Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Fabrício Carpinejar


 

Arquivos:

Blog

Sexta-feira, Março 31, 2006

ENTERRE-ME SENTADO
Pintura de Pierre Soulages

Fabrício Carpinejar



Meus primeiros beijos foram no cinema. Nervoso entre oferecer a bala ou os lábios, nervoso de segurar suas coxas ou ler as legendas. Meio de lado, meio de frente, inclinado para os dois caminhos. Na primeira tentativa, ela negava. Na segunda, ela negava. Na terceira, a dúvida já nos unia.

O sutiã é um cinto afivelado por dentro. Demora muita carne para chegar. Não vi os seios que toquei, minha mão viu e depois me contou. Não há nada nas árvores mais macio e liso. O mamilo era unha da neve. A unha que cavaria a minha vida. Meus melhores filmes eu não assisti. O cinema foi minha praça. Meu portão. Minha cama. Meu carro. Minha iniciação. Aprendia a sussurrar no cinema. Aprendi a usar os cotovelos nas camisas femininas para pedir aproximação. Aprendi a embaraçar as pernas e não andar com as minhas. Aprendi a não ser igual no dia seguinte.

Posso estar doente, triste e enjoado, o cinema me acalma. Um tempo comigo, um outro ritmo, pouco a resolver. O cinema não me cobra decisões, não me cobra palavras. Ele respeita meu silêncio de ervas daninhas. Arboriza a barba com lã e quietude. Me protege da chuva e dos ruídos do estômago. O cinema me cura da tosse, da covardia de morrer, da incompreensão do trabalho. O cinema é um hotel. Ao definir a poltrona, estou escolhendo um quarto.

Deixo o filme resolver o que estava desorganizado. O cinema segura o livro para mim. Não penso, pressiono o corpo no fundo da cadeira. O cinema tem o cheiro de mato, os cipós de centenas de sopros entrelaçados. Por um momento, sou amigo de todos que estão na sala. Respiramos juntos como uma orquestra. O violino abraça o violoncelo, a flauta avisa do perigo dos carros para o trombone. Os ouvidos vivem o suspense da caridade, a receber as moedas no chapéu.

O cinema me acalma, desde a bilheteria. O tapete vermelho como da casa antiga. Preso no chão como um lagarto, sou subornado a pássaro. Parto o pescoço para o alarido das imagens. E viajo acompanhado de minha mulher. Nenhuma ave viaja sozinha. Desde o primeiro beijo, eu não consigo ir ao cinema sozinho. Não suporto uma alegria sozinho. Uma incompetência ao escuro, o ombro de minha mulher é o abajur que busco em segredo.

Quando sou feliz, preciso me repartir. Escorar-me no rumor de água. Preciso de uma mão mais do que o braço da poltrona.

9:41 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 29, 2006

GRÁVIDO
Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Não sei como dizer isso: estou grávido de você. Talvez não descubra. Talvez nunca o veja. Mas o filho é seu. Em meu ventre. Ventre de homem que se esconde como uma pedra de rio. Nosso filho abrirá minha carne como um punhal verde e me fará buscar seus traços mais do que os meus. Daquela noite, fiquei grávido. Não nos falamos. O milagre de multiplicar sua ausência. Tive medo de sua reação e recusei contar. Não queria que permanecesse comigo pela criança. Não queria uma esmola e caridade. Não, se eu não fui grande o suficiente para ser seu amor, não aceito ser motivo menor de compaixão. Que me esqueça, não me recorde para fazer um favor. Não vivemos de favor, vivemos para pagar tudo o que imaginamos em silêncio.

Estou grávido de você. Mal contenho a expectativa de abraçar a criança como alguém que põe o casaco na cabeça para fugir da chuva. Ela chuta cada vez mais forte. Não pensava que minha pele fosse elástica o suficiente. Posso sentir os dedos dos pés se formando em cada golpe. Divido o meu prato, os meus dentes, os meus ossos com ela.

É esquisito descobrir que os homens também engravidam. Quantos geram seus filhos sozinhos, criam seus filhos sozinhos, seus filhos invisíveis que nascem da insistência de uma lembrança? Estou grávido de você. No futuro, talvez contarei a ele quem é sua mãe. Não hoje. Não me peça que seja hoje. Por enquanto, guardo o segredo com o zelo dos avós.

Não duvido que conclua que não é seu, e diga que é de outra mulher. Mais fácil deduzir que a engano. É mais confortável não se interessar, não mudar o turno do trabalho, não alterar as festas e as expectativas. Num parque, daqui a um tempo, observará uma criança loira rindo no vaivém do balanço e lembrará nitidamente de sua fome de ser empurrada alto. A mesma cova ao lado dos lábios. A desconfiança irá se sentar devagar. Perceberá que é seu filho e seguirá sua vida tentando negá-lo. Acredito no seu talento em me negar, porém faltará força para negá-lo. Negar aquela noite. O tremor das pernas caminhando paradas. O tremor dos braços nadando parados. A boca subindo e engolindo os próprios olhos. Tínhamos que repartir aquela noite com alguém e o filho desceu no desejo.

O rosto dos filhos puxam nossas carências. Nosso filho será a carência de você. É minha principal virtude, depender de você. Não tenho pressa, deixo que a luz abra minhas cartas. A cola seca e se desfaz em nove meses. Os amigos dirão que enlouqueci, não vão reparar na minha mão ocupada em levar a criança para a escola. Não há importância. Estou grávido de você. O filho existe em mim, existirá fora de mim, o filho imaginário que surge de uma perda, que se molda de uma incompreensão.

Sou pai de minhas dores. Sou pai alegre de minhas dores. Prometo cuidar do pequeno como cuidaria de você se permanecêssemos juntos depois daquela noite.

9:39 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 27, 2006



Consultório Poético não fecha em horário comercial. Leia coluna abaixo ou confira no site da Superinteressante.

QUERO ME LIVRAR DA VIRGINDADE
Desenho de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar




"ai, Fabrício;

Desde a pré-adolescência tenho problemas em aceitar quem eu sou, como sou, especialmente fisicamente; sou cheia de complexos. Tanto que aos 22 anos ainda sou virgem! E muito mal-resolvida quanto a isso. Tenho melhorado aos poucos minha auto-estima, mas, embora ainda não me sinta preparada, sinto urgência em perder minha virgindade, mesmo estando completamente sozinha (nunca tive um namorado). Tenho planos de me entregar para um desconhecido, para "resolver o problema", na crença de que só então poderia me envolver em algum relacionamento com alguma segurança. Porque morreria de vergonha de confessar para algum dos rapazes que hoje me interessam, caso rolasse algo entre a gente, a minha virgindade e inexperiência, pelo simples fato de já me conhecerem, serem do mesmo meio que eu. Sei que é doentio, mas prefiro esconder, "resolver" antes. Minha vida é uma eterna espera de um tornar-se apta, que nunca vem. Queria que fosse diferente, mas minha obsessão é como uma fatalidade. O que fazer?"


Teresa,

Com o fim da virgindade, diferente do homem, a mulher parece que perde a infância e uma parte de si. É um jogo cultural insignificante, uma disputa de poder inútil.

A virgindade é apenas um tabu, não faz a menor diferença quando se ama alguém. É de menos para os apaixonados, que saberão partilhar as experiências e conduzir a respiração ao seu ritmo natural. Seu medo é confessar? Mas confessar o quê? Não ter transado não é crime. Crime é fazer de conta que os sentimentos não pesam nas decisões.

Não diga nada, a vida precisa de mais capítulos e menos prefácios e explicações. Que a virgindade não seja escudo para afugentar ou precipitar relacionamentos. Que não seja um amuleto ou uma desvalia. Todos passaram por isso. Não faça dela uma oferenda e um ritual. Ela é e será sempre uma atriz coadjuvante (seu desejo é a atriz principal).

No calor de um namoro ou na queda das primeiras peças, não seja dramática e diga: sou virgem. Exagerar a importância intimida o homem, não traz intimidade. Não transfira a responsabilidade para ele. Tenta curtir e aproveitar a palpitação. É uma viagem pessoal. Só sua.

A virgindade não é uma doença para se curar. É uma etapa da formação da identidade. Dispense a noite perfeita, porém não abra mão de uma noite verdadeira com quem se importa contigo.

Não me entregaria para qualquer um. Não irá resolver seu problema. Se você quer se livrar logo da virgindade, está realizando o endeusamento do hímen. Sendo mais conservadora do que quem pretende se guardar para o casamento. Importa-se tanto com o que os outros pensam que não consulta seus próprios pensamentos. Sexo é bom, gostoso, mas depende de uma dose de carinho e outra de compreensão para libertar as fantasias. Um desconhecido pode aumentar seu complexo e retrair o gosto. A primeira transa é decisiva, envolvida de expectativa e apreensão. Não anulará o nervosismo cedendo para o primeiro que aparece. O nervosismo é até salutar, ajuda o corpo a aproveitar intensamente o peso de outro corpo.

A primeira vez talvez não seja a primeira transa. Conheço muitas mulheres que já transaram e continuam virgens. A primeira vez é o primeiro amor.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

5:33 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 23, 2006

O CANALHA ARREPENDIDO
Pintura de Amedeo Modigliani

Fabrício Carpinejar



O amor é sacana. Ninguém está imune. Ninguém confere certidão de casamento, de nascimento ou de óbito para se envolver. Vai virar o rosto para os compromissos. Não queremos nos apaixonar e nos apaixonamos. O cara não presta e seguimos em frente. Vimos que ela é interesseira e fechamos os ouvidos. Contrariamos os próprios conselhos porque o amor é sacana. Contrariamos as crenças porque o amor é sacana. O amor abre até as portas deitadas.

Acredito que existe o conto de fadas do canalha, versão adulta e pornô do Patinho Feio. A mulher percebe que o sujeito não é flor que se cheire, fala para todo mundo da aversão ao comportamento dele, um tanto machista e presunçoso. Nota que sai com diversas mulheres, uma em cada noite. É o típico homem que sofre da infidelidade congênita. O que ela faz? Era de se esperar que mantivesse distância. Entretanto, ela se apaixona. Não há vacina ao desejo, talvez o único remédio que o neutralize, mesmo que não cure completamente, são as pantufas. Pantufas grandes e hirsutas, histéricas e velhas, afugentam a sensualidade. É o contraponto ao excitante salto alto.

A mulher bebe do veneno para apressar a cura. É tomada de uma fúria santa, doida, inexplicável pelo canalha. A hostilidade atrai, inquieta, desestabiliza. Não, ela não deseja o canalha, é capaz de desejá-lo durante uns dias, pela vida inteira não. Aspira à conversão. Assume um misticismo sexual. Calcula uma saída à geometria de músculos e fúria, como se ele fosse um cavalo selvagem a ser contido pela sela. Confia que será diferente com ela.

Ela salvará o canalha. Ele foi canalha porque não a conheceu antes. Canalha Antes de Cristo. Já cogita casamento e filhos, uma casa com pátio ou um apartamento com varanda. Aposta alto com as armas que dispõe, o ciúme e a posse. Bate ainda um orgulho competitivo de mostrar às ex do canalha que conseguiu corrigi-lo. Só mulher entende esse duelo de memórias, essa vingança velada e implícita.

O canalha tampouco ambiciona ser viúvo de seus vícios. Espera receber alta, pode não conseguir, pode tentar e fracassar. Dorme pouco para não perder a chegada da paz de manhã. Espera uma paixão redentora para reaver a adolescência e voltar a sentir o tremor das pernas. Anseia superar a indiferença que o impele a dispensar as mulheres e abreviar os relacionamentos. Aguarda ter novamente a insegurança das palavras, o risco de ser magoado e magoar. O canalha está cansado de sua reputação, do esforço para manter a fama de cafajeste, da rotina de não se importar.

É difícil, é raro, duro de suportar, mas o maior amor, o amor mais leal e puro, pode vir de um canalha arrependido.

7:53 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 22, 2006

NA SEGUNDA

Miss Cultura faz sua estréia no ano nesta segunda (27/3), às 19h30, na Livraria-café Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 - Bom Fim Telefone 51 3268 4260 palavraria@palavraria.com.br). A entrada é franca.

Os escritores e missólogos literários Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha perguntam qual é a melhor obra de William Shakespeare. Rei Lear ou Hamlet? Otelo ou A Tempestade? A comédia dos erros ou A Megera domada?

O convidado especial que ajudará a responder a pergunta é o cineasta e escritor Jorge Furtado, que está lançando "Trabalhos de amor perdidos", narrativa inspirada no bardo inglês e que abre a coleção Devorando Shakespeare, da editora Objetiva.

O programa funciona como um "karaokê recital". A cada encontro, é possível assistir a interpretação dos enredos e fragmentos preferidos dos apresentadores sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o titulo consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

Jorge Furtado nasceu em Porto Alegre, em 1959. É cineasta premiado, diretor e roteirista de três longas (O Homem que Copiava, Meu tio matou um cara e Houve uma vez dois verões), diversos curtas e programas e séries para a TV, como Agosto, A Invenção do Brasil e Comédias da vida privada. É um dos sócios-fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre. Escreveu um livro de contos, Meu tio matou um cara (LPM), e participou da coletânea Tarja Preta (Objetiva).

9:52 PM :: Comentários:

DE SEXTA A DOMINGO

Sou um dos convidados do 1º Festival de Poesia de Goyaz, de 23 a 26 de março, na cidade de Goiás, Patrimônio da Humanidade, que vai reunir os mais importantes poetas e críticos literários do país, para discutir o lugar e a função do verso no mundo contemporâneo.

Com entrada franca, as atividades ocuparão o Cine Teatro, a Casa de Cora, o Palácio Conde dos Arcos, a Casa da Fundição, a universidade e o Colégio Lyceu de Goyaz.

Além de sessão de autógrafos do meu novo livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, crônicas), participo de mesa-redonda na sexta (24/3), às 16h30, ao lado de Carlito Azevedo e Affonso Romano de Sant'Anna, e conduzo oficina sobre as raízes da criação no sábado (25/3), às 9h30.

9:48 PM :: Comentários:


Terça-feira, Março 21, 2006

NÃO HÁ COMO VOLTAR ATRÁS,
MUITO MENOS IR PARA FRENTE

Pintura de Amedeo Modigliani

Fabrício Carpinejar




Nada mais vai nos interromper. Os telefones, os gritos da rua, as visitas batendo na porta. Nada mais vai nos interromper. O terror de dizer, o terror de não dizer. Nada mais vai nos interromper. Minha ausência de culpa, seu excesso de culpa. Nada mais vai nos interromper. Sua pressa em fugir, minha pressa em entrar, o fingimento que não é conosco. Nada mais vai nos interromper. As conversas dos amigos, os dialetos de vidro, os desvios da cintura. Nada mais vai nos interromper. Os conselhos da família, seu casamento, as reuniões de trabalho. Nada mais vai nos interromper. Seus gatos, meus cachorros, os pássaros que morreram no domingo. Nada mais vai nos interromper. Pode esconder os lábios, que eu dou a volta no quarteirão. Nada mais vai nos interromper. Sua timidez, minha coragem, as esmolas dos pombos. Nada mais vai nos interromper. Pode envelhecer, que eu cedo meu lugar, cedo minha vida pelo teu lugar. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que seja a hora, mesmo que não seja a hora, mesmo que a gente tenha nascido para ficar longe. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que seja uma relação proibida, um contrabando, saudade usada. Nada mais vai nos interromper. Haverá unhas, haverá pele, haverá um jeito de escrever escondido e marcar um encontro. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que tenha que voltar ao início da fila. Nada mais vai nos interromper. As crianças, o trânsito, a falta de convicção. Nada mais vai nos interromper. Estamos tão rentes que recuar é ainda se tocar. Nada mais vai nos interromper. Sua respiração é como uma palavra indecisa. Nada mais vai nos interromper. A escama das lâmpadas, o gorjeio sofrido das árvores, a esperança da mentira. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que a gente desista, a gente se cale, a gente deixe de comparecer. Nada mais vai nos interromper. O orgulho, o preconceito, o capricho das roupas separadas. Nada mais vai nos interromper. Errar a música de ouvido, o instinto de se preservar, o arrependimento. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que um só ajude o outro a se perder. Nada mais vai nos interromper. Estar a favor de Deus, estar contra Deus, ajoelhar-se como um barco a seco. Nada mais vai nos interromper. Nossa falta de grana, os telhados das igrejas, o vestido branco. Nada mais vai nos interromper. Os despojos do dilúvio, os talheres tortos, os sapatos tontos na janela. Nada mais vai nos interromper. Pecar distrações, pescar desaforos, penhorar os anéis. Nada mais vai nos interromper. Contar segredos, guardar segredos, o degredo. Nada mais vai nos interromper. Seu corpo é meu corpo regressando. Nada mais vai nos interromper. Seu corpo é meu corpo partindo. Nada mais vai nos interromper. A leveza que some antes de entender, a letra que germina antes de rastejar, a crueldade da infância. Nada mais vai nos interromper. O desequilíbrio, o sarcasmo, a ânsia de fechar o livro. Nada mais vai nos interromper. As casas mal-assombradas, os barulhos dos becos, as bicicletas acorrentadas. Nada mais vai nos interromper. As cadeiras sobre a mesa, a denúncia, a fofoca. Nada mais vai nos interromper. Se é certo fazer, se é errado fazer, se é justo acreditar. Nada mais vai nos interromper. A educação, o sentido, o semáforo. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que não tenhamos provas de que houve alguma coisa, mesmo que o vento seja insinuação de chuva, mesmo que as pálpebras da água não substituam as nossas. Nada mais vai nos interromper. Mesmo que seja aconselhável a amizade, mesmo que seja aconselhável esquecer, mesmo que seja aconselhável não mudar. Nada mais vai nos interromper. Nem a nossa própria resistência em aceitar que seremos para sempre esquisitos depois de nosso amor.

6:52 PM :: Comentários:


Domingo, Março 19, 2006

RESSACA DA VISIBILIDADE
Pintura de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar



Não sei se vocês vivem o mesmo. Eu vivo comparando vidas para definir se é minha tão estranha como penso. Não é não, é tão estranha quanto qualquer vida. Viver é acumular desconfiança que seríamos diferentes se não fossem nossas escolhas. Mas não mudaríamos a personalidade qualquer que seja a decisão. O que nos atormenta por dentro é imutável e não se rebaixa a adaptações.

Quando vou a festas, volto esvaziado. Quando vou a lançamentos, volto esvaziado. Quando viajo, volto esvaziado. Dormir em hotel e não arrumar a cama é o equivalente a nunca acordar. Perco meus segredos ao ficar exposto em demasia, conversar em demasia, dar opiniões em demasia. Vendi meus segredos para obter aceitação ou me manter atento e não há como reavê-los. Disse o que ainda nem pensei para dizer. Disse o que não concordo, e agora - azar - a frase é minha.

É o que chamo de ressaca da visibilidade, mais teimosa e dolorida do que a enxaqueca do excesso de bebida. É uma ressaca da insuficiência amorosa. Uma ressaca de que não presto, de que não sou importante. Uma ressaca que me põe de novo a nascer deserdado, a recomeçar do nada, sem ego e vaidade, sem a compaixão dos defeitos. Ainda que incomode, recuso amputar essa retração, que me despoja do orgulho e me violenta com restrições, que me agride e exige pudor, que me devassa e reivindica timidez, que me censura e me impele a reescrever.

Gosto da badalação, sair com amigos, dançar, mas há um limite. O limite é minha tristeza incurável, uma tristeza de rosto que pode ser confundida com cansaço e que aparece pedindo mesada em público. Meu rosto é triste, os olhos são caídos e a boca pequena. Tenho que fazer o dobro do esforço para que meus traços naturalmente melancólicos encontrem linhas alegres. A feição me contraria. Não consigo passar todo o tempo em movimento, no convívio aberto, dependo de momentos de isolamento, de paz e de incertezas para não me viciar nos cadarços.

Minha ânsia é voltar para casa correndo, fechar o quarto, pedir colo para a minha mulher ou meus filhos, e reequilibrar o silêncio. Eu me descubro roubado quando digo mais do que precisava, confesso mais do que podia. Apesar da confiança e da segurança aparentes, mal sabem o terror que me consome entre as palavras. As palavras são sempre rápidas para quem ouve e lentas para quem fala.

10:23 AM :: Comentários:


Sábado, Março 18, 2006

PRECONCEITO COM BLOGS
Imagem de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



Hoje saiu crítica na Folha de São Paulo (leia abaixo) sobre meu novo livro, O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR (Bertrand Brasil). Marcelo Pen não gostou, respeito sua opinião. Mas o que me espantou foi a sua postura, não a crítica negativa. Vejo que o fato de escrever para a internet não é visto com bons olhos. Em certo momento do texto, diz: "Até um passado bem recente as crônicas estiveram intrinsecamente ligadas aos jornais e revistas em que saíam antes de serem reunidas em livros". Parece que se tivesse publicado as crônicas em grandes jornais estaria perdoado. Não é estranho? Ele comenta que me desvio da reflexão sobre o cotidiano. Falar do tampo de vidro do fogão, de brinquedos quebrados, de copos partidos, da corrupção no amor, das delicadezas dos relacionamentos, do gemido ao comer queijo com goiabada, das dificuldades maternas, da beleza de uma mulher dormindo não são temas do cotidiano? Desculpe, eu me sinto um alienígena. Ele comenta ainda que escrevo obviedades, como: "Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus" ou "solidão não é prejudicial à saúde". Não me arrependo de nenhuma das duas frases. O amor é uma obviedade que precisarei a vida inteira. Ressalta que dou conselhos morais, a exemplo de "Não falem mal do ex ou da ex na frente da criança". Não sou desprovido de moral, o que considero uma virtude, e o que sofri quero alertar para que os outros não sofram da mesma forma.

Por que acontece esse preconceito com os textos na internet? Marcelo Pen deixa de criticar o autor para criticar os leitores do blog. Vocês. Acredita que vocês não podem ser inteligentes, não podem ser sensíveis, que não têm capacidade de discernimento, que aceitam qualquer coisa. Tudo o que sempre tentei mostrar que é errado. Novamente o leitor é posto no banco de réus. Por Deus, não aceitem isso.


Folha de São Paulo, Ilustrada
São Paulo, sábado, 18 de março de 2006

OBRAS EMULAM LINGUAGEM DA WEB

MARCELO PEN
CRÍTICO DA FOLHA

Um fenômeno de dupla face, relacionado à produção e recepção de textos pela internet, vem afetando as esferas da criação e da autoria no cenário das letras.

Faz algum tempo nossos novos e nem tão novos autores resolveram investir nos blogs, onde colocam biografia, bibliografia, idéias e textos. Alguns, a exemplo do gaúcho Carpinejar, fazem a ponte entre a via eletrônica e a impressa, publicando livros com base nos textos dos blogs, como "O Amor Esquece de Começar". Carpinejar chama suas pequenas criações em prosa de "crônicas". Até um passado bem recente as crônicas estiveram intrinsecamente ligadas aos jornais e revistas em que saíam antes de serem reunidas em livros.

Quanto aos planos da forma e do conteúdo, as coisas são mais complexas. A crônica sempre foi palco bastante livre, em que cabem comentários sobre o dia, notas filosóficas, diálogos dramáticos, anedotas etc. Diante dessa força centrífuga, os textos de Carpinejar de fato são crônicas.

Em consonância com a característica pessoal dos blogs que as suscitaram, porém, essas crônicas se afastam de sua origem histórica, desviando-se da reflexão sobre o cotidiano. Andam num campo mais rarefeito, deitando a opinião do autor sobre tópicos universais como o amor, o desejo, a solidão.

As frases se pautam por esse caráter de definição geral, às vezes resvalando para a platitude: "Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus", "solidão não é prejudicial à saúde". Quando não se voltam para o aconselhamento moral: "Não falem mal do ex ou da ex na frente da criança". Os internautas parecem gostar desse tipo de abordagem, tanto que prestigiam não só os blogs quanto as colunas em sites de relacionamentos, como a da escritora Martha Medeiros.

Mas, como no reino difuso da web nem tudo é o que parece ser, Martha é vítima de ladrões de textos, que os surrupiam e os veiculam sob alcunha alheia, como mostra "Caiu na Rede", de Cora Rónai. Martha tem textos seus atribuídos a Mario Quintana, Arnaldo Jabor e Luis Fernando Verissimo. O último parece ser o campeão de textos difundidos com seu nome. A lógica está em imputar a um autor mais conhecido frutos de seara bem diversa.

Não há nada de novo na polêmica da autenticidade autoral. No Renascimento, discípulos pintavam obras imitando o estilo do mestre. O problema, hoje, está na ignorância que, dentro da democracia desgovernada da rede mundial, promove a confusão de alhos com bugalhos, ou de comunitário com rebotalho.

O Amor Esquece de Começar
Autor: Carpinejar
Editora: Bertrand Brasil
Quanto: R$ 35 (288 págs.)
* *

Caiu na Rede
Autor: Cora Rónai
Editora: Agir
Quanto: R$ 24,90 (128 págs.)
* *

10:24 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 13, 2006

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

Passarei a semana fora. Deixei uma série de crônicas para prolongar o convívio. Quem estiver em São Paulo pode me encontrar na quinta (16/3), às 19h, na Livraria da Vila. Autografo meu primeiro livro de crônicas, O Amor Esquece de Começar. A obra não sairia sem o blog, sem esse aprendizado que dura 37 meses e cinco dias.

Já ouvi muita gente comentar que a crônica é um gênero menor. Concordo, é um gênero menor, não quer a grandeza para si, quer deixar toda a grandeza para o leitor.



CONVITE DE LANÇAMENTO: O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR
Bertrand Brasil, crônicas, 2006

Autor: Fabrício Carpinejar
Debate com Ivana Arruda Leite e João Carrascoza
Leitura de textos e música com Fernando Chuí e Denise Silveira

Quando: quinta (16/3), a partir das 19h
Onde: Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), Vila Madalena, São Paulo

12:50 AM :: Comentários:

AMADA ANA,
Desenho de Amedeo Modigliani

Fabrício Carpinejar



Nasci de uma saudade longa de você. Estar contigo é só aumentá-la. E nem quero adoecer de outra maneira.

Se estar contigo é apressar o fim, nunca estive tão à vontade longe de meu nascimento.

Gosto de pegar seu nome no ar antes de estourar, de segurar suas calças pelos bolsos e de trançar suas mechas nos ouvidos. Você fala comigo olhando nos olhos, abaixo meus olhos de pudor, nunca fui tão olhado. A respiração me encoraja a correr para sua boca e interromper seu olhar, não sei olhar nos seus olhos enquanto fala comigo. Não é covardia, é falta de jeito. Prefiro subir pelas escadas em seu corpo.

Seria melhor não escrever do que usar a desculpa da ficção quando falho na vida. Responsabilizar-se por cada uma das palavras, conhecendo de antemão quantos gramas pesa na língua. Não dizer o que não acredito, não comprar no idioma o que não preciso, não invejar o que não tenho. Seria melhor não escrever do que passar a imagem de marido perfeito, pai perfeito, amigo fiel. Só você sabe o que sou! Invento, projeto, falsifico, me completo com o que escuto e falo com o que posso ouvir.
Até eu me apaixonaria por mim se não me conhecesse. Mas vivo desmarcando encontros comigo. Se eu for chato, insistente, vaidoso, ambicioso? Como dar o fora em mim?

Sou incompetente para tanta coisa que muitas vezes nem começo para não entregar minha incompetência.

É mais fácil perdoar um escritor - ele se defende com folga, é articulado, inverte os papéis, mas não significa que não cometeu erros da mesma forma daquele que não tem palavras.

Peço desculpa por pensar que a literatura é suficiente, não é, nunca vai ser, uma noite saímos dela e não teremos exemplares para nos justificar e não teremos leitores para nos confortar e seremos tão-somente o que vivemos, o magro pão dormido e a manteiga do sol.

Terei que sair do livro e esperá-la do outro lado da rua. Terei que ser mais do que uma frase bonita e um par de mãos para esconder sua fragilidade. Terei que ser verdadeiro.

Eu não consegui inventá-la, você desobedeceu o autor e sumiu com o final do livro. Eu não consegui inventá-la, podia apenas descobri-la.

Será que depois de morto ainda enfrentarei pesadelos? Até que a morte nos separe é muito pouco para mim. Preciso de você por mais de uma vida.

12:46 AM :: Comentários:

MEU AMOR EM NÚMEROS QUEBRADOS
Desenho de Paula Modersohn-Becker

Fabrício Carpinejar



Com o início de namoro ou com filho pequeno, contamos os meses. Comemora-se a convivência a prestações. Não deixamos de nos surpreender e festejar a permanência de alguém novo em nossa vida.

É complicado localizar quando esfriamos o encantamento. Por preguiça no raciocínio matemático ou por acatar o senso comum, desistimos de aniversariar o amor diariamente.

Até os dois anos da criança, conta-se a idade dela desse jeito. Quando ela junta os dedos, a data se dilata para a distância dos anos e nunca mais os números quebrados, longos e definitivos. Eu fico emocionado ao ouvir uma mãe e um pai, neste período, a soletrar a idade inacabada do filho. O cuidado em ser preciso, exato, a preocupação ligeira em mostrar o quanto o nascimento não é esquecido, nem por 24 horas. Posso descobrir o mês do aniversário e, com sorte, o signo da criança. Nenhum dia parece em vão, nenhum dia é descartado.

De modo semelhante, no namoro, o casal se deslumbra em repetir a descrição de como se encontrou. Entra em falência com mimos e lembranças dados. Não se importa em exagerar, descobrir afinidades e propor jogos e enigmas. Todo mês os namorados reafirmam que estão juntos, não cansam de jurar fidelidade e perguntar, perguntar, perguntar o que um sente pelo outro. Não que não saibam, mas é reconfortante ouvir de novo. Ouvir o que se gosta até assobiar a melodia e misturar a letra com algumas recordações.

O casamento deveria ser refeito mensalmente. Não fechar para balanço, não ser encerrado em um número inteiro. Que pudesse ser sempre insuficiente, inseguro, para que não perdêssemos a atenção um minuto sequer e cuidássemos para que ele sobreviva ao nosso lado. Sem folga, sem compensação, sem demora.

Aceito férias no intervalo de um ano, aceito décimo terceiro no intervalo de um ano, mas esperar tanto tempo para comemorar o aniversário de um amor é injusto. Que a soma seja diferente, não dizer mais que o casamento tem dez anos, mas 120 meses. E, se possível, contem os dias, as horas, entortem o bigode do relógio, virem as pálpebras pelo avesso.

Se sofremos quando não declaramos o que nos incomoda, sofreremos o dobro se não declararmos o que nos alegra. Merecemos aprender a contar os dias em que estamos livres, ao invés de enumerar com uma cruz os dias em que estamos presos.

12:45 AM :: Comentários:


Domingo, Março 12, 2006

SEU HOMEM ESTÁ TRAINDO QUANDO...
Pintura de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



¿ Ultrapassa a cota de cinco borrifadas do perfume na hora de sair.
¿ Compra cuecas novas. Nunca tinha feito isso.
¿ Muda o estilo do guarda-roupa.
¿ Preocupa-se com o peitoral, a circunferência dos braços e se inscreve na musculação.
¿ Vai ao cinema sozinho.
¿ Come salada.
¿ Arruma reuniões nos horários mais estapafúrdios.
¿ Deixa o celular no silencioso em casa.
¿ Deixa o celular desligado fora de casa.
¿ Ë mais carinhoso com você. A culpa enternece.
¿ Pergunta subitamente pela sua mãe.
¿ Não descrê da TPM, de sua dor-de-cabeça e até alcança o analgésico.
¿ Todos os amigos dele repetem a mesma história, antes de qualquer pergunta.
¿ Os canhotos dos cheques aparecem em branco.
¿ Concorda com uma incrível rapidez de raciocínio.
¿ Passa mais tempo apagando mensagens do que escrevendo.
¿ Sempre confere a aliança para ver se não a esqueceu em outro lugar.
¿ Tem medo da curiosidade dos garçons.
¿ Muda de rua para fugir de conhecidos.
¿ Janta pela segunda vez.
¿ Desiste de assistir futebol ou de jogar com os amigos.
¿ Toma banho logo ao chegar.
¿ É viciado em pastilhas fortes.
¿ Aparece com brincadeiras eróticas novas.
¿ Fica estranho quando recebe telefonemas por engano.
¿ Compra presentes e acaba em dúvida para quem deu.
¿ Comenta mais sobre a infância.
¿ Abraça os filhos como se fosse uma despedida.
¿ Transforma os espelhos da casa em retrovisor de carro.
¿ Volta a se preocupar com o tamanho do pênis.
¿ Aluga filmes para devolvê-los com três diárias atrasadas.
¿ Comenta assuntos que já foram conversados cinco minutos atrás.
¿ Fornece detalhes desnecessários.
¿ Telefona mais vezes seguidas para despistar.
¿ Troca a chave da caixa do correio para pegar rapidamente as contas.
¿ Abdica dos pijamas e abrigos velhos.
¿ Separa as roupas antigas para a campanha de agasalho.
¿ Seus cremes estranhamente terminam mais rápido.
¿ Pede vinhos com o ano da safra em restaurantes.
¿ Acredita que toda roupa que usa é nova e elogia pela quarta vez consecutiva em um único dia.
¿ Cai o rendimento dele no trabalho.
¿ Sonega as despesas, antes não deixava de relatar os absurdos e os abusos.
¿ Esquece que é ano eleitoral ou de Copa do Mundo.


6:56 PM :: Comentários:

EX-TÍMIDO?
Pintura de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



Eu sou tímido. Não, fui tímido. Não sei como alguém pode deixar de ser. Mas já posso me considerar um ex-tímido, desde que exclua o aniversário, momento em que a retração volta com a intensidade da infância. É um disparate um tímido dizer que é tímido. Quem realmente é tímido tem vergonha de contar. Não considera a característica uma virtude, mas um defeito. A maioria confessa que é tímido por charme, a sinalizar reserva e pudor. Timidez mesmo dói e faz doer. É uma solidão inteligente.

Na minha infância, eu falava errado, com graves problemas de dicção. Trocava o erre pelo l. Ainda sofro efeitos colaterais do período. Não consigo dizer palavras com f e l juntos. Não aceito o casamento do f e do l, vivo tentando separá-los. Vou buscar um substituto. O fato de falar errado ampliou minha cultura. Procurei sinônimos para substituir vocábulos suicidas. O dicionário foi meu confidente. Eu deveria ter terminado a fonoaudiologia. Quando descobri que minha fonoaudióloga era casada, não me recuperei da decepção amorosa. Eu a amava verdadeiramente, ainda que tivesse somente oito anos.

A dificuldade de expressão e a fealdade me inspiraram à prática da timidez. Ficava vermelho quando era elogiado ou criticado. Ao ouvir meu nome numa conversa, tinha a intenção de sair correndo. Como não ser tímido sendo chamado de Frankenstein, Drácula, Jason e Freddy Krueger? Eu era todas as fantasias do Dia das Bruxas.

Com as paixões, redigia cartas de amor antes de iniciar a aproximação. É óbvio que não me declarava, nunca me declarei. O tímido não se declara, se denuncia.

O tímido goza de uma vantagem: ele ensaia seus atos com antecedência. Testa várias possibilidades de abordagem para escolher uma. Ele ouve com mais atenção do que um expansivo, que sai falando pelos cotovelos e não dá chance. O tímido planeja as atitudes com receio do fiasco. Ao mesmo tempo, ele terá humildade para aceitar opiniões diferentes da sua. O sofrimento ensina a autocrítica. O tímido tem um humor refinado, não vai provocar a gargalhada fácil, mas é um perito da ironia e do sarcasmo. Guarda um humor desesperado e caseiro.

O tímido pensa que vai incomodar, e não fala. Pensa que vai atrapalhar, e recua. O tímido conspira contra seu nascimento. Ele deseja a invisibilidade, mas odeia ser desprezado. O tímido ama por constrangimentos. O tímido pensa na hora, entretanto, a tremenda negociação consigo o atrasa.

Eu enfrento minha timidez porque criei um personagem para falar em meu lugar. Este personagem é o escritor. Um amigo imaginário, dublê nas situações de perigo de linguagem. Assim como o gago muda a voz e engana a gagueira, brinco de ser outro. Uso um timbre diferente em público. Logo ataco para não me defender. Quando jogo na retranca, levo goleada.

Meu único zagueiro hoje em dia é o goleiro.

6:54 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 10, 2006



Consultório Poético segue de janelas abertas para os vizinhos. Leia coluna abaixo ou confira no site da Superinteressante.



MULHER MAIS VELHA E COM A OPOSIÇÃO DO PAI
Imagem de Peter Blake
Consultório Poético

Fabrício Carpinejar



"Fabrício, queria lhe contar minha história. Experimento um dilema em minha vida, tenho 22 anos e namoro há 2 com uma mulher mais velha que eu. Ela vai fazer 31 e meu pai é contra o meu namoro. Ele não pode me ver com ela. Estou profundamente apaixonado por ela, quase sempre parece perfeita, faz tudo que eu quero, e parece adivinhar meus pensamentos. Mas meu namoro com ela está se tornando monótono, não pode ir em minha casa, e quando vamos sair tenho que ter certeza que meu pai não está me vigiando. Muitas vezes, no começo, meu pai dizia para terminar com ela ou sair de casa. Sabia que eu não tinha condições para tomar essa decisão. Agora estou em um bom emprego e venho acabando de pagar minha moto. Terei condições de me sustentar, mas não sei o que fazer. No final do ano passado tivemos uma briga e ficamos algumas semanas sem nos ver, sofri muito nessa época, mas meu pai se demonstrava feliz em saber que eu não estava com ela. Desde que voltamos, ainda não percebeu e me trata muito bem. Por outro lado, tenho o apoio total da minha mãe e é o que me da forças para seguir com o namoro. No último domingo brigamos e estou sem ver ela há dois dias, isso parece muito para mim já que nos víamos praticamente todos os dias. Fabrício, desde que comecei a namorar com ela parei de sair com meus pais, e agora ele quer saber por que eu não saio com eles já que estou sozinho. Não tiro a razão dele pois se for pensar a longo prazo, se ficarmos juntos quando eu estiver com 32 anos ela já vai estar com 41, e é uma diferença considerável, tendo em vista que hoje somos jovens e ela não aparenta ter a idade que tem. O tempo não será bom para ela para sempre, já não sei o que faço, minha vida é uma tremenda incógnita, e essa situação começou a atrapalhar minha vida, já não tenho mais a mesma concentração que tinha antes. Amigo, me dê uma solução para o dilema, me ajude, o que devo fazer, seguir os conselhos do meu pai ou ouvir meu coração? Sou estudante, pretendo continuar meus estudos e fazer faculdade, o que iria ser difícil se eu não morasse na casa de meus pais, agradeço desde já sua orientação e aguardo sua ajuda."

Marcelo, não vejo problema em namorar uma mulher mais velha. Quando estiveres com 42, ela estará com 51. A diferença está em tua concepção de mundo. A proibição não vem do lado paterno, mas da restrição que estranhamente aceitou. Na realidade, o que vinga é a intensidade do envolvimento e ninguém de fora saberá avaliar.

As aparências não duram na intimidade. Eu verei minha mulher de um jeito mais absoluto do que o espelho. Estarei com 80 anos e ela com 84 e a reconhecerei com o rosto da primeira vez em que a vi. O que sustenta o corpo de quem amamos é a vontade de tocá-lo.

Velhice é se conformar cedo, é a covardia de não ousar. Sua velhice está acontecendo agora, quando poda suas convicções e barateia a liberdade.

A relação está monótona pois não permite que se vejam, que se encontrem. O tédio é a distância. É você que deve liberar a aproximação irrestrita, não impondo hora marcada e consultas prévias. A vontade de se apaixonar é maior do que os esconderijos. Nenhum relacionamento dará certo sem a entrega absoluta de ambos os lados. Pensa demais no futuro e estraga o caminho até ele. A relação pode durar dois anos ou cinqüenta, não importa o tempo do desejo, a largura do desejo, e sim a altura em que ele alcança ardendo.

Com uma possível separação, tem medo de que o pai diga: "eu tinha razão"? O que é a razão quando se tem desejo?

Há amores que nos ensinam a voar, há amores que nos ensinam a rastejar. Nas duas formas, estaremos avançando.

Fala o que pode perder, o conforto familiar, a segurança, a confiança paterna. Deve cogitar, entretanto, o que pode ganhar com ela. A leitura de seus pensamentos, o ânimo de voltar para casa, a cumplicidade sexual, a capacidade de reconhecer a alegria apenas com a audição.

Só podemos escolher se nos sentimos antes escolhidos. Ela o escolheu e espera sua contrapartida. Não pede paciência a ela, vem abusando e exige caridade. Já tentou enxergar como ela está se sentindo? Desprezada, inferiorizada pela sua família, acreditando que é a pessoa errada para freqüentar sua residência, que não o merece?

Não deixe que o preconceito resuma sua vida. Ficar com ela não significa renúncia a carreira ou aos estudos. Será mais difícil, mas não impossível. Aquilo que julgamos impossível nada mais é do que incompreensão. Compreendemos errado e desistimos cedo. No amor, a única paternidade que existe é a do coração. Somos apressados porque ele bate rápido.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

3:23 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 09, 2006

RODRIGO E MIGUEL
Pintura de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



Não sou eu a me levantar da cama. Na infância, meus dois irmãos dormiam no mesmo quarto. Conversas intermináveis antes de apagar a luz. Uma de nossas competições favoritas era acertar as cores das camisas dos times de futebol. A brincadeira acabava quando alguém dormia em plena resposta.

Sempre que me acordo, sou três irmãos. Eles me ajudavam a vencer a sonolência, o que significa que também sofria com maquiagem noturnas. Já fui desperto com xampu na cabeça, pasta de dente na cara, minâncora no sovaco. Não precisei de internato, meu quarto tinha a algazarra de um refeitório. No momento do castigo, todos assumiam a culpa e desbaratávamos os pais, que teriam que colocar o trio no ferrolho ou ninguém. De modo nenhum, havia delação. O amor não suportava covardia.

Ter irmãos é nunca se enxergar isolado. Minha solidão é impossível. Guardo a sensação perpétua da companhia, da escolta secreta, da proteção silenciosa. Eu não consigo chorar desde esse tempo - mal começava a resmungar e os irmãos ameaçavam derrubar o beliche em mim, pulando no colchão de cima.

As confissões foram divididas. Quando um precisava sair de noite, ficávamos montando guarda militar para enganar os pais. É evidente que não pregávamos os olhos de preocupação até o irmão pródigo retornar. De manhã, na aula, a cabeça escorregava na classe de desânimo.

Mesmo adulto e casado, mesmo com filhos, escuto as vozes de meus irmãos pela casa. Não, eles não estão mortos, a maioria dos fantasmas permanece vivo, acontecendo simultaneamente em diferentes idades.

Suas vozes infantis não deixam meu corredor no escuro. Ao acordar, acendo o interruptor e percebo que não canso de depender deles. Daquela infância simples, em que não se pedia licença para falar, em que se confiava naturalmente. Não se jantava sozinho. A televisão parava em um único canal. A geladeira tinha creme de abacate. O pátio estava cheio de laranjas no chão para chutar

Irmãos superam os amigos imaginários. Nenhuma invenção vai reproduzir igual fidelidade e apego. Não importam a distância, a falta de contato, diferenças de opinião depois. Não preciso me ver pequeno para me reencontrar. Eles conhecem o que fui desde o começo, e podem me lembrar do que ainda posso ser.

11:32 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 07, 2006

MINHA FILHA COMIGO
Inédito
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Quando te levava para a escola, a pé,
com a mochila em uma mão e a merenda noutra,
segurava sua mãozinha com um único dedo.

O dedo como uma corda de pipa,
como pulseira de prancha,
como pequena folha de alface ao pássaro.

Não te puxei pelos cabelos.
Não te puxei pela gola da camisa.
Não te puxei pelos orelhas.

Te deixei mais ir do que vir.
Não dependo de toda a mão para te manter perto de mim.
Me dá a chance de falar e eu te protejo.

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de "Como no céu/Livro de Visitas" (Bertrand Brasil) e do infantil "Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa" (Alaúde).

Poema publicado na Folha de São Paulo, caderno Folhinha, sábado (4/3)

10:31 PM :: Comentários:

MÁQUINA DO MUNDO

A poesia morde o próprio rabo. Ninguém pediu para ter tanta elasticidade!

É circular, provocadora, gosta de ficar à espreita para atacar. Recusa dublê, suborno, capricho cênico. Troca de pele no meio da peça, em segundos. Autêntica, debochada, não vai esperar ninguém virar as costas para falar mal. Olhará de frente a sua vítima, gingará, acenderá o cigarro na primeira pedra, lamberá o fogo, a chuva, o vento antes de soltar o veneno. Ela se esconde na linguagem para dar o bote. É lenta em segredo para ser rápida e letal em público. Quando se pensa que não disse nada, resume uma vida. Quando se pensa que acabou, continua a dizer. Frustra as expectativas porque faz melhor do que elas. É serpente na grama.

Máquina do Mundo entra em sua nova edição. Envenenada.

A prescrição médica é de William Carlos Williams (traduzido por José Paulo Paes), em "Uma espécie de canção":

"Que a cobra fique à espera sob
suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir."

A insônia do céu ou do inferno nos espera.

10:29 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 06, 2006

NA HORA DE DIZER A VERDADE
Arte de Maria Tomaselli, da série "Viagem de Caminhão"

Fabrício Carpinejar



A verdade engasga, sempre engasga, principalmente com os bem-intencionados.

Já passei por vários constrangimentos em que fui perguntado e era simples declarar a verdade, simples como alcançar o sal, o azeite e o vinagre, mas tomei o caminho difícil da mentira. Tinha a verdade na ponta da língua, latejando, batendo na porta, gritando, duas palavras se abraçando e estaria solta, e recuei.

Pavor de ser cobrado, pavor de não ser compreendido, pavor de ser questionado, pavor de frustrar, pavor de machucar e de ser machucado. Pavores infantis se reúnem na boca para bloqueá-la.

Tudo estaria resolvido com "eu errei, desculpa". Ou "sinto muito, tentarei ser mais atento". Um depoimento singelo e ridículo inibiria o sofrimento. Mas o orgulho não deixa, não permite desistências e arrependimentos.

A verdade não decola e inventa-se uma história inacreditável, para pôr em seu lugar. Fala-se qualquer coisa, a justificar o impossível. Expressões saem rudes, martelando o prego em todas as direções, pouco se importando com a idoneidade das paredes. O rubor da face não esconde a vergonha. Azia da covardia: engole-se o cuspe de volta.

Complica-se o que seria fácil. A intenção era contar... Só que uma pergunta de supetão, um comentário malicioso, as mãos tensas do interlocutor, e nos defendemos, fingindo desconhecimento do assunto. Mudam-se os planos e não se avisa o inconsciente.

Outras mentiras virão a partir da primeira mentira. Uma pior do que a outra exigindo novas mentiras. A farsa tende a se agravar, abrindo mais brechas e pontos fracos e inverossímeis para ser desmascarada.

Não se cochila com a culpa, experimenta-se uma falta de vontade. O comportamento expansivo transforma-se em fobia. Evita-se de falar com a pessoa que a verdade estaria sendo destinada. Muda-se de rua e de agenda para não encontrá-la. Um pânico é urdido em segredo e unicamente se trabalha para ele. Projetam-se cenas imaginárias para desabafar e se libertar do erro. A vida se torna um filme de cenas cortadas e censuradas.

A verdade envergonha. Disposto a expor que não ama mais sua mulher, no instante da revelação, ela se antecipa e confessa que nunca esteve tão feliz. É evidente que fechará a garganta com cimento e deixará a hera crescer à vontade. Ou quando está preste a deslindar seu amor e ela comenta que está interessado pelo seu melhor amigo. Vontade de cortar o beiço e vender a granel.

A verdade humilha. Para fugir dela, jura-se pelos amigos, familiares, por Deus e por tantos santos para convencer da mentira. É uma persuasão sem caráter, desesperada. Não haveria problema de jurar por si, porém não é suficiente. Mente-se pelo bairro inteiro para escapar da responsabilidade. Aquela declaração sincera que não aconteceu se converte em um seqüestro. Além da ausência de franqueza, será preciso explicar o fato de botar tanta gente jurada em risco.

A verdade intimida no emprego, nas relações amorosas, na amizade. Se o chefe pergunta se realizou uma tarefa, diz que sim, mesmo não tendo feito e passará a maior parte das horas apagando as pistas de sua ineficiência. Se a namorada pergunta sobre uma atração, alega que não existe, é loucura dela, e deixa para um dia contar.

Esse dia não chegará. Adiada a verdade num momento é quase impossível reeditá-la. Fica mais nervoso e trepidante voltar atrás. Como explicar que se é honesto agora se não foi antes?

A honestidade não nasce duas vezes.

1:20 PM :: Comentários:

OFÍDIO DE ESCRITOR

Fabrício Carpinejar



O escritor não é um ser de exceção, fora de série. Não representa um semideus. Empurra o carrinho de supermercado como qualquer um. Por ser tão prosaico é capaz de observar a normalidade de um jeito especial, de se importar com a banalidade e se identificar com o que é descartado.

Escrever é um trabalho solitário, mas a solidão não pode ser blindada pela arrogância. Deve ser uma solidão generosa, que abre sua varanda para as dúvidas, inquietações, diferenças e perplexidades de seus contemporâneos.

Infelizmente a mistificação e a autosuficiência consolidaram o equívoco de que o escritor não depende de mais ninguém, a não ser do talento e da inspiração. E não bastam as críticas para avisar de caminhos possíveis. As resenhas desfavoráveis são classificadas de mal-intencionadas. As positivas reforçam o narcisismo. A impressão é que o escritor nasce pronto e fechado. Na verdade, não ambiciona nem o elogio, e sim a bajulação.

Percebo uma passionalidade no meio autoral. Ou estão comigo ou contra mim. Não se encontra rua intermediária entre adesão e aversão. Faltam equilíbrio, humor e autocrítica, sobram pose e sectarismo. O escritor não consegue imaginar o leitor refugando seu livro. Até imagina, mas não suporta a idéia de não ser um futuro clássico. Não agüenta a hipótese de não ser lido simplesmente por não dar prazer, o que é uma justificava e tanto. Botou na cabeça que a unanimidade o espera. Adota uma postura extremista e autoritária. Confunde leitura obrigatória com leitura obrigada. Quem não gosta do que ele escreve é naturalmente um inimigo. Quem gosta é um aliado.

Ao constatar resistência ao seu nome, o escritor insinua boicote e perseguição. Culpa a distribuição e a editora, não se envergonha de remanejar seu livro para a gôndola mais visível. Quando não recebe um prêmio, logo pensa que é um injustiçado, que o júri foi comprado, que é um jogo de cartas marcadas, que só funciona o lobby.

Uma tática para se proteger do confronto e do julgamento é avisar que somente o tempo definirá o valor do que se escreve. Ora, não dá para ficar calado até lá, durante no mínimo meio século.

Se o escritor entra na lista dos mais vendidos, é acusado pelos seus colegas de facilitar o trabalho, de piorar seu conteúdo e sua forma de expressão. Recebe a tarja de auto-ajuda, independente do gênero de sua publicação. Pena que a inveja não mata, seria muito mais fácil e um eficiente controle de natalidade na literatura.

A imagem de artista incompreendido e marginal ainda persiste e provoca sucesso nos coquetéis. Os escritores aceitos pela opinião pública parecem que não prestam ou não desfrutam de competência literária. Desde quando o público não é também crítico? Por que se condena o sucesso alheio como se fosse causar infelicidade? O sucesso do outro não nos diminui, não apaga a nossa trajetória, não fecha nossas chances. Verifica-se uma limitação de mentalidade que inspira a enxergar o escritor com êxito como a exclusão do próprio êxito.

Associa-se a cultura ao hermetismo e à privação de comunicação. Grande parte dos literatos quer ser Joyce, sem ao menos ler Balzac. Pensa-se que o experimentalismo não está sustentado pela tradição. Há a crença equivocada que o gênio não será entendido pela sua época. Muito menos sobreviver de seu ofício. Sempre surgirá alguém que acha a orelha de Van Gogh no seu jardim, a lembrar que o pintor não vendeu um quadro em vida.

É regra afirmar que pouco importa a opinião dos outros. O que aparenta independência disfarça o egoísmo. É possível ser autodidata com as virtudes, não com os defeitos. O escritor não pode demonstrar fobia ao diálogo e receio de ser contestado. São premissas da convivência escutar o que não se quer, aprender o que não se desejava, duvidar do que se julgava pronto. Conviver é cultivar o dessemelhante, o contrário, o contraponto.

Acredito que o autor verdadeiramente vivo se importará com a recepção dos leitores, em ser legível e carnal. Mudará inclusive sua voz ao ouvi-los. Essa atitude não significa submissão ao mercado ou ânsia de agradar, mas humildade e despojamento. Ele não estará escrevendo para as gavetas da escrivaninha e do cemitério, escreverá para prolongar o impacto da vida e organizar sua verdade pessoal.

Defendo que o escritor seja influenciado pelos leitores. Cada vez mais. O livro não muda os leitores, os leitores é que mudam o livro. Os leitores devolvem o escritor a si mesmo.


Publicado na coluna Areópago, da Revista Entrelivros, Edição nº.11, março de 2006

1:10 PM :: Comentários:

OFICINA

Estão abertas as inscrições para minha oficina de criação poética. As aulas começam em 20/3. O curso oferece vinte vagas e acontece no Espaço Tessituras (Av. Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre, às segundas, das 9h às 11h. Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br

10:37 AM :: Comentários:


Domingo, Março 05, 2006

Edição Nº 63- Março de 2006
Revista Continente Multicultural
Recife (PE) - versão online

LITERATURA


AS BOLHAS DE FICÇÃO DE AMILCAR BETTEGA
O vencedor do maior prêmio brasileiro de literatura vive em Paris uma nova experiência, criando uma prosa que flerta com a poesia

Por Fabrício Carpinejar

Não caiu do céu. Custou muito sangue, solidão e incertezas. Pode-se concluir precipitadamente: jovem escritor de 42 anos, completados em 14 de fevereiro, recebe o maior prêmio literário do Brasil, o Portugal Telecom, e a quantia de R$ 100 mil. Mas a juventude aqui não desmerece o gaúcho Amilcar Bettega, que penou sucessivas profissões até se firmar na literatura. Ele é a prova de que as dificuldades estimulam o talento. Sem querer ser um exemplo, torna-se um espelho para iniciantes que quebram a cara mandando originais e recebendo negativas.

Seus pais, Paulo de Macêdo, ex-pecuarista de pequeno porte, e Maria Marly, professora aposentada, são gente simples de São Gabriel, município da Campanha Central do RS, com cerca de 60 mil habitantes. Além do prato predileto, o churrasco, de preferência carne malpassada e sangrando, do lugar de nascença guarda suas imagens mais inspiradas. "Um entardecer na BR 290, nas coxilhas, ou o amanhecer no campo, no inverno, com o sol cortando a bruma", recorda.

Amílcar parte para estudar na capital e se sustentar de qualquer jeito. "Sempre senti o trabalho como uma prisão, mesmo quando ainda não pensava em escrever, sentia que ele me roubava um tempo que poderia utilizar só para mim, do jeito que quisesse - sem fazer nada, por exemplo. Mas ao mesmo tempo incorporava a pressão que a sociedade mete na gente: trabalho regular, salário fixo, de preferência um bom salário, uma profissão respeitável (Quando crescer vai ser o quê? Médico, engenheiro ou advogado?)...", lembra.

É óbvio que a coerção saiu ganhando. Vantagem inicial da estabilidade versus vocação. Formou-se em Engenharia Civil e exerceu a função de engenheiro de obras de 1987 a 1992. Durante cinco anos morou em hotéis, em via-crúcis digna de caixeiro-viajante. Passava a semana em cidades como Vera Cruz, Santa Cruz, Uruguaiana, São Borja, Santa Maria e retornava aos sábados para Porto Alegre.

Mas seu percurso rodou todas as páginas de classificados. Foi o responsável pelo setor de compras de um restaurante, deu aulas de Física e Matemática para vestibulandos e atuou discretíssimo como recepcionista noturno de hotel no Algarve, em Portugal. De 1994 a 2000, cobria a área de seguros no Banco do Brasil.

Via-oficina de Luiz Antonio Assis Brasil, laboratório literário que já completou 20 anos de sucesso na PUC, ele despertou seus fantasmas e diminuiu o isolamento. "Comecei a escrever relativamente tarde, por volta dos 26 anos. Sempre gostei de literatura, mas até lá nunca tinha pensado em escrever, muito menos para publicar. Foi num momento de crise existencial (mais do que profissional) muito grande. Eu tinha me formado, trabalhava como engenheiro, mas aquilo não tinha nada a ver comigo e com o que queria fazer. Havia um grande vazio, e eu me disse 'não posso continuar levando adiante essa farsa até o fim da vida'. De repente, eu me 'flagrei escrevendo uma história'. Foi isso mesmo. Sem premeditação, sem me dizer 'vou escrever algo', quando me dei conta eu tinha já umas 30 páginas. A partir dos meus primeiros textos, que são desse tempo, comecei a ver que eu era capaz de escrever e que escrever era uma maneira de me encarar de frente, de ser mais honesto comigo mesmo. Escrever foi e é uma maneira de tentar me entender, uma maneira de me organizar, de me dar um sentido, de preencher o meu vazio. Foi também uma maneira de encontrar minha competência, minha serventia. Como vê, é uma viagem puramente pessoal."

Atualmente, Amílcar mora em Paris. Faz pouco tempo que se mudou, depois de três anos em Orleans. O prêmio recebido pelo seu terceiro livro, Os Lados do Círculo (Companhia das Letras), em novembro, o pegou de surpresa. "Nunca espero esse tipo de coisa, para evitar a frustração, nem penso muito". O que não significa falsa modéstia. Afinal, já recebeu outras premiações como Açorianos por O Vôo do Trapezista (WS Editor, 1994) e Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas de Cuba por Deixe o Quarto Como Está (Companhia das Letras, 2002). "Mas sabia que meu livro não estava lá por acaso, como todos os outros nove, aliás. Nesse sentido eu tinha a esperança legítima de ganhar."

Os Lados do Círculo havia sido premiado com bolsa pela Fundação Biblioteca Nacional, em 1997, incentivo público para ser finalizado. Garantia de edição? Não, livro pronto, esteve para sair por várias vezes, por várias editoras, mas na última hora sempre acontecia algo e a coisa dava para trás. Situação perfeita para alimentar o ranço, mas Amilcar, entretanto, suspira aliviado: "Ainda bem. Isso permitiu que eu retrabalhasse inteiramente. Foi como fazer um novo livro. Suprimi contos, inseri outros, reescrevi todos. Não tenho dúvida de que ficou bem melhor. Cada texto está escrito num registro diferente, utilizo-me de recursos de outros tipos de escritura, como o roteiro de cinema, a entrevista, o tratado de economia, a linguagem dos verbetes de dicionário, é uma das formas de dar uma unidade ao livro: pela variação".

A metamorfose é um estado permanente do ficcionista. Entre a larva e as asas. Entre o carvão e a cinza. Sua obsessão é mudar de alma enquanto o corpo é fiel. "Tento sempre não me repetir, mudar de livro para livro. O que dá graça à coisa é experimentar o que ainda não se fez. Apesar de meus livros serem coletâneas de contos, não os quero como um saco onde cabe tudo. Penso um livro sempre em conjunto, sempre dentro de uma unidade, e essa unidade normalmente passa pela forma."



Se, em Os Lados do Círculo, Porto Alegre está inteira como cenário e linguagem, agora a nova vida em novo lugar deve render uma mudança abrupta em sua ficção. Está de flerte com a poesia, a soprar bolhas de ficção. O trabalho como tradutor da Companhia das Letras e do Atelier Européen de la Traduction vem ajudando-o a reparar bem mais nas nuances do português, suas colorações escuras e recursos escusos. "Tenho escrito uns textos muito curtos, uma ou duas páginas no máximo. São textos que partem quase sempre de uma imagem, e que tentam cristalizá-la a partir de uma linguagem mais poética, uma espécie de prosa poética. Mas sempre com o pé na ficção, na história, no conto. Mesmo que no final não dê conto, a idéia é guardar certa tensão poética, criar uma espécie de 'bolha de ficção' que se desgarre da realidade cotidiana, e que paire, pelo menos por um instante, na imaginação do leitor. Mas é um projeto que está apenas no comecinho, nem sei se vai vingar. Tenho já uns 30 textos escritos, mas para fazer um livro teria que ter uns 110, 120, para poder descartar uns 20 ou 30."

Como sempre, a atitude não partiu de uma intervenção consciente, porém do instinto de adaptação, de contornar as circunstâncias inseguras fora do país de origem. "Procurei esse tipo de texto para tentar escapar do buraco negro em que me senti quando mudei para a França. Mudança de língua, ambiente, de repente me vi em meio a uma enorme cratera. Fiquei muito tempo sem escrever absolutamente nada. A saída foi tentar esses textos curtos, com uma angústia menor."

Amílcar é pacato e quase invisível. Usa roupa branca e jeans de propósito. Pouco chama atenção para si, muito menos para o que faz. Nada o tira do sério. Corrigindo, uma única afirmação o perturba. E não é provocação esportiva. Quando alguém, pela enésima vez, o imputar o rótulo de cortazariano. Ele não é de planejar a vida. Deixa rolar. Assim a vida o conduz para onde ela quer. Ao topo.

(Leia mais na edição nº 63 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas)

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de Como no Céu/ Livro de Visitas (Bertrand Brasil, 2005), entre outros.

9:45 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 03, 2006

NÃO ME APRESENTE AOS AMIGOS
Pintura de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



Amor não é caridade, nem filantropia.

O que ofende a solidão é alguma amiga chegar e comentar: "tenho um amigo para apresentar". Ela não está consultando sua opinião, não pede uma resposta, já marcou o encontro e a descreveu ao pretendente. O panorama recrudesce se o programa não é a dois, mas assistido, com a participação de outros casais a narrar, comentar e fazer hola em cada aproximação. Desde quando solteira é atração de circo?

"Tenho um amigo para apresentar" é a frase mais escabrosa que se pode ouvir. Uma forma de chamá-la indiretamente de encalhada. Mais agradável designá-la de gorda. A amiga se julga uma Madre Teresa de Calcutá, distribuindo as riquezas aos pobres e diminuindo a desigualdade. Deseja ajudar, mas no fundo atrapalha. Em nenhum momento, cogita a hipótese de que se está muito bem sozinha.

Pelo fato dela estar com namorado ou casada, não suporta que alguém esteja solteira. Quer exterminar as solteiras da cidade, pois não é suficiente casar, o mundo tem casar junto com ela para não se arrepender ou questionar sua rotina.

A solidão é também uma escolha. Infelizmente, em nossa cultura casamenteira, é filtrada como inabilidade em encontrar uma cara-metade, vista como incompetência amorosa.

Quando se escuta "tenho um amigo para apresentar", lamenta-se não ser avestruz ou toupeira para se esconder em um buraco. Perderá o controle da própria vida, a pose, o orgulho, o luxo da iniciativa. Inicia uma campanha de mobilização onde todos saberão que está disponível. Lança-se um pedido de socorro e a pretensa afogada toma sol na areia. Com a fragilidade escancarada, vexame é pouco, será difamada nos almoços familiares.

"Tenho um amigo para apresentar" indica, ao mesmo tempo, que não desfruta de condições para conseguir sozinha e pelos seus méritos uma paixão. Sua independência é confundida com carência, seu apartamento com oferta do Sine.

Amor encomendado nunca funcionou. Como fazer render um encontro que a expectativa mínima é a de namoro e a máxima é de um casamento? Amor surge ao léu, de imprevisto, sem nenhuma preparação psicológica e pesquisas de opinião. Não se passa por teste vocacional, o amor pode contrariar a carreira.

1:17 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 02, 2006

O VESTIBULAR DA FOSSA
Imagem de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



Superar uma dor de amor é o equivalente a estudar para o vestibular. Tranca-se no quarto, são recusados convites para sair e se divertir, a história pessoal é revisada, sublinhada e decorada à exaustão. Não mais o esporte, não mais as festas, não mais os bares. Os únicos amigos preservados são os travesseiros. Fala-se pouco, come-se devagar, experimenta-se um emagrecimento involuntário que dá mais certo do que uma dieta consciente. Aquela sonhada perda de sete quilos realmente acontece, na hora e no jeito errados. Não festejamos, não percebemos, não alardeamos a forma física, a tristeza encabula o corpo. Somos um par de olheiras e uma boca confusa. As reticências do período tanto podem ser suspiros como gemidos.

A única missão que resta é estudar, não para seguir uma profissão. Estudar para seguir a própria vida. Estudar para se manter de pé ou definitivamente cair. Na dor do amor, o desejo é chegar ao fundo de si, mas o fundo de si está na pessoa que deixou de nos amar. E nunca se chega ao fim. O fim não está mais com a gente. Foi junto com quem traiu a fidelidade que acreditávamos.

A dor do amor oferece igual preparação de uma prova difícil. Uma prova que não importa a doação, o resultado é conhecido. O que se queria já se perdeu. Um vestibular que significará esforço e não celebração. Um vestibular onde se é desclassificado antes da inscrição.

Não cumprimos a rotina, mal e forçosamente ficamos de pé. Os pijamas e abrigos pedem na Justiça a guarda da pele. É um luto sem enterro. Um luto sem cadáver. Um luto sem missa de sétimo dia. Um luto sem familiares se aproximando e tentando consolar. Um luto sem pêsames e garantia social. Um luto obrigado a trabalhar no dia seguinte. Um luto que não se explica. Um luto que não merece nem um anúncio de jornal para avisar que acabou. Um luto em que o sofredor poderá se encontrar com seu sofrimento em carne e osso na próxima esquina.

Acorda-se com a sensação de pesadelo, dorme-se com a sensação de pesadelo. Fase de transição, em que se confia sinceramente que nada será melhor do que antes. Quem tinha humor fica cínico. Chora-se no princípio com força, depois o choro é um hábito, perde a concentração e vira um resmungo intermitente. Não se faz outra coisa senão a de remoer o tempo, de repisar fotografias, vídeos, cartas. Reler e revisar o que foi esquecido no Ensino Fundamental e Médio. São meses de exílio, de sacrifício, a mostrar que se é capaz de sofrer a sério por alguém e abdicar do que se mais gostava.

A fossa do amor não é uma encenação. Ao passar por ela, termina a confiança irrestrita, a esperança ingênua. As pessoas que sofreram esse descompasso são reconhecíveis de longe. Não se alegrarão de todo. Uma saudade vai retirar a velocidade dos ouvidos. Não se abrirão de novo como uma vitória-régia. Têm uma sutileza que as diferenciam dos demais, o tolhimento do abandono. E poderão no futuro amar melhor porque não mais estarão sozinhas. Estarão sempre conversando e consultando sua dor.

1:59 PM :: Comentários:

DANIEL GALERA NO ENTRE NÓS


Galera publicará seu primeiro livro pela Companhia das Letras


O projeto 'Varal de Letras' da Livraria Cultura, com dois anos de atividades, volta em 2006 com novo nome: 'Entre nós...'. A série de debates mensais será apresentada pelo poeta Fabrício Carpinejar e pelo jornalista Rodrigo Breunig.

O convidado da reestréia é Daniel Galera, que lançará em abril seu terceiro livro, o romance 'Mãos de Cavalo', pela editora Companhia das Letras. Com entrada franca, a conversa com o autor acontece nesta segunda (6/3), às 19h30, no auditório da livraria no Bourbon Shopping Country.

'Entre nós...' sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano. É uma 'meia-roda' viva, entrevista aberta com a participação do público.

QUEM É DANIEL GALERA
Nasceu em São Paulo, em 1979, e morou a maior parte da vida em Porto Alegre. Desde meados dos anos 90, editou e colaborou para diversos sites, entre eles a revista literária Proa da Palavra, o mailzine Cardosonline e a revista Fraude. Em 2001, criou com amigos a editora Livros do Mal, pela qual publicou dois livros: o volume de contos 'Dentes Guardados' (2001), traduzido na Itália e adaptado para teatro e curtas-metragens, e o romance 'Até o dia em que o cão morreu' (2003), que está sendo adaptado pelo diretor Beto Brant em longa-metragem com estréia prevista para 2007. Além de escritor, é tradutor literário. Ao lado de Daniel Pellizzari, vem traduzindo obras do escritor escocês Irvine Welsh ('Trainspotting', 'Pornô') para a editora Rocco.


Serviço:
Segunda-feira, 6/3, 19h30
Tema: Entre nós...
Palestrantes: Daniel Galera (convidado), Rodrigo Breunig e Fabrício Carpinejar (apresentadores)
Local: Livraria Cultura Bourbon Shopping Country - Av. Tulio de Rose, 80 - Porto Alegre

1:58 PM :: Comentários:



No site da revista Superinteressante, está no ar nova sessão do Consultório Poético, tematizando as desculpas masculinas para a traição. Um tanto esfarrapadas. Confira.

1:25 PM :: Comentários: