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Fabrício Carpinejar


 

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Segunda-feira, Maio 29, 2006

5 COISINHAS PARA DIZER AO SEU FILHO
Pintura de Adolphe-William Bouguereau

Fabrício Carpinejar



1) Dorme com os anjos e depois pede para o anjo passar em meus sonhos
Meus filhos não fecham os olhos sem essa frase, é um ritual como fungar no pescoço. Dormir com os anjos ainda é pouco. Deve-se pedir que eles falem com os anjos e percebam que são responsáveis também pelos nossos sonhos. Assim entenderão que um sonho é vizinho do outro, como seus quartos são vizinhos do meu. Um dia Vicente disse que ficou muito tempo com os anjos na gangorra e esqueceu de avisar que eu o estava esperando.

2) Vamos arrumar o quarto juntos
Não acredito que a criança deve arrumar tudo sozinha, qual é a graça? A criança, quando vai organizar o quarto, encontra outras possibilidades de brincar. O pai ou a mãe podem descobrir o que ela mais gosta, propor novos sentidos aos brinquedos, construir parques a partir dos destroços e conhecer a evolução de sua imaginação e linguagem.

3) Contar histórias para acordar
Filho deseja que os pais contem histórias justamente para não dormir, para acordar sua sensibilidade. É momento de fazer o fantoches de vozes. O teatro das pausas. Dublar bichos e personagens. Ele pede para contar novamente a mesma história porque já descobriu que é impossível repetir. O amor não se repete, sempre encontra um jeito de ser original.

4) Não esquece o casaco
Isso é uma maneira de dizer: não esquece do meu abraço. A criança lembra do frio e volta para aquele aperto perfumado. Toda despedida é um ensaio para o regresso. Minha mão não nasceu para o aceno, nasceu para ser um cinto ou um suspensório.

5) Eu te amo muito muito muito que desaprendi a contar
Para um filho não definir a contagem do amor é um alívio. Sentimento não tem tamanho, mas valor. Dependendo do silêncio do filho, ele está retribuindo sua declaração. Uma criança fica quieta para mastigar sua vontade de amar. Aprendeu que não se fala de boca cheia.

Fabrício Carpinejar, poeta, jornalista e professor da Unisinos. Autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006). Pai de Mariana, 12 anos, e Vicente, quatro, adora "colecionar álbuns de figurinhas para completar os espaços em branco com as minhas mãos e as dos filhos"

(Publicado no jornal ZERO HORA, caderno MEU FILHO
Porto Alegre, 29 de maio de 2006. Edição nº 14886)

8:08 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 28, 2006

NAMORANDO MULHER COM FILHO
Pintura de Klimt

Fabrício Carpinejar



Namorar mulher separada com filhos já foi visto como uma dificuldade. Seria complicado conquistar a criança, conviver com o outro pai, ter um cantinho para namorar sozinho. A criança era recebida como um problema, uma restrição à liberdade e à intimidade. A suspeita é que ela não estava procurando um namorado, porém um pai para seu pequeno.

Isso mudou. Não tenho dúvida de que namorar mulher com filho pode ser muito melhor do que namorar mulher sem filho.

A mulher com filho aproveita seu espaço. Responsável para fora, e possivelmente louca e criativa com você. Ela valoriza cada ida a um restaurante como se fosse uma viagem ao exterior. Não precisa bater ponto na balada, para dizer que está feliz. Encontra o contentamento num café da manhã ou em um filme no sofá.

Não bancará a mimada ou começará discussões tolas sobre se está bonita ou não, se está gorda ou o espelho do provador é que emagrece. Não se endividará do futuro, supera as adversidades com humor. Tem a vaidade da autocrítica. Consegue ser surpreendente com as banalidades, não está comprometida em impressionar, e sim em ser verdadeira. Descobriu que a verdade é mais sedutora do que a mentira. Interessada em repartir o prazer, correr as pernas debaixo da mesa, fazer gafe acompanhada para contar às amigas. Reconhece o valor de uma lingerie preta, pois usa em casa um pijama gasto. Ela será bem solta na cama, plural, não sofrerá pudor em confessar fantasias, não ficará transando consigo mesma. As mãos do homem serão seus seios.

Abrirá sua memória com a habilidade de vestir fantoches, falará com franqueza de quem consegue acalmar os pesadelos do filho. Ela vai trabalhar, cuidar da escola e da casa, do almoço e das contas, e nunca reclamará que carece de tempo para sair. Beijará como se fosse uma adolescente redescobrindo o corpo, com a diferença de que não terá medo do corpo. Não será uma sogra antecipada - tornou-se sua própria mãe. Não permanecerá muda diante de você, sobrarão assuntos para comentar, opinar e dar foras. Não concordará com tudo para agradar, o que é mais gostoso, sua personalidade combativa, decidida, discordante não suporta fingimentos. Ao invés de brigar, irá sugerir soluções. Afinal, é o que faz todo dia. Não cobrará a ânsia de uma família, mas mostrará aos poucos o que é uma família. Será cautelosa com as dores e pródiga com as alegrias.

Uma mulher com filhos é amorosa porque conhece a fundo a solidão para sair dela.

12:54 PM :: Comentários:

ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA
Domingo, 28 de maio de 2006


O BRANCO QUE CICATRIZA A POESIA
Em seleção mais de perda do que beleza, o verso pessoal de uma autora única no cenário brasileiro

Fabrício Carpinejar
ESPECIAL PARA O ESTADO

Foto Fernando Sampaio/AE

ORIDES - Escrita substantiva, sem adornos, acessórios e outras bombas de gás lacrimejante


É poesia feminina, mas não é catártica, não é confessional, não é metafísica. Uma poesia substantiva, sem adornos, sem acessórios e outras bombas de gás lacrimejante.

Orides Fontela (1940-1998), poeta paulista, é um enunciado particular na poesia brasileira. Uma órfã de si mesma, que não deixa herdeiros e sucessores. A Cosac Naify e a 7 Letras publicam sua Poesia Reunida na coleção Ás de Colete, enfeixando desde sua estréia com Transposição (1969) até seu último volume Teia (1988). O conjunto a consagra como uma das grandes vozes do século 20 na lírica do País.

São poemas imbuídos de investigação, mas que não recorrem à confissão ou a um tom de suspiro e enlevo. Íntimos, passando a largo de intimistas. Duros, críveis, laboriosos, destinado à lâmina da pedra mais do que à maciez do musgo. Orides Fontela conceitua a poesia como uma gramática. Poucos adjetivos, uma conduta de observação pura e imanente, protegida da transcendência. Com um repertório coloquial, nunca perde a realeza ou esbarra em facilidades expressivas. É comunicativa dentro de sua densidade, urde a complexidade das mais simples figuras. Não levanta as asas para as alturas, porém impõe permanentemente um vôo rasante sobre os prédios e afazeres do corpo. 'Um pássaro/ resiste aos céus./ E perdura./ Apesar' (Teia).

Um vôo curto e insistente, mais dos insetos do que das aves. Ou talvez empreste às aves o mecanismo coercitivo das moscas, de rodear até a exaustão dos pontos de vista. Não ambiciona a beleza, e sim a dramaticidade da perda. 'O gosto/ de podre/ aguça o fruto' (Alba).

Raramente inflexiona a primeira pessoa, o que não a faz perder em nenhum momento a pessoalidade. Raramente moldura seu sopro em um arranjo messiânico, ou pratica uma escrita simbolista e musical. Atua por aproximação e distanciamento, avanços e recuos, desdobrando o exato em mais exato. Se João Cabral define melhor negando, em teses e antíteses, em solos e catacumbas, Orides esclarece sem se afastar da afirmação, da imponência biológica, de estar presente e não distrair os olhos do ponto que iniciou o discurso. Uma fixação que pode soar como concretude. Não encontra-se dispersão; identifica-se uma concentração obsessiva, hipnótica, a reverberar iluminações de seus elementos e animais favoritos como o espelho, o gato, o cisne, o cristal, a estrela, o pássaro. Condutores recorrentes que dilatam o duplo, que são espelhos portáteis para se ter mais realidade.

Sua sintaxe é lacônica, quase desmemoriada, o que enriquece a multiplicidade de leituras pelos solavancos e quebra de versos. Quase não diz, quase sai do poema apenas com a mímica. Está sempre por dizer com mensagens sucintas, inquietantes e fraturadas. O que não invalida a suavidade das descobertas: 'Leio/ minha/ mão:/ livro/ único.'

Antonio Candido destacou o tom 'combativo' de sua poética: 'O poeta conhece a riqueza potencial do silêncio ('sabe-o de cor'), mas decide profanálo.' Avessa à inspiração, gera força em decorrência da disciplina e trabalho. 'Só o nascimento grita.' (Teia)

Não transforma somente a vida em palavra, mas a palavra em vida. 'Fatos são palavras.'(Teia) Não é uma poeta que criou um estilo, criou algo bem mais difícil, uma aritmética de pensamento. Pensamento que difere da filosofia. Pensamento que é subtração. Articula uma teoria molecular de linguagem, uma 'ordem viva', dando um aproveitamento total e exaustivo do mínimo, como no poema Tabela: 'Existe// resiste/ persiste/ insiste// Desiste'. Sua concepção inusitada de arquitetura e composição verbal se ajustam ao declive, às linhas retas e formas triangulares, que escoam a claridade. Longe de acumular luz no corpo, seu corpo sua o que não precisa. 'Tão ácida a/ sede/ e a água/ tão breve.' (Rosácea) Não desmistifica, sua metáforas são antimetáforas, no sentido de desarmar a transfiguração e propor novamente a figuração prosaica do dia-adia. Há uma crueldade insaciável de se antecipar à magia e isolar os planos, prevenindo-se ao casamento das palavras. Orides foi solteira na forma de enredar a poesia.Opera a dissolução.

'A beira rio/ a lucidez/ a/ pedra/ e a pedra é/ pedra: não germina./Basta-se.'

Retira a possível surpresa. Declara que a pedra se contenta em ser pedra. Em poema similar, brinca com Bandeira e seu Boi Morto e Drummond e seu Boitempo,e reafirma a descrença: 'O boi é só. O boi é/ só. O/ boi.'

Em sua escrita, há a defesa do despojamento, de um cansaço benéfico que restará depois de tentar tudo com a literatura. 'A via é que nos tem, nada mais temos'. (Teia)

Oito anos depois da morte da autora, é possível interpretá-la de modo justo, reintegrar o prestígio ao texto e retirá-lo da personalidade folclórica, passional e complicada financeiramente, de uma artista que foi despejada e comprou briga com amigos famosos que a ajudaram no início da carreira. Isso não mais interessa.

Diante do seu trabalho, o encanto é espanto, adoração da carne. Não é por menos que se dava tão bem com o branco da página, pois sua obra percebeu que o branco recebe o sangue de todas as coisas. Cicatrizemos, portanto, sua poesia.

Orides é impiedosa com o leitor. 'É proibido/ voltar atrás/ e chorar.'

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

10:52 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 24, 2006

SEM MOTIVO
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Você sempre vira as costas quando ainda estou falando. Eu me irrito com sua pressa em me ferir. Despeja mentiras e sai apressada do veneno. Fico sozinho com a minha ansiedade em fazer as pazes.

Provoca para que corra atrás. Corro porque não suporto o vento parando meus ouvidos.

Sobe meu sangue, encrespa as veias. Eu levanto a voz para me defender e já diz que estou gritando. Não fiz nada senão erguer a voz para o tom da sua, para que me escute e não somente seu próprio apelo.

Tanto faz, agora avisa que estou gritando. Grita que estou gritando.

Sua teimosia impede arrependimentos. Agora começou a briga e não voltará atrás, não mostrará humildade para desistir, não aceita recuar, não pedirá desculpa. Seu orgulho me pressiona, tenta me convencer a todo custo que tem razão.

Vai aguardar que eu diga alguma ofensa para inverter os papéis e denunciar que a ofendi. Fareja a insanidade. Seus olhos zonzos, inofensivos, pescam meus desaforos ao longe. Enganei-me com a doçura. Fixa a minha boca para afastar o beijo, espera o cardume surgir da espuma da raiva. Contenho-me, busco diminuir o ritmo, usar a calma de adulto que treinei na infância.

Não descubro o que está querendo. Não a entendo, permanecia quieto e calmo esperando que voltasse do trabalho: os cabelos ainda se acostumando à noite. Chegou disposta a desalinhar o quarto, cobrando que não atendi o telefonema, mas sequer o ouvi pelo barulho do ar-condicionado.

Passa a me xingar para que eu retribua. Dá mais comida aos peixes da minha boca, mais isca, mais ração. Puxo a corda, enganado pela fome. Nossos vizinhos já conhecem o nosso relógio biológico. Não se assustam com os trincos no chão, com sua pontualidade em testar mais uma vez minha paciência.

A briga não oferece sequer um motivo, teve que arrumar desesperadamente um motivo durante a briga para se justificar. Quando percebe que perderá a disputa, quando se confunde e não responde, inicia seu cinismo. Ameaça procurar um apartamento na próxima semana. Diz que não vai se importar mais comigo. Você é extremista: se não é do seu jeito não será de nenhum.

Pode ficar com razão, a razão nada entende de nosso desejo. Nunca entendeu. A razão é o que menos importa ao amor.

1:48 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 23, 2006

DUZENTOS MIL
Pintura de Modigliani



Só para avisar que chegamos aos 200 mil visitantes e quase 300 mil acessos.
Minha primeira frase aqui, de 4 de agosto de 2003, foi:
"Sempre procuro um outro ângulo para me espiar de longe. Não é aconselhável permanecer muito perto do que se conhece. Tenho olhos maiores do que o rosto. Meus olhos crescem quando estou com fome. A fome cresce sem olhos. Minha maior vantagem é a de estar vivo para me discordar".

Continua valendo.

Beijos e abraços agradecidos a todos vocês

Fabrício

10:33 PM :: Comentários:



EU ME GUARDEI POR 35 ANOS
Consultório Poético
Pintura de Edward Burne-Jones
Confira outras consultas no site da revista Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Prezado Fabrício

Não só admiro seu consultório poético como também virei fã do seu blog e seus textos.

Mas meu problema é o oposto das perguntas. As pessoas perguntam sobre seus relacionamentos, eu gostaria de perguntar por que nada daquilo acontece comigo. Não acontecem amores ou relacionamentos, histórias ou paixões para escolher continuar ou terminar. São sempre encontros que duram no máximo 3 meses e depois acabam por iniciativa masculina. Talvez você não tenha a resposta do que eu nem sei, mas palavras de conforto e sua percepção aguçada. Como já tenho mais de 35 anos, achei que é pelo fato de nunca ter transado, afinal eu estava esperando um relacionamento estável - que só aconteceu quando eu tinha 18 anos e durou 2 anos. Fui extremamente apaixonada e idolatrava meu ex-namorado a ponto de me conformar com suas críticas ao meu curso, meus gostos, minha família, e mesmo assim ele terminou. Desde então, não tive mais sorte com os homens e com mais de 35 anos - e muito atraída pelo rapaz com quem estava saindo freqüentemente - resolvi me entregar logo. Durou igualmente 3 meses. Ele sumiu depois de viajarmos num final de semana e ligar a televisão para ver um programa de mulher nua. Fiquei indignada e desliguei o televisor, mas ele me disse que eu era atrevida e continuou a assistir até o final, emburrou e dormiu. No dia seguinte o questionei, afirmou que nada tinha acontecido e sumiu. Depois dele conheci um rapaz de outra cidade, aparentemente disponível, que prometeu que de 15 em 15 dias voltaria a me ver. Outro que me entreguei e sumiu. Não me sinto sozinha porque gosto da minha companhia, mas o que me chateia é não ter sido desejada ou amada e, o pior, eu que sempre fui certinha em pouco tempo me entreguei para dois homens que não tinham interesse pela minha pessoa. Estou com inveja das pessoas que comentam sobre as dificuldades dos relacionamentos longos, ou de quem sai com fulano e cicrano também a quer. Nunca senti o que a Lya Luft disse certa vez numa entrevista: 'Não sou bonita mas nunca passou pela minha cabeça que não seria amada por isso'.

Grata por me ouvir."


Maria, sua vida não é emocionante porque é sua. Simples, costumamos observar a dos outros sempre melhor do que a nossa. Se eu peço um prato, depois de ler e reler o cardápio, não deixo de espiar o que as demais mesas pediram. Minha curiosidade não mata, engorda.

Seu problema é a falta de confiança, total, a ponto de esperar o pior para confirmar a baixa expectativa. Tudo começou com o fato de se guardar durante trinta e cinco anos. Guardar é uma coisa, seu caso foi de se esconder. Fermentou uma expectativa inatingível. Que homem poderia corresponder a um apelo de idealismo, sonho e aflições de décadas? Cobrou alto por uma travessia natural. Logo quando decidiu abrir a guarda, houve a inevitável frustração. Um descaso, uma ausência de romantismo, um despudor. Caso fosse mais experiente, iria rir da situação e pular para uma melhor. Mas não, ficou remoendo o que não aconteceu, o que gostaria de ter acontecido e reproduz os fracassos com os parceiros subseqüentes. Está convicta de que se desperdiçou, que se sacrificou, que deveria ter se guardado. O que adiantaria? Não estaríamos nem conversando...

Dou uma dica: homem não suporta o coitadismo, a vitimização, que anda praticando sem querer.

Não se sente respeitada, amada, desejada nem por si, como exigir dos companheiros? Sobre alguns dos desentendimentos, não vejo nenhum mal em assistir programas de mulher pelada. Ele queria brincar contigo, provocá-la. Eu assisto filmes pornôs com minha mulher e não deixamos de ser românticos. Sou safado em segredo.

O que posso aconselhar: termine o próximo relacionamento antes dos três meses, e ponha fim ao tabu. Depois pode até voltar a ver o ex. Antes de ser escolhida, terá que assumir as próprias escolhas.

Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

3:36 PM :: Comentários:


Domingo, Maio 21, 2006

MULHER MACHISTA
Desenho inédito de Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar



Repare dentro de si e, subitamente, descobrirá um vírus silencioso nos costumes, que engolirá sua vida lentamente. Um vírus que fragiliza o sistema nervoso e vai perdurar por várias gerações. A doença nem é famosa, não terá campanhas de combate e prevenção. Está disfarçada na linguagem, difícil de ser diagnosticada e que é transmitida somente pelo homem.

É o HMM - o machismo na mulher. Não há nada mais melancólico do que uma mulher machista.

Uma mulher machista será uma mãe que nunca ficará satisfeita com a namorada de seu filho. Nunca. Não por que deseja o melhor para ele, é que perdoará seu filho mesmo quando ele não tem razão e indiciará a menina por aquilo que ela não fez de errado. A namorada será eternamente a culpada, não prestará apesar de contar com toda razão. A mãe comentará as suas amigas que ela não servia para seu filho e esquecerá de esclarecer que ele a traiu. É óbvio que o sujeito encontrará o respaldo para continuar aprontando no futuro, não recebeu advertência ou uma conversa sincera. Descobrirá na tutela materna o paraíso da impunidade moral. Afinal, ele erra e quem recebe o castigo será sempre a sua parceira.

Cômodo, a mulher machista é mais machista do que um homem machista. Não se preocupa em mudar, confia que o machismo é exclusividade do homem e está longe de ser infectada.

A mulher machista é uma esposa que não culpará o marido na infidelidade. Tolerante com ele, intransigente com a outra envolvida. Se o companheiro for infiel, soltará os cachorros na amante. Gritará que ela está roubando seu homem. Chamará a amante de "piranha", "puta", "vadia". Capaz de telefonar para ameaçar que fique longe dele e não destrua a sua família, capaz de preparar um escândalo e puxar os cabelos dela. Na verdade, faz vista grossa. Foi o homem que seduziu, que deu o primeiro beijo, que convidou para sair, tirou a aliança para despistar e bem depois avisou que era casado. Como a mãe machista, ela defende seu homem e agride as mulheres. Preserva o equívoco masculino e, de certa forma, o legitima. Talvez a amante tenha sido passiva, carente e infantil; mas isso não é relevante, a competição transforma qualquer feminista em machista.

A mulher machista achará que o problema está nela, não no namorado ou marido. Que ele não está mais a fim de sexo, pois ela engordou, que ele não pára em casa, pois ela não oferece atenção. A mulher machista se culpa e se martiriza, e desculpa o companheiro para fortalecer sua desvalia.

A mulher machista pode ter mudado no transcorrer dos anos e pensar que é diferente de sua avó e de sua bisavó. Mudar não significa evoluir.

10:06 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 19, 2006

FRONTAL COM FABRÍCIO CARPINEJAR



Por Wilmar Silva/MG
Foto Renata Stoduto
Publicado na revista digital Tanto
Maio de 2006

Como foi a sua infância em Caxias do Sul e Porto Alegre?
Deixei Caxias do Sul aos dois anos. Guardo apenas o cheiro do lugar, o odor de mata encravada das serras. Minha infância ocorreu em Porto Alegre. Sou de uma família que cada irmão cuidava do outro. Fui e sou uma criança autista, que encontrou na linguagem seu amigo imaginário. Eu falava comigo quando pequeno. Nunca me deixei sem conversa. Inventava brinquedos a partir dos brinquedos destruídos dos irmãos. Com uma perna só de um boneco, já criava o teatro. Sofri apelidos, enfrentei meu medo, não parava em livro nenhum, roubava frutas e arrastava a bola em garagens, terrenos baldios e na rua. Da minha infância, jogava futebol doze horas. Nas outras doze, sonhava que jogava futebol. Tímido, não me deixei recalcado. Feio, não me satisfiz com a aparência. Minhas dificuldades de aprendizagem reforçaram o sentido de que teria que sempre conquistar a fala.

Se um poeta forte descende de um poeta forte: nasce o poeta Fabrício Carpinejar para renascerem Carlos Nejar e Maria Carpi?
Meus pais são muito mais luz do que eu. Sou apenas a névoa de casa, que toma conta provisoriamente da varanda antes do sol aparecer. Os pais estarão em meu nome para sempre. Meu nome é um ventre para ambos nascerem em mim. Não existe filho que um dia não seja pai de seus pais. Não existe pai que não seja um dia filho de seus filhos.

A reinvenção da vida em sua poesia é inventar-se como a um vegetal para humanizar-se?
Precisamos, Wilmar Silva, ser um vegetal, sua fugacidade, para não mineralizar o homem em fóssil. Venho de um lugar onde o vento não pára. Aqui não há verão para o vento envelhecer em paz. O inverno fez com que o fogo aprendesse a falar dentro do pão, como adulto. Escuto o fogo como um primo, um parente. Não ouso falar como as coisas, mas que escuto o que elas dizem escuto. Às vezes preciso dormir para abafar o barulho do mundo.

"Escrevo para ser reescrito", reescrever é reencarnar-se?
Escrever é ainda rascunho. O autor apenas inicia o livro, não o termina. A vida não coloca nada fora. Publica tudo. Nesse sentido, minha reencarnação acontece várias vezes em um mesmo corpo. Minha alma não migra, é preguiçosa. Sou todos os personagens de minha poesia. E todos aqueles que não se transformaram em personagem, mas mesmo assim não deixaram de ser pensamento. O poema é parecido com uma composição musical, toda variação é um novo protagonista que aparece. Qualquer coisa que vejo me influencia. Sou uma esponja de árvore, lamento quando o relâmpago não me escolhe para queimar.

"Preparei a vingança pelas palavras", puxando a "vida toda linguagem" de Mário Faustino o que se expande entre a existência e a criação?
Sim, a vingança é o perdão. Se alguém não gosta de ti, qual é a melhor vingança: possibilitar que essa pessoa seja teu amigo. O amor é uma vingança. A amizade é uma vingança. Vingança no sentido de fazer crescer a paz e não a discórdia. Vingança como dar a volta por cima, aceitar que a vida não é a primeira vez, mas a insistência. A insistência é o diálogo. A primeira vez é a projeção.

A poesia é a explosão da vida como em Arthur Rimbaud ou é possível uma experiência de poética ficcional?
É possível uma experiência ficcional desde que seja uma explosão da vida. Não se escreve sem a necessidade do corpo. Técnica literária é a urgência de dizer. Só escrevo aquilo que mastiguei com os dentes. Aquilo que não sobrou. Tudo o que fiz foi biografia, ainda que inventada. Poesia é correr riscos, extremar o desejo. A perna amputada dói mais do que aquela que se movimenta. A ausência é uma dor física. A linguagem é uma dor física. Uma alegria dolorida.

Se Ezra Pound separava poesia de literatura, para Fabrício Carpinejar quais as diferenças entre as escritas de um escritor e as poéticas de um poeta?
A poesia é um estado de libertação do idioma, onde tudo se resume e se concentra, um laboratório da audição. O poeta é um inconseqüente, pois não é de se domesticar. Ele trabalha a imaginação para continuar vivendo. Se parar, morre. É um animal do campo. Não existe aposentadoria para o fogo. Ou ele queima ou é cinza. O poeta, diferente do escritor, tem mais dificuldades de separar o que ama do que escreve. Não pode incriminar um personagem ou ser absolvido por um enredo. Está vulnerável em carne viva. Tudo o que diz passa a existir e volta a ser. A linguagem cobra com juros o que ele escreveu e não viveu.

Arqueologia, antropologia, onde acontece a origem do poeta como um ser de natureza política?
Arqueologia. Amo os escombros, as ruínas de uma cisterna, os afrescos subterrâneos, o que estava em mim antes de nascer e que terei que cavar toda a literatura para me decifrar. A mão é uma pá acompanhada. Um pai solteiro. Queria mostrar cultura com a minha poesia. Hoje quero mostrar simplicidade. A cultura pode ser excludente e jactante. Só os meus defeitos são cultos, eu não. A transparência não se faz sozinho. Pretendo desaprender cada vez mais. Ser o orvalho da fala no ônibus, o cumprimento que seduz e chama para dentro, não a citação que isola e segrega. A poesia é um sussurro como o batimento cardíaco.

"A disciplina é dos mortos", há indisciplinas na poesia contemporânea brasileira?
Temos apenas que nos recuperar da metalinguagem, o que está acontecendo. Nas últimas décadas, o poema significava uma teoria da poesia, um ensaio crítico, mais do que uma forma de comunicação das experiências e da sensibilidade. Um quebra-cabeça, nunca um quebra-coração. Todo poeta falava de sua luta com as palavras, da dificuldade de escrever, da insuficiência de dizer algo novo. Havia a mistificação: o autor pretendia ser poeta por decreto, sem descobrir primeiro alguma coisa a contar. Acabou a briga de rinha com os versos. Demorou-se um bocado de tempo para se recuperar do impacto de uma geração luminosa formada por Manuel Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Vinícius de Moraes. Estamos emergindo da leitura em silêncio para uma leitura cheia de silêncios, com a rapidez da oralidade e uma preocupação maior em organizar a verdade e interferir no cotidiano. Não persiste a preocupação obsessiva com influência, e sim um apego à fluência. Identifico autores com visões de mundo, o que é bem melhor do que colecionadores de estrofes. A poesia está mais próxima da prosa, menos hermética. Antes parecia um crime ser legível. Poema bom era o complicado e incompreensível. Hoje não, descobriu-se que ser profundo é não sair do raso: a simplicidade move as aparências.

A exemplo de Alberto Pimenta, quais os poetas brasileiros que "apresentam a floresta em cima da virgem ou a virgem em cima da floresta"?
As editoras voltaram a publicar poesia. Creio que não é uma febre ou um modismo, mas a valorização permanente do gênero como elo com o público, tal o rock brasileiro foi nos anos 80. Os poetas estão mais soltos, naturais, menos formalistas e dispostos a traduzir sua época com ferocidade. Não se nota uma poesia como atitude, e sim uma poesia de atitude. De personalidade. Cito livros recentes e de diferentes regiões: "Construção de ruínas", de Carlos Caramez, "Trechos", de Celso Gutfreind, "Cinza ensolarada", de Ricardo Lima, "Natália", de Jussara Salazar, "A Casa Azul ao Meio-dia", de Flávia Rocha, "Primeiro de Abril", de André Luiz Pinto, e "Vestígios", de Affonso Romano de Sant' Anna.

Híbridos: livros, performances, vídeos, cds, aquela "permanente hesitação entre som e sentido", pode ser vista como fulcro dos poetas que se desdobram em artistas multimídias?
A poesia tem criado seu espaço, o que é importante, seja em sites, blogs, revistas eletrônicas, cds, teatro. Não está mais se sentindo injustiçada, oprimida, marginalizada. Deixou de ser vítima do mercado. Ou bode expiatório da literatura. Creio que os jornais e as publicações estão acompanhando essa retomada. Ainda quero ver programas de tevê somente com poesia - aí não teremos mais o que reclamar e a vida será só declamação. O autor hoje é um mediador de sua obra, um ator de sua voz.

Heidegger diz que a poesia é a "fundação do ser mediante a palavra", o Brasil nativo, português e africano, qual o pensamento miscigenado na poesia contemporânea?
Ainda percebo um distanciamento criminoso entre a poesia brasileira e a africana, menos entre a brasileira e a portuguesa, que emitem sinais de intensa aproximação. Como é possível o Brasil tão africano tão longe da cultura africana? Ana Paula Tavares, Ruy Cinatti, José Craveirinha deveriam estar próximos do leitor. Craveirinha, uma dos maiores nomes da língua portuguesa, prêmio Camões, ainda não foi publicado por aqui. Não é um paradoxo?

Sua antologia "Caixa de sapatos" publicada em Portugal pela Quasi Edições: Portugal e Brasil, Europa e América, a língua portuguesa é uma aldeia isolada do mundo?
Não acho que seja uma aldeia isolada, mas uma língua de resistência, jovem, com muito a oferecer. Não devemos condenar as dificuldades, mas tirar proveito delas para enriquecer a obra. Não sou daqueles que amaldiçoam a escuridão e o isolamento. Tiro proveito das adversidades para me fortalecer. Contamos com os dois mais severos críticos para fazer alta literatura: o tempo, sempre implacável, e a geografia, que não facilita a divulgação e o reconhecimento. Trabalharemos em dobro em relação aos países da Europa.

A herança do Brasil colônia e também os estados brasileiros frente ao eixo Rio de Janeiro e São Paulo, por que coexistem essas diferenças?
Não acredito em separatismo. O Brasil deve ser um só, para pagar todas as suas dívidas culturais. Carecemos de política cultural, temos apenas diplomacia cultural. A informação parte do centro, mas não é o centro.

Como vive hoje o poeta Fabrício Carpinejar frente ao alcance do poder em crise dos partidos de esquerda no Brasil?
Sofrendo. No labirinto, só se sai tomando a direita. Prefiro me perder a abdicar do direito da esperança. A esquerda só chegará em seu sonho depois de superar o pesadelo. A esquerda sempre quis o poder, mas agora que o tem descobrirá que precisará perder o poder para amadurecer e ser mais humana e menos arrogante. Nem Deus guarda o monopólio da moral e da justiça. A intolerância é a religião dos fracos.

Estarei interpretando crônicas e poemas e autografando "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil) em Belo Horizonte (MG): 30/5, 19h30, dentro do projeto "Terças Poéticas", jardins internos do Palácio das Artes, promoção do Suplemento Literário de MG, Secretaria Estadual de Cultura de MG e Fundação Clóvis Salgado.

10:55 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 17, 2006

PONTUALIDADE
Pintura de Giorgio De Chirico

Fabrício Carpinejar



Não me importo de esperar vinte minutos com a mão na maçaneta enquanto diz que já está pronta para trocar novamente de vestido. Não me importo de esperar dez minutos sozinho no saguão do cinema cumprimentando conhecidos e tentando segurar o refrigerante e os dois baldes de pipoca enquanto vai ao banheiro. Não me importo de esperar chegar em casa para que me diga quem é o amigo que a abraçou efusivamente na festa. Não me importo de esperar três horas na salinha do hospital para saber se a nossa criança nasceu. Não me importo de esperar as longas conversas de sua mãe sobre o meu temperamento. Não me importo de esperar seu corte de cabelo, que sempre envolve pintura, hidratação e escova. Não me importo de esperar a aprovação de suas amigas. Não me importo de esperar nossos filhos regressarem das baladas para me enfurnar em seu cheiro. Não me importo de esperar que tranque as portas antes de tirar o salto. Não me importo de esperar que volte das lojas com as sacolas dentro das outras sacolas para parecer que gastou menos. Não me importo de esperar que faça as pazes com Deus. Não me importo de esperar quando arruma o armário e doa metade das roupas. Não me importo em esperar que encontre a roupa que já deu na semana passada. Não me importo de esperar que o filme acabe para namorar. Não me importo de esperar que devolva as cobertas que rouba para seu lado de noite. Não me importo de esperar você consultar suas mensagens antes de sair. Não me importo de esperar sua irritação em dias de chuva. Não me importo de esperar você nunca me retornar ligações depois das reuniões. Não me importo de esperar que se acorde no domingo, com receio de que fique nublada. Não me importo de esperar que o ciúme desapareça e volte a me ver como se eu fosse somente seu. Não me importo de esperar sua TPM. Não me importo de esperar o melhor momento para viajar. Não me importo de esperar o tempo que precisa para descobrir que me ama. Ou o tempo que precisa para descobrir que não me ama. Não me importo de esperar que venha de repente nossa música no rádio. Não me importo de esperar as revelações de fotografias de sua máquina antiga. Não me importo de esperar o embrulho de um presente. Não me importo de esperar suas discussões de fim de noite. Não me importo de esperar seu beijo de café cortado. Não me importo de esperar sua ressaca depois da dança.

O que desejo dizer é que não precisa se apressar. Nunca chegará atrasada porque sempre estarei a esperando.

10:50 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 16, 2006



Consultório Poético tenta explicar um sumiço amoroso. Confira abaixo ou no site da Superinteressante.

DESAPARECIMENTO MAL-EDUCADO
Pintura de Giorgio De Chirico

Fabrício Carpinejar



"Reencontrei por acaso um ex-colega de trabalho que eu não via há uns quatro, cinco anos. A convivência sempre foi daquele tipo "amor e ódio". Por causa dele, para você ter idéia, pedi demissão. Mas na hora do reencontro parecíamos duas pessoas queridas. Estranho. O cara ficou assustado por eu ter falado com ele tão animadamente. Passou. Meses depois do primeiro encontro, outro reencontro por acaso. Desta vez, sentamos na mesma mesa de bar e conversamos durante umas quatro horas. O cara se lembrava do dia em que me viu pela primeira vez, dez anos atrás. E do nosso primeiro diálogo. Eu me lembrava de dezenas de episódios também, bons e ruins. Me lembrava de frases dele. E ele de frases minhas. De cenas. Depois disso, começamos a trocar emails. Telefonemas. Ele me convidou para sair. Saímos algumas vezes. Dormimos juntos. Ele telefonou no dia seguinte, fofamente. E desapareceu. Depois de uns dois meses de desaparecimento, mandei um email com um poema fofo. Nenhuma resposta. Dois meses depois do email não respondido, mandei outro perguntando da vida. Nenhuma resposta. E ele, até então, era minimamente educado. Bem, ele está vivo (risos) , pois tenho fontes seguras que dão conta disso. O cara é casado há uns dez anos e tem um filho. Até entendo a descontinuidade do caso, mas não entendo o desaparecimento mal-educado. Daí penso: isso tudo é medo ou descaso mesmo? Ah, pra completar, frase do cara no dia em que jantamos a primeira vez: 'Há muito tempo eu não me sentia assim, vivo'."

Eneida,

Pedir demissão por um homem não é pouca coisa. Como ele a influenciava, hein? Quando um casal de amigos se odeia está exercendo o amor. Se os dois vivem se provocando, querem chamar atenção a qualquer custo, mesmo que seja por brigas e discussões. Não conseguem ser honestos, pois sentem uma atração irremediável e escolhem a maldade para desafogá-la. Não aceitam que estão enredados, e remam contra as facilidades. Diante da consciência, são incompatíveis, mas no fundo não conseguem ficar longe um do outro.

O que deu errado? A linha estava ocupada, o cara era casado e a história partiu de sua iniciativa. Ele foi no embalo, para reviver um período do passado, não construir um futuro. Algo como resgatar uma dívida e preencher uma relação em aberto.

Desde a retomada, ele a percebeu como um caso. Ofereceu o que podia para esse prazo. Destinou uma cota de amor, sem o risco de esquecer o caminho de volta. Desapareceu quando viu que seu projeto finito estava sob perigo e que a troca de intimidade exigia mais dedicação.

Esqueça frases como "há muito tempo eu não me sentia assim, vivo". Morto não fala. Ele deve ter desejado ficar contigo, mas o casamento e outras comodidades foram mais fortes.

Há duas maneiras de ser fraco: fraqueza partilhada, que gera a confusão, e fraqueza recalcada, disfarçada de segurança. Ele escolheu a segunda, que não colabora para a transparência. Foi mal-educado, porque ainda podia escolher. O melhor é se não houvesse mais possibilidade de escolha.

Então respondo: é medo que virou descaso.

Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

6:19 PM :: Comentários:


Domingo, Maio 14, 2006

MINHA MULHER É MAIS DO QUE UM DOMINGO
Pintura de Edward Burne-Jones

Fabrício Carpinejar



Tenho pudor em chamar minha mulher de mãe e mudar a categoria de motorista. Tomo cuidado para não me transformar em irmão de meu filho. Posso me acostumar ao chamado e perder a intimidade de marido. É perigoso: convivo com amigos que se referem a sua esposa como mãe; curioso enxergar o homem feito a puxar conversa com esse apelo no almoço ou jantar, eu não consigo imaginar o casal trepando. É Édipo demais para uma Jocasta só.

Compliquei o caminho do Vicente, que demorou para dizer "mãe" porque me imitava e chamava Ana. Valorizo Ana, assim como a conheci, pois ele não deixa de ser - no breve nome - amante, amiga, confidente, louca, serena, sensível, gostosa, e também mãe. Não é uma coisa ou outra, é tudo ao mesmo tempo, inclusive o que não quero, inclusive o que me desafia. Quando erro, peço desculpas. Amo pedir desculpas, pois ela se irrita, esbanja vontade de discutir e já deixei a cena. Pedir desculpa é o jeito masculino de ter razão quando faltam argumentos.

Ana cuida dos meus filhos melhor do que eu, não há dúvida. Ela cria um passo e faço o mesmo, sou um mímico de sua música. Até Mariana, que não partiu de seu ventre, procura ela primeiro para conversar sobre namorados e incertezas da escola. São cúmplices desde a origem e vivem me provocando. Tento entrar na conversa e ficam mudas de repente. Saio e escuto a balbúrdia de novo no quarto. Enquanto me provocam, estou certo de que estamos bem. Posso ser consultor amoroso fora de casa, dentro de casa sou o último a ser consultado. Acabo tão feminino, tão maternal, que jogo contra mim. Em minha família, são todos contra mim, inclusive eu. Ganhamos por W.O.

Com Vicente, não há saída. Caso Ana dê alguma ordem, será inútil convencer o menino do contrário. De noite, ele sempre a chamou. Quando vinha cambaleando, com os cabelos em arame farpado, para alcançar o leite, ele chorava tanto que era difícil desacreditar da minha feiúra. Acordava em desvalia.

Acostumei-me a ser coadjuvante e não é nenhum demérito nisso. Minha única vantagem é no espaço do armário, Ana ainda não percebeu ou não quis me xingar. Ela conta com cinco prateleiras e uma ala do cabide para comprimir os inúmeros vestidos e casacos. Por favor, não conte para ela, disponho de três alas e dez prateleiras.

Ana criou os rituais do Vicente, o café da manhã, o horário da televisão, a escala dos bichinhos com que ele dorme, decorou as possibilidades e os tipos do Power Rangers, o convenceu a sentar na cadeira de adulto nos restaurantes, a pentear os cabelos de lado, como os dela. Só Ana conhece os brinquedinhos que ele leva ao banho. Foi ela quem comprou o blusão amarelo do Bob Esponja que o guri não deixa colocar para lavar sob hipótese nenhuma.

Vicente é educado com estranhos, efusivo com os familiares, dá beijinhos quando se apresenta. No meu filho reconheço o caráter da minha mulher. Nunca consegui chegar antes na sua agenda escolar. Ela responde os recados com clarividência.

Quando ele me abraça, vira meu corpo para onde está a mãe. Para que ela veja o amor que ele tem por mim.

O amor que Vicente tem por mim ainda é amor por ela.

12:42 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 11, 2006

NÃO BRINQUE COMIGO
Pintura de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Tudo foi brincadeira, tudo o que falamos, tudo o que imaginamos, tudo o que faríamos se não fosse uma brincadeira.

Quando eu disse que podia, quando eu disse que queria, quando eu disse o que sentia por você.

Foi brincadeira seus braços estendidos como se fossem fechar em mim, minha doação de pernas pela sua linguagem, quando avisei que os pássaros morreram no mesmo dia nas gaiolas da janela e que o silêncio era agora insuportável, porque o silêncio lembrava o que ele substituiu.

Tudo foi brincadeira, um homem aceita que é brincadeira, mente que é brincadeira, porque a mulher perguntou se ele estava falando sério, a mulher desacreditou dele no exato momento em que ele mais acreditava, no momento em que ele treinava o sopro, no momento em que iria expor que a amava, no momento em que ele reaprendia a confiar. Antes de levar o fora, o homem dá o fora em si.

Tudo foi brincadeira, o homem vai esclarecer, o homem vai se arrepender, o homem vai disfarçar para se proteger, para não se diminuir, fechará a mão com o alpiste dentro, com a carta latejando dentro e ninguém mais decifrará a sua letra. Fracassará mais uma vez em sua esperança. Ficará mais uma vez com sua reputação.

Ele aceitará o riso a contragosto, voltará atrás como quem é flagrado roubando a mãe.

Ela dirá: ainda bem.

Ele dirá: não tinha como ser verdade.

Ela vai confessar que levou um susto.

Ele pedirá desculpa pelo mal-entendido.

Ela vai suspirar de alívio com o engano.

Ele vai fingir que não pensava diferente.

Ela vai afirmar que só o enxerga como amigo.

Isso vai doer nele, vai doer nele não ser o homem certo para ela e tentará não mostrar que está sangrando. Seguirá caminhando com a cabeça erguida até o fim da cicatriz, até que o joelho de sua boca canse de sangrar o mesmo sangue.

Tudo foi brincadeira porque ela zombou da possibilidade do amor e ele se acovardou e calçou novamente os sapatos e se viu nu enquanto ela ia e recolheu os cabelos que cresciam de seus cílios.

Tudo foi brincadeira, o pescoço de hortelã, as infâncias sentadas no portão de ferro controlando a cor dos carros, a fome esquecida para ficar mais tempo juntos.

Tudo foi brincadeira, as confissões, a cumplicidade, a intimidade. O período em que fiavam seus segredos, que se confessaram como nunca antes, que se planejaram como noivos, que se abriram como amantes.

Tudo foi brincadeira, tudo será sempre uma brincadeira sádica, uma brincadeira cruel, quando apenas um dos dois estiver amando.

9:08 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 10, 2006

BANHO DE LÍNGUA
Para Ana, em seu aniversário
Pintura de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Não suporto a idéia de homens que mal deixam o corpo da mulher e logo vão tomar banho, logo querem se afastar daquele ato e se desculpar da impetuosidade. Lavam a boca para escorrer ao longe as palavras e as frutas. Lavam as pernas da boca.

Levantam como um ritual cumprido, um ofício, um trabalho, e desejam apagar o desejo. Eliminar os vestígios, os sinais, a saliva em seu corpo. Esfregam com o sabonete a língua, o gozo, os odores fortes de montanha. Esfregam-se de pudor.

Fazem desaparecer o suor que os pássaros só encontram em sua plumagem depois do vôo. Desejam suavizar os arranhões e recuperar a aparência. Desejam sair bruscamente do quarto porque não suportam o prazer depois do prazer. O prazer depois do prazer é levitação, é feminino.

Que não se deitam mais para recomeçar, que não dormem agarrados com a nudez dela a completar os seus músculos, que não preparam uma fogueira com as unhas nos cabelos dela, que não suspiram após gemer. Que não ficam a conversar sobre as distrações da infância, a conversar à toa sobre os planetas que não foram descobertos, a rir dos vaga-lumes histéricos fora de casa.

Que não afundam a respiração nas cobertas e nos travesseiros, que não inspiram o vinho antes de beber. Que desertam no momento em que encontraram um sentido. Que se arrependem de seus instintos e colhem as calças, as meias, a camisa e o medo do chão.

Não suporto homens que não tomam o cheiro de sua mulher como seu próprio cheiro. Que repelem a permanência, a toada, a constância, que se irritam com uma intimidade que não seja movimento e sexo. Que se lavam como se tivessem pecado e se apressam em reconstruir as frases. Que não se inclinam para beijar de novo e descobrir uma porção invisível da boca no rosto.

Que trocam o corpo imediatamente como quem troca lençóis, trocam o corpo como quem troca de roupa, trocam o corpo como quem troca de rua. Que ajeitam a cena e procuram as horas e as chamadas não atendidas no celular. Que se vêem culpados pela masculinidade, por revelar suas fraquezas. Que encurtam os braços nas portas e desistem de esculpir o pêlo nas curvas. Que são outros, frios e indiferentes, ao deixar a cama.

Eu não me sinto sujo depois do sexo. Eu me sinto limpo, eu me sinto perfumado, eu me sinto enredado de nascimento. E não darei tão cedo minha memória para a água.

1:46 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 09, 2006



ESCRITOR DIPLOMADO
A Unisinos está lançando para o vestibular de inverno o curso superior seqüencial de Formação de Escritores e de Agentes Literários

Livros de autores desconhecidos pelos críticos, encalhados há meses nas prateleiras das livrarias, terão um destino diferente a partir do próximo semestre. A Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) está lançando para o vestibular de inverno o curso superior seqüencial de Formação de Escritores e de Agentes Literários, uma oportunidade para quem quer aprender os segredos da escrita e se preparar para o mercado literário.

Para os egressos não aumentarem a lista de obras não vendidas pelos livreiros, a instituição conta com um corpo docente formado por nomes importantes da literatura gaúcha, como João Gilberto Noll e Moacyr Scliar, e a parceria da Academia Brasileira de Letras, que cederá dois membros por semestre para lecionar aos futuros escritores. Os autores ajudarão os estudantes dando dicas e prestando assessoria na elaboração de textos, além disso, poderão ajudar na divulgação de talentos. Serão oferecidas 40 vagas.

- O curso é uma troca de experiências e surge para profissionalizar o papel do escritor. Existem hoje muitos talentos escondidos nas prateleiras. Será a hora de diminuir o isolamento - explica o poeta Fabrício Carpinejar, coordenador executivo do curso.

A história do escritor fazer seu livro na solidão, sem alguém para mostrar os originais e orientar seu trabalho, será eliminada no curso. Cada aluno terá direito a um blog, onde publicará textos que serão analisados e acompanhados por um professor tutor.

Além de fornecer as bases para a formação de um escritor, o curso também tem como foco o agente literário. Responsável por fazer a mediação do autor com as editoras, com o mercado e com as instituições culturais, o agente vai poder trabalhar com mais agilidade e conhecer melhor como funciona uma editora.

Mercado de trabalho
O formado pode trabalhar em editoras, empresas de comunicação e de cultura, produtoras de materiais para o mundo digital, agências editoriais, órgãos públicos e privados interessados na cultura. Além disso, pode exercer seu talento de forma autônoma, na criação de textos, na revisão e na formulação de projetos e organizador de livros.

O curso
Dois anos e meio de duração. É coordenado pelo poeta Fabrício Carpinejar. Corpo docente formado por escritores, como João Gilberto Noll, Luiz Ruffato, Moacyr Scliar, Armindo Trevisan e Cíntia Moscovich. O curso é dividido em cinco programas de aprendizagem. O estudante terá sua evolução acompanhada por meio de um blog.

Conheça os módulos do currículo:

Práticas de linguagem e mídia
O aluno desenvolve uma base sólida de língua portuguesa, aprende a dar entrevistas, analisar traduções e a contar histórias, conhece os fundamentos de resenhas e críticas literárias.

Escrita criativa
É um exercício de texto e estilo. A partir de oficinas, entrevistas coletivas, conferências e orientação, o aluno conhece os processos utilizados em ensaios, memórias, crônicas, biografias, narrativas, poesias, drama, literatura infanto-juvenil e livro didático. Escritores repassam os segredos de sua arte e criarão laboratórios autorais.

Agenciamento
Atividades que simulam a realização de tarefas e competências do dia-a-dia de uma editora, de uma agência de autores ou de uma empresa de produção literária. O módulo faz uma troca intensiva de vivências com profissionais e gestores do mercado editorial.

Leitura da tradição
É feito um estudo de clássicos e obras contemporâneas por meio de seminários, fóruns e workshops. O estudante conhece obras fundamentais da literatura.

Leitura do mundo
Incentiva a compreensão e a interpretação a partir da leitura de clássicos da filosofia, da antropologia, da psicologia, da política e da história. Também inspira a criatividade a partir da teoria da literatura, das revoluções estéticas e das manifestações musicais e cinematográficas.

Processo seletivo
Ocorre em duas etapas: 24 de junho (redação e questões discursivas) e 27 de junho (jogos literários). Inscrições: 29 de maio a 21 de junho

Publicado em Zero Hora, caderno Vestibular, Porto Alegre, 3/05/2006, Edição nº 14860

5:00 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 08, 2006

APRENDI COM O MEU AMIGO ROGÉRIO
Pintura de Cândido Portinari

Fabrício Carpinejar



Os dois melhores jogadores de futebol da turma ficavam encarregados de escolher os times. Olhavam com severidade para cada um de nós como quem definia uma tropa de exército pela força e disposição. "Quero esse, quero esse, quero esse, quero esse." Todos colegas selecionados iam atrás de quem deu as ordens. Protegidos, coroados pelo talento e amizade. Os ruins, os pernas-de-pau, os gordos, os míopes, os vesgos, os desajeitados, os mancos, que não sabiam jogar eram os últimos a serem chamados. Sofriam horrores com a demora. Com a ausência de seu nome gritado na lista de chamada. Constrangidos, sem chance de mostrar que poderiam ajudar o time. Todos os eleitos observavam os guris sentados com comiseração. Com pena. Quase a lamentar que ainda estavam ali, teimando a falta de dom. Insistindo com o que não conseguiam.

Se no início os dois que formavam a equipe brigavam para ter os mais habilidosos passavam no final a discutir para não contar com os piores. "Não quero esse, fica contigo." O guri atravessava a linha divisória freneticamente, com a cabeça baixa e resignada, animal de carga. Indeciso com os sons e ordens, desejando que aquilo logo terminasse. "Não, pode jogar com um a mais, ele não faz diferença."

Eu assisti inúmeras vezes esse ato de crueldade psicológica e nunca mudei as regras. Nunca percebi que estava errado. Até porque eu era um dos melhores e montava o time. Não sofria para me identificar. Fazia sofrer e esquecia. Esporte não deveria ser competição na escola, mas brincadeira, vontade de ajudar aos outros a chegar ao mesmo nível. O preconceito alimentava a cegueira, a insanidade de se sobrepor aos iniciantes, a eleição pela aparência, a exclusão pelos defeitos.

Quantos guris recusados no campinho, debochados no campinho, não se sentiram em sua vida sempre por último? Ou alguém acredita que não são os pequenos atos que determinam o percurso? Quantos depois não tiraram péssimas notas? Quantos não se apagaram nas relações amorosas, ficaram arredios para a amizade, desconfiados no trabalho, com a sensação de ser sempre o último? Com a impressão de ser um estorvo, um inadequado, um desabilitado. Eles não ganhavam a confiança ou um voto da turma para jogar bem. Não tinham sequer estima pessoal para se empenhar. No primeiro passe errado, no primeiro gol perdido, teriam que suportar novamente as brincadeiras e fingir que não era importante, e desistir de participar do seu esporte favorito no dia seguinte. Desistir de conviver. Desistir de tentar.

8:44 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 07, 2006

VERISSIMO

Sou um dos quatro autores escolhidos para substituir o período de férias de Luis Fernando Verissimo no caderno Donna, do jornal Zero Hora. É o mesmo que ser chamado para entrar em campo no lugar de Ronaldinho Gaúcho. Vaia na certa. Minha primeira crônica foi publicada neste domingo.

Jornal Zero Hora, caderno Donna, coluna de Luis Fernando Verissimo
Domingo, 07/05/2006

BOLO DE NOIVA
Pintura de Chagall

FABRÍCIO CARPINEJAR *



A noiva preparou a festa com zelo médico. Dois anos de longa negociação.

Definiu o vestido, a igreja, os adereços, a decoração, os convites, os convidados, tudo fingindo escutar o noivo. Fingir que se escuta é monarquia.

O noivo fingia que falava, o que não deixa de ser democracia. Quando ambos se juntam, resultam em monarquia democrática. Um manda e outro disfarça que é mandado. Sempre que um não diz o que pensa, o casamento corre o sério risco de ser um sucesso.

A noiva planejou as vírgulas e os apóstrofes da cerimônia, o ponto final e as reticências. Nada passava em branco de sua caneta vermelha. O trabalho na empresa virou lazer, cuidar daquele ritual tornou-se uma missão inadiável.

Ela executou minuciosamente, com o aval dos pais, o emprego de cada centavo.

A lista de presentes foi sua principal farra. Não imaginava que pudesse ter tanta quinquilharia à disposição. O que gastava sonhava ser retribuída em pacotes coloridos. Ficava meio receosa, é evidente. O que faria com uma

sopeira? Ou um descascador de batatas? (ainda se fosse um triturador de gelo!)

A parte mais complicada significava orientar onde sentariam os convidados. Quem do lado de quem. Teria que suportar os colegas de trago do noivo. Os colegas de futebol. Os colegas do bairro. Festa de casamento é o único momento em que se convive com o passado sem criticar. Mesmo que o passado fique toda festa criticando. Nem sempre funciona colocar os amigos do casal lado a lado. Pode gerar revelações surpreendentes e confidências desconcertantes. Um primo pode estar garfando o estrogonofe e lembrar:

- Brincava de médico com a noiva.

Ou uma mulher, de repente, confessar:

- Não entendo como ele está se casando, a gente se dava tão bem no carro. Ele adorava lavagem expressa.

Deveria haver uma mesa de ex-namorados. Se possível, dentro da piscina.

Todos afogados, boiando. Para não opinar no julgamento.

E o que fazer com os penetras? Eles são fundamentais e, ao mesmo tempo, não podem ser convidados. Difícil saber se eles vão comparecer. Unicamente o penetra tira a baranga para dançar, conversa com os sogros numa atenção extrema, diverte as crianças com caretas. O penetra é o recreacionista dos adultos. A chance da noite sair do normal. E a prova pentecostal de que existe como entrar em qualquer lugar sem a necessidade de pré-requisitos.

O problema do penetra é que se entrega. Não facilita sua agradável permanência. Rápido identificá-lo. Estará sempre conversando com o garçom, para garantir um bom serviço e mostrar que se relaciona bem com alguém. Eu sei por que os dois se entendem de cara, além da diferença da gravata-borboleta. O garçom nada mais é do que um penetra pago.

A noiva idealizou o vídeo, o tempo das fotos, as músicas que a banda iria tocar. Programou até os imprevistos. Já tinha na ponta da língua qualquer resposta, se é contra ou a favor à pena de morte, se é contra a favor à eutanásia, se é contra ou a favor ao aborto. Estudou muito para estar no altar, espécie de concurso de miss sem concorrentes. Varou as noites para receber a aliança e saracotear com leveza o vestido pesado como um castelo da Idade Média. Estava linda, absolutamente linda. Só não pôde controlar o ciclo menstrual, que veio de longe também para o casamento. Obrigada a sorrir com a fralda do sobrinho entre as pernas, já que o absorvente interno e o noturno não deram conta. A lua-de-mel não seria hoje.

* Jornalista e escritor, autor de "O Amor Esquece de Começar"

Durante as férias de Luis Fernando Verissimo, escritores gaúchos vão revelar seu olhar sobre as angústias masculinas contemporâneas na seção "Homem da casa", que estréia hoje

10:20 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 04, 2006

ME DÊ COLO
Pintura de Edward Burne-Jones

Fabrício Carpinejar



Na metade do caminho, meu filho avisa que não consegue caminhar e pede que eu o carregue. Ele já tem quatro anos e dezoito quilos; é suportável levá-lo durante mais oito quadras. Educado, ele pergunta se está pesado, minto que não, que ainda está leve como seus cabelos castanhos. O vento vive fazendo penteados novos em meu menino. Antes de crescer em chuva, o vento é cabeleireiro.

Os adultos também precisam ser carregados. E como precisam! Nos relacionamentos, haverá um dos dois que não conseguirá mais andar. Por cansaço ou por desânimo, por fraqueza ou falta de esperança.

Nos corredores de casa ou do trabalho, sua mulher vai ficar pequena, com a saia plissada e as meias altas da escola e vibrará compaixão na direção de seus ombros, louca para pedir colo. Buscará a certeza de que contará com alguém durante um pequeno percurso a recobrar a força da vontade. Quer fungar o seu cheiro. Segurar-se nos botões de sua camisa como se fossem os olhos de vidro de seu antigo urso. Dobrar os joelhos, para pegar altura no balanço. Ela cresceu, tem filhos, trabalha, toca a residência, nada a impede de fartar os pés. Um lampião é pouco no quarto, há a necessidade de acender as mãos.

Depois que crescemos, não é permitido emitir sinais de fraqueza: chorar, vacilar, confundir-se. Pois logo seremos taxados de depressivos. Dez minutos de desconsolo e somos mandados ao psiquiatra. Temos que ser sempre fortes, convictos, impermeáveis. Mas sem um colo a pessoa pode recuar. Pode brigar. Pode arrepender-se de ir adiante. Pode se isolar. Pode cortar amizades. Pode desejar morrer. Pode divorciar-se de seu anjo da guarda. A criança intacta nos ouvidos não suporta a sucessão de críticas, de pressão, de decisões para avançar, sem ao menos deitar em movimento num colo paterno do marido. No colo paterno do namorado.

Os homens da mesma forma carecem de um colo. São barbudos, peludos, enormes, mas a alma não pesa pele e ossos. A alma é a falta de peso. A falta de peso é o que mais pesa. A alma é fraquinha, é raquítica, é desidratada. A alma toma soro, toma orvalho, toma a chuva das calhas. Bebe o que vai na concha da mão. Boca pequena. Boca devagar, estômago apertado de ave, estômago que cisca.

Quando o homem não consegue mais andar, serão nulas as palavras de incentivo, o otimismo dos livros, o conforto das idéias, a segurança da casa. É o momento de carregá-lo. Momento de dizer: - pode subir, eu o levo. E não se importar com a dor dos braços, a dor das pernas. Deixar que ele seja a vontade de dormir o seu corpo para recuperar a memória do dele.

11:29 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 03, 2006



A porta está aberta do Consultório Poético. Pode espiar. Não tive tempo de comprar um divã; sentar no chão é o começo da verdade. Coluna abaixo ou no site da Superinteressante.

BARBADO DE TIP-TOP

Fabrício Carpinejar



"Nunca vivi algo semelhante. Namoro há quase dois anos e vivemos na mesma casa. Eu o amo, e adoro a segurança que ele me proporciona.

No entanto, a paixão durou apenas seis meses. Uma vez ele estava cansado, na outra bêbado, e assim meus desejos iam ouvindo vários nãos.

Ele se descuidou muito, então. Engordou. O cabelo está uma grenha.

Com o convívio, ele começou a se soltar e mostrar quem realmente era: um porquinho.

Claro, o príncipe encantado virou um sapo! E hoje, apesar de ainda amá-lo, não sinto tesão por ele. Morro de vontade de fazer um amor gostoso, mas quando vejo aquilo...

Sei que é demasiado cruel. Já falei com ele sobre isso, mas ele não tem a intenção de ser diferente. Eu quem devo deixar de ser chata e ficar com ele como ele é."


Silvia

Ele oferece uma demonstração clara de desprezo e indiferença. Se não quer melhorar, eu diria de modo literal: "vá tomar banho".

Você não está sendo chata, mas tolerante. Onde já se viu: ele quer uma mãe, não pode aceitar. A hora do banho, a hora da comida, a hora de escovar os dentes, a hora de trocar de roupa, a hora de dormir. Só falta vestir o barbado de Tip-Top. Encontra-se obrigada a exigir o óbvio. Além de ser infeliz entre o cansaço e a bebedeira, ele pretende arrastá-la junto. Não é o caso de compreensão, de entender os problemas, já entrou na seara de higiene e saúde pública.

Seu namorado julga que deve amar do jeito dele. Não é suficiente. Com a convivência, aprende-se a amar de dois jeitos. São dois amores diferentes, que se revezam e se completam. Antes de dar amor, cabe respeitar o amor que se recebe. Não se ama do mesmo modo. Quando um amor anula o outro, ambos deixam de existir.

Ele acredita que a conquistou e não deseja se mexer mais. Ok. É machista, pois não valoriza o que pensa. Ok. Fez propaganda enganosa e durante a paixão mascarou seu desleixo. Ok. Tudo isso tem conserto. O problema é que ele não permite uma aproximação. Criou artifícios para impor o autoritarismo da sujeira.

Recomendo que passe a sair sozinha, toda linda. O ciúme o fará evoluir e se ajeitar. Voltará a ter medo de perdê-la e sairá da aposentadoria sexual.

Ninguém sentiria tesão em dormir com porquinho, com exceção de um personagem do cineasta italiano Pasolini. Aliás, tive uma outra idéia, pegue o DVD ou a fita "Pocilga" na locadora e o faça assistir até o fim. Feche as portas e não deixe ele sair da sala. O jovem do filme tem orgasmo apenas no chiqueiro. Será uma dura e necessária lição. Caso não surta efeito, pegue a vassoura e comece a varrer de vez a sujeira de sua vida.

Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

11:36 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 01, 2006

MINHA AMIGA CHORANDO
Gravura de Edward Burne-Jones
Para Márcia Tiburi

Fabrício Carpinejar



Ela não ficava inchada ao chorar. Não escorria a boca, o nariz. Não tinha o rosto vermelho, os traços submersos em aquarela, a maquiagem borrada, os cílios colados, as mechas desalinhadas. Aquele quadro de gripe que a maioria das mulheres enfrenta depois do desespero. Aquele mal-estar que mistura soluço, suspiro e grito. Aquela tensão, que explode desprovida de seqüência e ordem, a espernear o pescoço numa almofada, a bater as portas com fúria e desdenhar das janelas. Aquele constrangimento de tecido e de linhas, que pede isolamento e um copo de água com açúcar. Aquela violência que cospe o ar com repulsa.

Ele ficava ainda mais bonita quando chorava. Não envelhecia chorando. Não enrugava. Não aumentava os vincos e as covas do queixo. Tanto que eu não encontrava vontade de confortar, de amparar sua cabeça nos ombros e dizer que vai passar. A vontade era fazer com que chorasse mais. O choro não me proibia. Não virava de lado como a respeitá-la trocando de roupa. Não alcançava um lenço ou um papel para que desistisse.

Choro ritmado, que bebia devagar o próprio sopro. Quase como um rito, uma música de câmara. O verde dos olhos enfim aparecia entre o mel da íris, um vitral em que mais interessa o desenho e não o outro lado. As lágrimas obedeciam o cercado e saíam em fila indiana, ovelhas seguindo o assobio. Não se atropelavam, não mostravam pressa. Os lábios tremiam levemente, suaves, entremostrando os dentes de cima. Não é certo se pediam beijo ou paz. Os cabelos desciam para trás das orelhas, casa que prende as cortinas quando é limpa. Havia até uma alegria, uma delicadeza, um costume tranqüilo de sentar na varanda. Havia uma serenidade caprichosa, um silêncio rendado que cobria a mesa do rosto, com um jarro de flores ao centro.

Ela chorava e falava sem perder a inteireza das palavras, sem comer alguma sílaba pela ânsia. Não parecia estar ocupada chorando. Prosseguia o que estava cumprindo antes. Não parava para chorar, capaz de cair a chuva e não se refugiar, capaz de vir o vento e não se proteger.

Sua beleza não olhava os degraus para descer. Não segurava no corrimão. Sua beleza deitava no espelho como um lençol novo.

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