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Fabrício Carpinejar


 

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Quarta-feira, Novembro 30, 2005

SACO DE PRESENTES
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



Em festa de criança, eu fico incomodado com o saco de presentes. Uma cesta escandalosa na entrada em que os convidados despejam os pacotes. A ação é essa: despejo. Eles até procuram o anfitrião, mas são dissuadidos e orientados a deixar os embrulhos ali, como se fosse qualquer coisa. Como se fosse embalagem usada de docinho. É um contêiner de entulho versão luxo. Cria-se uma situação de pedágio, paga-se para transitar. E a cancela é automática, sem nenhum rosto para confortar.

Na minha infância, o aniversariante recebia o convidado na porta, rasgava o papel com avidez e cumprimentava efusivamente. No mínimo, agradecia com um abraço. Dependendo do entusiasmo, com um aperto, beijos e um puxão. Identificava quem havia dado a lembrança e alfabetizava o afeto. Saía a contar a novidade aos familiares, com os dentes ainda banhados de saliva.

O saco de presentes é hoje um pequeno tirano. Convenhamos, é um sinal de desprezo. Escolhe-se o brinquedo com minúcia durante horas em um shopping, procura-se o que de melhor pode agradar e não se dá a mínima para o mimo. Os brinquedos serão abertos em escala industrial depois da festa. O afortunado, na ânsia de descobrir o que vai por dentro, não verá nem o nome de quem ofereceu na etiqueta. Não valorizará cada objeto, pois ficará desconcertado com o excesso de opções. Brincará um pouco com o primeiro, um pouco com o segundo e esquecerá os demais. O saco de presentes é ensinar a criança a quantidade, não a qualidade da amizade, é ensinar o distanciamento, não a companhia e a convivência, é ensinar a bajulação, nunca o respeito. Transmite ostentação, arrogância e individualismo. Afinal, todas as crianças da festa querem desvendar o que o aniversariante ganhou. Por que não repartir a memória?

Na semana seguinte, a mãe e o pai organizadores da comemoração não saberão agradecer o presente. Desconhecem o verdadeiro remetente. O jeito é fazer de conta que a festa foi no ano passado e mudar de assunto.

É a cultura do refugo, disfarçada no anonimato. É de se pensar que o saco de presentes está espalhado no cotidiano de diferentes formas. Quantas vezes não o usamos em nossa casa sem querer? No quarto ou na sala de estar, no momento em que deixamos de ouvir para falar, que deixamos de se surpreender para não perder tempo. Que deixamos de gritar, de se expandir com emoção, de exagerar com receio de ser espontâneo. Que deixamos de abrir a vida na frente do outro por comodismo ou indiferença. Quantas cestas invisíveis não existem entre os casais, para empilhar palavras que permanecerão para todo sempre desconhecidas?

8:47 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 29, 2005

DOIS AMORES-PERFEITOS NA JANELA
Gravura de Kurt Schwitters

Fabrício Carpinejar



- Desejo passar o resto de minha vida contigo.
- Não, uma vida contigo nunca será resto.

- Não põe palavras em minha boca.
- Não, beijar é tirar palavras de sua boca.

11:49 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 26, 2005

SEXO COM AMOR
Pintura de Max Ernest



Fabrício Carpinejar

Eu duvido de toda a liberdade que não seja responsabilidade. Nunca me senti tão livre quando tinha que cuidar dos meus irmãos pequenos enquanto a mãe estava no trabalho. Preparava o almoço, atendia a visita gritando na janela (nunca pelo vidro da porta), tentava acalmá-los no momento que ficavam ansiosos pela volta materna.

Hoje liberdade parece que é não se importar com o outro. É fácil esquecer amores, amizades, empregos. Não percebo resistência, luta por uma paixão, superação das dificuldades, persistência por um ideal, leitura de lábios, dedicação exagerada e até irritante. Não se faz mais um samba por uma dor-de-cotovelo ou em nome de qualquer parte do corpo. Não se toma um porre para chorar em público por uma mulher. As relações se esgotam em um torpedo. No primeiro empecilho, troca-se de par, troca-se de casa, troca-se de rosto, troca-se de roupa, troca-se de ideologia. Se ela não está a fim de mim, digo azar e não procuro a sorte. Onde estão os obsessivos? Onde estão os fiéis? Onde estão os que acreditam tanto na dúvida que a transformam em confiança?

Involuntariamente, a psicanálise nos libertou a errar sem temor, a agredir sem dó, a fazer o que der na telha sem temer as conseqüências. Com uma terapia uma vez por semana, pode-se quebrar as regras nos demais dias e empilhar o constrangimento no lixo. Tudo é válido, nada mais é proibido, nada mais escandaliza ou merece censura. Mergulhados na ausência mórbida de opinião, já que não se pode reprovar coisa alguma, não se escolhe, não se renuncia. Condenados à felicidade, como se ela fosse um direito constitucional.

É obrigatório gozar, é obrigatório estar acompanhado, é obrigatório ser feliz, é obrigatório emagrecer. Quanta pressão e coerção por todos os lados. Não consigo manter a espontaneidade sendo cobrado. Imagina uma mulher confessar numa roda de amigos que não teve um orgasmo? "Mas como?", vão revidar. "Em que mundo vivia?", o coro grego logo recriminará.

O que devia ser uma conquista tornou-se uma culpa. E o que acontecerá? Haverá mais gente fingindo do que procurando a autenticidade. A pressa elimina o ritmo afetivo de cada um.

Não suporto a felicidade como uma imposição, muito menos o gozo ou a euforia. A satisfação pessoal não depende de mim, mas da capacidade de sair de mim. Dependo de quem amo e não me diminuo em dizer isso. Não existe arrebatamento sem idealização, mesmo que o sofrimento venha com o pacote. Cair ao menos me cura da vertigem.

Sexo com amor, política com amor, ética com amor, amizade com amor é bem melhor. E natural. Ainda que demore, durará mais do que uma mentira.

8:54 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 24, 2005

DIVÃ



Outra dúvida amorosa foi respondida em minha coluna do site da Superinteressante. Confira abaixo e no consultório poético quem cochilou no divã.

SOU SUA AMANTE, ELE LARGARÁ A ESPOSA?
Consultório Poético (para complicar o que já estava complicado)

Fabrício Carpinejar



Caro Fabrício,
Passo por um momento pessoal contraditório, sinto intensa felicidade, mas também angústia, por isso escrevo para teu Consultório Poético...

Sempre fui desconfiada em relação ao amor. Talvez tenha lido demais o Nelson Rodrigues, mas a verdade é que nunca acreditei que aquele estado de "felicidade a dois" realmente existisse, muito menos que fosse possível confiar verdadeiramente em alguém. Há um ano, porém, reencontrei alguém que não via há muito tempo e tudo mudou... É um cara por quem eu sentira atração quando conheci, sentimento que mantive secreto por um detalhe que me parecia gravíssimo na época: homem casado. Começamos a sair ano passado, de forma despretensiosa, pois ainda que aquele estado civil permanecesse, eu não me importava mais, queria mesmo algo diferente. E aí aconteceu o surpreendente (ou será irônico?): descobrimos afinidades absurdas e eu percebi que é verdade o que alguns filmes mostram, às vezes o tempo realmente pára, o riso imotivado é delicioso, até o silêncio se transforma em um momento inesquecível... Adoro o jeito dele, a forma agressiva como me toca, o jeito atencioso em outros momentos; tudo se enquadra perfeitamente, não me imagino mais sem ele... Por tudo isso, o fato de que ele é casado começou a incomodar: não posso contar para o mundo que estou feliz, os encontros são necessariamente furtivos, sinto saudades demais e até ciúme (da outra que não é outra)! Por outro lado, não consigo fazer muitas cobranças(!!!); acredito no amor dele, mas sei que gosta demais do filho pequeno, está dentro de uma estrutura familiar/econômica/social/etc. e, bem ou mal, já tem uma relação conjugal estável - represento trocar o certo pelo duvidoso, é a cruel verdade. Como posso diminuir as angústias em relação a isso? O mundo tem razão? Tudo e todos dizem que as amantes são emocionalmente submissas e ingênuas, estão sempre sendo enganadas e enganando a si próprias, passa-se a imagem de que são sempre dignas de pena, não possuem amor-próprio... Até que ponto alguém se envolve com pessoas casadas por medo de fracassar ao enfrentar os problemas que envolvem os relacionamentos convencionais? Às vezes me sinto incrivelmente única (gosto demais dele, amo de verdade, como nunca imaginei que fosse possível), mas n'outras absurdamente boba (penso "imagina só, digo que sou a namorada dele, mas estou me enganando, na verdade eu sou amante de alguém!"). Nosso relacionamento é sincero ao extremo, desde o início contamos tudo um ao outro, e adoramos fazer qualquer coisa juntos, não apenas sexo... Enfim, tudo me parece tão contraditório... E me assusta tanto a continuidade do casamento dele como uma possível separação: dúvida sobre a dificuldade atual e de uma possível decepção com uma possível mudança, de que ele sinta a falta da família. Amo-o sinceramente, acredito realmente que sou correspondida e que o nosso sentimento é quase transcedental de tão intenso e único, mas tenho medo... E se for tão bom apenas porque é proibido?

É incrível como apenas escrevê-lo me acalmou, parece que admitir certos sentimentos realmente é o primeiro passo.


Isadora, eu entendo perfeitamente o que está sentindo: ser amante é como viver um mundo invisível e imaginário. Como esconder dos amigos e amigas aquilo que lhe assegura prazer e memória? Na hora em que alguém perguntar como foi o seu dia, terá que ser genérica para omitir a presença dele. Sua maior alegria não pode ser dita, alardeada. Está apaixonada, todo mundo nota, e impedida de dizer o nome do santo (ou do demônio). Não há nada mais pungente do que não sair de mãos dadas, roubar beijo em público, controlar os locais e lugares para não serem vistos. Isso é morar clandestinamente na própria cidade. Cria-se uma paranóia que, a princípio, pode excitar, sob o signo do proibido. O que é proibido torna-se mais intenso no início. Mas a paranóia vai deixando as pessoas insensíveis, súbitas, repentinas. São capazes de fazer uma grosseria um minuto depois de um arroubo e arrebatamento. A confusão e a cisão da personalidade formam um ambiente de tensão e desconfiança.

No momento em que o caso se torna estável como o casamento, a passionalidade toma conta e qualquer um dos dois perde o juízo. Surge com força o ciúme, a posse, a cobrança. Momento em que se vira o tabuleiro e termina o jogo. As estratégias cedem espaço para uma franqueza ríspida e insuportável. O medo de perder tempo aniquila a fruição alegre do tempo.

Acredito que ninguém investe numa relação a troco de nada. Mesmo que seja por brincadeira ou passatempo, no fundo espera um retorno e ficar com o sujeito pela vida inteira. O desapego representa uma fachada social para diminuir o sofrimento e a pressão. O romantismo é um traço de nossa cultura (e talvez do caráter). Desde o princípio, ainda que inconsciente, deseja permanecer ao lado dele e torce para ser a escolhida. O amor envaidece.

Dificilmente ele abdicará do casamento, ainda mais com filho pequeno. O homem, na maioria das vezes, costuma ser racional ao terminar um relacionamento. Ele começa um namoro sem pensar, porém para findar é uma amarração só. Parece um contador analisando uma concordata. Odeia ficar sozinho ou emparedado. Não que ele não seja apaixonado por você, até acredito, mas recomeçar é uma atitude de coragem reservada a poucos e raros.

Eu faria um exercício: pensa na outra mulher, a que está casada com ele. Como reagiria na situação dela? Ela que está sendo enganada, suscetível a perder tudo sem saber ao certo o que aconteceu e como aconteceu. Seu sofrimento na história é o menor. Pois tem a vantagem da aventura, do novo e do desconhecido. Representa um futuro diferente enquanto a esposa sinaliza a permanência do passado.

Amor-próprio é um termo riscado do dicionário da paixão. Nessa situação, sobra amor-alheio, falta amor-próprio.

Não sei se o casamento dele vai bem. Se está ruim, o cara tem que tomar a atitude, não você por ele. Separar-se da mulher não é se separar do filho, crianças não merecem ser usadas como escudo para disfarçar carências. Se está ótimo, desista. Siga o curso independente dos dias, que ele vai lhe procurar assim que estiver livre.

Sobre dar certo ou não, não deve assumir a responsabilidade com uma possível decepção contigo. Não se é profeta ou seguro de vida para garantir felicidade. Tentar é o único jeito que existe para ser feliz, não inventaram outro. E errar acompanhado é melhor do que errar sozinho.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana.
E-mail: carpinejar@terra.com.br

1:11 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 23, 2005

CONTRA A FALSA SINCERIDADE

Fabrício Carpinejar



Não desejo que seja sincera. Você pode mentir. Você pode inventar. Você pode deixar de dizer. Não ficarei magoado. Nunca ouvi coisa boa quando alguém foi sincero comigo. Nunca ouvi uma declaração de amor. Uma declaração de fé. Uma declaração de confiança. Com a sinceridade, suportei despedidas, críticas e desaforos. Fui demitido ou avisado do fim do namoro. Não fui promovido, abençoado. Não me ressuscitaram com a sinceridade. Não recebi pedido de casamento. Não me salvaram com a sinceridade. Não me resgataram com a sinceridade. Não tiveram pena, compaixão, compreensão com a sinceridade. Ser sincero é uma condição que traz unicamente cobrança, ajuste, saldo.

"Posso ser sincera?" é sinônimo de "agüente sem gritar". Expressa arrogância. Sou contra a catarse de falar para ocupar espaço. Falar para exorcizar, para esvaziar a consciência. Dane-se a consciência! Não me alivia falar. Não me alivia jogar para fora. Demoro-me porque pretendo jogar dentro. Criar raízes nos seios.

Ser sincero é afastar, repelir, é maldade comportada. Prefiro um ódio selvagem a um ódio civilizado. Um ódio civilizado é rancor. É recalque. Recuso o rancor. Recuso o que finge espontaneidade.

Essa franqueza não ensina, machuca. Essa franqueza debocha . Tiraniza. Não seja sincera comigo. Não me faça sofrer em nome da honestidade. A honestidade nada tem a ver com isso.

Que me engane com promessas. Que me prometa o que não fará. Que me prometa mesmo que não confie. Que me prometa como forma de começar a confiar.

Guarde um pouco de você para depois. Deixe adivinhar. Não me conte tudo. Deixe pressentir. Não me conte tudo.

Não estou exigindo que fale mal de mim pelas costas, mas que também não seja de frente. Que tal de lado?

Falar o que se pensa não é falar o que se deseja. Não quero saber de transparência na relação, nem a verdade é transparente. Não conheço ninguém que tenha sido franco para proteger, para cuidar, para acariciar. Desde quando se pede licença para bater? Não dou licença, não permito a sinceridade que seja violência, tiro os óculos apenas para beijar.

Não me diga o que pensa. Em sua sinceridade, não encontrarei opiniões agradáveis. O que vem à cabeça não é a cabeça. Não seja sincera comigo. Pode ser sincera consigo, com os outros, com os pais, com os amigos, comigo não. Não pedi sinceridade, pedi amor. O amor não está nem aí para o que acreditamos e deixamos de acreditar. Ele acontece apesar de nós.

9:52 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 22, 2005

MISS CULTURA NA PALAVRARIA
Concurso de miss literatura acontece nesta quarta (23/11), na Livraria Palavraria, com o tema "Feios, sujos e malvados". A entrada é franca.

Pintura de Andy Warhol



Ser feio tem seu charme, ainda mais no concurso de miss. Mas para ganhar o certame, só sendo também sujo e malvado. A sétima edição do tradicional Miss Cultura retrata os melhores textos sobre excluídos sociais, que fizeram da literatura a melhor forma de vingança, escárnio e maldade. Os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Paulo Scott (que substitui Marcelo Carneiro da Cunha, suspenso pelo terceiro cartão amarelo e que voltará no próximo jogo) realizam uma exótica compilação de personagens sombrios e errantes. O evento acontece na quarta (23/11), às 19h30, na Livraria-café Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 - Bom Fim Telefone 51 3268 4260 palavraria@palavraria.com.br ), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca.

A convidada especial vem de São Paulo: a poeta Mariana Ianelli, jornalista e mestre em Literatura e Crítica pela PUC-SP, autora de "Trajetória de antes" (1999), "Duas Chagas" (2001) e "Passagens" (2003). Está lançando o livro "Fazer Silêncio" (Iluminuras).

O programa funciona como um "karaokê recital", com desfile de fragmentos de contos, romances e poesias. A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos dos apresentadores sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

MARIANA IANELLI autografa seu livro "Fazer Silêncio" na quinta (24/11), às 19h30, na própria Palavraria. Fiz as orelhas da obra. Convido todos.

UMA VASILHA DE OCEANO

Fabrício Carpinejar

Mariana Ianelli produz silêncio no leitor. Um silêncio que é cumplicidade e empatia, a identificação de uma memória em comum.

A escritora refaz o passado com o refinamento de uma profecia, cria uma "arqueologia sagrada" de seus hábitos, desaloja verdades das aparências. Em sua poética singular e febril, cuidadosa e alentada, não há desperdício. Descobre o "rumor do oceano/ no fundo de uma vasilha".

Não existe propriamente o passado, o presente e o futuro, mas aparições, fulgurâncias de uma compreensão simultânea dos tempos. "Não há tempo que me fortaleça/ Sem antes ter me derrubado." Seu olhar é de cima, como do alto de uma árvore, dos telhados, das costas de um anjo. Ela ensina a arte de perdoar, entende as imperfeições que pesam, problematizam e enriquecem a vida. "De todas as paixões do mundo/ Resta-nos o dom de saber perdê-las." Não condena o sofrimento com castigos, culpas e maldições. O sofrimento é sábio e transmuda-se na alegria do autoconhecimento. Não pune; abençoa com a partilha. Para cada aflição, indica uma receita curativa. Ao desespero, sugere "o consolo num copo de cidra".

São poemas para a moldura da voz. Mariana tem uma vocação classicista para lapidar a dúvida em diamante. O adjetivo é bem colocado, os paradoxos são necessários e os versos se perfazem em paralelismos bíblicos. Persegue a justiça e o equilíbrio da forma. Assim como Sophia de Mello Andresen e Maria Teresa Horta, grandes autoras de Portugal, condensa o raro em instantes de deslumbramento, descarna o mínimo com acurada intensidade, ultrapassa a vagueza pelo simbólico e adere ao território mágico das evidências.

Se no outro lado "a eternidade é leve", aqui, neste livro, a escrita ajuda a passagem da brasa ao cristal, do animal ao espírito, do prosaico ao sacro. Dificilmente a poeta fala por si, na primeira pessoa. Recusa a catarse existencialista ou os achaques domésticos, fala com os outros (nunca pelos outros), em conjugação coletiva. "Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo." Sua mitopoética tem um andar místico e concentrado, a retirar visões sobrenaturais de banais conjunções dos fatos. "Vês aquela menina?/ Alheio à sorte, não podes vê-la:/ Falta-te o conhecimento do oculto:/ Essa criança será tua mulher daqui a vinte anos." Supera a indigência da força física a subir como perfumada fumaça dos círios e da flor oracular do fogo. Não são apenas poemas, são promessas de uma mulher que entendeu a solidão para conviver, que sonhou para contar, que viveu para não morrer a esmo.

11:29 PM :: Comentários:

SEI
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Sei que você coça o cotovelo quando fica nervosa. Sei que levanta as sobrancelhas ao sentir ciúme. Sei que pinta as unhas de cor escura quando está excitada. Sei que ajeita os cabelos nas orelhas para despertar. Sei que ao receber um beijo diz pára porque deseja que continue. Sei que repete uma frase do filho pequeno para perdoar minha ausência. Sei que somente deita sem usar as cobertas para me esperar. Sei que usa anéis para não deixar a aliança sozinha. Sei que baixa o olhar para que eu pergunte o que foi. Sei que não gosta de chavear a porta. Sei que toma banho sentada para alisar as pernas da tristeza. Sei que o pescoço é seu ponto fraco. Sei de sua vaidade ao receber convites inesperados. Sei que adora ser abraçada de costas. Sei que dança com os olhos fechados para suportar os meus olhos por dentro. Sei que usa saia para lembrar da infância. Sei que corta a respiração para que apanhe com a boca. Sei que sua raiva passa depois de chorar. Sei que depois de chorar refaz o batom. Sei que seu riso nunca abafa o meu. Sei que toma um gole de vinho para dois goles de água. Sei que não falará até a segunda garfada. Sei que prefere a cadeira da direita na cozinha, o lado esquerdo de meu corpo. Sei que demora para contar seus problemas na conta. Sei que não troca as lâmpadas, mas segura a escada. Sei que tem medo de altura. Sei que fuma para lembrar da agenda. Sei que me provoca até me irritar. Sei que depois me acalma para provocar de novo. Sei que canta no carro para me dar um rumo. Sei que aperta minha palma encaixando os dedos. Sei que grita quando a comida perde o ponto. Sei que adora dormir no sábado de tarde. Sei que odeia que roube seus chinelos de perto da cama. Sei que só dorme com as portas fechadas do armário. Sei que liga o ar-condicionado para fingir inverno. Sei que extravia os óculos de sol no porta-luvas. Sei que acorda devagar, mal-humorada. Sei que prefere as mesas perto das janelas dos restaurantes. Sei que não deixa de espiar a própria silhueta na vitrine espelhada. Sei que o provador das lojas é a sua balança. Sei que ela gostaria de visitar a mãe mais vezes por semana. Sei que gostaria de ter mais amigos para não depender de mim. Sei que o gosto da fruta melhora com os dentes. Sei que segura seus seios como se fossem minhas mãos. Sei que não é de hoje que amamos tanto o que nunca declaramos.

11:33 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 20, 2005

Folha de São Paulo, caderno Folhinha, 19/11/05:

CONSERVAS
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Minha filha, quando pequeno
os pais falaram para não incomodar
e gritar longe de casa.

Gritava dentro de um pote
e tampava. Imitava a avó,
que preparava figos em calda.

Conservo os gritos presos
em vidros no assoalho,
com o motivo, a receita

e a data de fabricação.
Uma hora posso abri-los.
Não tenho coragem de fazer sozinho.

* Esse poema inédito faz parte do inédito "Meu filho, minha filha".

9:38 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 18, 2005

PODE ME CHAMAR DE GAY
Montagem de Andy Warhol

Fabrício Carpinejar




Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto desaforado, não me sinto incomodado, não me sinto diminuído, não me sinto constrangido. Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas. Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro. Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei meus princípios, reinventei meu rosto de noite. Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher, que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas, que não economizo elogios, que coleciono sapatos. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay. Que seja bem alto. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.

2:22 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 17, 2005

SUPERCOLUNA

Está no ar a minha nova coluna do site da Superinteressante. O assunto é cantada, como fazer, como deixar de fazer. Mando abaixo, mas não deixe de espiar lá.

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CANTADA
Pintura de Jackson Pollock



Do Consultório Poético (para complicar o que já estava complicado)

Fabrício Carpinejar

"Doutor Poeta, tenho uma dificuldade imensa para começar relacionamentos, para chegar na menina, para conversar. Todos os meus namoros iniciaram apenas com a convivência, em ambiente de trabalho, com colegas. Na noite, na balada, não sei me aproximar, dar cantadas. O que posso fazer para vencer o bloqueio e ser natural? O que as mulheres esperam?"

O que as mulheres esperam é alguém que seja sensível mas não derramado, que seja educado mas não morto, que saiba sugerir e não se posicione de modo explícito, que seja sacana mas não tarado, que a faça sentir atraente mas não escandalosamente assistida como um serviço de telemensagem. Uma receita infalível é conhecer horóscopo. Não estou brincando, é sério. Compre uma revista feminina, guarde três características de cada signo que o ajudará a definir o temperamento da menina. Com uma base, basta observar com atenção seus gestos para explorar as qualidades e convicções.

Não há mulher no mundo, com exceção da minha mãe, que não fique horas falando sobre o tema. Ela se verá envolvida, seduzida, abrirá lembranças e gostos. Baixará a guarda. Deixará espaço para dizeres: - sou igual, sou igual. A empatia surgirá dos pontos em comuns, da identificação. Comente sobre a música que está tocando ou de algum detalhe da roupa. Da confiança poderá encontrar a naturalidade, superando o início travado e engasgado da conversa.

Você precisa diminuir rapidamente a estranheza, intrigar, inspirar curiosidade. Ela tem que raciocinar: "Como eu não o conheci antes". Quando ela olha para cima ou para baixo, está gostando. Miradas às laterais ou em direção às amigas, deseja na verdade sair correndo de perto de você. Controle a postura dela. Caso estiver no bar e observar fixamente para o copo, é um indício de que ela curtiu o tom e a atmosfera. Avance devagar, de lado, nunca de frente. O ouvido é a boca na primeira abordagem.

Evite lugares-comuns, tal "Está ferida? Você é um anjo que caiu do céu". De maneira nenhuma, empregar a interrogação "a conheço de algum lugar?", que pode suscitar respostas desagradáveis: "Do hospício". Não seja genérico (quem entende de genérico é farmácia), a exemplo de "você vem sempre aqui?". O tempo do contato é curto, como troca de pneus em fórmula um e exige a máxima intensidade e concentração. Ofereça bebida, ainda que uma diet. Personifique o trato, com espirituosidade. Se ela resistir, não desista, está o testando. Nessa situação, abuse do humor, banque a vítima. Faça uma autocrítica, uma piada sobre sua própria incapacidade de seduzir. Os defeitos tornam mais realista o contato, mais humano, mais vívido.

Chaveco que todo mundo recorre é atestado de burrice. Cantada deveria ser como preservativo, para se utilizar uma única vez.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana.
E-mail: carpinejar@terra.com.br


3:50 PM :: Comentários:

O FIM DA LINHA É O COMEÇO DA MÃO
Pintura de René Magritte

Fabrício Carpinejar



Amo não terminar de começar. Já me separei várias vezes da minha mulher. Vivo me separando. Experimento aquelas brigas do final de noite, em que o choro se mistura à confusão. A voz se levanta como uma campainha e nenhuma palavra pousa. Sou passional e não nego. Não é tanto o ciúme, é a vontade de se aproximar de qualquer jeito, de provocar mais amor. Desconfio de quem resolve tudo pela conversa, sereno, compassivo, com a calma de um obituário distante. Amar é comprar fiado, um dia seremos cobrados. Um dia teremos que devolver o corpo. Um dia as marcas das unhas nos braços voltam a sangrar. A morte é muito longa para separar. É a vida que separa. O excesso de vida. Um armário, uma estante, um coração nunca serão suficientemente altos como uma escada. O teto é o chão das lagartixas. Na briga, os casais são lagartixas que se escondem da luz atrás do porta-retrato.

Casais brigam para descobrir onde estão as fronteiras. Casais brigam para renovar os votos. Casais brigam para se comover. Reclinar, declinar. Repelir, retornar. Já fiz as malas, já desfiz as malas, as lentas horas da madrugada nas quais os dois se olham com medo e paciência. A vigília pelo próximo vocábulo. A vigília da mímica. Será que acabou? Será que iniciou? Ela pode sair correndo e telefonar apaziguada. Pode sair correndo e ser alcançada no corredor. Pode sair correndo estando parada. Todo o andar fechado para a discussão. "Fala mais baixo, o filho dorme". Ninguém mais em casa para apartar. A intimidade é atrito, é estourar, é explodir, é não deixar para depois. A altivez do sussurro, as chaves na mão, as chaves fora da mão. A porta do banheiro trancada, o homem se agachando como um carteiro. A porta do banheiro aberta, o chuveiro ligado para disfarçar o ócio do rosto. O ódio do rosto. O formigamento dos pés. Não se briga de meias. O casal estará de pés descalços ou de sapatos, não entendo o porquê. Lembranças vencidas voltam, conservas de lembranças vencidas são abertas. A briga é a memória do casal - o rancor não faz esquecer coisa alguma. O rancor é uma coruja. Ambos se ameaçam, se censuram, se ferem com sinais e ofensas. As sobrancelhas se deitam como aves inconsoláveis. A cama vazia como um túmulo, sem as flores acesas do abajur. Tem certeza disso? Tem certeza disso?

Não há rotina quando se ama, mas a aventura de um copo contra a parede. Logo aquele copo de cristal. Não se escolhe um copo de requeijão para se estilhaçar na parede, arremessa-se sempre o mais caro.

Depois se varre em silêncio os cabelos do copo. E o outro logo se aproxima para ajudar com a pazinha. A brasa quase extinta é enrubescida pelo vento.

Ao varrer juntos, já estamos casados novamente.

9:50 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 14, 2005

DEFESA DA NORMALIDADE
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



Só escuto escritor bajulando a loucura. Paranóico, esquizofrênico, neurótico, dupla personalidade são algumas das caracterizações predominantes entre os autores. Ninguém mais quer ser normal. O desvio é status. Houve a banalização do caso clínico, a menosprezar quem realmente sofre desse mal. Ou alguém acredita que o verdadeiro esquizofrênico comentará sua doença como um passatempo? Ele não sentirá orgulho, pois todo dia acorda para enfrentá-la e domá-la. E o processo é difícil e angustiante. É preciso tomar cuidado com a palavra, a ponto de não ser seduzido a falar o que não é indispensável. Claro que o escritor que se diz louco ganha pontos com o público, afinal mistifica sua vocação e literatura. Torna-se um ser de exceção, imprevisível. Mas o preço não é alto? Não é um egoísmo?

Proponho a defesa da normalidade. Um elogio à pacatez. Chega de pensar que a intensidade está em superar os limites. A intensidade é aproveitar os limites. É viver todas as possibilidades de um mesmo ritual. Repetir, repetir, para aperfeiçoar as variações. Contar uma mesma história para reparar e se deliciar com as pequenas mudanças.

Quero mais é ser normal. Brincar no parque, rolar na grama, andar de mãos dadas, dançar até perder o domínio dos pés, tomar sorvete em noites tórridas, cuidar dos filhos, namorar na frente da televisão, buscar um cobertor para aquecer a mulher quando ela dorme na sala, assobiar para espantar o tédio, comentar a violência e a política na parada de ônibus, bagunçar as gavetas no trabalho, usar tênis folgado para as caminhadas. Quero mais as alegrias perecíveis. Um café da manhã com direito a farelos na toalha e goiabada no chão. Quero mais naufragar na rotina. Fazer tudo exatamente igual porque gosto, porque escolhi essa vida e não foi imposta, porque quando amo nada se esgota, nada tem fundo.

Muitos proclamam a loucura porque não estão nela. Cômodo assistir as brasas do inferno de longe. É também uma forma de se eximir da responsabilidade. Fácil declarar que se é louco para não arcar com as conseqüências, tanto aqui como no tribunal.

Ser louco não é coisa boa. Não traz consolo, prazer ou conhecimento. Ser louco é uma profissão estressante, sem amigos. O louco desconfia de sua própria imaginação. Ele pena para manter sua saúde. Devemos valorizar a saúde para não torturar a linguagem e os leitores.

10:39 AM :: Comentários:

CLICRBS - 13/11/2005
Feira do Livro

BELINHA É MISS CULTURA VIRTUAL
Conto de Marcelino Freire obteve 28,57% dos votos

Belinha, conto de Marcelino Freire, ganhou status de Miss ao garantir 28,57% dos votos no Miss Cultura Virtual, a versão online do sarau criado pelos escritores Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha. Na edição para a internet, a convidada foi Marcia Tiburi.

Cada um dos escritores selecionou cinco textos sobre amor e os internautas votaram no seu preferido. Belinha foi escolhido por Marcelo. A Princesa do sarau online é Para uma Avenca Partindo, de Caio Fernando Abreu, indicação de Carpinejar, que obteve 22,86% dos votos. A Miss Simpatia é Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, outra escolha de Marcelo, com 11,43%. A votação ocorreu entre 9 de novembro e este domingo.

10:38 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 09, 2005

REVISTA CLÁUDIA, OUTUBRO/2005, MATÉRIA ESPECIAL

OS 10 MANDAMENTOS DO HOMEM CASADO
O QUE TODA MULHER GOSTARIA QUE SEU AMADO FIZESSE (OU NÃO) - Com esta sensível e bem-humorada versão dos dez mandamentos, o jornalista e poeta FABRÍCIO CARPINEJAR* dá um recado aos homens, revelando uma incrível intimidade com a alma feminina



foto Karine Basilio

1. NÃO TERÁS OUTRAS DEUSAS DIANTE DE TI

Você, como a maioria dos homens, encontra uma colega de trabalho, percebe imediatamente que ela mudou o cabelo e a elogia. Mas, quando é a sua mulher que faz poses, desfila, o beija, dança tango, chama a atenção, nada de reparar na chapinha ou no corte novo. Que tremenda injustiça! Será que é necessário acender letreiros luminosos? Nas outras, você assimila rapidamente os mínimos detalhes. Na própria mulher, nem a mudança de voz pela gripe é identificada. Que tal não criar deusas só porque estão fora de sua casa? O casamento, definitivamente, não é uma religião, é um modo de rezar acompanhado. E há coisas piores acontecendo. Depois de dias, o marido nota o penteado diferente e recrimina:" O que você fez com o cabelo?" Se não há elogios a fazer, é providencial se calar, porque a pergunta é ofensiva e mais parece uma resposta do tipo "não poderia ter ficado mais estranho". Quando sua amada compra uma roupa, seja generoso, sem rebater: "Deve ter custado uma fortuna". Convide-a para estrear o vestido. OUTRA LIÇÃO: nunca esfregue o passado dela na cara. Saiba que sua companheira contou lembranças e segredos para serem guardados, não para serem devolvidos na primeira briga. Finalmente, anote uma tática infalível para o casamento dar certo: pedir conselhos aos amigos solteiros e fazer tuuudo ao contrário.

2. NÃO TE CURVARÁS AO EGOÍSMO. PROCURARÁS A EMPATIA

Comida pronta se tolera. Mas respostas prontas enjoam o paladar. Não existe manual para montar um relacionamento. Não há desenho para o encaixe das peças. Cabe descobrir o ritmo do casal diariamente, dar espaço para a empatia e a compreensão. Em alguns momentos, sua mulher pode não ter razão, mas tem desejo, que é uma razão mais forte do que a razão. Ou o sentimento não é uma verdade? Claro que sim, o sentimento é o corpo pensando em voz alta. Toda circunstância exige uma leitura nova. É arrogância supor que qualquer problema tem a mesma solução, é egoísmo praguejar que ela costuma inventar tempestades em copo de água, que faz drama. Quando a mulher que você ama chega em casa abalada e desconsolada, sua primeira reação será questionar: "O que aconteceu?" Mas, muitas vezes, não aconteceu nada que possa ser resumido, explicado, esclarecido. Não ocorreu um acidente, um terremoto: as vítimas são apenas impressões desarrumadas e confusas. E, diante da falta de resposta dela, você já deduzirá uma traição, uma ofensa, uma quebra de confiança. Em vez de ajudar, passará a cobrar a ausência de resposta. Atacará um corpo ferido. Puxará uma briga em pleno cansaço dela. Agravará o mal-estar com a tendência de se colocar sempre no centro do mundo, não admitindo que alguém possa se encontrar pior. Com a mania de adaptar a realidade às suas necessidades, vai ficar cego para os desejos do outro, não percebendo que sua companheira está precisando unicamente de silêncio.

3. NÃO PRONUNCIARÁS O NOME DELA EM VÃO

Não narre aos amigos fatos íntimos do casal nem enumere os defeitos da cara-metade. Sarcasmo deve ser usado contra inimigos. Vale a pena tomar cuidado com o veneno, desistindo, por exemplo, de falar mal de sua mulher em jantares. Não deboche da ansiedade dela por causa da TPM - a bruxaria acabou na Idade Média. Amores terminam por palavras certas nos lugares errados. Ou palavras erradas nos lugares certos. Tudo o que você contar ao colega será contado à esposa desse colega. O telefone sem fio é sempre a conta mais cara a pagar. Em tempo: o que salva o casamento é o humor e a autocrítica. A imperfeição pode tornar a vida ainda mais engraçada se os dois estiverem propensos a rir juntos (rir um para o outro, não um do outro). Se o homem broxa e começa a brincar, volta a ficar excitado. Caso ele leve a situação muito a sério, como uma competição (que não é), se deitará novamente, só que no divã do terapeuta.

4. LEMBRARÁS DO DIA DO SÁBADO PARA O SANTIFICAR

Que homem não gosta de jogar futebol com os amigos? Tudo bem. O impasse está na "concentração, preparação e continuação". Você se dedica, na véspera, a telefonar para o time a fim de confirmar o jogo, acorda cedo para ir ao campo, passa a tarde envolvido com os resultados, depois ainda há a conversa para comentar os melhores momentos. E aporta em casa exausto e acabado, louco para dormir. A partida, que era para durar uma hora, acaba durando o dia todo, afora os efeitos colaterais da recuperação física. O.k., pode jogar à vontade, desde que volte inteiro e amoroso. Não vá aterrissar na cama de casal para lamber o controle remoto e assistir ainda à reprise das partidas do fim de semana. A exclusividade do assunto é que cansa. Somente boneca inflável não se sentiria ultrajada. Pensando bem, até ela.

5. HONRARÁS O PAI E A MÃE DELA

Esse ponto é crucial: nada de pensar que a sogra é a sua mulher com os defeitos ampliados. Para que dificultar o relacionamento da sua companheira com a família dela? Nunca faça a advertência: "Uma visita rápida, está bem?" Não existe visita rápida para a sogra. Sogra não é caixa automático, para se sair correndo. Pense na sua mãe, que é a sogra dela. Tenha a mesma paciência.

6. NÃO MATARÁS O ASSUNTO NEM FALARÁS SÓ DE TI

Não mude de assunto de repente, porque não lhe interessa. Não parta do princípio de que já sabe tudo o que sua mulher tem a dizer. A onisciência é burrice. Agradeça o que não sabe dela, para descobrir aos poucos, devagar, sempre atento. Aparecerá na conversa uma lembrança engraçada, um detalhe caprichoso, uma frase memorável. Num filme, quando se perde um trecho, se volta atrás. No mundo real, é mais difícil repetir uma cena. O lapso sacrifica todo o sentido. Não viva um filme sem nexo, um filme pela metade, ainda mais quando é a sua vida. Ajude sua mulher a enterrar o passado e outros relacionamentos com direito a uma cruz e a um nome. E a ajude a desenterrar o futuro. Outro problema masculino é que falar de si é o assunto preferido. Ouvir? Nem pensar... Um conselho: não repita um trechinho do que ela disse, pois atesta que você não estava escutando. A tática de reiterar a última frase para fingir atenção não funciona mais. É cansativo, para a sua amada, voltar ao ponto de partida, como se nada tivesse existido antes. Ela termina enfastiada com a idéia de reafirmar toda a ladainha. Fingir o entendimento é o mesmo que não ouvir. Cuidado: quando a mulher se irrita calada, não lhe faltam argumentos, ela apenas desistiu de falar.

7. NÃO ADULTERARÁS. SERÁ SÓ AMANTE DE TUA PRÓPRIA MULHER

Descubra a parte do corpo dela que exala o perfume mais forte. Será o ponto de maior excitação. Use a respiração como voz. Não atalhe, não abrevie, não resolva. Mas avance e recue. Faça o que mais quer para logo mudar de idéia. Volte atrás como quem deixou de lado algo importante. Não pense muito, apenas o suficiente para não ser refém do corpo. Assista a si mesmo mais do que atuar. Namore as regiões de que ela tem mais vergonha. No fundo, a vergonha é discreta vaidade. Não ataque, converse com as mãos, converse pelas mãos, conserve a atmosfera sem as mãos. Defenda-se para mostrar sua vulnerabilidade. Escute o que ela não disse. Não tenha pudor. Fome é desejo. Exponha-se. Acaricie as costas dela com a cabeça e o rosto. Concentre-se na dispersão. Não banque o sério, pois entedia. Combine tranqüilidade (estar à vontade) com insegurança (não saber o que vai acontecer). Despiste sua movimentação. Quanto maior a espera, maior será a eletricidade. Não aguarde respostas rápidas. Desprendimento é diferente de descompromisso. É doação. Não durma depois. Não se afaste com pressa. Continuem se beijando mansamente. Não questione se ela gozou. Ela vai detestar ou mentir.

8. NÃO FURTARÁS O MELHOR TEMPO DA VIDA DELA

Sei, o homem se arruma em 15 minutos e ela está ainda provando o terceiro andar do guarda-roupa. Não há elevador dentro de casa, então o jeito é subir a escada da paciência degrau por degrau. Esqueça o horário do compromisso. Apenas participe da cena como se fosse uma peça de teatro. Faça de conta que ela é a atriz de um monólogo moderno. Uma mulher escolhe inúmeras, inúmeras vezes a roupa, não porque seja volúvel ou tenha dificuldades na hora da decisão, mas para ver seu corpo em seqüência. E, no momento da prova, não acaricie a barriga dela se ela não estiver grávida! Será letal.

9. NÃO DARÁS FALSO TESTEMUNHO, NÃO MENTIRÁS

Não adapte a história de acordo com as suas intenções. A omissão é uma mentira ainda mais grave. Toda mentira é detalhista, enquanto a verdade é rápida e crua. Não finja reuniões quando está bebendo com os amigos. Se o homem começa a dar muitos pormenores, é porque está mentindo. Não use jogo baixo, transformando o respeito e a preocupação dela em cobrança. Se precisar, peça desculpa. Desculpa não dói, o que dói é a falta de desculpa. Arrepender-se do que foi feito é aceitar a contradição, a oposição, a experiência negativa dentro da gente. Não há culpa onde houve vontade de acertar.

10. NÃO COBIÇARÁS A MULHER DO PRÓXIMO

O homem parte do princípio de que indivíduos do sexo masculino são todos iguais, imutáveis, enquanto as mulheres são todas diferentes. Por isso, um cara esperto não poderá deixar de conhecê-las, "perdendo sua vida" apenas com uma delas. Essa é uma das teorias mais machistas que existem. Igualmente equivocado é definir amizade como um amor sem sexo; e amor como uma amizade com sexo. Liberdade na vida é ter um amor para se prender.

* FABRÍCIO CARPINEJAR É AUTOR DOS LIVROS COMO NO CÉU/LIVRO DE VISITAS (2005) E CINCO MARIAS (2004), AMBOS DA EDITORA BERTRAND BRASIL

11:21 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 08, 2005

CLICRBS
8/11/2005

MINHA FEIRA
Texto sobre a Feira do Livro de Porto Alegre
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



Minha feira inesquecível? Todas são é uma resposta genérica, que não deixa de ser verdade. Poderia citar a do meu primeiro livro autografado, a ansiedade da sessão de autógrafos (será que vai aparecer gente?), o suor frio, a comoção ao reparar na fila enorme. Poderia mencionar minha primeira palestra, na qual gritei, apesar do microfone, para espantar o medo e o nervosismo e deixei o público surdo. Poderia lembrar da primeira vez em que fui reconhecido na Praça da Alfândega como escritor e assinei dedicatórias e dedicação. Mas ainda assim seria vaidade. A melhor feira, no duro, é a que fui namorando. Nem era autor publicado. É comum pensar no livro como um ato solidário e até egoísta. Mas as leituras que perduram são as casadas, na cama ou no café, na mesa do almoço ou no banco de pedra. Ler junto, as respirações enredadas, e esperar que o outro termine para virar a folha. Como não se comover? Voltar atrás e ler uma frase sussurrada. Comentar, discutir e flutuar os olhos como se o corpo todo fosse um marcador de página. Ler acompanhado é comer negrinho de colher na panela, raspar o fundo. Estava solteiro em minhas primeiras feiras. Não procurava o Rio Guaíba, vivia mexendo nos saldos. Voltava para casa cedo. Em 1996, namorando, encontrei a atmosfera ideal. Chegar quase no final, antes da sineta, com as barracas levemente iluminadas, o cansaço bom de mãos dadas. Circular entre as mesas apinhadas de obras e ter alguém ao lado para dizer: "olha, o que eu achei!", "que preço bom", "este, já li, devia ler". Ter alguém para testemunhar a alegria e dividir as surpresas das unhas. Ter alguém para não esquecer a vida na estante.

10:17 PM :: Comentários:

ENQUANTO ISSO EM SANTA CATARINA...

Literatura
A POESIA EM DEBATE NA CAPITAL
Sesc da Prainha promove de hoje até sábado o projeto Folia das Falas

Fonte:Diário Catarinense, Caderno Variedades, Florianópolis (SC), 8/11

FÁBIO BIANCHINI



Jornalista e escritor, Fabrício Carpinejar levará sua oficina de poesia para crianças a outros bairros da cidade
Foto(s): Adriana Franciosi/DC


A oralidade na poesia é o tema principal da primeira edição do Folia das Falas, encontro que inicia hoje e vai até sábado no Sesc Prainha, em Florianópolis. Ao longo dos demais dias da semana, haverá debates, performances, oficinas, apresentação de filmes, livros, atrações musicais e, claro, muita poesia. Entre os convidados, estão o repentista e cantador Abdias Campos, o poeta e letrista Antônio Cícero, o jornalista e escritor Fabrício Carpinejar, Heitor Ferraz e Manoel Ricardo de Lima.

O eixo temático do evento, como define o poeta Dennis Radünz, é o resgate das origens da poesia como forma de arte criada para ser lida em voz alta, não apenas escrita e apreciada em silêncio. Além de divulgar, então, a poesia em si, o Folia das Falas justifica seu nome ao procurar formar um público que freqüente sessões de poemas e aprecie não só os versos, mas também o ritmo, a interpretação dos diferentes leitores e as entonações particulares, assim como as diferentes formas emocionais de receber as palavras e imagens por elas sugeridas.

- O mais interessante é que, além dos eventos no Sesc, há outras iniciativas, como o Carpinejar, que levará sua oficina para crianças a outros bairros - destaca Radünz. Escritor e editor, autor de dois livros de poemas, co-tradutor de outro, detentor do prêmio Escritor Revelação de 1996 da Academia Catarinense de Letras, além de escrever crônicas semanais no Diário Catarinense, ele participa da mesa redonda sobre poesia contemporânea com os cariocas Antônio Cícero e Eucanaã Ferraz.

Ferraz é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicou seu primeiro livro de poemas, Livro Primeiro, em 2000. Em 2001, lançou Desassombro, que lhe rendeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Cícero dedica-se a escrever poemas e ensaios, além de ocasionalmente fazer leituras e palestras em instituições tais como o MAM do Rio de Janeiro, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e o Centro Cultural Banco do Brasil, bem como noutros estados do Brasil.

Em 1993, ao lado de Waly Salomão, organizou ciclos de conferências com grandes pensadores e artistas em torno de temas decisivos do final de século. Três ciclos foram realizados, com poetas como João Cabral de Mello Neto, John Ashbery, Haroldo de Campos, Derek Walcott e Joan Brossa, artistas como os diretores Peter Sellars, José Celso Martinez Correa e Arnaldo Jabor, e pensadores como Richard Rorty, Darcy Ribeiro, Peter Sloterdijk, Hans-Magnus Enzensberger e Tzvetan Todorov.

Tendência à sonoridade adquiriu importância

Radünz ressalta ainda a importância que a sonoridade adquiriu na poesia de hoje, tendência expressa em saraus e lançamentos de CDs, tanto de declamações quanto de poesias musicadas. A mesa-redonda Do Verso à Prosa conta com o poeta Sérgio Medeiros, Carpinejar e o poeta, declamador, cantador e cordelista Abdias Campos, autor do CD Literatura de Cordel - Cantada e Declamada. Além da mesa redonda, ele mostra sua arte também no espetáculo Literatura de Cordel, ao lado de Evandro Neves.

A participação do público é incentivada nos lançamentos de livros, abertos a quem quiser levar suas publicações para divulgar, e na Maratona de Poesia na sexta-feira: são cinco horas para abrir espaço aos poetas que não tiveram ainda a chance de mostrar seu trabalho.

(fabio.bianchini@diario.com.br)

Programação

Terça

10h - Performance Poesia ao Pé da Lua
14h às 17h - Oficinas e exibição de filmes - Velha História, Patativa e Língua - Vidas em Português
17h30min às 19h - Apresentação Musical e lançamento de livros
19h30min às 21h30min - Debate: A poética do cotidiano com Heitor Ferraz (SP), Carlos A. Lima (CE) e Manoel R. de Lima (PI)

Quarta

10h - Performance Poesia ao Pé da Lua
14h às 17h - Oficinas e exibição de filmes - Velha História, Patativa e Língua - Vidas em Português
17h30min às 19h - Apresentação Musical e Lançamento de Livros
19h30min às 21h30 - Debate: Poesia Contemporânea com Antônio Cícero (RJ), Eucanaã Ferraz (RJ) e Dennis Radünz (SC)

Quinta

10h - Performance Poesia ao Pé da Lua
14h às 17h - Oficinas e exibição de filmes - Velha História, Patativa e Língua - Vidas em Português
17h30min às 19h - Apresentação Musical e Lançamento de Livros
19h30min às 21h30min - Debate: Do verso à prosa com Abdias Campos (PB), Fabrício Carpinejar (RS) e Sérgio Medeiros (SC)

Sexta
10h - Performance Poesia ao Pé da Lua
14h às 17h - Oficina com Fabrício Carpinejar
14h às 19h - Maratona de Poesia - Venha ouvir e dizer poesia!!
20h - Espetáculo: Literatura de Cordel com Abdias Campos e Evandro Neves
12 de novembro (sábado)
10h - Avaliação e Encaminhamentos para o 2º Folia das Falas

ENQUANTO ISSO EM MINAS GERAIS...

OURO PRETO SE PREPARA PARA RECEBER O 1º FÓRUM DAS LETRAS
Fonte: O Estado de Minas, Belo Horizonte (MG), 1º/11

O Centro de Artes e Convenções de Ouro Preto vai abrigar um grande encontro de literatura de 10 a 15 de novembro. Os detalhes do 1º Fórum das Letras foram revelados nesta terça-feira em Belo Horizonte, durante um encontro no teatro do Sesiminas, que contou com a presença do prefeito da cidade histórica, Ângelo Oswaldo, e os coordenadores do fórum, Guiomar de Grammont e Fabio Faversani, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Escritores e editores de todo o Brasil e do exterior vão participar do evento, que tem como principal objetivo fortalecer o intercâmbio de conhecimentos e propostas na área da literatura. Francisco José Viegas (Portugal), Jean Paul Delfino (França) e Jacinto de Almeida (Portugal) são alguns dos destaques internacionais do evento, que contará ainda com a presença de Zuenir Ventura, Mamede Jarouche, Marina Colasanti, João Adolfo Hansen, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Luisa Coelho, Mario Sabino, Luiz Ruffato, Fabrício Carpinejar e Roberto Piva.

Os autores participarão de 17 mesas redondas sobre temas diversificados como "Políticas Públicas de Incentivo à Leitura", "Escritas Híbridas", "Caminhos e Limites do Jornalismo Literário", "Estrutura Cinematográfica do Cinema Noir", entre outros.

Estão previstas exposições de obras raras, oficinas, debates, espetáculos teatrais, entre outras atividades para adultos e crianças. O Salão Diamantina, do Centro de Convenções, será transformado em um espaço para feira de livros, com estandes de livrarias e editoras.

Segundo a coordenadora do evento, Guiomar de Grammont, o público alvo é formado por pessoas de todas as nações, especialmente do Cone Sul, interessadas em literatura e artes, além da comunidade de Ouro Preto e Mariana e dos alunos da UFOP.

9:34 PM :: Comentários:

SUPERCOLUNA

O Consultório Poético está com nova dúvida amorosa. Reproduzo abaixo. O texto está no site da Superinteressante.

AMOR É AMIGO DA PAZ?
Pintura de Paul Klee

Por Fabrício Carpinejar




"Estou com uma dúvida daquelas bem cruéis, que enfiam a faca no estômago e torcem até a gente gritar de dor.
É que eu sempre fui uma moça de relacionamentos românticos, intensos, apaixonados... E doloridos. Amava até me esgotar, e quando me esgotava, assistia ao outro ir embora sem ter mais o que levar de mim. Enquanto estava com a pessoa, me sentia completa, total, realizada, uma felicidade imensa. Sem a pessoa, me sentia só um pedaço. Mares turbulentos e agitados.
Recentemente, conheci um rapaz. Cheio de problemas com ele mesmo, mas nosso relacionamento é um lago calmo, sereno. Gosto dele, da companhia dele, e ele gosta de mim. Somos assumidamente namorados. Tudo sempre está bem e harmônico, como uma blusa branca combina com uma calça preta. Mas olha, de vez em quando me vem uma sensação de inadequação terrível. Não sinto paixão. Não sinto dependência. Não sinto aquela coisa maravilhosa que os amantes sentem quando encontram seus amados. Sinto apenas a paz de "está tudo certo".
Aí fico sem saber o que é o amor. Se é aquela torrente de paixões, quente e incinerante... Ou esse sentimento de amizade profunda. Ouço defensores dos dois lados, mas queria saber a sua opinião... Me diz - o amor é mesmo tão amigo da paz?"


O que a incomoda é que sua vida anda normal demais. Secretamente, desejamos enlouquecer. Sente falta justamente de ser surpreendida. O amor é tudo menos um animal domesticado. Um animal da rotina. O que pode estar experimentando é um estado exuberante de amizade, de companheirismo, de lealdade. Mas amor não; é um bicho que incomoda, que morde e faz a gente perder a cabeça e se viciar no cheiro. O amor começa com paixão e depois se acalma até voltar na primeira briga. No verdadeiro amor, a paixão nunca morre e sempre dá a letra. Amor não é para se sentir toda hora por qualquer um. Amor é um estado de exceção, pouco civilizado e de raros amigos. Pode ser confundido com carência ou conforto. Pode ser confundido até com cumplicidade, que não é a mesma coisa. Empatia e identificação geram conversa, amor é a falta de conversa, porque a conversa não basta. Fica-se com vontade - desculpe a dramaticidade - de engolir a pessoa.

Percebo que tem um controle monótono, uma segurança como se nenhum do dois pudesse fazer mal ao outro. Exercer tudo igual enjoa. A possibilidade de ser tudo igual no futuro mata o presente. Gostar da companhia ainda é insuficiente, o que não significa que não seja o que precisa no momento. Talvez seja a época de amaino, do descanso da terra, de ajeitar as verdades.

Quando se ama, as atitudes não são planejadas, não há tempo de ensaio. O susto aumenta o riso. Difícil conter o ciúme, a possessão, a posse - a escala cardíaca do sentimento. Não se ver envaidecida, confiante, bonita, sensual, pronta para qualquer desafio. No amor, se busca o desajuste, a provocação, o amadurecimento das diferenças. Cria-se um dialeto dentro do idioma, em que somente os dois entenderão. O amor não é o que é dito por aí: uma amizade pacificada. O amor é uma paixão atenta, ouvindo, pronta para o bote. Uma paixão indomável.

É fácil ficar em casa com chuva, difícil é ficar com o sol lá fora. Ficar em casa com sol lá fora só com muito amor dentro.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana.
E-mail: carpinejar@terra.com.br
Site: http://www.carpinejar.com.br


Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista, 33 anos, quando sério é engraçado, quando engraçado é sério. Deu certo porque aconteceu tudo errado. Tem pés chatos, nariz torto e acorda a mulher de madrugada para discutir o relacionamento. É um homem com defeito de fábrica: adora lojas. Falava errado até os oito anos. Sua fonoaudióloga receitou que usasse bico enquanto seus colegas ostentavam aparelho. Preferiu falar errado. Todo mundo dizia que poeta é sofredor e romântico, não conseguiu convencer ninguém do contrário e aderiu ao lado mais forte. É, portanto, sofredor e romântico. Acredita que até para sofrer tem que ter estilo. Não se sofre de qualquer jeito. Aprendeu a fazer mapa astral, mas teve que devolver o livro para a biblioteca e não interpretou o big-bang pessoal.

4:10 PM :: Comentários:

MISS É TAMBÉM VIRTUAL
no CLICRBS


Concurso de beleza também tem lugar na Feira do Livro de Porto Alegre, e quem elege o mais belo é o internauta. O Miss Virtual, iniciativa dos escritores Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha, é uma versão de sarau para internet. A convidada da primeira edição online é Márcia Tiburi.

O Miss Virtual será o texto com mais votos. O tema desta vez é o Amor. Como em todo o concurso de miss, o segundo colocado leva a faixa de Princesa. O terceiro, bem, este fica mesmo com o título de Miss Simpatia.

Fabrício, Marcelo e Márcia selecionaram cinco textos, cada um. Leia, escolha o seu preferido e depois vote na enquete.

2:00 PM :: Comentários:

MÁQUINA DO MUNDO

A 5ª edição de Máquina do Mundo está no ar, com inéditos de Luiz Ruffato, Claudio Daniel, Jamesson Buarque, Muriel Paraboni, Demétrio de Azeredo Soster, Valério Oliveira, Rogério De Paula, Sílvia Rubião, Francieli Spohr, Bruna Beber, Marco Polo Guimarães, Luiz Roberto Guedes, Silvio Barros, Wilmar Silva, Ondjaki, Oswaldo Roses, Ilona Bastos e Salomón Valderrama Cruz.

CUSPIDOR DE FOGO
Editorial

Não me esqueço a reação de uma menina diante de um livro de poemas. Ela percebeu os versos alinhados um debaixo do outro e exclamou que a poesia tem dentes bonitos. Não há melhor explicação. Escrever é morder. Assim como o beijo que é bom demais já vira mordida. Difícil conter o ímpeto. Escreve-se com a boca deitada mais do que em pé. Máquina do Mundo pousa em seu quinto número, mostrando que o Brasil ainda está por ser descoberto. Ao invés de abrir um guarda-chuva, aqui se abre um mapa-múndi, como queria o catalão Joan Brossa. Poetas do Rio Grande do Sul, de Goiás, de Minas Gerais, de Pernambuco, do Paraná, do Rio de Janeiro, de São Paulo, entre outras regiões, soltam seus caninos em direção à carne da chuva. Mordem a água e a experiência para que fiquem amaciada aos filhos e leitores. Todo novo autor é um conceito distinto de poesia, uma inédita legislação do sopro, de audácia, da composição. Poesia disputa cancha com as traças, com a diferença de que é bem mais veloz do que elas. As traças preferem obras paradas.

1:58 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 07, 2005

CHAT

Participo na quarta (9/11) , às 16h, do Chat do UOL. Participe!

09/11/2005 - Quarta, 16h

O poeta gaúcho acaba de relançar seu livro de estréia, "As Solas do Sol", de 1998. O livro narra a travessia do personagem Avalor, que procura um "lugar seguro para guardar a morte" e encontra a si mesmo ao extraviar as lembranças. Seu contexto é indefinido: Avalor pode nunca ter saído de casa, assim como pode estar em um hospício.

Neste ano, Carpinejar lançou ainda um livro inédito, "Como no Céu/Livro de Visitas". Comparado ao conterrâneo Mario Quintana, ele é aclamado como um dos principais nomes da poesia contemporânea pelo chileno Antonio Skármeta, Carlos Heitor Cony e Ignácio de Loyola Brandão.

O escritor assina atualmente a coluna "Consultório Poético" no site da revista "Superinteressante".

4:31 PM :: Comentários:

TE PEGO NA SAÍDA
Pintura de Kandinsky

Fabrício Carpinejar



No colégio, não provocava nenhum amigo. Longe de mim brigar. Franzino e cabeludo como espiga verde. Queria distância de discussão, engolia a seco comprimidos e desaforos. Não chamava atenção da professora e nem do ódio. Evitava sentar na frente da sala como um CDF ou no fundo como um rebelde. Flutuava no miolo das classes entre os extremos.

Mas um dia, distraído do medo, respondi a um colega que derrubou minha merenda. Gritei "idiota" tão alto que deve ter balançando o lustre. Finalzinho do recreio e a turma inteira me ouviu. Ele era forte o suficiente na época para fazer tatuagem no braço e sobrar pelanca, o que não era pouco para seus doze anos. A sentença veio na hora: "eu te pego na saída".

Pegar na saída representava luta livre no final, fora dos muros da escola, sem diretora para apartar. Não havia jeito de escapar. O colégio inteiro passou telefone sem fio, a avisar que teria surra antes do almoço. Uma euforia descomunal tomou conta do entorno. Ringue de escola pública não cobrava ingresso, cobrava palavra de honra. Entrei na sala como um homem morto, a atravessar um dos períodos mais longos de minha desajeitada vida. Respirava fundo, recebia bilhetes de quem torcia por mim e recados de que seria espancado por outros pouco simpatizantes. O pior é que a escola oferecia um único acesso, o que facilitava emparedar as vítimas. Ou se pulava o muro de dez metros ou inchava o rosto com hematomas.

A aula de matemática nunca foi tão boa. Prestava atenção e não desejava que terminasse. Fiz perguntas, fui ao quadro negro, o que destoava do laconismo do ano. Roí cada minuto que passava no cebolão verde do pulso. Vontade de chorar pelos ouvidos. Eu me sentia importante, observado, a maioria me tratava com reverência da piedade. O sinal soou e fui o último a deixar o corredor. Caminhei lento com os cadarços desamarrados, com a cintura desamarrada, com a mochila pesada dos livros que ainda não havia escrito. Os urros me anteciparam. O adversário me aguardava na praça. Nem esperou minha fala e me acertou a barriga. E acertou meu queixo. E acertou meu rosto. Os estalos se prolongaram com rapidez, deixei de contar os solavancos e levantava os braços para não me afogar. O sangue surgia na boca como uma lesma no muro. Até que uma menina se postou em minha frente. Permaneceu de costas para o agressor, vulnerável, a me proteger como um escudo. Ele parou. Não sei como a multidão se dispersou. Os dois sozinhos: eu soluçando, ela remando calma em meus braços. Ela me abraçava, os cabelos como ervas se despedindo da manhã. Sujei sua camisa branca e ela não se importou. Senti seus pequenos seios naquela hora contra o meu peito. Eles se mexiam mais do que as minhas feridas.

Hoje eu me espero na saída. Minha covardia me encoraja.

12:07 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 06, 2005

LELÉ
Gravura de Marcia Tiburi e Fernando Chui

Fabrício Carpinejar



Não dormia com ursos e bonecos na infância, dormia com um pano sujo chamado Lelé. Quanto mais imundo, melhor. Ficava com cheiro de gente. Não o largava, levava pelo pátio como uma pipa envergonhada. Não aceitava que lavasse o pano - precisava exalar o cheiro usado da vida, o suor das árvores, o fedor dos muros quando nasce o musgo. Um dia a mãe lavou o pano e não dormi de noite. Acordado em protesto. Acredito que o Lelé é a minha solidão. O bafo do quarto. O garfo da respiração. Desde lá é a minha solidão. Dei nome a minha solidão. Estou perdendo minha solidão. Não fico mais em casa. Corro de uma palestra a outra. Não termino uma conversa. Cumprimento e logo sou obrigado a mudar de assunto. Não é arrogância, não é prepotência, não me acho o máximo, nem me sinto bonito, é só falta de minha solidão.

5:24 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 03, 2005

AUTÓGRAFOS NA FEIRA DE PORTO ALEGRE



9:59 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 01, 2005

AMARRE MEU CORAÇÃO NA PRIMEIRA ÁRVORE
Pintura de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar




O canalha, ao trair, diz que está confuso. Mas ele será canalha por que amou a verdade? Ele traiu o quê? Trair sua vida de repente não é trair o seu sentimento, de repente não é trair o seu desejo, de repente não é trair seu cheiro. Como avaliar o que será perfeito dentro de 2 ou 10 anos? Como apontar que aquilo será melhor se o melhor ainda aguarda a invenção? Como adivinhar se uma relação dará certo sem estar nela ou sair dela? Como escolher entre dois amores se não é concedida a chance de escolher entre duas mortes ou dois nascimentos? De que adianta ser objetivo se o que menos emociona é a objetividade?

Quando se escolhe, nunca se saberá se foi a definição errada, pois recordar é não deixar de alterar o passado. Nunca se saberá se foi a definição certa, já que estaremos sempre insatisfeitos.

Opina-se à vontade sobre a paixão com senso e prudência até que aconteça de modo pessoal. Perde-se a idealização e o sentido de comentar. Não terá nenhum valor o que você aprendeu nas apostilas. O cotidiano é feito de baques. Eu diferencio com dificuldade o desespero de viver da alegria.

Que lealdade a gente busca no amor além da ânsia de saltar o braço em torno do pescoço dela ou da calma ancestral de sentar de mãos dadas no fundo do lotação? Ou do descobrir uma cicatriz de infância debaixo do queixo? Ou de ir ao cinema para encurvar os ombros? Ou de apertar o braço dela ao percorrer a rua e a noite? Ou de ser uma criança com desaforos adultos? Ou um adulto com elogios infantis? Ou de estalar beijos nos ouvidos? Ou de acumular a lã e a luz no umbigo? Ou de observar as telhas como um pelego de estrelas? Ou de assobiar o bico da garrafa, transformando o vinho que resta em sopro?

Que lealdade a gente busca senão a de se aproximar e não pensar? Deixar que o tempo ceda espaço para o tempo da linguagem e que a carne seja metade da fruta na boca.

O amor não é segurança, todos procuram o nervosismo. Ao amar, fica-se fragmentado, não dividido. Dividido é um homem ainda muito inteiro. Fica-se tão sensível que se entra em um estado de insensibilidade. O choro é pavio mergulhado na vela. Difícil erguê-lo da cera. Não se reage, demora-se o olhar e o talher, demora-se a ouvir. Algo como sentar na ante-sala da voz para folhear revistas. O fluxo emocional é maior do que a possibilidade de comunicá-lo. Flutua-se como se o mundo ainda estivesse ensaiando antes de amanhecer. Procura-se uma praia para arrastar com preguiça a rede dos pés na areia. Sem coragem de falar, o jeito é esperar o milagre da espuma, um sinal, um aviso, que os peixes sejam mais fortes do que nós e arrebentem as cordas.

Pouca coisa levo nos bolsos. Unicamente sei que o riso dela é onde lavo o meu rosto de manhã.

8:33 AM :: Comentários: