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Fabrício Carpinejar


 

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Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

HOMEM PERFEITO
Imagem de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Não interessa a uma mulher um homem que saiba tudo sobre ela, um homem que saiba tudo sobre o amor, um homem que saiba tudo sobre os prazeres proibidos do corpo. Uma mulher não se interessa por um homem que não tenha uma dose de insegurança, um quê de fascínio infantil, uma ponta de orgulho bobo, uma forquilha de medo entre os joelhos.

Uma mulher não se interessa por homem que não teme as perguntas, que resolve os problemas com sarcasmo, que fala convicto e intrépido sobre os mais diversos assuntos; o coração dele congelado para transplante no isopor entre garrafas de cerveja.

Uma mulher não se interessa por homem que pisca ao garçom, que conversa nos ouvidos com os seguranças das boates, que a mostra com malícia e desfaçatez para os outros.

Uma mulher não se interessa por um homem que está se exibindo mais do que sendo transparente. Uma mulher não se interessa por um homem que ela não conta com a mínima chance de modificá-lo e elogiar as transformações.

Uma mulher não se interessa por um homem que se diverte dos próprios comentários antes dela. Uma mulher não se interessa por um homem carregado de estratégias, que encadeia a noite ideal, sem nenhuma falha, sem nenhum vacilo, sem nenhuma turbulência. Ele ensaiou com quantas antes?

Uma mulher se interessa por um homem inseguro, mas sincero, tímido, mas autêntico, que sofre com suas gafes, engatilha desculpas ao usar um palavrão, que pede ajuda para completar a noite.

Uma mulher não se interessa por um homem blindado, que não escuta, que se esconde em um personagem para contar mais um feito aos amigos. Uma mulher não se interessa por um homem que logo vai atacando, logo vai oferecendo o endereço para esticar a conversa.

Uma mulher não se interessa pelo terno alinhado, os cabelos em dia, o pescoço perfumado, se não haverá nenhum sussurro que desperte a fragilidade masculina do outro lado.

Uma mulher não se interessa em receber flores sem raízes nos dedos.

Uma mulher não se interessa por um homem convicto, que a convida para sair, que passa uma cantada impecável e finge delicadeza para ser indelicado no dia seguinte e não telefonar.

Uma mulher não se interessa por um homem que não mudará a ordem das palavras que teve sucesso com as mulheres anteriores e repetirá as mesmíssimas vaidades da conquista. Uma mulher se interessa por um homem que confunde o desejo com a loucura e tropeça nas palavras para logo descer ao chão com ela.

Uma mulher não se interessa por um homem que seduz como quem dá as cartas, um homem que solicita a conta como quem fecha um negócio, que a envolve como se fosse um investimento. Uma mulher não se interessa por um homem que não tenha também músculo nas pálpebras para chorar por ela, músculos na boca para guardar sua língua.

Uma mulher não se interessa por homens prontos, fechados, absolutamente perfeitos.

Não se interessa por cadáveres.

11:07 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006

PARA QUEM PERDEU...
Revista Cláudia, edição de fevereiro de 2006

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL ON LINE - AS PERGUNTAS QUE OS HOMENS MAIS FAZEM SOBRE AMOR E SEXO

Ao me propor a responder a questões amorosas no meu blog, jurava que a maioria da correspondência seria feminina. Me enganei redondamente. Choveram e-mails de homens. Aqui, entrego oque passa pela cabeça deles - e dou os meus palpites

Fabrício Carpinejar | Fotos Karine Basilio



Quando jovem, eu era o melhor amigo das colegas. Queria ser o namorado de muitas delas, mas me tornei involuntariamente um conselheiro. Ou seja, o último da lista, mesmo porque nunca vi nenhum cupido garanhão. O conselheiro significa o ponto morto dos relacionamentos. A velocidade e a aventura estão nas marchas (alivia-me pensar que, pelo menos, eu não era o freio de mão). Representava o cara sensível, que consolava o coração alheio e não sabia esvaziar o seu. O cara chamado nas emergências para enxugar lágrimas da turma e trancar as suas por toda a noite. O que ouvia e não era ouvido. O cara que namorou tarde porque não declarava seu amor, sob hipótese alguma, esperava ser reconhecido e descoberto por aquela que amava. Essa pré-história afetiva definiu meu caráter. Não sou psicólogo, nem terapeuta, muito menos psiquiatra. Perdoem-me os especialistas. Sou poeta e ainda assim tenho dúvidas (risos). Aliás, sou só poeta por amar as dúvidas. Inspirado no CONSULTÓRIO SENTIMENTAL, do DIÁRIO DA NOITE, em que o jornalista Nelson Rodrigues escrevia, no fim dos anos 40, decidi abrir o Consultório Poético no meu blog, com o subtítulo "Para complicar o que já estava complicado". Passei a receber e-mails sobre questões amorosas e afetivas e a escolher uma das dezenas de correspondências para oferecer palpites e mostrar caminhos. Esperava que o público feminino fosse lotar minha caixa de entrada. Qual a minha surpresa ao perceber que a maioria da correspondência, de lamentos e desabafos, vinha de homens. Sim, os homens não são mais as pedras frias e egoístas no fundo dos rios. Eles se abrem com uma franqueza absurda, desnorteados, preocupados em agradar e assegurar um namoro ou um casamento. Não duvido que Santo Antônio esteja recebendo hoje mais promessas masculinas que femininas. Apresento as preocupações recorrentes da ala masculina no Consultório e as minhas considerações sobre elas.

Eu me mordo de ciúme.
O ciúme é tão forte que se costuma falar "ciúmes", no plural, mesmo quando é singular. Ciúme não é ruim desde que não revele autoritarismo, desde que seja pertinente a uma situação, não a toda hora, como uma paranóia despropositada. Precisa ser economizado para os momentos de ultrapassagem dos limites, senão vira fantasia mórbida. Se ele surge sempre, sem motivo aparente, é irritante e inconveniente. Poucos suportam. Quando aparece raramente, indica interesse e carinho. É bom dizer para quem se ama: "Quero que seja livre em mim, não de mim". Tirar a liberdade do outro é sacrificar a própria liberdade. Com o ciúme exacerbado, você procura um motivo para se separar, não para permanecer junto. Procura a suspeita, não a lembrança. Procura o fim do amor e esquece de viver o que o gerou. Com medo de sofrer uma eventual separação, antecipa a separação para sofrer tudo de uma vez. Desperdiça-se a vida em um estado permanente de desconfiança. O que é pior: conviver com a amargura de traições sucessivas infladas pela imaginação ou ser traído? Ainda acho que correr o risco da traição é mais confortável e justo do que pressenti-la a cada momento. Qualquer um pode ser traído, mas não é possível tomar a infidelidade como regra. Acentua o clima de desgaste e de esgotamento, de confronto e de expiação, que levará ao término da lealdade e, infelizmente, às autênticas traições.

Ela gosta de outro.
No amor, a paciência é inimiga da perfeição. Não se nasce para assistir ao amor, mas para contracená-lo. Nunca aceite o papel de conselheiro, que vai torná-lo inofensivo. Dificilmente ela observa um amigo como um provável namorado. Se achar que conhece você, não existe mais possibilidade de encantamento. Seja misterioso, imprevisível. Ela terá que ficar intrigada, ávida por descobrir o que deseja. Não deixe que descubra nunca! Use o humor para vê-la rindo de um jeito bonito. Procure elogiar detalhes, algo que não se repara facilmente. Evite desancar e criticar os amigos de sua musa, ela passará a defendê-los. Faça de conta que o outro homem nem existe para ela aprender a se desinteressar por ele.

Par perfeito. Será que existe?
Não, não existe. Essa história de alma gêmea é incesto. A gente não nasce para casar com a nossa imaginação, senão ficaríamos solteiros a vida inteira. O importante é encontrar uma mulher que nos desafie, nos questione, nos faça pensar diferente. Amar é tirar férias de si mesmo, conhecer outros hábitos e gostos, descobrir que se aprecia, por exemplo, o odiado chuchu. O que não é planejado emociona bem mais do que confirmar expectativas. Ser elogiado constantemente é chato, cheira a bajulação. Não se deve procurar uma mulher para dizer amém, mas para interromper o narcisismo e derrubar os deuses. Sou favorável à espontaneidade e improvisação. Ter algo para aprender é motivo de festa.

O sexo é bom, mas depois dele não há conversa. Ou o sexo é ruim, mas a conversa é boa.
A relação vai bem na cama, mas no momento de olhar para o teto fica-se com vontade de sair dali e ser astronauta. Nenhum dos dois fala. Ambos tartamudeiam. A química da pele queima, só que a boca não funciona para outra coisa a não ser beijar. Como se portar? Tirar proveito do humor, brincar, atiçar papéis. Procure descobrir o que ela curte, solte curiosidades, confesse suas taras. Ousadia é melhor do que omissão, não importa a dosagem. Ninguém pede desculpa pela ousadia, mas é possível se arrepender pela falta dela. Em primeiro lugar, não deixe o silêncio tragar o casal. Fale do incômodo do próprio silêncio, se for o caso, para interceptá-lo. Está provado, mulheres gostam de homens divertidos. Rir já é voltar a transar. Fazer sexo é também conversar. O sexo não acontece somente no quarto. Inicia-se antes, no jantar, no cinema, nos olhares prolongados, nas mãos dadas, no jeito de contornar o rosto e o pescoço. A véspera determina a umidade. O homem também tem receio de ser enganado com o orgasmo. Um orgasmo fingido é o que mais o abala.

De que modo definir se ela está gozando? Pelo ritmo. O que é contido, sincopado, fica desgovernado ao final. Uma mulher se expulsa na hora H. Ou melhor, na hora M. Ela se derrama e a cama é escassa para recebê-la. Uma mulher quando finge continua segurando as rédeas. Uma mulher quando goza deixa ser levada pelo animal do instinto. Mas não questione nada. Se desconfiar que ela não teve arrebatamento, recomece em vez de perguntar. O orgasmo aumenta com a soma de vacilações e dificuldades. Uma mulher que demora mais para atingir o prazer será justamente a que terá maior prazer depois.

Casamento é para toda a vida?
Casamento é para toda a vida da relação, não quer dizer que seja para toda sua vida. Relacionamentos podem morrer antes. Depende da intensidade. A força da paixão que fez vocês ficarem juntos vai ser o fiel da balança. A paixão do começo alimenta o amor depois. Portanto, aproveite. É o que revela as possibilidades e testa os limites do casal. Quem não foi louco na paixão não terá onde se segurar diante da normalidade da rotina. A paixão é o test-drive do amor. É um sentimento explosivo que surgirá novamente em cada briga ou indício de separação para esquentar os laços. Interessante pensar que os casamentos tristes são os mais duradouros. As pessoas não sentem ânimo nem para se separar. O tédio anula tanto a possibilidade de viver como de se matar. Ficam desanimados, não despertam inveja. O par não está no mundo para se perder. Marido e mulher não se envaidecem. São conformados e odeiam o final de semana. Acham que não encontrarão outro amor e, com pavor da solidão, não aceitam mudar. Já os casamentos felizes são os que têm mais chances de terminar. Que paradoxo, hein? Quem é entusiasmado vai interessar os colegas, atrair convites e receber cantadas. No casamento feliz, as brigas são mais freqüentes porque há maior transparência, mais tentativas de conciliar as diferenças. Um casamento não termina porque não é feliz. Às vezes termina para preservar a felicidade da memória.

9:52 AM :: Comentários:


Sábado, Fevereiro 25, 2006

Correio Braziliense, Caderno Pensar
Sábado, 25 de fevereiro de 2006.
Coluna L2
Livros & leituras

POESIA À PAISANA

Paulo Paniago
paulopaniago@uol.com.br
Foto Renata Stoduto/Divulgação

Amor é um truque estranho, não avisa quando chega. O poeta Fabrício Carpinejar sabe do poder de envolvimento e perdição. Ou melhor, o agora cronista Carpinejar. Ele lança, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o primeiro livro de crônicas, O amor esquece de começar (Bertrand Brasil). Em "Meu quarto", uma das crônicas, escreve: "Podemos sair de casa há anos, e o quarto que abandonamos é conservado pelos pais. Não modificam uma vírgula de nossa letra". Carpinejar ganhou prêmios, entre eles o nacional Olavo Bilac. Foi traduzido para o alemão e tem contrato com editora francesa para publicar Cinco Marias (Bertrand Brasil). Nessa exclusiva para a coluna, ele fala da virada na escrita.

O que te levou a escrever crônicas?
As crônicas são extensão de minha poesia. O gênero muda, não o pensamento poético. Basta comparar o fio de cabelo do cronista e do poeta e verificar que é o mesmo criminoso (risos). Ninguém escreve poema para concordar, é para discordar. Crônicas são também exercício de negação ao lugar-comum. Sempre escrevi em meu blog http://carpinejar.blogger.com.br. Era pedido antigo dos leitores. Leio o leitor para me encontrar.

De onde veio o título?
O amor esquece de começar mostra que nunca percebemos o início do amor, ele acontece e já estamos dentro, sem regulá-lo. Quando se tem consciência, já é tarde, estamos amando como se fosse insuficiente um só corpo para abraçar e manter a pessoa perto da gente. Minhas verdadeiras amizades, meu verdadeiro amor, não sei ao certo como surgiram. O amor não tem data de nascimento.

Você é leitor de crônicas? Concorda que é gênero tipicamente brasileiro?
Concordo, é um jeito que o brasileiro descobriu para fazer poesia à paisana, contos à paisana, romances à paisana. É um golpe civil. Crônica tem uma superficialidade enganosa: por ser curta e de temas prosaicos, parece que é inofensiva. Sua profundidade reside no tom baixo de amizade. Sua agressividade é a ternura. Escrever crônicas é fazer amizades, contar segredos e confidências, é ajudar verdadeiramente as pessoas a não se conformarem.

6:15 PM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, caderno Cultura
Porto Alegre, 25 de fevereiro de 2006. Edição nº 14794

Literatura

QUANDO O LIRISMO É A ÚNICA SAÍDA
Em "Joana a contragosto", o texto ácido e sarcástico do escritor paulistano Marcelo Mirisola, autor de "O azul do filho morto", apresenta agora a poesia das histórias de amor malsucedidas

FABRÍCIO CARPINEJAR*


Marcelo Mirisola
Foto(s): J.R. Duran, divulgação/ZH


"Eu tive um certo pudor em pegar na mão de Joana...sei lá, achava que ia escorregar. Não sabia como fazer. Talvez não tivesse vocação para conduzi-la e não tivesse vocação para olhar nos olhos dela."

Se esse fragmento fosse questão de vestibular, dificilmente um candidato acertaria o nome do autor. Um texto com o balanço da bossa, lírico até a medula, feminino como o som de uma harpa. Vindo de uma voz insegura, hesitante e nervosa, que sofre dos cuidados da educação. Poderia ter sido extraído de uma crônica nostálgica de Rubem Braga ou de uma carta de Antonio Maria.

Mas é de Marcelo Mirisola, do seu novo romance Joana a contragosto (187 páginas, R$ 27,90), em sua estréia pela Record. O mesmo Mirisola ácido da novela O azul do filho morto, sarcástico de Bangalô, que leva desaforo para casa e também empresta para quem quiser encrenca. Mirisola mudou radicalmente. Mergulha na poesia para narrar uma dor-de-cotovelo. Faz uma parceria espírita e involuntária com Lupícinio Rodrigues. Joana a contragosto é algo como Nervos de aço romanceada.

O personagem M.M. (com as iniciais de Mirisola e também escritor, claro, para confundir) se apaixona por uma leitora a partir de fotos e mensagens trocadas pela Internet. Uma noite de amor no Rio de Janeiro, várias transas sem camisinha e o homem que se via dono da situação perde o prumo e o senso. E logo é abandonado, sob a alegação de que ela sente amor, mas não tesão por ele.

O livro descreve a fossa com minúcia clínica. "A única coisa que sei é que escrevo este livro a contragosto. Ela não sentiu tesão comigo. É disso que Joana me acusa - depois de cinco fodas, da noite mais bonita de minha vida de chimpanzé. Tudo bem. Ninguém tem obrigação de dar tesão a ninguém. Nem de exigir algo em troca."

O romance consumirá uma caixinha inteira de kleenex. E ainda faltará. M.M., quanto mais apanha, mais tenta entender o que aconteceu de errado. Quanto mais sofre, mais é seduzido pela versão feminina de sua canalhice. O que aconteceu de errado é que deu tudo certo pela primeira vez. Mas Joana não está disposta a negociar. Desbaratina, despede-se com um louco beijo antes de entrar no táxi. Lega a promessa da volta que não se cumpre. Faz o escritor desaparecer na desvalia. Toma a pílula do dia seguinte para matar qualquer possibilidade de filho. M.M. sonha assim com a filha que não nasceu, "uma indiazinha de olhos amendoados", sonha com a estabilidade, com a rotina, com tudo o que sempre abominou. M.M. não está nem ligando para o vírus HIV que acabou de contrair com ela. Busca mais uma chance, desesperadamente uma chance. "O que tenho é Joana e minha solidão. Ainda é pouco, quase nada diante do amor que sinto por ela."

Paulistano, formado em Direito (que não exerceu), Mirisola - dentro do texto - larga as putas, as taras, os temas profanos e clandestinos, o machismo, a arrogância, a egolatria do tamanho do bigode de Salvador Dalí, em nome de uma paixão simples e prosaica. É um novo Mirisola, essencial e sensível. Toda a raiva que destinava ao mundo direciona para si. Autocrítica sem consolação. No corpo pulsa uma esperança frustrada, pusilânime, mesmo assim uma esperança, o que antes não aparecia em Fátima fez os pés para mostrar na choperia (1998), O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002) e Bangalô (2004). É como se deixasse finalmente a raiva desordenada da adolescência, a puberdade do quartinho de empregada, os programas favoritos de tevê, os azulejos que chupava, o mandiopam, a proteção materna e sufocante. Mirisola cresceu. Já era escritor pronto. Agora é homem feito e, por isso, falível e emocionado. Como não suspirar junto com M.M., da janela de um avião, a observar um Rio de Janeiro triste, de volta para casa sem a mulher: "Sofria pelo dia encoberto, pelo Cristo estrangulado em nuvens de magnésia bisurada e por estar vendo uma Guanabara que não existia mais lá do alto, chorei por causa de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e por quarenta anos e cinqüenta minutos de vôo ser tão pouco tempo para Joana e quase uma eternidade para mim, eu estava indo embora."

Em entrevista exclusiva ao Cultura, Marcelo Mirisola - fora do texto - trata de confundir ainda mais biografia e ficção, pede que os autores premiados em dinheiro nos anos em que publicou suas obras estornem os valores recebidos para a conta dele. No fundo, é um exagerado, um polemista. Como todo apaixonado.

*Jornalista e poeta, autor de Como no céu / Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005), entre outros

"Queria ver se Marcel Proust tivesse nascido lá em casa, em 1966... cada um que administre a madeleine que lhe cabe."

"O amor é mais letal que a vida. Não promete apenas a morte. É muito mais do que isso."

"Não sou um executivo de letras. Não estou aqui para continuar a obra de ninguém e não preciso dar tapinhas nas costas de ninguém para ver meu belo rostinho publicado nos jornais."

"Os palavrões estão ali cumprindo uma função. Aliás, não existem palavrões nos meus livros. Existem - repito - necessidades."

"QUERO ME LIVRAR DESSES FANTASMAS"
Entrevista: Marcelo Mirisola, escritor


Joana a contragosto, romance de Marcelo Mirisola. Lançamento da Editora Record 187 páginas, R$ 27,90

Cultura - Já é notório seu talento para o insulto, mas agora descobre-se seu talento para o elogio do amor?
Marcelo Mirisola - Fabrício, meu caro. Tenho talento para escrever (o que não é pouco, concorda?). Outro dia me surpreendi elogiando a invasão americana no Iraque. O elogio era tão bem fundamentado que até eu me convenci. Isso - admito - é um perigo, uma irresponsabilidade. Mas no final das contas o que vale é a diversão de poder transformar um bom argumento em ficção. Às vezes - infelizmente - eu não me divirto tanto. E é aí que a coisa pega. Em primeiro lugar porque o estopim já foi detonado (falo da febre de escrever...) e, depois, porque tenho que manter a situação sob controle. Isto é, tenho que arrumar um bom pretexto para me abandonar. Para, enfim, não acreditar 100% naquilo em que eu mesmo engendrei. O nome disso é ficção. Não é nada fácil, dá um trabalhão danado e pode cansar mais do que uma entrevista. O pior de tudo é que sou pessimamente remunerado.

Cultura - Joana a contragosto não é contaminado, como nos livros anteriores, de referências a programas de televisão e de música da década de 70 e 80. É seu livro mais ficcional nesse sentido de se afastar da indústria cultural?
Mirisola - O que você chama de "indústria cultural" nada mais é do que um dado. Uma ferramenta de trabalho a serviço de um enredo. Em O azul do filho morto havia a necessidade da televisão ligada, do programa do Bolinha e de outros eletrodomésticos e mandiopans afins. Vale notar que toda essa parafernália apenas ajuda na condução do livro, de maneira alguma atrapalha o andamento da história e jamais pode ser confundida com algo datado. A mesma coisa vale para os palavrões. Estão ali cumprindo uma função. Aliás, não existem palavrões nos meus livros. Existem - repito - necessidades. Mas como eu dizia, queria ver se Marcel Proust tivesse nascido lá em casa, em 1966... cada um que administre a madeleine que lhe cabe. Bem, no caso de Joana, as necessidades eram outras. A discussão era mais eloqüente. Tinha que lidar com o confronto entre vida e arte. Tinha que falar de amor e não podia ser derramado... ao mesmo tempo tinha que abaixar a guarda e dar um xeque-mate no meu narrador. Meu estilo estava em risco, e ainda por cima Joana era mais real na minha ficção do que jamais poderia ter sido em qualquer situação vivida de fato. Eu era o médico e o paciente. Emagreci 15 quilos e terminei o romance em exatos nove meses. Se você acha pouco, Fabrício, lhe digo que teve muito mais. O problema é que quero me livrar desses fantasmas, e não consigo. O sobrenatural ainda está me pedindo explicações... e eu não sei como lidar, não sei o que dizer. Estou cansado, meu amigo. Na verdade, gostaria que ela, Joana, fosse mesmo uma mulher de verdade (de fé, uma companhia a toda prova) e que estivesse aqui ao meu lado para o que der e vier. Mas não tenho nada, nada, nada.

Cultura - Como o personagem, você já recebeu um pé-na-bunda de alguma namorada?
Mirisola - Quem não levou? Mas isso não é importante. Tanto não é importante que antes havia levado e depois levei outros mais doloridos que não viraram livros. O livro é resultado de uma escolha. E ninguém é louco de deliberadamente escolher se arrebentar para escrever um livro. A gente simplesmente se arrebenta - e aí não podemos falar em "protagonistas", entende?

Cultura - Sua obra anterior, Notas da arrebentação, no formato de correspondência, ajudou na elaboração de Joana a contragosto, uma longa, dolorida e terrível carta de amor a uma mulher?
Mirisola - Acho que não. O Notas da arrebentação foi uma oportunidade que eu tive de juntar uns textos que estavam espalhados por aí em jornais, revistas e malfadadas antologias. Eu queria "salvar" principalmente um conto chamado Rio pantográfico. O melhor conto que escrevi até hoje. Esse conto não merecia ser confundido com as políticas do organizador da antologia. Se você quer mesmo saber, vou lhe dizer uma coisa: me senti aliviado por ter tirado esse conto das garras do Nelson de Oliveira. Quando a antologia foi duramente criticada, ele não bancou a idéia. Disse que nós, da tal "Geração 90", éramos continuadores das obras de Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e Márcia Denser. Disse que procurávamos "a excelência do texto" e mijou feio para trás. Eu me senti profundamente ofendido. Não sou um executivo de letras. Não estou aqui para continuar a obra de ninguém e não preciso dar tapinhas nas costas de ninguém para ver meu belo rostinho publicado nos jornais. Também não escrevo de graça em lugar nenhum. Enfim, entrei de gaiato nessa barca furada por delicadeza. Quis ser gentil, aceitei o convite e quebrei a cara.

Cultura - Você já disse que os autores que receberam prêmio em detrimento de seus livros deveriam depositar o dinheiro em sua conta. Lembro que tornou público o número de sua conta. Sente-se excluído dos prêmios literários?
Mirisola - Completamente. E não custa nada repetir o número da conta: Itaú, agência 0189, conta corrente 48227-6 . Será que esses escribas não vão se ligar nunca?

Cultura - Quem Marcelo Mirisola gostaria de ser por um dia?
Mirisola - Por uma noite: queria ser o personagem M. M. do Joana a contragosto.

Cultura - É estranho pensar que é o segundo livro que fala de seus filhos mortos, incluindo O azul do filho morto. Em Joana a contragosto, o narrador lamenta que sua transa sem camisinha tenha sido apagada pela pílula do dia seguinte e se vê pai de uma indiazinha de olhos amendoados que não nasceu. Nossa, cria uma nova paternidade: a de fantasmas?
Mirisola - Muito triste isso, hein, Fabrício? Muito bonito também.

Cultura - O personagem contrai o vírus HIV e não culpa a mulher. Vira um detalhe secundário na trama. O amor torna a vida inverossímil?
Mirisola - O amor é mais letal que a vida. Não promete apenas a morte. É muito mais do que isso. A Joana do livro acabou com a inverosimilhança do narrador. Também levou todos os anticorpos, os paradoxos, a alma, o cérebro dele, não deixou nada. Sobraram os fantasmas. Uma vida que se exauriu em função de uma arte estéril, maldita.

Cultura - Pela condução das suas obras na primeira pessoa, muitos leitores confundem a opinião de seus personagens com a do escritor. Mirisola é tão machista assim, tão trash, tão inconformado e cínico? O que há de diferente entre os dois?
Mirisola - As respostas acima, por exemplo.

Cultura - Percebo que seu alter ego encontrou uma mulher à altura da maldade dele. "Ela me devolveu a mim mesmo." Houve um processo de conscientização da figura masculina a partir do narciso feminino?
Mirisola - Houve um processo de destruição plena da figura masculina. Que curiosamente também destrói a feminina. Terra arrasada.

Cultura - Qual foi o erro do seu personagem para não conquistar Joana? O jogo limpo?
Mirisola - Foi ter escrito o livro (e aqui faço questão de misturar as coisas).

Cultura - Nunca a poesia entrou com essa intensidade na veia de sua narrativa, misturando ternura e naufrágio. Se Notas da arrebentação tinha o subtítulo Menos poesia, Joana poderia ter o de Mais poesia. Você mostra finalmente uma feição lírica?
Mirisola - Não tinha outra saída, Fabrício. O lirismo era a única saída para o meu narrador. Talvez a última.

Cultura - Seus livros seguem um projeto ou são feitos por uma escrita inconsciente, visceral, em que nem o escritor conhece o final, tipo "cada vez que procuro entender, a coisa piora"?
Mirisola - Pelo contrário. Mantenho as rédeas curtas. Sei exatamente o que pretendo e aonde quero chegar. Não desejo fazer concorrência a Zibia Gasparetto. Tenho um estilo a preservar, afinal de contas.

Cultura - Você já realizou parcerias com Caco Galhardo (O banquete). É possível trabalhar em conjunto com outro autor sem perder a individualidade do estilo?
Mirisola - Perfeitamente, e além disso dá para se divertir um bocado. O Caco Galhardo é um sujeito sintonizado com aquilo que eu chamo de "inhaca" da classe média. Ele me mandou umas 300 gostosas da sua coleção de Pin Ups. Nunca tive tantas mulheres em casa. Escrevia uma por dia, e o resultado foi muito bom. Em 30 dias tinha o livro pronto. Tenho notícias de uns malucos por aí que se masturbam com o livro. Espero que as mulheres desenhadas pelo Caco sejam as inspiradoras. Meu texto - até onde eu sei - é às vezes esquisito, às vezes melancólico, às vezes demente. Às vezes lírico. Se isso dá tesão em alguém, eu só posso achar muito estranho, e lamentar.

6:10 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

MATERIAL ESCOLAR
Para a amiga Goiandira
Pintura de Van Gogh

Fabrício Carpinejar



Demoro muito para adquirir os cadernos de meus filhos. A lista é imensa, o dinheiro curto. Entro em uma papelaria e me confundo no momento de completar os pedidos e recolher as peças. Diante da relação, a lista do meu tempo lembrava um telegrama. Se o aluno já fosse para escola, estava de bom tamanho.

Minha mãe comprava igual medida para cada um de seus quatro filhos, a evitar ciumeira e cobrança. Meu lápis preferido era o Faber Castell, verde. Percebia seu nome como meu. Apresentava-me na infância como Faber de propósito. Tomava cuidado para não deixá-lo um toco na primeira semana, alucinado de alegria na hora de apontar o grafite. Apontava até chegar ao F. e economizava seu uso nas lições seguintes.

Recebíamos cadernos simples, rústicos e folhas de almaço para a caligrafia. Nenhuma gravura e fotografia na capa. Despojados como a superfície de um ovo. A diferença vinha do carinho materno. Ela chegava em casa com rolos de plástico e papel-presente. Depois de separar os grãos dos feijões na bacia para o almoço do dia seguinte (suas unhas pintadas e levemente descascadas como parte dos grãos), reunia os filhotes para vestir os exemplares. Botava roupa de festa, encapava com um capricho de bordado. Minha mãe concebia fantasias. Assim como pessoas simples, pobres e com o dinheiro contadinho encontram um jeito de preparar adereços exuberantes no Carnaval.

Os cadernos ficavam diferentes do resto da turma na escola, livres do abrigo e do uniforme. Livres da regra e da paisagem cinza e escura das classes.

A mãe ainda montava blocos com as folhas de ofício descartadas pelo pai. Grampeava seus rascunhos, aproveitando o outro lado da página. Nas aulas, dispersava a atenção do quadro negro para ler seus poemas. No avesso das folhas, os escritos que ele colocava fora ou que tinha modificado. Algumas letras estavam riscadas e buscava preencher as ausências. Girava os olhos pelas lâmpadas e armação das janelas. As palavras estranhas e mágicas a um guri aprendendo a escrever.

Não captava o sentido das imagens e metáforas, mas sentia cócegas na boca para repeti-las em voz alta. Fui leitor de meu pai sem querer. O verso da página era realmente um verso (tanto que pensava que a origem da expressão vinha dos meus bloquinhos).

Os poemas competiam com o cheiro gostoso dos livros, cheiro de álcool do mimeógrafo, cheiro de pão e leite na merendeira, cheiro de giz nos sapatos, cheiro de estréia.

Nunca escondi o que não tenho, deixo para completar o que falta com o que sou.

8:49 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

ESTAMOS CHEGANDO?
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Quando estamos viajando, meu filho desde a saída pergunta: estamos chegando? Afirmo que sim, apesar de faltar 300 Km. Cinco minutos depois, lá vem ele com a mesma questão: estamos chegando? Por mais que ande rápido ou vença o trajeto, nada o demoverá da teimosia de querer descer logo ou de ser informado com detalhes de onde está.

Estar chegando revela a ansiedade em definir os relacionamentos. Fala-se da proximidade para afugentar a distância. Não é uma mentira, é uma verdade afoita. Apressamos em dizer que amamos para não conviver com as dúvidas e tampouco gerar suspeitas da legitimidade do sentimento. Há uma pressa pelo final em todo o início e há uma pressa pelo início em todo o final. É obrigatório dizer "eu te amo" para continuar e formalizar o laço.

Talvez seja paixão, mas "eu te amo" já pula da garganta. Talvez seja atração e "eu te amo" fica sentado na primeira fila. Talvez seja carência e "eu te amo" puxa a ponta da camisa e da língua para frente. Não que seja desonesta a declaração, pois não definiremos ao longo dos dias quando se ama verdadeiramente. A precipitação é um modo de garantir, de tomar conta. Não se vive de porta aberta, "eu te amo" é a chave. Ama-se com o quarto fechado. É dito para fazer valer o esforço da conquista, coroar a sedução, assegurar que aquela pessoa é sua, e que não mais corre o risco de perdê-la. Caso nenhum dos dois fale, amarga-se uma sensação de inutilidade e de desprezo.

Não existe como sair ileso da encruzilhada: se não apregoamos o "eu te amo" somos insensíveis, se declaramos toda hora pode se tornar um aceno, mero cumprimento. É preciso cuidar para que não seja usado sem vontade. Um selinho não é suficiente para mandar a carta. Sem desejo, o "eu te amo" é saudação de lápide, entra-se no território da proteção e da rotina, para se despedir de amar. Servirá para afastar o beijo quando deveria prolongá-lo. E as atitudes, e as outras palavras não contam?

Quantas vezes proclamamos o amor precocemente? Antecipamos para que de fato venha. Prometemos para depois ver se acontece. Ainda que incomparável, o amor se faz pela comparação com experiências anteriores. Define-se pela sua força em sobrepujar as lembranças e relações anteriores. É a superação do que foi vivido que valida ou não sua intensidade. Não representa o amor, e sim uma nova tentativa de amar.

Será que o amor não é tão-somente vontade de amar?

Estou chegando. Nunca chegarei, amor é estar a caminho.

9:42 AM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Segundo Caderno
Porto Alegre (RS), 22/02/2006 Edição nº 14790
Literatura

APRENDENDO COM O FEITICEIRO
Da série Mario Quintana e seus leitores

Fabrício Carpinejar


Foto(s): Dulce Helfer, Banco de Dados/ZH

Alquimista, termo que ganhou força com Paulo Coelho, é café pequeno para um feiticeiro como Mario Quintana (1906 - 1994). Um feiticeiro não depende do ilusionismo espiritual para convencer. Mario Quintana põe seu ofício às claras. Foi um dos escritores que mais poetizou o poema.

O mundo partia dele mesmo. O autor era o mundo. Exerce um narcisismo solidário. É seu assunto predileto. Poemas em primeira pessoa, com a bagagem de ter estado dentro da alma grande parte do seu tempo. Esbraveja e ama seus poemas com igual força. Exerce o papel de vítima e carrasco. Chama suas criações de repente de pobrezinhas com ironia e autocrítica e logo as deslumbra como "milagres sem querer".

"Ai de mim. Ai de mim", quantas vezes suspirou Quintana com autopiedade, por não conseguir empreender outra coisa a não ser escrever? Mas não se engane. Ele exala um coitadismo próprio do sedutor, a demonstrar carência para afirmar sensibilidade e compreensão raras.

Em O poema, de O aprendiz do feiticeiro (1950), celebra o verso com as duas principais pulsações emocionais que caracterizam sua trajetória: nostalgia e verdade dolorida.

Antevê a escrita como necessidade, não como uma escolha e opção de vida. São feridas, sede e angústia que não se repartem. Um mistério que não será abolido e que permanece maior do que a clareza arbitrária do autor. O poema depende da penumbra e da insuficiência. O poema é o poeta se desvendando.

Quintana extrai da banalidade, caçar um copo de água de noite, o seu extrato metafísico de busca por um sentido para a linguagem. Tem uma preferência pelos diminutivos, como se fosse uma criança apontando sua nova descoberta. "A pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna" reaparecerá mais adiante em Os esconderijos do tempo (1980) na forma de "as moedinhas de luz perdidas na grama de teus olhos verdes". A obsessão e a recorrência fazem seu estilo.

Há um manto místico cobrindo o texto. O escritor aceita a natureza inexplicável do poema tentando explicá-la. Mediante o jogo de comparações, uma imagem reforça a outra até se confortar com a sensação de que o poema se fez sozinho.

Aceita a palavra como uma exigência do destino. Tal anunciação bíblica de um anjo. Se o anjo de Drummond diz para ele ser torto e gauche, o anjo de Quintana o adverte da sua tremenda solidão.

Uma bobagem querer que a vida do escritor seja um livro aberto. Aberto deve ficar seu livro em cima da mesa e da história.

O poema

"Um poema como um gole
d'água bebido no escuro.

Como um pobre animal
palpitando ferido.

Como pequenina
moeda de prata
perdida para sempre
[na floresta
noturna.

Um poema sem
outra angústia que a sua misteriosa
[condição de poema.

Triste
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza."


Do livro O aprendiz de feiticeiro

9:05 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

UNHAS PRETAS
Pintura de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Convido os homens a fazer as unhas. Retire as cutículas, ponha a base, escolha um esmalte. É uma outra dimensão de comportamento que se abre. Não estou exagerando. Ensina sobre o fim dos relacionamentos, a porção indefesa de cada um.

É perceber os dedos finalmente nus, redondos, inseguros. Descobrir que o casaco das mãos estava do lado errado a vida inteira. Arregaçar finalmente as luvas. Redefinir o tato.

Um lazer esticar os braços como os pés no sofá. Lixa, água quente, tesourinha. Uma alternância prazerosa que vai soltando as defesas. O diabo é depois, quando as unhas estão pintadas. Se não pagou na entrada, será impossível retirar a carteira do bolso e assinar o cheque ou encontrar o cartão. Qualquer atrito e já estragou a pintura e botou o dinheiro e o tempo fora.

Considerava exagero ao escutar a mulher alegando que não podia lavar a louça ou pegar as chaves dentro da bolsa. Conclui que ela atenuava a tragédia e escondia o pior. Conhece-se um estado de insegurança e nervosismo. Como dirigir com a tinta úmida, prender o cinto, fechar a porta, direcionar as marchas, sem encostar? O que fazer se o esmalte demora uma hora para secar? Encontra-se dependente de ajuda, exposto, vulnerável, a esmolar compreensão e empatia. A vontade é deixar as mãos no varal com dois prendedores.

Quando o casal está nas últimas é como se tivesse feito as unhas. Nem briga mais, porque não acredita sequer nas brigas. Marido e mulher perdem a esperança do conflito para atrair o interesse. Desprotegidos e ansiosos, jogam no erro um do outro. Uma fragilidade no aguardo do risco, do borrão, de um esbarrão inevitável. Um descuido e se explode. Um desleixo e a raiva vem pelas narinas antes da boca. Um lapso e o desenho luminoso se esvai. Pintar as unhas é conhecer o quanto se é indefeso. Covardia de tocar, apreensão de estragar o que foi feito. O bife logo sangra e repuxa a pele. Não adianta soprar para apressar a secagem. Bolhas surgirão na textura. Trégua da paciência, de engolir a seco as hesitações e seguir segurando o mundo sem as pontas das digitais.

Aprontar as unhas é um teste de solidão. Bem que pode vir a ser um exercício dócil de convívio e companheirismo. Com alguém ajudando e entendendo ao lado, fica apenas a impressão de conforto, sem farpas ou pontas a irritar os movimentos. A superfície lisa deslizando mais rápido. Deslizando.

9:08 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 19, 2006



O Consultório Poético não tem hora marcada. Basta aparecer. Nova coluna abaixo e no site da Superinteressante.

ELE É CONSERVADOR NA CAMA, O QUE EU FAÇO?
Pintura de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



"Olá Fabrício. Minha história é um pouco longa. Então tentarei resumir sem perder a riqueza, pra que entendas. Meus relacionamentos sempre foram meio conturbados, eu não conseguia ficar com uma pessoa por mais de uma semana, mesmo que eu julgasse gostar dela. Sofri muito rompendo namoros que nem chegaram a ser "um namoro". O tempo passou, e eu desisti um pouco de tentar, e com esse tempo, veio também um sentimento diferente nutrido por garotas que eu admirava, sempre fui um pouco diferente, sem amigas mulheres, andava muito com os garotos. Apesar disso, sentia atração por homens também. E eu me apaixonei por uma garota totalmente diferente de mim, mas eu nunca contei, só fantasiava, pois, o namorado dela era meu amigo, e eu gostava bastante dele. O tempo passou, eu a esqueci e veio outra paixão, eu vivia muito grudada a ela, almoçávamos juntas, eu ia levá-la ao colégio, e mesmo sabendo que ela sentia atração por mulheres, não me dava ao luxo de achar que fosse desejada por ela. Então, conheci um rapaz que me atraiu muito assim que o vi. Fui a casa dele na semana em que o conheci, e nós nos beijamos. Alguns desencontros, e o beijo ficou só nisso durante alguns meses. Depois ele me contou que estava apaixonado por mim, e como não queria magoar alguém mais uma vez, resisti e disse que seria melhor continuarmos amigos. Mas um sentimento crescia em mim sem que eu o percebesse. E então, começamos a namorar.

Tivemos um namoro rápido, cerca de quatro meses, mas foi o suficiente pra nos conhecermos, e partimos para um casamento. Estamos casados há um ano e cinco meses, eu o amo muito. Mas temos ritmos diferentes na vida sexual, o que me deixa muito triste, eu o desejo muito, mas ele está sempre cansado, e não gosta muito de inovações, ele é do tipo conservador. Além disso, meu desejo por mulher voltou mais forte que nunca. Ele sabe da minha atração por mulheres, desde o começo, quando ainda éramos só amigos. Ele diz que é só curiosidade, e que eu irei superar isso. Mas ele não sabe o esforço que faço para não cair em tentação e ficar com uma mulher, pois eu sou correspondida. Sofro muito por isso. Sinto que o faço mal.

Eu o amo muito, não saberia viver sem ele, ele também me ama e sempre tenta me ajudar, mas não sabe mais o que fazer. Eu tenho consciência que por elas, talvez, eu só sinta atração. Mesmo assim, não faço idéia do que fazer pra não sentir mais esse peso em meu peito, e pra não feri-lo mais."


Karen, não existe outro conselho senão o de inspirar o marido a entrar em suas fantasias. Nada mudará sem a adesão dele. É o caso de vida ou separação. Não é uma brincadeira ou um luxo ou uma tara sua. Não é um desvio a se curar, é força de vontade mesmo. Desejo de descobrir o que o corpo pode oferecer para aperfeiçoar o próprio amor. Reprimir e se encabular ajudam a engrossar subterfúgios e fantasias alternativas com outras pessoas.

Antes de se preocupar em feri-lo, recomendo cuidar de suas feridas. Especialmente as invisíveis, as emocionais, que não sangram e não são vistas.

O que não é feito não se esconde, um dia volta e acaba acontecendo dependendo das circunstâncias. Está ensaiando seus sonhos, quem diz que eles já não são reais? Somos infantis no amor. Queremos o que não é dado. Ele pode ser um excelente companheiro e amigo, pode ser carinhoso e pontual, pode ser uma companhia agradável, mas numa relação a dois não é sadio ter preconceitos ou rejeições. Muito menos ter nojo e fobia. Se a mulher que está do lado sente o prazer pela metade, o homem não encontrará nem a metade do prazer que pode ter.

Sexo não combina com o cansaço. Trabalho sim. E vocês podem ter ritmos diferentes, desde que criem também um distinto ritmo a dois. Eu abriria o jogo, viria com lingerie nova para cima dele e faria minhas fantasias. Caso ele recusar, desculpe, mas sexo é brincar de personagens. No sexo, podemos ser qualquer um, sem pegar cadeia e pagar fiança por falsa identidade.

Eu sou conservador somente ao dormir. Quando acordado, sou livre para o arrebatamento. Quem é conservador não conserva nada, nem a si mesmo. Sobre sua curiosidade por mulheres, não vejo nada errado. Acho que é mais do que mero interesse para ser superado, é gosto. Gosto inclusive pela mulher que gostaria de ser e que não consegue pôr em prática pela retração do parceiro.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

4:59 PM :: Comentários:

O MEDO DA INVASÃO E DA EVASÃO

Fabrício Carpinejar
Depoimento ao jornal Rascunho, edição de janeiro



Raduan Nassar conjuga dois livros em um. Uma inversão: da costela de Eva (ou Ana, pivô da disputa entre pai e irmão em Lavoura arcaica), nasce Adão. Um copo de cólera começa com "A Chegada" e termina com "A Chegada", e toda a ira do chacareiro com as formigas em sua plantação soa como se não tivesse existido. Foi um rompante? Um surto? Uma alucinação? O terror lançado em direção ao formigueiro é a projeção da ineficácia do personagem em dominar a própria ordem, e seu ódio envolve a mulher em uma briga corporal, verbal e de nervos. É o receio do elemento imprevisível que desarticula a família. Lavoura arcaica, seu primeiro livro, tem seu início marcado pela "Partida". Gênesis e Apocalipse irmanados. Depois da chegada de Um copo de cólera, vem a partida de Lavoura arcaica. Se um oferece o medo da invasão, o segundo explora o medo da evasão, que os segredos de família, proibidos e ilícitos, possam se tornar públicos com a saída de André, jovem do meio rural arcaico que resolve abandonar sua numerosa família do interior para ir morar em uma outra cidade e acaba resgatado de volta. Ambos tematizam a disciplina. A autoridade que logo perde a espontaneidade quando posta à prova e se transforma em descalabro e autoritarismo. No fundo, as palavras não bastam para disfarçar a segurança. No fundo, a palavra é lodo e pântano, cal e deserto.

Raduan conceitua o desequilíbrio, o controle aparente que existe na estrutura familiar e que coagula quando se conhecem mais fundo as relações. A loucura é toda subjetiva em Lavoura arcaica, feita de insinuações, de pistas e de indiretas, tal o acesso de ódio de Um copo de cólera. A submissão dos filhos com o pai, o incesto entre irmãos, o castigo de uma fé menor do que a sedução, as mortes que não saram como nas tragédias gregas, que apenas prolongam o impasse da vida consumida e ainda inexplicada. O autor circula entre o tom bíblico e as dúvidas apócrifas, mandingas e superstições, crenças e promessas, ameaças e castigos, não há separação da fala do pensamento, mundo ancestral de perguntas feitas para não gerar respostas, mas enigmas. A linguagem poética atua para corromper o tempo da narrativa e bipartir a memória em dois atos: o que foi e o que se imaginou ter vivido. Os mesmos bichos: as moscas em Lavoura arcaica perderam as asas e se transformaram em formigas em Um copo de cólera.

Sobre o autor
Fabrício Carpinejar é poeta. Autor de Como no céu/Livro de visitas, entre outros. Mora em São Leopoldo (RS).

3:49 PM :: Comentários:

UM PAR DE ALIANÇAS



Ana escreveu um texto de amor. Confira.

3:47 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

AMOR GAY
Pintura de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



Não suporto assistir filmes ou ler em livros que as revelações homossexuais estejam relacionadas a traumas na infância e adolescência. Sempre que aparece uma personagem gay, a narrativa justifica sua conduta com problemas e crises pessoais. Uma desculpa para a sensibilidade exagerada, um salvo-conduto para explicar a aproximação e envolvimento com pessoas do mesmo sexo. Perdeu os pais cedo ou apanhou quando criança ou sofreu com uma mãe castradora ou foi seviciada ou abandonada, a sugerir que ser gay não é uma escolha, mas castigo. A tese é que o homem e a mulher não estão bem resolvidos, portanto encontram um desafogo na homossexualidade. Não se percebe que se reforça um preconceito. Colocam os gays como sofredores natos, distorcendo sua franqueza sob a forma de bloqueio. Transmite-se a idéia de que a homossexualidade é antinatural, quando antinatural é não amar.

É fácil a sensibilização pela dor, o que falta é a sensibilização pelo entusiasmo. Não estamos no mundo para sofrer, legado da visão da igreja, que criou o purgatório para assustar e firmar a dependência pelos pecados. Justamente os homossexuais ainda não foram tirados do purgatório. Recebem imagem negativa e resignada, como se a homossexualidade fosse uma doença psicológica desencadeada a partir de lembranças. Suas vivências estão associadas à desconfiança e à suspeita. Por que esconder as virtudes dos relacionamentos homoafetivos?

Isso é censura. Censura velada, clandestina e não menos violenta. Não adianta falar de gays para se dizer avançado, é necessário apresentar casais de gays com alegria, senão será retrocesso e mentira. A sociedade carece cada vez mais de fluoxetina.

No fim das contas, não se respeita a liberdade sexual. Se é liberdade não é condicionamento. Se é liberdade não é resultado de recalque e frustração. Liberdade é independência, afirmação de gosto, eleição de princípios.

A realidade não é reproduzida, filmada, dita, escrita. Tenho amigos gays com pais felizes, infâncias felizes, cercados de amigos e sem nada de desastroso e trágico para contar de suas vidas. São amorosos porque conheceram o amor desde o princípio. Os familiares sentem orgulho deles e apóiam qualquer uma de suas decisões ao longo do tempo. Não têm nenhuma confissão escabrosa a relatar. São espontâneos e vívidos e amam quem eles querem com devoção. Amam para devolver o amor que receberam, e nunca para vingar a ausência de amor.


9:56 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006

O ESSENCIAL DO NOME

Minha mãe me alcançou seu diário de 1977. Há uma página dobrada em que descreve um diálogo comigo, ainda menino de 4 anos.

Maria: À medida em que envelheço simplifico meu nome. Meu nome civil é Maria Elisa Carpi Nejar. Como advogada, atuo como Maria Elisa Carpi. A escritora comparece com Maria Carpi. Na intimidade, sou Maria.

Fabrício: E quando fores levada aos céus serás Mar.

6:12 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006

A ESTRADA NO MEU QUINTAL
Pintura de Antoni Tàpies

Fabrício Carpinejar




Lavar o carro para o homem é como chorar assistindo filmes. Um modo de se emocionar e não dar na vista. Um modo de ser mais do que um homem solitário, e sim quatro passageiros e um motorista ao mesmo tempo.

Talvez as mulheres não entendam o que significa. É a maquiagem masculina.

Eu me sentia adulto quando meu pai me convidava para lavar o carro. Ainda por cima ganhava banho grátis de mangueira.

Podia entrar dentro do automóvel e brincar com o volante. Ele me alcançava uma flanela e ensaboávamos as rodas, as janelas e a frente. Nossas mãos se confundiam, rápidos pára-brisas. O chuvisco frio arrepiava as canelas. Andando em círculos, nos esbarrávamos e ríamos da ternura involuntária.

Uma das raras cenas em que conversávamos sobre o que viesse à cabeça, sem censura e medo. Meu pai era um na mesa e outro lavando o carro. O primeiro severo; o segundo, amoroso e leal como a água correndo. Meu pai agia como avô, desobrigado dos castigos e das reprimendas. Ele me ouvia com uma atenção absoluta, como se fosse meu professor e eu esperasse alguma nota no final do trimestre.

Naquela época, não havia mordomias como lavagem a jato ou lavagem expressa. Não se transferia o encargo para postos ou flanelinhas. Lavar o carro acontecia em casa, pessoal como escova de dente, certo como confissão antes da eucaristia. Eu e o pai levávamos uma hora para escovar os bancos (sem aspirador de pó), tirar a espuma, passar jornal nos vidros e encerar. Ele me fazia acreditar que era dono do carro tanto quanto ele. Ainda me elogiava pela dedicação e eu retribuía com o brilho. Nunca vi homens se elogiando com tamanha franqueza como nesta circunstância. Eles se desnudam diante do motor e não se preocupam em mostrar virilidade.

O carro era o cachorro da família, abanava o pêlo depois do ritual. Sacudia os fios e logo saía correndo pela terra e ruas para se sujar e reencontrar o cheiro.

A história de minha família é a história de seus carros. Não se trocava o veículo todo ano, contei com dois na infância, curtidos, surrados e usados até estragar na estrada: um Corcel amarelo e uma Belina branca. Meu pai tinha um apreço desmedido por eles. Um risco na lataria o chateava por semanas. Depois da janta, escapava de mansinho e apalpava o pequeno estrago, só detectável por ele, mais ninguém. Não era nada, mas ele identificava a distância, tal ardência de cicatriz no próprio rosto. O carro doía nele.

Como não arrulhar a boca quando o pai chegava no portão buzinando, de surpresa, com o carro novo? E despencávamos pelas escadas para o primeiro passeio, os estofados engomados exalando o plástico recém-tirado. Disputava com os irmãos quem entraria primeiro. Olhar as janelas para ser olhado, a exemplo de manequins vivos nas vitrines. Orgulhosos, acenávamos a qualquer um, com o único propósito de se exibir. A mãe apertava os botões de seu vestido com espanto e desconforto (consciente das dificuldades financeiras que viriam), em seguida cedia ao desatino ruidoso e amarrava um lenço no pescoço de atriz de cinema. Ficava absurdamente bonita, sua pinta como uma segunda boca. Cantávamos juntos, desafinados, com a alegria destreinada. Não previa as adversidades, não existiam em minha imaginação. Criança se importa em viajar, de modo nenhum com o destino. Não cogitava a loucura paterna de tomar uma dívida além do seu salário, não aventava a hipótese de que ele não dispunha de poupança para saldar o negócio. Pensava que o carro era nosso na hora, alheio as quarenta e oito prestações e do esforço de superar a despesa-extra.

Hoje convido meu filho a lavar o carro. Eu já fui ele.

6:19 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 12, 2006

MEU QUARTO
Para Suzana
Pintura de Van Gogh

Fabrício Carpinejar




Podemos sair de casa há anos, e o quarto que abandonamos é conservado pelos pais. Não modificam uma vírgula de nossa letra. Não alugam, não fazem reforma, não mudam as estantes, não trocam a pintura, a fechadura e os tapetes. Nós alteramos a infância, não os pais, que em qualquer idade nos enxergarão pequenos. Nos enxergarão como se ainda fosse possível resolver a tristeza e a dor com um colo.

Quando voltamos para residência familiar, separados ou exilados, desempregados ou desencantados, descobrimos o quanto eles nos amam. Amam a criança que fomos. Nenhuma boneca foi jogada fora, enfileiradas pelo tamanho. Nenhum carinho desperdiçado. As canetas coloridas da escola guardam tinta. As agendas estão na gaveta, com as fotos dos amigos e as primeiras confidências. Os pôsteres das bandas de rock, que hoje nem fazem sentido, permanecem atrás da porta branca. As revistas proibidas seguem escondidas em uma madeira solta debaixo da cama. A mesma cômoda onde escrevemos cartas de amor e varamos a noite estudando para provas. O mesmo abajur preto, com problemas de contato. O mesmo enxoval, como se tivéssemos passado um longo final de semana fora (um final de semana que pode ter durado vinte anos), e retornássemos de uma hora para outra. O mesmo travesseiro com cheiro de nosso pijama. Os mesmos cabides e espelho. Até a pantufa nos aguarda, com a plumagem desalinhada de ovelha.

Tudo em ordem e recente, a apagar que lacramos a porta com um adeus, a esquecer que viramos o rosto para sermos felizes com nossas famílias. Os filhos são dramáticos e se despedem com adeus, mas vão voltar e voltam, mesmo que seja para se despedir verdadeiramente.

E não é apenas a aparência do quarto que resiste intacta. É o jeito como os pais nos tratam, sem censura e castigo, sem julgar as escolhas e precipitar arrependimentos. Em silêncio, a mãe fará o bolo de laranja predileto. Ruidoso, o pai perguntará se não queremos caminhar com ele. Ao sair, a mãe dirá para não esquecer o casaco, o pai avisará para nos cuidar e voltar cedo. O tratamento é idêntico, insuportavelmente idêntico à adolescência. A velhice não ameaça o amor.

Apesar de confiarmos que somos outros, os pais continuam nossa vida. Não interessa a cor de cabelo, a tatuagem, o piercing, a cicatriz, a ferida, a alegria ressentida, os fios grisalhos e os divórcios, os pais acreditam que somos os mesmos. Somos as crianças que eles deixaram crescer.

12:51 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

SEXO DEPOIS DOS FILHOS
Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Felizes são os pais. Insones, madrugadores, boêmios do leite quente dos filhos. Felizes são os pais, que não amam por amar, amam com violência e vontade vencendo o cansaço, o sono e as dificuldades de estarem sozinhos. Felizes são os pais, sempre interrompidos pelos filhos pequenos bem na hora que a preliminar aqueceu. Felizes são os pais, que insistem em recomeçar quando a maioria das pessoas dormiria e desistiria.

Felizes são os pais quando a criança bate à porta e atendem com generosidade e disposição. Felizes são os pais que chegam a rir da visita inesperada. Felizes são os pais que têm humor e não são incomodados pela vida. Felizes são os pais capazes de transas mais longas do que os apaixonados, em capítulos e com intervalos para comentários. Felizes são os pais que acumulam tesão e não deixam nenhuma região da pele sem a cortesia do beijo. Felizes são os pais que pintam a nudez com quatro mãos. Felizes são os pais que colocam a tevê alta para despistar e abafam os gemidos.

Felizes são os pais que descobrem os pontos de maior prazer pela mímica. Felizes são os pais que tapam a boca um do outro como um ladrão, para que a alegria não fuja do corpo. Felizes são os pais que estremecem a cama e as paredes em pequenos abalos sísmicos. Felizes são os pais obrigados a fingir os olhos fechados para liberar a casa. Felizes são os pais com segredos de toques e carícias, sinais e acenos clandestinos, que apenas os dois entendem.

Felizes são os pais que afastam os medos, pesadelos e fantasmas de seus pequenos com histórias da infância. Felizes são os pais que não desperdiçam a sensualidade ao mudar de assunto e reservam confidências selvagens para a concha dos ouvidos. Felizes são os pais com corredores compridos para ganhar tempo de se recompor. Felizes são os pais que dormem nus e se deliciam com o esbarrão no escuro. Felizes são os pais que acampam em sua própria cama, com lençóis levantados.

Felizes são os pais que arrumam as desculpas estranhas para explicar aos filhos o que estão fazendo. Felizes são os pais que vigiam sua felicidade e se previnem de gentilezas. Felizes são os pais sem pudor de lamber, chupar, morder, arranhar, provocar a carne para que cresça nas palavras. Felizes são os pais que não diminuíram suas fantasias pelas responsabilidades assumidas.

Felizes são os pais que não assassinaram o amor pelo hábito de acordar junto, que reabilitaram o amor pelo hábito de esperar para dormir junto.

Felizes são os pais.

10:49 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006

OS AMIGOS INVISÍVEIS
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.

Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira. Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão. Amizade não é dependência, submissão. Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra. É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.

Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!

O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva. Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.

Amigo mesmo demora a ser descoberto. É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.

Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios. São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.

Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade. Aqueles que não estão perto podem estar dentro. Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente. Não vou mentir a eles ¿vamos nos ligar?¿ num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.

Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação. Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.

Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação. Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.

Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos? Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.

11:07 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006



Não há férias para o Consultório Poético. O plantão lírico pode ser lido abaixo e no site da Superinteressante.

45 DIAS
Pintura de Oskar Kokoschka

Fabrício Carpinejar



"Acabei de ler sua coluna no site da revista Superinteressante, o texto: ´Ainda é tempo de viver'.

Achei o texto interessantíssimo, suas palavras foram muito bem colocadas e são uma verdade, muitas vezes para algumas pessoas, por mais que amem o companheiro (a) , deixam os sentimentos virarem rotina, não o demonstram mais como faziam no auge da paixão, no auge da conquista. A partir do momento que o (a) conquistaram acham que já não precisam mais cativar este amor bonito, já esquecem das cortesias usadas no passado, é porque realmente todo o glamour ficou lá atrás, guardado nas lembranças ou até mesmo em uma caixinha fechada a sete chaves, quando na verdade deveriam criar um alicerce forte, capaz de romper todas as barreiras que possam prejudicar o relacionamento, mantendo assim o amor Vivo.

Sabe, sou da cidade de São Bento do Sul, em Santa e bela Catarina, me chamo Deise, tenho 28 anos, namoro há 6 meses um gaúcho da cidade de Canoas, sofremos as dores do amor a distância nos vendo a cada 45 dias + ou - com a distância nos agarrar a família, amigos e ao trabalho para driblar um pouco a saudade que aperta e chega a machucar o peito. Mas o problema maior que venho sentindo é: " Como sustentar este amor que conquistei quando a pessoa amada não corresponde mais com os mesmos estímulos de outrora?

Sei que ele me ama, mas realmente para sobreviver a esta distância o coração pede alguns cuidados, por mais que eu busque ser a mesma pessoa que ele conheceu pela net, sinto que ele está descuidando um pouco dos sentimentos dele. Nos conhecemos através de um bate-papo, no qual ficamos amigos durante um tempo até que o amor nos aflorou a alma, e decidimos nos encontrar pessoalmente e iniciar um namoro.

Naquele tempo tudo era um mar de rosas, e-mails para cá, e-mails para lá, realmente eram cartas de amor que são vistas em livros de muito romance de séculos passados, temos todas guardadas que um dia até pensávamos em escrevê-las em um livro, por tamanho sentimento ali demonstrado, o qual eu achava que perpetuaria por está jornada da ausência. Mas hoje, quando peço a ele para tentar voltar a escrever um e-mail ou outro da mesma forma que fazíamos antes, para amenizar um pouco a saudade, ele diz: 'mas escrever o quê?'

Por que para conquistar usava dos mais belos recursos trazidos do fundo da alma, quando para mantê-lo vivo já não consegue mais se expressar? Será que o alicerce construído no início do namoro se mantém sólido?"


Anelise, ele se acostumou a amar. E não há pior forma para deixar justamente de amar. Quando se conclui que não se precisa mais prender a atenção da interlocutora, que tudo foi dito e confidenciado, que o melhor passou. Algum osso quebrou e não foi reintegrado ao seu lugar de origem.

O amor supera o período da novidade para se prolongar em interesse permanente. O que aconteceu foi uma doida paixão, uma entrega urgente e faminta que é própria da paixão. O amor exige mais do que hormônios, mais do que desejos, mais do que tesão. O amor exige continuidade, persistência e vontade. Não se ama sem disciplina, sem o ânimo para superar as adversidades. Em contrapartida, é possível se apaixonar sem nenhum esforço. A paixão começa fácil, mas acaba com igual fugacidade. O amor demora para se impor e também para terminar.

Na virtualidade, escrever é o equivalente a beijar. Se não há o que escrever, não há vontade de beijar, de tocar e de fazer explodir o espaço entre as palavras. Assunto não falta. Basta contar como foi o dia, confiar as preocupações, expor o que está se sentindo, detalhar as vontades secretas. Para um amante, qualquer coisa é motivo de confissão e jura. O amor não varre as migalhas, junta todas debaixo do cotovelo.

A monotonia surge no momento em que o entusiasmo se transforma em obrigação. Escrever para você e telefonar estão cheirando a formalidades, quando deveriam aparecer como descobertas.

Ele deve saber que a fase da conquista não terminou, nem terminará, tanto que você percebeu a mudança de comportamento e a ausência de estímulos e exige a revalorização. Onde foi parar o ímpeto dele? Para outras amizades? Não se pode sair de férias e deixar a planta à míngua. O amor não sobrevive sem que os dois estejam dispostos a fortalecê-lo. O amor já é casamento desde o início.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

7:55 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

QUANDO ELA ESTIVER COM OUTRO
Pintura de Oskar Kokoshka

Fabrício Carpinejar



A dor é educada fora de casa. Dentro dos limites do portão, pode chorar, espernear, jogar objetos pela janela, quebrar os cds, empurrar os livros da estante. Em público, é cortês e polida. Não significa que não está louca por um escândalo. Está e se contém e se censura.

No amor, morre-se em segredo, numa hemorragia interna, sem ferimento a pôr as pessoas em desespero ao seu redor tentando socorrê-lo.

Não há quem não tenha sofrido o enfrentamento de encontrar uma paixão com outro namorado. Onde menos se espera, constatar que ela o esqueceu ou finge esquecer com habilidade. Que não era insubstituível, que é uma foto queimada e chaves devolvidas.

Na vulnerabilidade de uma conversa entre amigos, seu rosto fica branco ao reparar ela beijando e abraçando um estranho. Corre ao banheiro para banhar o pescoço e aliviar a queimação. É um ódio e uma desvalia enormes como se a traição acontecesse ainda no momento que permaneciam juntos. Só que vocês não estão mais juntos. Nem se observa muito para não dar na vista. Não se olha nos olhos dela. De canto, percebe as mãos dela fazendo movimentos circulares nas costas dele, a pedir com volúpia a aproximação da cintura. Igualzinho como na época do namoro contigo.

É um drama rever quem se gostava comprometida. Seria sorte se apenas os cotovelos doessem - é todo o corpo. Toda a ausência do corpo dela no seu.

Esperava que a vida conspirasse a favor, de que ainda voltariam. Não fez nada para que acontecesse o retorno, mas esperava que o tempo parasse para pensar e facilitasse a reconciliação.

De repente, ela não está desejando uma revanche, vive a possibilidade de amar de novo. É difícil aceitar isso, queria que ela estivesse trancada no quarto, de luto, chorando um morto, enquanto você saía e aproveitava a noite. Nenhuma alma o convencerá do contrário. Tende ao exagero, a distorção. Ela abraça o cara e entende que se esfrega nele, ela o beija e entende que o lambe.

Alheio à verdade (a verdade pouco importa diante do coração), reconhece a cena como uma vingança calculada, um acerto de contas. Elabora a tese de que ela apareceu justamente no bar que freqüenta para suscitar o ciúme e abalar suas convicções de despedida.

Baba de raiva, de dó, de pena de seu futuro. Ela acena. Não existe saída para fugir de falar com ela; decide se aproximar do casal. Cumprimenta o novo namorado com formalidade e distanciamento. Pergunta como ela vai e suporta escutar um "nunca estive tão bem".

Apesar dos calafrios, não retruca. Apesar da vontade de virar a mesa e ofendê-la de cadela, não retruca. Apesar do ímpeto de esmurrar o nariz do rapaz e findar aquela felicidade inconsciente de mosca na teia de aranha, não retruca. Não, não diz nada. Perdeu o domínio de revidar.

A dor faz nascer um orgulho inquebrantável. Orgulho insensível e gélido. Orgulho de animal do pântano, acostumado a rastejar no escuro. Não entregará o que sente. Calará para sempre. Agora sim é um morto, como queria que ela o tratasse. Mas ela não chora por você. É o morto que chorará em casa. Sozinho, debaixo da terra dos lençóis. Chorará a impossibilidade de ser honesto.

10:39 AM :: Comentários:

PAI CORUJA

Minha filha Mariana, 12 anos, está com blog. De ponta cabeça. Perdi há tempo o monopólio do computador.

10:38 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 05, 2006

SEM SINAL-DA-CRUZ
Pintura de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Mato por amor, mas não mato o amor.

Prefiro estar perturbado por um amor ao invés de seguro, calmo e salvo fora dele. Amor resolvido ou não, pouco importa. Que eu perca a cabeça, o saldo, a casa, os gostos. Perder é prova de que ainda tenho algo.

Um amor com nó de balanço, nó de pião, nó de barco, nó de cadarço, que cruze as cordas como pernas excitadas.

Que seja um amor inacabado, quebrado, ferrado, com nó cego de uma forca, desde que aperte bem forte para não soltar. Um amor rápido como um infarto, sem sinal-da-cruz. Um amor que desafie a sabedoria que vem depois da morte. Um amor burro que dependa apenas de um quarto para se cumprir. Um amor que não tire os sapatos para deitar. Um amor sofreguidão e gozo. Um amor hesitação irritante entre beijos. Um amor que não dá trégua para voltar atrás. Um amor que não oferece chance para ir à frente. Um amor que fica no mesmo lugar, que não traz sorte e azar, traz o desespero de ser amado um pouco mais.

Amar é mais importante do que viver. Viver pode vir depois.

Amor dói e me mobiliza, me desperdiça a encontrar o que não procurei. Eu me sinto melhor no mais fodido amor do que se estivesse pleno de saúde e reconhecimento. Sinto que dependo de alguém, e não somente de mim. A miséria do amor é um luxo.

Mesmo na separação, o amor diminui o espaço entre os dedos e afiança o olhar para mais longe. Qualquer lugar é passível de uma aparição, de um reencontro, da tremedeira dos joelhos, como se fossem autônomos e independentes do resto do corpo e rezassem para um Deus prestes a surgir.

Repara-se nas pessoas ao lado a adivinhar se alguma delas experimenta o mesmo torpor silencioso de mastigar as palavras e não digeri-las ou cuspi-las. O amante está sempre com uma palavra na boca, lapidada, aperfeiçoada, repensada, reescrita, que não sairá para passear com o mar. Não sairá numa confidência. Ficará como semente de uva, pequena demais para ser colhida do chão, mas de aspereza reconhecível para uma língua com sede.

O amor é infantil. Uma alegria de se entornar pela casa e se despreocupar com a arrumação. Ser adulto estafa, a recolher os brinquedos escondidos na areia sem ao menos ter brincado. O amor é insuportavelmente tolo. Quem não é tolo não permite carícias.

O amor não cansa de caminhar como a luz, não cansa de barulho como a chuva, não cansa de repetir as lembranças como o fogo.

Morro por amor, mas não morro o amor.

10:29 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

A BALANÇA
Imagem de Salvador Dalí

Fabrício Carpinejar



Quem já foi mulher sabe. Há algo mais íntimo e pessoal do que senha: conferir o peso em balança. Não se aceita companhia e gente bisbilhotando. Põe-se a bolsa no gancho, respira-se fundo tal jogadora de basquete antes do arremesso e retira num olhar laser os dados do visor.

Ela vai retirar todo adicional que suscitará carga. Física ou psicológica. Não se envergonhará de tirar brincos, colares e pulseiras. É um despojamento equivalente ao exigido na porta giratória de banco. Impiedosamente abandonará objetos inimigos de sua eventual magreza. Dependendo da gravidade, sobra inclusive para a aliança de ouro.

Não comparecerá para a sessão de horror com casacos, botas e roupas de inverno ou logo após o almoço. Muito menos no período pré-menstrual

A balança é como exame médico. Reivindica privacidade, isolamento e jejum. É um confessionário sem padre, um divã sem analista. O ideal é passar em uma farmácia, dar uma paradinha de dois minutos e sair correndo para checar o perfil no reflexo das vitrines.

A mulher não contará que passou na balança, a não ser que tenha diminuído de peso. Em forma, o riso franco a fará levitar. Jogará seus cabelos para os lados. Mudará seu roteiro no ato, ainda que custe atraso no serviço. Experimentará roupas nas lojas, reencontrará o provador para consumar suas ganhas de vingança e comprará escandaloso conjunto de lingerie.

A consulta precisa ser artesanal. Desdenha da tecnologia. Um exemplo é a balança digital, que esmola moedas e promete detalhes neuróticos como massa corporal. Além de pormenorizar a tragédia, o extrato é sádico. Lembra de sua idade, apresentando comparações das medidas em diferentes faixas etárias.

Ela não sairá com um documento por escrito de seu peso. Nem morta.

Diferente da ala masculina prestará atenção nos números quebrados e gravará os gramas. Homem quando está com 74,3 diz que tem 75. Mulher contabiliza qualquer sobrepeso ou emagrecimento. Passa a régua até o último gole do milímetro. É implacável e severa quando sozinha.

Na verdade, a balança está dentro da cabeça dela e começa quando calcula as calorias dos alimentos antes de mastigá-los. Ela sonda, analisa, investiga os componentes. Sequer a barra de cereal escapa do controle (Aliás, para preservar a sanidade feminina, poderia ser providenciada uma letra maior nas embalagens para evitar danos oculares e futuras visitas ao oftalmologista. Aquela letra mirrada de remédio provoca no mínimo uma enxaqueca.).

Não tente facilitar o trabalho comprando uma balança para pôr no banheiro. É uma das maiores afrontas, passível de queixa na delegacia. Além de chamá-la de gorda, insinua que estará fiscalizando seus avanços e recuos. Mulher não aceita nenhuma auditoria fora de si mesma. A balança no banheiro fará com que ela se sinta desproporcional de manhãzinha. Melhor é um pequeno tapete floreado, em que ela se verá leve e perfumada. Um tapete para secar os pés antes da toalha.

1:48 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

AS MULHERES QUE PERDI
Imagem de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Perdi Alice porque ela me achou baixo. Perdi Lisa porque minha língua mancava na infância. Perdi Rita porque era seu melhor amigo. Perdi Gisele para meu melhor amigo. Perdi Renata porque ela mudou de estado. Perdi Ivana porque escrevi cartas de amor e não tive coragem de mandar. Perdi Maria por um apelido. Perdi Fátima quando pichei o muro de sua residência. Perdi Caroline porque fumava. Perdi Sandra ao perder seu livro de Português. Perdi Débora ao pedir cola. Perdi Rosa pela asma. Perdi Cristina pela catapora. Perdi Rose porque troquei de escola. Perdi Josélia por não aprender inglês. Perdi Viviane porque não jogava vôlei. Perdi Marisa na parada de ônibus. Perdi Carla ao buscar cerveja. Perdi Cristina quando demorei a dançar. Perdi Cristiane por um surfista na praia. Perdi Estela no fim de uma festa. Perdi Bruna ao atravessar a rua. Perdi Luciana por não telefonar. Perdi Laura ao me casar. Perdi Ângela por ela estar casada. Perdi Márcia por não insistir. Perdi Mariana por insistir. Perdi Sonia na fila do banco. Perdi Marta por não puxar conversa. Perdi Cíntia ao ir ao banheiro. Perdi Lisiane por sono. Perdi Lisa por ressaca. Perdi Manuela pelo mau humor de manhã. Perdi Amanda por insegurança. Perdi Janete por excesso de confiança. Perdi Bárbara em um filme polonês. Perdi Bianca pela falta de cabelos. Perdi Fernanda porque ela não gostava de barba. Perdi Janete pelo jogo de futebol. Perdi Dulce por ciúme. Perdi Teresa por duvidar dela. Perdi Gabriela por criticar suas músicas. Perdi Fabrícia pelo nome parecido. Perdi Paula ao odiar seus pais. Perdi Deise para meu irmão mais velho. Perdi Cátia para meu irmão caçula. Perdi Denise ao não segurar sua mão. Perdi Ester pelo atraso. Perdi Flávia porque ela queria ter filhos. Perdi Tamisa porque eu queria ter filhos. Perdi Tânia quando ela trocou os graus de seus óculos. Perdi Joana para sair com os amigos. Perdi Milena por fazer pouco caso de sua dor. Perdi Geórgia ao comer de boca aberta. Perdi Regina pela solidão. Perdi Vitória por fofoca. Perdi Jordana por não suportar discutir o relacionamento. Perdi Lídia porque ficava em casa. Perdi Beatriz porque não voltava para casa. Perdi Elisa porque envelheci a fé.

Perdi mulheres pelas dúvidas que recebi de minha mãe e deixei para resolver depois. Perdi mulheres pela teimosia em antecipar as falas. Perdi mulheres por acreditar que eu amava o suficiente. Nunca é suficiente. Perdi mulheres ao mentir que não trairia. Perdi mulheres para me fazer de vítima. Perdi mulheres porque em algum momento não estava em mim e coloquei travesseiros debaixo da coberta e fingi dormir enquanto fugia.

Perdi mulheres por descuido. O homem é um descuido.

9:21 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006



O Consultório Poético está de portas abertas. Leia a nova coluna abaixo e no site da Superinteressante.


AMOR NÃO É CARTÓRIO
Imagem de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



"Estava me sentindo muito só e procurei no site esse tema e encontrei seu artigo. Acendeu minha alma! Obrigada...mas queria pedir sua opinião. Sou separada e tenho uma filha de 6 anos. Vivo com a família mas sem um amor. Conheci há 3 meses um senhor de 50 anos pela Internet (é italiano e reside sozinho em São Paulo há mais de 10 anos, é divorciado). Parece estar muito apaixonado e já marcou de vir aqui onde moro quatro vezes, mas sempre deu algo errado. Diz que me quer, e não parece ser somente sexualmente, pois já teria vindo se fosse o caso. Está transferindo seus negócios e pede que eu aguarde porque quer morar na minha cidade comigo e minha filha. Manda documentos para comprovar o que diz, e é muito carinhoso comigo. Estou, entretanto, cansada de esperar e penso em sumir. Ao mesmo tempo, me vejo apaixonada. Acha que devo apostar nesse relacionamento ou desistir dele?"

Juliana, eu não esperaria mais. Três chances já estão de bom tamanho. Você foi educada em excesso, tolerante em demasia. Se ele cancelou a quarta vez, depois de inflamar expectativa e ansiedade, atiçar encontros e pormenores, é que não está tão apaixonado assim. Ou esconde seus verdadeiros impedimentos e entraves. Será que ele é claro em suas justificativas? Quem é apaixonado larga tudo, assume os riscos, salta no escuro, não deixa ninguém do outro lado da linha esperando. O apaixonado sofre para não provocar sofrimento, sofre no lugar de quem ama. E arruma explicações para ir, de modo nenhum para não ir.

Outra coisa: vocês ainda não se conheceram pessoalmente para projetar o futuro e fazer prognósticos. A decepção é grande com a precocidade. Ainda falta muito para descobrir a sintonia: a vida sexual, a rotina, os gostos em comum. Eu começaria de leve, com uma amizade, ganharia terreno, provocaria gentilezas, deixaria que ele se mostrasse de corpo e modos inteiros na convivência. Não dá para casar por correspondência, ainda que já exista precedente no Rio Grande do Sul. Não estou questionando o amor virtual entre vocês, mas o amor começa longe para se aproximar, e não se aproxima para se distanciar. Deve tomar cuidado com o jogo de sedução. Palavras em excesso pode significar salivação, não necessidade. Bancar o amoroso no MSN ou no e-mail ou em chat ainda não representa um temperamento, quem diz que não é um tipo?

É chato meu papel de desconfiado, só que é necessário para a franqueza desde logo entre os dois. Você também não é nenhum cartório para receber documentos. Amor não se comprova com o papel e assinatura, mas com as mãos. Isso não é negócio, é laço. Seria mais contundente com ele, pois parece que ele não se deu conta de suas grosserias. Onde já se viu fazer mulher aguardar?

Não suma antes de explicar sua posição. Respeito, diferente de tolerância, nunca é demais.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:35 AM :: Comentários: