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Fabrício Carpinejar


 

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Sábado, Dezembro 31, 2005

AINDA NÃO

Fabrício Carpinejar



Arranhar a pele não é cheirar minha roupa. Deitar no sofá não é entrar em minha solidão. Segurar-se na parede não é observar meus quadros. Tomar o meu café não é antecipar a minha boca. Abrir minhas gavetas não é descobrir meus segredos. Ouvir a minha respiração não é tirar o meu ar. Satisfazer meus desejos não é conhecê-los. Segurar minha mão não é explorar meu rosto. Trocar a água da jarra não me deixará vivo. Dividir a mesa não é repartir o prato. Trancar a porta não fecha as saídas. Copiar a minha letra não é repetir meu medo. Amarrar os meus sapatos não me prende aos pés. Gastar o tempo não é preenchê-lo. Anotar na agenda não prova que existimos. Ouvir uma música não é cantá-la. Plantar uma árvore não é florescê-la. Gerar um filho não é cuidá-lo. Abandonar um livro não é lê-lo. Sentir ciúme não controla o amor. Esperar não é se adiantar. Dormir em minha cama ainda não é morar em minha casa.

4:13 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 27, 2005

NO MESMO LUGAR

Fabrício Carpinejar



Continuo no mesmo endereço. Continuo com os olhos caídos. Continuo com a respiração cortada por suspiros. Continuo tomando uísque em copo baixo com duas pedras de gelo. Continuo indo na fruteira às 9h. Continuo mexendo minhas pernas debaixo da mesa. Continuo levando meu filho para escola. Continuo na mesma rua. Continuo com quatro pares de sapatos. Continuo lendo três livros ao mesmo tempo. Continuo no mesmo bairro. Continuo com a caneta no bolso esquerdo. Continuo escolhendo os caminhos mais longos. Continuo contando relâmpagos. Continuo sentando na mala antes de fechar. Continuo medindo a estrada com os cadarços soltos. Continuo tendo mais projetos do que fama. Continuo com o mesmo CPF. Continuo planejando viagens. Continuo jogando na Sena. Continuo apequenando as coisas como quem viaja na janela do avião. Continuo sofrendo com antecedência. Continuo com esperança. Continuo apaixonado por antiquário. Continuo jogando paciência com o ventilador. Continuo entendendo você. Amar é se fazer entender. Não vou dificultar as coisas, continuo escutando você. Continuo permitindo você falar. Continuo cedendo o assento para idosos. Continuo com o mesmo CEP. Continuo com a mala de couro marrom, a pequena agenda e uma pasta de escritos. Continuo bebendo café forte, sem açúcar. Continuo fulminado de compaixão por vira-latas. Continuo a atravessar sinal fechado de madrugada. Continuo a receber multas. Continuo a cantar no carro. Continuo sem achar meus óculos de sol. Continuo dormindo nu. Continuo escolhendo as últimas poltronas do ônibus. Continuo escondido nas fileiras do meio do cinema. Continuo vidrado naquilo que ficou a dizer. Continuo chegando atrasado ao teatro. Continuo a tocar minha orelha como se faltasse seu brinco. Continuo a ressecar minha boca. Continuo a observar as vitrines de roupas femininas. Continuo conversando com os garçons. Continuo a ajeitar os cabelos na concha dos ouvidos. Continuo a barganhar descontos. Continuo a odiar a água parada debaixo do sabonete. Continuo a ser puxado pelo vento. Continuo a caçar disco voadores entre as estrelas. Continuo provocando. Continuo com o mesmo cartão de crédito. Continuo no mesmo emprego. Continuo sem dinheiro. Continuo a guardar os recortes dos shows que não irei. Continuo desistindo de você para voltar em seguida. Continuo com o desvio de septo. Continuo em fossa. Continuo cavando fosso nas gavetas. Continuo a procurar sinais. Continuo a fugir das fotos. Continuo aguardando as férias. Continuo trabalhando de tarde. Continuo mordendo os travesseiros. Continuo com pintas no braço. Continuo escrevendo livros. Continuo freqüentando o balcão para solteiros dos bares. Continuo a atravessar a praça. Continuo a esquecer de entregar os filmes na locadora. Continuo com o mesmo telefone. Continuo cortando as unhas depois de roê-las. Continuo fumando. Continuo com a etiqueta do lado de fora das camisas. Continuo usando a carteira na calça jeans. Continuo saindo com meias trocadas. Continuo fracassando nas promessas. Continuo imobilizado. Deixo tudo no mesmo lugar para facilitar que volte ou venha a me encontrar. Não existe como andar de mãos dadas se partirmos em direções contrárias.

3:31 PM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 24, 2005

2006
CARTA DE INTENÇÕES
Imagem Jean Cocteau

Fabrício Carpinejar



Que eu possa abrir minha casa como uma garrafa de vinho. Que eu possa sair de casa como uma garrafa de champanhe. Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu não tente convencer ninguém a pedir desculpas. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa descobrir a altura dos postes com pipas. Que eu possa pescar conhecidos nos viadutos. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza. Que eu possa comprar fiado minha própria fé. Que eu amarre os sapatos dos filhos como se fosse um terço. Que eu possa gemer diante de uma torta de nozes. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu possa engolir o vento em cada esquina. Que eu possa ouvir as cigarras de noite. Que eu possa diferenciar as árvores. Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. Que meu carro tenha cheiro de bala de goma. Que eu ajude sem questionar. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu não exija demais dos outros. Que eu exija demais de mim. Que eu possa dançar com os pés nos ouvidos. Que eu possa aprender a tocar violino. Que eu possa aprender a dizer sim. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu possa madrugar para esquentar a água do chimarrão. Que eu possa descobrir ervas curativas no corpo de minha mulher. Que eu não acorde com o telefone tocando. Que eu não faça piadas de mau gosto. Que eu seja a vontade de rir. Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. Que eu não dedure os amigos para passar bem. Que eu pendure bonecos no varal. Que eu faça sinal para o trem parar. Que eu bata no tapete com a vassoura. Que eu assobie para chamar a alegria. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que aproveite a luz do corpo para ler de noite. Que eu possa embaralhar o sal com o açúcar. Que não faça fofoca fora do bar. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu mande flores para meu próprio endereço. Que eu estenda a toalha da mesa como se fosse um lençol. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu possa cuidar da minha cidade como um irmão caçula. Que eu use a voz como campainha. Que eu possa repor os pássaros em seus ninhos. Que eu encontre uma loja para consertar chapéus. Que eu encontre uma loja para consertar cabeças. Que eu não mude de ideologia para conseguir um emprego. Que eu não precise gritar dentro de casa. Que os cachorros tenham faixa de segurança. Que minha mulher me responda os beijos com arrepios. Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que a sorte não seja o cartão furado da loteria. Que eu possa barbear o medo. Que meus amigos deixem de comprar o jornal pelos classificados. Que a única corrente que use seja a do balanço para embalar meu filho. Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. Que eu ligue mais para meus irmãos para falar menos dos outros. Que eu escute minha mãe falar de seus problemas até o fim. Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. Que eu conte meu dia na hora do jantar. Que eu cumprimente meu vizinho sem temer a resposta. Que eu possa dar as roupas que não uso. Que eu possa ler revistas antigas em consultórios. Que a cor da pele não seja maior do que a cor do céu. Que os gays possam se beijar fora da novela. Que minha letra saiba montar no cavalo das linhas. Que eu ande de bicicleta para me demorar na cidade. Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. Que eu não fique cobrando para me aliviar do trabalho. Que eu aprenda a guardar segredos sem jurar por Deus. Que eu tenha menos vaidade. Que eu tenha mais realidade. Que eu invente mentiras convincentes para chegar às verdades. Que eu perca o pavor de supermercado. Que eu não brigue com o caixa pelo tamanho das filas. Que eu não pense na morte antes de dormir. Que eu volte a rezar sem querer. Que eu possa nadar na neblina. Que eu não tenha receio de ser ridículo. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu pare de fumar. Que os ex-fumantes parem com os sermões. Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. Que eu possa brincar mais sem contar as horas. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu possa puxar os cabelos do vento. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que eu aceite os conselhos da loucura. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que o trânsito não seja sauna. Que eu passe a xingar o pai do juiz no estádio. Que meu time não me engane na última hora. Que eu possa assistir shows com meus filhos na garupa. Que eu atinja o segundo andar das ameixeiras. Que eu abra o capô apenas do piano. Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. Que eu visite mais minha sogra. Que o domingo não termine com o futebol. Que o musgo cresça onde há paredes. Que as heras cresçam onde há muros. Que as escadas cresçam onde há joelhos. Que eu possa caminhar a esmo na respiração. Que eu durma fazendo sexo. Que eu me levante de bom humor. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que o governo seja competente para ser esquecido. Que eu faça aniversário de criança nos meus 34 anos. Que o verão seja se afogar em dunas. Que eu não pergunte a uma mulher sua idade ou se está grávida. Que eu me lembre do nome de colegas da infância. Que eu me lembre dos finais dos filmes. Que eu lembre do início dos olhos. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.

11:24 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

PÃO VELHO
Pintura de Man Ray

Fabrício Carpinejar



No Natal de minha infância, atendia mendigos que batiam palmas diante do portão. Não existia campainha. Eles gritavam: - Ó de casa. Conheciam a vizinhança de cor. Chegavam a tirar o chapéu ou a boina na hora de falar. Chamavam qualquer pessoa de senhor ou senhora, independente da idade. Podia ser até criança, tanto fazia. Com respeito (ou seria ternura?), perguntavam se havia algum pão velho para dar. Eram elegantes e educados, sem o golpe das feridas e das histórias forjadas, sem mentiras e receitas de hospital. Não cobravam pão novo e quentinho, nada que pudesse ser retirado da mesa. Queriam algo que fosse sobrar na despensa.

Lembro que ofereci um pão recente e o mendigo devolveu no ato:
- Não, quero um velho, este sua mãe pode precisar.

Fico pensando que nunca mais recebi pedido semelhante. Hoje o mendigo não pergunta, exige. E xinga se não recebe a solicitação. E amaldiçoa independente da reação.

Perdemos a delicadeza do antigo, do trato, do pão velho. Não aproveitamos mais os sentimentos que já foram usados, os amores que já foram consumidos, as amizades que esqueceram de telefonar. Não aceitamos a velhice sequer de um dia. Não aceitamos a velhice sequer de uma hora. Não aceitamos a velhice sequer de uma palavra. Nosso armário, nosso guarda-roupa, o dicionário, a gaveta, o bidê são asilos. As lembranças são os parentes que não visitamos. Empilhamos frases e nomes em um canto jurando voltar e não voltamos. Guardamos livros e vidas em um canto jurando voltar e não voltamos. Porque acreditamos infelizmente que não presta o que aconteceu ontem.

Nossa indigência é emocional e pode se infiltrar em qualquer contra-cheque ou classe social. É rancorosa e agressiva. Uma indigência que não tenciona compreender, que está cobrando antes de ouvir a resposta. Uma indigência ofensiva, desaforada. Uma indigência arrogante que não iguala, mas divide. Em vez de ir atrás, ficamos esperando. Em vez de agradecer, reclamamos o que não recebemos. Em vez de ouvir o outro lado, apressamos em falar. Em vez de respeitar, cobramos.

Nem o mendigo, nem ninguém deseja o que não é do dia. Não se recolhe os farelos como unhas de criança. Não se lê mais cartas nas figuras da toalha de mesa. Ou se procura o nome de um amor no macarrão. Ou se adivinha o passado na borra do café.

Sinto falta da minha avó em casa para abençoar o pão velho em uma sopa.

Por enquanto somos os pássaros. Mas haverá o momento em que seremos as migalhas.

2:01 PM :: Comentários:

DEPOIMENTO SOBRE O NATAL
JORNAL ZERO HORA, CADERNO 'MEU FILHO'
Pintura de Kurt Schwitters




"É fácil descobrir quando o Papai Noel deixa de existir. Até os cinco anos, os pais afirmam categoricamente que ele é real. Depois já começam a dizer que ele depende da fé. Na hora em que vem a explicação, 'se tu acreditas nele, ele existe', é que a barba caiu de vez. Não adianta colar com bonder. Os pais se sentem culpados pela ingenuidade do filho na escola e entre os amigos e logo entregam o jogo. Pelas crianças, elas acreditariam sempre. Essa mentira merecia ter pernas longas. Pois o Papai Noel é um ato de generosidade. Os pais compram os presentes, se matam para agradar e renunciam os créditos. Não é uma maravilha? É um exercício de despojamento. Os pais deveriam acreditar mais no Papai Noel para ensinar aos filhos o anonimato da alegria.

Em casa, o Papai Noel nunca foi maior do que o presépio. Menino Jesus manteve-se como personagem principal. Minha mãe me transmitiu uma lição: o que não ganhamos também é presente. Muitas vezes não dar é a melhor maneira de dar. Agradecia inclusive o que não recebia, agradecia o que eu não tinha. Não é preciso receber tudo para escolher. Há presentes que só estragam a felicidade de imaginar.

Uma cena engraçada de Natal: quando o pai confundiu dia 23 com 24 e desceu os presentes do guarda-roupa antes da hora. Teve que gastar saliva para explicar às crianças a entrega antecipada do trenó."

Fabrício Carpinejar, poeta

8:29 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

PROZAC AMOROSO

O Consultório Poético continua dando palpites para dúvidas e curiosidades amorosas. A nova coluna está no site da Superinteressante. Reproduzo o texto abaixo.

ELE ME AMA?
Pintura de Kurt Schwitters

Fabrício Carpinejar



"Conheci meu atual namorado através da internet, num acaso sem maiores pretensões. Isso faz 1 ano. Como não morávamos na mesma cidade, nos encontrávamos + ou- 1 vez por mês, até que em junho deste ano ele viajou para outro estado e não nos vimos por 5 meses. Agora ele está na minha cidade para morar. Estou feliz com isso, no entanto me mete medo a situação. Quis tanto tê-lo por perto, e agora que ele chegou não tem o mesmo carinho de antes, ele parece frio e distante... (Espero não ser sintoma da minha TPM, ou fragilidade por conta das provas de vestibular!)

Ele é um rapaz muito discreto que há poucos dias me disse ser 'consumido por outras paixões', que seriam o trabalho na empresa nova, o direito, a preparação para o curso de mestrado, etc. Ele diz que, depois de morar sozinho tantos anos longe da família e dos amigos, compreende a saudade de outra forma, e para não se decepcionar simplesmente não se empolga facilmente.

Ele mantém essa distância segura de tudo, inclusive de mim. Não conhece minha família nem meus amigos, apesar de ser preocupado com o que acontece na minha vida.

Ele não diz que me adora mas... Não me deseja como antes. Resolvi deixá-lo respirar e não cobrar nada. Estou chateada com a situação, porque o amo muito e gosto de estar sempre por perto. Torço pelo sucesso na carreira e independência financeira... Mas também quero carinho! Quero que ele se apaixone por mim, que me ligue de repente, que me acorde com beijos... Fico tentando ser a mulher ideal, igualmente sensata e madura, sem dar muita importância para o amor e todos os outros sentimentos que vem no pacote. Mas... por dentro eu sou impulsiva e o amo demais. E quero dizer isso. Mas eu devo? Outro dia disse que o adorava, que estava com saudades. Ele ficou mudo, me olhando, com uma expressão quase triste. Para não me constranger me abraçou e começamos outro assunto.

É preciso declarar o amor para matá-lo? Sempre que ele dorme confesso amá-lo num sussurro, mas ele nunca ouviu, claro... Isso tudo por temer a reação dele. Estou muito confusa. No momento resolvi deixar como está, e não insistir em nada. As prioridades dele são profissionais, e deixou isso bem claro para mim, abusando da sinceridade. Mas ... eu devo me contentar com isso? Tenho medo de ser dona de um amor egoísta, que sempre quer algo em troca... Será que estou sendo justa? Devo dizer ou calar, ... o amor velado ou escancarado?"


Não existe uma forma única de amar, Priscila, mas uma forma justa de amar: a sua. Não importa o tempo que falta a uma relação, importa como vocês aproveitam o tempo que estão juntos. Pelo jeito, vocês estão se vendo como amigos. Amor não é consórcio, para pagar e depois receber. No amor, recebe-se primeiro e depois se paga. Empolgação é necessidade. O que não é necessário é qualquer coisa, menos amor. O entusiasmo mede a febre e a dependência. Sem alegria, é servir chá para fantasmas.

A tortura é conter e represar seus sentimentos. As dúvidas aumentam em segredo. Recomendável contar o que a atormenta antes que enlouqueça de hipóteses, questionar mesmo o posicionamento frio dele ao longo dos dias. Não é normal, a situação demonstra que já não se encontram em igual sintonia. Ainda que seja para terminar de vez. O que não dá para suportar é ficar na lengalenga de que "não tenho cabeça para isso". Correto? Não há trabalho que remova o desejo. Se ele vive um momento de aceitação e afirmação na empresa, mais um motivo para partilhar contigo, não serve como desculpa para se afastar (Assim como enfrenta o vestibular e vem se preocupando com o rumo do casal).

Relacionamento que começa na distância sofre dificuldades quando se torna presencial. Primeiro pela convivência maior, perde-se um pouco do glamour da imaginação e a saudade vira responsabilidade. Em segundo, porque nada mais impede o namoro. É o momento de firmar laços e se ajudar.

Não acredito que o amor morre quando ele é declarado. Não acredito em um amor que não seja egoísta - só que é um egoísmo a dois. Não acredito que deve se contentar com um limite. Não há limite nem para a memória, nem para o corpo que não cansa de se descobrir a dois. Não acredito que deve se calar. Silêncio que não é dividido é omissão e indiferença. Não acredito em troca, mas em doação e entrega. E não acredito tampouco que ele não escutou seus sussurros enquanto dormia.

Pode mandar cartas para carpinejar@terra.com.br

4:25 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 20, 2005

CARLA
Detalhe de Cézanne

Fabrício Carpinejar



Minha irmã Carla, acho que nunca disse que passei a amar as mulheres a partir de você. Temos quatro anos de diferença e sempre foi um dia entre os nossos nascimentos. Não mais do que um dia, graças a sua coragem de me buscar e não me deixar sozinho com os meus problemas.

Quero hoje lembrar de sua generosidade. É natural esquecer o que aconteceu na infância. Talvez você esqueça pela pressa de trocar de roupa e ir ao trabalho. Pela pressa de arrumar os dois filhos para a escola. Pela pressão dos compromissos.

A irmã mais velha que me defendia dos colegas quando falava errado. A irmã mais velha que me chamava de bonito enquanto o mundo me apontava como extraterrestre. A irmã mais velha que me levava para passear ao lado do namorado e ainda tinha que encontrar um jeito de beijar longe de mim. A irmã que me segurou ao andar de patins. A irmã que contestou o casamento, saiu de casa para morar com namorado, abriu a liberdade para cada um dos irmãos depois. A irmã que corrigia meus temas de matemática. A irmã que ligava o som alto na sala e me botava a dançar para não fazer feio diante das meninas.

A irmã que organizou minha única festa de aniversário aos amigos. A irmã que eu chamava de Penélope Charmosa e que a salvava ao vê-la em perigo. A irmã que foi meu pai de vez em quando e foi minha mãe de vez em quando e me ensinou a dirigir. A irmã que era linda na foto e fora da foto. A irmã que emagrecia para a praia. A irmã que poderia ser miss com um pouco mais de altura. A irmã que passou no primeiro vestibular na UFRGS, que passou em primeiro lugar no concurso do Ministério Público, que juntava seus manos no mercado para comemorar com sorvete. A irmã que me mostrou que existia TPM. A irmã que apartava a briga dos pais e corria para acalmar as crianças. A irmã que me apresentou a Fernando Pessoa. A irmã que me dava mesada para fazer massagem em seu rosto. A irmã que não tinha reserva em fazer amizades. A irmã que me cedeu a janela no avião. A irmã que eu esperava chegar em casa para que a alegria fosse natural e certa. A irmã que me emprestou alguns palavrões para que amadurecesse. A irmã que escolhia minhas roupas no shopping. A irmã que me carregava no colo após correr o dia inteiro. A irmã que mudava de cor dos olhos como se as abelhas ainda estivessem em suas córneas operando o mel. A irmã que me dava conselhos, que me consolava ao perder amores. A irmã da qual roubei cigarros para fumar na escola. A irmã que lê meus livros escondida. A irmã que soltava piadas na hora do jantar e provocava a família a derrubar preconceitos. A irmã que organiza churrasco para reunir a turma. A irmã que paga a conta do restaurante em segredo. A irmã que nunca demorou para chorar em minha frente. A irmã que é mais poesia do que a poesia que escrevo. A irmã que mora na rua de minha memória esquina com a Soledade. A irmã que aumenta as histórias com sua vontade de amar.

A irmã que não importa como e onde será a minha irmã mais velha.

Eu não esquecerei de sua generosidade para lembrá-la que nasci - além do ventre materno - de sua teimosia em viver.

9:55 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 18, 2005

A ALEGRIA EMBURRECE
Gravura de Miró

Fabrício Carpinejar



Quando estou triste, fico mais centrado, mais vulnerável, mais ouvinte. Meu olhar faz leque para a boca, como se fosse reencarnação renascentista. Quando triste sou mais eu. Mais filho das palavras do que pai. Mais corrimão do que degrau. Tenho mais confiança de que não sairei de uma conversa, de casa, da varanda de um suspiro. Quando estou triste, sou doméstico, ponderado, lembro das contas e acerto os nomes dos parentes distantes. A tristeza é inteligente, sábia, metódica, capaz de ser ao mesmo tempo doce e áspera. Quando estou triste leio em silêncio, rumino, pesco luzes, arrumo as gavetas, organizo álbuns, pergunto o que não me interessa.

Quando estou alegre temo não voltar a mim. Posso me largar, me beber de gargalo. A alegria emburrece. Acabo tonto, sem nenhuma idéia original, disperso, bastando-me com os gestos. Ajo como uma criança imitando adultos, não um adulto imitando crianças. Falo besteiras, falho, farto, sou bem mais egoísta, não canso de repetir as poucas frases de contentamento. Sou imprevisível, ansioso, precoce. A alegria emburrece, porque é espasmo do corpo, estalo dos dedos. A alegria emburrece. Canta-se as músicas da adolescência como se fosse cedo, vira-se a noite como se fosse manhã, vira-se a mesa e a toalha se encharca de vestido.

Quando estou alegre, o ímpeto de aventura me faz escandaloso. A alegria emburrece. É uma paixão por si mesmo. Minha alegria não fará poemas, não entrará na posteridade, não deixará recados no espelho. Minha alegria é invisível, esquecida, ela gosta de um desaforo, de um nome feio, de teimosia. Gosta de provocar. Faz amizades usando somente as sobrancelhas. Grita quando quer calar. Grita para se calar. A alegria emburrece, não é profunda, não intelectualiza, é legível e comunicativa como a fila indiana de gerânios nas janelas. A tristeza é amorosa, conformada com o nascimento. A alegria é excitada, véspera do mundo. A tristeza economiza, projeta as férias, não sai para jantar. A alegria é perdulária, gasta inclusive o que recebe emprestado.

A tristeza protege, pede conforto, cuidados, pesquisa. A alegria é inconseqüente, livre, não aceita esmola, não disfarça carências. Enquanto a tristeza pede desculpa, a alegria pede licença. Quando alegre sou mais o que não fui. Vibro com os pés. Mando embora os fantasmas.

A alegria emburrece. Não vou me apoiar numa estante para tirar foto. Não vou decorar o jornal para participar de conversas. A alegria emburrece. Eu admiro a alegria que me deixa idiota do que a tristeza que estuda, estuda e não me convence.

10:36 AM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 17, 2005

CADERNO 2, O ESTADO DE S.PAULO
Sábado (17/12/2005)


PARA TOCAR NA BARBA DO BRUXO
Obra dá a impressão de Piza ter privado da intimidade do autor do Cosme Velho

Fabrício Carpinejar*
ESPECIAL PARA O ESTADO

Três anos antes do centenário de morte de Machado de Assis (1839-1908), chega-se à conclusão de que não se conhecia verdadeiramente a trajetória do maior escritor brasileiro. O tapa na cara vem da mão de Daniel Piza, jornalista e crítico literário, que acaba de lançar Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial). Qualquer machadiano assumido descobrirá que é um machadiano enrustido ou, no momento, pouco consciente da biografia do autor.

A epígrafe de Machado escolhida enuncia o caminho: "Ninguém sabe o que sou quando rumino." São justamente as ruminações que Daniel Piza procura, o que não virou voz carnal e pessoal nos romances e ao mesmo tempo não é silêncio e abstração, pois apareceu na maior parte da produção de Machado em crônicas e folhetins.

Machado não está em seus romances, porém naquilo que escreveu que não virou romance. Por simples que pareça e óbvio que fosse, Piza mostra a vida pela vida e a obra pela obra, sem tomar a interpretação crítica como conclusão biográfica. A isenção emociona e permite a censura livre da leitura, aberta aos leigos. Conclui-se que a bajulação e a mistificação foram prejudiciais nos empreendimentos anteriores, como a de Raimundo Magalhães Jr.

Não que Machado tenha apagado seus rascunhos, diários e produção. Estava tudo ali, à mostra, nos arquivos para ser pesquisado. Isso é o que fez Piza com sua memória fotográfica e imaginação bélica. Costurou o vidro, o que parecia até então impossível, diante da normalidade exasperaste de um brasileiro que, afora suas obras-primas como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, era um funcionário público comum, dependendo de favores e aceitação social, que defendia a Monarquia, apesar de vê-la desmoronar para o surgimento da República, que preferia a reclusão, que não viajou para o exterior, que foi casado durante 35 anos e não se envolveu em nenhum escândalo ou tragédia. Ou seja, um cidadão nada fora de série para virar história. O jornalista ainda tinha que enfrentar o desafio de preencher lacunas como a inexistência de dados sobre sua infância, com quem namorou antes de casar com Carolina, de sua formação religiosa e do histórico escolar. Fácil? Bem espinhoso. Não havendo jeito de mensurar o amor pela vida, o biógrafo mensurou o amor do escritor pela sua época (tomada de alterações abruptas da modernização como a instalação do telefone e o aparecimento do bonde, e de carnificinas a exemplo da Guerra do Paraguai) e explorando com exatidão sua postura diante dos acontecimentos marcantes da história do País.

Em nenhum momento, apesar de capacidade para realizar, Daniel Piza procurou adicionar sumário crítico ao autor, ciente da fonte inesgotável e precisa de seus antecessores como Roberto Schwarz, José Guilherme Merquior, Josué Montello e Alfredo Bosi, Susan Sontag, Carlos Fuentes, Alberto Manguel, John Gledson e Harold Bloom. Não defende uma religião, e sim uma fé. Avesso ao dogmatismo e ao anedótico, não era o caso de provar que Machado era um gênio, era o caso de provar que Machado foi um homem, retirando seu busto da galeria de fantasmas de rosto duvidoso como ainda são tratados Shakespeare ou Homero.

Em 13 capítulos, Um Gênio Brasileiro começa e termina por duas mortes, uma jogada narrativa espetacular. Afinal, foram duas mortes de Machado, a dele propriamente dita e a de Carolina quatro anos antes de seu fim. O livro é deflagrado a partir dos instantes anteriores ao último suspiro de Machado, aos 69 anos, na madrugada de 29 de setembro de 1908, quando ele recusa a visita de um padre e a possibilidade de uma forjada conversão. "Seria uma hipocrisia." Comovente é a entrada da imortalidade no quarto do defunto sob a forma de um jovem ansioso. Foi a aparição do futuro descrita por Euclides da Cunha, como amarra Piza:

"Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 a 18 anos no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam. Por isto ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograra vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se não lhe era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas do seu estado. E o anônimo juvenil - vindo da noite - foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu."

Retrato emocionante e que não deixa de ser contido e econômico. Daniel Piza se esquivou da tentação de parodiar Machado com algum de seus contos e romances. Não brincou de Brás Cubas, um dos artifícios mais usados na moderna literatura brasileira (depois de Machado, virou moda morto falar).

Unir as duas mortes - a de Machado e de Carolina - se constitui em um acertos do volume e afirma uma capacidade de compreensão do biógrafo de que não houve nada mais importante do que elas. Talvez tenha realizado enfim o próprio sonho de Machado, que a vida não ajudou a construir, tendo em vista que Machado denominou a perda de Carolina como um "transe", "golpe" e "sua grande desgraça". Uma ilustração é a carta pinçada por Piza, na qual Machado desabafa sua dor com a brevidade intensa de um epíteto:

"Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam de saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará." (20 de novembro de 1904)

Em Um Gênio Brasileiro, Daniel Piza não se satisfaz em retratar somente o espaço (Rio de Janeiro da transição do Segundo Reinado para a República). Alcança a ambientação, fechando o olhar no personagem. É possível tocar na barba grisalha de Machado.

Piza cria cenas a partir de suposições e transforma-as em fatos. Alterna um tom grave com a ironia e provoca a graça quando menos se espera.

Nesse sentido, não descreve, mas narra acima de tudo, aproveitando os deslocamentos de pensamento de Machado como uma sucessão cadente de acontecimentos. Porque percebe que Machado foi um dos autores que mais colocaram sua cabeça a prêmio em jornais, críticas teatrais e peças. A impressão é que Piza copiou a chave e habitou na casa de Machado enquanto ele vivia, observando-o com esmero e paciência, sem interferir no curso de suas escolhas. Um ladrão generoso que entra na residência para devolver os objetos do dono, não para desfalcá-lo.

É evidente que apanha as ambigüidades do protagonista e suas indecisões confortáveis, como a de ter sido monarquista liberal e abolicionista, conservador e sátiro sagaz, francófilo influenciado pela literatura inglesa. A diferença é que evita um juízo de valor, colocando-se no patamar de "estranheza íntima". Só que as ambigüidades não diminuem o perfil, sustentam-no diante de uma época igualmente ambígua. Piza cuida, porém, em não sacralizar a epilepsia, a gagueira, a origem negra e periférica como modus operandi. Identifica como experiências que acentuaram a sensibilidade para capturar contradições sem piedade, inclusive as dele.

Outra motivação para se ler Um Gênio Brasileiro é o talento de Daniel Piza em transparecer a coerência progressiva do estilo de Machado, pondo por terra o mito equivocado de que ele se transformou de repente ao escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). O que aconteceu é que ele soltou o humor como nunca. Pela primeira vez, com vasto material bibliográfico, assiste-se a uma evolução de estilo, gradativa e humana. A virada da estética de Iaiá Garcia (1878, publicado como folhetim) para sua produção final não existiu como um milagre ou uma febre. Deve-se a um objetivo acalentado lentamente desde seus primeiros trabalhos e que ganham desenvoltura e emancipação na colagem, metalinguagem e sátira social após o enfrentamento de Machado de Assis com Eça de Queirós, a respeito de O Primo Basílio.

"Em parte, como se vê, a crítica de Machado é motivada por uma repulsa a um método literário que, como dissera no passado, apelava aos 'baixos instintos' do público; e em parte, por uma objeção à estrutura narrativa, que não seria digna de um realismo 'puro', 'sadio', como o de um Almeida Garrett. Mas a situação não era implausível: mesmo que fosse um 'incidente erótico', a ligação entre dois primos podia ser alvo de chantagem de uma criada; por que não?" A ênfase de Eça era na degradação física advinda da psicológica, e para isso estava procurando uma técnica descritiva mais objetiva, mais cortante. Ele mesmo dizia que se tratava de um escrito "borrado", "desbotado". Da Inglaterra, escreveu surpreendente carta a Machado, em 29 de junho, para agradecer o artigo de 16 de abril:

"Apesar de me ser em geral adverso, quase severo, e de ser inspirado por uma hostilidade quase partidária à Escola Realista - esse artigo, todavia, pela sua elevação e pelo talento com que está feito, honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade."

A carta, além de comprovar que os pseudônimos não eram muito eficazes em proteger a identidade dos autores, é uma demonstração de elegância. Eça reconhece os defeitos do seu romance, mas gostaria de discutir com Machado a importância do realismo para o "progresso moral da civilização". Do ponto de vista futuro, porém, o problema do seu livro, como do naturalismo em geral, era o excesso de moral, não a falta dela. Por outro ângulo, Machado tinha razão: não se conhece a psicologia de Luísa, Basílio e Juliana senão por traços exteriores. Eça se sairia muito melhor em livros posteriores, e não propriamente naturalistas, como Os Maias. Segundo uma biógrafa do romancista português, Maria Filomena Mônica, "as reservas de Machado de Assis tocaram Eça. Este percebeu que uma obra de arte não tinha de servir a intuitos sociais".

A crítica, assim, dava também uma pista daquilo que ele, Machado, estava buscando para sua ficção. Não queria personagens que se definissem pelos atos, mas dos quais se pudesse conhecer seu interior. Os monólogos poéticos de Shakespeare funcionavam para o teatro. O romance em prosa deveria criar outro meio de revelar as dúvidas, os dramas internos, sem divorciá-los da trama. Não ceder ao realismo excessivo, mas fugindo ao romantismo convencional. Não à toa, no romance seguinte, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado vai pela primeira vez lançar mão da primeira pessoa - e de uma primeira pessoa que não é o autor, ou alguém alheio à história, mas um dos personagens envolvidos".


Se Machado mudou os patamares e as exigências literárias do País, enterrando o realismo excessivo ou o romantismo tradicional, Daniel Piza mudou definitivamente Machado de Assis de agora em diante.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de "Como no Céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil, 2005)

10:01 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

PODE CHORAR EM MINHA BOCA
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Quando a gente ama, a cidade encolhe.

Quando a gente ama, atravessa-se a cidade sem contar as quadras. Rodoviária é perto de qualquer lugar. É como nadar em uma raia infinita. Não se percebe o trajeto, não se controla o esforço, não se repara no cansaço. Desenhos em portas, fruteiras e fachadas antigas estimulam o gosto de seguir adiante. Os bares e lugares são descobertos ao acaso, como gravuras avulsas de um livro. Caminha-se ao som dos anéis, embalado pelas conversas que não terminam, pelo muro que se sobe para testar as molas dos pés na descida, pelas escadarias que são o sofá dos namorados noturnos.

Quando se ama, a cidade baixa os telhados. Não é preciso se escorar para respirar. Não precisamos de bengalas, aldravas, guarda-chuvas, esteios, muletas, corrimões, maçanetas e trincos. Não se envelhece, a gente se espalha.

Quando se ama, não há fim, não há mapa, não há tristeza sozinha, não há taxímetro estipulando preço. As paredes dão licença. As estátuas conspiram datas. As praças mudam de lugar. É uma corrida solta, dispersa, distraída, como uma alegria nova. A voz não sobe mais do que um pássaro. A cidade se torna menor do que a amizade, menor do que os cílios engavetando a lua. A cidade se torna pequena, que caberia no bolso do casaco como um isqueiro. Caberia no bolso do casaco como uma aspirina. Caberia no bolso do casaco como um preservativo. Caberia no bolso do casaco como um relógio quebrado.

Quando se ama, as ruas escorrem como calçadas lavadas. Escorrem como temporal. O meio-fio incha de barcos. As garagens perdem seu declive. As ruas ficam líquidas, as lombas só descem, as curvas acentuam as luzes.

Fácil ir, pois não tem volta; fácil ir, pois não tem a cobrança do retorno; fácil ir, pois a mão descansa do ônibus; fácil ir, pois não procuramos moedas e o contorno dos nomes. Não existe velocidade comparável a dois corpos decididos, doados, dados, esculturas mais juntas do que fogo.

Quando se ama, as vitrines são as janelas das pernas. Consulta-se o retrovisor para ajeitar a carne dos lábios. A camisa está dobrada no corpo com a sobra de uma mala. Vontade de viajar pela língua e pela ponta dos dedos.

Já quando a gente se separa, a cidade aumenta.

8:12 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 13, 2005



Consultório Poético tem um novo desafio. Leitora pergunta se assume a homossexualidade. Confira o texto no site da Superinteressante ou abaixo.

SOU GAY?
Pintura de Lucien Freud

Fabrício Carpinejar



"Olá. Sou uma garota de 22 anos e nunca me relacionei com ninguém, mal sei beijar. Explico-me: desde meus 12 anos sinto-me atraída por mulheres. Reprimi esse sentimento o máximo que eu pude, até, que por volta dos meus 18 anos comecei a aceitar que eu poderia ser homossexual, ou pelo menos bi. Ainda hoje trabalho esse processo de auto-aceitação, já com mais facilidade. Porém, ainda não o suficiente para me relacionar. Quer dizer, digo que eu me relacionaria com uma mulher, mas também não faço nada para que isso aconteça. Espero que uma mulher tome todas as iniciativas, assim, eu só tenho que decidir se quero ou não ceder aos seus interesses. Mais fácil que ter que ir à luta e demonstrar interesse em alguém.

Aos 14 anos tive um pequeno rolo de adolescente com um amigo. Foi péssimo. Ter ficado com alguém por quem eu não tinha interesse algum foi traumatizante. Não me permito refazer esse erro. Daí, então, desde essa época não tive mais ninguém pra mim. É, me apaixonar não tem sido assim tão fácil.

Tive atrações fortíssimas por mulheres, mas nunca ditas verbalmente a elas. E isso faz com que você nunca saiba até onde ela quer, o que ela imagina sobre você. Esse defeito de não falar o que sinto já me trouxe grandes arrependimentos. Sempre acho que deveria falar de meus interesses, arriscar mais. Hoje tenho tentado melhorar isso, mas tenho medo de me expor além do necessário, o que também não acho agradável.

Aí, tô nessa: tentando buscar um equilíbrio que me faça bem, tentando me conhecer melhor, tentando me encontrar. Ou serei uma eterna idéia de mim mesma...

Obrigada pela atenção."


Em dias de sol, céu azul e tudo sem vento, minha mulher percebe com razão um desespero de ser feliz. Explico: é o desespero do sol, parece que é obrigação fazer ginástica, sair à rua, divertir-se, ir para praça, praia, piscina, beber, escambau a quatro, como se ninguém pudesse ficar trancado em casa. Ficar trancado em casa com o sol lá fora é enquadrado como crime no código severo da solidão. Besteira. O desespero de viver às vezes reprime a espontaneidade. Queremos tanto aproveitar que não conseguimos expressar o que sentimos.

Tentei ilustrar sua história. Você não consegue partilhar o que mais a emociona pelo excesso de arrebatamento e pelo receio de ser observada, vigiada e censurada. Condiciona o prazer à culpa.

A homossexualidade não é excludente, é natural. Não importa de quem goste, importa o jeito como gosta. Pelo modo que me conta, procura ser amorosa, é o que precisa para ser feliz. Deve tomar a atitude. Definir a posição. Expor suas opiniões publicamente. Abrir a guarda. Tentar. Pouco importa o que os outros pensem. Caso mudar de posição depois, não é motivo de pânico, não nascemos para idéias fixas. Esperar que seja seduzida não lhe dará voz própria. É agradável, mas ao mesmo tempo limita a rotina e reprime a vontade. Tomar a iniciativa é o caminho para se orgulhar das atitudes e afirmar a independência. Por enquanto, deixa-se levar, não optou, não respondeu. Está ainda assustada com a pergunta.

Já vem sentindo atração por mulheres há um bom tempo. O ideal é experimentá-la na intimidade, no convívio, com quem possa entender suas dúvidas e saciá-las devagar. Foi-se a época em que se via a tendência sexual como uma caricatura ou um desvio. É escolha pessoal, autonomia, aguçamento da sensibilidade e um modo peculiar de compreender o mundo, o corpo e o prazer. Você não é do tipo que sairá cantando meio mundo, fará primeiro amizades, expressará seu gosto e sua vontade e o caminho se abrirá sem medo.

Sobre beijar, não existe curso. A boca nasceu para o beijo. Beijar é também falar. Falar respirando. É o mesmo que soprar velas, só que para acendê-las.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento. Tentarei responder aqui ao longo da semana.
E-mail: carpinejar@terra.com.br


4:13 PM :: Comentários:

CURSO POESIA E FILOSOFIA

2 encontros de 2h30/aula
Dezembro: 15 e 16/12, das 19h30 às 22h
StudioClio (José do Patrocínio, 698)
Inscrições pelo telefone 51 3254 7200.




Marcia Tiburi, artista plástica e filósofa, e Fabrício Carpinejar, jornalista e poeta, ministram o curso Poesia e Filosofia, na quinta e sexta (15 e 16/12), no StudioClio. As aulas versam sobre "A palavra filosófica e a palavra poética: uma introdução".

Entre os tópicos abordados, estão a filosofia como trabalho do conceito e trabalho da escrita, a crítica da filosofia à poesia na antigüidade clássica, a poesia moderna e a construção do sujeito, além da modernidade e o banimento da poesia, entre outros. Para tanto, os professores se respaldam em autores como Platão, Dante, Hannah Arendt e Manoel de Barros.

O StudioClio tem a estrutura de um instituto: promove cursos e atividades de formação, sempre com certificado, integradas a uma agenda de atividades artísticas. Dispõe de estrutura com auditório para 130 pessoas, palco com recursos de um teatro tradicional (luz, piano, tela), sonorização 5.1, projetores multimídia de alta resolução, smart board, projetor de cinema 16mm, micro-galeria de exposições e café.

StudioClio - Instituto de Arte & Humanismo
Tele-fax 51 3254 7200
www.studioclio.com.br
Av. José do Patrocínio, 698
Porto Alegre - RS - CEP 90.810/150


1:05 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

UMA HISTÓRIA DE AMOR
Pintura de Chagall

Fabrício Carpinejar



As histórias de amor estão onde menos esperamos. Pode estar atrás do porta-retrato ou de um pingente de coração, de um telefone na carteira ou de uma chave avulsa. Converse mais do que um cumprimento com um desconhecido e ele achará um jeito de falar de uma paixão explícita ou implícita, resolvida ou inacabada. Na terceira pergunta, puxará a conversa para o lado do pulso, do batimento cardíaco.

Carla, a cabeleireira, descobriu uma paixão em uma festa. Eles ficaram se observando a noite inteira. Nenhum dos dois atravessou a pista para puxar conversa. Três horas fingindo prestar atenção no papo dos amigos e das amigas enquanto se vigiavam. Nada beberam para não sacrificar a espontaneidade. No final, ele tomou a iniciativa. Pediu um beijo de cara, para tornar tudo mais fácil depois. Ela não quis. Ele disse que ela era uma mulher difícil. Ela disse que era uma mulher normal. Ele disse que as mulheres normais são difíceis. Ou que as mulheres difíceis são as normais. Dançaram uma ou duas músicas juntos. Ela já estava saindo de carona. Era tarde. Eles se abraçaram. Ela tremeu no abraço. Foi o equivalente a uma descarga elétrica. Ele a segurou nos ossos. Não na carne. Segurou nos ossos. Não nos ossos dela. Ele a segurou nos ossos dele. Não aconteceu despedida. Ele prometeu passar no salão qualquer dia desses.

Qualquer dia desses é todo dia para Carla. Ela controla sua agenda para verificar se o nome dele não entra. Ansiosa de meia em meia hora. Quantos nomes iguais já passaram por ela que não eram ele? E sempre a expectativa da cara do nome, na fresta do biombo. Ela controla a porta para ver se ele não surge. Ela prende as mechas para mostrar o pescoço. Ela corta e massageia os cabelos dos clientes pensando que está lavando os dele. Distraída com o atraso. Distraída com um compromisso aberto para toda a vida.

Ela apenas queria tocar nos cabelos dele como se fosse barba, para o pêlo crescer no minuto seguinte e ela recomeçar. Como se fosse boca para não deixá-lo falar a não ser em sua boca. Mexer os dedos com rapidez, com agilidade de joelhos correndo. Mexer os dedos com a navalha que está escondida na tesoura e que só ela conhece. Ela fecha os olhos e imagina que a primeira noite não terminou, não começou, não existiu, para ser repetida. Não há como varrer os fios castanhos que ainda não foram cortados. Não há como recolher com a pazinha os fios castanhos que ainda não foram cortados.

Quem ler essa história julgará muito pouco, muito escasso, muito fugaz o encontro para acreditar em um amor. Foram um abraço, frases desconexas e uma promessa.

Mas o amor trata de imaginar o resto. O amor é o resto.

12:01 AM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 10, 2005

O AMOR É PREVISÍVEL
Pintura de Van Gogh

Fabrício Carpinejar



As mulheres reclamam que os homens não são imprevisíveis. Deveriam reclamar que os homens não são previsíveis. Falta previsibilidade nesta vida. Pode soar estranho, mas o amor é previsível, ele quer ser previsível, ele faz tudo que é loucura para ser depois previsível. O homem sempre recebe sinais para ser previsível. É só reparar no vestido que ela mexeu, experimentou e não comprou na loja. Ela chegou a soletrar seu tamanho para ele. Chegou a deixar separado por 24 horas. Se ele der de presente a peça, ela dirá com a maior das espontaneidades: - que surpresa. Mas vai dizer que não foi previsível? Se ele não comprar, ela ficará reclamando que ele não é imprevisível, apesar de ter sido. Inverta os personagens e o mesmo acontece. O homem escolhe o que gosta e desiste da compra no balcão. Uma mulher atenta não deixará a pergunta sem resposta.

A previsibilidade não é negativa. Assim como a rotina não corresponde ao tédio.

Os casais quase se matam de ânsia, quase se suicidam, gritam em público, perdem o pudor, transam em parque ou em banheiro público, alucinam com palavras durante a noite, por um único motivo: para estar um dia lado a lado, de chinelos e abrigo, abençoados pela quietude da compreensão. Com a certeza de terem feito o máximo para ficarem juntos.

O que a paixão almeja é a sua aposentadoria. Transformar-se em respeito sensual, em amizade sensual, em intimidade. De vidro, que pode ser quebrado com facilidade, amadurecer em cristal, com a altura do vento.

Não é a aventura, não é a mudança repentina de hábitos, não é o zoológico das vontades, a previsibilidade que é deliciosa. Insinua que se agiu como ela esperava. Insinua que o homem teve a capacidade de leitura, de se importar com o que a mulher aguardava para cumprir linha por linha da caligrafia dos lábios. Insinua que a expectativa foi saciada e se tornou esperança. Insinua que os dois se entendem perfeitamente, que um busca agradar ao outro, sem parar muito tempo diante do espelho na sala de estar.

A xícara de café com um pouco de leite de manhã, o sexo na sesta, o cinema no final de quarta, a leitura de jornais por cadernos, a mão desviando dos farelos da mesa para segurar a mão dela, o abraço de lado, o beijo soprado são previsíveis. É possível saber a hora exata da cena. Saber antes não diminui a intensidade. Até aumenta. Nada como amar em dobro, na espera e na confirmação.

9:48 AM :: Comentários:

MISS CULTURA CELEBRA O NATAL
Manto de Arthur Bispo do Rosário



O último Miss Cultura do ano faz sua festa de natal com o público. A oitava edição do tradicional e único concurso de beleza literária no país retrata os melhores textos sobre a ceia natalina. Apresenta poemas, contos e romances que tornaram a data ainda mais inesquecível, engraçada ou comovente. O encontro acontece nesta segunda (12/12), às 19h30, na Palavraria Livraria-Café (Rua Vasco da Gama, 165 - Porto Alegre Telefone 051 32684260).

Com entrada franca, os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha quebram nozes, cortam perus e espalham a farofa. A convidada especial deste encontro é a jornalista Cláudia Laitano.

No certame de novembro, com o tema "Feios, sujos e malvados", quem recebeu a coroa e a faixa foi Hilda Hilst. Em segundo lugar, ficou o contemporâneo João Paulo Cuenca, a partir do romance "Corpo Presente". Augusto dos Anjos, com o clássico poema "Eu e outras poesias", recebeu a condecoração Miss Simpatia.

O que é o miss cultura

O programa funciona como um "karaokê recital", com desfile de fragmentos de contos, romances e poesias. A cada encontro, é possível assistir a leituras dos enredos e fragmentos preferidos de Fabrício e Marcelo sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

A competição não esquece dos detalhes. Tanto que o artista gaúcho Leopoldo Ernesto Schneider, figurinista de espetáculos teatrais e de dança, confeccionou as faixas para os livros premiados. É o mesmo estilista que já fez as faixas de Miss Rio Grande do Sul e desenhou as coroas de Miss Santa Catarina e Miss Rio Grande do Sul.

9:35 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

O QUE EU PROCURO
QUANDO ME PROCURO

Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Quando confiro as chaves no bolso não procuro as chaves. Quando distante da parada não procuro o ônibus. Quando olho para trás não procuro reconhecer. Quando perseguido não procuro despistar. Quando guardo segredos não procuro me esconder. Quando aponto um lápis não procuro anotar. Quando recolho os lençóis não procuro voltar. Quando caço um livro na estante não procuro o livro. Quando experimento uma roupa não procuro a roupa. Quando faço a lista do mercado não procuro sobreviver. Quando me falta uma palavra não procuro falar. Quando junto as moedas não procuro troco. Quando coço os joelhos não procuro insetos. Quando choro não procuro a memória. Quando dirijo não procuro chegar. Quando vou ao cinema não procuro a legenda. Quando danço não procuro os pés. Quando levanto de madrugada não procuro o assalto. Quando tomo tequila não procuro beber. Quando cavo o jardim não procuro plantar. Quando acordo não procuro o café. Quando lavo as roupas não procuro a espuma. Quando canto não procuro me ouvir. Quando cumprimento não procuro agradar. Quando me despeço não procuro me afastar. Quando tomo banho não procuro esquecer. Quando desligo o som não procuro a paz. Quando arrumo o quarto não procuro me organizar. Quando perco a data de uma conta não procuro os juros. Quando mato as baratas não procuro o ódio. Quando adoeço não procuro morrer. Quando estendo os sapatos na janela não procuro o sol. Quando vem a chuva não procuro me proteger. Quando abençôo não procuro me salvar. Quando leio os jornais não procuro me informar. Quando faço a barba não procuro o meu rosto. Quando grito não procuro ofender. Quando caio não procuro me levantar. Quando noite não procuro a lua. Quando mastigo não procuro terminar. Quando vejo um cachorro não procuro seu nome. Quando assobio não procuro a canção. Quando tiro a calça não procuro minha nudez. Quando rezo não procuro Deus. Quando minto não procuro convencer. Quando nego não procuro dispersar. Quando honesto não procuro o elogio. Quando critico não procuro destruir. Quando dou presentes não procuro me prender. Quando louco não procuro me ocupar. Quando longe não procuro me aproximar. Quando escrevo não procuro assinar.

Eu procuro um amor com mais freqüência do que me encontro.

12:41 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 06, 2005

LIGADURA E VASECTOMIA NO CORAÇÃO
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



Uma das explicações mais recorrentes para desistir ou enfraquecer um amor é que não se quer sofrer. Pelo receio de sofrer, a maioria deixa de se jogar, de se soltar, de acreditar na paz que vem com toda a tormenta. Pelo receio de sofrer, a maioria antecipa cobranças e insultos. Pelo receio de sofrer, casais se separam precocemente. Pelo receio de sofrer, somos mesquinhos, egoístas e primitivos. Não ampliamos a confiança. Somos juízes severos e implacáveis, prometendo o pior enquanto o melhor passa. Pelo receio de sofrer, favorecemos a desgraça, o mal-entendido e abolimos a esperança. Inventamos suspeitas, sob a alegação de prevenir a dor. Com receio de sofrer, falamos pelo tempo e o tempo nada tinha a dizer ainda, nem havia pensado no assunto. Com receio de sofrer, o vento mais forte já é tempestade. Pelo receio de sofrer, fazemos o outro sofrer mais do que sofreríamos na verdade sozinhos.

O amor é sempre sinônimo de martírio, de suplício, de disputa. É claro que o amor não é fácil, como andar de bicicleta sem rodinha para uma criança de quatro anos não será fácil, como aprender a dirigir a um adolescente de 15 anos não será fácil. Facilidade não nasceu nesta vida. Nem pescar é fácil.

Sofrimento se paga à vista. Não aceita crediário. Se surgir, arca-se com as despesas na hora. Nunca por antecipação, a dissipar o contentamento antes de se tornar memória e curva do corpo. O mundo não é limitado, reduzimos o mundo pela preguiça de enxergar.

Por que os amantes estão apagando a alegria do amor? Por que estão suspirando antes de sussurrar? Por que estão escondendo dos amigos o ímpeto de atravessar uma nudez como se fosse o próprio quarto? Por que não declarar que é simplesmente delicioso perder o prumo para se levantar com a espuma? Por que fazer da inveja uma religião? Por que não falar que um arrepio e um estremecimento significam mais do que uma noite de sono? Por que não desistir de dar conselhos pessimistas e avisos mórbidos? Por que dissuadir os apaixonados com conselhos ponderados e equilibrados? Por que se envaidecer com a tragédia? Por quê?

Com receio de sofrer, homens realizam vasectomia no coração. Com receio de sofrer, mulheres fazem ligadura no coração. Tornam-se indiferentes e descrentes. Ambos sacrificam a fertilidade, o inesperado, o porvir, a expectativa e a surpresa. São enterrados de pé.

Viver não é racionar o que se conhece. O que se conhece não basta. Os riscos fazem parte da euforia.

Como a dor, a alegria também pode ser insuportável.

Por receio da alegria, sofremos.

4:35 PM :: Comentários:

DA PRIMEIRA VEZ

Nesta terça (6/12), às 21h, participo do SARAU ELÉTRICO, ao lado dos amigos CLÁUDIO MORENO, FRANK JORGE e KATIA SUMAN. A leitura aborda as SURPRESAS E DECEPÇÕES NAS RELAÇÕES AMOROSAS. A expectativa, a ansiedade, a quase agonia que precede o primeiro encontro, o primeiro beijo, a primeira transa. O antes e o depois.

CANJA: LICA E OS AVANÇADÍSSIMOS
OCIDENTE - PORTO ALEGRE- 21h - 5 PILAS


10:33 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 04, 2005

MINHA FILHA SEM MIM
Poema publicado na revista digital Confraria do Vento


Fabrício Carpinejar




Não sei quando a criança pára
de enxergar anjos ou de cumprimentá-los.
Se acontece por uma obediência natural

ao esquecimento, ou só depois?
Para não sofrer com os acidentes do invisível,
já que é demasiado sofrer

com o que se aprende no visível.
Essa é uma resposta que te devo.
Ficamos juntos alguns dias do mês,

as férias, e fico reparando em teus gestos
para descobrir algo do meu temperamento no teu.
Eu não te eduquei,

não te corrigi em seqüência,
sou o pai que vai voltar tarde.
Tudo o que tento ensinar não tem uma segunda

e uma terça-feira para permanecer.
Esquecemos de continuar, de completar
a frase, o assunto e a partitura.

Nossa convivência é feita de inícios,
com a memória diária de que estou ali
e tu estás ali, como duas crianças

regendo uma tempestade.
Te aproximas de mim
a segurar um objeto antigo.

Um objeto antigo que recorda
a casa que não teve. Não descobri
a forma ideal de convivência,

muito menos o que gritar
para chamar tua atenção.
O que desperta tua confiança:

A ordem ou o sussurro?
O riso contido ou desavergonhado?
O choro de frente ou murmúrio abafado?

Na hora em que me beijas,
viras o rosto lentamente,
a escapar da barba.

Herdaste até o medo da barba de tua mãe.
Herdaste os medos dela com lealdade.
Não herdaste meu medo

de não ser compreendido.
Não posso me defender
dos ataques dela,

do que ela possa dizer de mim.
Porque defender é atacar.
Atacar é destruir a casa

em que moras, a vida que tens,
o mundo que desde sempre
reverencias como teu e indivisível.


FABRÍCIO CARPINEJAR, poeta gaúcho, é autor de As Solas do Sol, Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede, Biografia de uma Árvore, Caixa de Sapatos, Cinco Marias e Como no céu/Livro de Visitas. Os poemas aqui publicados fazem parte de seu livro inédito Meu Filho, Minha Filha.

5:59 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

SEPARAÇÃO
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



Não adianta dizer alguma coisa. Não acredita. Você não acredita mais em mim. Estará me cobrando de madrugada o que não fiz. Estará me olhando sem piscar, tirando a segunda via de meus olhos. Você não acredita mais em mim. Flores ficarão na mesa como um aquário sem iluminação. Não consertaremos o armário, não iremos infiltrar heras nas grades, não envelheceremos juntos. A praia será um terreiro de santo desabitado. Seremos desconhecidos simpáticos, falando do filho para não se separar por inteiro Deixará meus sapatos perto da porta para facilitar, os livros fora da estante, as camisas empilhadas na cadeira. Não dormirá, não comerá, a não ser a raiva. A raiva de me devorar pelo ódio, depois de ter me devorado pelo amor. Agora chupa um por um dos meus ossos com desgosto. A carne é triste e doce. Você não acredita mais em mim. Acredita mais nos pesadelos, no horóscopo, nos cachorros do que em mim. Eu sou a impossibilidade do teu orgulho, de tua fé, de teu romantismo. Você bem que tentou acreditar, foi forte e sóbria no início, mas ainda não havia digerido. Ponho a minha língua em sua boca como uma aspirina e cospe a medicação. Agora você não acredita mais em mim. Posso espernear, desmentir, dissuadir. Posso avisar que se arrependerá. Posso argumentar que não reincidi. Já me condenou a uma primeira chance. Não importa, você sofreu por mim, pela família inteira, mesmo que não tenha acontecido nada depois. Sofreu ao imaginar o sofrimento. Sua dor tornou-se tão precisa e planejada que nem a realidade terá tempo de enfraquecer. Ficará no meio da escada, inquisidora, com as sobrancelhas bruxuleando insetos azuis. Ofenderá séculos em minutos. Os pômulos emagrecerão para evidenciar o pescoço. Puxará as contas do telefone, do cartão, mexerá em minhas gavetas para encontrar a suspeita de que você não acredita mais em mim. O sinal de alerta geral está ligado. Os búzios dizem mais do que as minhas mãos. As cartas dizem mais do que as pintas de meu braço. Você não acredita mais em mim. Corre para se salvar na contramão do meu dorso. Mata-me para se defender. Serei um afogado em seu pulmão. Serei cremado em suas coxas. Serei esfaqueado em seus ouvidos. Você não acredita mais em mim. Peço um último favor, me ensine a chorar. Eu soluço, eu soluço, eu soluço e não há voz, não há água para costurar essa mortalha. Desejava cobrir meus pés e o rosto, para que não me visse morto pela última vez.

9:30 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

TERAPIA LÍRICA



Relação aberta, pensamentos transparentes e franqueza absoluta são os temas da nova edição do Consultório Poético da Superinteressante. Confira abaixo e no site se vale a pena contar tudo.

VALE A PENA CONTAR TUDO?
Consultório Poético (para complicar o que já estava complicado)
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



"Estou vivendo há quase um ano um relacionamento que me deixa muito feliz. Éramos melhores amigos antes de nos apaixonarmos e, em função disso, já começamos a história com sinceridade 100%. Nunca tive uma relação onde a sinceridade imperasse dessa maneira. Me apaixonei sabendo quem a pessoa era, sabendo de todos os seus podres, ex-namoradas, taras, fetiches, e sabendo tudo sobre seu passado sexual. E vice- versa.

Vivi muitos relacionamentos onde as coisas ficavam subentendidas, sempre fui tratada como a "princesinha" ingênua. Levei alguns tombos, cresci e amadureci.

Quando comecei essa relação, decidi que pela primeira vez na vida seria sincera o tempo todo e exigiria o mesmo grau de sinceridade. Até aí, tudo bem. Só que de uns tempos para cá isso vem me fazendo um certo mal. Tenho a terrível mania de iniciar conversas profundas demais e entrar em assuntos polêmicos porque detesto a superficialidade.

Temo que essa super-sinceridade esteja se tornando tóxica para a minha pessoa. Lógico que não pretendo ser tão burra a ponto de querer ouvir respostas do tipo "você é a mulher mais linda, mais gostosa do mundo", "nenhuma outra me atrai", "não olho para mais ninguém"... Mas, ao mesmo tempo, sinto que preciso de ajuda para aprender a lidar com tamanha quantidade de informação sincera. Preciso aprender a lidar com as verdades que me são ditas quando faço alguma pergunta. Não, não quero ser tratada como debilóide e ingênua que acredita nos homens. Sim, preciso de ajuda para aprender a lidar com uma pessoa que me responde sempre o que ela sente, em vez de me responder o que eu supostamente gostaria de ouvir."


Letícia, sua percepção da situação é aguda e precisa. O mal-estar não é um acaso, mas resultado de uma escolha impiedosa e insuportável. Vocês oferecem o melhor de cada um para piorar a realidade. Antes calar o pior para melhorar a realidade.

Passamos a vida procurando a sinceridade e a confundimos com agressão. Há coisas que eu penso que não podem ser ditas, senão vou atacar quem eu amo. Amor é educação, trato, respeito, cuidado, não é falar de qualquer jeito e a toda hora o que sobe à cabeça. Uma relação aberta fecha o futuro - há mais passado do que presente. Segredos são sadios e não deve contar os mínimos pensamentos para provar a franqueza. Qual é a graça da nudez se ela é totalmente exposta logo no início? Velar e desvelar são regras da pintura e da sensualidade. Pornografia é não permitir espaço para sugestão. Não permitir brechas. Não vale a pena contar tudo, vale a pena ser tudo, inclusive a imaginação.

A questão é: quer um namorado ou um terapeuta? Vocês não conseguem mais se divertir porque criaram uma profundidade infernal. O diálogo mais banal vai esbarrar em polêmicas sexistas ou em desaforos ou em cobranças. Perderam a espontaneidade da brincadeira, são obrigados a declarar o que acreditam ao invés de desfrutar a vida juntos. Experimentam um ininterrupto interrogatório policial. Um controla o outro, apesar de aparentar uma relação sem controle. Se o cara falar que achou uma menina gostosa, logo não terá confiança quando ele conversar com ela sozinho. Certo?

Na ausência de fé, não existe segurança para seguir. Não se é um dique para barrar a enchente da boca. Qualquer situação é motivo de análise e investigação. A sinceridade absoluta fere, tensiona, atormenta. A suspeita torna-se crime.

Um estado com total sinceridade vira paranóia. Ninguém está livre do ciúme ou da posse. Não adianta fingir liberdade e independência se o amor pede cada vez mais a aproximação e o apego.

Tem que equacionar o que se sente com o que ele gostaria de ouvir. Nem a mentira, nem a verdade, mas a justiça. A justiça é harmonia, a justiça é zelo. A justiça é preparar a comida e a conversa 'de olho' e dispensar a receita.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

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