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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Janeiro 31, 2006

O GUARDA-SOL
Imagem de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Na praia, o mesmo ritual de masculinidade. Os homens chegam com os apetrechos e, antes de conferir a movimentação da orla, desembrulham o guarda-sol como um jogador toma para si a responsabilidade de cobrar um pênalti. As mulheres não se mexem, não se dispõem à tarefa. Deitam bem para trás na cadeira e recebem o colírio do vento fresco e marinho.

Trata-se de um consenso entre os casais, uma deliberação de condomínio. Mais uma tarefa masculina obrigatória ao lado da tríplice aliança (abrir vidros de conservas, trocar lâmpadas e levar o lixo). Os homens se entreolham, para disputar a rapidez da montagem. Cavam um buraco com o lado inverso do pau. Cospem areia com estocadas ritmadas e secas. Preferem fazer com um braço somente a mostrar virilidade. Estão se exibindo, é visível o desfile. Lembram escoteiros em sua primeira expedição. Não franzem o cenho, com uma languidez a provar que é fácil demais para suas propriedades musculares.

A operação dura cinco minutos até expandir definitivamente a lona. O guarda-sol é como uma ereção praiana. Um topless masculino. Ao abrir, o homem tem a sensação de vestir uma camisinha gigantesca. O contentamento é uma exigência ancestral de não negar fogo. Uma prova bíblica (e ridícula) de que é um varão. Alguns, ainda por cima, pegam emprestado o balde de criança para molhar o contorno do montinho e firmar a terra.

Nada pode falhar sob o receio do vexame público. As mulheres reparam o andamento de outros maridos e namorados que não o seu, a conferir a produtividade alheia.

E se o guarda-sol resolve sair voando? Não quero ficar na pele do homem correndo feito louco a caçar sua auto-estima, ainda pedindo licença pelo incômodo. Não existe seguro ao utensílio e ele pode atropelar seriamente crianças e idosos. E se o guarda-sol arrebentar suas varetas? Resta fechar, lamentar a impotência, dizer que isso nunca aconteceu antes e entrar na reserva. E se o guarda-sol pender tal bandeira de golfe atingida em cheio? O negócio é recomeçar com a culpa de um castigo e se oferecer para lavar os pratos em compensação.

É incompreensível como validamos comportamentos sexuais a partir de cenas menores e insignificantes, enrustidas na roupagem de educação, cavalheirismo e cortesia.

Em casa, decidimos trocar os papéis. Minha mulher é meu guarda-sol, eu sou seu guarda-chuva.

11:34 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

DO LADO DE FORA PARA VOLTAR
Pintura de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Faça um exercício: acorde como se estivesse ido embora. Contorne a casa pelas janelas de fora. Não denuncie seus movimentos, não produza nenhum barulho, sequer o da respiração. Passe pela vidraça do quarto do filho e os veja brincando, mexendo com seus bonecos, conversando com seus espíritos, naquela alegria de alma que as crianças exercitam naturalmente.

Fica com vontade de rir dos diálogos entre o filho e seus guerreiros imaginários. Uma ternura de cócegas na barriga. Percebe que ele usa suas expressões. As pausas parecidas. O franzir dos lábios idêntico. Pensa em dar um susto para abraçá-lo em seguida, mas não pode dizer que está ali. Não pode interrompê-lo. Não pode gritar ou expressar o seu amor.

É um passeio calado como o de um fantasma. Isso vai irritando. Você não suporta ver sem ser visto. Entende que ver sempre foi uma retribuição. Atravesse a casa pelo lado externo, como a vitrine de uma loja. A loja é a sua intimidade. Está fechada, tal domingo. Os mortos não podem comprar seus pertences de volta. Todo dia para quem partiu é um domingo, sem expediente.

Conduza a lembrança para o outro aposento. E enxerga sua filha chorando devagar. Talvez seja por você ou pela lacuna de uma cadeira na mesa. Ela sentava no almoço na sua frente. Observa que o livro que comprou está ao lado dela, aberto no travesseiro. Ela está lendo finalmente. Quer comentar o enredo, e recorda que não pode falar ou amansar as costas dela com seus dedos tortos. Ela chorará até descer na parada do soluço. Ou do grito.

Continua seu percurso pela inexistência. No quarto do casal, sua mulher não abre mais as gavetas e o guarda-roupa. Está sentada na poltrona marrom, onde tantas vezes fizeram amor. O olhar trêmulo de um animal ferido. Deseja alisar seus cabelos de baixo para cima, como um pente sem dentes. Beijar seu pescoço. O pescoço é o ouvido do coração. Apertá-la com a volúpia do cachecol no inverno, que dá três voltas de árvore. Ela nunca esteve triste assim, uma tristeza deserdada, uma tristeza primogênita, longe da possibilidade de irmãos. Lembra de piadas e de gracejos que a faziam descontrair. Ela não o ouvirá. Você está do lado de fora do mundo. Não é capaz de arrumar mais a cama da nudez e de retirar os sapatos do caminho para ela não tropeçar. Ela me xingava quando pisava em meus sapatos pela casa.

A vida está represada e interrompida. Assiste as ruínas. Ruína é o que não é possível mais levantar.

Faça agora o exercício ao contrário. Entenderá que o tempo certo é qualquer tempo. Retorne seus movimentos para trás e proteja com intensidade seus filhos e sua mulher. Não consulte o relógio e a agenda, o sol e as roupas para ter alguma opinião. Fale sem parar, até que eles entendam o quanto você se emociona em falar. Falar é ser ouvido. É a sua segunda chance de ser feliz. Mas você já era feliz. Então, é a primeira chance novamente de ser feliz. Não só na dor que devemos apontar onde dói. E sim na alegria. Minha alegria dói para minha família, de jeitos diferentes.

Compreendo o que o meu pequeno filho me falou ao chegar na praia. O céu e o mar iguais na densidade e na cor. Apertando meu pulso, gritou:

- O mar grudou no céu!

Sim, meu filho, o mar gruda no céu, como eu no corpo de quem amo.

2:54 PM :: Comentários:

O ABACATE
Pintura de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Na fruteira, vou pesar o abacate e contesto os 800 gramas. Quero pagar mais! Digo ao atendente com seu uniforme marrom de mercado que não é justo 1/3 dos meus trinta e três anos receber uma etiqueta com esse mísero peso. Ele não entende, faz sinal ao longe e chama o gerente. Enquanto os funcionários descrevem minha loucura, aliso a textura do abacate, sua cortina inefável de verde, seu bronzeado de terreno baldio.

Todo e qualquer abacate pesa a minha infância. Cresci à sombra de um abacateiro. O abacate foi minha primeira bola. O primeiro caroço de câncer benigno que descobri em meu corpo. A primeira nudez que dissequei em meu laboratório de formigas. O primeiro carrinho conversível de quatro portas. A primeira luva de lã que usei no inverno. A primeira pedra que se converteu ao cristianismo.

O pátio cheirava a abacates, bolas de fogo queimando os canteiros. Levava uma hora para reunir os primos distantes de sua família e promover a reconciliação depois da queda.

Por mais que tentasse ensinar, o abacateiro não conseguia jogar ioiô. Segurava com pouca força os ramos e perdia seus brinquedos na chuva.

Eu me assustava com sua pele afobada, que logo apodrecia, e não dava chance de chutar muitas vezes. A fruta enegrece quando madura. As impressões digitais ficavam em sua estrutura de limo e vento. Afundava meus dedos na superfície. Uma vez descobri um pássaro vivo em sua casca. Acreditei que o caroço tomou asas emprestadas e partiu, com o bucho cheio, sem aprontar as malas. Tomei pudor ao abrir os outros. Contava até vinte antes de descascar. O abacate vinha a ser o armário em que as aves brincavam de esconde-esconde.

Tarde sim, tarde não, comia creme de abacate, preparado pela mãe com excessivo açúcar para enganar a vitamina. Depois corria pelos corredores e girava até encontrar a tontura. Atirava-me no chão para observar as goteiras da copa e a plumagem aluarada. Quando amassadas, as folhas marrons, secas, produziam barulho de ladrão.

O abacate servia para a bondade e para a maldade. Na infância, pelo menos, a maldade era divertida. Jogava abacate dos muros. Eles explodiam a goma levemente branca e provocavam quedas cômicas dos vizinhos.

Nunca alcancei os galhos do abacateiro, o maior edifício que conhecia naquele tempo. O abacateiro subia nos telhados sem escada. Via apenas seus joelhos de quem cansou de viajar.

Eu chorei quando cheguei da escola e os pedreiros o haviam cortado. O pai decidiu ampliar a residência. Não quis ver o caixão do morto. Perguntei onde se enterram as árvores, já que elas nasciam enterradas. Não me responderam.

Eu passei a dormir no exato lugar em que estava o abacateiro. Meu novo quarto assassinou minha árvore. Suas janelas farfalham folhas e silvos. Minha voz infantil é arremessada de volta nas frestas.

Por favor, por isso peço que registrem meus 72 quilos no peso do abacate.

2:53 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

PANO DE PRATO

Fabrício Carpinejar



Estava secando a louça com a mesma distração de quem dirige e, de repente, passo a conferir o calendário no pano de prato. Era de 1995, o ano em que iniciei com a Ana. O curioso é que 1995 e 2006 são praticamente iguais. Estou reprisando o ano em que me encontrei com ela.

Nunca contei aqui como a conheci. Trabalhávamos em cobertura política. Eu do lado da assessoria e ela do jornal. Tamanha a euforia, chegou um momento em que deixamos de prestar atenção na sessão de vereadores. Vivíamos trocando bilhetes, com perguntas cada vez mais ousadas. Pedaços de papel e guardanapos foram o nosso Messenger.

Tinha me separado recentemente e ainda estava com reservas e cautela. Perdi todos os dispositivos de defesa com a sua capacidade de dizer tudo arqueando as sobrancelhas. Suas sobrancelhas usavam meia 7/8. Eu escorregava o olhar para debaixo da mesa. Nossa primeira saída aconteceu com um casal de amigos. Depois do restaurante, terminamos em uma boate fuleira. O cenário ideal para não começar nenhuma relação. As garçonetes circulavam com minissaia mínima, cheias de brilho e lantejoula. O primeiro beijo foi feito com as pálpebras, macios como as pálpebras. Inspirei meu próprio ar e gostei quando vinha de sua boca. Não findava e nem findou. O mundo sumiu ao derredor. Descobrimos depois que o casal de amigos brigou feio (em função de uma das garçonetes) e foi embora. Não souberam como nos interromper para avisar.

No dia seguinte, Ana estava de tubinho branco. Era verão. Os dois com medo de falar e de confirmar as expectativas. Eu queria namorar, mas meu pé estava indeciso entre ir e voltar. Quando se ama, mistura-se a pressa com a ânsia. Tomei coragem de marcar um novo encontro. Caprichei. Havia recebido meu FGTS do último emprego (demitido, claro) e reservei por uma semana o quarto 502 do Hotel Everest, defronte à minha paisagem favorita de Porto Alegre, o Viaduto da Borges de Medeiros. O curioso é que morei em um hotel na minha própria cidade. Íamos em restaurantes, em teatro e cinema, largamos praticamente a rotina. A felicidade quase me matou de susto.

Eu cheirava a seus cabelos de dia e de noite. O sexo tinha a claridade das cortinas. Minhas mãos dedilhavam o piano de suas mãos. As teclas brancas e as unhas negras. Um dependia do outro, como se não houvesse crime nos jornais. Nas andanças, queimei meu melhor casaco com o isqueiro e nem lamentei. Ria com a facilidade de um grampeador. Fali e achava graça. Meus bolsos para fora como a língua de um cachorro com sede. Nunca estive tão pleno. Podia mudar de religião para entender Deus ou mudar de Deus para encurtar a reza.

No domingo, depois de ter gasto o que eu não recebia, disse que a única alternativa era morar junto. Ela aceitou, com uma convicção que só existe na infância. Procuramos apartamento e entramos no primeiro que visitamos. Número 205, o inverso do quarto do hotel. Concordamos com a coincidência. Ambos enlouquecidos, como deve ser a saliva, compramos um colchão, duas alianças e um par de copos, pratos e talheres. Não precisei decorar seu telefone para ligar, não a deixei sair de perto de mim.

Nossa primeira janta no novo endereço foi no chão. Eu comi com as pernas cruzadas, mas é certo que já estava ajoelhado para sua nudez. Eu beijei suas costas como se fossem seios. Eu beijei seus pés como se fossem braços. E segurei seus traços com uma força que unicamente a delicadeza encontra. Eu desenhei seu rosto num pedaço de cartolina para não perder nada e fixei como um quadro na parede. As cores e os filhos entraram nas linhas vazadas.

E pensar que em uma semana tomei a decisão de dez anos. E pensar que seco hoje com um pano de prato de 1995 justamente o copo e o prato da primeira vez.

11:14 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 24, 2006

DEIXE-ME DANÇAR SUA VIDA
Imagem de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Quando danço com minha mulher em casa pego o LP e ponho no antigo toca-disco. O ritual semelhante ao de esticar os lençóis antes de deitar. Levanto a tampa de acrílico, sopro o pó, arrumo a agulha. O aparelho pede proximidade, apoio, vigília. Ligar sem botão de controle, de modo manual, com os dedos tremendo. A ponta afiada nos círculos traduz nossos sapatos no piso. Ajuda o vaivém no pescoço, a troca consensual da língua e da respiração. As rotações lentas e o ruído suave para ouvir as preces e os pedidos dela. Ouvir o LP é não apagar as cigarras da noite e da varanda. É uma noite com os astros gritando ao fundo.

Escolhemos para tocar os discos adquiridos separadamente por cada um na adolescência e que dominavam as reuniões dançantes. Álbuns com os encartes rasgados, amarfanhados, curtidos. Algumas músicas estão arranhadas pelo uso excessivo, mas a falha é abafada porque se conhece a letra de cor e cantamos alto. E o som é apenas o eco do nosso próprio timbre.

É como se recuperássemos o tempo que não nos conhecíamos. Nosso jeito de voltar ao passado e namorar em distintas fases da vida dos dois. Torno-me seu primeiro, seu segundo, seu terceiro, seu último namorado. Sou seus amores festejados em um.

Retornamos às antigas festas como estranhos. Retornamos aos locais em que um e outro ainda queriam aprender a amar. Nos cumprimentamos ao longe, esperando que um colega nos apresente e facilite a conversa. Não aguardo, percorro o salão, fingindo devolver o copo vazio à mesa. Encho as mãos com as suas.

Dançamos. As canções são a memória dela. Entro nas rimas, hospedo-me em suas impressões, faço cama nos estribilhos. Vou girando e a levando para perto. Giro e a peço para namorá-la em toda faixa. Ela diz que vai pensar e intensifico o abraço. E meu braço já é longo como uma perna.

Agora estou em sua formatura, agora estou em seu aniversário, agora estou em nosso casamento, agora estou embalando o nosso filho, agora estou em nossa casa de noite.

Ao me provocar, eu a cerco. Ao me distanciar, ela se aproxima. Eu beijo o quadrante entre seu nariz e o olho. Nenhuma outra boca chegou ali. Perto do seu sinal de nascença. Entre as lágrimas e o suor. Ela me pára de repente e os pés amontoam os passos que deveriam ter acontecido. Ela busca decifrar a cor dos meus olhos. O escuro a atrapalha. Ela entra com os pés nas minhas pupilas. Prova a água e fala que está quente para o mergulho.

Meus olhos são marrons. Meus olhos são cor de mel. Só para minha mulher eles ficam verdes. Só para ela. É preciso estar muito rente deles. Eles chovem verde quando amam.

9:52 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 22, 2006

JOGO DE COMPARAÇÕES
Ilustração de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Os pais estabelecem um jogo de comparações com seus filhos, determinando o que puxaram de um e o que puxaram do outro. É como se houvesse somente dois caminhos genealógicos. O filho fica prensado entre a mãe e o pai. Faço igual e com a malandragem de empurrar o temperamento difícil das crias para o lado materno. Ponho as facilidades de adaptação em minha conta.

A identificação inicia logo com o nascimento da criança. É uma adoração de seus pequenos feitos e passos. Quem não é pai e mãe estranhará o tom das conversas e os pormenores escatológicos. Melhor não ouvir. Comenta-se até a cor do mijo e do cocô. Uma atitude banal como regurgitar é raia de debates filosóficos e de previsões minuciosas. No princípio da filiação, pai e mãe não discutem mais nada. Contas e sexo são secundários no período. Depois das evacuações e amamentação, é a luta por se tornar a primeira palavra compreensível do rebento. O bebê boceja e a mãe sai gritando: "ele me chamou de mãe". A criança arrota e o pai descobre na sonoridade semelhanças com seu nome. Uma corrida insana para patentear os movimentos. A palavra de estréia da criança transforma-se no primeiro litígio amoroso. Devia-se existir um perito no mercado, misto de fonoaudiólogo com detetive, para esclarecer a dúvida.

É um jogo de poder e queda-de-braço. Pode ser inclusive divertido. De noite, o casal entre beijos resume na cama as últimas dos filhos, os vocábulos surpreendentes, os atos inesperados, os gestos de carinho. E estão contabilizando: - Isso é meu, isso é seu. Lembra inventário de parente, liquidação de loja, em que a educação não nos faz permanecer quietos e regrados em fila, e estamos nos atirando para segurar o maior número de objetos. A atitude não é negativa. Mas corresponde à chance de perpetuar as aspirações, de vingar a personalidade e, quem sabe, de viver além da efemeridade da carne. É evidente que a maldade e a indisciplina serão órfãs. Não há um interessado para adotá-las. Quando a criança apronta, é normal comentar: "não sei quem você puxou...". A porção ruim e selvagem é creditada ao acaso. Somos pais apenas das boas notícias e primos distantes das más.

Os apontamentos das semelhanças vão além das características físicas. Seria tolo dizer que o filho é alto porque sou alto, de que é castanho porque a mãe é castanha, de que tem olhos claros em respeito ao avô. O cruzamento refere-se a traços subjetivos, que formam o DNA do espírito, que inclui teimosia, implicância, generosidade, resistência, inteligência e coragem. Os pais realizam um teste vocacional a cada semana. Os filhos nem notam.

Eu sofri intensamente na infância e adolescência a comparação. Com pai poeta, escrevia uma redação mais lírica e a professora já me classificava como seu herdeiro. "Filho de peixe, peixinho é...", escutei esse bordão em todas estações de minha rádio, AM ou FM, diante dos colegas ou reservadamente, como a apontar que o mérito não era meu. O que os interlocutores desconheciam que a minha mãe também escrevia - e só não tinha publicado.

Vicente, meu filho de três anos, me deu uma aula sobre projeção. Estava dormindo de tarde e escutei a porta batendo. Fui correndo ver se alguém tinha entrado em casa - o susto de um assalto. Vejo a porta fechada em cima e com a tranca de baixo. Vicente me olha assustado. "O que houve? Quer sair?", questiona. Digo que não e pergunto quem bateu a porta. "Eu", ele responde. "Estava aberta". Verifico que trancou perfeitamente. Neste momento, concluo que ele não puxou nem a mim, nem a sua mãe, puxou a ele mesmo.

6:05 PM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 21, 2006

CADERNO CULTURA, ZERO HORA
Exibindo conteúdo de 21 de janeiro de 2006.
Porto Alegre (RS) Edição nº 14760

Literatura

COM O MAPA-MÚNDI NA CABEÇA
O catalão Joan Brossa, homenageado com uma exposição no Margs, em Porto Alegre, explorava a inteligência do óbvio e a leveza séria da ironia

FABRÍCIO CARPINEJAR*



Uma luva postada com selo. Um sofá vermelho assassinado por três flechas em suas costas. Uma roda quadrada. Uma lâmpada de 100 volts com inscrição da palavra "poema" em sua redoma. Um relógio centopéia com seis ponteiros. O artista catalão Joan Brossa concebia a poesia como um dialeto, que apenas começava no idioma do livro. Avisava com ênfase: a linguagem literária deixou de ser o único veículo para abrigar conteúdos e formas líricas. Transformava coisas em poemas e poemas em coisas. Com ironia, refez a funcionalidade do cotidiano e criticava os costumes. O casamento é ironizado na forma de algema, um bracelete empregado como um dos círculos da peça.

Seu escritório é ao ar livre, feito de relatórios de fruteira, dias de Carnaval, cartas de baralho, como um Arhur Bispo do Rosário que liberta os objetos, não os prende em tecidos. Anunciava concreções visuais, acessórios do olhar na seqüência de poemas-objetos dos surrealistas. Tanto que ele se proclamava um "neo-surrealista". Retirava o contexto de figuras e realizava uma justaposição de conceitos e planos. Mais do que uma idéia fora do lugar, efetuava lugares fora das idéias.

Brossa, admirado por João Cabral, que lhe dedicou um poema em Paisagens com figuras e imprimiu um de seus livros (Sonets de Caruixa) em sua estada como cônsul de Barcelona, transbordou os limites da página e investiu na poesia escrita, visual e cênica em mais de uma centena de títulos. Seu verbo não terminava onde era cortado o papel. A atitude de um homem que usa o cabelo como chapéu. A impostura sem enganos, a inteligência do óbvio. Sua poesia vai além das aparências, com o diferencial de não sair delas. Caçava o poema como um rato no porão. Seus versos extravasam um estado permanente de honesta indecisão.


Um iconoclasta faz pose:Joan Brossa e a sua "Luva correio", de 1967

Não somente pensava, pensava o pensamento, como pontificava Murilo Mendes. Não escrevia para concluir, mas para reabrir a discussão de um caso encerrado.

"São tantas as diferenças que noto entre o que sinto e vejo, que, se me lembro de tragédias pessoais, acendo um cigarro e saio do poema"
(Poesia vista)


Sobrevivente da Guerra Civil Espanhola, que o marcou com um estilhaço no olho, persona non grata do general Franco (Poemas civis foi publicado na íntegra depois do falecimento do ditador, em 1977), Joan Brossa morreu aos 79 anos, em 1998. Colaborador de Antoni Tàpies, amigo de Miró, é um investigador minucioso, acurado, fabricava o real para retirá-lo do comércio e o abençoar em artesanato. Interessava-se pelas palavras que poderiam ser pegas com as mãos. Trata-se de um desenhista (utilizando apenas o lápis), procurando o elo perdido entre o semântico e o visual.

Em Brossa, as palavras se representam, não são produtos de uma mediação. Trabalha o alfabeto com lupa. É capaz de encontrar as estrias e a celulite das letras. Exagerava na ourivesaria da língua. Poesia como necessidade expressiva de claridade e clareza. Contrariava a conexão lógica e favorecia associações fônicas. Percebia o som como escultura.

No Brasil, tem sido traduzido com esmero. Vale ler as coletâneas Poemas civis (Sette Letras, 1998), traduzida por Ronald Polito e Sérgio Alcides, Sumário astral (Fabricando Idéias, 2003), vertida por Ronald Polito, e a recente Poesia vista (Ateliê Editorial, 2005), selecionada e traduzida por Vanderley Mendonça.

A perspectiva é uma de suas preocupações, propor ao texto um aprofundamento de cena, com duas ou três ações simultâneas, uma desdobrando e justificando a outra. Ele ensina a desenhar enquanto escreve. "Num desenho que figura um pássaro / tracem uma linha do bico / à pata esquerda" (Poemas civis) ou "Me olho / num espelho de mão / no qual pintei um bigode, / e tento fazer com que as linhas / se encaixem sobre / meu lábio superior" (Poesia vista).

Existe uma fruição do frugal, a delícia do que não depende de explicações (evocando Alberto Caeiro), dando aos atos singelos e insignificantes o que realmente são: atos singelos e insignificantes. Ele se dispensa do papel de prefácio e prólogo da realidade. Poema não se justifica. Melhor ver. Engraçado é que emprega os sujeitos, verbos e advérbios como seu grupo teatral. Ele é o diretor e os adjetivos são a platéia. Metalinguagem da fluidez, brincadeira da maleabilidade. Não perde a leveza mesmo quando sério e grave. Sabe que o sopro da boca é para fazer voar.

Movimenta-se em uma despretensão no ato de observar, que é diferente de naturalidade. Empobrece a percepção para despoluí-la. Tudo o que diz é com humor, impregnado de uma comicidade chapliniana e um talento para desafiar os condicionamentos.

"Uma onda ou uma árvore, ainda que possam ter muitos detalhes, representam uma onda ou uma árvore"
(Poemas civis)


Cheio de aforismos, aconselha e orienta o fluxo do visível, como um guarda de trânsito. Há o deboche da falsificação da voz pela influência externa, da ausência de espontaneidade que acontece em toda cena pública. Neste sentido, propõe gratuidades para confundir e afirmar sua liberdade de expressão "Hoje só presto atenção em formas triangulares" (Sumário astral).

Contrário à metafísica, processa a desconstrução de projeções sociais. Chega a pontuar: "há coisas que vistas / são mais simples do que explicadas" (Sumário astral). Tem consciência de que o poema tem um "fundo falso". O ceticismo e uma insuficiência sempre corrigida no dizer o aproxima de João Cabral. Brossa corrige seu olhar pela melhor expressão, transformando os versos em tentativas do verso. Marca uma atitude política de combate ao fanatismo e obsessões ideológicas, com o charme de estar à paisana: "A única coisa de que preciso / é imaginar grandes bosques / ou a fumaça de umas ervas."

Com Joan Brossa, o segredo é abrir o mapa-múndi sobre a cabeça. É o melhor guarda-chuva que poderíamos encontrar.

* Poeta e ensaísta, autor de Como no céu/Livro de visitas e Biografia de uma árvore, entre outros livros

8:48 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

O BANHO PREFERIDO DE TODA MÃE
Pinturas de Mary Cassatt

Fabrício Carpinejar


Mãe de criança pequena tem só uma hora de sossego. Não é ao dormir ou ao comer. É durante o banho de seu filho. Momento em que ela busca resolver as pendências e aspirar uma vida normal. Falei vida normal? Sim, mãe tem uma vida sobrenatural, categoria que inclui o pai que cuida sozinho dos filhos. Ler o jornal é um luxo. Poderia aproveitar a folga em que a criança cochila. Exausta, toma carona no cangote dela. Nem o Lexotan faria tanto efeito. O mesmo acontece de noite, turno que reserva para assistir televisão, mas apaga no primeiro comercial.

Vida de mãe é um sufoco, dedicação integral. Correu o dia inteiro atrás do pequeno, reorganizando os brinquedos, preparando as papinhas, arrumando a bagunça. Ela gasta metade do seu tempo para cumprir as refeições, trocar as fraldas e encaminhar as roupas e o outro tempo para limpar o que foi feito. Está suada, cansada e não existe intervalo de almoço. Come aos tropeços, com um prato apoiado nos joelhos, em vários reinícios. Perdeu a noção do que é comida caseira, com o paladar convertido ao time da comida requentada. Para ir ao banheiro precisa criar estratégias de segurança. Mãe não desgruda de sua vigília. Não troca guarda. Tente conversar com ela na praça. Dispersiva, dirá sim com freqüência às perguntas mais despropositadas, e olhará para frente, sempre, a controlar os andamentos infantis.

O excesso de trabalho a sufoca. O banho de seu filho acaba mais valioso do que o próprio banho. Ela o deixa brincando na banheira cheio de badulaques e bonecos e põe a falar ao telefone. São seus vinte minutos de descanso e independência, em que não precisará responder aos miados e apelos ininterruptos da casa. Quando está com o filho, ele vai interromper minuto a minuto para pedir ou perguntar alguma coisa. Na terceira ausência de resposta, solta um grito choroso que encabulará os animais da vizinhança.

O banho do filho pequeno é a melhor babá que ela é capaz de encontrar. Não precisa pagar, muito menos se sentir culpada. A criança estará feliz com seu talento para inundar o banheiro. Provocará um derramamento até o tapete da sala. Puxará o chuveirinho para baixo. Despejará o xampu na água. Comerá pedaços do sabão. Ainda brigará para sair, apesar dos dedos murchos. Nada disso importa. É o tempo que mãe avisa ao mundo que ela continua viva antes de retomar o leme e avançar de novo para o incomunicável alto-mar.

3:32 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 19, 2006



Minha coluna está no ar no site da Superinteressante. Confira o novo desafio do Consultório Poético.

AINDA É TEMPO DE VIVER
Pintura de Juan Gris

Fabrício Carpinejar



"Se faltarem alguns (importantes) detalhes, pode o amor permanecer? Ou ele sobrevive por si só, pela sua força e grandeza? O amor deriva daquela paixão enlouquecida que nos pede mais e mais, até que se consolida e muda de cara. O amor deriva de um emaranhado de sensações e sentimentos, de procuras e encontros. Mas só vive, efetivamente, quando é acarinhado, bem cuidado, mimado. Mas o amor não se explica e, consequentemente, não se explica o fim dele. Depois de morto, há reencarnação para o amor? Ou melhor, há nova vida para o amor que se sente por uma determinada pessoa? Pode ele morrer e renascer? Como?"

Ramona, o amor não termina, o amor é abandonado. Deixa-se de cuidar dele, de alentá-lo, de provocá-lo. É largado de lado, como uma bicicleta que perde o fio luminoso das correias. A bicicleta continua na mesma garagem, mas há preguiça de consertá-la. Qualquer um vive sem a bicicleta, recorre ao carro, ao ônibus, ao trem, às próprias pernas. Mas não existe como apagar a sensação dos cabelos voando para trás em uma lomba, a vertigem da alegria. O amor é insubstituível, ainda assim é possível fingir que ele não existe.

Ninguém deixa de amar e me arrisco ao fazer essa afirmação. Deixa-se, entretanto, de alimentar o amor. O corpo se condiciona a jejuar. O corpo aceita o que damos a ele. O corpo é um indigente. Acostuma-se a receber esmolas quando poderia trabalhar para se sustentar.

É um faz-de-conta. Mais fácil acreditar que acabou o amor do que resolvê-lo, do que arriscar as aparências. As pessoas, muitas vezes, se preocupam em dizer que estão felizes, em provar que estão felizes, do que em aceitar a espontaneidade das relações. Os erros espontâneos das relações. As virtudes espontâneas das relações. O amor não depende de provas. Ele é invisível, pede somente que sejamos visíveis por ele.

Quando é amor (e não atração ou carência) não há como enterrar. Ele fica pairando sobre as fotografias, os costumes, os nomes das coisas e dos lugares, pronto para falar. Amor verdadeiro manda na gente. Por isso, não se explica o fim dele. Quem ama pode até se enganar para continuar vivendo, mas viverá recalcado e confuso. O amor não depende do que é certo ou errado, do que é normal ou direito, escapa ileso do julgamento.

Ele permanecerá dentro, com a argola pronta para ser puxada. Ainda que seja uma granada ou uma aliança. O amor é a linguagem que se criou para nomear o mundo. Como fugir da linguagem fundada por dois amantes em segredo? O amor não precisa morrer para se reencarnar. Conheço casais que viveram separados por anos e, sempre que se encontram, tremem de susto por um beijo ou uma aproximação. Vão viver à espera de uma coincidência. Que triste, né?

O amor não renasce, nós que renascemos para ele. Vive-se para se proteger do amor, a verdade é esta, dura e particularmente impessoal. Somos educados a reprimir o amor, a não deixar que ele entre, porque ele incomoda e desarticula. Somos educados a dizer não às verdades, a deixar para depois, a pensar primeiro na estabilidade financeira.

Não esqueço uma lição da minha avó. Ela lia os obituários do jornal. A primeira seção que consultava. Observava com atenção a história e as fotografias dos falecidos para encontrar semelhanças com a sua. Um dia perguntei porque ela fazia isso. Respondeu: "para ficar com medo da morte ao invés de ficar todo o tempo com medo da vida".

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:00 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

A EX-CASADA
Ilustração de Man Ray

Fabrício Carpinejar



A ex-casada vai parir a separação. É como se fosse um filho. Primeiro vem a amamentação do fantasma. Ela terá que colocar algo em lugar do amor. Será a raiva. Vai odiar o ex-marido como ninguém, assim como amou ele um dia. Mesmo despedaçada, terá uma consciência aguda do que deve fazer. A ex-casada é prática com o fim de uma relação. Usa toda a subjetividade para enervá-lo, mas é objetiva dentro de sua casa. É capaz de fazer ciúme ou de provocar. Nada além disso. No primeiro mês não estará pronta para seduzir. Ficará olhando o mundo como se fosse um caderno de classificados. Não deseja comprar ou vender algo, está interessada em reencontrar a distração dos olhos. Contará com uma rede de amigas para reclamar do passado e de suas privações. É a vítima perfeita. Sua conta do telefone aumentará. Ainda que seu vizinho prepare festa e convide a bateria de uma escola de samba, não se levantará no meio da madrugada, sob o efeito do analgésico das lembranças que não existiram. Acordará tarde e se mostrará indisposta para andar de guarda-chuva. A ex-casada vai chorar depois que colocou a maquiagem. Precisa comprovar as conseqüências do choro.

Haverá uma sensação de alívio. Alívio tardio. Como se um feriado caísse no domingo e fosse tarde para voltar atrás. A ex-casada tratará de brincar sentada no chão e contará histórias de noite mais para si do que para suas crianças. Mudará o cabelo, comprará roupas, escutará a seleção de músicas da sua adolescência e pode tirar o pó dos LPs. Não mudará a lingerie. A ex-casada só trocará a lingerie quando estiver novamente apaixonada. Cuidará da nudez outra hora. Sua prioridade é manter a aparência forte para evitar perguntas indiscretas.

A ex-casada não substituirá uma ausência por outra. Seu luto é comer chocolate e assistir filmes românticos. Toda ex-casada começa a retomada pelo banheiro. Comprará tapetes coloridos. De modo nenhum, ficará arrependida, pois valorizava o que já tinha durante a relação. Tomará banhos longos para retirar resquícios do perfume antigo. Mexerá nas fotos do casal e brincará de lareira na pia da cozinha. Algumas imagens podem sobrar em função do cheiro e da fumaça escandalosos. Ela perceberá que nunca acionou um extintor de incêndio e não pretende estragar a pintura das paredes.

O problema da ex-casada são as baratas. Ela fechará as portas entre os quartos para não se apavorar. Poderá não aparecer durante o mês ao avistar as escamas pré-históricas. Não adianta matá-las com os chinelos. Terá nojo dos chinelos depois.

Não perceberá a TPM, não há ninguém para pô-la à prova. Tomará com cinismo a cartela de anticoncepcional. Deixará a samambaia sofrer como ela. É capaz de comprar cactos pelas pedrinhas brancas. Entende o estado mineral.

A descoberta da ex-casada é que seu marido não servia para muita coisa, afora afugentar as baratas. Abre os potes de pepino e constata o quanto era fácil girar a tampa com o pano. Reprisa as gentilezas que ofereceu em troca de um gesto simples e deseja pedir retratação.

A ex-casada se aproximará da mãe. Volta a ser menina. Volta a enrolar os cantinhos das fronhas. Dormirá de vez em quando no sofá para se distanciar do quarto. Será mais aplicada no trabalho. A ex-casada é encarnada nas obrigações, não usará desculpas pessoais para se livrar da rotina. Provará que pode se virar sozinha. Aliás, como sempre.

8:50 PM :: Comentários:

150 MIL VISITANTES: O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR



Ao iniciar um blog pensava que era um escritor feito, concluído. Mas os leitores me transformaram, me modificaram e nunca mais me senti sozinho ao escrever. Quem ama e quem é amado se confundem. O leitor e o autor se misturam, se revezam, se completam.

Cada um que deixou seu comentário aqui me fez pensar, intensificou minhas obsessões e aproximou meu olho direito do esquerdo. Guardarei todos os nomes em meus lábios, esses dois travesseiros que uso para não dormir e ler a minha rua. Sem vocês, a palavra seria fria. O vento só é realmente quente ao sair da boca.

Chegamos hoje aos 150 mil visitantes. Seguindo o pedido de muitos, decidi publicar meu primeiro livro de crônicas: "O Amor Esquece de Começar", reunião de textos do blog e inéditos. A obra sairá pela Bertrand Brasil no início de março.

1:25 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

O EX-CASADO
Ilustração de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Ficar solteiro depois de anos de casado é terrível. Como perder a memória e recuperar devagar as lembranças. Já na hora de dormir, o ex-casado não vai avançar ao outro lado da cama. Mesmo sozinho, a sensação é que tem outra pessoa dormindo com ele. Não sai de seu cantinho, como uma ostra, condicionado aos movimentos da mulher que deixou de existir. Pela sede, identifica-se que está novamente solteiro. O ex-casado vai se levantar várias vezes para tomar água e, de alguma forma, acordar do pesadelo.

O casado é como um atleta do remo. Treinou para o esporte em equipe. Quando se separa, a canoa torna-se maior do que o próprio rio. Parece banco de praça na segunda-feira. Sem a força de outros braços, a madeira se desequilibra e rasteja. O ex-casado tem agendas imprestáveis. Ao ligar para velhas amigas, ex-namoradas e esposas que poderiam ter sido, não consegue conversar com naturalidade. Exerce um serviço de telemarketing. Um péssimo entrevistador. Começa a responder antes de perguntar. Desconhece como chegar aos assuntos que o interessam, tipo "quer sair comigo?" e "está livre esta noite?". Ou como explicar a ligação repentina, após dez anos. O ex-casado tem uma vaga sensação de que o mundo esperou igualzinho como da última vez que ele o viu antes de entrar no casamento. Confia na máquina do tempo e no congelamento da espécie. Acredita que suas paixões não casaram, não tiveram filhos, não mudaram de opiniões. Um dos equívocos do ex-casado é deduzir que toda mulher o aguarda e queria ficar com ele. O ex-casado pensa que foi ele que escolheu sua vida. O ex-casado se entrega pela educação desajeitada Demora horas e horas ao telefone para descobrir se o antigo caso está comprometido. Pode desligar sem descobrir.

Não suporta a solidão. Não suporta não ter os horários controlados e o excesso de liberdade. O que adianta a liberdade sem alguém para testemunhá-la? O ex-casado diminui sua conta telefônica. Não há ligação de sua mulher preocupada com o seu trajeto. Ele pode dormir fora e morrer atropelado, demorará um campeonato inteiro para chamar atenção de sua ausência. O ex-casado não tem um amor para reconhecer seu corpo.

Bota música alta para falar sozinho. Bota televisão alta para não se enxergar isolado e diminuído. O ex-casado tem compaixão súbita pelas plantinhas. Entende o estado vegetal.

O apartamento do ex-casado é um orfanato para adultos. Terá que almoçar e jantar sozinho. Sempre sobrará comida, pois estava acostumado a raciocinar pela porção a dois. Descobrirá o quanto não era responsável pela sua rotina. O ex-casado terá que lavar as roupas e os pratos, passar as camisas, cuidar do lixo, fazer supermercado, colocar remédio de mosquito. O impulso é pedir demissão do serviço para cuidar da casa. O ex-casado esqueceu como cantar uma desconhecida. De que modo contar sua história sem mencionar os últimos dez anos, justamente os melhores? Sem amigos para ir a um bar, dançará toda noite com uma garrafa de cerveja. O ex-casado não convence nem a cerveja a dormir com ele.

O ex-casado não confere as validades dos produtos da geladeira. Estatisticamente tem grandes chances de morrer intoxicado. Demora para sair de casa. Não dá para perguntar onde está aquela roupa. O ex-casado é um filme pornô com legendas. O pior sofrimento ao ex-casado é ter fantasias eróticas com sua ex-mulher. Quando estava com ela, nunca havia cogitado essa possibilidade.

O ex-casado é um sofredor nato. Os móveis estão desfalcados com a partilha. Falta uma cômoda ou um sofá. Os móveis do ex-casado também se divorciaram e choram marcas nas paredes.

O mais difícil para o ex-casado é perceber que sua mulher era a única, como ele, que não tropeçava no escuro. Conhecia os movimentos da residência, os corredores, os becos, os berros, as gavetas, as gravatas, as cicatrizes. Agora, com a próxima mulher, tudo precisará ser feito de luz acesa. Sem o mistério e a penumbra da convivência.

8:38 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 15, 2006

O ESTADO DE SÃO PAULO, Caderno 2, Página 5, Domingo (15/1/2006)

A MULHER FEIA, ESTRELA DO HUMOR E DO CRUEL
Claudia Tajes faz rir em sátira da heroína que nunca terá um final feliz

Fabrício Carpinejar*
ESPECIAL PARA O ESTADO

O título gruda no ouvido como letra de axé. Mas no bom sentido. É também nonsense, divertido e surpreendente, Campos de Carvalho (de A Lua Vem da Ásia e O Púcaro Búlgaro) iria gostar.

A Vida Sexual da Mulher Feia já provocou gafes em algumas livrarias. Algumas pensaram que era auto-ajuda, um manual prático para as mulheres pouco abençoadas fisicamente. Outras acreditaram que se tratava de uma biografia. Difícil conciliar a estante biográfica com a fotografia de Claudia Tajes, publicitária gaúcha, bela morena de 42 anos e autora de outros quatro livros de ficção, Dez quase Amores, Dores, Amores e Assemelhados, As Pernas de Úrsula e Vida Dura.

Confusão por confusão, o livro vendeu sua primeira tiragem em semanas e já alcançou a marca de 15 mil exemplares. Mérito para a qualidade da ficção, que traz - em primeira pessoa - as agruras de Jucianara, uma mulher, diga-se, literalmente feia. É uma sátira ao romance de formação, seguindo a trilha de sucessos franceses tal Como me Tornei Estúpido, de Martin Page (que conta a história de um jovem que não consegue adquirir nenhum vício, muito menos se matar) e Mamíferos, de Pierre Merot (que flagra as mazelas de um tio fracassado diante da família). Dois parâmetros brasileiros de sua escrita ágil, fluente e leve é Fernando Sabino, da primeira safra como O Grande Mentecapto, e Luis Fernando Verissimo, numa versão Maitena.

Claudia Tajes tem um humor coloquial, pop e acachapante. A força está nos comentários espirituosos das cenas de humilhação de Jucianara, que já começa torta a vida no cartório. 'Nas vezes em que reclamei com a minha mãe por me chamar assim, ela respondeu: - Não poderia haver nome que combinasse mais com você'. É inviável não rir à toa e alto durante a leitura, como se houvesse um megafone embutido na garganta. Não se trata da risada sádica, que segrega as formosas das horríveis e aponta o dedo para torturar. Tajes alcança a proeza da risada generosa e solidária, imbuída da reflexão e do combate aos condicionamentos.
Apresenta um viés de conversa séria em um fundo cômico. Até se assemelha a um guia de etiqueta e dicas de revistas femininas - porém no tom de paródia. Os ensinamentos e as ilustrações reproduzem o hábito de privilegiar as más notícias. Até porque a boa notícia sempre é contada rapidamente. Por sua vez, a má notícia é lenta e cinematográfica.

Em A Vida Sexual da Mulher Feia, o trágico se torna patético e ganha ibope de carisma. Da forma como a trajetória é pontuada, acompanhada de uma pedagogia da resistência, evoca o Big Brother.A autora-narradora tem um quê de Pedro Bial, abrindo caminho para a pobretona ganhar o prêmio.

Nenhuma mulher ou homem ficará imune à insegurança da personagem. Afinal, quanto mais se olha no espelho, mais imperfeições aparecem, independente se o tamanho é P ou G. Cada capítulo do livro, em um crescente, acaba se transformando em provador de roupa insuportavelmente apertado e estreito.

Alheio à loteria genética, qualquer um se imaginará nas saias justas, seja perante o esforço de não dançar sozinha em uma balada, seja no papel que sobra de confidente. Tajes cria uma protagonista sem rosto, não define qual é o motivo da fealdade, não esmiúça descrições físicas, não impõe uma caracterização isolada.

No máximo, sabe-se que Jucianara é gorda e só. O recurso facilita a identificação ampla e abrangente do público.Esta é a principal virtude do livro: não se propagar como um conto de fadas às avessas. (Aviso de antemão:) O final feliz, com um príncipe encantado, não acontecerá sob hipótese alguma. Uma mulher feia não tem tempo para as distrações. Vai se esforçar o dobro para se considerar normal. E não mudará de condição, mesmo nas mãos de Pitanguy. Já que a mulher feia não é uma aparência, como explica Tajes, é um 'estado de espírito'.

Ju, como é conhecida para disfarçar seu batismo, goza de uma autocrítica impagável. Não perde um momento de se indispor à ditadura da magreza. Apresenta suas fases com requintes de crueldade. Como é a própria que se goza, não fica politicamente incorreto. Com uma crueza de consultório de terapeuta, é possível acompanhar desde o primeiro beijo, passando pela primeira transa e primeiro abandono até as relações maduras e - nem por isso - estáveis.

Suas aventuras amorosas começam com um colega do terceiro ano, Marcos, o único que parava para conversar.A transa rápida ainda era custeada pela divisão de um pacote de balas de jujuba. 'Mulheres costumam esconder sua primeira vez no sexo.Com as mulheres feias a tendência é acontecer o mesmo, com uma diferença: no caso delas, é o deflorador quem prefere evitar a divulgação dos fatos'. O histórico afetivo ainda inclui relacionamentos, entre outros, com um cobrador, um pintor frustrado e um porteiro.

No formato de teses, a escritora define e exemplifica os horrores vividos por Jucianara, que sempre sofrerá a companhia de eufemismos como 'prestativa, simpática, confiável, boa-praça, exemplar e grande companheira'.

O único pecado (venial) da novela é a quebra de ritmo no final. Tajes parece que apressou o passo, arrematou o que merecia um maior fôlego, lentidão e cuidado. O livro ficou assimétrico, as tensões envolventes e didáticas do início e do meio não encontram um desaguadouro merecido ao término. O sucesso de Ju como locutora na rádio Baticum FM e a inclusão de cartas dos leitores esfriam o conjunto, porém não sacrificam a revelação da autora como uma das mais bem-humoradas e peculiares ficcionistas brasileiras.

A Vida Sexual da Mulher Feia refaz a Receita de Mulher, do poeta Vinicius de Moraes: 'As muito bonitas que me perdoem, m as feiúra é fundamental.'

* Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor entre outros, de Como no Céu/Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005)

11:54 PM :: Comentários:

REVISTA O GLOBO, Jornal O Globo
Coluna de Martha Medeiros, 15/01/2006

À ESPERA DE UMA PAIXÃO

Martha Medeiros

ESTÃO CASADOS HÁ MUITO TEMPO, mas o que é muito tempo? Talvez um tempo que ultrapassou a excitação do desconhecimento mútuo, a alegre descoberta de afinidades, o êxtase diante do corpo alheio: agora já possuem todas as informações, o dossiê completo um do outro, com seus defeitos e virtudes. Aparentemente, nada mais há a descobrir. Dão-se bem, conversam com facilidade, riem juntos ainda, mas nada os diferencia de um bom casal de amigos. O que talvez seja uma trégua mais que bem-vinda, se o objetivo for este, a paz conjugal, nenhum grilo falante sussurrando no ouvido esquerdo: "é isso mesmo que você quer pro resto da vida?"

Se, ao invés de sim, a resposta for não, não é isso que quero pro resto da vida, não é um amigo dormindo na mesma cama com sua tosse e seu hálito, com suas manias diárias e seu comportamento previsível, não, não é isto que quero pro resto da vida, um bom-dia num tom de voz mais que conhecido, um boa-noite num bocejo, todos os dias do calendário vividos como se cumprissem uma agenda pré-programada, tudo igual e tudo correto, sem calafrios e sem dúvidas, sem medo e sem assombros, sem qualquer sobressalto, se a resposta for não, não é isso que quero, então por que continuar? Segundo Fabricio Carpinejar, grande poeta, a vida não é continuar, a vida é começar.

Tive a honra de ler em primeira mão, antes de ser lançado (em breve!), o primeiro livro de crônicas do Fabricio, "O amor esquece de começar". Nele, Fabricio cita, em determinado momento, a secreta aflição daqueles que não se separam enquanto não surgir uma paixão com a qual possam dividir a culpa da fuga. Tocou num ponto nevrálgico.

Não são dois nem três, são milhares de homens e mulheres dizendo que estão bem, que seu casamento é satisfatório, mas que se surgisse uma paixão, aí o chão poderia afundar, aí as paredes cairiam, nem os filhos serviriam de âncora, a cancela abriria e nenhum caminho de volta seria possível: iriam em frente, atenderiam o chamado do amor. Se uma paixão acontecesse, tudo ficaria explicado, ninguém os condenaria. Se uma paixão descesse do céu, aí é porque estava escrito, aí se justificaria qualquer insanidade, ah, se uma paixão aterrissasse aqui na palma da mão, tudo estaria solucionado.

Mas a paixão não acontece, não aterrissa, não toca a campainha, não quer incomodar a família tão ocupada em ver televisão e comer a pizza de domingo, todos presos ao relógio, tic-tac, o tempo se repetindo metodicamente. A paixão, do lado de fora da casa, não entra, não disca, não bate à porta, aguarda sua hora, que não chega, porque a saída do dono demora. Por outro lado, não saem pra rua esposas e maridos que têm uma vida já bem ensaiada, a troco de quê trocá-la por um ponto de interrogação, uma espera, uma tentativa? Mas se a paixão arrombasse a porta, seria outra história.

Não são dois nem três, são quinhentos, são milhões à espera de um rapto, de um seqüestro, de qualquer coisa que lhes absolva por antecipação: "não tive como negar, foi uma paixão, um arrebatamento, fui engolida por uma emoção nova, só por isso eu fui, só por isso eu me permiti". Sem este álibi, quem se atreve?

A vida não é continuar, a vida é começar.

Sem o empurrãozinho de um amor novo, sem este atordoamento emocional que torna a todos vítima, ou ao menos cúmplices do irracional, vamos ficando, vamos ficando. Há que se ter muita coragem para encarar a própria verdade sem um bom discurso de defesa.

E-mail: martha.medeiros@oglobo.com.br

11:12 AM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 14, 2006

Folha de São Paulo, Folhinha, 14/01/06:

MINHA PRIMEIRA VEZ
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Não fui homem no momento
em que o rosto enrugou em barba.
Ou quando me alistei para servir.
Ou no primeiro beijo de boca.
Ou na primeira morte de um familiar.

Fui eleito homem aos nove anos,
chamado no corredor do nome
entre panelas na parede
e chapéus no cabide.
Meu vô me passou o facão e disse
para correr atrás da galinha ruiva.
Tentei agarrá-la
mas seus olhos ciscaram o vento.
As patas das asas agarraram o vento.
Ela escapou dos braços
e voou até o telhado.
Fiquei esperando ela descer.

A galinha se fez telha,
preenchendo as goteiras.
A galinha se transformou
em balde sem alça.
Um bule voadro.
Fiquei esperando ela descer.

As calhas acumularam chuvas
com a ninhada de ovos.
Os canos estouraram.
Estou esperando ela descer.

Tudo o que não enxergo
é relâmpago.

6:43 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

POESIA COM PIMENTA
por Fernanda Garrafiel

Fotos Renata Stoduto/Divulgação
Entrevista no Café Literário do Jornal do Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 13 de janeiro/2006



A professora de alfabetização de Fabrício Carpinejar, que quase desistiu do aluno que só tirava D nos ditados, deve olhar com orgulho o rol de prêmios que o poeta conquistou. "Eu chorava em cima do telhado de casa. Um dia o papel secou e comecei a entender as palavras. Até hoje não sei se elas me escutam." conta Fabrício em sua "Biografia de um poeta com a intromissão do autor", publicada em seu site. Aos 33 anos, este gaúcho de Caxias do Sul é autor de sete livros, todos de poesia. Seu primeiro livro de crônicas, O Amor Esquece de Começar, será lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo, em março. "Vou começar 2006 todo prosa.", diz Fabrício. O autor também escreve para revistas como a Superinteressante, na qual tem um Consultório poético, onde responde às aflições de seus leitores.

Na internet, através de seu blog, podemos acompanhar a prosa de Carpinejar. Prosa poética, ou melhor, simplesmente poesia escrita em linha contínua. Nas palavras de Fabrício, o cotidiano ganha ares de obra de arte. Talvez por isso uma pintura preceda cada crônica. Nenhuma frase é desperdiçada, formando um conjunto carregado de sentido e sentimentos, onde até as entrelinhas gritam.

Não é só com o texto que o autor conquista. Carpinejar interpreta suas poesias com a mesma voracidade com que escreve. Enquanto passeia entre os ouvintes declamando seu texto com propriedade, hipnotiza com a mesma facilidade que tem para enredar o leitor em seu inteligente jogo de palavras. Um casamento perfeito entre forma e conteúdo. O poeta descobriu que pode enfeitiçar com palavras e abusa deste poder.

Foi vendo Fabrício Carpinejar declamar que me interessei por sua poesia. Depois cheguei ao site e daí ao escritor, que concedeu ao Café Literário uma ótima entrevista. Conheça um pouco do autor através das linhas a seguir, depois desvende o poeta, desbravando sua obra.

Seus livros são de poesia, mas no seu site o leitor acesso a crônicas, e até um consultório sentimental. Você reserva a poesia para os livros por achá-la um gênero maior?
Não, a poesia é minha forma de pensar mais do que um gênero. Tanto faz a forma que apareça, seja em crônicas, seja em versos, seja em contos. Deve ser um defeito de fábrica. Não me curei da minha solidão de infância e vivo procurando fazer amizades com as palavras. Quando pequeno, recortei o dicionário Aurélio de meu pai. Costumava unir palavras distantes no dicionário, pois pensava que elas nunca iriam se conhecer. Era um cupido da linguagem. O que publico no site não é menos literatura por não estar encadernado. É minha fome diária, minha ânsia de compreensão. Procuro, em todos os casos, uma sensibilidade comunicativa, interativa, que possa ouvir o outro antes de falar.

Qual a diferença de escrever um poema e escrever o consultório sentimental da Superinteressante?
Existe diferença de intensidade. No poema, sou bem mais concentrado, mais orgânico, sou capaz de produzir choque. Fico ruminando como um sonâmbulo cada letra e sonoridade. É uma obsessão pelo enredo, pela cadência, pela frase imprescindível. Afora isso, não há nada que separe da produção do Consultório. É diálogo igual, conversa simples de quem procura um amor ao abrir um guarda-chuva. Respondo correspondências de leitores com dúvidas de relacionamento, sem hierarquia. Estou na mesma posição deles. Com o mesmo medo. Não sou melhor nem pior, não há a solenidade de um diploma de médico ou de psicólogo para a separação de um balcão. Tento ajudar a partir de minha experiência. Tenho duas mãos de propósito, para escrever com uma e acalmar o leitor com a outra.

Você tem rituais para escrever?
Meu único ritual é andar de trem. É onde mais me inspiro. Faço cabra-cega com a vida dos passageiros, procurando adivinhar seus destinos, suas vidas, suas relações. Minhas janelas são os botões dos casacos.

No seu blog, antes de cada texto podemos contemplar uma obra de arte. Qual a sua relação com a arte? Qual a relação da arte com seus escritos?
Toda. Sou um pintor leigo. Fazia montagens até os 20 anos. Ainda guardo alguns dos meus trabalhos. Nunca mostrei para ninguém por timidez (ou bom senso). Quase optei por artes plásticas, ao invés de literatura. Em escultura, Giacometti é um dos meus preferidos, pela solidão de seus viventes. Em pintura, Iberê Camargo me ensinou a mexer na cor como se fosse terra. Seus ciclistas são carretéis adultos. Alegro-me com a possibilidade de aprofundar o texto com uma imagem, provocar caminhos diferentes de leitura. Uma imagem não completa o que escrevo, me enfrenta, se opõe.

Tive a oportunidade de vê-lo interpretar uma de suas poesias. Se tivesse lido e não ouvido a poesia, lhe daria um outro tom, e talvez outra interpretação. Você acha que a poesia precisa de suporte interpretativo?
Um verso ou uma crônica traz várias possibilidades de entonação - essa é a magia. Se estou triste, vou ler diferente. Quando entusiasmado, posso modular mais aberto e ser mais gesticulado. O sentimento da hora influencia o ponteiro da boca. A leitura depende da eletricidade que existe entre o escritor e o público. Não pretendo sentenciar uma maneira de leitura. Depois que o livro é publicado, o texto já não é mais meu. O autor não deve virar um zelador de cemitério, controlando se seu morto saiu da cova ou não. Quero que mudem minha obra mais do que eu fui capaz.
Acho que a poesia pode ganhar com a dramaticidade, com a linguagem cênica. Ela nasceu para a oralidade, para ser reclamada mais do que declamada. Não conheço amor que não seja apressado e procure o atalho da insolência. Eu me ofendo todo dia de amor. Quem eu amo ofendo de amor.

O sulista é tido como bairrista. Qual a diferença da receptividade à sua obra no Sul e em outras regiões? Você se preocupa em divulgar seu trabalho fora do Rio Grande do Sul?
Eu me preocupo em escrever meu trabalho, a divulgação é conseqüência. Sou um escritor brasileiro e me disponho contra qualquer brincadeira separatista. É óbvio que a repercussão do meu trabalho é bem maior no RS, é onde sempre estou atuando com palestras, saraus e eventos. Por exemplo, fiquei sabendo que fui questão do vestibular da UFRGS. Graças a Deus que não sou candidato, corria o risco de errar.

O Rio Grande é bairrista, porque ele parece se defender do Brasil. É um estado que se defende do próprio país. Nascemos aqui com uma paranóia mansa. Nosso principal adversário é a ausência de adversário. Um dia descobriremos que ninguém nos persegue. O importante é que essa paranóia nos faz acelerar o passo e correr mais do que faríamos normalmente.

Podemos esperar um romance de Fabrício Carpinejar?
Usei toda a minha biografia, todas as memórias emprestadas, inventadas e imaginadas, na poesia e na crônica. Sou perdulário demais para me reunir em um romance. Gasto fiado em poemas.

PERFIL LITERÁRIO

Qual o melhor lugar para ler?
Deitado no colo de minha mulher. Ou de pés dados com ela na cama.

Qual o primeiro livro que você leu? Ou o primeiro livro que marcou?
Divina Comédia. Não entendi nada, as gravuras complicavam mais ainda a leitura dos versos. Tive pesadelos na infância com os castigos do inferno.

Que livro você está lendo no momento?
Umidade, de Reinaldo Moraes

Qual o seu gênero literário favorito?
Poesia

Qual o melhor livro que leu?
Amers ou Anábase, de Saint-John Perse. Um Rimbaud que traficava pássaros entre um oceano e outro.

Qual o seu personagem favorito?
Macabéia, de A Hora da Estrela, Clarice Lispector. Quero morrer como ela, abraçado na esperança.

Jamais leria?
Livros para emagrecimento. Sou um faquir.

INDICAÇÕES DE LEITURA:

Para ler no banheiro:
Revistas. Para problemas no estômago: Dicas Úteis para uma Vida Fútil (manual para a maldita raça humana), de Mark Twain. Para gozar: Catecismo de Devoções, Intimidades + Pornografia, de Xico Sá, lançado pela Editora do Bispo.

Para ler no avião:
Joana a Contragosto, de Marcelo Mirisola. De preferência na ponte aérea Rio - São Paulo

Para ler no café:
Dias Raros, de João Anzanello Carrascoza

Para dar de presente. Para quem?
Obra Completa de Mario Quintana, lançamento da Nova Aguilar. Para Ana Miranda. Meu jeito de envelopar o minuano.

Melhor livro que escreveu:
O próximo

Livro que mais gostou de escrever:
O Amor Esquece de Começar, sempre o mais recente

Agora está escrevendo:
Meu filho, minha filha, conversa em versos de um pai com seus filhos (um mora com ele, fruto do segundo casamento, e o outro, fruto do primeiro casamento, vive em outra cidade com a mãe). Quero mostrar as duas experiências paternas e debater a nova estrutura da família brasileira.


A POESIA DE FABRÍCIO CARPINEJAR

Nos longos períodos sozinha em casa,
passavas café, logo tu
que não gostavas de café.
O cheiro de café
diminuía tua solidão.

* * *

Arredondo os preços por baixo,
para não causar atrito
e inveja.
Me vendi por menos,
me comprei por mais.

* * *

Penso ter vivido o que escrevi
e deixo de viver porque está escrito.
Minha letra não torna meu
aquilo que anotei.

Fonte: "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil, 2005)

3:19 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

AS TAMPINHAS DE PAPEL
Trabalho de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Ao me acordar, logo me deparo com a dobra de papelão da caixa do leite. Todos os dias olho para a pia e lá está soberano o pequeno cone. Um origami da pressa. Um barquinho cortado abruptamente de noite. Percebo a serrinha da faca na superfície. Trabalho malfeito. O triângulo desigual. Pego com doçura o lacre e examino, tal letra oriental me provocando, tal peixe cuspindo oxigênio. Poderia implicar e perguntar para minha mulher o motivo de ela nunca colocar fora. Seria difícil? Cansativo? O lixo fica a quatro passos. A primeira coisa que passa pela cabeça é "que preguiça". A segunda é "que desleixo". Mas deixo de bancar o juiz, porque aquilo não me irrita. O papelzinho me enternece, me faz cócegas como se alguém mexesse nos meus pés.

Ele se tornou mais importante do que tomar café e buscar o jornal na caixa de correio. Eu me vejo verdadeiramente acordado ao observar a dobra me aguardando. Sério. Espio antes de chegar. Fiquei dependente da tampinha. Amo a tampinha. É agradável dividir o espaço com ela. Não me dá trabalho. Sugere sede, fome, dependência. Por ela, sei que minha mulher está em casa, está comigo. É vizinha da linha dos lábios dela. É seu vício, sua senha. Cartolinha colorida de criança. É sua maneira de me animar, de dizer que vive comigo. É um código morse. Um aviso apaixonado. Ela deixa pistas discretas de si e vou recolhendo pelo resto da casa, para não encerrar a sedução. Nosso jeito de fazer palavras cruzadas. Ela se anuncia logo cedo. Fico com vontade de lamber os pingos de leite como um gato. Mas me contenho por educação. A dobra é um leque para botar minha unha dentro do vento.

Minha mulher não põe bilhetes na geladeira, não borra o espelho de batom, não grava recados na secretária telefônica, não força provas de paixão, não forja testemunhos. É suave, sugestiva, pede a compreensão e o mistério. Pede que eu a entenda antes que diga algo. Pede que aceite o espaço de cada um, os hábitos de cada um, e preserve as individualidades com cuidado. O pedacinho da caixa de manhã é como a súplica de um bom-dia. É o equivalente diurno da rolha do vinho. O buquê de um beijo. Minha mulher é diferente. Ela me escreve tampinhas de papel. São dez anos de tampinhas, uma tampinha por dia. São dez anos em que eu não censuro o amor, deixo ele dormir entre a gente na mesma cama.

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Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

OS BRINCOS POR ÚLTIMO
Gravura de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar



Adeus, meu amor, logo nos desconheceremos. Mudaremos os cabelos, amansaremos as feições, apagarei seus gostos e suas músicas. Vamos envelhecer pelas mãos. Não andarei segurando os bolsos de trás de suas calças. Tropeçarei sozinho em meus suspiros, procurando me equilibrar perto das paredes. Esquecerei suas taras, suas vontades, os segredos de família. Riscarei o nosso trajeto do mapa. Farei amizade com seus inimigos. Sua bolsa não se derramará sobre a cadeira. Não poderei me gabar da rapidez em abrir seu sutiã. Vou tirar a barba, falar mais baixo, fazer sinal da cruz ao passar por igrejas e cemitérios. Passarei em branco pelos aniversários de meus pais, já que sempre me avisava. O mar cobrirá o desenho das quadras no inverno. As pombas sentirão mais fome nas praças. Perderei a seqüência de sua manhã - você colocava os brincos por último. Meus dias serão mais curtos sem seus ouvidos. Não acharei minha esperança nas gavetas das meias. Seus dentes estarão mais colados, mais trincados, menos soltos pela língua. Ficarei com raiva de seu conformismo. Perderei o tempo de sua risada. A dor será uma amizade fiel e estranha. Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar. Vou cumprimentá-la com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma. Não olharei para trás, para não prometer a volta. Não olharei para os lados, para não ameaçá-la com a dúvida. Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos. Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa. Adeus, meu amor. Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro. Não puxaremos assunto com os garçons. Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades. Não tocaremos os pés de madrugada. Não tocaremos os braços nos filmes. Não trocaremos de lado ao acordar. Não dividiremos o jornal em cadernos. Não olharemos as vitrines em busca de presentes. O celular permanecerá desligado. Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender. Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar. Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro. Abandonará de repente meu telefone. Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda. Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos. As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água. Adeus, meu amor. Terá filhos com outros homens. Terá insônia com outros homens. Desviará de assunto ao escutar meu nome. Adeus, meu amor.

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Terça-feira, Janeiro 10, 2006

UFRGS
Pintura de Antoni Tàpies


Fui tema de pergunta no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, concurso 2006/1. Cerca de 40 mil candidatos participam das provas até quinta (12/1). Reproduzo a questão 60, a última das trinta da prova de Literatura, que pede interpretação de poema do meu livro "Terceira Sede". Qual é a resposta certa?

60. Leia o poema abaixo, do livro Terceira Sede (2001), do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, e considere as afirmações que seguem.

"Ser inteiro custa caro.
Endividei-me por não me dividir.
Atrás da aparência há uma reserva de indigência,
A volúpia dos restos.

Parto em expedição às provas de que vivi.
E escavo boletins, cartas e álbuns
- o retrocesso de minha letra letra ao garrancho.

O passado tem sentido se permanecer desorganizado.
A verdade organizada é uma mentira."

I - O poema, construído com uma linguagem arcaizante, expressa as contradições entre aparência e essência.
II - O poema, formado por versos livres e brancos, constitui uma reflexão sobre o passado.
III - O poema evidencia, através de metonímias e sinédoques, a revolta do sujeito lírico contra a organização do presente.
Quais estão corretas?

(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas I e II.
(D) Apenas I e III.
(E) I, II e III


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Domingo, Janeiro 08, 2006

MEU RELÓGIO SÃO OS RUÍDOS DE CASA
Imagem Fundação Joan Brossa

Fabrício Carpinejar




O amanhecer me liberta. Tudo está por ser feito. O entardecer me prende. O pôr-do-sol é um quarador cheio de roupas a cuidar.

Eu dormi na minha infância em casa de madeira. A fresta me dizia as horas pela luminosidade. As tábuas do piso avisavam quem já estava acordado. Conhecíamos os familiares pelo peso dos passos, pelo jeito de abrir as portas, pela força que fechavam os armários. Suaves e cerimoniosos. Apressados e bruscos. Minha avó andava de meias para não despertar os netos, minha mãe arrastava chinelos com ânsia de festa, meu pai se espreguiçava com seus sapatos de bico fino. As gavetas rangiam documentos importantes.

Do quarto, era possível deduzir quantas chamas estavam acesas na boca do fogão. Do quarto, era possível deduzir o momento em que a jarra do leite fora posta na mesa. Do quarto, era possível deduzir a xícara aterrissando no prato. Antevia inclusive o número de colheradas de açúcar. Os barulhos me confortavam. Nada era mais delicioso do que acordar com cheiro de café e de pão quente e escutar o som nítido da peça povoada ao lado. Acordava alegre porque alguém me esperava para conversar. O dia não dependia só de mim.

Magia semelhante acontecia com o som da máquina de escrever no escritório. Sem abrir a porta, podia reconhecer a criatividade pela rapidez das teclas e a falta de idéias pela lentidão entre um movimento e outro. Quando entusiasmadas, as mãos caminhavam com a pressão dos pés. Máquina de escrever se assemelhava a um tambor, o rugido chamava a letra. Assim como o latido me fazia adivinhar o tamanho do quintal.

Não sou das casas silenciosas, acarpetadas. Sou do ruído, do vazamento, da movimentação da cozinha. Quando se entra em um bosque, exclamamos: - Que silêncio. Mas não pretendemos falar que não se ouve nada. A calma encontrada não abole o linguajar dos animais. Em qualquer mata, os barulhos dos bichos não incomodam. São barulhos necessários, barulhos vivos, barulhos da paz, barulhos da convivência.

Não vejo a voz como proibição da tranqüilidade. Tento ser sempre desse jeito: o corpo como piso de madeira, para escutar os pés de todos que amo se movimentando enquanto durmo, ou uma máquina de escrever, em que os dedos, como pássaros, catam milhos.

Sonhamos melhor com a certeza da companhia.

4:36 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 06, 2006



Confira mais uma resposta do Consultório Poético no site da Superinteressante. Reproduzo o texto abaixo.

SOLIDÃO DE MÃE

Fabrício Carpinejar



"Desde que me tornei mãe, sinto-me sozinha, pois mudei de cidade, e não tenho amigos. Meu marido trabalha muito, minha filha ainda é pequena, vivo do trabalho para casa e da casa para o trabalho. Não tenho familiares morando perto, amigos tenho dificuldade para fazê-los. Sou "diferente". Não vejo jornal, nem gosto de fofoca no cabeleireiro. Como fazer para me sentir melhor? Ter amigos? Deixar de ser tão só?"

Camila, vou contar um segredo. Um dia fiquei com meu filho bem pequeno e minha mulher saiu para trabalhar. Claro que disse: pode deixar comigo. Ela me deixou tantas instruções, me ofereceu tantos conselhos, que não ouvi, confundi os apelos com insegurança. O excesso de confiança é surdez. Jurava que não teria trabalho. Daí o menino acordou e começou minha loucura. Não sabia que roupa colocar nele, pouca ou muita, se estava quente ou frio. Trocar faldas era de menos, difícil acertar a temperatura do leite, segurá-lo no colo enquanto tocava o telefone, a campainha, o celular. Acalmá-lo na hora de seus gritos, é evidente que ele sentia minha impaciência. Foram três horas de estranhamento e nunca havia percebido o que minha mulher passava silenciosamente, sem reclamar. Existe a depressão pós-parto, mas também seus derivados como depressão pós-filho e pós-marido, em igualdade de drama e trauma.

A maternidade é uma solidão sem tamanho. Depois da festa do batizado, os conhecidos desaparecem. Podem até elogiar o bebê e fazer voz infantil em encontros esporádicos. Firma-se uma segregação silenciosa e terrível. É imposição de que a mãe sabe tudo naturalmente e pode suportar a desvalia. Enxergam o filho como um troféu, porém não reparam que o campeonato está no início. Talvez não seja por mal, muitas das pessoas próximas se distanciam com receio de incomodar.

Nenhum homem entenderá, mesmo que seja participativo. O humor muda, o corpo perde sua rigidez e fica tão cansado que nem encontra estímulo para o sexo. Parece que não haverá saída. Mesmo com babá, uma escapadela de quinze minutos e já se está telefonando apavorada para casa, pedindo relatos detalhados dos últimos instantes. Instala-se a culpa, culpa social de aproveitar a vida, pavor social de que possa vir a ser acusada de negligente. Claro que são fantasmas. Fantasmas da vulnerabilidade.

Ainda bem que tem um trabalho para pensar em outra coisa e se sentir útil. Imagina o que sofreram nossas avós? Adianto, é uma fase provisória. Não é desperdício de tempo, ainda que raros a valorizem. O filho crescerá e descobrirá isso com seus próprios olhos.

O que posso aconselhar: não desanime e procure se distrair. Estabeleça horários para sua diversão, mesmo que seja um cinema sozinha ou um passeio no parque. A questão é preservar o raciocínio, a confiança e o bom humor. Diante das dificuldades, pode verbalizar e destilar veneno. Falar o que a incomoda de cara ao marido ou aos familiares, sem deixar que a preocupação se transforme em raiva reprimida ou recalque. A risada e a espontaneidade desestressam. Todos somos diferentes, cada um a sua maneira. Uns mais do que os outros, outros com medo do desvio. Não é o jornal ou a fofoca no cabeleireiro que a deixarão feliz - se bem que eu não conseguiria viver sem os dois (risos). O primeiro passo é fortalecer a estima, comprar - por exemplo - flores que sejam para despertar a mudança. Ou escrever um diário para sujar bastante o papel e exorcizar a carência. Não aguardar milagres, guardar as gentilezas. Não se deixar levar pela rotina, como se não houvesse a possibilidade de algo novo em seu dia. Não vale se confinar no quarto e se desculpar por antecipação que ninguém a entende.

Quantas vidas enfrentam uma situação semelhante? Os amigos surgirão da vontade de convivência, da empatia, da identificação, do seu bem-estar. Os amigos são seduzidos como os amores.

A exclusividade apaga a personalidade. Viver para o filho não é bom: deve-se aprender a viver com ele.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento.
E-mail: carpinejar@terra.com.br
Site: http://www.carpinejar.com.br


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Terça-feira, Janeiro 03, 2006

UM CAFÉ PARA DOIS
Pintura de Man Ray

Fabrício Carpinejar



O amor é uma térmica. Não entendo de onde partiu essa comparação, mas ela me contentou prontamente. Cheguei a suspirar depois de escrevê-la. O amor é uma térmica. Desde o jardim de infância, a térmica é quase como meu boneco, meu vizinho, meu confidente. Minha primeira térmica era branca, centrada na merendeira, e conduzia o leite achocolatado. Abrir sua tampa no recreio produzia o melhor barulho da escola. Melhor do que a sineta. Ela gritava no terceiro giro e lavava meu rosto com seus vapores. Para quem tinha asma, o jato não deixava de ser uma nebulização. A térmica resumia o ponto alto do lanche. Um cofre que dependia do conhecimento antecipado do seu dono, de mãos que precisavam antever as voltas para não sofrer queimaduras. Uma valise de criança, uma outra boca miúda. A térmica não troca seus dentes de leite. Significava meu documento de menino, pessoal como o uniforme com meu nome bordado.

Uma térmica é como o amor, aquece o que ficou guardado, não deixa esmorecer a espuma, aviva o gosto do que passou. Seus movimentos de abrir revelam temperamentos. O preguiçoso tentará esvaziar o líquido com uma desenroscada, e terá que repetir. O esperançoso vai testar uma ou duas vezes antes de encontrar o fluxo ideal. O rançoso molhará toda a mesa.

Uma térmica é como o amor, feita para distribuir porções generosas ao dia. Não traz a ração de uma xícara, mas a bandeja inteira. Além de tudo, é fiel como o mel no pão. Fica impregnada do cheiro por dentro. Na mesma semana, não recebe café, água quente e leite. É um ou outro, escolhe cuidadosa o seu par, casa por toda a vida com seu conteúdo. A térmica dança coladinha ao corpo do líquido. Dança levantando o pescoço. Pede escamas e o peixe das mãos. Pede o salto do rio e das pedras redondas. Pede a altura violenta da garganta.

É com tristeza que fui voto vencido na substituição da térmica vermelha do serviço por uma máquina de café. A térmica permitia conversas improváveis, recebia visitas, chamava para perto, diminuía a sala. Não excluía quem tem daquele que não tem, quem pode daquele que não pode.

A térmica é como o amor. Assobia na hora de falar, beija aos goles. Tinge a língua com guache. Escolta nossa sede e gula até o fim sem esmolar moedas. Pode ser até pior do que um café expresso, mas acumula doçura e presságios. Acumula a infância.

Não desejo ser cremado. Guarde-me na térmica. Guarde meu amor na térmica.

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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

QUANTAS PINTAS EM MINHAS COSTAS?
Gravura de Man Ray

Fabrício Carpinejar




Estava dormindo de costas. Acordei com meu filho contando minhas pintas.

Ele gritava:
- Mais uma, mais uma.

Nos cálculos dele, tenho vinte e duas manchas. Não sei se ele parou de contar porque não sabe o resto dos números ou realmente achou vinte e duas. Não poderia me emocionar mais. Um filho aprendendo matemática em meu dorso, cuidando de mim, importando-se em adivinhar o que já vivi. Havia um calendário que superava as previsões. Minha pele chovia canivetes.

Nem sempre fixamos o tempo por aquilo que está na carne. Nossa alegria costuma ser limitada a um horário, a uma realização, a uma situação de fora. Não a um sentido maior de convivência, de descoberta pessoal. Confundimos estar alegre com ser alegre. E o ano não muda se acreditarmos que alguma coisa deve acontecer para ser feliz. Nada precisa acontecer para que a felicidade venha. Ela já deveria estar dentro despertando a delicadeza. Não pode ser condicionada a um plano profissional, emocional e de saúde. Não será a lentilha ou a roupa branca que determinarão a conduta. O que passou não acabou - ainda é. Ciscar para trás pode ser mais verdadeiro do que andar para frente.

Aceita-se a ilusão de que, ao apagar o ano passado, eliminam-se os problemas. Assinamos embaixo o pedido de lobotomia. Quantas virtudes e lembranças boas vão para o ralo? Confia-se que zerando o placar é mais fácil entrar em vantagem. A desmemória gera apenas a repetição. E uma repetição cansada e fingida da novidade. Não é necessário nascer de novo para ter chances. É necessário morrer várias vezes para ter chances. Esquecemos que a primeira refeição do ano costuma ser as sobras do jantar. É possível enganar o coração, não o estômago.

Observo uma arrogância em relação à vida. Como se não suportássemos a idéia de que a vida manda na gente. Se o roteiro não segue o que planejamos, começamos a lamentar e nos entristecer. Abalados pela idéia de que não foi o que queríamos, não se cogita reagir. Somos fracassos prematuros, com receio de exercitar a diferença. E a curiosidade, onde se coloca? E o improviso? Será que não falta um pouco de humildade para aceitar que ninguém vive solitariamente, que ninguém tem o destino pronto. Não pretendo disfarçar a minha solidão com o nome de "independência".

Quando resumimos o ano, ele se torna menor do que um dia. Viver é intimidade, não intimação. Viver um dia de cada vez tornará o ano mais longo. Viver uma pinta de cada vez. Observar o que ficou nas costas.

10:50 AM :: Comentários: