Jean Cocteau em Ópio. Sofre-se o impacto do jejum, da perda gradual dos sentidos e da dependência. São vários os exemplos de um estado selvático de torpor, entre fome, fadiga, sede e vontade de não se curar: "pior que morto / imprestável para enterro" ou "me dá o branco / vem o apagamento // não sinto mais nada / fico como um fio / desligado da tomada" ou "acostumados com a dor / a espera de um telefonema / do sono / de alguma grana / de um". É o diário de um isolamento que não permite nada pessoal, como a solidão ou a esperança. O vício ronda como um inimigo oculto, que não oferece trégua. Um inimigo que conhece mais o sangue da vítima do que a própria vítima: "sou engolido por mim mesmo". A dor física é de menos diante da dor intelectual, que supera as contrações e o enjôos. Uma dor da ausência. Uma dor de um braço que não existe mais, de uma perna que cansou de ir, de um corpo que se conformou em ficar quieto.

Enquanto muitos autores constróem sua identidade nos primeiros livros, Caramez destrói a sua, esfacela a personalidade em um jogo de paradoxos e contradições. "chego sempre atrasado/ ando com dificuldade/ a minha sombra e o meu vício/ transformam meu próximo passo/ num cair de precipícios/ perco todo meu tempo/ para desfazer isso". Produz uma experiência afirmativa de denúncia a partir da soma negativa de desastres. Cada perda e derrota é uma cicatriz, uma lição.

O esgarçamento, o desafrouxar da aparência, o aniquilamento tanto verbal como temático prolongam o mal-estar. Em nenhum momento, a persona poética exige compaixão e pena, socorro e ajuda. Não entra na vida, tampouco se despede. Construção das ruínas valoriza o olhar periférico sem pedir a compensação da esmola. Não deseja a reintegração social: "não faço pedidos / não tenho alegria sobrando; / tudo meu está contado / contido / não existe folga / margem da manobra / é tudo exato / como uma bomba-relógio".

Não bastando falar na cara, Caramez aponta com o dedo. Identifica a omissão como o pior dos esquecimentos, o esquecimento familiar, de quem viu e não disse nada: "muitos vão dizer / que não sabiam // outros vão dizer / que não imaginavam". Em Caramez, andar sozinho é ainda estar acompanhado. Da honestidade.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Como no céu/Livro de visitas, entre outros.

10:08 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 06, 2005

UMA TOALHA E OITO VIDAS
Da série "Infâncias inventadas"
Pintura de Magritte

Para Ésio, meu amigo

Fabrício Carpinejar



Morava em Alegrete. Quando criança, não queria tomar banho. Não por preguiça ou desleixo. Não por receio ou molecagem. Não queria tomar banho porque nunca poderia me secar direito.

Havia apenas uma toalha para os oito irmãos. Era o caçula.

O último a receber o pano, então pesado, pegajoso e úmido. Um nojo que não podia recusar. Evitava olhar durante muito tempo o pano azul. Fingia independência. Mas o pano azul no gancho ria de mim, me torturava dizendo: "entra, entra, entra". Uma puta que me esperava todo dia para tirar a minha virgindade.

Eu secava leve o corpo como se fosse um azulejo. Não conseguia sugar nada. Comprimia a lã com a lentidão de uma esponja. Como se estivesse em carne viva, como se fosse uma só ferida. Assim me secava, não querendo me tocar. Lembro da sensação das roupas colando na pele, a sensação de suor alheio, de vida emprestada. O cheiro usado, vencido e vendido da toalha.

Até a etiqueta não se levantava mais, derrotada pela passagem de tantos nus em menos de uma hora. Melhor era sacudir os braços tal cachorro, jogar a água longe e contar com a complacência do vento. Para me aquecer, corria ao sol se fosse manhã ou diante do fogão a lenha se fosse noite.

Acreditei até os cinqüenta anos que fui o desfavorecido da casa, a vítima. Ciúme dos meus irmãos que colhiam uma tolha mais seca, mais civilizada, mais risonha. Não compreendia a sina, o azar, a obrigação de cumprir o pior papel na fila indiana.

A pobreza fez brincadeira de mau gosto comigo. Não me permitia cheirar bem. Eu cheirava outra carne, outra pronúncia, outras covardias. Eu cheirava a própria falta de lugar.

Recentemente encontrei com meu irmão mais velho. O primogênito, o favorecido, o privilegiado, que pegava a toalha enquanto viva. Olhei fundo para ele, igual a uma criança subindo no banquinho de madeira para se observar no espelho. Acertaria as contas, desabafaria.

Contive a raiva, encontrei um pouco de ternura na voz:

- Como era se secar bem, usar a toalha pela primeira vez?, questionei.

Desejava descobrir sua alegria, já que a inveja não me deixou perguntar isso ao longo das décadas.

Ao invés de um riso franco de superioridade, ele fechou o rosto, entortou a boca com repulsa:

- Horrível, era horrível, aquela toalha seca e usada doía como um pano de chão. Vinda do varal, as felpas duras arrancavam o couro, um porco-espinho. Eu ficava riscado e arranhado. Eu sentia ciúme de ti, porque recebias a toalha amaciada e fofa.

9:51 AM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 04, 2005

O PRIMEIRO BEIJO
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Beija-se pelo primeiro beijo, mas o primeiro beijo não existe. Não há como dizer como foi o primeiro beijo se o beijo não se contenta em acabar. O primeiro beijo é tão-somente a fome do segundo, o desejo da seqüência. Já se está no terceiro beijo enquanto se pensa no primeiro. Já se está no quarto beijo, no quinto beijo e o primeiro beijo não terminou. Já se está no sexto beijo, no sétimo beijo, e o primeiro beijo nem começou. O beijo é sempre o primeiro beijo, mesmo que seja o último. O primeiro beijo não é pedido. O primeiro beijo é roubar um beijo roubado, beijar o roubo do beijo. O primeiro beijo não é o beijo de delação, é o beijo dos cuidados, o beijo em que a própria boca enfim redime seu gosto de infância. O primeiro beijo é o gomo de um rio, o gomo verde de um rio. O primeiro beijo tem uma raiva suave, é um desaforo de ternura. Quando o grito pede para sair e fica. O primeiro beijo é alisar a fruta na lã, dar uma volta na quadra da semente e não arrancar o sumo. O primeiro beijo demora para sarar, depende de outros beijos. O primeiro beijo tem o mesmo sangue que corre nos olhos. O primeiro beijo é indeciso, sopra e não sela. Abre cartas e não fecha. Só respiração, sem dentes. O primeiro beijo não morde, não raspa, não modifica a madeira, pousa como esponja, repousa de pé. O primeiro beijo anda para trás para retomar o livro. O primeiro beijo perde a contagem de beijos. O primeiro beijo é ganhar uma voz sem perder a que havia. O primeiro beijo muda de timbre a lembrança, é o marcador de página dos beijos. O primeiro beijo é uma distração das mãos.

Enquanto se beija não se percebe que se beija, é como estender o braço com a língua. O primeiro beijo escapou e ninguém viu, voltou e ninguém notou. É passear fora do corpo e estranhar as pernas. O primeiro beijo é mais íntimo do que qualquer nudez. O primeiro beijo é a nudez perdoada. O primeiro beijo é segurar o pescoço como uma janela. O primeiro beijo é o rosto que se beija dentro dos lábios. O primeiro beijo é dormir entre os dedos. O primeiro beijo vai beijando a memória enquanto se esquece. O primeiro beijo é nunca mais se distanciar do primeiro beijo. O primeiro beijo é uma despedida que não se acredita. Um início que se duvida. Depois do primeiro beijo, todo o beijo será o primeiro.

11:45 AM :: Comentários:

AGENDA
Pintura de Marc Chagall



5/10 (quarta), 14h30 - Debate e videoconferência sobre a minha obra, dentro do projeto 10 Patronáveis da 51ª Feira do Livro de Porto Alegre, uma parceria da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e da Câmara Rio-Grandense do Livro. Jornalistas debatedores: CRISTIANE FINGER (SBT) e LENA KURTZ (TVE). Mediação: ANA MÁRCIA MARTINS DA SILVA
Endereço: Rua João Manoel, 50, auditório da UERGS, no 4º andar - Centro (Porto Alegre)

5/10 (quarta), 18h30 - Sarau Elétrico, com Kátia Suman e Frank Jorge na Faculdade de Odontologia da UFRGS (Rua Ramiro Barcelos), em Porto Alegre (RS)

6/10 (quinta), 18h- Leitura de poemas e sessão de autógrafos de Como no céu/Livro de Visitas na Universidade Federal de Goiás, dentro do Simpósio Lírica e contemporaneidade: percursos. Goiânia (Goiás).

7/10 (sexta), 8h- Conferência "Nascer uma vez é pouco" na Universidade Federal de Goiás. Goiânia (Goiás).

11/10 (terça), 17h - Participação na Feira do Livro de Cachoeira do Sul (RS), Local Praça José Bonifácio

11:42 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 02, 2005

AMADO PELAS SOGRAS
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Meus amores não eram simples. Atração à primeira vista, comigo feio, não havia como acontecer. Eu tinha a missão de acabar com a primeira impressão. Destruir os contatos iniciais. Precisava de tempo para mostrar que a inteligência podia ser mais agradável do que a beleza.

Sofria por antecipação. Não poderia deixar a mulher ir no toalete, mas também não queria me amarrar numa camela. O que restava? Rezar sem denunciar o sinal da cruz. No momento em que a mulher saía para conversar com a amiga no banheiro, lamentava: "Pronto, estou destruído". É óbvio que a amiga abriria o olho e falaria horrores de mim. Conseguir a aprovação de uma única mulher numa noite é difícil, imagina de duas? O que as mulheres cochicham no banheiro são decisões francas e impiedosas.

Para levar um amor a casa dependia de longas conversas e persuasão, sedução e carisma. Nada acontecia de cara, no ato, por atração. Minha vida não se resolvia no primeiro tempo. Nem no segundo. Talvez no jogo de volta, com o apoio da torcida.

Já levei muito fora, dei muita mancada, pisei na bola. O que mais me dificultava nos relacionamentos adolescentes era a facilidade tremenda em conquistar a mãe da mulher com quem desejava ficar. Conquistava a sogra, não sua filha. Surgia como o par ideal da família, nunca de quem gostava. Representava o tipo cordial, educado e romântico, que não falaria palavrão em público, nem chamaria todo mundo de "cara" independente do sexo, capaz de colocar o guardanapo nos joelhos e acertar o uso dos talheres. Ou seja, o tipo mais inofensivo que existe, forjado à paz e inadequado para a guerra. É óbvio que isso somente aumentava a minha rejeição. O que uma mulher deseja na adolescência é alguém que se oponha justamente aos pais. A sogra me recebia com estardalhaço, preparava almoço ou jantar, puxava assunto. Se sua filha dizia que não queria me atender, passava o telefone a fórceps.

O pior consistia em superar os elogios sem pudor (o que significava constrangimentos extremos). Nada é mais agressivo do que um elogio exagerado e falso. Certa vez a mãe de uma candidata, não encontrando o que comentar depois de falar da chuva e da escola, elogiou minhas meias e me obrigou a levantar a bainha. "Mostra para ela, mostra". Eu me senti um stripper, motivado por uivos e com notas na tanga. Ao expor minhas canelas finas e tortas, a relação morreu ali.

Sem contar a figura paterna, que contava histórias infindáveis e detalhistas de pescaria, me induzia a espetar o coraçãozinho e rir ao mesmo tempo, a entender de política e negócios e da cotação da bolsa de valores (uma contradição, já que entendia apenas de mesada e recolher trocos de uma bolsa a outra da minha mãe). Desagradava-me também o fato de que poderia me tornar simpático apenas sussurrando sim diante da maioria dos assuntos desconhecidos.

Quanto mais os pais gostavam de mim mais o sonho de um namoro se distanciava. Eu terminava abandonado na primeira semana, longe de resultados efetivos. Fazia eternamente sala e não chegava à cama.

Sabia exatamente quando a relação começava a definhar. Na hora em que a sogra me reconhecia como seu filho. A partir deste instante, seria impossível casar, transar ou ficar com uma irmã.

9:37 AM :: Comentários:

O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO 2, 2/10/05

CONVERGÊNCIAS DE UMA ESTRÉIA

Fabrício Carpinejar*



Minas Gerais não deixa de preparar surpresas. A nova é Sílvia Rubião, sobrinha do consagrado escritor Murilo Rubião, que faz sua estréia na poesia com "Tangências" (7 Letras, R$ 16). Diga-se desde já que é uma estreante, o que não deve ser confundida com principiante.

Tal como Adélia Prado, começa a publicar depois dos 40 anos, pronta, intensa e com uma aptidão rara a clarear o interior feminino. Se alguém ainda pensa que a obsessão das mulheres é conservar a beleza, descobrirá que se trata de corrigir desarmonias. "Um gesto traz a saia/ para a cintura exata/ a seda enrolada/ contém o excesso, disfarça/ incompletas imperfeições/ de tantas ancas."

A primeira virtude demonstrada pela autora é perseguir o silêncio para atormentar a linguagem. A linguagem deixa de ser uma obrigação comunicativa e vira premonição ("Tempo em que nada basta/ tudo é urgência, é ânsia/ o exagero em vigília"), com liberdade imaginativa para antecipar e alterar realidades. Opera no espaço do interdito, do pressentimento. Executa um jogo de provocação com os tabus familiares e as censuras psicológicas. Há nela uma mística da paixão como religião ingrata, em que a fé sobra mais do que os santos, mas ainda é melhor ter fé do que raiva.

Igualmente como Adélia, cria uma narrativa sutil dentro e entre os poemas, que se constitui em uma larga vantagem diante da fragmentação da poesia brasileira contemporânea. Tem conjunto, um núcleo de idéias que se move e troca de lugar - quase imperceptível - no fundo dos versos. Não substitui a vida, a intensifica, aplicando uma filosofia prática e sintética do mundo, em conselhos que podem ser soprados ao vizinho sem ofender. Nota-se uma aplicabilidade sábia do seu pensamento, nada é oferecido aleatoriamente, sugere uma verossimilhança de cenas que tensiona e refina o conhecimento.

Recorre a fluidez sinuosa da água para representar sua figura no amor, ora chuva, ora caudaloso pântano, ora deslumbramento, ora esquecimento. "Sem pressa, me deixa escorrer". Se a poeta procura a tangência, conforme explicita no título, encontra a convergência. As linhas da infância e da maturidade se completam.

Na poética de Sílvia, não importa a verdade, porém um modo de dizer a verdade sem destruí-la. Nas separações, obtém a dramaticidade do lento desvelamento. Apresenta limiares afetivos em que não há escolha, não adianta recorrer à impiedade e declarar ao parceiro que se perdeu tempo um com outro. A única alternativa é tentar diminuir a culpa da despedida. "No fim de tudo/ há uma constrangedora intimidade/ ele esmaga o cigarro no cinzeiro/ ela crava as unhas no próprio braço/ Quem primeiro desviaria os olhos? Quem enfim se renderia ao silêncio do outro?"

Seus poemas não são retalhos, em que os versos dependem mais da benevolência do leitor do que da legibilidade e do esforço criativo do autor. Suas metáforas trabalham unicamente para legitimar a idéia e a música, não querem aparecer mais do que está sendo dito. Suas rimas são costuradas em ziguezague, internas, perfeitas ao cantochão. "Colhe do cáctus a flor ausente/ talha ali, com arte/ sem que breve eu te perceba/ sulcos de encanto e visgo".

Sílvia tem uma contrição rítmica que evoca os melhores momentos da uruguaia Idea Vilariño. Fala do amor com sobriedade. Não avança no confessionalismo. Quando chega perto da catarse, muda de assunto. É sensual e sensitiva, procurando descrever o lugar em que mora com detalhismo de cores e fidelidade auditiva. "O ar respira mangas e magnólias/ as cigarras enchem as tardes de lamento". Explora os costumes para fundamentar a presença. É um achado sua percepção de um homem se barbeando no espelho, a decidir entre a tarefa e a vaidade. "Toma o pincel/ espalha com preguiça". Transforma o espelho em um poço de sentimentos contraditórios. O homem experimenta ali o poder da metamorfose, de se machucar ou de assegurar o brilho perolado.

No mais puro sofrimento, Sílvia não sacrifica a elegância. "Desvio-me como posso, dobro-me/ faço que me encaixo nesse esquadro/ e escapo". Sua timidez e pudor são uma forma precisa de consolidar a intimidade.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Como no Céu/Livro de Visitas

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Sábado, Outubro 01, 2005

Jornal do Brasil, Caderno Idéias, 1º/10

OS BICHOS ESTÃO SOLTOS
Livro brinca com a irracionalidade civilizada dos homens

Fabrício Carpinejar*
Jornalista e poeta



Cachorros do céu
Wilson Bueno
Planeta
96 páginas
R$ 27

Os homens ficam ridículos quando imitam os animais, mas os animais ficam ainda mais ridículos quando imitam os homens. Esta inversão é o ponto alto de Cachorros do céu (Planeta), o novo, hilário e histriônico livro de Wilson Bueno, poeta e ficcionista paranaense, autor das narrativas Amar-te a ti nem sei se com carícias, Cristal e Meu tio Roseno, a cavalo e dos poemas de Mar paraguayo, em que mistura português, espanhol, portunhol e guarani.

São vinte e cinco contos que retratam a vida estressada e panteísta da floresta. Na coletânea, regurgitam e esguicham humor e escárnio, inversões e aliterações, paradoxos e brincadeiras orais. Wilson Bueno é um narrador que não condiciona às obras ao seu estilo, porém se adapta ao estilo de cada obra. É o livro que manda o que ele tem que dizer, resultando sempre, a cada volume, em um surpreendente universo a explorar.

Cachorros do céu, que segue a trilha aberta em Manual de zoofilia e Jardim zoológico, está mais próximo das metamorfoses oníricas, poéticas e irascíveis de Ovídio do que das fábulas morais de La Fontaine. De lição de moral, pouco se encontra. Não é um livro recomendável às crianças para disfarçar carências e contrabandear ideologias. Não servirá para formação do caráter, pois deforma os lugares-comuns e os truques redentores dos contadores de histórias. O ''era uma vez'' termina sendo ''uma vez sempre''.

Ovídio não aparece apenas na epígrafe (''Se os bichos falassem, nada diriam''), presente também como a alma mutante do bestiário. Tudo muda para permanecer o mesmo. Sapos se apaixonam por girafas e jibóias, lebre se enamora por gato e depois se conforma com os dentes de cavalo do macaco, corvo se junta com a hiena. A monogamia anda com índice baixo na mata. Não existem jaulas separando as espécies. Os desvios e vícios humanos são distorcidos e ampliados em trejeitos nos animais. Símios fumam; lebre é obrigada a tirar umas férias, sujeita a um enfarte de miocárdio; rã escreve, não encontra editor e só é reconhecida depois de morta. Percebe-se uma indisposição em todas as tocas e galhos. Na verdade, nenhum animal está satisfeito com sua condição. Um fica achando que o outro vive melhor. O zoomorfismo de Wilson Bueno torna-se um manual perfeito da inveja. O ponto alto do livro são justamente os diálogos metafísicos sobre as diferenças entre o Urubu e o Condor, a Lagarta e o Cágado, a Lebre e o Cágado e o Colibri e a Borboleta. Neste último, o Colibri queixa-se que gostaria de ser como a Borboleta, sugando o néctar das rosas e voejando pra lá e pra cá. A Borboleta não deixa por menos e mostra que as aparências - não somente enganam - como têm um preço alto:

''- Você diz isso porque não sabe o duro que é ser por longuíssimo tempo uma vagarosa, peluda e repugnante lagarta...''

Os bichos são caricaturas verbais, em uma linguagem ora empolada ora carregada de gírias, que se diverte com os ecos do aprendizado infantil, a exemplo do excesso de erres no causo de ''Rildo, o Rato'' (que lembra o bordão ''o rato roeu a roupa do Rei de Roma''). O crítico Ivo Barroso, na apresentação, destaca a riqueza dos recursos estilísticos: ''O acervo fonográfico contempla desde os arrulhos machadianos das iaiás-garcias às asperidades portunhólicas das chinas paraguaias''.

As bizarrices são inteligentes e ácidas, indicadas para digestão demorada das jibóias. A comédia de costumes põe a irracionalidade civilizada dos homens (alpinistas sociais) no lugar da racionalidade selvagem dos bichos (cadeia alimentar) e converte o estranhamento em identificação. As histórias partem de provérbios como ''cobras criadas'' e ''parente é serpente'' para dissecar a patologia da fama, assim como expõem estruturas familiares gangrenadas e a violência das metrópoles. Em Cachorros do Céu, não falta seqüestro. Ovos de águia são raptados pelo corvo e o resgate é mediado pelas cobras advogadas, que solucionam o caso devorando seus próprios clientes. Galo é o rei da rinha na música pop. Assediado por galinhas velhas, troca seu fiel público para se casar com uma franga nova. Macaco Eusébio, um tenor admirado pelas suas óperas nas altas árvores, é asfixiado pelo sucesso, muda de identidade e vira gato. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

* Fabrício Carpinejar é autor de Como no céu/Livro de Visitas

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