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Fabrício Carpinejar


 

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Domingo, Abril 30, 2006

Estado de São Paulo, CADERNO 2, Domingo (30/4/2006)

DUELO DE UM HOMEM COM SEU MEDO
Em Mãos de Cavalo, Daniel Galera cria uma narração vertiginosa e incisiva sobre as omissões irrecuperáveis do passado

Fabrício Carpinejar



Um escritor amadurece quando supera o seu próprio ponto de vista. Quando não empresta mais suas manias, virtudes e defeitos aos personagens. Quando abre outra vertente que não parta do molde inerte de sua experiência. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, transcende os trejeitos psicológicos e referências possíveis do autor. Tão jovem, com 26 anos, e tão maduro. É um salto, nem diria um passo, se comparado aos seus livros anteriores, os contos de Dentes Guardados (2001) e a novela Até um Dia em Que o Cão Morreu (2003), já que ambos denunciavam um parentesco com a atmosfera de sua formação.

Mãos de Cavalo, a primeira incursão de Galera na editora Companhia das Letras, abrange o fluxo de consciência de um profissional que rememora eternamente as possibilidades de uma outra vida que não assumiu. É a biografia do "quase", de um sujeito feito de obsessões irresolutas, coragem atrasada e culpa retrospectiva.

Galera apanha a realidade de modo microscópico, prendendo o tempo de cada descrição, não como uma lupa a ampliar o foco, mas com uma lupa a queimar o que cobre. Quanto mais aproxima a lente das coisas, quanto mais nomeia de modo minucioso e simultâneo, mais asfixiante e obnubilada é a visão do conjunto. O realismo integral dá curiosamente ao livro a idéia de alucinação.

Divide uma única história, a de Hermano, em infância, adolescência e período adulto. A diferença é que fala de um único homem em relatos independentes, macrocontos que conversam entre si, trocam informações, mas mantêm autonomias estilísticas até o fim. No princípio, a sensação é que são três personagens, nunca um só.

As faixas narrativas são marchas avançadas de uma bicicleta, pontualmente intercaladas como subidas e descidas, ganhando velocidade a partir de pequenas escolhas do protagonista. A versão da criança disposta a cair de sua Caloi Cross Aro 20 vai sendo engolida pelo convívio do adolescente com a turma do bairro, enquanto acompanha-se o deslocamento do adulto, médico consagrado e insatisfeito com o casamento, à residência de um amigo para realizar viagem de escalada ao Cerro Bonete, na Bolívia. Cada etapa do crescimento apresenta um ato decisivo de enfrentamento da identidade, de assumir ou não os riscos. Em hábil trama, a ecoar tensão emocional com frases curtas, incisivas e pouco adjetivadas, produzindo reverberações infinitas de uma mesma matriz, Galera monta o duelo de um homem com seu medo. É o medo que favorece as construções prismáticas, fazendo com que a obra avance à medida que se voltam páginas. A obra, na verdade, acontece recuando.

Fica-se entre o que deveria ter acontecido e o que realmente aconteceu. Para a memória, as escolhas nunca foram feitas e permanecem abertas. Hermano convive com vários Hermanos, sempre iguais e insatisfeitos. Enxerga-se duplamente, pelas suas fantasias heróicas e pelas suas vacilações inibidas. Desde o princípio, deseja testar seus limites. No princípio, busca a queda na bicicleta e nas corridas, para provocar contusões, dor e resignação. "Estava pronto para sangrar. Era seu talento."

Numa das cenas mais lancinantes e particulares, finca sucessivamente dezenas de lápis de cor no rosto, deslizando da maquiagem à agressão. Sente a ânsia de ser outro, ainda que a custo da mutilações. Sua biografia se torna uma constante de fugas. Repete incessantemente uma hesitação primária e cordata, ao não enfrentar a briga no futebol, ao não interromper assédio sofrido por amiga na festa, ao assistir omisso a morte de colega, ao não levar a cabo sua primeira transa.

Quem é Hermano, senão tudo o que deixou de fazer? Não porque quis, é isso que Galera mostra, negando o maniqueísmo. Simplesmente porque não estava preparado ou porque a realidade ocorreu violentamente quando ele menos esperava. O sofrimento vem em dobro, pois ele tenta de todas as formas dominar a consciência de seus atos. Os fracassos são intensificados por vir de uma personalidade precavida, que costuma observar seu bairro com o dom de uma câmera sempre ligada. "Às vezes a câmera surgia nos instantes cruciais de sua existência, às vezes captava a realidade de momentos banais e solitários (...) Não era simplesmente sentir-se observado, imaginar testemunhas indefinidas para cenas da vida. Era como se ele mesmo se destacasse do corpo para se tornar o observador."

O primeiro lugar no vestibular em Medicina depois, o estudo encarnado, a opção por uma carreira de sucesso, como a de cirurgião plástico, formam atenuantes aos recalques, não representam uma vingança.

O ficcionista prova que a adolescência é tudo, menos um rito de passagem. Dificilmente alguém chega realmente a atravessá-la. Hermano (seu apelido, Mãos de Cavalo, dá o título ao volume) expõe-se à crueldade masoquista para aliviar-se de sua impotência diante do sadismo da convivência.

Seja ao narrar um parto, seja ao mostrar a brincadeira paterna de estátua à filha, Daniel Galera sobra em veracidade e persuasão, com uma observação inusitada a refrescar trivialidades. A narração é puro pensamento quando se detém à ação. Entende-se a cumplicidade que pede as drogas, por exemplo, quando Bolita decide fumar maconha e tomar chá alucinógeno sozinho em acampamento no morro. Ele percebe que não tem como definir se fez efeito ou não, já que não tem ninguém ao seu lado para dizer que saiu do normal. Entende-se como escaladas podem servir à vaidade, não ao autoconhecimento, no momento em que Hermano desvenda as pretensões de um amigo interessado com a publicidade pessoal da aventura. "Não é a força ou a impulsividade que faz alguém subir uma rocha, é uma sabedoria muito mais delicada, uma complexa economia do esforço muscular e do equilíbrio, um balé de contrações e descansos regidos por uma mente concentrada e desligada de tudo que não seja corpo e pedra."

Daniel Galera, que ficou conhecido como um dos principais expoentes da internet, que criou a editora alternativa Livros do Mal, que tem seu primeiro livro editado na Itália e seu segundo livro sendo adaptado ao cinema por Beto Brant, borrou seu nome definitivamente no asfalto. Será possível lê-lo com legibilidade daqui a décadas. Porto Alegre está inteira em Mãos de Cavalo, na caracterização apropriada da linguagem, carregada da segunda pessoa do singular e interjeições, ou no traçado falhado das ruas, assim como já acontecia com o premiado Os Lados do Círculo (2004), de Amilcar Bettega. Um tratado geral e impecável sobre remorso está igualmente fundamentado no romance, assim como se via em Longe da Água (2004), de Michel Laub. Aliás, três gaúchos que cresceram com garra, técnica e disciplina, hoje publicam pela mesma editora e partilham irmanamente a posteridade da nova geração.

Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

12:50 PM :: Comentários:


Sábado, Abril 29, 2006

MUDAR PARA LEMBRAR
Gravura de Edward Burne-Jones

Fabrício Carpinejar



Você muda o cabelo, o comprimento, a cor, para não deixar pistas de quem mexeu, de quem ainda mexe nele em segredo cada vez que respira fundo. Ele não se despediu verdadeiramente. Ou será que você não insistiu? A dúvida não diz sim nem não, como se não houvesse palavras para derrubar a vontade da boca. Ficou assim, o dito pelo não-dito, o incerto, o indefinido.

Ambos não foram legíveis, foram confusos. A separação confunde.

Você percebe que o cabelo não é suficiente. Depois do primeiro dia, ainda depende do seu amor. Aliás, depende ainda mais forte dele. Pois agora quer mostrar o cabelo novo.

Você decide baixar o armário, alterar o corte das roupas e renovar os acessórios. Agride os próprios gostos, desfaz o preto, como se pintasse quadros com as mãos, sem a mediação dos pincéis. Seu corpo está diferente, o ajuste, a vibração. As pernas mais dadas para a rua. Entra na academia de ginástica. Treina como uma condenada. Mas não é suficiente. Percebe que está mais gostosa do que antes. Ele poderia enfim se decidir.

Você pinta as unhas, o escândalo do roxo. Ao tomar café, recobra que ele escolhia o pingado, pensa nele antes de seu pedido, pede pela primeira vez com leite e o mistura com os dedos, sem a mediação das colheres. Isso a excita, recordar dele a excita, mesmo que tenha se transformado em outra. A outra deseja conhecer ele, de tanto que a antiga contou detalhes.

Você apagou o telefone dele do celular. Apagou o nome dele da caixa de mensagens. Está se desacostumando a ele, não recorda precisamente os diálogos. Vão desvanecendo como papel de fax. Bate o terror de ser apenas mais um caso. Não tem como dominar o jeito que ele a guardará, a forma como a guardará. Descobre que seu maior receio é não ser lembrada. Como está o esquecendo, ele também pode estar a esquecendo. Liga para ele, deixa tocar quatro vezes, ele não atende.

Fica com raiva, raiva de não ser atendida. Ou raiva da fraqueza de telefonar. A dúvida volta. Nunca se termina aquilo que se deseja. Corre obcecada para uma loja de móveis. Revira a decoração da casa, altera os objetos de lugar, troca o estilo da sala. Mais despojado, mais rústico. Rústico era o rosto dele com a barba por fazer. Ele a arranhava na hora de sussurrar. Não avisou a pele que vocês estão separados e ela permanece esperando o encontro.

Crê verdadeiramente que, mudando por fora, encontrará o atalho para mudar por dentro. Não a ensinaram a se despedir. Os homens morreram em sua vida e não foram enterrados. Desiste de mudar quando toca seu telefone. Deixa tocar quatro vezes e não atende.

Você e ele desaprenderam a falar.

10:40 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 26, 2006

A MEUS PÉS
Gravura de Sir Edward Burne-Jones

Fabrício Carpinejar




Eu não sei por que a amo. Cada vez mais não sei.

Pode ser pelo seu pescoço que se levanta para ganhar altura quando estamos abraçados. Ou será que é pela forma em que dobra as pernas no sofá? Ou quando se contorce em espiral com beijos nas costas?

Eu não sei por que a amo. Será que pela sua preguiça, que se enrola em mim de manhãzinha? Ou pela sua disposição de dar a volta por cima?

Eu já parei para pensar por que a amo, mas lamento, não sei. Realmente não sei. Talvez seja pelas sobrancelhas que falam antes dos olhos. Ou pelo umbigo que inicia a mão. Ou pelo copo que você balança antes de beber, para convencer a água a partir?

Tantos homens têm um motivo certo para amar, definido como um emprego, e você foi escolher logo um que nada tem a dizer.

Será que é pelo amor aos filhos, excessivo, que sempre me inclui? Ou pela sua vontade de fazer mercado depois do almoço para gastar menos? Será que é pelo modo como canta, o modo como dança, com os braços acenando em linhas sinuosas como fumaça de chá? Será que é pelo toque em meu joelho enquanto dirijo? Pela sua respiração suspensa na penumbra? Ou pelas nossas saídas de madrugada para encontrar sorvete em botecos? Será que me apaixonei pelo seu texto e quis ser seu personagem? Ou pela sua pressa de avisar que chegou, apertando o interfone mesmo com as chaves? Ou quando diz que está com frio no cinema? Ou quando fica muda querendo voltar ou quando fica ruidosa querendo passear? Ou quando pede que eu fique em casa mordendo o lábio de cima? Ou quando me enfrenta com raiva e me diz todas as verdades sem ao menos pedir para sentar? Ou quando sopra os machucados, de quem herdou o costume de soprar machucados mesmo quando não existem? Ou quando fica bêbada e declara que está bêbada para eu me aproveitar? Será que é pelo sua predileção em comprar presentes, sempre dando mais do que recebendo? Ou pela tapeçaria no fundo de suas bolsas, com notas, moedas, chicletes, batons e brincos avulsos?

Será que a amo por que me irrita a viver mais? Será que a amo por que não me deixa a sós comigo?

Eu juro que não sei por que a amo. Todo dia você se acorda querendo ouvir, eu pressinto, debruçada em meus ombros à espera do sinal, do cartão, das flores, da segunda aliança que é um par de palavras. Mas não descobri e não finjo. Entenderá que faltam motivos, só que sobram motivos. E dificulta-me pensar que se ama por motivos. Ama-se por insinuações.

Será que é pelo seu medo de sangue? Pela sua infância vesga? Pelos seus joelhos esfolados nos móveis? Pela seus amores frustrados? Pela sua letra arredondada nas vogais? Pela sua insatisfação com as roupas na hora de sair? Pela ânsia em atender o telefone com a esperança de que seja eu a dizer por que a amo?

Eu não sei por que a amo. Não me fale. Quem sabe deixou de amar.

11:58 AM :: Comentários:

Próximos lançamentos de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

São Leopoldo (RS): 3/5, 19h30, no Factory Beer (Rua Independência 1040)

Esteio (RS): 8/5, 18h, Feira do Livro de Esteio. Sou homenageado como patrono.

Bento Gonçalves (RS): 18/5, 11h, Feira do Livro de Bento Gonçalves, Praça Walter Galassi e Rua Marechal Floriano, no Centro de Bento Gonçalves

Belo Horizonte (MG): 30/5, 19h30, dentro do projeto "Terças Poéticas", jardins internos do Palácio das Artes, promoção do Suplemento Literário de MG, Secretaria Estadual de Cultura de MG e Fundação Clóvis Salgado.

10:31 AM :: Comentários:



Folha de São Paulo, Folhinha, 22/4/2006

MINHA FILHA



Poema inédito
Fabrício Carpinejar




Minha filha não nasceu
para dias de chuva.
Ela se irrita com a falta do que fazer,

de viver em roda, revisar
as gavetas e ler livros.
Ela cansa de olhar a janela,

de olhar a porta,
de olhar a conversa,
de simplesmente olhar.

O sol é sua mecha colorida.
Em dias de chuva, minha filha
provoca o irmão, a mãe, a avó, o cachorro.

Em dias de chuva,
não escapará das obrigações
de arrumar a cama e o armário.

Em dias de chuva,
minha filha não suporta a casa
do tamanho do seu quarto.




Do livro Meu filho, minha filha

8:47 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 24, 2006

PAU DURO
Escultura de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



Não há como usar outra expressão, ainda que soe agressivo. Pênis ereto é pior. Tico já induz o tamanho. Pinto lembra galinha. Vara é falta de modéstia. Vamos falar de pau duro. O homem pena por estar exposto. Sem querer, concebe fantasias eróticas numa reunião de trabalho e o volume da calça o entrega. Ele não consegue esconder quando está desejando, quando está distraído, quando está longe. Incapaz de mentir sua vontade. Incapaz de fingir. Incapaz de disfarçar.

Um leve presságio, o membro salta. Ajeita-se de lado, ele dá cambalhota e retorna à posição original. Tem a elasticidade de um ginasta olímpico. Tenta-se recordar da vó, da tia, da morte, da mendiga mais descabelada, despistar as imagens, mas nada o demove da inflação. O equivalente seria se, excitados, os seios crescessem, a ponto de furar o sutiã ou inchar a blusa.

É comum o homem despir na sua imaginação a mulher com que conversa. Terrível confessar isso, mas é um hábito, um treino, uma maldição. Tanto faz o assunto, ele tratará de arrancar as roupas dela em pensamento. Confere se vai apreciar e sonda as conseqüências. É óbvio que nem sempre agüenta avançar no exercício.

Não se respeita um homem com pau duro. É - de cara - um tarado. Provoca a piada. Desde criança, enfrenta-se o constrangimento de abafar o desejo e a curiosidade, de enganar o corpo.

Já passei por sérias dificuldades. Na escola, sentava atrás da menina que gostava. Numa manhã, ela veio com os cabelos cheirosos, cheirosos demais. Fechei os olhos e iniciei o percurso de seu pescoço. Quando chegava perto da boca, a professora de Matemática me chamou ao quadro negro. O que fazer? Tinha um agravante do uniforme escolar, cilada para crianças excitadas. A calça de abrigo, o tecido leve, facilitava a alavanca. Preso à cadeira, disse que desconhecia a resposta e que convidasse outro. Ela insistiu que eu fosse. Fui. Arrastei o caderno comigo. A professora advertiu para deixá-lo na classe. As risadas vieram depois para balançar o lustre.

Em outra cena, transava quando chega o entregador de comida árabe. No terceiro toque da campainha, decido ir de qualquer modo. Ando meio encurvado, para desviar a atenção. O entregador observa o desnível de minha cintura e descubro que ele é banguela. Levei a encomenda com a terceira mão.

O pau é incontrolável, não tem como suborná-lo ou fazer um acordo - goza de vida própria. Ele poderá apreciar o que seu dono não aprecia, pedir para fazer o impossível, encantar-se nos momentos de maior constrangimento e luto. Não respeita a mulher de seu melhor amigo ou a filha de sua melhor amiga. Endurece e pronto, teimoso que só vendo. O jeito é dobrar as pernas, andar como um pato, botar a pasta na frente e rezar, rezar muito para que ninguém note a diferença.

7:45 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 21, 2006



O Consultório Poético não tem feriado. Leia coluna abaixo ou confira no site da Superinteressante.

ELE É CASADO E TEM AMANTE
Consultório Poético
Pintura de Sir Edward Burne-Jones

Fabrício Carpinejar



"Gostaria que me ajudasse a me entender, ou melhor, a entender o porquê de não conseguir sair de uma relação de Amor versus Ódio. Vou te explicar: me divorciei no ano de 1996 (meu ex me traiu e ainda por cima teve um filho com outra). Passado o devido tempo superei (o que sinto por ele agora não passa de indiferença, mas tenho que tolerá-lo porque ele é pai de minha filha).

No final de 1999 me envolvi com um homem casado - ironia do destino? Coincidência? Enfim, "ficamos" juntos até o início do ano de 2003, quando eu dei um basta, pois eu queria que ele ficasse definitivamente comigo, mas ele nunca se decidia. Fui taxativa quando disse a ele: ou ela ou eu.

Não nos falamos por mais ou menos uns quatro meses, quando eu vim a saber que ele se envolvera com outra. Mesmo separados, brigamos e discutimos, nos dissemos muitas coisas sérias e continuamos separados. Não podia vê-lo na minha frente, e ele ficou na dele (ou melhor, com a outra). Para mim foi chocante, até doente fiquei (algo que eu jamais admitiria para mim mesma em algum momento da minha vida, pois nem mesmo quando me separei sofri tanto assim), passei a ter crises de ansiedade e pânico o que venho tratando até hoje.

Estava decidida a esquecê-lo definitivamente quando ele veio me procurar propondo que voltássemos. Não resisti e voltei. Mas, além de ele continuar casado, tenho quase certeza que ele ainda tem caso com a outra - o que ele nega e diz que se em algum momento se envolveu com ela é porque estava carente e eu havia terminado com ele. E ainda que o envolvimento com a outra não tenha passado de sexo, pois, das muitas tentativas de me esquecer, nunca conseguiu.

Sempre nos demos muito bem em todos os sentidos. Os momentos que passamos juntos são e sempre foram os melhores que já passei com alguém, nossas conversas são intermináveis, rimos muito, beijamos muito e nos amamos muito cada vez que nos encontramos. Sempre me confidenciou coisas da vida dele. Acho que a esposa nem imagina que aconteceram.

Não consigo me interessar por nenhum outro homem (já fiz várias vezes a tentativa). Ele é tudo que eu sempre quis para mim.

Por outro lado, já se passaram cinco anos e a situação continua assim. Considero-me (outras pessoas me admiram também) jovem e bonita. Muitos me perguntam como e por que ainda estou só depois de quase dez anos de separação (eles nem imaginam a história que vivo). Queria poder esquecê-lo, pois acho que se até agora as coisas não deram certo é porque não vão dar mais. Amo este homem e acho que ele tem um sentimento especial por mim também. É sempre ele que vem atrás nas minhas tentativas de esquecê-lo."


Inês,

"Atrás de homem e de ônibus, não se corre. Sempre vem outro."

Esse provérbio que lembro na boca de minha mãe não deixa de ser verdade. Ele não pode ser tudo o que sempre quis, porque ele não consegue nem ser metade do que pretende dele.

Toda relação é um pacto, um contrato, aceitou as cláusulas na medida em que voltou e abriu mão de seu orgulho. Aceitou sua mulher e, agora, sua amante. Sem ler antes, assinou embaixo da letra miúda e indecifrável do papel. Aceitará qualquer disparate. O sofrimento, diferente da alegria, é inesgotável.

Não reparou que a convivência com ele se tornou uma esmola, um favor, uma caridade. Depende dele para ser feliz, não mais de você. Será que ele depende de igual modo? Caso sim, por que não opta definitivamente?

Fala-me: "acho que se até agora as coisas não deram certo é porque não vão dar mais". Escuto e não concordo com seu pessimismo. Seu pessimismo é para si, nunca para ele. Em cinco anos, o sujeito não mudou. Não mudará. Testou sua paciência e saiu ganhando. Viu que não consegue ficar longe dele, e explora sua fragilidade. Nunca soube o que é enterrar uma mulher viva dentro do coração. É cômodo para ele continuar desse jeito, com os prazeres a costurar junto dos botões das camisas. Ele não corre riscos, não toma atitudes, não empenha a palavra. É capaz de fazer as confidências mais ternas, de comover ao recordar do passado, mas não arreda o pé do universo machista, do egoísmo em mandar na sua e nas demais mulheres.

Precisa encontrar-se escondida, mentir para proteger a rotina dele, suportar a solidão do Natal, do aniversário, do Ano Novo, da Páscoa e das datas comemorativas. Ele pode ligar a qualquer hora, você não. Será que vale a pena?

Ele confessa que o envolvimento com uma terceira foi carência, que foi apenas sexo. Imagina o que ele diz de você para a esposa e para a outra? Um homem não é criativo quando mente.

Voltou com ele para disputá-lo com a amante. A esposa não contava, mas a outra amante estava tomando seu lugar. Seu pânico e doença surgiram do medo de ser substituída. Eu teria medo de substituir a minha vida por uma ilusão. Sacrificar minha vida por um homem que penso que está fora de mim, e na verdade está dentro aguardando ser encontrado.

Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:49 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 19, 2006

MINHAS PÁLPEBRAS SÃO POTES DE SORVETE
Pintura de Édouard Manet
Para Mariana, 12 anos, e Vicente, 4

Fabrício Carpinejar



Pense nos filhos e será mais homem. Eu talvez não amadurecesse por mim, amadureci para criar meus filhos. Amadureci porque era jovem, tinha 20 anos, e não podia deixar minha menina sem um pai. Não poderia me deixar sem um filho.

Perdi minha adolescência, mas ganhei todas as fases da vida dela. Na época, amigos falavam que era loucura, que iria estragar minha vida profissional, que sacrificaria as festas, os namoros e a juventude, anularia as possibilidades de viajar, o espaço na literatura. Fui pai cedo antes do diploma. Fui pai cedo antes do casamento. Fui pai cedo antes de trabalhar. Mas eu me formei, eu trabalhei justamente porque era pai. Esforçava-me para não dormir nas aulas, fragilizado por andar pelos corredores a cuidar da insônia e cólicas da pequena. Não alcancei as melhores notas, porém não comemorei sozinho.

A cadeira de balanço foi minha cama. Mariana no pescoço como minha manta de inverno, meu agasalho. O cheiro doce dos cabelos - se eu procurar em minha boca, ainda o encontro. Ela não complicou minha vida, ela apressou minha vida. Ela não me impediu de fazer nada, ela me ajudou a fazer tudo o que adiava. Tantas vezes chorei e tantas vezes os filhos se anteciparam (seus dedos são pálpebras mais rápidas) e me fizeram rir do desespero. Comeram minhas lágrimas com colherinhas, raspando o sorvete no pote.

Não sou o que vivi. Sou o que ouvi. Sou suas vozes subindo as escadas, pulando em minha cama de manhãzinha. Sem eles, não teria algo para contar, não teria como me começar. Mariana me tornou pai do Vicente, quando ele nasceu 8 anos depois.

Recordo o jeito que fatiava os cabelos das crianças, pondo as franjas para o lado esquerdo, repetindo o gesto que odiava de minha mãe. E como amo o que odeio. Recordo de minha mãe colocando a comida primeiro em seu punho, o feijão era seu perfume de festa, e eu fazendo o mesmo com a mamadeira para testar a temperatura do leite. Eu sou mais homem porque meus punhos são de leite. Fermentaram as veias. Fenderam outras linhas do destino. Emagreceram as mãos para que segurasse com mais firmeza a água. Recordo do meu filho na garupa, equilibrando seu peso em meus ouvidos. Ele esticava as orelhas como seus retrovisores. Eu sou mais homem porque ele me guiava. Passei a separar a roupa após nascerem. Antes, amontoava as cores. Criei as gavetas das camisas, dos cueiros, dos blusões, das calças. Criei as gavetas das fotos, dos documentos, dos brinquedos, dos bonecos. Criei as gavetas dos meus joelhos.

Hoje me apanho cortando a carne em pedacinhos para mim. Como se fosse transportar para o prato de um dos meus filhos. Eu demoro mais na mesa. Demoro mais para me levantar. Sou mais homem devagar, sou mais filho.

9:30 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 18, 2006

BAZAR DE CHANTAGENS
Pintura de Édouard Manet

Fabrício Carpinejar




A criança esperneia, xinga; o pai apenas a arrasta com delicadeza obstinada. O rosto paterno não observa os lados, não anuncia seu desespero, não se entrega aos curiosos. A criança desobedece. Freia os patins. Segura-se com afinco em todo obstáculo pela frente. Chuta as canelas. Solta tapas sem endereço. Grita absurdamente, abusivamente. Nem a coruja tem um pio tão anoitecido. Mas o pai ali, como se fosse normal, como se não fosse com ele, mantém a serenidade. Não se importa em ser assistido, tem a certeza que está correto. Mas sofre com o terremoto da boca, lamenta a acusação injusta de sua insensibilidade.

Não é um choro intuitivo, é um choro treinado, a manha de jogo e de poder. Não há pai ou mãe que não tenha suportado esse vexame em filas de mercado, restaurantes, lojas? Uma ironia, logo os pais que se repartem sem pensar, que se dividem generosamente e procuram oferecer uma filiação aberta e discutida. Logo eles que tiveram pais silenciosos e duros e decidiram não repetir o ciclo de lacunas.

O amor é uma vergonha. Na família, haverá de ser sempre uma vergonha porque envolve franqueza. O que traz honestidade significa enfrentamento. Quando adolescente sofria ao ser levado para festas de carro pelos pais. Pedia para que parassem duas quadras antes. Envergonho-me agora da minha própria vergonha, apressei em ser adulto e não ganhei nada com isso.

Na primeira contrariedade, ao não comprar um brinquedo ou um doce, o filho pula, provoca escândalo, humilha. A criança não aceita e berra. Não pede, manda.

Com temor do que os outros pensem dele, muitos pais acabam adquirindo o mimo, apesar da conta naufragar em vermelho. São derrotados pela aparência. São derrotados pelo susto da visibilidade. São derrotados pela impaciência. E pai ou mãe é paciência encarnada. Não dizer as verdades a qualquer hora, dizer no momento em que o filho estiver ouvindo.

Observava com orgulho aquela frieza do pai diante do seu menino embirrado. A frieza era firmeza de princípio. Ele não aceitou negociar o afeto. Não se rebaixou à chantagem. Mostrava que não ter tudo é poder escolher.

Seguiu puxando a criança com calma, domando o infortúnio. Cuidava para não machucar, mas conduzia com convicção para longe do pedido frustrado.

O menino foi se acalmando, foi cansando, foi perdendo público até entender que seu pai não pode ser comprado.

8:31 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 17, 2006



Folha de São Paulo, caderno Folhinha, 15/4/2006

11:02 PM :: Comentários:

O Estado de S. Paulo, 16/4/2006, página 6 do Caderno 2

A ESTÉTICA DA AUSÊNCIA EM BLANCHOT
Ensaísta francês questiona o culto da personalidade dos escritores, defendendo que o poder não está no autor, mas na obra



Fabrício Carpinejar
Especial para o Estado

Maurice Blanchot não se deixava fotografar. Figura misteriosa e reclusa, morreu aos 95 anos, em 2003. Tampouco concedia entrevistas. Nas últimas décadas de vida, esteve escondido, para que os leitores esquecessem seu rosto e valorizassem unicamente sua obra. Seu projeto literário beirava o de Kafka, só que na filosofia da linguagem.

Em vez de pedir para queimar seus escritos, queimou seus vestígios biográficos. Em ambos, a necessidade de ser igualmente o que a literatura é capaz de nomear e o que ela não consegue alcançar.

As narrativas ficcionais de Blanchot, como Pena de Morte (Imago) ou Thomas, o Obscuro, não chegam perto do lastro luminoso de suas reflexões ensaísticas. Não porque são medianas, mas a crítica dele subiu alto demais e influenciou várias gerações de escritores e filósofos, como Michel Foucault e Jacques Derrida.

Talvez a desaparição progressiva a que se impôs seja reflexo de sua história tumultuada. Filho de uma abastada família católica, cursou literatura alemã e filosofia. Nas décadas de 30 e 40, atuou como jornalista de extrema-direita. A Ocupação da França pelos nazistas transformou suas opiniões e o aproximou da Resistência e do Partido Comunista. Na 2ª Guerra, o judaísmo e o Holocausto se tornariam bandeiras, como a sinalizar uma remissão pelas idéias da juventude.

Não é um terreno fácil o que pisa Maurice Blanchot. Nem poderia, ele não identificava a escritura como comunicação, mas como ruptura da comunicação. São as falhas, o ruído e o inacessível que o interessavam. Defensor radical da literatura moderna, queria o "pensamento de fora", contra as tendências realistas. Não bastava ao autor descer à rua, tinha de descer ao inferno. O mundo ainda não era o mundo da linguagem.

Com o lançamento no Brasil de O Livro por Vir (versão de Leyla Perrone-Moisés), que reforça o acervo traduzido do escritor, ao lado de A Parte do Fogo (Rocco), O Espaço Literário (Rocco) e A Conversa Infinita (Escuta), entende-se melhor sua proposta. Criou uma escritura absoluta que buscava tocar no inominável, no invisível, no inaudito. Serviu-se, portanto, de Joyce, Henri Michaux, Samuel Beckett, Mallarmé, Nietzsche, Hermann Broch, Robert Musil, todos transgressores que estiveram no extremo da metalinguagem e que representam a crise do sujeito.

Seu desejo era o de desaparecer ou vigiar o tinteiro como um fantasma. O Livro por Vir é seu testamento, a base de sua estética da ausência. Questiona justamente a glória. Serve para prevenir os escritores do culto da personalidade. Muitos ambicionam aparecer ou se regozijar do nascimento editorial antes mesmo de consolidar seus trabalhos.

Blanchot adverte dos riscos de confundir o poder de nomear com aquilo que se nomeia. O poder não deve ficar com o escritor, mas com o que foi escrito, que tem uma existência independente dele. O objeto literário, de expressão própria, regra-se de forma autônoma e intransigente.

Nesse sentido, ele separa conceitualmente publicar de escrever. "Publicar-se não é fazer-se lido", diz. Escrever é mais fundo, tem uma carga de sofrimento e renúncia, de crise de consciência e de responsabilidade. Chega a ser um atentado à facilidade. Portanto é, em certa medida, recusar-se a escrever. O confronto dolorido com a palavra caracteriza a perda de unidade da literatura do século 20, que não ficou alheia à realidade social e política após sucessivos genocídios. "Cada escritor faz da escrita seu problema, e desse problema, o objeto de uma decisão que pode mudar." A violência original de um estilo residiria no jeito de lidar com o impasse. O pensamento se firma na impossibilidade de pensar.

O ensaísta francês expõe os perigos de se confiar em um público que "antes de já ter lido já leu" e que "acha tudo interessante ao mesmo tempo não se interessa por nada". Dessa feita, Blanchot deseja como Paul Valéry ser lido várias vezes por um leitor do que ser lido por muitos leitores uma só vez.

Em sua tese, o público procura o que é conhecido enquanto o escritor se faz por aquilo que falta conhecer. São dois destinos diferentes. O escritor inaugura e funda, enquanto o público repete e reproduz necessidades.

Homem de "obscura exigência", preocupa-se em O Livro por Vir do significado da arte, para onde vai a literatura, e chega a desenhar o perfil psicológico do último leitor (e, por conseqüência, do último escritor).

Um de seus espelhos é "o vazio ativo" de Antonin Artaud (O Teatro e Seu Duplo). Narra que a estréia do idealizador do teatro da crueldade foi formada pelas explicações e defesas de sua poética. O editor Jacques Rivière recusou poemas de Artaud para uma revista e, em seu lugar, decidiu publicar a troca de correspondência em que ele explicava a insatisfação de seus versos.

A aceitação da insuficiência é também a força de Blanchot, que não dá respostas ("as respostas são perguntas com azar"). Formula perguntas intermináveis para exercitar a coerência e enrijecer as dúvidas. Toda dificuldade externa resplandece e recompensa o esforço interior de investigação.

Quando fala de Artaud está fazendo um julgamento de sua teoria: sofrer permite não esquecer, lutar contra a totalidade imediata das aparências significa acolher verdadeiramente a linguagem.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand, 2006, crônicas)

11:01 PM :: Comentários:

MOACYR SCLIAR É O CONVIDADO DO ENTRE NÓS



"Entre nós...", a série de debates mensais da Livraria Cultura apresentada pelo poeta Fabrício Carpinejar e jornalista Rodrigo Breunig, incrementa suas atividades. Em todo encontro, agora um escritor apresentará trechos de seu livro inédito.

O convidado é Moacyr Scliar, que mostrará em primeira mão fragmentos do romance "Os Vendilhões do templo", a ser lançado pela Companhia das Letras. Com entrada franca, a conversa com o autor acontece nesta segunda (17/4), às 19h30, no auditório da livraria no Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033).

Moacyr Scliar, natural de Porto Alegre, em 1937, é formado em medicina, profissão que exerce até hoje. Autor de uma vasta obra que abrange conto, romance, literatura juvenil, crônica e ensaio, recebeu numerosos prêmios, como o Jabuti (1988 e 1993), o APCA (1989) e o Casa de las Americas (1989). Membro da Academia Brasileira de Letras, já teve textos traduzidos para doze idiomas. Várias de suas obras foram adaptadas para o cinema, a televisão e o teatro.

"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano. É uma "meia-roda" viva, entrevista aberta com a participação do público.

3:48 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 10, 2006

Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, 10/4/06



O AMOR É PROSA
O poeta Fabrício Carpinejar autografa hoje livro de crônicas

CARLOS ANDRÉ MOREIRA



Um dos nomes mais significativos da nova geração de poetas nacionais, Fabrício Carpinejar autografa hoje, a partir das 19h30min, sua estréia em prosa ainda com um pé na poesia.

O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 288 páginas, R$ 35), de Fabrício Carpinejar, é uma reunião de 113 crônicas sobre aspectos diferentes do amor, escritas na linguagem lírica de imagens inusitadas característica da poesia do autor.

O lançamento será precedido por um debate com os cronistas David Coimbra e Martha Medeiros e pela leitura de textos feita pelo próprio Carpinejar e pela radialista Kátia Suman. Acostumado à concentração exigida da poesia, na qual cada palavra tem peso diferente e as relações entre os versos são deixadas mais livres à associação do leitor, Carpinejar confessa que penou um pouco até domar a concatenação mais rígida da crônica.

- A prosa é como correr maratona, tem de correr no ritmo certo, se der um pique, tu perde a corrida - comenta o autor.

As crônicas são inéditas em livro, mas já haviam sido publicadas no blog (página pessoal na internet de atualização simplificada) que Carpinejar mantém desde 2003 no endereço www.carpinejar.blogger.com.br. Site feito nas horas vagas mas ao qual Carpinejar tem se dedicado de tal modo que há uma crônica nova a cada dois dias, no máximo.

Os textos de O Amor Esquece de Começar passeiam por diferentes estágios da vida amorosa: o ciúme, o convívio, a conquista, o encantamento, a separação, as manias do homem, as manhas da mulher. Em todos, a prosa do poeta é invadida pela poesia na maneira original de transformar detalhes em conceitos. Como em "Os ouvidos são círios boiando na água. Flutuam em vozes conhecidas para manter a calma" ou "use a memória das roupas mais do que as próprias roupas". Um o-lhar poético permanente que o autor concordou em exercitar na entrevista ao lado. Carpinejar admite que às vezes ficou indeciso se uma crônica não ficaria melhor como poema.

- Acho que sacrifiquei uns bons poemas nesses textos. Mas foi um sacrifício que valeu a pena - define.

"EX-AMOR NÃO EXISTE"

Fabrício Carpinejar aceitou o desafio de responder à seguinte entrevista por e-mail, com respostas breves sobre temas de seu livro: o amor e as formas de cantá-lo

Zero Hora - Ama-se melhor em prosa ou poesia?
Fabrício Carpinejar - A poesia é mais música, fácil de despir. A prosa é mais conversa, fácil de vestir. Eu arrebento os botões da camisa com a poesia e os recolho com a prosa.

ZH - O que dói mais que dor de amor?
Carpinejar - A morte de um filho. Nem sai o grito de tanta dor. Um corpo não é suficiente para dar conta do sofrimento.

ZH - Qual o contrário do amor: ódio ou indiferença?
Carpinejar - Indiferença, que é a iniciação ao desprezo e arrogância. O ódio é um amor desorganizado, reprimido, infantil. A indiferença é a própria ausência de amor. Perde-se a vontade de se apaixonar pelo outro porque se perdeu antes a vontade de se apaixonar por si.

ZH - Existe um ex-amor ou o amor nunca esquece de terminar?
Carpinejar - O amor finge que morre para fazer escândalo. Ele separa para chamar atenção. Ex-amor não existe, o amor fica contigo, existe ex-marido ou ex-mulher, que são amores despersonalizados. Quem já se separou sabe bem o que é desencarnar.

ZH - Qual a melhor das pequenas coisas da vida a dois?
Carpinejar - As tampinhas de leite na pia da cozinha. Tocar os pés no meio da noite. Tomar sorvete sem colher. Pensar no varal fora de casa. Abraçar-se no corredor como uma porta do quarto. Encontrar um brinco no tapete. Brincar de casaco no frio do cinema. Arrumar as gavetas para reencontrar os bilhetes do namoro. Dizer "eu te amo" dormindo. Ir para o trabalho com os farelos do pão grudados no cotovelo. Sair sem querer sapecado de gloss nos lábios.

ZH - Como seria a primeira frase de uma crônica sobre como os homens vêem o amor hoje?
Carpinejar - Era para ser apenas um pote de requeijão. Custou R$ 2,98. Mas na primeira lavada o rótulo descolou. Aquele novo copo pedia mais uma boca na mesa.

Serviço
O QUE: autógrafos de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 288 páginas, R$ 35), de Fabrício Carpinejar, com leitura de trechos e participação de Kátia Suman, Martha Medeiros e David Coimbra.
QUANDO: hoje, às 19h30min
ONDE: Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country (Túlio de Rose, 80, fone 51 3028-4033)


6:20 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 09, 2006

A CONFIANÇA É A FOLHA DE ROSTO
Arte de Wesley Peres

Fabrício Carpinejar



Já é triste encontrar um livro autografado no sebo. O desconsolo de ser recusado pelos pais biológicos. A dedicatória ingênua acreditando na leitura, alheia ao desprezo que lhe será reservada. A data e os nomes evidentes, mal sabendo que um dia seriam revendidos como artigo anônimo. O volume repudiado volta idoso e frágil às livrarias, sem a arrogância de lançamento, aguardando a adoção em nome do preço baixo.

Ainda mais triste do que encontrar um livro autografado no sebo é encontrar um com a folha de rosto arrancada. Um livro autografado é decente perto de um que teve a letra do autor expulsa como erva daninha. Quem vendeu o livro desejou apagar os vestígios do crime, sair impune, não denunciar seu pouco caso. É desonesto porque recusou se envolver. Agrediu a encadernação para não sujar as mãos. Desequilibrou a lombada para preservar a identidade. Tem ciência que agiu com desdém e não se preocupa. Deduz que um pecado escondido não é pecado, que se ninguém viu não existe.

O casamento é a folha de rosto, pode-se dizer que é um preciosismo, mas não é. Quando se quebra a confiança de um casal, seja por uma mentira, seja por uma traição, é penoso restabelecê-la. Requer generosa compreensão. A folha de rosto não muda uma linha do conteúdo do texto, só que altera o jeito de ler a obra. Apesar da criação estar lá intacta, a numeração não ter pulado, a ordem dos parágrafos permanecer idêntica, algo foi cortado com grosseria e precipitação, algo foi cortado e logo o que justificava o início do relacionamento. A integridade fora destruída e invadida.

Ao tirar a folha de rosto, sacrifica-se o território da intimidade. De igual modo, a infidelidade sacrifica o desejo da perfeição que acalenta o par. Abalam-se a confiança mútua, a ingenuidade de que nenhum dos dois vai estragar a relação, de que um irá cuidar do outro. Todo livro é feito para um único leitor de cada vez. Sem a folha de rosto, findam-se a cumplicidade e a reserva do livro fechado. O segredo se transforma em fofoca; a reputação, em suspeita.

Uma vez descolada a folha inicial, a página seguinte guardará a marca da letra, o peso da caneta. Com carvão, se é capaz de decifrar o que foi escrito. O casamento deixará de ser todas as páginas com versos ou narrativa apaixonantes para se converter na fatídica página que foi embora. O erro é mais vaidoso do que as virtudes e questionará inclusive os acertos passados.

Terrível é recuperar a fé quando a esposa ou o marido, a namorada ou o namorado anulou a pessoalidade e negou a fidelidade das palavras.

Preserve a folha de rosto. Ela faz diferença quando desaparece.

10:27 AM :: Comentários:

MAQUIAGEM
Desenho de Pablo Picasso



Recomendo a Teoria da Maquiagem. Gostaria de ter escrito. Não sou eu que inspira a Ana, é ela que me inspira.

10:26 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 08, 2006

AGORA E NA HORA DE NOSSAS MORTES
Ensaísta francês rememora o fim da vida de grandes personalidades

Fabrício Carpinejar
Escritor e jornalista


Mortes imaginárias
Michel Schneider
Girafa
324 páginas, R$ 45

O ensaísta francês Michel Schneider descobriu um filão no gênero biográfico, um subgênero fantasma, quase invisível. Muito mais atraente do que a vida de personalidades. Algo como uma mortegrafia, história de como os escritores morreram. Está ali abarrotando as estantes das livrarias sob títulos como O fim de, Os últimos instantes de e Os últimos dias de.

A morte toma muitas vezes mais tempo do que a vida. Ninguém anseia passar para o outro lado sem antes impressionar. Quantos escritores célebres não elaboraram seu epíteto com uma antecedência profética, a transformar o falecimento num parágrafo lapidar de seus livros? Quantos já não ensaiaram sua morte para que ela seja lembrada como um poema? Quantos se preocuparam com que estaria escrito no obituário em plena saúde?

Em Mortes imaginárias, vencedor do prêmio francês Médicis de 2003, Michel Schneider rememora como foram os desfechos de Michel de Montaigne, Pascal, Kant, Goethe, Puchkin, Balzac, Rilke, Dumas, Nabokov, Truman Capote, entre 36 personagens.

Com sua investigação psicanalítica e detalhismo poético, revira as obras, os diários, os depoimentos de amigos que acompanham o processo e transforma o manancial em um prontuário ficcional. Derrete a cera do museu. Desmistifica as últimas palavras dos escritores e desfaz a inteligência artificial de alguns enterros. ''Não há última palavra para o escritor. Ou melhor, todas as suas palavras parecem ser as últimas''. Tece uma mortalha vívida, entre o drama e a comédia. Caso não fossem as lágrimas obrigatórias, traria risos incontinentes.

A morte não respeita juramentos. Esquecê-la não isenta de vivê-la. Em Mortes imaginárias, sofre-se com Stendhal (Henri Beyle), que desejava perecer longe do público, salvo dos olhares dos curiosos, e desaba teatralmente na calçada parisiense, em ataque de apoplexia no começo da noite. Assiste-se à agonia de pensamento de Pascal e sua ''doença de querer estar sempre doente''. Maníaco pelos detalhes, toda vez que trocava de casaco, descosturava o testamento posto no forro para costurá-lo na nova veste. Enternece-se com a atitude de Alexandre Dumas, que visita o filho ao pressentir seu término e diz: ''Vim morrer em sua casa''.

Schneider alterna a afetividade de experimentado leitor com a intrepidez de crítico; é um fã curado pelo distanciamento. Em certos momentos, exala frieza de legista, em outros é diáfano, lírico e de chispas originais como seu conterrâneo Gaston Bachelard. Pretende a naturalidade do sonho depois de sonhado, enquanto interpretado, para expor suas contradições.

Se os moribundos e herdeiros procuram deixar para a eternidade as virtudes e os efeitos da genialidade, tem uma preferência pelos defeitos enrustidos e fracassos involuntários, pelos detalhes e indiscrições omitidos. Escarafuncha o que é público e delira com o que poderia ter acontecido na miúda cena privada. Cria novas hipóteses para desafiar as certezas, ou ao menos, reequilibrar o peso das verdades na balança depois de especulações seculares. Com o estilo refinado, mesclado de humor e paradoxos, seu texto tem a leveza indiscreta de notas de rodapé. Quando descreve a trajetória do italiano Dino Buzzati, encontra com uma frase a espirituosidade do chiste, ao reunir o casamento e a morte como planos deliberados de vida. ''Em 1961, depois que a mãe morreu, aconteceu uma mudança imperceptível com Buzzati, e, em poucos anos, ele fez duas coisas até então impensáveis: casar e morrer''.

Um dos mitos derrubados é o desenlace de Goethe. Sua derradeira exclamação é conhecida como ''Licht! Licht! (Luz! Luz)'', e transmite uma visão metafórica e iluminada, uma despedida da envergadura de um clássico. Mas a verdadeira afirmação que espocou de sua boca não renderia nenhum bafejo de encantamento e passaria despercebida. Comum aos mortais tal dor nos dentes. É dirigida a sua neta Ottilie e consiste em pedido prosaico: ''Dê-me sua mão''.

A verdadeira agonia não permite a literatura escrever, destinada ao mutismo mais do que aos gorjeios. No mínimo, não oferece tempo para devaneios iluminados. Os floreios ficam por conta de amigos e parentes, que, tomados da áurea de testemunhas do fim, assumem a porção leiga de escritores e exageram os detalhes.

Schneider não é bobo de acreditar que biografia significa imitação da realidade. Desde o princípio, conceitua como invenção e aproveita essa condição híbrida para narrar, por exemplo, a morte de Balzac em três versões. A primeira a partir de relato do poeta Victor Hugo, a segunda extraída de Octave Mirbeau, confidente do pintor Jean Gigoux, amante da esposa de Balzac, e a terceira equivale a um relato do que o Balzac diria de seu final. A ousadia de falar por Balzac pós-morte, tal Brás Cubas de Machado de Assis, é um dos acertos da obra, a questionar a fidelidade das duas confissões anteriores.

A coletânea de ensaios expressa sua condição de contraponto, a abalar a ingenuidade e a fácil credulidade. Trabalha conscientemente inspirado em Vidas imaginárias, de Marcel Schwob, de 1896, romance que recria passagens da vida do pintor Paulo Uccello, poeta Lucrécio e de outras figuras artísticas e históricas e que teve em Jorge Luis Borges um dos seus admiradores mais entusiasmados. ''Um desses livros que eu carrego para quase todo lugar, que acaricio e maltrato como se fizesse parte de mim. Ele é o claro espelho no qual procuro minhas sombrias mortes imaginárias'', confessa o ensaísta francês.

Dos painéis funerários, os que mais emocionam são os de Rilke (natural de Praga, em 1875, e que morreu na Suíça em 1926) e Marina Tsvetaeva (que nasceu em Moscou em 1892 e faleceu em Kazan, em 1941), com o toque pungente do lirismo. Ambos se correspondiam e os capítulos quase se tocam pela dramaticidade e atmosfera lúgubre. Em ambas recriações, ressoam os tubos de órgão de igreja. Poderia dizer que se completam. ''A morte é uma carta'', pontua Michel Schneider. Marina escreve a Rilke quando ele já foi, continua escrevendo mesmo depois dele ter morrido, continua a fazer perguntas. ''Como é escrever aí bem longe, no novo lugar?'' Amor póstumo, ardente e impossível, que não se importa com a ausência de resposta. Sozinha, a viver de biscates em uma União Soviética totalitária e braçal, Marina não consegue superar a idéia do suicídio. Não é um disparate, uma decisão súbita que consuma ao se enforcar em 31 de agosto de 1941. Como ela registra: ''Ninguém vê - ninguém sabe - que há aproximadamente um ano meus olhos procuram um gancho... Há um ano que me esforço em morrer'', escreveu Marina.

Por mais que o autor tente escrever sua morte, não será de sua autoria. A morte é apócrifa. É de ninguém.

* Fabrício Carpinejar é poeta e autor de Cinco Marias e O amor esquece de começar (ambos pela Editora Bertrand Brasil), entre outros.

(Publicado no Jornal do Brasil, caderno Idéias, 8/4/06)

10:10 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 07, 2006



"Uma mulher não suporta a idéia de ser igual a todas; ninguém suportaria. As mulheres não são unânimes; são discordantes entre si. Quantos idiomas morreram pela crença de que as mulheres são uma única mulher?"

CONVITE DE LANÇAMENTO
DO LIVRO "O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR"
EM PORTO ALEGRE (RS)

Bertrand Brasil, crônicas, 2006
Autor: Fabrício Carpinejar
Debate com David Coimbra e Martha Medeiros
Leitura de textos com o autor e Kátia Suman
Quando: segunda (10/4), a partir das 19h30
Onde: Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country
(Tulio de Rose, 80 Tel.: (51) 30284033)

4:47 PM :: Comentários:

Revista 6ª, do Diário de Notícias, um dos principais jornais de Lisboa
Portugal, sexta (7/4/06)





POETA DA LUPA

O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar estará em Lisboa para apresentar a sua primeira edição em Portugal, "Caixa de Sapatos" (Quasi), com o apoio da Fundação Luso-Brasileira e da Embaixada do Brasil. O lançamento da antologia realiza-se na próxima quarta-feira, às 18 e 30, na Fnac Chiado. Diz: "Os meus versos são cadarços de uma árvore". O que imaginou é sua verdadeira memória.

Texto Ana Marques Gastão
Fotos Renata Stoduto

Poeta do mínimo, "doente" da infância e do excesso de memória, mesmo da do futuro, Carpinejar está em Lisboa para lançar, no próximo dia 12 a sua antologia "Caixa de sapatos"(Quasi). Prémio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (2003), Fabrício faz ficção com a poesia, uma "narrativa sussurada".

Numa caixa de sapatos - título da antologia que publica agora em Portugal - , arruma-se o pouco e nela cabe uma metáfora do universo. Que descobrirá o leitor português dentro da sua caixa de sapatos?
Uma caixa de sapatos representa o que cabe na palma de uma mão. Ao envelhecer, procuramos nos despertencer, nos despojar, vamos diminuindo as malas, as bagagens, o trânsito, o próprio espaço do corpo. Ficamos reduzidos ao essencial. A partir da lembrança do desejo, pode reconstituir-se todo o desejo, arder sem querer, sem data e alarme. Numa pequena caixa de papelão, há carvões da memória que julgamos parados mas que se acendem com a respiração próxima. Uma caixa de sapatos representa um auto-roubo. Furtamos de nossa própria casa para dar um sentido pessoal a existência, um modo de justificar que não vivemos em vão, que preservamos uma reserva de intimidade e de desconhecido.

Trata-se, então, de uma reconstrução fragmentária da memória?
Pode vir a ser um maço de cartas, uma pequena fotografia da infância, uma letra ilegível do avô, uma bússola afogada, um relógio amputado, tanto faz, o que importa é que nossos fragmentos carregam a unidade e a força do conjunto. Preparei uma caixa de sapatos com meus poemas. Meus versos são cadarços de uma árvore. Cadarços que foram balanços de alguma menina, balanços de algum ouvido mais atento na janela. Eu sou minhas ruínas. Minhas ruínas têm telhado de ervas. Não escolho o lugar, o lugar me escolhe. Cresço em qualquer solo. Especialmente na boca de um pássaro.

Esta antologia constitui-se como uma recolha reelaborada de quatro livros, unidos por um fio narrativo. Considera-a um balanço, o de um poeta jovem, todavia já vencedor do Prémio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Poesia: um exercício ou uma revelação?
Uma revelação. Procuro desaparecer para que o texto seja visível. No amor e na literatura, deve ter-se a humildade de vencer o orgulho e a vaidade. O poeta não é o que fala, mas o que escuta errado. Ele escuta o batimento, não a voz. Ele escuta o tombo, não o voo. Ele escuta a alma das coisas antes do corpo sonoro. A precipitação, não a consequência. Eu exercito o anonimato. Eu me antecipo. Não há como fazer o fogo recuar.

Reoordenou o seu percurso poético?
Minha proposta era reescrever meus livros em uma outra ordem, fazê-los vibrar diferentes, sem o enredo que unifica minhas obras como capítulos de um romance versificado. Eu queria manter a poesia mais do que o poema, a atmosfera de encantamento e surpresa, de volúpia e procura, de perda e resistência. Eu sou tantos que não me reconheço. Preciso de alguém para me identificar. Eu preciso sair de mim para ser mais. Não há idade para me definir. A vida não pergunta a idade antes de bater. Há toda uma eternidade para me acusar. Espero ser condenado.

Há, então, um lugar para uma espécie de heteronímia?
Fernando Pessoa teve que se multiplicar para continuar único. Eu tive que me dividir para sustentar o mesmo. Eu sou como uma criança que nunca largou seu amigo imaginário (a poesia). Ele cresceu, amadureceu e ficou, eu deixei de existir.

Existe uma faceta romanesca, ficcional e efabulatória na sua poesia que não deixa de fora o elegíaco e é fértil no aforismo...
Procuro conciliar fábula e aforismo, ser simples, escrever como quem conversa e conta uma história, sem a pretensão de ser mais inteligente e sensível do que o leitor. Anseio por uma música falada. O poema é mais suave do que uma canção, algo como um assobio. Não quero ser reparado, mas que o leitor tenha a noção de que está se lendo. Aprendi a errar dentro do texto. Quem sempre acerta não é humano. Aproximo-me do falível, da falha, da compreensão; o poema como um acto extremo de perdão. Não me perdoo por não ser como eu penso, por nunca chegar onde sonhei, por ter cansado no meio do caminho, por ter desistido. Perdoar é permitir o improviso, a estranheza necessária, a alegria imprevista.

Assume uma dimensão, de alguma forma, diarística na sua obra?
Procuro essa inclinação diarística. Escrevo o diário do que não fui, o que imaginei é minha verdadeira memória. O que o homem imaginou é também vivência, biografia. O real começa no pensamento, não é somente depois dele.

Bachelard fala da lupa do botânico, referindo-se a uma infância que devolve o olhar engrandecedor da criança. Carpinejar é um poeta da lupa?
Bonito: poeta da lupa. Meu irmão queimava formigas com lupa. Eu um dia tirei o vidro da lupa e libertei o formigueiro da coleira da luz. Parto da crença de que as palavras desnecessárias são as mais importantes, os detalhes distraídos são os mais decisivos, que uma mania se expressa melhor do que a beleza. Nunca me curei da infância, meus olhos continuam deitados como um beliche. Eu prefiro o ínfimo, a intimidade do que é desperdiçado. Sou um catador do mínimo, do que não serve ao jornalismo. Um observador indiscreto. Fico a escutar as pessoas por aquilo que elas não falam. Aquilo que elas querem esconder. O que elas pretendem esconder é o meu poema.

A sua poesia viaja da infância à velhice. Chega a antecipá-la em Terceira Sede (escrito em 2045, aos 72 anos). Como se recorda da sua infância, filho de poetas, Maria Carpi e Carlos Nejar, a do menino que «falava torto sem o erre», e se dizia «feio como uma assombração»?
Não melhorei meus defeitos, apenas aprendi a conviver com eles. Minha autocrítica é terrível, sou o primeiro a me avacalhar. Tenho a vocação para me delatar. Recebi os mais terríveis apelidos na infância. A primeira regra é nunca perguntar por que te deram o apelido - a resposta pode ser bem pior do que se esperava. Eu passei a rir de mim antes de qualquer piada. Passei a rir sozinho de mim. Falava torto e comecei a apressar as palavras para não ser notado. Apressei tanto as palavras que elas viraram música.

Teve uma infância solitária, então, que lhe deu uma singularidade nascida de uma intolerância com o que é banal?
Minha infância foi de uma solidão húmida, de Inverno e lenha no pátio. Em casa, não havia paredes, mas prateleiras. Todo livro era sublinhado pela mãe e pelo pai. Iniciei a sublinhar para me corresponder com eles. Toda obra virou as cartas que mandava e as cartas que recebia. Minha infância foi a velhice que Deus pôde me dar. Na infância, o excesso de imaginação. Na maturidade, o excesso de memória. Os dois extremos se tocam e se misturam. Minha obra se faz do fim ao início, a procurar o ventre.

Como entende o envelhecimento: como o naufrágio de quem «tem medo de dormir na luz» e se confronta com o amor que se vai?
Minha ignorância nunca será maior do que o conhecimento e isso salva a minha intuição. Eu cansei de ver o velho estigmatizado, rejuvenescido em propagandas, como se o velho tivesse vergonha de envelhecer e só prestasse se maquiado, andando de jet ski ou descendo escorregador. Recuso a aceitar uma idade tão luminosa e sábia como uma caricatura sombria e deformada. Eu me envergonharia se não envelhecesse, se nunca aceitasse minha condição passageira, se fosse imutável e preso a uma única opinião. Respeito os limites - eles me ensinam a lidar com o que sou. Não me suportaria infinito. Envelhecer é se encantar com as faíscas. Dormir mais cedo para acordar o dia, senão o dia se atrasa para o trabalho.

«Descobre-se o amor/na iminência de perdê-lo», escreve. O amor é «esse dar-se sem retorno ao desejo sem limite» de que fala Blanchot?
O amor nunca parte por inteiro. Ele fica mais forte com as sobras. A ausência é ainda carne. Discordo de Blanchot: o desejo pede unicamente a estreiteza de um corpo, a pequena extensão de uma barca, e não depende do mundo para sobreviver. Todo o dar-se exige retorno. O retorno da própria consciência. Ninguém ama sem se recolher, sem se contrair, sem recuar, sem antes soluçar alto, sem mastigar o próprio grito. O que eu escrevi é para preservar um amor que já perdi ou para ganhar um amor que já era meu. Minha cobardia me impele à coragem. Quando temos medo do medo, somos obrigados a não ter medo.

E, no entanto, o amor surge na sua obra não só na perspectiva jubilatória, mas também como vertigem da incomunicabilidade, do tédio, do terror do hábito («A aliança já é um osso no dedo»)...
Amar uma pessoa é o caminho mais rápido para se esquecer. Amamos os hábitos, não quem está atrás deles. Tento mostrar que o amor somente pode ser afirmado se houver também um desconhecimento, uma reserva de estranheza, entre o casal. O amor tem que ser lento, como um rio esculpindo as margens. Ninguém diminui a solidão com o casamento. A solidão é solteira e por toda a vida. Com o casamento, nós diminuímos o isolamento e a solidão fica habitável.

Em Biografia de uma Árvore, Dr. Ossian recebe de Avalor aquilo que julgava ser a orelha de uma árvore: um livro que guarda a voz de Deus. Que Deus é o seu e como o confronta com o absurdo, a injustiça?
Não há um Deus meu. Ele não é um objeto rezado. Há Deus e uma liberdade que é responsabilidade. Existe a crença de que ser livre é fazer o que quiser. Ser livre é zelar, guardar, proteger. Eu sou livre com minha mulher e meus filhos na medida em que busco sê-los. A independência é se educar para o convívio, se faz na dependência amorosa. Eu confronto a injustiça em minha própria casa. Meu mundo são as três quadras que meu olhar apanha da janela.

Não é um atrevimento demitir Deus com justa causa como faz nesse livro (risos)?
Não deixa de ser um atrevimento, mas demitir Deus também pode ser lido como tirá-lo do serviço de oração, do turno funcional, da omnisciência, da omnipotência, da responsabilidade de que ele faz e resolve tudo. Deus é um bode expiatório perfeito para nossa falta de acção. Deus não poderia ter nome, para não ser domesticado.

A morte é, por outro lado, «nó firme» no seu pescoço, algo de fetal, perturbador, mas simultaneamente quase afável...
A morte não é uma violência. A vida é uma violência. A morte amadurece em nós, desde o princípio, adiantamos ou a retardamos de acordo com a vontade do corpo. A morte tem um fuso diferente. Ela não conta o tempo, mas a intensidade do que se viveu.

Escreve que o pampa é o seu pátio. Sendo gaúcho, a sua poesia foge ao regional para se universalizar. Até que ponto a paisagem traça o itinerário de alguém que lança um desafio ao nada da evidência?
Nunca houve separação entre o pátio e o pampa quando pequeno. A paisagem é meu modo de inclinar a audição. A terra é mar que se abre. As árvores funcionam como sinaleiras da lonjura. Eu combinei esse lado ancestral com uma urgente urbanidade. Falo do ônibus, do casamento, do bar. Tanto que vejo meus livros como a meditação sobre um único núcleo: a família. Ali está toda a sociedade, os nervos e o humor, a impossibilidade e a herança a ser dilapidada. O que se carrega da família influencia até o que não somos.

Chega a Portugal com o quê na bagagem?
Com o corpo e o mínimo de roupas para não causar escândalo. Tenho também uma foto do poeta São Francisco de Assis no bolso. Ele é meu padrinho. Na primeira série, a professora avisou a minha mãe que eu não iria me alfabetizar, que era um caso perdido. Ela acertou na segunda hipótese, errou na primeira. Em 4 de outubro, dia da poesia e de São Francisco, depois de sucessivas reprovações, no estertor do ano lectivo, eu consegui minha primeira nota sem caneta vermelha. Todo dia eu chorava na caixa d´água, em cima do telhado. Neste dia, eu colhi uvas para entregar a minha mãe, que me ensinou a montar palavras como um quebra-cabeça.

A questão já é lugar-comum. Mas que distâncias cumpre esbater entre Portugal e Brasil? Esta não é uma «viagem cancelada», pois não?
A poesia portuguesa é grande, uma das melhores do mundo. A poesia contemporânea brasileira está em seu melhor momento. Há alternativas editoriais de intercâmbio como Inimigo Rumor, Storm e editoras se esforçando de ambos os lados como a Quasi. Percebo um interesse mútuo, uma curiosidade de diminuir as amarras e mostrar que não será um sotaque ou uma moeda que vai nos diferenciar. Portugal é um irmão, não um colonizador.

Há um lado profundamente imagético na sua escrita que aprende a desescrever. Dialogam como coloquialidade e erudição?
Minha erudição serve para desbastar, destruir. Que a minha literatura seja modesta e sincera, que não dependa de aspas para sobreviver. Não pedi emprestada nenhuma grandeza. Poesia não é complicar, mas interrogar com surpresa. A imagem é o pensamento puro. Eu me comunicava por imagens, disciplinei-me a me comunicar por uma filosofia discreta. Depois de escrever, inicia-se a travessia mais árdua: desescrever. Renunciar a autoria para ser poema.

O poeta nunca é o verdadeiro negador? Na medida em que deseja revigorar as palavras, é um falso niilista?
Eu minto com sinceridade. Minha mentira é excesso de contigente da imaginação. Na adolescência, eu criava enredos e autores que não nasceram. Um dia eles vão nascer, à revelia do que disse. A mentira antecipa a verdade. Quem conhece a esperança, não precisa ter fé. Eu sou linguagem principalmente quando não falo.

Cioran diz que «a poesia é o absoluto das nossas horas negativas». É o quê, para si, a poesia?
A poesia não é o absoluto e essa afirmação acaba confinando o gênero a uma maldição de eleitos. Poesia não é exclusão, mas doação. Todos se comunicam por poesia. No futebol, lençol e janelinha são metáforas. Tudo se faz por metáfora, chiste de imagens. A poesia escrita é que mete pânico, porque criaram a imagem de poeta deprimido e antisocial. Cabe nos aproximar da poesia falada para superar preconceitos, mostrar que o poema é mais do que o livro, porém uma interpretação do mundo, o alfabeto da água. Contrariando as 'horas negativas', Cântico dos Cânticos é uma poema alegre. Assim como os versos de São João da Cruz. O desespero não chega nem perto da electricidade da alegria.

Escreveu que não sabe fechar um livro ou vedar uma frase. E esta entrevista, fecha-se como?
Ela começa fora de nós. Como uma chama que aparentemente se apaga com os dedos, mas fica impressa na mão.

1:49 PM :: Comentários:

QUINTA (6/4), 16h30, GUAÍBA, PORTO ALEGRE

Fabrício Carpinejar



Eu cheguei às 16h30 na Usina do Gasômetro para ser fotografado pelo jornal Zero Hora. O vento estava morno, fazia o rosto vibrar entre as cordas dos cabelos. Um senhor comentava para três brigadianos a cavalo: - ela diz que a água está quentinha. "A água está quentinha!"

Ela é uma menina bonita, sei apenas isso até agora, que largou na margem o moletom rosa, a bolsa de pano e as sandálias Azaléia e decidiu mergulhar no Rio Guaíba poluído e perigoso para o banho. Foi de jeans e camiseta. A área é pedregosa e cheia de buracos. Ela não estava interessada em riscos. Ficou boiando de costas, perto de um bar flutuante, em que conversava com os freqüentadores. Os passantes começaram a brincar e apontar para a excentricidade do entardecer, como se ela fosse um avião voando rente dos edifícios. Com malícia, alguns queriam ver como ela deixaria a água. Com medo da tragédia, muitos pediam para que ela saísse logo da água.

Um dos brigadianos disse para um grupo de curiosos: "deixa ela lá". Ouvi bem, mas não entendia o que estava acontecendo. As patas dos cavalos separando a grama, girando nas encostas. Os brigadianos não se aproximaram dela, não a coibiram, não gritaram para que voltasse, não avisaram dos riscos. Acharam natural, assim como é natural enrolar papel seda na beira das pedras, assim como é natural jogar sujeira no rio, assim como é natural esperar o pôr-do-sol. A menina bonita era uma banalidade que não merecia repreensão e resgate. Não merecia sequer um telefonema. Não merecia.

O banho durou vinte minutos. Ela de repente esticou a mão esquerda, onde poderia ter uma aliança se pudesse casar um dia. Ela naufragou rapidamente e sumiu na sucção escura. Dois homens pularam na água e rodearam o local da desaparição. Deram braçadas desesperadas, em voltas. Não havia mais ligação da carne dela com a superfície.

Percebendo o tumulto, os brigadianos vieram para socorrer. Mas era tarde. Sempre é tarde para descobrir que é tarde.

Restava a sua bolsa na terra. As anotações do curso de informática que estava fazendo, o celular com a última ligação para sua tia, os documentos e adesivos de adolescente. Até a carteira de identidade era uma cópia xerox da verdadeira identidade, talvez perdida. Seu nome era Tatiana Pereira, 16 anos. Era. A menina bonita que sorria da travessura na espuma voltou de bruços para areia, inchada, triste e dolorida. Diferente. Infelizmente morta. Não irá ao seu próprio aniversário depois da Páscoa.

Toda dia acordarei com a certeza de que poderia ter feito mais do que olhar. Poderia ter sido um pouco mais do que omissão de viver o que me interessa e não se importar com os outros.

10:59 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 05, 2006

HOMEM ROSA, MULHER AZUL
Pintura de Pablo Picasso

Fabrício Carpinejar



O homem é ensinado a ser homem se opondo à mulher. Tudo o que é de mulher não é do homem. Tudo o que é do homem não é da mulher. Joga-se o menino contra as meninas, não são eles que não se dão bem, são os pais e próximos que os diferenciam de modo ostensivo. Os preconceitos são invisíveis e não menos duros. Há brincadeiras para cada um dos sexos na escola. Futebol é para meninos, bonecas para meninas. Não poderia brincar de casinha, que alguma professora já me dizia que meu lugar era no campinho. Levar carrinho de bebê, então, nem se fala (como se o homem não pudesse exercitar a paternidade logo cedo e fosse exclusividade da garota).

Formam-se rodas, panelinhas e grupos por gênero, em que é aconselhável não se misturar. Com o pretexto de evitar a malícia e fortalecer identidades, corta-se os cabelos da boca. Segredo de homem, segredo de mulher. Menino mija de pé, menina mija sentada. Desde o começo, o homem entende que para ser homem não pode ser mulher. Só isso. Não ensinam o que é ser homem, ensinam o que não é ser homem. Ele entende errado, entende a aparência de ser homem, ao invés de entender que para ser homem deve ser com a mulher.

É incitado a se separar, a brigar, a teimar, a não pintar as unhas, a fazer programas diferentes, a não gostar de lojas, a não chorar em público, a não conversar demais, a não expor seus sentimentos, a ser forte e frio, a carregar peso, a brigar com os punhos. Ser homem condicionou-se a uma oposição à mulher, cristalizado na figura de adversário feminino. Eu não podia jogar amarelinha porque não era coisa de homem. Eu não podia jogar cinco marias porque não era coisa de homem. Até dançar, não me caía bem. Não notamos, mas criamos homens destinados a odiar a mulher. Não para amar naturalmente a mulher. Destinados a trapacear, a fingir, a mentir, a trair, a fugir das verdades quando elas pedem uma mudança. O depois é o antes. Foram criados para se esconder, para se separar, para evitar os laços mais estreitos e a familiaridade dos costumes. Formados para não se envolver. Recebem advertência vitalícia e implícita de que não é possível se aproximar muito dos gostos e predileções femininas, de que é preciso manter distância, sob a pena de colocar em risco sua masculinidade.

O homem tem dificuldades de se relacionar mais do que dificuldades de relacionamento. Está sempre sendo julgado pela sua conduta. Se altera seu figurino e anda mais à vontade, já começa o zunido de que trocou de sexo. Aceita-se papéis misóginos sem perceber, aceita-se que há apenas dois banheiros e duas vidas diferentes para entrar e seguir.

As fronteiras começam antes do nascimento, na separação do enxoval azul do rosa. Desde quando o homem não é rosa e a mulher não é azul?

11:16 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 03, 2006

NOVO AMOR
Pintura de Amedeo Modigliani

Fabrício Carpinejar



Um novo amor desorganiza a casa. Não se acredita no que está vivendo para se acreditar mais. A reação inicial é a da incredulidade: ele não gosta de mim, é só amizade, não estamos juntos. Mas dentro ressoa o contrário: ele gosta de mim, é mais do que amizade, já estamos juntos. Os pensamentos brincam de esconde-esconde. Esconder o que se sente para os próximos, mas mostrar para si o que se conquistou. Jogo de convencimento, devagar e sensível. Logo bate a covardia: seremos enganados, não dará certo. Em seguida, a coragem revida: ele é sincero, dará certo.

Somos nossos piores amigos, nossos melhores conselheiros. É uma insegurança tensa. Será que ele está pensando em mim? Será que ele me deseja a ponto de não fazer outra coisa? Não se admite experimentar sozinho o estado de paixão. Há uma gana pela cumplicidade. Não se entra na briga sem a recompensa de se descobrir acompanhada.

A comparação torna-se inevitável. Fica-se a sondar sua intimidade e estudar seus sinais e caligrafia. Em algum momento, deve ter deixado claro que me ama e se busca a confirmação. Revisam-se as cartas, as mensagens, os recados. Mas não há ajuda, não há clareza no amor, tudo é falado com ambigüidade. Não se arriscam certezas. As certezas são duras e frias. As certezas agridem. O que ele escreveu pode significar ternura. Não significa que está a fim.

Flutua-se no balbucio, no nervosismo até o próximo encontro, em que será possível identificar sua intenção. Mas nenhum encontro futuro vai assegurar o amor. A convivência não esgota o desconhecido.

Fica-se a relembrar a ordem das palavras ditas, inclusive a ordem das palavras não-ditas. Evoca-se a seqüência das risadas e a confusão dos gemidos. São refeitas as contas, muda-se o método de enumerar e não se chega a nenhuma conclusão. Resta o mesmo resultado, a mesma indefinição infantil. Ele me ama ou não me ama? A impressão é que emburrecemos progressivamente, nada presta ou nos prende. Dispersivos, desenhamos apenas corações, florzinhas, estrelas e chapéus nos papéis amarelos. Esquece-se o vocabulário. Pioramos o raciocínio desde que se tentou definir o amor. Já estamos sofrendo antes mesmo de amar.

Fazemos de conta que ele não existe para se surpreender depois. Fingimos que ele não entrou em nossa vida para suspirar com sua aparição. Guardamos sua foto no nosso quarto, voamos para sala e não agüentamos, voltamos para vê-la de novo, para confrontá-la com nossa imaginação. E dormiremos cedo para enganar a fome.

7:58 PM :: Comentários:


Domingo, Abril 02, 2006

ESTADO DE SÃO SAULO, CADERNO 2, página 7, 2/04/06:

UMA BIOGRAFIA ESQUIVA COMO O POETA
Os Sapatos de Orfeu, sobre Drummond, é relançada e aumenta ainda mais o mistério a respeito da vida do escritor mineiro

Fabrício Carpinejar
Especial para o Estado




A poesia cura. É a palavra de cardíaco do ensaísta, jornalista e professor mineiro José Maria Cançado, 53 anos. Após passar por um transplante de coração, começou a escrever poemas que tematizavam sua recuperação e a sensação miraculosa e estranha de ter uma segunda vida. O resultado está no livro O Transplante é um Baião-de-dois. "Na UTI, não era mais o Zé, mas um outro, coração anônimo, generoso e vagabundo", lembra. Já em sua primeira vida, o verso o inspirou como leitor privilegiado. Escreveu até hoje a única biografia de Carlos Drummond de Andrade, agora relançada pela editora Globo, treze anos depois de sua primeira edição. Dividida em três partes, Os Sapatos de Orfeu (367 páginas, R$ 45) é biografia serena e sugestiva, calcada na leveza narrativa, pairando acima da erudição opinativa e da análise dos poemas. O escritor supera as dificuldades impostas pela personalidade reservada, introspectiva, que estabelecia limites para as amizades e para exposição de sua intimidade. Escapa do convencional, que seria explicar a vida pelos versos ou legendar os acontecimentos com poemas. Conserva a independência entre o fluxo da escrita e da história, aclarando eventualmente os pontos de intersecção. É um volume que cresce na subjetividade, na descrição espiritual de cenas e reminiscências, no talento de Cançado em captar o não-dito.

José Maria Cançado radiografou as várias épocas de Drummond, com a vantagem de ter escrito as memórias de Pedro Nava (Memórias Videntes do Brasil), contemporâneo e colega do poeta. Acompanha amizades desafiadoras com Mario de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral, entre outros, e explica os impasses e as encruzilhadas da poesia drummondiana, como o surgimento do movimento concretista nos anos 50 que o deixou em segundo plano e o levou à recomposição de suas forças com A Lição das Coisas; ou a sua aproximação do Partido Comunista e seu rompimento depois de sofrer censura. Ao mesmo tempo, mostra a duplicidade particular. Drummond manteve relação estável com amante por trinta anos, e não parecia sofrer crise de consciência com o adultério diante de sua mulher Dolores. Drummond surge ainda mais misterioso após Os Sapatos de Orfeu, que não deseja esgotar a exploração do minério. As adversidades de Cançado foram suas virtudes. Para compensar as lacunas, cumpriu uma biografia à imagem e semelhança do temperamento de Drummond: de lado, esquivo, de passadas mais rápidas do que o próprio corpo. Se não retirou a pedra do caminho, não foi soterrada por ela. Abriu a vida vigiada e contida do autor de Claro Enigma, que se torna menos indevassável e impossível de ser descoberta a partir de agora. Derrubou uma porta trancada por dentro, de chave extraviada.

Em entrevista ao Estado, José Maria Cançado, internado no Hospital Felício Rocho, de Belo Horizonte, ainda sob cuidados médicos em função do transplante, discute os pontos mais polêmicos do seu livro.

Os Sapatos de Orfeu é relançado depois de treze anos. Houve pressão para mudança de dados?
Embora seja biografia, gênero que é tomado como demônio, o livro é um companheiro de Drummond. A única coisa que enfrentei é o desconforto da família. O principal problema é que não tomei a benção com os herdeiros. Fiz de propósito, sacrificaria a isenção e a independência. Lamento que a família não cedeu nenhuma foto, que é uma forma perversa de privatização do poeta.

O incômodo se deve às amantes de Drummond, apresentadas no livro?
Pode ser, mas as amantes faziam parte da rotina do poeta e de sua compreensão de família.

Sem o acesso às fotografias, o sr. encontrou no detalhismo da descrição uma maneira de compensar as imagens?
Sim, houve a migração do visível para a escrita o tempo todo. E a escrita é mais coerente com o rosto de Drummond, sempre de silhueta.

Drummond não é homem para ser visto de frente, mas de lado?
Perfeito, ele era esquivo, atirado para frente, dono de uma passada larga. Estava fugindo em tempo integral. Só que sua fuga era também procura.

Quatro irmãos de Drummond morreram antes de completar dois anos. A morte ameaçava o poeta desde a infância? Ele se sentia meio que ocupando um lugar alheio, uma vida alheia?
Acho que não estava ameaçado, até porque tinha uma relação privilegiada com sua mãe. Foi o menino que escapou da morte, a superação do princípio preservou sua saúde depois, fortaleceu sua resistência. Drummond escolheu sua morte. Deu-se uma morte doze dias depois do falecimento da filha Maria Julieta. Não havia mais o que fazer, assim acreditava. Procurou uma morte no sentido dramático. Deixou de tomar remédios.

O sr. teve algum encontro com Drummond?
Drummond foi mais uma paisagem mental em minha vida. Meu único encontro com ele foi decepcionante, mas não deve ser exclusividade minha. Aconteceu na Livraria Francesa, na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, por volta de 1983. Trocamos cumprimentos e acenos - difícil considerar aquilo uma conversa. Bastava chegar perto dele, que se portava como vítima de atentado. Conto no livro um abraço efusivo que Antonio Candido deu nele e que o atormentou, como se fosse um estupro. Ele falava sem parar para que o interlocutor não falasse. Falava para impedir a conversa. Não se podia perguntar nada, não deixava. Não era autoritarismo, mas timidez. O absolutismo da retração destrava o autor.

Mario Faustino advertiu Drummond na década de 50 da falta de rigor de sua atividade crítica, que elogiava todos sem distinção. Ele realmente não exagerou na política de boa vizinhança? Isso indicava sua avidez por unanimidade?
Sim, acredito que exagerou. Não se ficava sabendo qual o valor de uma obra para ele, pois confirmava e elogiava o interlocutor sem hierarquia. O inferno era o outro, tinha medo de levantar polêmicas, de desagradar. A escolha ensina, a escolha é pedagógica, Drummond escolheu, mas não quis explicar. Parecia uma pedra negra, monolítica, impenetrável. Sua presença pública é um dos mistérios que não comigo desvendar. Apesar de ser a figura mais conhecida da poesia brasileira, é que menos se expôs fora dos versos. Essa contradição fez com que se abstivesse de uma discussão mais séria da poesia. É um ponto que Faustino tinha razão. A correspondência literária de Carlos Drummond de Andrade é mesmo miúda e apática.

Drummond teve uma capacidade camaleônica de se ajustar às mudanças culturais e diferentes épocas e tendências. Quando foi deflagrado o concretismo, a crítica insinuou que ele havia virado passado, porém ele encontrou um jeito de aplicar característica do movimento em sua poética. Isso é um dos pontos que justificam sua permanência?
Na adaptação não havia traço de oportunismo, ela revela astúcia de cena literária. Pegava a bola da vez para continuar o jogo dele. No caso do concretismo, absorveu procedimentos e testou em sua poesia. Jamais mudou seu DNA, a aceitação do mundo e o amor desabrido, e sim o aperfeiçoava constantemente. Reagia com facilidade, dono de intuição forte e privilegiada, e sempre foi muito bem informado.

O que ameaçava Drummond?
Não sei, nota-se uma grande ameaça sempre. Como se o céu fosse desabar de uma hora para outra em sua cabeça. Drummond talvez guardou a sensação do céu de Itabira, rebaixado, próximo demais para seguir uma vida normal sem vigília. Se em Pedro Nava tudo é distensão, vôo, em Drummond, tudo é empedrado, contração.

Como biógrafo, não pôde revelar a preferência por algum livro do Drummond, assim como comentarista esportivo não abre o seu time. Entre nós, qual é sua obra favorita?
Minha escolha é convencional: Claro Enigma. Li em 1965, com estupor. Ainda estou fazendo loucuras, como a literatura, desde então. Eu não me entenderia sem Drummond.

A poesia de Drummond ajudou o sr. ou o atrapalhou com as mulheres?
Hoje me ajuda, no sentido de compreensão do conflito. A sombra de Drummond tomou minha mão. Na vida de seus versos, é constante o paradoxo, o jeito brigado, a resistência, o refluxo da consciência. Nada é conquistado sem esforço.

Drummond se deu bem com seus contemporâneos, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, entretanto, demonstra que a amizade e admiração tinham um limite. Ele nunca fez a reverência a nenhum outro poeta, a ponto de dizer que gostaria de ser igual?
No Brasil, não. De jeito nenhum se comparava. No estrangeiro, apreciava Paul Valéry, grande poeta de segunda na minha avaliação.

A ausência de reverência a um outro autor no seu país não demonstra ambição?
Sim, Drummond foi ambicioso, titânico, topetudo. Orgulhoso de sua poesia. Vivia na esgrima de seus versos sem folga. Quis ser o grande poeta, agia como um Prometeu, de carga visionária.

A maioria dos poetas acredita que a ambição é ruim, percebe-se o franco elogio à modéstia e ao despojamento, mas pode ser boa no sentido de orientar um trabalho mais alentado e sério?
Não há nenhum despojamento na poesia. O poeta acredita para fazer acreditar. Drummond não jogava nada fora, nenhuma parte de si, aproveitava tudo. O prazer está não em entender, mas tentar entender. A poesia é a expressão das experiências que não foram concluídas.

Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e escritor, autor de Caixa de Sapatos, Como no Céu/Livro de Visitas e O Amor Esquece de Começar, coletânea de crônicas (Bertrand Brasil)


CANO EM BORGES



"Carlos Drummond de Andrade, nas vezes em que esteve em Buenos Aires, sempre encontrou um jeito de se desvencilhar de um encontro com Jorge Luis Borges. Numa ocasião o encontro chegou até ser marcado pelo genro de Drummond, Manuel Graña. Havia uma expectativa quase solene com relação ao momento em que o autor de El Aleph e o de A Máquina do Mundo se vissem um diante do outro. Mas Drummond faltou ao encontro (resolveu em cima da hora não comparecer) e deixou Borges esperando num café de Buenos Aires."

(Trecho da biografia Os Sapatos de Orfeu, de José Maria Cançado)

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