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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Junho 30, 2006

AVISE-ME DO COMEÇO DO FILME
Pintura de Jean Dubuffet

Fabrício Carpinejar



Minha avó pedia para avisar quando o filme começava. Confundia o filme com o próprio trailer, não tinha costume de ir ao cinema. Jurava que os resumos de outros títulos já correspondiam à história que iria assistir. Respirava aliviada quando os créditos e o cutucão apareciam; daí colocava os óculos e mergulhava na hipnose das mãos na cadeira.

Eu me porto assim diante do amor. Preciso do cotovelo no meu braço dos amigos quando ele começa, apesar de ser o protagonista. Não que eu não saiba, terei que confessar: não sei mesmo, amor não se sabe, amor se pressente. É uma indefinição contente e, ao mesmo tempo, assustadora. Acontece um descuido ao segurar a cintura dela, algum feitiço no olor do pescoço, um pressentimento longo e duradouro na correnteza dos cabelos, uma pressa em se despedir que é desejo de permanecer mais um pouco. O que era passageiro, o que era para ser mais um esquecimento, o que era para ser mais uma noite para dormir transforma-se em obsessão de acordar, cuidar e voltar, em obsessão de estar presente e arrumar todos os motivos e subterfúgios para não pensar em outra coisa.

Aperta uma vontade de conversar sobre a história com todo mundo que se encontra, com o carteiro, com o bancário, com o jornaleiro, com os passageiros do trem. Buscar conselhos até na embalagem do chocolate. Falar do amor para que ele aumente ou para que diminua. Para que ele suma ou nos dê confiança de tomar atitudes improváveis e delicadas. Vamos atrás de um fiador. Só que o amor não aceita caução.

É uma encruzilhada colocar a casa para fora da boca. Abrir-se. Expor-se de tal modo que não se pode retornar ao que julgávamos nossa vida, ao que acreditávamos nosso lar, ao que confiávamos como nossas convicções e nossa ordem. Como confessar uma paixão e depois fingir que isso não mexeu com a gente e retomar o trabalho e a disciplina dos dias como se fosse comum?

Antes impessoal, o amor se agarra a um nome e não mais nos pertence. É irrecuperável porque depende de um sim ou de um não. Quando dito, irá embora sem acenar. Não descobriremos que estamos doentes, descobriremos que não temos cura. Amor não nos fortalece, enfraquece. Ficamos indigentes à espera de um beijo, de um telefonema, de uma mensagem. O amor muda o nosso passado.

Sofreremos com a incerteza do que a pessoa dirá ou fará. Usam-se palavras emprestadas para não ser direto. Encontram-se motivos alheios à verdade para não se entregar. O amor não seria tão sério se não houvesse a possibilidade dele se converter em uma comédia. Mas a comédia não é levar um fora, comédia é a covardia de não se declarar e antecipar sozinho os risos que seriam bem melhores acompanhado.

Minha avó é que conhecia de cinema. O filme começa bem antes do filme.

10:40 AM :: Comentários:

IRUAN

A filhota Mariana, 12 anos, perdeu seu hamster. Escreveu uma carta emocionante em seu blog. Confira.

10:39 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 27, 2006

PAINEIRA OU UM AMOR ATRASADO
Pintura de Jean Dubuffet

Fabrício Carpinejar




Ansiava em subir numa paineira. Meu desejo irrealizado de telhado, mas ela tinha espinhos avantajados, que não davam para dobrar como os da roseira. Espinhos fortes, agudos, medievais. Observava a árvore na praça, como um órfão admira o pai de um colega ou como quem esconde da professora o atraso da mãe na saída da escola. Tocava-me a nostalgia do que nunca poderia fazer. A paineira, intransponível com suas pontas de lança. Os galhos muito acima da minha capacidade de encurtá-los.

Deixei esse sonho de lado, como muitos outros, sem mexer ou importuná-los, fingindo que não me conheciam. Ao empurrar meu filho no balanço, na mesma praça que freqüentava quando pequeno, assusto-me com a mobilidade de uma criança alçando justamente a paineira impossível. Não havia percebido, o que ela propôs foi simples: usava os espinhos como degraus. A paineira ficava mais fácil de subir, porque naturalmente apresentava os grampos do alpinista em sua crosta. A criança se elevava com ligeireza e alegria, ainda gritou de cima. Avistava um continente estranho.

Não havia insistido. Muito menos ensaiado vôos pelas cordas das mãos. Sondava somente o langor dos espinhos, concentrado na dor que eles poderiam me provocar, no ferimento que ainda não existia, nos joelhos esfolados que deveria levar para casa. Não cogitei os espinhos como os ombros que me conduziriam ao alto, como um modo de me proteger.

Uma amiga esperou três anos para que um amor se resolvesse por ela. Viveram juntos, se separaram. Faltava cumplicidade, não ser esquecida pelo seu olfato. Faltava que ele dissesse que não conseguiria ficar sem ela, que ao menos sentia saudades. Ela praguejou escondida, suportou as olheiras, encabulou meses de convívio, tentou ser forte, mudou de planos, pensou que enlouqueceria caso não se abrisse para alguém, não se abriu e enlouqueceu, arrebentou-se em segredo para sofrer sem que ele visse que sofria.

Na última semana, ela se reencontrou novamente com o ex. Num ônibus, entre passageiros que nada tinham com isso, ele finalmente declarou sua paixão e expressou todas as palavras que ela queria ouvir. Todas. Até aquelas que não ouviria, pois era vaidade demais imaginá-las. Perguntou inclusive se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela riu: "Sim, eu não mudei de perfume." Talvez tenha mudado de corpo, de perfume não. Ele riu, acreditou que ainda era tempo, que ela o aceitaria de volta.

Ela afastou os braços dele dos seus ombros. Com ternura. Uma ternura de quem soube avançar pelos espinhos e enxerga a vida da copa das árvores, com mais altura do que o vento. Com mais discernimento.

A paineira me ensinou a não temê-la.

Um amor atrasado não é amor. Um amor atrasado é amizade depois de um amor que não aconteceu.

7:36 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 25, 2006

NO PONTO REMOTO DA ESTRADA
Pintura de André Derain

Fabrício Carpinejar



Ao viajar de carro para o interior do estado, eu me fixo na casinha ao sopé do morro, isolada, sem nenhuma vizinhança aparente por perto. Casinha de madeira, com uma pobreza de barco.

Cachorros jogam escravos de jó com as pedras, galos e galinhas pulam corda transparente, os pássaros piam como se fosse sempre inverno e úmido.

A casinha encravada entre dois mundos: a estrada cheia, intensa de tráfego, e a cidade do outro lado da mata. São alguns minutos para absorvê-la, o bastante para que a curiosidade me faça projetar como seria a minha vida lá. Com quem estaria, o que teria para consumar ao longo do dia?

O varal com peças de pijama e toalhas está estendido na varanda. Os panos cruzam a extensão da porta com a janela principal. Pressumo que seja temor de assalto, porque quintal não falta. As roupas molhadas são as cortinas. Vejo uma senhora, de saia floreada e andar trôpego, com balde de ferro. Quanto tempo não me encontrava com um balde de ferro! Balde de poço, fundo, niqueleira de chuva.

O balde segue na altura dos seus joelhos como uma perna mecânica.

A vaca é o portão do terreno. O que delimita a geografia da família, o tamanho da posse. Ela se esquiva do animal cheirando a grama. Chora. Ou faz uma careta para a estrada. Passa pela cabeça que ela está me enxergando e pensando como é estar em meu lugar. Trocamos de corpo em uma breve coincidência e aperto de lábios.

Um homem barbudo, com dois bebês no colo, grita para que ela volte. Segura as crias como se fossem pacotes - têm uma leveza insuportável, uma leveza de galho. Respiro uma pungência no espaço, até que duas crianças mais velhas correm em direção ao que julgo ser a mãe. Juro que elas vão abraçá-la e não deixá-la caminhar. Mas a rodeiam como obstáculo do pega-pega. Nem estão interessadas no drama. E correm soltas para os fundos do terreno, em que uma parreira estoca névoa e vinho. A casinha esparsa tosse gripada.

Vejo a mulher avançando para o meio-fio da estrada, senta na parada de ônibus, posso cristalizar seu rosto. É grave, sem alça para carregar. O homem não desiste da raiva. São grunhidos, não mais palavras. Entendo que está desesperado e os bebês apresentam a cintura arredondada e engraçada de fraldas.

No conteúdo do balde, consigo discernir roupas femininas. Roupas secas, não molhadas. Já que não estão prensadas, e sim afofadas de vento, com mangas para fora.

Concluo que o balde é sua mala. Ela entra no primeiro ônibus e parte como eu.

5:13 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 23, 2006

DEBAIXO DA MESA
Pintura de Philip Guston

Fabrício Carpinejar



Vamos a um restaurante, Vicente come, brinca um pouco com as latinhas de refrigerante e, de uma hora para outra, desaparece para debaixo da mesa. Arrasta os cílios e sua corda de casaco aos subterrâneos da refeição. É sempre assim. O hábito da criança em exercitar esconderijos.

Emplumado na toalha, mexe nos nossos pés e brinca em adivinhar o ponto de vista de um cachorro. Se ele não fizesse isso, nunca me lembraria de que sou igual. Jeito engraçado de arrumar às pressas um quarto para dormir e de fugir das comparações; bastava deslizar pela cadeira e a solidão nos aguardava. A barraca já estava montada e se escutava o trololó dos adultos com a displicência de ervas.

Toda estrada é uma espada - dependemos do sol para diferencial o metal da pedra. Meu olhar é meio ao chão, não por ser deprimido, muito menos por vergonha. Ele é resultado do tempo que via o mundo debaixo da mesa. Para uma criança, sua altura não é medida por régua, e sim pelas pernas dos pais. Recordo dos sapatos encerados que a minha mãe usava para sair ou das meias de cores trocadas de meu pai (sem graça de avisá-lo da gafe). Procurava objetos tutelares. Sempre alguém esquecia algo. Havia um grampo, uma borrachinha de cabelo, um prendedor de gravata, uma moeda, um brinco. Ninharias exuberantes para quem não esperava encontrá-las. A criança é sincera, pois permanece em contato com o solo. Não se acredita dono de uma conversa, dono de uma vida, dono de um nome. Sua boca é o prato, os talheres são os dentes e o resto é movimento.

Em encontros animados, é comum desaparecer. Os amigos pensam que fui ao banheiro. Ou que me antecipei para pagar a conta. Ou que me ofendi com um assunto. Estranhamente me escondo debaixo da mesa. Mudo a perspectiva do relacionamento quando me sinto muito alto e confiante, muito invulnerável e exibido, muito senhor de si. Quando minha vaidade de ser observado é mais forte do que a vaidade de abrir os olhos. Uma reação de desapego, de reinício.

Não é necessário lavar os pés de quem se ama. Mas ficar perto deles para amarrá-los às mãos.

10:55 AM :: Comentários:

Jornal Rascunho, edição de junho/2006, número 74

Críticas e Resenhas

IDIOMA SEM PALAVRAS
Primeiro livro de Carpinejar como prosador é mistura de crônica, confissão e manual de sobrevivência

Moacyr Godoy Moreira - São Paulo - SP
Fotografia de Renata Stoduto




O amor esquece de começar
Fabrício Carpinejar
Bertrand Brasil
286 págs.


"Para amar, basta seguir a água." Assim, simples. Em O amor esquece de começar, Fabrício Carpinejar, cujas publicações anteriores trazem poemas, estréia em prosa com um formato diverso, algo de crônica, algo de relato confessional, algo de manual de sobrevivência amorosa neste mundo de pedregulhos. A simplicidade dá o tom das relações e, para o autor, os que conseguem perceber as verdadeiras dimensões dos problemas, sem estereótipos ou lugares-comuns, vivem mais intensamente e podem, quiçá, almejar o que se classifica ordinariamente como felicidade.

Há, no livro, textos que beiram o aconselhamento, como os que falam sobre os filhos para pais separados, ou mesmo, momentos em que se sugere a entrega à profundidade e aos instintos como uma das poucas saídas possíveis. Porém, o que se destaca no conjunto das crônicas é a poesia. Em meio a um episódio mais corriqueiro ou uma observação aparentemente despretensiosa, surge a veia lírica de Carpinejar a ecoar no texto, a torná-lo mais elegante. Na tradição da crônica brasileira, notava-se semelhante efeito no texto preciso de Paulo Mendes Campos, poeta também, e em Rubem Braga, que não publicou versos, mas os derramava em meio às crônicas, invariavelmente.

Além da simplicidade, mais dois elementos perpassam as narrativas: a linguagem indecifrável do silêncio - dos gestos que falam por si - e a grandiosidade que há nos detalhes imperceptíveis, nos fragmentos: "o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços". Os cacos que, juntos, emitem uma luz multicolorida e fascinante, recolhem-se dos acidentes domésticos, do ex-marido que se percebe mais solitário que nunca, da ex-mulher que suprime sua dor com chocolates e filmes românticos. No homem que lava os cabelos da mulher amada, no amigo que se deixa abraçar para que, através daquele corpo sem nome, materialize-se a dor da perda de um filho. Em Seis meses, uma frase quase chinesa, que poderia figurar no I Ching, fecha a crônica: "Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada".

Com isso, o autor retoma nas crônicas uma temática comum a sua poesia, a busca de uma essência que não é perfeita, mas que, quando encarada de forma verdadeira, ajuda a fixar as tortuosas raízes, que compõem o caráter e viabilizam as relações. Há no livro uma forma sutil de descrever o mergulho na dor, como a mulher que se vê só, depois de tempos casada: "Deixará a samambaia sofrer como ela. Será capaz de comprar cactos por causa das pedrinhas brancas. Entende o estado mineral. [...] Agora já abre os potes de pepino e constata o quanto é fácil girar a tampa com o pano de prato".

Um gesto singelo, como perceber hábitos do companheiro, a mulher que desabotoa a blusa do umbigo para os seios, e não ao contrário como se faz usualmente; a delicada descrição das sutilezas que pode ter uma cadeira de balanço; coisas assim aparecem ao longo de O amor esquece de começar, dispersas nos textos, demonstrando a sensibilidade para os silêncios do outro, para a respiração mais espaçada ou mais densa, cada qual com significados particulares. Em Para dois: "A falta de palavras é também um idioma".

Lygia Fagundes Telles, no belo e pouco conhecido A disciplina do amor, livro composto de inúmeros fragmentos, abre assim o volume:

"Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem."

Fabrício Carpinejar pisou o terreno sagrado e agora sabe. Por meio das crônicas de seu mais recente livro, este saber é aspergido como o pólen nos tempos da primavera, pólen repleto de cotidiano e salpicado de poesia.


Fabrício Carpinejar: poesia e simplicidade.

10:51 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 20, 2006

A ÚLTIMA REFEIÇÃO
Pintura de Fernando Botero

Fabrício Carpinejar



Comida de mãe é outra coisa. Talvez seja porque envelhecemos e a saudade aperta os dentes. Minha vontade é recuperar o guisadinho posto de canto, o feijão amontoado nos lados, as batatas que deixava no prato da infância, o arroz sequinho que nunca dei valor. Comeria hoje todas as minhas sobras com vigor. Nenhum restaurante se compara aos temperos cultivados na própria horta.

Eu peço para que a mãe cozinhe - ela avisou que já cumpriu o tempo de serviço. Ninguém insistiu para que cozinhasse. Aliás, tenho que me oferecer, o que significa o quanto sou um fracasso perto do fogão. Eu aprendi a fazer cordeiro. Meus filhos não me solicitam. No mercado, encontram maneiras de me distrair para que não chegue ao açougue. Quando ofereço meus préstimos, não há um pingo de entusiasmo, mudam de assunto, pedem outras iguarias, perdem a fome. Eu também aprendi a fazer panqueca, com direito a jogar ao alto e tomar rapidamente a massa com a frigideira. Eu, na verdade, praticava panqueca. Mas a Ana inventou de competir comigo e prepará-las, como um jeito educado de mostrar minha inapetência. Ao invés de comer fingindo que gostava da refeição, antecipou-se para não sofrer. Assumia meu lugar para salvar o casamento. Não tenho como me comparar a sua arte: a massa fina e o recheio abundante me desmoralizam diante das crias.

Assim como os condenados à pena de morte têm direito a escolher sua última refeição, a mãe criou um método de entusiasmar seus filhos na superação de exames. Em todo vestibular ou provação mais severa, ela se prontificava a elaborar o prato predileto do candidato da família. Perguntava o que se desejava comer com a naturalidade de quem diz boa-noite. De manhãzinha, sumia para catar os ingredientes. Voltava arrebanhada de sacolas. Poderia exigir comida tailandesa, que lá vinha. Lamento não ter me inscrito em mais concursos. Perdi diversas chances de renovar o paladar e saciar as fantasias de grávido de minha vida. Na seleção da UFRGS, desejei quibe frito. Recebi porções generosas com um detalhe: unicamente destinadas para mim. Os irmãos me suportavam comendo e suspirando... Era uma realeza gastronômica. Ainda oferecia um pedacinho a eles para debochar. Não aceitavam por orgulho. Em represália, intensificava meus suspiros de limonada.

Claro que comia demais e passava mal nas provas. Mas isso minha mãe não precisa saber.

8:20 PM :: Comentários:



HOMEM CHEQUE EM BRANCO
Pintura de Juan Gris
Do Consultório Poético
Confira outras consultas no site da revista Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Ao iniciar um novo emprego, conheci um colega que mexeu muito comigo. Foi encantamento à primeira vista. Com o passar do tempo, nos tornamos muito próximos e em nenhum momento ele mencionou a existência de alguma namorada. Em uma viagem que fizemos por exigência de nosso trabalho, acabamos ficando juntos. Logicamente, acabei me apaixonando.

Após alguns encontros, entretanto, percebi que a ênfase maior sempre era colocada no aspecto sexual, não existiam muitas demonstrações de carinho da parte dele. Comecei a me chatear com isso. Pois bem, apesar de não ser fácil para mim, visto que me considero uma pessoa um tanto introvertida, tentei algumas vezes conversar, saber o que ele realmente pensava e sentia por mim. Expressei meu descontentamento com aquela situação. Como nada disso surtiu o efeito desejado e ele não se mostrava nem um pouco disposto ao diálogo, resolvi acabar com a brincadeira, pois, por mais que o amasse, não gostaria de ficar com alguém que apenas desejasse uma boa noite de sexo comigo (para mim, ao menos, a configuração da historia parecia ser esta). Ele reagiu dizendo que gostava de mim, que não era apenas sexo (como muitos homens dizem, aliás), mas que o fato de trabalharmos juntos atrapalhava muito o nosso romance.Nunca mais ficamos juntos desde então, pois não houve nenhum movimento da parte dele em busca de um resgate. Um vez, tomando um café em um bar perto do trabalho, consegui retomar o assunto, pois tudo ainda estava muito mal resolvido para mim: ele repetiu tudo o que dissera na ocasião anterior. Ainda assim, não retomamos o contato. Mas, Fabrício, o que me intriga e me incomoda MUITO é que até hoje ele me olha diferente, me trata com carinho, repara nas roupas que estou vestindo, tem crises de ciúmes quando desconfia que estou saindo com algum outro homem e, de uns tempos pra cá, tem feito muitas insinuações e comentários (sempre em tom de brincadeira, convenientemente) que interpreto como sendo um convite a um novo envolvimento. Mas nunca sai disso. Jamais recebo um chamado concreto para conversar, um convite para jantar, ir ao cinema, seja lá o que for. Fabrício, por que será que ele age assim? Para mim, parece evidente que ele não quer nenhum compromisso comigo. Mas por que me provoca, afinal? Eu suponho que ele saiba que ainda tenho sentimentos por ele (não arriscaria certezas, pois sou boa em esconder o que sinto). Então, por que estimular algo em mim que para ele não haverá reciprocidade? Não acredito que um homem de trinta e poucos anos tenha medo de se envolver... Será simplesmente maldade? Neurose? Sei que o ideal seria confrontá-lo com as minhas perguntas, mas sinto que é quase certo que as respostas não viriam. O que pensar disso tudo? Pior: o que fazer? Será que poderias me fornecer algum vislumbre da alma masculina?"


Oi, Cláudia

Ele não quer ficar contigo, mas deseja que você não fique com mais ninguém. É o egoísta sádico. Tem o domínio da situação e a faz sofrer de propósito, sempre terminando e reiniciando o jogo com insinuações. Com o artifício da brincadeira, seduz sem se comprometer. Deixa subentendido para depois pular fora. Sugere para responsabilizá-la pelo envolvimento. É o "homem cheque em branco". Põe o valor, mas não assina.

O cenário é claro: ele parece que tem vergonha de namorá-la. Mantém o elo unicamente para o sexo ou como segredo. Busca uma relação fugaz, o entretenimento, e evita o estresse da doação. Qual é o problema de trabalhar junto? Nenhum; não ficarão dando beijinhos no serviço. Para variar, ele recusa toda exposição social em sua companhia, preocupado com a aparência. Se ele a olha diferente, não poderia ser indiferente depois. A paixão não repara os lados para falar. Que a convide para ir ao cinema e jantar, que proponha bobagens e criancices na rua. Que seja infantil ao acordar e adulto para dormir.

Ele ficará esperando que retorne, porque já entregou o jogo e afirmou que o amava. É dispensável confrontá-lo com as questões. Ele teria que se desculpar, esclarecer as indelicadezas e mudar de atitude.

Eu o enterraria com o desdém - vivo mesmo, não precisa matar e sujar as mãos. A memória dele será uma cova por demais espaçosa.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:18 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 18, 2006

TROCADO NO HOSPITAL
Pintura de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Jurava que tinha sido trocado no hospital. Toda criança parte dessa suspeita, que é uma curiosidade do amor. Eu culpava o mundo por ter nascido, nada melhor do que começar pelos pais. O temor de ser rejeitado faz com que a gente rejeite antes. Para não sofrer tanto depois, antecipa-se o pagamento do sofrimento. Era bem diferente de meus irmãos: Miguel e Rodrigo, cabelos cacheados, ou Carla, com um rostinho esculpido economicamente. Minha feição afundava a cada dia como uma bacia para pisar as uvas. Só há uma fotografia minha dos nove meses, os olhos como um saco informe de bolas de gude. O pescoço não conseguia sustentar a cabeça erguida, caindo levemente para a esquerda. Estava com um tip-top branco, que acentuava o caráter de assombração.

Mas não tirei a idéia do nada. Uma tia, extremamente maldosa, narrava que nasci cheio de bolinhas na face. E, de repente, apareceu uma criança desprovida de marcas. O desaparecimento imediato dos sinais perturbava a mim e a minha tia. Ela me convenceu que meu lugar na casa havia sido emprestado. Pensei várias vezes - por mais que o ambiente do meu lar fosse amoroso - em arrumar uma malinha e fugir, à procura de meu verdadeiro paradeiro. Um dia, cumpri a promessa, andei dez quarteirões chorando e parei numa pracinha para me concentrar no choro. Queria que alguém corresse atrás de mim e me buscasse. Ninguém veio. Anoiteceu e voltei fracassado para casa, sem revelar a minha intenção. A mãe deduziu que brincava com amigos e não reparou na gravidade do regresso. Ralhou apenas: "vá tomar banho, que já está na mesa". Desejava fugir para não fugir. Um teste de saudade, devidamente reprovado.

Na época, ensaiei alguns bilhetes de despedida. A sorte é que nunca fiquei satisfeito com o que escrevia. Pelo mesmo motivo, não irei me matar. Meu perfeccionismo impede o suicídio, certo da minha insatisfação com a redação do bilhete final. Imagina morrer e deixar um erro de português no último texto? Ainda vão falar: o cara nem sabia escrever... Prefiro permanecer vivo a carregar o analfabetismo póstumo.

Fui adotado e os pais me protegiam da origem bastarda - acreditava nisso. Muito revisei minha certidão de nascimento, mexi nos papéis secretos da escrivaninha paterna, na carteira de vacina, faltou-me sempre a prova. Desde cedo, investiguei a minha vida como uma fraude. Não provei falsidade alguma, tampouco atestei sua veracidade.

Impaciente com a minha teimosia, a mãe decidiu terminar de vez com a desconfiança. Sentou-me em sua frente na mesa da cozinha e, como garfos a conchar macarrão, retirou uma fotografia de um envelope pardo. Olhei, olhei, olhei assustado. Era a minha cara, entretanto, não era eu.

- É seu avô. Viu? Não há como você não ser de nossa família.

Conformado, baixei o queixo. Quando a mãe concluiu que não iria mais contestar, resmunguei num tom bíblico:

- Coitado, ele também foi trocado.

10:25 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 17, 2006

Carla Rodrigues me entrevistou para seu blog no site No Mínimo. Confira.

TRÊS PERGUNTAS PARA FABRÍCIO CARPINEJAR

Poeta premiado, o jovem gaúcho Fabrício Carpinejar acaba de se aventurar no campo da prosa, com o lançamento de "O Amor Esquece de Começar", uma coletânea de crônicas. Aqui, ele fala sobre o lugar da poesia no mundo de hoje e alerta: "Confundimos o que é maduro com o que é podre".

Qual o papel da poesia no mundo contemporâneo?
Intrigar, provocar, emocionar e não deixar que a palavra seja somente palavra. A palavra é muito ambiciosa, acredita que é mais importante do que aquilo que nomeia. A palavra serve ao poder quando é no despoder que abrimos a guarda. Exerce hipnose de dicionário e enreda poetas na metalinguagem. A palavra é a vaidade de dizer, mas só existe porque o silêncio ainda não é paz. Sou desconfiado com a palavra. Um poema se faz pela falta de palavras. Quanto mais próximos chegamos do toque, do afago, mais estaremos dizendo.

Poesia é abraçar o invisível, aquecer o invisível para que ele se torne pouco a pouco corpo. Uma ausência aquecida já é carne. Poesia nunca se contenta em ser memória ou ficção, ela quer ser a ligaçäo entre as duas. Cultivo meus vivos como fantasmas, tudo o que eles fazem na minha direção é um milagre.

O que significa ser escritor num mundo em que as narrativas se fragmentaram completamente?
Temos o compromisso de reunir os cacos, varrer os cacos de vidro e montar outros objetos luminosos com eles. Talvez uma parede com porcelana quebrada ou uma mesa com asas de xícara. Nosso problema é que falamos como adultos e sofremos como crianças. Nossa língua não entende o que sentimos. Sinônimos demais. Empregamos palavras desnecessárias, que não são amadas, para preencher a fala. Com medo da repetição, mentimos. Para falar bonito, mentimos. O excesso serve para esconder a emoção, não expressá-la. A mentira é palavrosa, a sinceridade é quase lacônica. Melhor seria ter um repertório diminuto de criança, pois a criança usa todas as possibilidades de cada palavra antes de aprender outra. Nossa boca está pesada demais. Confundimos o que é maduro com o que é podre.

Você acha que a Internet vai mudar também a nossa forma de fazer ficção?
Já está mudando, tanto a ficção como a imprensa, que está aderindo aos blogs. Não há colunista que não expanda seu território para a virtualidade. Há uma maior variedade e espaço para o debate. Cartas são trocadas a todo minuto. Estamos mais opinativos, inventariando a própria vida em outras vidas e personagens. Meu único receio é que a leitura seja trocada pela informação. Estar informado não significa se aprofundar. Saber não é duvidar.

Vejo que os novos autores têm mais chance de mostrar seus trabalhos. As gavetas são públicas, não fechadas na madeira de uma escrivaninha ou de uma casa. É mais difícil morrer anônimo com a internet.

9:37 AM :: Comentários:

Jornal Zero Hora, Caderno Cultura
Sábado, 17/06/06





CONTINUAR QUINTANA

Um sujeito está sozinho velando um amigo morto. Dá uma escapada para molhar a garganta e, quando volta, surpreende o cadáver em pleno ato de... Essa pequena história, de autoria de Mario Quintana, publicada originalmente em 1946, ganha uma nova série de finais. A convite de Zero Hora, no centenário de nascimento do poeta alegretense, escritores brasileiros de diferentes gerações aceitaram o desafio de apresentar uma continuação para Tableau!

Literatura
A sós com uma desconcertante criatura

Parece sacrilégio, mas é antes uma homenagem, ou ainda un divertissement, como bem definiu o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan, amigo próximo de Mario Quintana. Ele e outros escritores brasileiros contemporâneos foram convidados pelo Cultura a escrever um final alternativo ou uma continuação para Tableau!, um dos textos mais saborosos do mestre alegretense - nosso "poeta-mor", ainda segundo Trevisan. Tableau! apareceu pela primeira vez no número 5 da revista Província de São Pedro (confira na contracapa deste caderno). Chegou em livro em 1948, em Sapato Florido, e hoje está incluído na Poesia Completa de Mario Quintana, editada pela Nova Aguilar.

Versão original de Mario Quintana

Tableau!
Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos
.


por Flávio Moreira da Costa

Até os postes morrem. Sei disso porque escrevi a história de um poste que se chamava Espia Só. Natural que eu morra também. Os poetas, como os postes, também morrem. Espia só!

Morto eu. Mas eu já estava acostumado, desde "a vez primeira que me assassinaram", e depois, "cada vez que me mataram" quando "foram levando qualquer coisa minha". Morto. Pelo menos na hora em que percebi , em pleno velório meu que estava morto - e despertei.

Isso posto, ninguém no meu último e final poema, a confirmar nossa solidão em vida. A posteridade, por definição - e se chegar - chega depois. Tarde demais. Ansioso, senti fome, muita fome. Se flores houvesse - as flores que outro poeta pediu em vida - eu as comeria. Não havia; mastiguei as quatro velas que alguém - por simples desencargo de consciência, suponho - colocou ao lado do meu caixão. Talvez as velas me iluminassem por dentro, como a poesia me iluminou em vida, a poesia agora vela apagada.

Mais eis que alguém entra no meu velório inopinadamente (não gosto desta palavra mas acho que já a usei por escrito) - e ali, na minha frente, olhos abertos de espanto, a tal pessoa mal consegue esconder seu susto, seu sorriso amarelo e...

Alguém - quem mesmo? Mas...

Fiquei aterrorizado, e reagi com um sorriso branco de cera, quando vi que ele se parecia com o poeta Mario Quintana: meu Deus, ele era o poeta Mario Quintana !

Talvez Mario Quintana desmaiasse se soubesse, como eu percebi na hora, que Mario Quintana era eu.

Escritor gaúcho radicado no Rio, Flávio Moreira da Costa, 64 anos, é tido como um dos pioneiros da literatura policial no Brasil. Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti, por O Equilibrista do Arame Farpado (1998) e Nem todo Canário É Belga (1999). Também é autor de uma biografia do compositor Nelson Cavaquinho e publicou mais de uma dezena de antologias de contos, como Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal (2001) e Cem Melhores Contos de Crime & Mistério da Literatural Universal (2002)

por Marcelino Freire

Onde você aprendeu? Hein? A morder velas? Comer? Lamber? Esse fogo veio de onde? Da vida eterna? Quem ensinou essa fome? Diz, fala. Você que sempre foi um cara sem graça. Uma existência tão limitada. Chama apagada. Sei não. Eu mesmo queria esse tipo de ressurreição. Voltar diferente. Se quiser, vou ali de novo, no bar do seu João. Trago vela de todo tamanho. De toda cor. Para você morder. Como nunca vi você morder. Até o fim do pavio, meu amor.

Escritor pernambucano radicado em São Paulo, Marcelino Freire, 39 anos, é autor de eraOdito (2002) e BaléRalé (2003), entre outros livros. Edita a revista de literatura PS:SP

por Moacyr Scliar

Uma súbita suspeita o assaltou e ele perguntou: tu achas que as velas podem me fazer mal? Acho que não, respondi, e expliquei:

- As velas são, basicamente, compostas por parafina e estearina. A parafina, obtida pela destilação fracionada de petróleo, é uma matéria sólida, incolor, inodora e insípida, constituída principalmente de hidrocarbonetos saturados. Dificilmente combina-se com outros produtos, como aliás o sugere o próprio termo parafina, que vem do latim "parum affinis", pouca afinidade, e portanto inocuidade: evidência disto é o fato de que a parafina está presente até na goma de mascar. Quanto à estearina, é uma substância que, devido às suas características físicas peculiares, substitui com vantagem diversas gorduras hidrogenadas na indústria de alimentos, mesmo porque, não tendo sido submetida a processos de hidrogenação artificial, está livre de certos nocivos ácidos graxos. Pode, portanto, comer à vontade - e bom proveito.

Escritor e médico sanitarista gaúcho, Moacyr Scliar, 69 anos, é colunista de ZH, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Publicou mais de 50 livros. O mais recente é Os Vendilhões do Templo (2005).

por Cíntia Moscovich

Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber.

Quando voltei, entrei inopinadamente na sala. Lá estava o defunto, sentado no caixão. Desfolhava distraído uma flor arrancada a uma coroa. Ao me ver, o coitado tomou um susto ainda maior do que o meu. Pediu-me desculpas pela insolência de quebrar o protocolo das exéquias, morto tinha mais que ficar deitado, mas tinha se chateado com aquele marasmo.

Meio catatônico, afirmei que eu é que tinha de pedir desculpas - falta de educação deixar um morto sem ninguém para fazer companhia. Ele fez um gesto de deixa-disso com a mão lívida e, animado, disse que morria de vontade de fumar: o médico havia proibido, fazia um tempão que não fumava. Eu, que havia comprado duas carteiras de cigarro no bar, ofereci um dos meus, ele que se servisse, não ia mesmo fazer a mínima diferença àquela altura do campeonato.

Ficamos ali, fumando e proseando, até que se ouviu barulho de gente que chegava. O morto apagou o cigarro no cinzeiro que lhe alcancei e voltou a se deitar no caixão. Cruzou as mãos ao peito e, antes de fechar os olhos para a eternidade, agradeceu-me a camaradagem e o maço de cigarros ainda fechado que coloquei no bolso de seu paletó de enterro. Sabia-se lá que marca fumavam no Outro Mundo.

Foi enterrado com uma expressão de viva felicidade.

Escritora e jornalista gaúcha, Cíntia, 48 anos, é autora de, entre outros livros, Arquitetura do Arco-Íris (finalista dos Prêmios Portugal Telelcom e Jabuti, 2005)

por Armindo Trevisan

Nunca se deve imaginar um defunto como uma desconcertante criatura. O defunto é um vivo que se esqueceu de viver. Tão logo o acondicionam num ataúde, assume poses irreconciliáveis com suas atitudes anteriores. Se era um pândego, fica sério. Se era uma mundana, junta as mãos sobre o peito. Se era um político, revela as primeiras intenções de suas segundas intenções. Quando morri, esforcei-me por não fechar os olhos. Já fora informado de que alguns defuntos eram velados com os olhos abertos. Pude assistir ao meu velório, um velório sem defunto, já que eu estava e não estava no caixão. Noutras palavras, coçava-me, e ninguém o percebia. Ignorado pelos circunstantes (que bebiam café e lanchavam nas cercanias), não precisei comer toco de vela, nem trocar sorrisos amarelos com ninguém. Prevenira de que não me velassem à noite. Para saber, pois, que eu estava realmente morto, bastava-me ver a cara dos presentes. Suas lágrimas eram maravilhosamente falsas. Diante disso, chorei com pena deles. Acho que isso me garantiu o sepultamento. Isto é: escapei à cremação porque: na última hora, na hora H, um neném chorou. Os meus entes queridos lembraram-se da criança que eu fora - uma criança realmente amorosa!

Poeta, professor e crítico de arte, doutor em Estética pela Universidade de Friburgo (Suíça), autor de, entre outros livros, O Rosto de Cristo (2003). Acaba de publicar o livro Mario Quintana Desconhecido

por Ivana Arruda Leite

Foi então que o ex-defunto perguntou-me com seus olhões recém-abertos: "Está servido?". Percebendo que o homem estava a fim de conversa, resolvi matar minha curiosidade: "Amigo, você que esteve na outra margem, me responde: como são as coisas do lado de lá?". Ao que ele respondeu com visível desagrado: "Mário, essa história de imortalidade é um engodo. O que há é a mesma paisagem, com os mesmos burros e as mesmas vacas pastando". Abracei-o comovido e convidei-o para uma cerveja, mas ele disse que estava tarde.

Escritora e socióloga. Paulista de Araçatuba, Ivana Arruda Leite, 55 anos, é autora de Histórias da Mulher do Fim do Século (1997) e Falo de Mulher (2002)

por Celso Gutfreind

E foi bem aí que meu olhar em direção ao morto abalou, novamente, a calma daquele começo de eternidade. E disse uma verdade, pois os olhares não mentem, sobretudo para um morto entre velas roídas até o sabugo. A criatura, sem olhar, como é comum com defuntos, respondeu com palavras como se fosse um vivo:

- Tens certeza ?

Antes do fim da pergunta, ele se preparava para partir, já que tinha conquistado o raro direito de ir embora. Segurei-o por um instante infinitamente menor do que o tempo que agora lhe cabia:

- Estou vivo; como posso ter alguma certeza nesta vida?

Mortos raramente olham na cara, mas aquele defunto de araque me olhou. E me lançou ao dever de um vivo, o de encarar a verdade. Sim, eu o amava. Era isso o que o silêncio mortal de nossas vidas encobrira durante a vida toda. Foi isso o que eu, morto em vida, disse finalmente para aquele vivo em morte.

A cena só não ficou ridícula, porque declarações de amor, diante da morte, tornam-se profundas, convincentes e originais.

E, desde então, nunca mais fomos os mesmos.

Escritor, professor e psiquiatra gaúcho, Celso Gutfreind, 43 anos, é autor de 17 livros, entre infantis, ensaios e poesias. Tem doutorado e pós-doutorado em Psiquiatria Infantil pela Universidade de Paris

por Fabrício Carpinejar

Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber. Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! Parecia um mendigo engolindo a barba junto. Não queria atrapalhar sua refeição. Não gosto de interromper uma solidão jantando. Mas o defunto começou a soluçar chamas, desesperadamente. Aproximei-me com medo de que eu estivesse morto. Afinal, quando um morto o cumprimenta, pode ser que ele esteja mais vivo do que você que não responde. Bati levemente em suas costas, para desentupi-lo de morte. Ele sorriu com cinismo:

- Havia esquecido de fazer a refeição.

Deitou de vez e, quando acreditava que era uma alucinação, teimou em sentar. A boca contorcia-se em careta, uma criança descobrindo um novo som. Encheu as bochechas e soltou com galhardia um imenso arroto, que ressoou no São Miguel e Almas.

Saí gritando pelos corredores:

- Fogo-fátuo, fogo-fátuo, fogo-fátuo.

Poeta e jornalista gaúcho, Fabrício Carpinejar, 33 anos, é autor de, entre outros livros, Terceira Sede (2001). Seu trabalho mais recente é o volume de crônicas O Amor Esquece de Começar (2006)

9:34 AM :: Comentários:

ASSIS BRASIL ANTECIPÁ FRAGMENTOS DE SEU NOVO ROMANCE
Público terá chance de conhecer atmosfera do próximo livro do autor no "Entre nós..."

Leitores e fãs de Luiz Antonio de Assis Brasil, autor de romances como "O Pintor de Retratos" e "A Margem Imóvel do Rio" (ambos da L&PM), poderão conhecer trechos de seu livro inédito nesta segunda (19/6), às 19h30, na Livraria Cultura (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). O romancista fará leitura em primeira mão da sua nova produção no "Entre nós...", série de debates mensais que apresento ao lado do jornalista Rodrigo Breunig. A entrada é franca.

Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu em Porto Alegre, em 1945, onde reside atualmente. Traduzido na França e editado em Portugal, já teve mais de 250 mil exemplares vendidos ao longo de 16 livros. Em 2005, recebeu o Prêmio Fato Literário pelos 20 anos da Oficina de Criação Literária da PUCRS. É Doutor em Letras e Pós-doutor em Literatura Açoriana (Universidade dos Açores), detentor de inúmeras premiações, entre eles o Portugal Telecom 2004, com "A Margem Imóvel do Rio", único romance classificado entre os três vencedores. Também recebeu o prêmio Literário Nacional do Instituto Nacional do Livro (1988); o Erico Verissimo (1988), pelo conjunto de sua obra, concedido por unanimidade da Câmara de Vereadores de Porto Alegre; o Açorianos de Literatura (1994/1995); Prêmio Pégaso de Literatura Latino-americana de Bogotá (1994); Prêmio Machado de Assis (2001), da Biblioteca Nacional; Livro do ano, pela Associação Gaúcha de Escritores (2004) e Prêmio Jabuti (2004).

"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano. A entrevista é aberta e conta com a participação do público.

9:22 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 16, 2006

A FRUTA INVENTOU O DESEJO.
SUA BOCA ME DESENHOU A FRUTA

Para a única Teresa de minha vida
Pintura de Bronzino

Fabrício Carpinejar



Não desista Teresa, não desista da vida, mesmo que seja mais um dia nublado, com os pés da chuva doendo. Não desista, ainda que tenha trocado o sono pelo cansaço, que a distância ao quarto seja uma colméia exasperante de pássaros. Cansada de argumentar a seu favor. Cansada de defender seus pontos de vista. Cansada de explicar o que estava passeando em seus ouvidos. Cansada de ser vista como bruxa só porque pressente, ser vista como estranha porque se antecipa, ser vista diferente porque escreve, ser vista como perigosa porque ama sem a ênfase da recompensa. Cansada, cansada, cansada do excesso de sensibilidade, de fechar as cortinas para permanecer nua. Cansada de não adoecer porque, desde a infância, precisa justificar seu nascimento para os olhos azuis da mãe. Porque precisou se levantar cedo para ir à escola, para ir à igreja, para ir ao trabalho, para ir. E quando não ia, fugia. Fugia da ditadura, da resistência, do preconceito. Sempre havia um lugar para mantê-la fora de casa. O que é vício nos cala, o que é virtude também. Acenda as pedras. Cubra as rachaduras dos livros com cuspe e argila. As regras não são os limites. Desobedeça mais uma vez as normas. Faça de conta que não ouviu.

O mar passa ao lado do sangue. Não desista, nade com um único braço, voe com uma única perna. Passe a manteiga nos telhados, a mão fica menos dura com a manteiga, a faca fica menos ofensiva. Não desista, seu tornozelo é uma ostra que desliza melhor do que os peixes. Não desista. Se há um pouco de sede, há raiva dentro do amor. Se há um pouco de fome, ainda lavará a boca do travo cinza da despedida. Não dê por encerrada a vida, não espere ser levada, use as unhas dos cabelos para não deixar seu lugar no mundo. Chore, mas não desista. Já bebeu a luz como vidro, já bebeu a luz como vinho, já bebeu a luz como vespas. Mas a luz ainda não a bebeu toda. Não desista, Teresa. Ontem não foi seu grande dia. Não deixe a cama tirar as medidas de seu vestido. Bebe o inverno dos armários, o inverno das gavetas, sua mãos estarão alisando as próprias costas. Aperte as cordas da guitarra, a guitarra tentou se matar cortando os pulsos. Vamos enfaixar as mãos da música e fazê-la dormir em nossos braços. A guitarra é uma criança mais bonita de tranças. Eu não sei fazer tranças, Teresa.

Não desista Teresa, a dor é anônima e não nos pertence, a dor assusta para nos proteger. Põe a língua no selo para mandar uma carta, amarre os sapatos do pacote, mas não vá. Eu não sei chegar em mim sem que esteja me esperando.

6:14 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 15, 2006



CARA OU COROA?
Pintura de Stuart Davis
Do Consultório Poético

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"Olá, Fabrício

Gostaria muito de saber o que acontece com os homens depois de um certo tempo de relacionamento, por que se distanciam, esfriam desse jeito. Namoro um homem de 42 ano - eu tenho 26. No começo tudo era uma delícia, ele me dizia coisas que eu sempre sonhei em ouvir, me fazia sentir muito especial, amada de verdade. Faz três anos apenas que estamos juntos, e ele está diferente... Não diz mais as coisas que dizia, anda esquisito comigo. Quando ligo pra ele digo que sinto saudade, que o amo, mas ele parece que nem tá aí, logo desconversa ou então só resmunga um "eu também" do outro lado da linha. Outro dia vi na agenda dele (ele vende perfumes) o nome de uma mulher anotado com "bonitona" escrito do lado. Quis saber quem era e ele se enrolou todo. Primeiro disse que era uma coroa, que só tinha escrito aquilo porque ela se vestia bem e depois que ele saiu não lembrava mais o sobrenome dela. Mas no outro dia, disse que anotou aquilo pra fazer um agradinho, "puxar o saco" pra ver se ela comprava mais perfumes dele. O problema é que essa indiferença toda dele somada com esse tipo de coisa tá me deixando muito confusa, insegura e ciumenta. Já conversei com ele sobre isso, mas ele diz que eu sou boba, muito criança e que não preciso ter ciúme porque ele me ama. Já não sei mais como agir porque não quero pressioná-lo com perguntas, mas também não entendo esse afastamento dele. Obrigada pela tua atenção!"


Olá, Lia

Não acho que ele a está traindo, não seria absolutamente descarado a ponto de colocar na agenda "bonitona" ao lado de outro telefone. É amadorismo demais. Quando o homem trai, a última coisa que ele faz é deixar algum sinal por escrito. É lógico que a desculpa dele é esfarrapada. Mas a sinceridade costuma ser bem menos elaborada do que a mentira. Às vezes, a verdade é desengonçada. Não duvido que ele tenha escrito na frente da mulher para impressionar, elogiar e até garantir uma venda. Mas como namorado, nota-se que ele é um péssimo vendedor.

O que me preocupa é o desinteresse geral, o desânimo estabelecido agora no namoro, e que é difícil interromper. Falta maturidade por parte dele para enfrentar o assunto. Coloca suas perguntas como suspeitas ou neurose, quando são indicativos consistentes da ausência de ternura. Ele não está mais a fim, acredita que não precisa se esforçar para conquistá-la, assim como ocorreu no início. Acostumou-se com a companhia. Concordo com seu receio: é irritante falar sozinha e receber um "eu também" para a maioria das declarações. Melhor é comprar um ursinho de pelúcia, que aquece e não atende celular nos melhores momentos. Seja dura, histérica e convincente. Seu parceiro não entenderá nada com o bom senso.

Outra coisa: quando o homem diz que não precisa ter ciúme, você tem todos os motivos para sentir. Ele não está fazendo nada de errado, só que parece disposto a fazer. Já desligou a censura e o alarme do corpo.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:46 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 12, 2006

A GAIOLA E AS FLORES
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular. Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados.

Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras.

Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido.

Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte.

Ao chegar em casa, abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra.

O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura.

Suas raízes são as asas.

Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação.

9:04 PM :: Comentários:

Jornal do Brasil, caderno de Esportes, 12/06/06

ZICO É MANGÁ

Fabrício Carpinejar*
Especial para o JB



Devo parte das minhas cáries da infância a Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Ele foi de longe a imagem mais difícil de ser encontrada no Futebol Cards, figurinhas do final dos anos 70 que não vinham em envelopes, e sim embaladas nos chicletes. Eu não dava conta de mascar as enormes barras rosas, maiores do que a minha mão de menino de oito anos. Arranjei um pote de bolachas na sala para depositar as centenas de chiclés. O galinho de Quintino nunca apareceu em minha coleção. Ainda me recordo abrindo desesperado os papéis à caça de seu rosto. E seu rosto me driblava e vinha todo o esquadrão implacável do Flamengo: Paulo Cesar Carpegiani, Tita, Júnior, Andrade... Menos ele.

Zico grudou em minha memória, no meu kichute de boleiro. Queria ser igual, um falso baixinho - na verdade ele não era pequeno, tomava impulso com a bola nos pés, capaz de trocar os refletores do Maracanã com a cobrança de uma falta e fazer tudo brilhar na garganta mais do que permitido pela voltagem da cidade.

Chorei por Zico nas Copas de 82 e 86. Sempre o considerei melhor do que Maradona. Teve uma carreira vitoriosa no Flamengo, equivalente a do Pelé no Santos. Não levantar a Taça Jules Rimet tornou-se a brecha, a lacuna de sua história. Mas Puskas nunca ganhou, Eusébio nunca ganhou, e não foram esquecidos por isso.

Hoje Zico estará no banco. Estranho vê-lo sentado ao lado dos reservas do Japão, a comandar a seleção nipônica contra a Austrália. No terreno dos insetos, a partida será algo como abelhas enfrentando vespas. Times esforçados sem um gênio reconhecível. Zico poderia ter sido desenhado por Maurício de Sousa, como agora é Ronaldinho Gaúcho. Porém, virou um Mangá. E não desistiu da Copa. Nem vai desistir.

Vinte anos depois, procura como eu completar uma ausência em seu álbum de figurinhas.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor do livro de crônicas "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006)

8:02 AM :: Comentários:


Domingo, Junho 11, 2006

AMOR BÁSICO
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Não gostava nem um pouquinho quando os adultos mexiam em meus cabelos. Tinha a impressão que eles estavam limpando as mãos em minha cabeça. Eu me sentia a pia de um banheiro público. Devo ter perdido os fios como vingança.

Sou desconfiado para praticamente tudo, menos o amor. Sou ingênuo, inacreditavelmente crédulo. Não custa pecar pela inocência. Não me incomoda levar um fora, o que me desagrada é não estar em mim para tentar sair.

Minha mulher é sabida. Ela e a felicidade se entendem sem discutir a relação. Partilham uma solidariedade de fumantes (não precisam se conhecer para puxar assunto, há o vício em comum). Não depende de nenhum presente caro, e de uma prova escandalosa de afeto para se ver recompensada. Não sairá à cata de jóias, de carro novo, de festas badaladas, contenta-se com uma aliança para lembrá-la de dobrar a esquerda. Não é e nunca será apagada, ou conformada. Sabe o que necessita: um abraço gostoso e um sapato confortável. Sua satisfação começa ao morder os próprios lábios.

Ela quer estar à vontade dentro do seu corpo ou do meu. Ouvir uma canção que conheça a letra. Comentar as notícias do jornal. Ir a um cinema pra deitar em meu ombro (acho que meu ombro criou uma almofada natural de propósito). Dançar de olhos fechados (caso não feche, não curtiu a música). Vibra ao receber minhas ligações durante o dia mesmo que eu não tenha nada de novo para dizer. Se eu sonho com ela, logo monta em meus joelhos, imobiliza-me e deseja conhecer os detalhes. Não há como me levantar sem contar. De modo nenhum, minto que sonhei, enfrentarei muito trabalho para inventar a história e convencê-la.

Sua imagem de liberdade é sentar na cama de calcinha e uma camiseta básica. Igual ao pôster que colocou atrás da porta em seu quarto de adolescente e que nunca vi para comparar. Nada mais a deixa tão feliz. Depois de tomar banho, permanece mastigando essa sensação de independência. Cheira duas almofadas, confere a lavanda e as põe em suas costas com delicadeza de uma coberta no filho. Cruza as pernas como se fosse voar. Nem acredita que já é mãe, já é casada, já se formou, já tem sua casa, seus problemas e várias gavetas na sala para as virtudes.

Ao não acreditar que cresceu, tampouco envelhece.

3:03 PM :: Comentários:


Íntimo e pessoal
Seção da Revista O Globo, Ano 2, Nº 98, 11/06/06

TRANSA E SOBRANCELHAS
Foto Renata Stoduto

Por Elisabeth Orsini



O gaúcho Fabrício Carpinejar não tem vergonha de amar e se emocionar. Considerado um dos melhores poetas de sua geração, com obras editadas no Brasil e em Portugal, ele estréia na prosa com o livro de crônicas "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil). "É difícil não falar de amor, justamente quando mais precisamos dele", diz Fabrício. Além de escritor, Fabrício é jornalista, crítico literário, apresentador de televisão, blogueiro, coordenador do Curso de Formação de Escritores da Unisinos e profundo conhecedor de sobrancelhas femininas. "Eu vejo como uma mulher transa pelo movimento das sobrancelhas", afirma. Com relação ao visual, aposta nos casacos temáticos. "Tenho doze modelos. Há o casaco do Don Juan, só com beijos de mulheres, o do Juízo Final, feito de recados para o futuro, o da palavra mais bonita da língua portuguesa, o da mais feia, o da música favorita, entre outros.

O melhor da internet?
No minimo e Digestivo Cultural

O pior da internet?
Publicidade que prende sua tela e o obriga a reiniciar o computador

Mania?
Mexer no ouvido na hora que estou mentindo. Minha mentira usa brinco.

Para cuidar do corpo?
Andar de bicicleta amarela

Para cuidar da mente?
Jogar futebol. Treinamos a intuição ao passar a bola sem olhar.

Pôr-do-sol inesquecível?
Do Rio Guaíba, o melhor ponto turístico de Porto Alegre

Time de futebol?
Internacional. Doente. Se ele perde, fico desanimado toda semana.

De que você precisa para ser feliz?
A respiração feminina em meus ouvidos

Personagem que você mais admira?
G.H, de Lispector. Eu tenho medo de barata. Só mato ela porque tenho mais medo de mim.

Super-herói preferido?
Homem-aranha, para subir as paredes com trilha sonora de Raul Seixas (Rock das aranhas)

Qual o defeito que detesta em você?
Não deixar a pessoa terminar de falar, para adivinhar o que ela está falando

Maior extravagância?
Relógios, anéis, casacos coloridos. Minhas roupas ocupam mais espaço no armário do que as peças de minha mulher

Do que gosta menos em você?
Da boca, ela é pequena perto do nariz enorme, ela me subestima.

O que mais despreza numa pessoa?
Arrogância

Do que você se arrepende?
De não ter sido feio antes

Uma linda modelo?
Naomi Campbell

Um lindo modelo?
Woody Allen, mais próximo de mim

O que você mais ama na vida?
Ajudar os filhos nos temas, posso acompanhar a evolução da caligrafia deles, a indecisão entre a letra emendada e a de fôrma.

Um motivo de tristeza?
Morte de criança. Não há nada mais triste do que um caixão pequeno.

Qual a sua roupa preferida?
Casacos temáticos, tenho doze modelos. Há o casaco do Don Juan, só com beijos de mulheres, o do Juízo Final, feito de recados para o futuro, o da palavra mais bonita da língua portuguesa, o da mais feia, o da música favorita, entre outros.

Sonho?
Ser sustentado: lavar louça, fazer comida, limpar a casa e receber a mulher de banho tomado.

Livro de cabeceira?
Poesias de Fernando Pessoa

Hobby?
Provocar os irmãos

Traço forte de sua personalidade?
Meu humor, não sou complacente comigo. Eu me perco como amigo, mas não perco a piada.

O que mais gosta numa mulher?
Das sobrancelhas. Eu vejo como ela transa pelos movimentos das sobrancelhas.

Sobremesa?
Brownie

Onde compra suas roupas?
Gostaria de comprar somente Alexandre Hercovich e Ronaldo Fraga

Santo de devoção?
São Francisco, aprendi a ler a partir de sua oração num santinho. Escrever é rezar.

Música preferida?
Hurricane, de Bob Dylan

Filme?
O Espelho, de Andrei Tarkovski.

Escritor que mais admira?
Manuel Bandeira

Show mais emocionante?
The Cure, no Gigantinho, anos 80 (década que foi o brechó do século XX).

Quem você levaria para uma ilha deserta?
Minha mulher, a única que posso brigar e ficar depois com mais vontade de amá-la.

Quem você deixaria lá para sempre?
George Bush

Melhor lugar para fazer amor?
No elevador, lugar que naturalmente sobe e desce.

Barulho que faz na hora do amor?
Gemido de quem come doce. Gosto de gritar bastante, para a inveja dos meus vizinhos. Meu amor é escandaloso, nunca será indiferente.

Frase?
"A água passa, a sombra fica" - Pascoli.

3:00 PM :: Comentários:

Em Belém, de 5 a 7 de junho, realizei uma oficina de criação de crônicas para o Instituto de Artes do Pará. Publico aqui o último exercício. Cada aluno escreveu uma das frases. Foi uma experiência e tanto.


O QUE EU ESQUECI EM MINHA VIDA
Pintura de Magritte

Autoria coletiva



Esqueci de apagar com a borracha marca mercúrio a ponta de metal dessa caneta. Eu nunca beijei o rosto vincado de meu pai. Esqueci de ficar descalça para a chuva. Esqueci de como nasci. Esqueci a chave do carro na porta. Esqueci de olhar o "boa noite, mamãe" de meu filho e responder "agarra meu pescoço". Esqueci de me despedir de mim. Esqueci que minhas flores não precisam estar na janela para serem flores. O que esqueci não lembro mais. Esqueci de amarrar teu corpo em meu corpo, agora sobrou corda. Esqueci do meu avô, que me convidava para comprar pão de manhãzinha em véspera de sol. Nunca lembrei de acordar cedo e ir com ele. Nunca senti o aroma do pão quente se misturando ao cheiro da mão do meu velho avô, enquanto o sol subia feito balão amarelo. Esqueci de me perdoar. Esqueci de latir junto com ele. Esqueci de ir embora enquanto acreditava que isso me tornaria livro. Esqueci de tirar fotos do meu cemitério. Esqueci de parar de roer as unhas. Esqueci de parar o tempo tarde demais. Esqueci de agradecer o meu avô por ter me ensinado a pescar, a gostar da música dos retratos. Esqueci o que não me importava. Esqueci de cumprimentar os detalhes. Esqueci de agradecer meu irmãozinho a superar o medo de dormir o escuro. Esqueci de viver em minha mãe. Esqueci de pôr acentos nas cartas de amor. Esqueci de me olhar no espelho e descrever o que realmente via. Esqueci de contar as pulsações. Esqueci de nascer outra vez. Esqueci de ser o mesmo. Esqueci de levar meu cachorro nas férias e o encontrei morto ao voltar. Esqueci uma fita-cassete na boca.

2:49 PM :: Comentários:

Jornal O Tempo, caderno Magazine, Belo Horizonte (MG)
Domingo, 11 de Junho de 2006

"SOU UM HOMEM COMUM"
Foto Renata Stoduto


LILIANE PELEGRINI

O gaúcho Fabrício Carpinejar é, essencialmente, um homem de detalhes, tanto na poesia quanto no modo de viver. Ele mesmo costuma afirmar que não consegue se fixar em si, acaba se comportando como uma antena que capta todas as coisas, pequenas ou grandes, que acontecem ao seu redor.

Uma história vai se juntando com outra, palavras vão sendo encadeadas, até formarem frases ou versos que têm como única preocupação a autenticidade e a naturalidade. Nascido na fria Caxias do Sul, Carpinejar se diz um garoto de família ("sou tão ligado aos meus familiares quanto os mineiros").

E isso realmente faz sentido: seus poemas entregam de bandeja a forma - sempre intensa - com que ele se relaciona com cada coisa ao seu redor.

Desde a relação com a irmã mais velha, até os primeiros contatos com a literatura por meio dos pais, os poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, tudo faz parte da narrativa que ele propõe aos seus leitores.

Durante sua última passagem por Belo Horizonte, Fabrício reservou um momento para conversar com o Magazine sobre o seu universo de poesia - e agora também de prosa - e para desmistificar o título de poeta-revelação que a crítica lhe impingiu. "Não quero ser o poeta aclamado. A normalidade me encanta mais", panfleta.

O TEMPO - Todos os seus livros anteriores tinham sido de poesia. Agora você surpreende com "O Amor Esquece de Começar", em que você escreve prosa, uma faceta sua até então desconhecida. Essa transposição foi tranquila?
Fabrício Carpinejar - Eu sinto uma alegria enorme de escrever, não importa como. Mas essa minha migração para a prosa aconteceu há pouco tempo. Não foi nada forçado, foi tranquila. Não quero dizer uma coisa por dizer.
Tenho que sentir necessidade, tenho que sentir essa avidez. Aconteceu no momento certo. Na verdade, eu acho que sou mais perigoso com a prosa. Sou mais incisivo. Mas eu estou usando a poética ao fazer prosa. É um vestíbulo da poesia.

Sua prosa, que aparece agora em forma de livro, já vem sendo divulgada no seu blog pessoal (www.carpinejar.blogger.com.br). O blog foi, inclusive, fonte para o livro. Você readaptou o texto da versão on-line para a impressa?
Escrevo sempre em torno de 2.300 caracteres. É uma coisa que vem para mim normalmente. Parece que eu sinto a hora de acabar o texto e ele acaba.
Quando vou ver, está igual aos outros em tamanho. Escrever para mim é igual, não importa o meio. O que importa é a intensidade.

Você está acostumado com essa dinâmica da Internet em que, como você mesmo disse, o texto não acaba com o ponto final. Mas, ao mesmo tempo, você lida há bastante tempo com o formato do livro, que não lhe permite saber diretamente o que os leitores pensam da sua obra. Como transitar bem por esses dois meios de respostas tão diferentes?
No caso do livro, eu não tenho domínio. Ele não é mais meu, é do leitor. Não que eu não queira mais saber dele e da repercussão que ele pode causar.
Mas é que ele vai estar bem cuidado, mesmo que o leitor não goste dele. O leitor vai transformá-lo, vai encontrar suas próprias identificações, vai fazê-lo obra sua.

E sua relação com os internautas?
Com a Internet já é mais familiar. Tem leitores que são pontuais no meu blog, estão sempre comentando. E daí eu começo a imaginar como eles são. Não são só eles que me imaginam.
Eu só sei o nome deles, mais nada. O email ou uma página que eles têm, no máximo. A Internet é um livro em que o autor e o leitor se lêem ao mesmo tempo. Interatividade pura. E o texto não termina com o ponto final do autor.
Ele continua com cada comentário, que vai acrescentar uma lembrança, uma descrição, uma evocação, uma opinião. Na verdade, eu sou um apaixonado pela insuficiência da literatura. Quero que a literatura nunca seja suficiente.

Qual é o papel que você, uma pessoa ligada à tecnologia, acredita que esses tipos de ferramentas modernas podem fazer pela poesia, pela literatura?
A tecnologia está moldada para a poesia. A Internet, os celulares, tudo isso. Imagine a revolução que podemos fazer se as pessoas começarem a mandar seus versos, ou os versos de quem você ama, por torpedos de celular?

Eles são do tamanho certo. A poesia se adapta muito bem a essa brevidade. Pense como muitas obras poderiam ser divulgadas facilmente, com meia dúzia de cliques.

Na sua opinião, a poesia hoje é mais "consumida"?
Acho que sim. A poesia está muito mais acessível, muito mais sarada, disposta. Todo mundo precisa de poesia, a questão é deixar de lado essa arrogância autoral. O leitor pratica e exercita poesia naturalmente.
Qualquer um faz isso, qualquer um precisa de metáforas, de figuras de linguagem. O campo de futebol, por exemplo, está cheio de metáforas, de figuras de linguagem, de lirismo. A gente só precisa de naturalidade. Quando dou minhas oficinas de criação poética, nem me preocupo em falar de teoria.
Proponho exercícios, que as pessoas executam pensando que não estão fazendo poesia. A melhor poesia é aquela que se faz sem ter consciência de se estar fazendo. Quando você não quer impressionar. Quando você é normal, pacato, sincero, autêntico.
A poesia tem uma imagem cristalizada, como se ela fosse um desabafo, uma catarse e tu precisa usar palavras chaves como "amor", "ilusão", "esperança", palavras muito gastas. O poeta está sempre recriando a linguagem. A sua linguagem. Sem precisar premeditar.

Você tem o costume de sempre participar de saraus e apresentações que lhe permitam apresentar seus poemas. Fazer essas leituras interpretadas é uma forma de fazer do poema um "ciclo de vida" mais completo?
Quanto à performance, juro que não é nada programado. Digamos que a linguagem me toma. Quanto à leitura dos poemas, acho que não é completar o ciclo, é iniciar o ciclo.
Na medida que a gente publica o livro, ele está recém-começando. De uma certa forma, é confortável para ao autor publicar um livro e pensar que ele vai seguir sozinho. Mas a gente tem uma responsabilidade, tem um compromisso com a voz. A interpretação de um poema, de uma crônica é um escândalo, no bom sentido.
É algo que vai confrontar aquela voz do silêncio com a voz que emana do poema. É uma reunião de condomínio que acontece dentro de ti com aquela gritaria, aqueles palpites, aquele confronto. Eu sou a favor da eletricidade do convívio.
Por isso acho que as minhas leituras não são performances. Acho que são muito mais afeto, abraçar as pessoas, fazê-las participar, inspirá-las. Claro que também tem seu valor ler em silêncio. Mas escutar a voz do autor filtrando a emoção, destilando a emoção, ébrio de emoção é sempre melhor.

Você é um narrador de sentimentos rasgados, intensos. De onde vem essa sua inspiração?
O poeta funciona, como eu costumo dizer, com a idéia de ladrão arrependido. Eu sou um cara que rouba a memória de todo mundo para devolver em livro. Eu sou como uma esponja, um observador indiscreto, um curioso. Na literatura, tu transforma a curiosidade em desejo, desejo em fome.
Por exemplo, se eu vou jantar fora, tenho uma dificuldade imensa em me concentrar na minha mesa. Eu passo o tempo tentando escutar as conversas alheias. Sou uma antena. Nas minhas obras, dificilmente eu estou falando de mim. Estou falando dos outros em mim. Eu ainda não tenho casa própria no verbo.
Eu ainda vivo de aluguel. O que me interessa realmente é contradizer os costumes. Gosto muito de um pensamento que diz que o poeta não é inspirado, é um inspirador. Ele não tem que tomar para si a autoria.
Acho que o melhor poeta é aquele que se torna invisível, que desaparece no texto para o leitor poder tomar como seu, cada pensamento do livro. O poeta que é muito vaidoso, vai querer que o leitor pense exatamente como ele quer. Mas o leitor só tem que pensar como quiser.

Por conta dessa sua postura de capturador de histórias alheias, alguém do seu círculo já se reconheceu em suas obras?
Está no livro não tanto a história, mas o sentimento de uma amiga minha que, uma vez ao ano, ela não existe. Não existe, não faz nada. É o dia da morte do filho dela. Teve uma vez que eu marquei um lançamento de um livro nesse dia e ela avisou que não poderia ir. Ela não tem 365 dias como a gente.
Tem um a menos. No livro, eu ainda falo da minha irmã mais velha. Nós somos uma família de quatro filhos, três homens e ela. A história dela é fantástica porque foi ela que abriu a casa. Ela que saiu para morar com namorado, tornando mais flexíveis as exigências de casa.
Foi ela que fez a minha primeira festa para os amigos, que me ensinou a dirigir e a dançar para não passar feio diante das meninas. Foi ela que me achava bonito quando todo mundo me achava feio. Essas são histórias que eu trago. São conexões que a gente abre com o mundo.

Dá para perceber que seu trabalho todo é permeado por essa ligação com a família. Deve ser até pela genética, visto que você é filho de poetas. Como é viver a poesia assim, dentro de casa?
Sou tão família quanto os mineiros. E a poesia veio para mim tão natural, não tinha pressão nenhuma, meu pai e minha mãe não ficavam dizendo "oh, estou fazendo poemas".
Acho que foi aí que a coisa me pegou, porque eu não sabia que era poesia. Eles falavam, obviamente, com aqueles lirismos que, para mim, eram comuns. Na hora que eu saí de casa e fui usar o repertório de família é que vieram me dizer que eu estava fazendo poesia.
Mas para mim, aquele era o dialeto de casa. Foi uma coisa involuntária na minha vida, muito normal. O escritor tem que perder aquela coisa de querer ser estranho, excêntrico, diferente, anormal.
O que eu mais quero é ser comum. Não quero que digam que sou o homem de versos excepcionais. Quero tomar sorvete com a minha mulher, rolar na grama, acordar com farelos no cotovelo, falar pela voz dos meus filhos.

AGENDA - "O Amor Esquece de Começar" de Fabrício Carpinejar. Lançamento editora Bertrand Brasil, 288 págs., R$ 35.

2:41 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 04, 2006

FINAL DE VIDA
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Em final de festa, sempre bate uma fome. E não poupamos esforços em procurar um cachorro-quente, caldo de feijão, um prensado, sopa, qualquer coisa para reanimar o corpo e voltar para casa com a obrigação atendida do café da manhã. Não escolhemos, aproveitamos o que vem, agradecemos o que está aberto. Não somos enojados, superamos as restrições alimentareis e sociais, capazes de comer o que nem estamos acostumados.

É agradável parar um pouco numa barraquinha ou num trailer e se deter diante de sua companhia com os olhos lavados e pacientes da noite. Afora o prazer do silêncio depois de deixar o som incessante de uma balada. Um silêncio total, onde se ouve com nitidez uma cigarra trocando de árvore ou as braçadas das estrelas voltando para a margem.

O final de nossa vida deveria ter a mesma fome. Não o conformismo. Não a desistência. Não o cansaço das virtudes e a complacência dos defeitos. Não a resignação de que já se fez o melhor e agora é tarde.

Manter a fome como se a vida fosse terminar a cada dia que passamos. Supor que se morrerá logo mais e ser um condenado à vida. Porque quem está com dias contados aprende a ser um condenado da vida e se liberta da morte. Da idéia da morte como extinção. Já quem pensa que pode viver até os 80 anos, é um condenado da morte e não aproveita nada, porque deixa para depois o que não virá a tempo.

Se eu morresse hoje, treparia com a minha mulher até perder a coordenação das pernas, largaria a caixa de mensagens e o computador e sairia com os amigos, telefonaria para conhecidos que não vejo há dez ou quinze anos, compraria presentes para os sobrinhos, deixaria minha mãe falar sem interromper, seria mais sutil como as mulheres, menos apressado como os homens, escreveria loucamente as memórias dos dias que não estarei aqui, experimentaria comidas exóticas, freqüentaria a praia de madrugada sem temor de assaltos, pularia ondas para me lembrar das voltas largas e do estalido da corda na escola, visitaria a casa de minha infância, não seguiria pedidos como o de não pisar na grama ou não conversar com o motorista, tornaria-me uma oração insubordinada, dançaria com a música das lojas e dos supermercados, subiria nas árvores com os filhos para jogar frutas nos outros bem escondido, andaria no cemitério para decorar lápides desconhecidas com flores, não sairia mais de guarda-chuva, leria o jornal com canetinha colorida, daria minhas roupas para os amigos que mais amo para vestirem em meu enterro, iria ser coroinha por uma missa, confessaria minha vida a um garçom.

Se eu morresse hoje, iria curiosamente esquecer de morrer, tão ocupado em me despedir.

2:58 PM :: Comentários:

SEM NOME
Pintura de Juan Gris

Fabrício Carpinejar



Quando não se entende o que se sente é a melhor parte. Os namorados se beijam nem sempre para beijar, e sim para não ter que falar. A palavra destrói o amor, o beijo cura

Numa sorveteria de Porto Alegre, faltou plaquinha para nomear um sorvete.

São quarenta sabores, somente um desprovido de batismo. Todo mundo que é atendido fica curioso com aquele pote no canto, anônimo. Vi gente coçar a barba, o cabelo, o umbigo diante do mistério gelado. Como se fosse um enigma. Uma rua ainda não pavimentada pela boca, infantil, em que as crianças jogam bola de uma garagem a outra sem se preocupar com a movimentação dos carros.

***

É mortal: das duas ou três bolinhas escolhidas, uma delas é justamente o sem nome, agora Sem Nome, pois de tanto ser chamado de Sem Nome acabou sendo esse o seu nome. Chocolate com amêndoas, pistache, morango e crocante; os gostos tradicionais foram superados na lista dos pedidos. O Sem Nome é o que mais sai, justamente porque ninguém sabe ao certo o que está lambendo e há o temor de perguntar do que se trata. O receio de esgotar o segredo e frustrar a brincadeira de cabra-cega.

***

O mesmo acontece com o amor. Quando não se entende o que se sente é a melhor parte. O trecho da paixão, a vontade de se aproximar sem pensar. A vontade de se encontrar para permanecer mudo. A vontade de telefonar para não dizer coisa alguma, apenas respirar ofegante e gemer diante do aparelho como operador do telessexo. Os namorados se beijam loucamente nem sempre para beijar, e sim para não ter que falar. As palavras são incômodas. A palavra destrói o amor, o beijo cura.

***

O amor também tem seu sorvete Sem Nome. E o que não será declarado apesar de longa convivência. É o que deveria ser dito no início mas a ansiedade não deixou, o que deveria ser dito no final mas já se tinha intimidade. Um tremor, um desespero alegre. Um apego pelo cheiro do pescoço. Um apelo pelo cheiro adocicado e selvagem do sexo no quarto. Um apego pelo cheiro dos travesseiros tomando sol na janela. Até um apego pelo cheiro de guardado do guarda-chuva, pelo cheiro de guardado do blusão na parte de cima do armário, pelo cheiro de guardado das lembranças.

***

O amor é o Sem Nome. Olhar para um filho aprendendo a escrever com uma das letras ao contrário e rir comovido daquele "E" caminhando na contramão da linha. E perguntar para a letra: "onde vais?" e não corrigir para segui-la.

***

A DR, por exemplo, nunca tem fim. Não é para ter fim. Pois ninguém conseguirá aclarar por que se ama ou por que se deixa de amar. O casal pode varar madrugadas debatendo o comportamento, o que é certo e o que é errado, o que é justo ou injusto, só que não chegará a nenhuma conclusão. Chegar a nenhuma conclusão é o Sem Nome. As discussões terminam pelo cansaço ou pelo sexo. Não se encerram porque foram resolvidas, não se pode definir aquilo que é maior do que a própria vida. Duas vidas juntas são mais difíceis de serem resumidas. Não é como tese, que vem com uma sinopse na primeira página.

***

Recapitula-se o que se viveu e teremos uma seqüência desordenada de imagens, um videoclipe sem música. Entende-se o que se ama pela ausência de esclarecimento. O absoluto entendimento parte da confusão: será que estou ou não estou amando? Quanto mais confusos, mais intensos.

Enquanto não tivermos palavras para explicar, continuaremos amando. Por isso, deixo a bola de sorvete do Sem Nome ao fundo, para comer com a casquinha e fazer bastante barulho com os dentes.

PUBLICADO EM ZERO HORA, CADERNO DONNA
Coluna de Luis Fernando Verissimo - Interino
Porto Alegre, 04 de junho de 2006. Edição nº 14892

2:57 PM :: Comentários:

A BOLA
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Leve na partida, pesada na volta.
Feita para ser vôo mais do que carne,
ser asa mais do que pata,
ser pluma mais do que couro.

É preciso bater sem machucar,
tocar embaixo para subi-la,
sussurrar em seus ouvidos
como um amante desinibido.

Convencê-la que é um balão,
um chuveirinho, uma janela, uma meia-lua.
A bola não é uma bola,
é tudo menos uma bola.

É uma árvore do ar,
o vento sugerindo curvas de pano.
Um pássaro durante o chute,
um peixe dentro do gol.

PUBLICADO NA CAPA DO CADERNO Futebologia II, Folha de São Paulo
Especial Copa do Mundo, São Paulo (SP) - Domingo, 4/6/06

2:55 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 02, 2006


ESCOLHA OU MOTIVO?
Pintura de Lucien Freud

Fabrício Carpinejar



Casamos por uma escolha e nunca encontramos o motivo. Separamos por um motivo, pena que não seja por uma escolha.

Procuramos uma justificativa para desmontar a casa e deixar de brincar de médico. O ciúme logo se torna observação extremada das falhas e das imperfeições. Só lembramos do que nos desagrada na companhia e deixamos de perceber o que nos emociona.

Pisa-se na falta de respeito, já se anuncia aos amigos e próximos os dissabores do marido ou da mulher. A vítima é a última a descobrir.

A vontade de desabafar converte-se em disposição de destruir. Pedimos a aprovação de fora para tomar as decisões mais íntimas. Não queremos nos separar e assumir a responsabilidade pela decisão. Os amigos inflamam a parte suja. Evitamos escolher. Espera-se um sinal, um colapso, um escorregão do outro para dizer que não dá mais, para alardear que é o limite, como se a relação fosse terminar ali, mas ela terminou quando um dos dois desistiu de tentar de novo.

Não basta se separar, a tristeza começa nesse ponto: na ausência de limites. Parece que anos de convivência concedem o direito de magoar sem pesar as conseqüências. A amizade é utilizada para aniquilar a própria amizade. Em nome da verdade, pouco se cala, pouco se preserva.

Há o desejo de desmoralizar quem viveu com a gente, de constranger, de declarar mais do que é necessário, há o desejo de ferir e não soprar a ardência, de sugar as delicadezas e mentir que não existiram, de resumir as alegrias em breves distorções. Briga-se por aquilo que ele mais gosta (e nunca despertou seu interesse) unicamente para ele não ter. A intenção é sádica: privá-lo de seus prazeres, assombrá-lo com dificuldades e restrições. Maltratar mesmo, até o choro pedir trégua. Na separação, prende-se primeiro o criminoso para depois procurar o crime. Elimina-se a dúvida para conviver com a suspeita.

Cria-se um boicote. Avisa-se aos familiares de que ele não presta. Há o desejo infantil de ofender, indiciar e culpar. Se o brinquedo de existir não é meu não será de mais ninguém.

Por mais que se ame, não é possível pedir para tirar as roupas. Isso é merecimento.

Não custa nada preservar a nudez na despedida.

8:26 PM :: Comentários:



QUINZE DIAS NA MÃO
CONSULTÓRIO POÉTICO
Pintura de Francis Bacon
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Fabrício Carpinejar





"Sabe quando você tem como mulher aquela pessoa especial?
Eu tenho uma mulher assim.
Infelizmente ou felizmente, eu tenho duas!
E o problema está aí.
Não consigo ficar sem as duas!
Porque uma supre todo aquele lado esposa exemplar, mãe dos meus filhos, excelente dona do lar, me trata muito bem.
Só que na hora da cama, fico às vezes quinze dias "na mão". Isso porque se não fizermos amor no fim de semana, só no outro sábado para que eu possa tentar alguma coisa. Via de regra é assim que acontece. Como a minha fome é muita... vivo me demorando no banheiro.
É justamente nesse ponto que entrou a minha amante (uma ex-namorada que é casada com outro).
Ela me ligava várias vezes, insistia mesmo. Por algum tempo eu consegui me controlar, mas chegou em um ponto que não deu mais.
Essa minha amante preenche a minha necessidade sexual, porém fico dividido, pois o que eu queria mesmo era que minha própria esposa correspondesse a isso. Já conversamos sobre isso, as coisas melhoram, mas não tanto. Me sinto culpado por estar mentindo, mas, ao mesmo tempo, não consigo renunciar ao prazer que minha amante me proporciona."


Maurício dividiu sua mulher em duas, portanto, também se dividiu em dois. Concordo que é terrível (e até patético) esperar o final de semana para transar. Quando não sai no sábado ou domingo, esperar mais quinze dias? E a tensão para que alguma coisa role? Complicado não cobrar e ser espontâneo. Certo, entendo o nervosismo e a ansiedade, mas não estamos num mundo machista em que se a mulher não corresponde na cama deve-se trocar por outra. É preciso que ensine para ela seu gosto, sua obsessão, sua vontade. Já se perguntou: por que ela não quer transar contigo? Será que não perdeu o apetite por você? E se tentasse descobrir as taras dela, que devem ser bem diferentes das suas? Não é caso de conversar, é caso de fantasiar juntos. Ainda aguarda ser atendido, quando não está também atendendo. Não é só o homem que tem essa vontade desmedida por sexo...

O que é mais complexo: arrumar uma amante ou uma esposa exemplar, mãe de seus filhos e excelente companhia? Então trate de investir no relacionamento, em vez de ficar gastando suas energias, suas verdades e sua delicadeza em contas eróticas fantasmas. A necessidade sexual é passageira, pode ser resolvida na punheta. O amor é mais raro e resulta no mais forte erotismo.

Quando o homem tenta ser dois, não é nem uma parcela do que poderia ser inteiro em casa.

Enviem cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

7:34 PM :: Comentários:

EXCEÇÃO À REGRA
Carpinejar mergulha na onda das "crônicas sobre o nada", mas publica um livro belo e lírico sobre o amor e a alma feminina

por DANIEL FEIX



Se o autor deste texto que você está lendo agora tivesse o dobro da idade que tem, seria muito mais facilmente contestado. Isso porque aquilo que ele vai dizer poderia à primeira vista ser interpretado como passadismo, como algo que os mais velhos costumam fazer quando não simpatizam com os novos tempos ou quando não se adaptam a alguma nova realidade. Poderia. Mas o autor tem menos de 30 anos. Apesar disso, mesmo não tendo vivido nenhuma das maiores revoluções comportamentais do século 20, de ter nascido bem depois dos anos 1960, quanto mais dos 1920, ele tem uma certeza: não se fazem mais crônicas como antigamente.

Não se trata de paixão cega por Rubem Braga, Antônio Maria ou qualquer outro nome isolado, ou mesmo de uma simpatia por estilo ou linguagem. De uma forma geral, sem se apegar a nomes, é possível constatar que, atualmente, grande parte dos textos dos jornais que se propõem a ser mais reflexivos pouco - ou nada - trazem de novo. Diferentemente do que já fizeram, muitas crônicas de hoje em dia sequer aprofundam as notícias tradicionais, quanto mais trazem alguma novidade. E não falo de novos fatos, mas de novas idéias. Há exceções, evidentemente. Há gente publicando textos que fazem a diferença, no Brasil e também no Rio Grande do Sul. Mas, como não são muitos, é possível afirmar com convicção que a crônica ficou menor. A ponto de se dizer rapidamente (coisa que só se faz quando algo se transforma em senso comum) que "crônica é um gênero lateral", como fez o escritor Paulo Bentancur na APLAUSO 74, sem que haja qualquer contestação. Crônica virou um gênero lateral. Ponto.

Nesse sentido, nada mais natural que comece a se abrigar sob o rótulo "crônica" tudo quanto é tipo de pensata, de textos vazios, que trazem tudo menos afirmações relevantes. Sujeito escreve qualquer coisa, às vezes não acrescentando nada ao que está no noticiário, ao que está na página ao lado, e, pronto, escreveu uma crônica. Não disse nada, mas, sim, escreveu uma crônica. É poeta, mas fez versos que não cabem na definição "poesia", nem mesmo "poesia em forma de prosa". Então fez "crônica".

Aí é que está: se esse poeta for alguém como Fabrício Carpinejar, dificilmente vai publicar algo irrelevante. Ao contrário. Carpinejar faz com a crônica aquilo que tanto já fez com a poesia, apesar dos pouco mais de 30 anos de idade e da produção ainda relativamente pequena: muito mais do que trazer novas idéias e fazer afirmações com alguma relevância, transforma textos, livros ou mesmo frases/versos isolados em literatura de verdade. Eleva a crônica, tanto quanto a poesia, à sublimação que só a arte é capaz de elevar. O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 286 páginas) é crônica mas é arte, é crônica mas é literatura de verdade.

São incríveis (pela quantidade) 113 textos, uns mais outros menos curtos, mas todos carregados de intensidade. Sempre com frases rápidas e por vezes de impacto, Carpinejar poupa o leitor de qualquer rodeio. Entrega tudo já no título (Dar um Tempo, Quando Ela Goza, Medo de se Apaixonar, Desejo não é Carência, Ingrato etc.) ou na primeira frase ("Não desejo que ela seja sincera", "Ele reza toda noite para encontrar outra mulher", "Não existe amor errado" etc.), mas em nenhum momento pisa no freio. A pauta é o amor. E a linguagem, a de uma exata convulsão emocional, como diz Martha Medeiros na orelha. Nas crônicas do poeta, tudo é preciso, certeiro. Ao mesmo tempo em que parece revelar muito, sobre os sentimentos do autor, sobre sua sensibilidade, sobre os outros - ou melhor, as outras, porque o amor, em Carpinejar, tem alma feminina. O poeta usa a crônica para se revelar. Isso, em se tratando de Carpinejar, e na época atual, não é pouca coisa.

PUBLICADO NA REVISTA APLAUSO
Número 75, Ano 9, Junho de 2006
Página 40, Porto Alegre (RS)


2:04 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 01, 2006

A PELE ENXERGA MELHOR
Para Liliane
Gravura de Klimt

Fabrício Carpinejar




Eu tenho uma inclinação por sardas e cabelos ruivos. Mulheres com sardas costumam não gostar, é curioso.

Quando criança, uma amiga colava fita crepe no rosto e puxava acreditando que as sardas sairiam junto. Ela não respeitava as sardas, confundia com espinhas. Ficava furiosa com Deus, que pintou seu corpo sem permissão. Coloriu seus braços enquanto dormia no ventre. Abominava a idéia de ser diferente, tantos sinais de nascença como o número de estrelas. Sofria com brincadeiras alusivas à ferrugem.

Tanto que não usava dedos ou palitos de fósforo para aprender a contar na escola, mas as sardas. Enchia a tez de cremes da mãe para sarar daquilo que era uma virtude. Agredia as pintas como uma catapora, uma doença, uma tristeza de guitarra. Encabulada com os apelidos que poderia receber. Se um menino a observava com admiração, já tomava como crítica e virava o pescoço para não se machucar. Fugia de si, como se o véu fosse a própria face. Era uma muçulmana de sua timidez.

Enquanto ela queria tirar as sardas, desejava tê-las. A pele enxerga melhor com sardas. São os óculos naturais da pele. Fogo que levemente doura. Brasa singela que acomete as árvores e o crepúsculo no outono. Pão casado com a madeira.

As sardas são uma procissão da boca. Não retiram beleza, mas acentuam. Fazem qualquer rosto voar como os cabelos, subir como um vestido. Não deixam nenhum rosto brincar sozinho. São marcas de lábios das folhas. Uma chuva de folhas. O cheiro de alfazema das folhas.

O ouvido torna-se mais próximo das sobrancelhas, mais próximo do nariz, mais próximo do queixo. É possível acompanhar toda a vizinhança dos telhados. As sardas são balas de goma, o açúcar das balas de goma. Elas fazem o corpo rir mesmo quando está indisposto. Uma mulher com sardas tem jeito de praça na lomba. Eu só subia a lomba da rua porque tinha uma praça no meio do caminho para brincar e recuperar o fôlego. A praça sempre foi a véspera de minha casa. As sardas são a véspera do sol.

Um rosto com sardas, pode reparar, é bem iluminado. Não pela luz que entra, pela luz que já estava lá.

12:01 PM :: Comentários: