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Fabrício Carpinejar


 

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Quarta-feira, Julho 26, 2006

CARTA PARA MARIANA
Arte de Joseph Cornell

Fabrício Carpinejar



Você já mudou de casa, de cidade, mas agora muda de estado. Nunca fiquei tão longe. Nunca. É como sofrer um segundo divórcio. O primeiro, doloroso, aconteceu quando terminei o namoro com sua mãe há onze anos. Nos abraçamos como um dia qualquer. Uma despedida qualquer diante da escadinha de ônibus. E me cochichou no ouvido para voltar cedo do trabalho.

E não consegui dizer que não voltaria porque o ônibus já acelerava e porque meu pulmão não encontrou paz entre as palavras.

Antes disso, vivia contigo. Eu é que levava para a creche e permanecia no período de adaptação. Você grudava em minhas pernas querendo brincar comigo e chorava a cada tentativa de fuga. Devo ter entrado na folha de pagamento da escolinha.

Não conseguia me despedir, como hoje.

Você sofria horrores com a tosse. A pele do seu sopro era tão leve e tênue que me obrigava a cortar as unhas para não machucá-la.

Você descansava com relutância, unicamente no colo. Eu cantava e cantava apoiando um pé no outro. Minha voz cansada tentava enganar disposição. Pegava meus cabelos com força para se ninar. Ainda encontrará meus fios em suas roupas.

Ao ser alfabetizada e acertar as letras, levantava seu corpo na diagonal e fazia helicóptero pela casa. Há marcas de seus pés no alto das paredes. É possível enxergar do sofá.

Nós temos olhos caídos. Eu e você. O que será que observamos ao nascer para derrubar os olhos? Viver é assustador, hein?

Você não quer ser parecida comigo. Quer ser parecida com sua mãe. Que ironia. O que mais quero é que digam que sou parecido contigo.

Lembro que arrumava longos varais de bonecas pelas cercas do pátio. Os rostos cacheados ao sol, como cascas de tangerina.

Seu cheiro está em minhas golas como tangerina. No lado de dentro.

Não consegui colocar seus trabalhinhos de aula fora. Nem o jogo-da-velha. Nada. Não a vejo todo dia para ganhar novos e repor a coleção. Guardo pedras para riscar sozinho. Economizo o que encontro.

Lembro quando percebi que faltava um botão da colcha e fui correr até sua boca. Recolhi antes que engolisse e você riu do meu desespero como se fizesse teatro de graça.

Lembro quando trocava suas fraldas de pano e me curei do nojo. Pai se cura do nojo nos primeiros meses.

Mas não me lembro de tudo. Você dormia de luz acesa ou era minha mão que não se desprendia de sua testa?

A primeira vez que você segurou seu irmão no colo. Meu Deus, você não se mexeu. Seu coração deve ter parado como uma ave finge voar para deixar o vento voar nela.

O mesmo medo que teve ao segurar seu irmão, eu enfrentei ao recebê-la no colo. Pegava com os dois braços ou com um? Como sustentar a cabeça? Torcia para que não chorasse, para que não me estranhasse. Minha família me observava para ver se levava jeito. Eu levo jeito, minha filha? Diz para mim?

Você engatinhou nos seios da mãe para andar em minhas costas.

Que minha nuca desemboque no mar.

Eu sempre me preparei para ser pai. Treinei para ser pai, como quem ensaia frases no espelho. Não é como mãe que já é mãe mesmo sem ter feito nada. Pai tem que provar que é pai. Mãe é a primeira chance. O pai aguarda a segunda.

Deve ser por isso que só o homem pode ser daltônico. Só o pai pode nascer daltônico.

Escolhia meus casacos pela cor de seus desenhos. Comparava sua infância com a minha infância. Talvez eu tenha sido meu próprio filho. Meu erro é oferecer o que não recebi e esconder o que me falta.

Fui injusto algumas vezes contigo, apressado noutras. Sou o pai do sábado e do domingo. Dois dias para somar uma vida inteira é muito pouco. Meu amor suportava uma semana para revê-la. E a semana demorava os livros que não lerei.

Você parte para Brasília. Sua adolescência será em novo lugar. Logo agora que me pediu beijo de boa-noite. Nunca havia me pedido. Logo agora que você e a Ana são confidentes. Logo agora que enchemos os telhados dos vizinhos com bolas de futebol. Logo agora que me dá conselhos do que vestir e do que falar.

Preciso confessar: eu não amava antes de seu nascimento. Não era possível amar antes de seu nascimento. Perto de tudo o que sinto hoje, aquilo que sentia antes de você nascer não era amor. Podia ser espera ou apreensão, amor não.

Amor não cabe num final de semana.


P.S: Vou voltar cedo do trabalho. Prometo cumprir dessa vez.

9:13 PM :: Comentários:



SERÁ QUE NÃO FUI GRUDENTO?
Do Consultório Poético
Pintura/Colagem de Joseph Cornell
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Olá, Carpinejar!

Pensei muito sobre escrever pra você, durante muito e muito tempo, pode ter certeza. Não tinha certeza se gostaria de ver a minha história exposta no blog de um escritor tão competente e conhecido. Além do fato de a personagem principal desta história ser leitora assídua dos seus textos. Mas é um risco óbvio que vou correr, mesmo sabendo que isso causará profunda contrariedade nela.

Falar dela é algo que me faz muito bem, sempre desperta minhas emoções. Ela tem 32 anos; eu, 20. Fui aluno dela, ainda na época do "colegial", e tinha uma admiração indescritível por aquela mulher tão linda e extrovertida, cheia de vida. Mas aos 16 anos esse tipo de reação é tão assídua que até desconsiderei, na época; mas guardei detalhes dela em minha memória, frases, sorrisos, e guardo-os até hoje.

Os anos passaram, eu a reencontrei no orkut. Antes disso, havia tentado manter contato via e-mail com ela, sem sucesso. Somente após muitos meses com ela em minha lista de amigos do orkut é que decidi tentar um outro tipo de contato: como homem, não como ex-aluno. Uma frase despretensiosa e irresponsável e que surpreendentemente foi positivamente correspondida. Passamos a trocar dezenas de e-mails durante o dia, era uma irresponsabilidade para ela; para mim era um sonho.

Era quase madrugada de uma sexta-feira qualquer quando o telefone toca e, ao ouvir minha voz, a pessoa do outro lado da linha desliga. Vi o número no bina, retornei: era ela. Foram 4 horas ao telefone e no dia seguinte, para minha surpresa, ela simplesmente pegou seu carro e veio até mim. Ao entrar no carro, antes mesmo que ela pudesse se manifestar, beijei-a. Passamos a noite juntos, e não tenho a menor dúvida em afirmar que foi a melhor noite da minha vida.

As semanas se seguiram, nos vimos mais duas, talvez três vezes, entre dezenas de ligações diárias, cada vez mais românticas, ela é uma pessoa romântica e eu sempre fui exageradamente romântico. Mas creio que acabei sufocando-a, e ela, dividida entre o crescimento de um sentimento com o qual ela não estava preparada para lidar - ela própria alegava ter preconceito com relacionamentos com tal diferença de idade - e o medo de se ver compromissada com um garoto "inconseqüente", afastou-se de mim.

Sofri muito, muito mesmo. Tentei não me envolver, mas não havia como, ela é fascinante, apaixonante, incrível. Hoje mal nos falamos, ela se afastou de vez, e eu ainda não sei ao certo o motivo. E às vezes sinto saudades demais dos momentos que vivi com ela, e, sobretudo, dos momentos que eu ainda poderia viver.

Um sonho, de fato. Tão breve e intenso quanto um sonho. Que gostaria muito de ter de volta, mas sonhos não se repetem...

Obrigado por ler minhas palavras. Você é muito competente no que faz, procuro sempre ler seus textos como inspiração aos meus."



Olá, Bruno!

Uma mulher começa o relacionamento imaginando seu final. O homem começa o relacionamento para retardar o final. É uma operação nem boa nem ruim; a mulher já projeta o filme desde o seu início; o homem pretende assistir pouco a pouco, o que torna meio inconseqüente.

Compreendo o seu sofrimento, mas vamos tentar esclarecer a situação. O namoro de vocês partiu de uma situação de admiração (professora-aluno). É evidente que a submissão inicial e a noção de proibido acentuaram a intensidade do encontro anos depois. Afinal, o desejo ficou em ti contido desde aquela época, aguardando uma chance de transgressão.

A diferença de idade não conta tanto, por mais que o preconceito estivesse evidenciado por ela. O que talvez tenha complicado o namoro foi uma ausência de expectativa e perspectiva entre seu mundo e o dela, sua atuação profissional e a dela. Ela não o enxergou como alguém autônomo e seguro. Era o passo seguinte para sustentar o envolvimento, para superar o comprometimento episódico e onírico.

Seu exagero romântico soou como um alarme de incêndio na casa dela. Será que você não pareceu irremediavelmente dependente? Nem nos damos conta quando ultrapassamos a cota. Há um limite entre ser um companheiro, que traz uma paridade, e ser filho, que pede controle e censura. Ela ficou com receio de adotá-lo e com vergonha social de continuar. Pode ser que o ame, mas amar significa não sufocar. Deve deixá-la à vontade inclusive para negá-lo. Assim ela terá condições de decidir e até voltar.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

7:24 PM :: Comentários:


Sábado, Julho 22, 2006

O QUE EU ESTAVA PROCURANDO MESMO?
Pintura de Joseph Cornell

Fabrício Carpinejar



Meu desespero não é calculado. Caso fosse, seria depressão. Um suicídio planejado com antecedência é assassinato.

Eu não sei quando vou explodir, costuma acontecer no momento em que não estou preparada. Naquele instante em que controlei a respiração e restabeleci a paz, que baixei a guarda e me vi salva de mim, dos meus colapsos e iras infernais de dizer a verdade mesmo quando ela não me fará falta e diferença ao mundo. Uma frase que entra torta, um cumprimento dissimulado, uma pergunta maliciosa e gritei bobagem e queimei os manuais de geladeira.

Nenhuma vontade de freqüentar o supermercado na sexta de noite, porque significa cozinhar no dia seguinte. Superei a fobia para não reclamar depois da geladeira vazia. A fila me irritou um pouco, mas não foi isso que me irritou completamente. Irritou-me perceber que esquecerei duas ou três coisas que sempre esqueço de comprar e que só me lembro quando guardo os mantimentos no armário. Mas não foi isso que me irritou completamente.

O que me irritou não tem nada a ver com quem disse. Não tem nada a ver com a tensão pré-menstrual. Nada tem a ver com o mercado, ou com as bolsas como bóias na esteira. Nada tem a ver. Ia tudo bem, havia assinado o cartão de crédito, deixava o balcão quando a atendente soltou o riso e perguntou: "Ah, encontrou tudo o que procurava?".

Ela atrasou a fala automática na hora de passar todos os produtos e tentou recuperar o tempo perdido. Deve ter sofrido o pânico de contrariar a orientação do gerente. Ou o receio de uma cobrança dos colegas. Falou rapidinho, como quem diz tchau. Falou rapidinho, assim como se aprende na auto-escola a dar o pisca-alerta mesmo que já tenhamos dobrado a rua. Já ouvi a frase tantas vezes e nunca me incomodei. O problema foi o atraso da pergunta, que acentou sua gratuidade.

"Encontrou tudo o que procurava?". Retornei o rosto para ela e não menti: não encontrei dois quilos a menos, não encontrei um namorado que não seja casado, capaz de responder mensagens no final de semana, não encontrei algo de novo para entreter minha mãe e não escutar que está ficando tarde para que tenha filhos, não encontrei um trabalho que me pague mais e me inspire a trabalhar menos, não encontrei um livro que não me faça dormir, não encontrei uma calça 38 que me sirva, não encontrei minha infância quando não pedia permissão para ser mulher, não encontrei minha amiga que morreu cedo no acidente de carro, não encontrei um motivo fora de mim para que justificasse o esforço de ser bonita, não encontrei uma frase inteligente em nenhum pára-choque de caminhão, não encontrei o orgasmo vaginal, não encontrei gentileza quando chorava, não encontrei um par para dançar, não encontrei um vinho que melhorou depois de abrir a rolha na noite anterior, não encontrei um segredo que não se transformou em gripe mal-curada, não encontrei uma manicure que não tire lascas quando chego atrasada, não encontrei uma tristeza que arrume a cama, não encontrei um nome para pôr como beneficiado no seguro de vida, não encontrei paciência para cachorro ou gato, paciência para flores na jardineira, não encontrei um restaurante que o garçom olhe primeiro para mim, não encontrei uma vingança pontual (minha maldade demora a elaborar respostas), não encontrei uma forma de segurar meus seios, não encontrei uma foto que não me veja assustada.

Aqui, ou na minha casa, não encontrei. Trinta e três anos sem reposição. Mas volto outro dia.


10:10 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 21, 2006

PROCURA-SE UM BRINCO
Pintura de Matisse

Fabrício Carpinejar



Uma professora de Dois Irmãos perdeu um dos brincos há três anos. Talvez em casa, talvez na rua, talvez no trabalho. Chegou a se agachar no tapete da sala para ver se descobria um sinal luminoso. Mexeu com as mãos por dentro das fibras, a exemplo de uma nuca, à procura de um caroço benigno. Não achou. Repetiu o procedimento na mesa do seu escritório. Insistiu e não encontrou, nem com ajuda de salve-rainha. Enraizou-se nas distrações. Os pés concentrados roçam as pedras com quem desce à nascente do rio.

Extraviar a tarraxa, tudo bem, rouba-se de um outro brinco. Mas o brinco escapuliu de sua orelha de repente. Sem nenhum esbarrão e aviso. Ela notou bem mais tarde, antes de dormir, quando já tinha esquecido da última vez que o viu e tocou. Não adianta comprar outro, pois o que fazer com o que ficou?

Ainda hoje ela anda com olhar enviesado ao chão, na esperança de completar o par. Carrega o brinco solteiro na bolsa. Nunca mais tirou dali - nem pretende. Na conversa que entra, já traz a esperança de reaver o brinco. Como se fosse possível ele ressurgir em uma cidade diferente, numa casa estranha. Sua esperança transformou-se no próprio ouvido.

A professora é a encarnação de toda mulher que espera encontrar um namorado, um marido dentro do namorado, um amigo dentro do marido. Se tivesse perdido a fé, teria posto o brinco solitário numa cômoda, numa gaveta do armário, para não mais costurar seus cabelos. Esqueceria o que ele foi. Mas ela não desiste. Não se entrega. Carrega a peça junto como um santinho, um prendedor de cordão umbilical, um broche de família. Não que precise de um homem ou de um brinco, precisa de si mais um pouco.

Sei que é mais fácil dizer que não há nenhum interesse, que não se deseja relacionamentos sérios, que é o momento de viver a independência, que é cedo a firmar compromisso. Forma de diminuir a pressão e a expectativa, reduzir o sofrimento de uma futura ruptura. Só que é mentira. Ela continuará romântica como sua mãe, romântica como sua avó, romântica como sua bisavó. Não se começa uma história de amor para testar. Não se mergulha numa relação para simplesmente curtir. Qualquer encontro é decisivo, qualquer encontro que envolva linguagem e corpo já tem peso. Mesmo que seja uma bobagem, uma bebedeira, uma besteira. Mesmo que seja para se arrepender. Não dá para sair sem bater a porta. E entrar com hora certa a sair.

Cada mulher tem uma jóia solteira na bolsa e vai conferir se não acha o conjunto para concluir o rosto.

Até porque a orelha volta a fechar sem o brinco.

4:15 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 20, 2006

Revista Vida Simples, edição de agosto de 2006

POESIA PARA RECICLAR
Um dos melhores escritores brasileiros da nova geração escreve sobre seu mestre, o poeta Manoel de Barros

por Fabrício Carpinejar



Manoel de Barros tem uma letra miúda, a caligrafia emendada e tímida. Em um mínimo cartão, aproveita os dois lados, curte toda borda. Não desperdiça uma vírgula da resma.

Qualquer fresta é a festa do grafite. Com lupa, atinge-se o tamanho normal de leitura. A olho nu, é um canteiro de formigas no açúcar da folha. É necessário cheirar o papel para entender o que ele escreve.

Foi redigindo cartas que ele formou seu estilo e seu fôlego, que o transformou em um dos maiores poetas brasileiros do século 20. Durante 50 anos, desde o momento em que saiu de casa para estudar em colégio interno, contando suas notícias para a mãe Alice, pelo menos uma vez por semana, descobriu que suas frases e as dela tinham o mesmo tamanho: até 25 letras.Um influenciou o outro. Da troca materna, resultou na altura ideal do seu poema. "Minha mãe tocava violino e passou música para a linguagem", afirma o poeta. Ou, como ele mesmo confessa em um verso do seu mais recente livro, Poemas Rupestres: "Minha naturezinha particular: até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar".

Não foi como advogado, profissão da qual desistiu por timidez e nervosismo ("Não conseguiria defender meus clientes, sequer me defendia"), muito menos como fazendeiro e criador de gado, herança do pai, João, que se tornou conhecido. Foi apontando o lápis cuidadosamente e limpando os óculos, acordando cedo e escutando as histórias de gente simples. O simpático senhor de cabelos brancos e de riso franco, com oito netos e três bisnetos, é despojado como uma casa de praia, longe de ser influenciado pelo sucesso e assédio de fãs e leitores.

Natural de Cuiabá (MT), Barros completa 90 anos daqui a alguns meses. "Fui longe", afirma. Nasceu em 19 de dezembro. "Posso curtir o ano inteiro antes do aniversário", pontua.

Seu amor pela mulher Stella, 84 anos, chega ser maior do que a própria vida. Estão casados há 58 anos. Ela é a primeira e única leitora de seus originais."Ela lê antes de enviar para a editora. Não mostro para mais ninguém. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: 'Sobe e vai trabalhar mais'. Fico lá em cima de castigo durante oito ou nove meses. Desço somente quando ela define que está bom.Conhece meu estilo", diz.

A cumplicidade e a telepatia com a esposa são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como "alguém fora dele". "Ela é alguém dentro de mim." Do casamento, tem três filhos: Martha, 54, que mora no Rio de Janeiro e já ilustrou suas obras, Pedro, 57, e João, 50, que atualmente residem com ele, no bairro Jardim dos Estados, em Campo Grande (MS).

Singeleza do orvalho

Manoel de Barros é um homem viajado, com cultura sólida, diferente dos rótulos que recebeu de "poeta do Pantanal" e "ecológico". É um poeta do Pantanal como seria de Copacabana. Viveu na Bolívia e no Peru, morou em Nova York por um ano, onde estudou cinema e pintura. "Virei um fã da pura expressão de Charles Chaplin", lembra. Residiu 40 anos no Rio de Janeiro, tempo em que se casou e se formou em direito. Só voltou para o Centro-Oeste do país em 1961. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense.

Grande parte de sua trajetória literária aconteceu nas sombras e no anonimato. Não sofreu do mal da pressa. Editava suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento tardio, na década de 80, por críticos e personalidades como o dicionarista Antonio Houaiss, o escritor Millôr Fernandes e o editor Ênio Silveira.

Com 18 livros de poesia, dois infantis e um de prosa, hoje representa um dos poetas que mais vendem no país, editado em grandes tiragens e premiado com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

O mínimo incomum

Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos, em vez de aceitar o polimento do senso comum. Joga pedras na vidraça da razão e fica no mesmo lugar para ouvir o estrondo. Ensina o homem a escoltar o crepúsculo, a respeitar o apogeu do chão, a não troçar dos andarilhos, dos abandonados e dos mendigos.

Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade.Tudo o que não presta serve para sua lírica."Poesia não é para compreender, mas para incorporar", conceitua. Salva palavras do desuso. Retira as palavras da solidão dos verbetes e do asilo dos dicionários para morrerem em casa com a família.

Não tenta entender o que os pássaros cantam. É bobagem. Para falar com os pássaros, ele canta. Compartilha as linhas de seus cadernos com anhumas, pacus, graxas e beija-flores-de-rodas-vermelhas. A intimidade vem dos cuidados com o ínfimo. Sua simplicidade somente é cínica para defender a natureza, porém é encantada para falar da infância. Se fosse ave (e quem diz que não é?), seria o sabiá. "É manso, não atrapalha e canta melhor livre", comenta Barros.

Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos "inutensílios" (expressão que criou para designar pertences abandonados) e dos "nadifúndios"(latifúndios do nada). "O cisco tem agora para mim uma importância de catedral" ("Retrato do Artista quando Coisa").

Sente-se à vontade em um terreno baldio ou monturo. Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. Rastejar é o movimento predileto de sua poesia, assim como pastar, carregar, montar. A motricidade em Barros é a da inclinação do bicho, para não perder nenhuma novidade e nuance do solo.

Menino aprendiz

O poeta formulou a Teologia do Traste, em que atua como catequizador e orientador do leitor. Passa uma lição de como participar do poema e do que precisa ser feito para ser poeta, a exemplo de "desaprender oito horas por dia ensina os princípios".

O poeta faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos. Brinca mais ao imaginar o brinquedo do que ao desfrutá-lo. "Poesia é voar fora da asa" (O Livro das Ignorãças).

O escritor exerce a liberdade de despertar possibilidades da experiência, sem sofrer a cobrança de explicá- la. Ele se resguarda no escudo da ingenuidade.Atua no espaço do "faz-de-conta". O papel infantil revela a riqueza e as variações das imagens. Concede modalidades inéditas às coisas imprestáveis e forma lazeres com restos de brinquedos.

Sua poesia é magra, substantiva, come o essencial para se manter de pé. Com um andamento trôpego e dispersivo, elabora uma espécie de miniconto, pequenas histórias narrativas, em que mistura deliciosamente impressões, memórias e casos de diferentes fases da vida. Relaciona situações díspares com a gratuidade do sonho. Nem ele mais deve saber o que é real e o que é imaginado. Algo como colagens de revistas e jornais sobre os álbuns de fotografias da família.

Falar manoelês

A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Tanto que fundou, de modo jocoso, o Idioleto Manoelês Archaico, dialeto usado por idiotas para falar com as paredes e com as moscas. Alma gêmea do gaúcho Mario Quintana, com o qual partilha a adesão pelo diminutivo, é tributário ainda da oralidade expressiva de João Guimarães Rosa, da "universidade do folclore" de Câmara Cascudo e do poeta Raul Bopp.

Barros reconhece as palavras como um relicário, destinado à adoração. Exerce a reverência ao natural. Em nenhuma forma interfere e modifica a beleza original da flora e da fauna. Almeja libertar-se dos condicionamentos sociais que bloqueariam a espontaneidade das vivências. Seus principais personagens, inspirados em personalidades reais de Campo Grande, como Bernardo da Mata, são autodidatas, afirmando que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo. O que é descartado é jogado dentro do poema. Manoel de Barros vai colecionando desperdícios. O texto é feito sem vírgulas, num somatório implacável, sem diferenciação nítida dos itens arrolados.

Diga-se de passagem que Barros não está aí para os ditames do mercado. O que a sociedade de consumo preza ele despreza, e vice-versa. Não está interessado em repetir o cotidiano, mas em reciclá- lo. Um carro no ferro-velho, na sua teoria, tem mais valor que um novo. Alheio à vida útil do objeto, dedica-se à vida espiritual que se inicia no fim prático, quando o objeto é rejeitado.

Manoel de Barros desobedece as linhas. Sua letra miúda é letra de Bíblia. Letra de quem senta no canto do banco de praça e pede companhia para a vida que passa.

Para saber mais
Livros:

º O Livro das Ignorãças, Manoel de Barros, Record
º Poemas Rupestres, Manoel de Barros, Record
º Livro sobre Nada, Manoel de Barros, Record

9:23 AM :: Comentários:

O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR

"O amor e as mulheres pelas letras de Carpinejar" é o texto de Adriana Baggio no Digestivo Cultural. Confira.

9:20 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 19, 2006

ACEITO ENCOMENDAS PARA DENTRO DE CASA
Pintura/Colagem de Joseph Cornell

Fabrício Carpinejar



Você está diferente, você está estranho, você ri de qualquer coisa, arruma brechas para escapar do trabalho. Todos dizem que você está amando. Não caía na cilada, não confirme a suspeita. Sei que é complicado não se envaidecer nessa hora.

É uma tentação, mas não aceite, ainda que feliz sexualmente, ainda que disposto, ainda que brincalhão, não significa que está amando. Amar não guarda parentesco com os seus traços. Não nasceu contigo, nasceu em ti.

Não devemos medir o amor pela nossa alegria. Mas pela alegria de quem nos acompanha. Nossa alegria não significa que estamos amando. Pode significar que podemos amar. É falso confiar que a nossa felicidade é suficiente para se decretar o estado da paixão. Como é ilusório amar com a mesma independência do tempo que a gente não amava. A independência daquele período era desinteresse.

Quantos se enxergam felizes e se sentem resolvidos antes de trabalhar pelo amor? Amor é aceitar encomendas para dentro de casa.

Repare em sua mulher. Agora. Vê se ela está contente? Ela debruça em seus braços na cama? Ela conta tudinho o que pode se lembrar do trabalho? Ela esconde que comprou algumas roupas novas para aparecer de repente? Ela comenta um filme como se fosse parte dele? Ela usa sua gilete para pôr as pernas dela em seu rosto? Ela volta a falar do que esqueceu de lembrar? Ela telefona para perguntar se está tudo bem? Ela diz mais de uma vez como o filho é parecido com suas manias? Vê se ela está altiva mesmo cansada? Ela suspira como quem dá uma segunda chance para a janela? Ela provoca para que venha cobri-la de espantos e lábios? Ela segura sua mão quando a neblina se acumula no pára-brisa?

Vê. Vê você. Agora. Seu esforço de manhãzinha para não acordá-la, encardindo a ponta das meias para recolher suas roupas e sair contornando - sem escorregar - os travesseiros e chinelos no chão? Sempre tropeça e se apóia com o cotovelo logo nos joelhos dela. Vê seu cuidado em escolher os pratos menos pesados da cozinha para não provocar barulho na mesa? Sempre escapa uma colher na maldita hora. Vê sua ânsia em animá-la quando o serviço a puxou para baixo, de evocar piadas e lembranças que só os dois entendem? Amor é esforço de compreensão, a consciência de nunca mais estar sozinho nem para morrer.

O amor não estará em você, por mais que confie que parte de você, que é você. O amor estará nela. Ela é o amor, que você destruiria se estivesse contigo.

9:08 AM :: Comentários:

ESTAREI EM...

Curitiba (PR) - 25/7 (terça): Sou o convidado especial de julho da Livrarias Curitiba, no dia do escritor. Farei leitura de textos e autografarei meu novo livro "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35), às 19h, na Livrarias Curitiba, da Megastore do Shopping Estação (Shopping Estação - Loja 1108 - Centro Telefone: (41) 3330-5118).

Belo Horizonte (MG), 28/7 (sexta): Voltarei para a minha infância e contarei as dificuldades de dicção e de aprendizado no Ensino Fundamental durante o ENEFON (Encontro Nacional de Estudantes de Fonoaudiologia), ao meio-dia, no auditório do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.

Brasília (DF), 29/7 (sábado) - Palestra sobre o poeta Mario Quintana, ao lado do jornalista Paulo Paniago, às 18h, dentro do projeto Literatura em Conjunto, na Praça das Artes do shopping Conjunto Nacional. Interpretação de poemas de Quintana pelos atores Adeilton Lima e Catarina Accioly.

9:06 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 15, 2006

ONDE É O FUNDO?
Pintura de Joseph Cornell
Para Hamilton

Fabrício Carpinejar



Uma menina se distraiu ouvindo música numa grande livraria, sentiu falta da mãe e, de pronto, largou os fones e partiu para recuperar sua companhia. Pediu informações para uma moça, que tinha atendido a dupla naquela tarde. Com tranqüilidade, a funcionária mexeu com a mão esquerda nos cabelos encaracolados da criança enquanto apontava o caminho com a direita: "Sua mãe está no fundo da loja!".

Ao invés de se acalmar, a menina saiu correndo entre as estantes, desesperada: "onde é o fundo? onde é o fundo? onde é o fundo?".

O apelo me machucou porque percebi claramente que as mulheres perguntam desde o princípio onde é o fundo. Elas iniciam um relacionamento já questionando onde é o fundo. Não desejam o raso, não desejam passar o tempo, não desejam namoros temporários e esquecíveis. Por mais que o discurso seja o da liberação e do desprendimento, as mulheres, em sua maioria, procuram e temem o fundo. Nasceram e se fortalecem do fundo.

Quando testemunhei a criança gritando, entendi tudo o que experimentei e julguei como bobagem, tudo o que ouvi e não fui atrás, tudo o que perdi e não me flagrei atrasado, tudo o que não entenderei sobre as mulheres. O fundo. Simplesmente o fundo, que uma menina de quatro anos involuntariamente já buscava. O fundo que perguntou minha avó. O fundo que perguntou minha mãe. O fundo que perguntou minhas ex-namoradas. O fundo que perguntou minha esposa. O fundo que perguntou minha filha. O fundo que perguntará minhas netas. O fundo ancestral a perturbar minhas amigas. O fundo inalterado, que mais é ao não ser alcançado, que mais se percorre ao se duvidar dele.

Na hora em que minha mulher brigava, ela me sugeria apenas, com outras palavras, se estava disposto a ir ao fundo. E não respondi, para permanecer no colo da espuma e não perder de vista a íris borbulhante do anzol, para não alterar a superfície e não me comprometer. O homem é capaz de doer, sim, mas não de doer investigando o fundo. O homem dói iletrado, o homem dói sem se misturar à dor. Uma mulher dói com coragem, questionando se vai doer ainda mais. Dói olhando a ferida, com a consciência da ferida.

O homem persegue uma paixão que o modifique, uma mulher persegue uma paixão que a reafirme, que a empurre para o longe, o longe de sua própria boca. O homem pretende se abandonar, a mulher quer se recuperar.

Ela pode estar parada, acomodada, estável, satisfeita, morta num relacionamento, mas o fundo estará se movendo por dentro, imperceptível, desenhando conspirações.

O fundo não é o limite. Uma mulher pergunta onde é o fundo para continuar indo, não para deixar de ir. Como uma menina que só caminha se descobrir antes quantas quadras faltam para chegar. Ela irá perguntar ao seu homem se realmente a ama, muitas mais vezes do que o necessário. Não é para irritar; é para encontrar um amor que nunca a faça se satisfazer com seu fundo.

11:34 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 14, 2006



TENHO MEDO DE SER INFANTIL
Do Consultório Poético
Pintura de Marc Chagall
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Olá, Carpinejar!

Eu sou novo no seu consultório e esta é a primeira vez que escrevo uma carta para alguém me ajudar no meu relacionamento, pois desde que conheci o seu fórum estou lendo e relendo todos os textos e gostando muito do conteúdo. Mas lá vai o motivo da "carta".

Bem, eu tenho uma namorada, já estamos fazendo seis meses de namoro. Não é muito tempo, eu sei, mas o problema é o seguinte, eu nunca namorei na minha vida e estou tendo várias crises em minha cabeça. Uma é por conta da rotina, eu gostaria de mudar os nossos programas e não tenho idéia de como fazer isso. Sempre quando penso que eu irei gostar, eu tenho certeza que ela não irá gostar porque somos muito diferentes. E outra coisa, ela é mais velha que eu, portanto, tem pensamentos além dos meus e sempre fico sentindo um certo tipo de pressão, entende? Ela quer demonstrar ser superior a mim por causa da idade. Isso me deixa um pouco triste e essa pressão me estressa. Tento ao máximo ser maduro e deixar esse lado moleque que eu sempre tive (para ela, é infantilidade). Eu não sei bem como agir em namoros, quando chega o fim de semana, por exemplo, fico sem jeito, na obrigação de chamá-la para algum lugar, fico impaciente, fico com receio de ligar 'Ei, tô indo para a tua casa, tá?' E se eu for esperar ela telefonar, nada acontece... Gostaria de saber: como eu devo agir nessa situação?"


Olá, Beto!

Não adianta bancar o mais velho - é o jeito mais rápido de ser infantil. Vejo sua preocupação em impressionar, que elimina a espontaneidade dos gestos. Está mais interessado em ser "o que pensa que ela pensa" do que em expressar as próprias fantasias. Vive emprestado. Abandona logo seu lado moleque. Ou seja, a alegria, a irreverência e o prazer. O preço é muito alto. Censurando as bobagens, sacrificamos também a criatividade.

Ninguém é superior pela idade. Se há arrogância ou prepotência de uma das partes, não existe amor, mas dominação.

Tudo é calculado, o que estressa. Sofre por antecipação. Não tenta adivinhar se ela vai se interessar ou não, diz de cara que ela não irá gostar. Não oferece a possibilidade de escolha. Decide por ela.

Experimente convidá-la para fazer seus programas. Ensine à namorada os seus gostos, os lugares que costuma freqüentar, as músicas favoritas, o enredo emocional de seus colegas. Assim como pode circular e aprender com o mundo dela. Pensamentos diferentes enriquecem a experiência e ampliam as afinidades.

Cuidado, dessa forma a passividade anulará seu temperamento. E não será nem o que a conquistou, nem o que ela desejaria que fosse. Numa relação verdadeira, agradar é ser sincero. Quem se esforça em ser sincero já está mentindo.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

7:55 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 13, 2006

CÍNTIA MOSCOVICH FAZ LEITURA DE INÉDITO
Arte de Mary Cassatt



"Entre nós...", a série de debates mensais da Livraria Cultura que apresento ao lado do jornalista Rodrigo Breunig, incrementa suas atividades. A cada encontro, um escritor antecipa trechos de um livro inédito.

A convidada é Cíntia Moscovich, que fará leitura em primeira mão de capítulos da narrativa "Por que sou gorda, mamãe?", a ser lançada pela Record em setembro. A obra investiga a natureza do afeto filial, no formato de epístola romanceada. Marcada pela franqueza, a personagem busca acertar as contas com o passado e entender as decisões da família.

A conversa com a autora acontece nesta segunda (17/7), às 19h30, no auditório da livraria no Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80/ auditório no 2º piso Tel.: 30284033), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca.

Cíntia Moscovich nasceu em Porto Alegre, em 1958. É escritora, jornalista e Mestre em Teoria Literária pela PUCRS. Estréia na literatura em 1996 com o volume de contos "O Reino das Cebolas", indicado ao Prêmio Jabuti. Em 1998, publica o romance "Duas Iguais"; em 2000, o livro de contos "Anotações Durante o Incêndio", ambos vencedores do Prêmio Açorianos. Seu livro mais recente é "Arquitetura do Arco-íris", uma das três premiadas na categoria "conto e crônica" no Prêmio Jabuti. Sua novela "Duas Iguais" foi publicada em Portugal pela editora Pergaminho. Tem textos publicados em espanhol e inglês, e já conquistou o primeiro lugar no Concurso de Contos Guimarães Rosa, da Radio France Internationale.

"Entre nós..." sabatina escritores e personalidades, explorando novas relações da literatura com o cotidiano. É uma "meia-roda" viva, entrevista aberta com a participação do público.

11:03 AM :: Comentários:

JABUTI

"Como no céu e Livro de Visitas" (Bertrand Brasil, 2005) é um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti, a mais tradicional premiação literária no país. Foi o terceiro mais votado - durante a primeira fase - na categoria poesia, em que concorreram 113 obras.

Confira todos os finalistas.

10:57 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 11, 2006

UMA ESPERANÇA SEMI-ABERTA
Para Caroline, que me inspirou.
Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Depois dos filhos, passei a adoecer de compaixão pelos sacos abertos de salgadinhos, dos abiscoitados, das bolachas. Antes, eu comia. A gula diminuiu com a paternidade. Hoje acredito que eles serão devorados na tarde seguinte e dou uma segunda chance. Não quero que estraguem e guardo. Há pouco para colocar em um pote, mas nem tão pouco para jogar fora. Estou parecendo minha mãe, esperançosa como as sobras do almoço.

Ao invés dos arames brancos e elásticos, fecho com prendedores. Mania esquisita: a cesta de vime virou um varal. Nada a reclamar se fosse temporário, mas não é. Criei, de modo involuntário, um purgatório na despensa. Um caldeirão de alimentos penados. As crianças abrem cada vez mais as novas embalagens e ninguém mexe nos antigos sacos, deduzindo que a quantidade é insuficiente para o entretenimento dos dentes. Montei um depósito de restos e apenas me flagrei disso quando começou a faltar prendedores para as roupas. A maioria estava desviada de sua função original e exercia bicos na cozinha.

Eu faço o mesmo - infelizmente - com os pensamentos de minha mulher. Acompanho uma idéia pela curiosidade, mastigo durante um período e deixo para o próximo dia que nunca chega. Não desejo perder, não tiro o olho, porém não desfruto até o fim. Não desperdiço e, ao mesmo tempo, não aproveito. Crio um cemitério de unhas na janela. Ela conta seu trabalho no almoço ou na janta e já a interrompo com outras distrações e não volto ao assunto. Não volto: maldito defeito do homem que se dedica a ir, não a regressar.

Não a escuto, sempre querendo a novidade. Desperto para as extravagâncias. Talvez o que mais a importe seja antigo e dito sem ênfase. Um estar ali, inteiro, descompromissado, sem fugas, sem pálpebras aéreas, sem bocas apressadas. Ultrapassar a monotonia pela dedicação.

O que a incomoda - e que ela não diz - é a facilidade em me mostrar atento para me desinteressar em seguida. Esqueço o que ela mencionou para fingir que me lembro e concordar no escuro.

A intenção em proteger os saquinhos não serve. Eles vão estragar como se estivessem abertos.

Para guardar, devo estar com o rosto de minha mulher permanentemente entre as mãos e não mais confiar em prendedores.

9:01 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 09, 2006

Domingo, 9 julho de 2006, CULTURA, O Estado de S. Paulo

DESCULPAS DESNECESSÁRIAS
Aos 59 anos, Paulo Neves reúne em um só volume a poética contundente de toda a sua vida

Fabrício Carpinejar*


VIAGEM, ESPERA
- 40 poemas e outros escritos
Paulo Neves
Capa: Angelo Venosa
128 Páginas
Preço: R$ 29,00

Há poetas que chegam pedindo desculpas, com um olho aberto na imaginação e outro na metalinguagem. Completamente inseguros da eternidade do livro. Falam baixo em seus versos, de mansinho, para não incomodar e chamar atenção. É o caso de Paulo Neves, de 59 anos, há 20 anos traduzindo obras, jornalista e letrista gaúcho, que decidiu abrir a guarda e reunir poemas de toda uma vida em Viagem, Espera. Em seus versos, nota-se uma mistura abúlica de culpa e despretensão, quase se mostrando, quase desistindo.

"Que fazer dos talentos
que recebi e não multipliquei?
Escrever, ensinar, influir...
Vão passando os anos e nem sei
se eram talentos ou enganos.
Onde falhei? Que vontade faltou?
Cumprem-se os talentos à revelia?
É um penhor a minha magra poesia?
Mas eu sei o tormento que é seguir
devedor até o fim."

É uma autocrítica que pode ser confundida com comiseração, mas sinaliza antes rigor e dúvida disciplinada. Mais adiante, ele dirá, novamente assumindo a desvalia crítica: "Ser poeta era belo e triste, mas não imaginava que fosse tão árduo." Não é jogo de cena, Paulo Neves não acredita mesmo em si ou na literatura, é esse o seu ponto forte, tornando seus poemas um caderno de observações irrelevantes e apontamentos miúdos, que geram uma meditação incessante. Não problematiza a morte, a esperança ou a fé, não versa sobre os grandes temas universais com ênfase maiúscula. Eles estão presentes de modo oblíquo, na captação de relances pictóricos (Na Estrada) e na capacidade de multiplicar o som como um tambor e se enfeitiçar unicamente com o ritmo (Filhos de Gandhi).

Em sua proposta realmente modesta, Viagem, Espera é, além do livro, o que o autor pensa do livro e o que ele gostaria de ter escrito. Três seções, uma completa e interroga a outra. Têm-se os versos, um ensaio pedagógico sobre poesia e criação e os que não viraram poemas porque literalmente não obedeceram. Domina um bucolismo de pensamento, uma ânsia de se esparramar na natureza. Uma hesitação que já é existência. Em Pasto, demonstra sua falta de lugar, sempre contrastando sua posição inadequada e desconfortável, presa a um compromisso e objetivo, com a liberdade impetuosa do que enxerga: "O frio da relva é macio,/ dá vontade de ser um focinho/ e fechar os olhos./ Eu sei um segredo da terra./ Eu pasto."

Quem não quis ser um focinho? Poética da vontade mais do que da realização. O fracasso é iminente, mas não interrompe a beleza. Cristaliza - com freqüência - a cisão entre vida prática e sonhada. Enquanto o lavrador pensa no preço do óleo diesel, pererecas saltam de onde brota o arroz. Troca a superficial raiva do protesto, que caracterizaria o panfleto, por uma nostalgia permanente combinada a uma visão aguçadíssima. Paulo Neves alterna um passo atrás nas lembranças e uma observação à frente do cotidiano, com a ciência de que algo escapa à compreensão e à memória.

Do partido das coisas desprezadas, é um perdedor desde o começo, que o qualifica a observações curiosas e extravagâncias acertadas, como a reparar na generosidade do aceno da bananeira. Ou a questionar se as aves estão partindo ou voltando na migração. Ou de recolher a água da chuva confiando que assim está bebendo o céu.

Existe uma pequeneza milagrosa operando o conteúdo lírico, que direciona sua pronúncia a um estado corriqueiro e instantâneo. Estabelece um pacto com leitor de ingenuidade e de partilha de perplexidades.

Paulo Neves acomoda-se ao lado da turma do "deixa disso", formada em nossa poesia por Manuel Bandeira, Manoel de Barros e Mario Quintana. Assume seu lado cômico como tragédia, sua insuficiência como método. Entre o poema pronto e a sensação do poema a fazer, fica com a segunda opção. "O que me encanta na prosa/ é sua cara desarrumada de poesia."

Não pede muito, não promete. Gira ao redor de sua cidade, de seu Rio Guaíba e de seus passarinhos, como um São Francisco expulso da ordem. Revela uma religiosidade fecunda e espontânea, encontrável em uma criança antes da comunhão.

Sua poética não transborda, retrai-se violentamente, ameaçando extinguir-se ao longo da leitura. Esterilizante no sentido de que o escritor acerta as contas, não apresenta um projeto ou uma insinuação de novos caminhos para sua poesia. Parece que o recado está dado - e bem dado. Sua contundência, porém, dispensava as desculpas.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquecer de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

11:54 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 07, 2006



PLANTAR ÁRVORES OU PLANTAR PÁSSAROS
Do Consultório Poético
Pintura de Marc Chagall
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Olá, Fabrício
Tenho 22 anos e aos 19 conheci um cara mais velho que eu 14 anos. Foi muito legal, pois construímos uma amizade muito interessante, gostava de conversar com ele (acho que pelo fato de eu morar longe do meu pai), me sentia protegida perto dele. Com o passar do tempo acabamos nos envolvendo - isso tudo seria ótimo se não tivesse um problema: ele é comprometido, mais especificamente, casado há 16 anos. Eu ficava com ele, mas sentia muito remorso pelo fato de ele ter uma família, não achava justo, mas gostava muito dele. Já ele pensava diferente, dizia que o fato de ser comprometido não o impedia de gostar de mim e que tínhamos mais era que viver nossa história. Passado um bom tempo parei pra pensar no que eu estava fazendo da minha vida, então lembrei da minha família, que confia muito em mim, e que alguém poderia descobrir isso e não queria ser vista como a destruidora de lares. Resolvi dar um tempo. Passei uns 4 meses sem falar com ele.

Mas agora aconteceu uma coisa que vem me fazendo muito mal. Ele resolveu me dizer que está namorando outra garota. Caiu como uma bomba sobre minha cabeça, pois apesar de não termos mais nada, ainda gosto muito dele e fiquei com muito ciúme, brigamos feio, nos falamos coisas horríveis. Depois de tanto brigar fomos nos encontrar e acabamos fazendo as pazes. O problema é que aconteceu algo mais que isso (ele foi meu primeiro), eu me arrependi, nem eu mesma consigo entender, pois ficamos tanto tempo juntos e não rolou nada de íntimo e agora que ele me magoou tanto deixei acontecer, me culpo por isso, me sinto uma tremenda idiota. Estou muito magoada, ele não se preocupa com meus sentimentos, diz que gosta de mim, mas faz questão de dizer que essa tal namorada é importante para ele. Tenho muita pena da esposa dele e da garota (ela é mais nova que eu, deve ter uns 18 anos) que está entrando num barco furado. Além de tudo, a namorada dele (ou melhor, amante) descobriu meu e-mail e fica me escrevendo, e o pior, foi ele que permitiu que ela me escrevesse, isso dói muito, ele brinca com meus sentimentos. Estou muito magoada, às vezes me pergunto como alguém pode dormir tranqüilo sabendo que engana três pessoas (pensando bem engana duas, porque eu sei da existência das outras e elas não sabem de mim), eu que me enganei demais, me deixei levar por uma ilusão. O pior de tudo é que ele diz pra tal namorada que somos apenas bons amigos e que nunca rolou nada entre nós, faz isso porque sabe que a garota gosta dele e ficaria chateada se soubesse de alguma coisa, isso me chateia, pois ele nunca se preocupou se me magoaria me falando dela.

Olho pra mim e vejo que não mereço isso, minha vontade é de passar uma borracha nisso tudo, mas é difícil, isso só vai acontecer com o tempo. Há outros rapazes interessados em me conquistar, há um até que se declarou esta semana (me disse que está apaixonado e me quer muito), mas eu estou muito decepcionada, acho que não estou preparada para amar novamente.

Fabrício, gostaria de ler sua opinião, pois isso me ajuda, fico melhor quando leio o que você escreveu pra outras pessoas no Consultório Poético.

Por favor, me responda.
Um abraço.Te admiro.

Nena"


Ele dorme tranqüilo porque acredita que não está enganando ninguém. Não consulta sua consciência. É amoral, nem imoral é. Não está na moralidade para ser julgado ou errar. Sua vaidade é o sofrimento de vocês. Não se dispõe a mudar - nem cogita. Diz que é assim e ponto final. Pula de uma casa para outra porque não suporta a continuidade. Nem adianta conversar. É um conquistador e a sedução é fechada e passageira como um jogo de pôquer entre os amigos. Ele não é capaz de cultivar o seu melhor, mas de fazê-la ficar presa a ele pelo seu pior. Vem torturando seus dias, vem eliminando sua ternura, vem incitando a raiva e a competição... Somente coisas ruins. Desde que está com ele, com certeza piorou, tornou-se mais amarga, incrédula e isolada. E o mais triste: todos os homens levam a culpa por um único sujeito. Ele apenas desencadeia tragédias em sua pequena vida. Bonito é quando alguém procura todos os pontos de vista na mesma mulher, sem violentá-la com comparações e invadi-la com duplicidades.

Eu acabei de dizer para uma amiga hoje de manhã: queremos no amor plantar uma árvore, afofamos a terra para depositar a semente, amparamos seu crescimento diante da vizinhança, planejamos o espaço de que ela depende para crescer.

Mas esquecemos que também somos árvores. Queremos plantar uma árvore para ter sombra. Para mostrar aos outros. Para nos apoiar. Para aprofundar a boca com o açúcar dos frutos. Esquecemos que devemos ser cuidadas e zeladas senão não vamos segurar o chapéu de folhas, algodão e ninhos quando o vento passar apressado e furioso, quando a tempestade mostrar nossa vulnerabilidade de outono.

Como árvores, nossa vocação é para cima. Plantar pássaros. Plantar vôos. Aceitamos até um balanço para empurrar a infância. Nunca deixar que o tronco apodreça ao ir para o lado.

Não tente, portanto, mais salvá-lo, pois está no momento de se salvar dele.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

11:47 AM :: Comentários:

EXPRESSO BEM ESPUMOSO


Dei entrevista para Fernanda Garrafiel no site de notícias Armazém Literário. Confira.

11:44 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 05, 2006

EMPRESTANDO ROUPAS AO MARIDO
Ilustração do "Pequeno Príncipe" e pintura de Jean Dubuffet

Fabrício Carpinejar




Ana fica possessa, mas inventei de usar seus casacos. Ela escondeu os melhores na parte inferior do guarda-roupa. Encontrei-os em longa investigação, sufocados pelo edredom. Já tomei para mim dois casacos de couro. Estão nos meus cabides, felizes com a troca rápida e indolor de sexo.

No início, fazia para provocar. Depois, surgiu com uma alegre possibilidade de ampliar meu repertório sem custo algum.

Hoje saí com uma peça dela de veludo. Antes de bater a porta, ela amaldiçoou que é um vestido. Bem disfarçado, dá para enganar que é um casaco. Não mergulhei em sua conversa. Acreditei que me constrangia para não estragá-lo. Tática de intimidação. Entre o trinco e sua boca, ouvi seu grito:

- Tem certeza que vai sair assim?

É óbvio que os botões prateados complicam as explicações. Examinado com rigor, diante do espelho, é parente da túnica acinturada que cobre o Pequeno Príncipe. Não penso mais no assunto para não sentir calor.

Não deve ser fácil para uma mulher suportar o marido roubando suas roupas. Eu a entendo e sou solidário com a desgraça. Os casacos justos e conservados tornam-se grandalhões e largos depois que devolvo. Imprestáveis. Ao casar e se ver livre dos furtos da irmã mais nova, apareço na maturidade para completar a tragédia familiar.

Com a caçula, ela sofria horrores. A mãe sempre dava razão para a menor, insistia que emprestasse e ainda a chamava de avarenta. Quem não passou por isso? Toda aquela combinação bolada durante horas de noite fracassava de manhã. Sumia algo do conjunto. Nem pedir, ela pedia. Caso ela pedisse, Ana não emprestaria, mas a educação é fundamental para o ódio.

A impunidade irritava. Incerta se não achava a saia pela pressa ou se a dileta tratou de arrancar sorrateiramente dali. O azar dela era contar com uma irmã com o mesmo número de sapato e idêntico manequim - não desejo a ninguém.

E quando a irmã quebrava o pacto de vizinhança e surgia desfilando na escola com seu modelo transado, diante do riso da turma. A vontade era a de se esconder e vender a confecção a um brechó.

Pior que isso é se deparar com um colega no trabalho trajando a camisa igual a sua, adquirida numa promoção. São raros meus impulsos homicidas. Com certeza, esse é o primeiro deles. A ânsia de eliminar a concorrência, mesmo que seja começando por mim.

Ponho com orgulho os casacos de minha mulher. Só nos momentos em que não posso vestir seu corpo.

12:03 PM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 04, 2006

AQUELE GOL QUE NINGUÉM VIU

Fabrício Carpinejar



Jurei não escrever sobre futebol por enquanto. Mas devo. Preciso bater as costas para engolir o desgosto. Assim como já engoli meu próprio dente em uma briga na infância. Engoli meu dente como uma aspirina, sem água. A seco. A garganta agüentou.

Eu perdi muitas Copas: 74 foi a minha primeira. Ainda lembro de um jogador polonês Lato atravessando todo o campo sem marcação para fazer o gol e nos colocar em quarto lugar.

Rememoro 78, o Brasil não conheceu a derrota e o Peru levou seis quando poderia levar quatro. É inacreditável o que acontece nos bastidores.

A de 82 tornou-se a mais dolorida. Com dez anos, só querendo bater bola nos campinhos, guardo intacto o rosto do Falcão, as veias da testa de Falcão explodindo e comemorando o gol de empate que nos classificava. Um anjo de Leonardo da Vinci retocado pelo desespero de Munch. E, em seguida, a ruína da defesa. Rossi, Rossi, Rossi. Três vezes Rossi. Sócrates cabeceou um cruzamento no final que - por pouquinho - não entrou. Eu imaginei durante décadas a bola entrando e vencendo Dino. Décadas: no chuveiro, no carro, no supermercado, na escola, meus cabelos boiavam na reprise do que não houve, do que não deu. Encontrei Sócrates em uma choperia em Ribeirão Preto, vinte anos transcorrida a copa, e não consegui conversar. Observava sua testa com teimosia. Como se houvesse um hematoma, uma bolha, um caroço. Pensava unicamente na cabeçada que não entrou, o que seria sua trajetória depois da cabeçada, o que seria minha biografia com aquela vitória. O que uma bola sente no outro lado do mundo interfere em sua vida. Aquela vitória poderia ter me entusiasmado a beijar a menina que eu gostava na escola. Ela havia prometido um beijo se a seleção fosse à final.

A de 86 não tinha chance, França nos tirou nos pênaltis, até Zico errou e o goleiro Carlos tomou uma bola nas costas, após bater na trave, para estufar as redes. Muito azar na perícia. Em 90, caímos precoce, nas oitavas, nem senti o gostinho dos feriados.

As de 94, 98 e 2002, sou muito velho para lembrar e a alegria encurta as goleiras.

Voltei a contar com dez anos no sábado. Talvez porque tenha um filho, 4, e uma adolescente, 12. De repente, virei o filho do meio. E nem pude ficar triste na hora, nem chorei como antes. Nenhum sinal visível. Exercitei derrames em silêncio.

Vicente me animou: "agora iremos voltar a assistir o Inter". Mariana brincou com sua idade na próxima Copa: 16 anos... Quando os filhos consolam, fazendo o que deveria fazer, é que alguma coisa está errada comigo. Não me saía da cabeça a cobrança derradeira de falta de Ronaldinho Gaúcho. Estou no trabalho, estou em festas, não importa, recordo Ronaldinho batendo a falta e comemorando. Batendo a falta e empatando a partida no finalzinho. Hipnose exaustiva. Enquanto escrevo este texto, olho para o chão e a barreira anda para a frente. Minha memória só aceita a reversão do resultado. Empacou. Não deixo o lugar na frente da televisão.

O discernimento não é maior do que a ingenuidade.

Não vou dizer que merecíamos perder, não vou dizer que era melhor sair antes, que a seleção teve um plantel de mercenários, não vou culpar um ou outro, não tomarei uma posição intelectual a menosprezar o futebol e reduzi-lo a um esporte, não gritarei que a vida segue, que o ano começa, que agora é torcer para Portugal, não vou. O futebol é quando meus olhos são as minhas pernas. Não sei caminhar de outro jeito. O juiz ainda não apitou aquela cobrança de Ronaldinho.

9:26 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 02, 2006

UM LITRÃO DE AMOR
Arte de Andy Warhol

Fabrício Carpinejar



Decidi fazer vasectomia, depois de dois filhos no mundo. Não esperava as reações mais desbaratadas entre os próximos. Minha mulher considerou um ato de extremo amor, já que encerrava com ela minha carreira fértil de varão. Abraçou-me com as pernas, emocionada, como se houvesse a pedido novamente em casamento.

Entendeu que eu me aposentava aos 35 anos, quando ainda renderia muito em campo. Largava a possibilidade de vir a ser de outra em igualdade de condições. Escolhia sua comodidade; ela deixaria de ser a culpada pela gravidez (sim, o homem sempre culpa a mulher e esquece que também é responsável) e de se preocupar com camisinha estourada, anticoncepcional ou cogitar métodos alternativos como DIU.

* * *

Fui conversar com os amigos para tirar a teima do assunto. Eles brindaram meu nome com efusão, pagaram a bebida e me carregaram nos ombros como um ídolo no bar. A tese deles é que poderia trair sem me comprometer com amantes caçadoras de filhos. E seria até engraçado ser informado por uma mulher que era o pai de sua criança e responder: - Não fui eu, fiz vasectomia. Fiquei perplexo com a imaginação diabólica da rapaziada.

* * *

Inventei de contar para a minha mãe, que não escondeu a felicidade. Elogiou a inteligência da iniciativa, agarrou-me como se fosse agenda de adolescente e esclareceu -entre suspiros e bênçãos - que agora só pagaria pensão para o passado. "Finalmente, ele não é mais ingênuo", me confidenciou, com a impessoalidade de uma terceira pessoa.

***

Nada de mesa de operações, cirurgias complexas, a vasectomia foi simples como exame de clube de natação. Pude sair dirigindo no mesmo dia e a única precaução era não carregar peso e comprimir uma bolsa de água fria nas bolas. Minha mulher enfrentou três subidas, sozinha, com as compras do supermercado nos quatro vãos de escadas. Fazia tempo que não me sentia adoentado - a última vez aconteceu na 5ª série, quando cai em febre para não cumprir a prova de Máximo Denominador Comum. Aproveitei o luxo do descanso mais pelo folclore do que pela realidade. Menti as recomendações do consultório, como se eu precisasse mais do que pedras de gelo em meu uísque.

* * *

Estranho é que mantinha provisoriamente a fertilidade. O médico avisou que havia chance de gerar filho (numa hipótese remota, mas estatística) nas primeiras 25 ejaculadas após a operação. O risco é que sobrasse Fabricinhos no saco. Concluídas as vinte e cinco, teria que levar uma amostra do esperma para a análise e receber a sentença final. Comprei um quadro-negro e botei na parede do quarto no lugar do "O beijo", de Klimt, guardado debaixo da cama.

* * *

Péssima idéia. E eu sou homem de contar trepadas? Estava destinado a registrar cada desempenho com um toque do giz. Porém, me afligiu uma dúvida e a transparência do relacionamento dificultou o raciocínio. As punhetas, o que faria com elas? Marcaria também no quadro? Passei a roubar minhas próprias gozadas e a esposa inventou de apagar algumas dizendo que estava me apressando e que não sabia ser honesto nem durante o sexo. Não ia dizer que homem casado também se masturba... Arrumei um controle paralelo nos papeizinhos amarelos, somando as transas reais e as fictícias.

* * *

O triste é que alguns pacientes entendem errado o aviso das vinte e cinco golfadas. Ao invés do potinho de laboratório com a vigésima sexta ejaculação, um deles apareceu no consultório com um litrão de coca-cola e entregou ao doutor, alegando que tinha sido difícil coletar tanta porra. Durante dois meses, gozava dentro da garrafa. Quase se apaixonou por ela, quase morreu no gargalo.

PUBLICADO EM ZERO HORA, CADERNO DONNA
Coluna de Luis Fernando Verissimo - Interino
Porto Alegre, 02 de julho de 2006. Edição nº 14920

5:22 PM :: Comentários: