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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Agosto 31, 2006

NADA MAIS BONITO DO QUE UM CASAL ADMIRANDO-SE
Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Não vejo o amor sem a admiração. Admirar é desejar ser igual estando junto. Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus. Admirar sua lealdade com os amigos. Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas. Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases. Admirar os princípios herdados dos pais. Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço. Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço. Admirar sua vivacidade em brincar. Admirar, admirar-se. Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus. Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva. Admirar sua inquietude para sair com o sol. Admirar sua concentração numa música nova. Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas. Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho. Admirar sua letra com ânsias de terminar. Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo. Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas. Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados. Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu. Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia. Admirar suas mentiras encabuladas. Admirar, admirar-se. Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário. Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números. Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos. Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça. Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar. Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado. Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama. Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora. Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer "não entendi", para escutar outra vez. Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama. Admirar sua respiração pesarosa com o luto. Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler. Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez. Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança. Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos. Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir.

Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo.

10:15 AM :: Comentários:

FRANK JORGE

Infelizmente, Frank Jorge deixou a Secretaria de Cultura de São Leopoldo. Escrevi uma carta para o prefeito Ary José Vanazzi. Reproduzo:

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO OU SR. VANAZZI

Fabrício Carpinejar

Meu caro prefeito Ary José Vanazzi: não posso me omitir e não me espantar com a falta de ambição na cultura. Ambição não é ruim caso não vire arrogância, caso não vire prepotência, caso não vire a vontade de decidir sozinho.

O sr. abriu a primeira Secretaria de Cultura do município, o que, convenhamos, mostra sua boa intenção. Mas ela tem somente atuado como um departamento, mantendo o que já existia nas administrações anteriores. Ainda giramos em torno dos mesmos encontros: São Leopoldo Fest, Carnaval e Feira do Livro. Sei que não deve ficar feliz em ser comparado com a administração anterior nesta área, porém, é inevitável. Onde anda toda a experiência adquirida com sucesso pela Administração Popular de Porto Alegre? Onde andam os projetos alternativos, prêmios de incentivo à leitura, captação de projetos junto ao governo federal? Onde anda a arte e a intelectualidade que iriam revolucionar a mentalidade administrativa, recuperar o prédio da Biblioteca Pública, criar um teatro e uma casa com oficinas? Transcorreram dois anos e não localizei.

Lamento que toda individualidade que surja dentro da Secretaria esteja saindo. Foram mais de dez funcionários que largaram o barco. Alguma coisa está errada. A desculpa dos demissionários é recorrente: incompatibilidade com a direção.

Ou a cultura não é um trabalho em equipe? Não posso culpar o sr., sei que tem feito uma excelente administração em outros setores. Por exemplo, finalmente meu filho tem uma praça de brinquedos. Estou falando da cultura. A cultura ainda é uma peça decorativa. Parece feita para o secretário aparecer em fotos nos jornais.

O sr. deve saber que Frank Jorge largou a Secretaria, exercia o cargo de diretor. Iniciava a descentralização cultural, a partir das muambas e grandes eventos. Não senti nenhuma resistência a sua saída. Se não o conhece, um dia deve ter cantado "Amigo Punk" involuntariamente em seu carro. Além de um grande músico e poeta, Frank Jorge é um mobilizador da cena urbana, criativo e incansável, segurava a produção dos eventos, refinou a programação artística, ampliou o espaço de debates. Ele ansiava ficar: ama São Leopoldo como quem nasce pela segunda vez. Alegou divergências com o modo de condução da gestão cultural. É o momento de parar e perguntar: quais as divergências? Queria descobrir. Pode me dizer?

Frank Jorge já coordenou a Usina do Gasômetro, montou festivais, dirigiu e apresentou o programa Radar da TVE, impulsionou o Sarau Elétrico na capital. Não é uma figurinha difícil de conviver. Pelo contrário, amável, generoso e sério. Escolheu a discrição enquanto o secretário tomava para si a glória.

Desejo dizer, sem medo e afetação, ele é e sempre será meu secretário de Cultura. Nunca precisará fazer um abaixo-assinado para mostrar sua importância. Não precisará ter um CC 6 ou bonificações para ser respeitado. Ele não depende de mim ou do senhor para ser lembrado.

Chego até aqui para repetir que a ambição não é ruim quando não é pessoal ou carreirista. A ambição de Frank Jorge é pela cultura. Uma ambição pela diversidade. E não posso aceitar que tudo está bem se ele não está mais conosco.

Faço um pedido: não mantenha seus secretários pela amizade. Mantenha seus secretários pela competência.

10:13 AM :: Comentários:

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO CELEBRA ETERNAS CAFONICES

O que hoje é cafona? Cantores como Sidney Magal, antes bregas, viraram cult. "Sandra Rosa Madalena" e "Meu Sangue Ferve por você" alucinam qualquer balada e enchem as pistas de dança. Odair José, conhecido como "o terror das empregadas", recebeu releitura, recentemente justiçado com a revelação de que foi mais censurado na ditadura militar do que Chico Buarque. Canções como "Pare de tomar pílula" e "Na minha opinião", que criticava o casamento (""o importante é se querer/ assinar papel pra quê?"), já se tornaram história e folclore. O mesmo aconteceu com "Eu não sou cachorro não", de Waldick Soriano, revalorizada como síntese da dor de cotovelo e do amor rejeitado.

A pior música cafona da eterna atualidade é o tema da quinta edição do talk-show Em busca do tempo perdido, nesta quinta-feira, 31/8, às 19h30, no Café de Bordo da Paralelo 30 Viagens e Turismo (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo. Em animado concurso retrô, o músico Frank Jorge e o escritor Fabrício Carpinejar definem quem é o mais chinelão da história da MPB: Paulo Sérgio, Wando, Roberto Leal, Dom e Ravel, Agnaldo Timóteo, Benito Di Paula, entre tantos concorrentes de peso.

No clima descontraído, Em busca do tempo perdido usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Há sempre interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.

10:12 AM :: Comentários:

NA VITROLA



Confira o blog de Paulo Ribeiro, autor do clássico "Vitrola dos Ausentes" (Ateliê, 2005) e de "Cozinha Gorda" (Maneco, no prelo). Passamos o final da manhã de quarta (30/8) escrevendo nas vidraças da Universidade de Caxias do Sul. Paulo fez um poema pedindo para que as poesias não sejam apagadas das vitrines.

10:10 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 29, 2006

GROSSERIA
Pintura de David Hockney

Fabrício Carpinejar



O que não me agrada é a grosseria. O que torna uma pessoa assexuada, infeliz e feia é a grosseria. Ainda mais sob o disfarce da sinceridade.

Comentar para uma mulher que está gorda é uma indelicadeza. Qual a finalidade? O que se ganha com isso? Respeito? Duvido. Respeito não surge do desrespeito.

Não é possível encontrar confiança ao rebaixar o outro. Amizade não tem desnível.

Ou acha que ela não sofre e não sabe? Ela não vai emagrecer com a ofensa. Ninguém muda com a ofensa, só se percebe quem são os verdadeiros amigos.

Que benefício trará ao afirmar que ela inspira piedade? Que não se comporta em festas? Que transa mal?

Quem se julga no direito de dar nota não conhece o dever de calar. A franqueza está sendo confundida com dizer o que se quer, na hora que bem entender. Não se seleciona as palavras com tato. Fala-se do jeito que sai. Arrumar a casa não é destruí-la. Destruir a casa é apagar a possibilidade de morar nela.

Não é qualquer um que consegue conduzir verdades. A verdade não é sinônimo da descortesia. Alguns acreditam que estão fazendo um favor expondo verdades, mas apenas mostram a impossibilidade de se comunicar. Atacam pela incompetência ao diálogo. Não suportam conversar, são vaidosos para escutar o contraponto. Vaidosos para perguntar. Impacientes e logo desejam resolver a situação. Antecipam-se como formadores e deformam. Alegam que não podem se reprimir e reprimem. Alegam que não podem se censurar e censuram.

Não há como morder e depois culpar os dentes. Não há como arranhar e depois culpar as unhas grandes. Ou, arrependido, atenuar-se na brincadeira.

A liberdade crítica não contraria a educação. Se não sabemos deixar de dizer por amor não saberemos amar sem dizer. E o amor prevê o consentimento do silêncio. Proteger-se da gentileza do silêncio. Não estaremos escondendo nada, mas escolhendo. Escolher é cuidar. É esperar que a boca nasça primeiramente nas mãos. Que aprenda a caminhar nas mãos.

Palavras não doem; o que dói é o desprezo com elas. Fala-se pela importância de falar, ao invés de falar pela importância de ser ouvido.

9:33 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 27, 2006

RECOMEÇAR
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Casar cedo é como um rio que se retira para a outra margem, para alguma aldeia quieta e verdorosa, com crianças a fazer bolas de vento. A imensidão íntima coberta da forragem do limo. A limpeza da varanda. A mesa da janela e os passarinhos adivinhando o lugar das migalhas.

Deseja-se passar toda a vida com o amor protegido, confiável, definitivo como o domingo preguiçoso. Não se prepara um plano alternativo, o casamento aumenta nossa idade.

Mas casamentos terminam, e como voltar do exílio voluntário? Como ser jovem novamente?

O corpo não é rijo, os seios estão estrábicos, a cintura aberta, as rugas e as varizes se desesperam com o verão. O amor perdoava o corpo. A companhia perdoava o tempo do meu corpo porque suas mãos masculinas faziam parte dele.

O corpo é mais grave isolado, mais duro, menos meu. Mais exposto às denúncias do espelho. Sem um fiador que assegure a beleza da convivência.

A impressão é que não se perdeu o marido, perdeu-se a mulher em si capaz de conquistá-lo. Perdeu-se o encantamento, a inconseqüência, o que fazia aproximar-me das pessoas sem desconfiança. Se eu me casei com dezoito anos e estou com trinta e dois, agora separada, agora com filho, como me curar de um desamor? Como retomar as festas e não ostentar a caça? Ele era meu colega de faculdade, havia a identificação, a sintonia, as afinidades em busca do diploma. Bastava aparecer e estávamos na mesma sala. A juventude fazia amigos com facilidade. Toda manhã na mesma aula. Havia tempo para se conhecer. Havia futuro. E agora? Quem me dará igual chance? Em uma noite, não consigo me mostrar. Não consigo convencer. Não consigo dizer tudo o que não quero repetir e o que quero melhorar nos quatorze anos de casamento. Não consigo manter-me atenta e interessada numa conversa tediosa. Minha paciência é para a nudez. Sozinha, não poderei encontrar um olhar cúmplice para sussurrar: "vamos embora?". Cheia de insegurança, precisarei tomar as decisões e soar independente.

Eu ainda não me recuperei da frustração do casamento. Não que tenha sido ruim, foi bom enquanto acordados. Acabou e ainda me resta a dúvida se acabou ou desistimos de nos esforçar. Ou se acostumamos a dormir em camas separadas e sacrificamos a vontade mútua de anoitecer. Ele não mais conhecia o que vestia para ir trabalhar. Confundia minhas roupas velhas com as novas. A pior traição é a distância da cordialidade. A distância de uma perna a outra das palavras.

Não posso voltar atrás, sobrava razão em me despedir. As oliveiras acenavam e não me diziam mais respeito. Esperava que ele voltasse diferente, ansioso, redimido de suas dívidas comigo, pronto a reiniciar. Ele só foi, chorou e foi, e não mais me procurou. Como se eu precisasse fazer o trabalho sujo por ele. Nem se separar ele conseguiu. Eu tive que me separar de mim no lugar dele. Ele não soube me reconquistar, muito menos terminar.

Estou de volta mais cética, mais pessimista. Para amar, terei que reaver a fé. Fazer a mala e deixar a aldeia segura. Voltar à cidade grande da esperança. Não posso contar com as amigas casadas para sair. E não será fácil encontrar um homem que se dê bem com meu filho, que seja inteligente e humorado, que não me esqueça para falar unicamente de si.

Como seduzo? Desculpa a pergunta, é falta de treino. Como seduzir sem parecer grosseira e atirada? Como me seduzir, principalmente?

10:11 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 24, 2006

A RESPIRAÇÃO QUE ATRAVESSOU MINHA VIDA
Pintura de Mark Rothko

Fabrício Carpinejar



Sou fanático por chupar laranjas. Não me apetece cortar, descascar, enrolar a casca como um novelo para cobrir o pescoço; gosto de abrir a fruta com a boca, arrebentar os pingentes enquanto descansam e cuspir as sementes de lado. É molecagem. Divido a esfera em duas metades idênticas. Mais do que matar a sede, mais do que embriagar-me com o suco, alegro-me com a acidez da casca. A acidez do solo. O azedo no doce. Não olho os alimentos antes de comer. Afobo-me de mel. Sugo a laranja como se fosse me fingir de árvore. Como se fosse fugir em ave. Como se fosse tarde.

Sou um espremedor de frutas. Um grande espremedor de frutas. Não tenho paciência para contar estrelas. As estrelas igualmente brilham para quem não as conhece.

Chupo a respiração de minha mulher quando ela dorme. Assim como quem chupa laranjas. Ou engole fogo. Sim, não há nada mais delicioso do que se aproximar dela, já em estágio avançado de altura, e permanecer rente ao vento na pedra da boca. O vento morno. O vento quente que poderia ser sinal de chuva se não viesse do corpo feminino. O vento que é a véspera da palavra, com todas as palavras possíveis, com todas as palavras por acontecer, sem uma pronúncia as reduzindo a uma escolha. Minha mulher é tranqüila como um barco. Come o mar com colher. O remo é uma colher, uma faca suavizada.

Quem não brincava que era invisível quando criança? De passar pelas pessoas e acreditar que ninguém poderia enxergar. Ouvir minha mulher dormindo é ser invisível. É ser ela um pouco por dia. É ser o pouso dela, com os vôos baixando os telhados. É ser seu cansaço de céu.

Eu a deixo dormir primeiro e fico acordado colhendo o sopro. Aproximo-me para beijá-la, com os cílios espantados de criança. Não a beijo, deixo sua respiração me beijar, ela faz cócegas na barba. Não conheço música mais veemente do que o som de uma mulher descansando. É o equivalente a escutar o som de um violino dentro do violino. Apanho seu ritmo e me esfrego com a esponja do batimento. Tomo banho a seco em sua respiração. Lavo meu rosto em sua respiração. Lavo as mãos. Lavo a voz. Ela não se mexe, mas pressente que estou pertinho, me fala "eu te amo" para me acalmar. As pálpebras rosadas do escuro. Não me acalma, o amor não me acalma. O amor me faz pensar que estou perdendo alguma coisa dela.

Sua respiração é ostra perolando a manhã seguinte. Chupo sua respiração e não basta. Não me detém, não me adormece. Percebo - com clareza e angústia - que serei sempre uma visita em sua respiração. Um hóspede. Nunca poderei dizer que é minha mulher, porque ela é sempre outra após isso. Por mais possessivo que seja, ela não depende de mim. Não se limita a minha presença. Diferente da laranja, não há casca para avisar do seu fim.

Uma mulher não se explica. Contenta-se em ser uma pergunta. Ela é uma respiração antes da minha.

Minha respiração é tão-somente uma resposta a dela.

9:53 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 23, 2006

HUMOR ELEITORAL


A Revista da Folha de São Paulo, edição de domingo (20/8/06), montou um colégio eleitoral de 32 personalidades para que cada um apresentasse seu candidato fictício predileto, uma figura da literatura, cinema, folclore, televisão e quadrinhos, preparado para resolver ou corrigir os problemas do Brasil.

Meu candidato ficou em sexto lugar na enquete eletrônica da Folha Online, com 7% dos votos (1 252) de um universo de 18 830 participantes. O vencedor foi Super Homem, com 23% dos votos, seguido da Feiticeira (10%) e de Jeannie (9%). Reproduzo a justificativa.



Dick Vigarista, presidente. Muttley, vice, ambos da série "Corrida Maluca".

Lema: "Muttley, faça alguma coisa".

Não seria propaganda enganosa, já que ele é vigarista desde o nome. Faria o gênero presidente esportista. Tão perdedor que é capaz de recuperar a estima de Rubinho Barichello. Não iria conseguir roubar porque é bocudo. Suas coligações se resumem à companhia do Muttley, que se contenta com "medalha, medalha, medalha" e vive rindo à toa. É previsível e insistente, dificilmente perde a esperança. Não suja as mãos, tem fetiche por luvas vermelhas. Como aviador, teria salvo a Varig e a transformado em "Máquina Voadora". Descobriria na prática o estado vegetativo de nossas estradas. Faria sucesso em tempo de seca com seu bordão: "Raios! Raios duplos!"


Fabrício Carpinejar, 33, escritor, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 288 págs., R$ 35)

8:22 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 18, 2006

FORTALEZA



Participo da 7ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, em Fortaleza. De 18 a 27 de agosto, no Centro de Convenções do Ceará (Av. Washington Soares, 1141 - Edson Queiroz), a Bienal se inspirou no clássico "As Mil e Uma Noites" para homenagear a arte de narrar e a contação de histórias.

Farei duas palestras. A primeira no domingo (20/8), às 16h, no Café Literário, em bate-papo com a escritora Thereza Leite. A conversa será seguida de leitura de textos e sessão de autógrafos do meu novo livro O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 286 páginas, R$ 35).

O segundo momento ocorre na segunda (21/8), na Tenda do Escriba, às 19h30, em debate sobre travessias e a importância da poesia na narrativa com Jorge Pieiro e mediação de Eleuda de Carvalho.

11:36 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 17, 2006

O RADINHO DE PILHA ENTRE OS OMBROS
Pintura de Salvador Dali

Fabrício Carpinejar



Uma senhora bem simples rodou e rodou a vitrine de uma loja, até que entrou. Pediu para "experimentar" um radinho de pilha. "Posso testar?". A atendente pensou que ligaria o rádio. Mas testar era colocar o aparelho nos ombros, para ver se pousava bem nos ouvidos. Mexeu-se muito até que encontrou uma posição confortável para o radinho. E amansou os olhos por alguns minutos como se ouvisse uma estação imaginária. Cerrou os olhos e rebolou o queixo devagar. Juro que ouvi a música que não existia apenas acompanhando seu rosto.

A atendente irritou-se com a demora e perguntou se ela levaria o produto. "Vai pagar com cartão de crédito?". Ela respondeu que "mais ou menos" e saiu.

Não gosto de chamá-la de senhora. Vou chamá-la de Alice. Alice experimentou o rádio como quem estava se vestindo, como quem prova comida, como quem testa um travesseiro ao dormir. Ela colocou seus longos cabelos de trigo ao lado para calçar o som. Abençoou a rua do seu pescoço. Como uma rosa que não se apequena com a água entre as pétalas. A água, uma pétala que não murcha.

Não temos mais paciência para experimentar um amor. Colocar as roupas antes de tirar. Dentro da gente, há sempre uma pressa que aponta: "vai levar?" Não fechamos os lábios para lembrar ou mastigar as palavras. Há sempre alguém que acelera o relacionamento. Que agride antes de compreender, que julga antes de conviver, que pretende ler sem se aproximar da caligrafia. O amor não é suspeita, é superar a desconfiança. Todos se conhecem sem ao menos pedir permissão para entrar, licença para sentar e puxar a cadeira. Como se soasse um zumbido de "agora ou nunca?". Nunca será se não houve véspera, nunca será se não haverá tempo de ser depois.

Queremos um amor rápido, não um amor constante, não um amor com as medidas do corpo. Ou com as medidas da voz nos ouvidos, que não seja largo demais nos ombros, nem pesado demais para carregar de um lado para o outro da casa. Como o rádio de Alice.

Pressa não é urgência. Pressa é pular para o final. Urgência é precisar todo momento e não deixar o começo.

11:13 AM :: Comentários:

Jornal do Brasil, caderno dos Esportes, página 3C, 17/08/06

AQUELA ESTRELA BORDADA EM MEU PIJAMA

Fabrício Carpinejar
Escritor, colorado, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006)



Era o último jogo do Falcão pelo Inter e a rara chance de conseguir o título de campeão da América. A tristeza de perder o ídolo diminuía com a possibilidade de vencer a Libertadores contra o Nacional. Tinha oito anos e só pensava em ser jogador do Inter, só pensava em futebol. Escutei o jogo pelo rádio. Uruguai nunca me pareceu tão longe. Entendia o jogo quando apareciam os nomes de Benitez, Mauro Galvão, Batista, Jair e Mário Sérgio. Depois do zero a zero em Porto Alegre, restava vencer. Não suportei o nervosismo e apaguei o rádio aos 35m do segundo tempo. Adormeci com o coração entre a língua e os dentes. O coração mais dentes do que línguas.

Acordei de manhãzinha, às 5h, para ver qual tinha sido o resultado. Cheirei o jornal antes de ver a manchete. Vitorino de cabeça. Inter havia perdido de um zero. A cidade vazia, deserta, os cães latiam entre si. As estrelas não tinham sentido e já se despediam. Sempre que busco o jornal, imagino que virá a manchete, que Falcão ficaria para jogar o Mundial, que seria centroavante, que não haveria escola de manhã, que meu pai e meus irmãos gremistas teriam medo de conversar comigo, que mexeria com a colher o leite para o achocolatado subir do fundo.

Vinte e seis anos depois, duas libertadores do Grêmio, sou um menino de letras garrafais. Um menino de papel. Com os mesmos vincos de um travesseiro guardado. Com filhos colorados como eu, indecisos entre gritar e correr. Com minha mulher desesperadamente alegre, que me olha como se não fosse acreditar. Em 1980, nascia Bolívar, zagueiro do Inter, que completou aniversário justo ao enfrentar o time de São Paulo. Ele daria o presente para mim ou eu daria para ele? Quem torce mais: aquele que enxerga ou aquele que vira para não sofrer? Quem tem mais coragem? Era a última partida de Tinga com a camisa vermelha. Ele fez o gol ontem. De cabeça. O gol que Falcão também sonhava.

O pão velho volta a ser quente na boca. Aos 35 minutos do segundo tempo, desliguei novamente a tevê. Fui deitar, alheio às superstições. Hoje o jornal decidiu minha vida. Pela segunda vez. Como disse Abel, o técnico que já foi vice para vencer: "Não podemos mudar o início, mas podemos mudar o final". Sou o primeiro a acordar para nunca mais dormir.

9:29 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 10, 2006

ADORÁVEL CANALHA
Arte de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"

Ser chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura.

Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa. Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo. Não o canalha canalha, mas o ca-na-lha, sem repetição. Único. Irrepetível. Não o canalha que deixa a mulher, o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo.

O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha".

Bem diferente de crápula, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou do cafajeste, alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.

Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais.

É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara sentado. Infantil, como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.

Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa.

Não ficarei triste se esquecer meu nome, chame-me de canalha.

11:33 AM :: Comentários:

ESTAREI

12/8 (sábado) - 7º Salão do Livro de Belo Horizonte (MG)
Palestra "Mário Quintana: o poeta de si mesmo diverso", às 19h30, na Serraria Souza Pinto

14/8 (segunda) - XXVIII Encontro Nacional de Estudantes de Letras, Universidade de Brasília, Brasília (DF)
Tema da mesa: Cultura contemporânea, a redefinição da periferia e do centro, com Afonso Romano de Sant´Anna e Sylvia Cyntrão (UnB), às 10h, no Anfiteatro 9-ICC Sul

20 e 21/08 (sábado e domingo) - 7ª Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (CE)
20/8 - 16h - Café Literário
21/08 - 19h30 - Arena do Escritor

10:11 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 07, 2006

SÓ ISSO

Fabrício Carpinejar



Quando adolescente, preparava fita-cassete para a namorada. Melhor do que falar, montava uma trilha para expressar o que sentia. As baladas me explicavam. As letras guardavam o que não decorava. Ainda mantenho a perícia de enrolar a fita, que sempre soltava na época, com a caneta bic.

Mas não era assim fácil: tinha que escolher as músicas do rádio. Levava noites em claro para encontrar as prediletas. Não podia bobear. Com muito café e cigarro, havia que estar desperto para iniciar e terminar a música no tempo certo. A distância entre os meus dedos é a mesma que existe entre os botões REC E PLAY - aceito medir.

A voz do locutor complicava o trabalho. Aparecia do nada para identificar a estação. Já no finalzinho, despontava como relâmpago impossível de conter. Replicava o comercial e arruinava meu romantismo. Obrigava-me a montagem, apagar a dicção do radialista sem prejudicar o andamento da música. Ou adivinhar, pelo excesso de ouvir, quando iria surgir e me antecipar ao grito de feirante.

Se eu pudesse preservar as vozes das mulheres que ouvi ao longo dos últimos anos, gravaria uma última fita-cassete, algo bem simples, que deixaria ao meu filho.

As canções diriam:

Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro.

Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem.

Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente.

Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por desforra, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar.

Amar com coragem, só isso.

11:13 PM :: Comentários:


Sábado, Agosto 05, 2006



ESPERANÇA NÃO É ILUSÃO
Do Consultório Poético
Pintura/Colagem de Joseph Cornell
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Lancei-me numa grande empreitada: buscar a felicidade plena dentro de mim. Desisto, desisto, parece que quanto mais me relaciono mais me 'ferro', mais me angustio e mais acredito que todos os homens fazem parte de um bando de cafajestes com os hormônios borbulhando, de uma conspiração em alto escalão para destruir o gênero feminino e suas ambições líricas. O meu último relacionamento contribui forçosamente para que eu chegasse a essa conclusão. Primeiro descobri de cara que o 'meu príncipe' já tinha uma(s) princesa(s). Tentei contornar a situação e defini-lo apenas como um 'rolinho' sem importância, que fosse então o quebra-galho. Mas definitivamente não dá. Eu sou do tipo de pessoa que se entrega por completo e que se sente saciada, não preciso sair por aí experimentando um e outro. Basta o carinho, o amor e a atenção de um!

O problema, Carpinejar, é que me sinto o patinho feio, sabe, não me acho nem um pouco suficiente para despertar a curiosidade dos espectadores, e quando encontro um cara que me enche de elogios e me satisfaz sexualmente já tá legal. Não sou tão exigente! Mas não consigo encontrar ninguém e estou num estado de dormência. A cada instante quero me apaixonar para o resto da minha vida, pelo porteiro, pelo motorista do ônibus, pelo operador de fotocopiadora, e assim por diante!

Mas voltando ao dito cujo, não me livro dele porque não quero ficar sem essa esmola de afeto, sabe, não consigo me desvincular porque, mesmo sabendo dos seus interesses, ele me proporciona o mínimo de atenção que desejo.

Não está legal assim, mas me sinto tão envolvida por meus sonhos, ultrapassados de tão românticos que são, que deposito nele a esperança de um dia ser amada monogamicamente. Eu me identifico por completo com a personagem Bridget Jones. Me diz algo por favor!

Grande e ternuroso abraço pra você, te admiro demasiadamente!"


Olá, Laura!

Os homens não são um bando de cafajestes. Podem ser cafajestes, mas individualmente. Não estão associados a nenhum clube ou sindicato. Necessitamos tomar cuidado para que uma frustração não sirva para generalizar e que uma fobia não se transforme em paranóia.

Acho que você foi apequenando sua expectativa: transformou o príncipe em rolinho e depois em quebra-galho. Reduziu sua própria vaidade. Hoje é capaz de aceitar qualquer coisa quando não é qualquer coisa que a satisfaz. Já tem bem resolvido qual é o sonho de companhia - e isso não se negocia: amar monogamicamente, continuar romântica, receber a dedicação de um olhar como se brincava na infância com lupa a queimar o mundo microscópio de ervas e formigas. Um homem, enfim, que tenha palavra para inventar o mundo contigo.

É natural que, ao diminuir o desejo pelos outros, esteja diminuindo o desejo por si. Tornou-se um patinho feio, porque se viu encurralada e sem condições de decidir. O que vier é lucro, dessa forma virou sua vida. Não é uma esmola que a fará bonita. Mostra mais carência do que escolha. "Carência" aceita todo figurante e o promove a protagonista. Quer apenas aplacar a necessidade física e erótica. Aumenta o bocado de atenção que recebe com a fantasia. "Escolha" envolve compromisso e doação. Somos muito mais do que queríamos no início e não menos do que recebemos.

Não insista nessa esperança com ele. Isso não é esperança, é ilusão. Vejo que tem chance de se apaixonar pelo resto de sua vida, desde que nunca seja um resto, como acontece hoje.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:26 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 03, 2006

AMOR NÃO É CARIDADE
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar




Não ame um homem por compaixão. Não ame um homem porque ele ficou ao teu lado enquanto quem desejava ia. Não ame um homem para não ficar isolada. Não ame assim, sem amor, por uma segunda chance. Por tédio. Para passar o tempo. Por respeito. Para esperar acompanhada.

Tenha coragem de deixá-lo sozinho, de encarar a verdade. Não maltrate sua esperança. Não o torture com a promessa de que pode dar certo. Não dá certo o que não pode dar errado.

Ame para conhecer, não conheça para amar. O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele. O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno.

Não ame um homem porque ele foi leal, o único que a ouviu, a aconselhou, a compreendeu. Isso é amizade que pode estar no amor, mas não é amor. Amor tem mais pele do que osso. Osso se guarda na terra. Já a pele cheira-se com insistência para contrariar o esquecimento.

Não ame um homem por recompensa, pois ele aguardou que os outros fossem embora. O final de festa é cansaço.

Não ame um homem por caridade (sua ou dele). O corpo não é uma esmola.

Não ame um homem para dizer que os outros não prestam. Por vingança. Para mostrar o que é um homem.

Não ame por educação. Um homem amado desse jeito se sentirá menos homem no futuro. É rebaixar o homem. Acovardá-lo com atenuantes. É conter a ambição dos braços, a curiosidade das pernas.

Não ame um homem por acomodação. Perca a vida, mas não a chance do homem que procura.

Amor não se convence. Não se enraíza com argumentos. Não começa pela cautela. Amor é a falta de prevenção. Não se faz discutindo, amor se faz precisando.

Não ame um homem porque ele é o ideal e não a fará sofrer. Prevenir a dor é combater o que pode consolá-la. Não ame um homem pelo simples fato dele estar disponível e atender seus chamados com facilidade. Não ame por conveniência. Para se exibir. Para não pensar mais nisso.

Ame um homem que não nasceu de uma consolação, que não partiu de indicação dos amigos, que não seja a cara do seu pai. O que é melhor para você nem sempre é amor.

Ame um homem que seja apertado, como o jeans que se fecha apenas quando se deita.

Que seja natural como uma distração, que não seja uma distração.

Que seja Um homem brigado por dentro. Um homem duvidado, dividido. Um homem impossível. Posto sempre à prova.

Não ame um amor que não seja inteiramente seu homem.

10:06 AM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 01, 2006

SOU QUANDO DEIXO DE SER
Arte de Joseph Cornell

Fabrício Carpinejar



Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros.

Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei.

Quando amo cedo minhas convicções, meus preconceitos, minhas verdades. Abdico para dar lugar a quem chega com sua escova de dente e seus xampus. Abro espaço no armário, vinco as roupas prediletas. Renuncio a lonjura da cama. Capaz de dormir na esquerda, mudar os hábitos e ler o jornal por segundo. Deixo o jogo passar sem consultar o rádio. Quero agradar mesmo que signifique me desagradar. Eu me bajulo de contradições e censuras. Pergunto o que ela deseja para - se sobrar tempo - me perguntar. Antecipo-me nela para me atrasar em mim.

Ainda que ela me condene, seguirei a absolvendo e reincidindo. Ainda que ela me abandone, seguirei tentando e insistindo. Ainda que me destrate, inventarei motivos para procurá-la. Privo-me da vergonha, da reputação, da moralidade, para esmolar meu corpo de volta. Ou o que julgava corpo antes de encontrá-la. O corpo é a generosidade de perdê-lo. O corpo é o espaço entre ela e eu.

Amar e viver não são simultâneos. Diria até que são excludentes. Ambos exigem muito para coexistirem. Posso ter vivido e não amado, posso ter amado e não vivido.

É impossível sarar de um amor. Escapo-me do que sou, mas não daquilo que preciso e que não encontro sozinho.

O amor mostra que qualquer coisa é modificável, qualquer passado, qualquer temperamento, menos o amor.

No amor, somos tudo, menos a gente.

10:56 AM :: Comentários:

POETA DO BRASIL
Julho de 2006, site do Itaú Cultural

por Micheliny Verunschk




Julho de 2006 marca o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana, gaúcho de Alegrete. Dono de uma voz singular em que mesclava um humor sutil a um questionamento sobre o sentido e os absurdos da vida, o poeta, que se considerava um eterno insatisfeito, estreou em livro em 1940, com A Rua dos Cataventos, no qual se encontra uma das passagens mais melancólicas da poesia brasileira: "da vez primeira em que me assassinaram / perdi um jeito de sorrir que eu tinha".

Tradutor de Voltaire, Virginia Woolf e Marcel Proust, entre outros, rigoroso quanto à forma (mas não preso a fôrmas, como fazia questão de destacar), Quintana publicou poemas para crianças, crônicas e contos e foi traduzido para o inglês, o chinês, o russo, o italiano e o espanhol. O poeta faleceu em 1994.

Confira entrevista sobre a presença de Quintana na literatura brasileira com o poeta e professor gaúcho Fabrício Carpinejar, autor de As Solas do Sol, Um Terno de Pássaros ao Sul e Caixa de Sapatos, entre outros.

No ano em que se comemora o centenário de Mario Quintana, qual a relação do Brasil com a obra do poeta na sua opinião?
Antes do lançamento da obra completa de Quintana pela Nova Aguilar, o Brasil tinha uma imagem episódica do poeta, mais conhecido por alguns versos emblemáticos e jocosos, frases de efeito e aforismos do que pela sua unidade rigorosa e meditativa em torno da morte (o que explica a abundância de anjos e de investigação do "outro lado"). Um sentimento de morte que não é de adesão mística, mas de espanto, inconformismo e comicidade. Mario Quintana infelizmente foi reduzido a um poeta regional. Bem se vê que não era verdade.

A poesia de Quintana é, ao mesmo tempo, condensada e cheia de uma energia que, sem ser agressiva - pelo contrário, irônica e delicada - é capaz de desconstruir o leitor. Seria essa uma lição poética de Quintana? Existem outras, a seu ver?
Perfeito, mas antes disso ele se desconstruiu. A imagem que temos dele é a de um velhinho simpático, inofensivo. No fundo, é malicioso, robustamente irônico e ferozmente nostálgico. Tem o domínio do verso como Manuel Bandeira (tradutor como ele) e usou a autocrítica como ponto de partida para combater o engessamento da opinião e do senso comum e não poupar veneno e inversões. É um falso coitadismo: parece que exige compaixão, mas é um modo de pedir aproximação e intimidade para depois falar as verdades mais duras. Ele se fingia de morto para atacar bem. Tanto que sua poesia não mostra uma residência fixa, vive a caminho, num estar sendo entre hotéis, velhos sobrados e pousadas. Captou - como ninguém - o sentido do viajante em sua própria cidade. Era, ao mesmo tempo, turista e residente, o que o ajudou a incorporar uma estranheza pouco comum do significado da família.

Quintana teve uma relação especial com a literatura infantil, como em Lili Inventa o Mundo. No artigo Meu Amor por Quintana, você afirma que o poeta via o leitor como criança. O que a contemporaneidade pode extrair de uma poesia e atitude poética dessas?
Sua literatura infantil ainda é adulta e sua poesia adulta ainda é infantil. Ele tem uma pureza de princípio, que não é ingenuidade, que só uma criança é capaz de mirabolar. Organizou suas virtudes com a disciplina dos vícios e soube procurar o deslumbramento no repertório mais simples (um copo d'água, legião de sapatos, gravatas, arroios, grilos etc.). Seu vocabulário não é nada rebuscado, resgata uma coloquialidade da necessidade de ser ouvido. É um autor da cidadezinha, do diminutivo, de propósito, como a nomear com ternura o que mais dói. Sopra as feridas antes de aplicar o medicamento.

Quintana influenciou sua poesia?
Sim, influenciou a soltar minha poesia. A soltar a poesia no tema, não na forma. A ser mais arriscado. Assumi a paternidade dos meus defeitos - o de ser espontâneo e pagar o preço da comunicação. Escrever é ser legível. Incompreensão, no meu ponto de vista, não é mistério. Mistério é compreensão intuitiva, que nenhuma cultura é capaz de substituir.

10:53 AM :: Comentários: