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Fabrício Carpinejar


 

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Sábado, Setembro 30, 2006

UM AMOR SEM VOLTA
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar




Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição.

Uma lição que guardo até amanhã.

Apaixonado pela colega Alice. Ambos com treze anos. Cursávamos o último ano do Ensino Fundamental.

Ela não gostava de mim, gostava como amigo. Mas meu amor por ela valia por dois. Amava por mim e por ela. Amar em dobro é dobrar também a própria solidão.

Durante dois anos, guardei o sentimento sufocado. Escrevia cartas e poemas. Redigia bilhetes curiosos e ternos durante a aula. Anotava corações em seus cadernos. Insinuava uma aproximação atrapalhada, apressada. Agüentei no osso seus namoros com caras mais velhos, as confidências e detalhes macabros de suas conquistas.

Uma noite chuvosa, correndo de mãos dadas para chegar em casa, tentei o beijo, emparedei sua cintura debaixo da marquise e ela escapou o rosto. Meu primeiro beijo foi um não-beijo. A chuva me impediu de chorar.

A partir desse encontro, nossa amizade não poderia seguir ingênua. Não poderia nem seguir. Ela me olhava desconfiada. Sempre que uma mulher olha desconfiada nos promove a homem. Não posso esconder o orgulho de ser observado como homem após permanente insistência. Mesmo que seja como homem recusado.

O que não esperava é que ela abrisse a guarda, orientada pelo irmão, que aconselhou:

- Dá uma chance para o menino.

Mandou um bilhete avisando que não viveria sem mim. Convidou-me para ir ao seu apartamento. Seus pais estavam no cinema.

Eu a beijei no sofá. Era mais alta do que eu. Errei um pouco a altura do tronco para encaixar. Um beijo tímido, sem convicção. Um beijo com a língua hesitante. Com os lábios mudos, murchos.

Logo nos despedimos. E fingíamos que nada acontecera. Prometemos ligar no dia seguinte, não mais nos falamos. Nem para acarrear o amor. Mudei meu lugar na classe e sentei ao fundo. Seus cabelos loiros me acenaram longamente.

Eu a amava, mas não fora suficiente. Ela deve ter pensado que ficar comigo era o melhor. Mas o melhor não é o verdadeiro. Não se persuade o corpo com argumentos. Ela desejava me amar por admiração ao amor que eu sentia duplicado. O amor que a tornava Alice do Fabrício. Ela tinha ciúme do próprio amor que nutria por ela e queria tomar de volta.

Meu primeiro beijo na boca me deu uma lição.

Uma lição que guardo até amanhã.

Que o amor não se convence.

12:16 PM :: Comentários:

CARPIM II



Mais uma tira do personagem Carpim, cria minha e do Fernando Chuí.

12:15 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 29, 2006

BORDADO COM AS INICIAIS
Arte de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Eu tomava ônibus em viagens mais longas com meu travesseiro.

Um longo travesseiro pendurado no braço, além da mala e do ar madrugado.

Era o equivalente a levar uma centelha de casa para um lugar impessoal. Era um resto do quarto. Um pedaço da cama. Enganava o desconforto da poltrona com a intimidade de um capricho pessoal. Facilitava meu descanso entre o corredor escuro e a janela de luzes bruxuleantes.

Ficava menos enjoado da mistura de diesel, de couro e cortinas antigas. O travesseiro é leal porque traz os cheiros dos cabelos depois do banho. Tanto faz a estação, o travesseiro é o último dia da primavera. A lavanda da roupa.

Ainda observo muitos passageiros, crianças, jovens e velhos, carregando o travesseiro na rodoviária. São figuras engraçadas, a arrastar o casaco da infância. Segurando o pano como um filho agasalhado, dormindo, a manter os cuidados do leite e do peito.

Quando embarcamos num amor, levamos o travesseiro. O travesseiro é o que temos de mais particular. Mas quem nos recebe pode identificar nele simplesmente um pano velho. Uma superstição. Um laço antigo. Uma teimosia. Não enxerga que uma vida nova não apaga a vida anterior.

Pode não ser o travesseiro, pode ser uma frase, um gesto, um ritual familiar, que vale muito e que carregamos conosco. Um objeto que nos identifique. Que diga de onde viemos e que mostre que temos uma história.

Há a idéia de que o amor é ambição. Sobrenatural, que não reside nos pequenos contentamentos. A maioria não acredita que o amor cabe num travesseiro.

Por mais que se dê linguagem e atenção, o outro achará pouco e falará de culpa e da confusão. Falará de condicionamentos e que não está preparado, como se houve preparação para amar.

Por mais que se cozinhe, faça surpresas, leve a amizade para passear de mãos dadas, o outro achará pouco.

Por mais que se apaixone e se enlouqueça, que mude os hábitos, o outro achará pouco. Por mais que se acredite, que arrepie as verdades ternas do sopro, o outro achará pouco. Por mais que se beije com gosto no cinema, abrace com força, o outro achará pouco. Por mais que se doe, que se doa, o outro achará pouco.

Por mais que se abra a memória, confidencie segredos, o outro achará pouco. Por mais que se transe na mesa, costure as roupas, ajude nas economias, inspire o trabalho, o outro achará pouco.

Por mais que se pouse, que se proteja, o outro achará pouco.

E damos tudo o que temos e o outro achará pouco. E damos tudo o que poderemos ser e o outro achará pouco. Sempre pouco.

Falimos e o outro achará pouco. Nascemos de novo e o outro achará pouco. Morremos de novo e o outro achará pouco. Exaustos, arrebentamos o travesseiro e não entendemos como as penas já souberam voar.

Pouco, pouco, pouco.

Quem achou pouco, não entende de amor. Quando se ama, acorda-se vestido para o milagre.

10:25 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 28, 2006

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DIÁLOGO SEM CORTES COM AMIGO NO MSN



Rodrigo Rocha diz:
Fabro!
Fabrício Carpinejar diz:
oi mano
Rodrigo Rocha diz:
Sinto falta do blog da Ana...
Fabrício Carpinejar diz:
bonita foto
Fabrício Carpinejar diz:
posso me apaixonar
Rodrigo Rocha diz:
hahahha
Fabrício Carpinejar diz:
se eu largar do cigarro, sou capaz de mudar de sexo
Rodrigo Rocha diz:
mas queria te dizer uma coisa... estou prendendo a respiração para ler teu blog...
Fabrício Carpinejar diz:
pq?
Rodrigo Rocha diz:
Por sentir tua agonia...
Rodrigo Rocha diz:
já passei por isso diversas vezes...
Rodrigo Rocha diz:
mas tenho de confessar... Este diário está sendo super discutido aqui pela internet...
Rodrigo Rocha diz:
bem legal... muita gente comentando, se surpreendendo.,,,
Fabrício Carpinejar diz:
será que vou conseguir?
Fabrício Carpinejar diz:
obrigado pela força, meu mano
Rodrigo Rocha diz:
deste aos não fumantes a chance de sentir a abstinência....
Rodrigo Rocha diz:
se precisares espancar alguém tens meu telefone...
Fabrício Carpinejar diz:
eles não sabem o terror que é
Rodrigo Rocha diz:
sou grande, e aguento tua raiva, se precisares...
Rodrigo Rocha diz:
hehehhehe
Fabrício Carpinejar diz:
tenho certeza
Fabrício Carpinejar diz:
quero ver não perder o casamento com a abstinência
Fabrício Carpinejar diz:
minha vida está em jogo
Fabrício Carpinejar diz:
todos sempre esperam de mim o humor e a alegria
Rodrigo Rocha diz:
Eu imagino...
Fabrício Carpinejar diz:
estou conhecendo o outro lado da moeda
Fabrício Carpinejar diz:
o desespero e a privação
Rodrigo Rocha diz:
Mas acho que todos entenderão...
Rodrigo Rocha diz:
que loucura... a cena na rodoviária... conseguiste levar o leitor até lá...
Rodrigo Rocha diz:
muito bom... deu para sentir o vazio do lugar...
Fabrício Carpinejar diz:
não esqueço minha filha dizendo com orgulho:
Fabrício Carpinejar diz:
meu pai parou de fumar por mim
Fabrício Carpinejar diz:
tenho vontade de chorar
Rodrigo Rocha diz:
bah, que demais....
Rodrigo Rocha diz:
precisava dar este motivo de orgulho para meu pai também..........
Fabrício Carpinejar diz:
terei que separar o ar leve do pesado
Rodrigo Rocha diz:
difícil........
Fabrício Carpinejar diz:
a boca pesada da leve
Fabrício Carpinejar diz:
a água pesada da leve
Fabrício Carpinejar diz:
sempre nadei em rio
Fabrício Carpinejar diz:
agora é a vez de engolir o mar
Fabrício Carpinejar diz:
quem não suporta o fracasso não nasceu
Rodrigo Rocha diz:
é verdade.......... Mas pense o seguinte... No próximo ano, quando fores eleito patrono da feira, estarás comemorando um ano sem cigarro... daí poderás rir um pouco desde momento;;;;
Fabrício Carpinejar diz:
se eu for patrono, aí é que terei que fumar
Rodrigo Rocha diz:
hahahahaha
Fabrício Carpinejar diz:
sou egoísta: ainda não aprendi a me agarrar a alguém com a mesma dependência do cigarro
Fabrício Carpinejar diz:
sou mais fiel aos meus vícios
Rodrigo Rocha diz:
Acho que estás aprendendo... Isso mostra que já não és tão egoísta....
Fabrício Carpinejar diz:
O fiumante é uma múmia
Fabrício Carpinejar diz:
Ele se embalsama vivo na fumaça
Fabrício Carpinejar diz:
Pensa que não vai morrer, porque fumar é subir acima do seu corpo
Fabrício Carpinejar diz:
O fumante pensa que voa dentro de sua própria cova
Fabrício Carpinejar diz:
A cova é seu corpo
Fabrício Carpinejar diz:
Ele é tão apressado que se enterra ali mesmo
Fabrício Carpinejar diz:
O que achas?
Rodrigo Rocha diz:
Concordo...
Rodrigo Rocha diz:
ainda mais pelo fato de todo fumante saber dos males que o cigarro causa...
Rodrigo Rocha diz:
aquela pequena lista que publicaste...
Fabrício Carpinejar diz:
prevenbir um amor não é evitá-lo
Fabrício Carpinejar diz:
prevenir é só aumentar a coragem
Rodrigo Rocha diz:
já está no próprio maço.... O fumante não arrisca outras drogas pq nenhuma oferece mais de 1400 substancias tóxicas numa só tragada....
Rodrigo Rocha diz:
o fumante quer o pior de uma vez só...
Fabrício Carpinejar diz:
o cigarro é duplamente minha solidão:
Fabrício Carpinejar diz:
para não me sentir só
Fabrício Carpinejar diz:
e para me sentir só
Fabrício Carpinejar diz:
para não me sentir só, quando estou num lugar estranho e fico sem jeito
Fabrício Carpinejar diz:
para me sentir só, quando preciso um pouco de paz e me recolho do tumulto
Rodrigo Rocha diz:
Precisas de uma nova bengala... mas tu vais ter que descobrir qual o melhor modelo...
Fabrício Carpinejar diz:
risos
Fabrício Carpinejar diz:
Minha jovem velhice...

10:19 PM :: Comentários:

CARPIM



Apresento aqui ao mundo a minha parceria quadrinística com o amado amigo Fernando Chuí. Elaboro os textos e ele faz os desenhos. Carpim é meu alter ego. Uma resposta do meu corpo masculino para minha alma feminina.

10:09 PM :: Comentários:

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 11º DIA
Arte de Tom Wesselmann



* Fumei um cigarro, depois de três dias. O cansaço, a exaustão psicológica, fazer mais do que posso contribuíram para expelir a fumaça.

* Curioso é ler meu horóscopo:

Já que você passou dois dias se percebendo mais a fundo, saberá sem esforço o que precisa fazer para aumentar seus ganhos, para extrair mais prazer da vida, alem de aumentar sua confiança pessoal. Concentre seu tremendo poder de regeneração nesses focos importantes. (Fonte, FSPaulo)

* Acordei cedo, às 4h, viajei para Venâncio Aires, na região central do RS, cidade de 60 mil habitantes. Fui dar uma palestra para o Sesc. Desci numa rodoviária deserta. Como a gerente demorou um pouco para me buscar, a solidão mexeu nos bolsos do casaco. Terminei com a abstinência e a brasa dividiu a boca. Virei a rua, minha vida, um ônibus com os faróis baixos.

* Não quero me explicar. O cigarro me abrevia.

* Fumo desde pequeno para me enturmar, ser homem, crescer. Tragava nas mesas de bar para encontrar afinidades com a turma mais velha. Tinha que mentir a idade de algum modo.

* O cigarro foi minha primeira barba. Para meu rosto não aparecer tanto.

* Num único filtro, torno-me - por tabela - viciado em outros elementos:

Acetona: usada para remover esmalte
Tirebina: substância que dilui tinta a óleo
Formol: conservante de cadáver
Amônia: desinfetante para pisos, azulejos e privadas
Naftalina: eficiente para matar baratas
Nicotina: responsável por causar a dependência
Alcatrão: material composto por substâncias capazes de causar câncer
Monóxido de carbono: o mesmo que sai do cano de descarga dos automóveis
Agrotóxicos: usados no cultivo da folha de tabaco, como DDT
Metais pesados: os mesmos encontrados em baterias de carro


* Sofro se não fumo. Sofro se fumo. Não há mais ignorância, nem alegria.

* Iniciei a campanha em nome de minha filha, prossegui minha luta em nome de vocês, que me deixam comentários e mandam mensagens de apoio. Mas só terminarei o vício por mim. Será que me falta amor-próprio?

* A amiga Adriana me mostrou que o percurso não será fácil: preciso parar de fumar todo dia.

8:35 PM :: Comentários:

OFICINA ABRE VAGAS NO TRIMESTRE
Pintura de Peter Blake

Exercitar a observação da realidade, disciplinar o senso crítico e esclarecer a experiência literária. São as propostas da oficina de criação poética de Fabrício Carpinejar, que está com inscrições abertas para o próximo trimestre até segunda (2/10). O curso oferece mais dez vagas e acontece no Espaço Tessituras (Av.Pirapó, 33 - Petrópolis), em Porto Alegre, às segundas, das 9h às 11h. Matrículas pelos telefones (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 E-mail: bernardete@tessituras.com.br

4:38 AM :: Comentários:

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - EDIÇÃO ESPECIAL
Pintura de Tom Wesselmann

* A risada mudou. Agora é histérica, de um gravador indo para frente.

* Minha mulher não me suporta. Ela confessou que enlouqueci. Mandará uma carta para Souza Cruz solicitando o marido de volta.

* Agora entendo o motivo da ausência de namoradas antes do cigarro.

* Para interromper o vício, teria que me curar da timidez.

* Estive por duas horas com o cigarro na boca, trocando de dedo, babando, rosnando, e não acendi. Não entendi o que me segurou.

* Vamos ao terceiro dia de abstinência!

12:00 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 27, 2006

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - DÉCIMO DIA
Pintura de Tom Wesselmann



* Vivo em outra dimensão. Não vejo recompensa.

* Tornei-me um assassino. Por contenção de despesas, também sou a vítima.

* O que me irrita: todos conversam comigo como se eu estivesse normal, centrado, sereno. É difícil ser educado sem a fumaça. Quero agredir todo mundo porque não estou fumando. Entenda: ninguém tem culpa, mas o que fazer?

* Aumento a voz de uma hora para outra, mordo os pulsos, me desvencilho com facilidade, abandono filmes no meio, desisto de escrever e de ler. Qual a graça de parar de fumar para ser outro? Desejava parar e continuar sendo o mesmo.

* É impossível deixar o fumo sem alterar a minha rotina (alimentação, serviço, exigências). Isso pode ser viável nas férias.

* Um pouco mais serei macrobiótico.

* Reclamei na banca que o Halls alterou o gosto. Eu é que estou light.

* Minha rapidez de raciocínio está aniquilada. Como dar palestra, responder e-mails, atender telefone? Virei uma sopa fria.

* Liguei para minha mãe e ela aconselhou:
- Dois cigarrinhos por dia não farão mal!
Era só o que faltava ouvir.

* Qual é o cigarro inadiável?
A) Depois do almoço ou janta
B) Depois do sexo
C) Na balada, olhando o terreno
D)Tomando cerveja ou chopp com amigos
E) Ao retirar o extrato do banco

Minha conclusão - infelizmente - é todas as alternativas acima.

* Escrevi ontem que hoje seria melhor. Péssima profecia: hoje foi muito muito pior. Alguém pode alcançar um lenço de papel?

* Minha mulher Ana, esperta, continua fumando. E apagou todo o seu blog - Falsa Magra - para ninguém reclamar. Ao ler de manhãzinha, não havia nada no site dela de quinze mil visitas. A falsa magra evaporou, lipoaspirou! Não acredito que ela renunciou um ano de histórias. Reclamações para ananejar@uol.com.br

* Não sei se atravessarei a noite sem fumar. São dois dias.

7:58 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 26, 2006

DIÁRIO DO EX-FUMANTE - NONO DIA
Pintura de Tom Wesselmann



* Suportei um dia sem fumar. Amigos bocejaram nicotina em minha frente. Tive compromissos pesados, problemas, cancelamentos, urgências.

* De noite, enfrentei crise de ansiedade. Deitei na cama e chorei longamente. Estou ainda chorando. Não cesso de chorar. Alterno soluço, riso e choro.

* Nunca pensei que meu estado fosse tão grave.

* Meus braços estão sem elástico.

* Consegui ficar sem fumar hoje. Consegui. Amanhã estarei ainda mais forte.

9:29 PM :: Comentários:

INSÔNIA
Pintura de Egon Schiele

" - A noite de hoje está me parecendo um sonho.
- Mas não é. É que a realidade é inacreditável."
Clarice Lispector, "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres"


Fabrício Carpinejar



Quem já não ficou sem dormir por um amor?

Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos.

Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego.

A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair.

A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.

Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha.

O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra.

Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua.

Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.

Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber. Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.

Os vícios são perdoados pelo viço.

O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos.

Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria.

O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará.

Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.

Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço.

O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso.

Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois.

Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo.

12:10 AM :: Comentários:

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: OITAVO DIA
Pintura de Tom Wesselmann

* Estou me enganando, concordo com os comentários do blog. Não parei de fumar, a diminuição é um recurso covarde para adiar o fim.

* Fumar seis ou cinco ou doze cigarros é insistir com a dependência.

* Amanhã não mais. Seja o que Deus quiser. Vou antecipar meu aniversário.

12:08 AM :: Comentários:

VENTO BOM NA FRESTA



O músico e compositor Fernando Chuí, do CD "Nunca Vi Mandacaru", está com blog. Confira as histórias, tiras, lembranças e peladas da Fresta.

12:04 AM :: Comentários:

CORREDOR LITERÁRIO EM SAMPA

3/10 (terça-feira): Literatura no século 21

Nelson de Oliveira
Marcelino Freire
Fabrício Carpinejar
Juliano Garcia Pessanha
Manuel da Costa Pinto

Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h

5/10 (quinta-feira): Escritores e Novas Mídias

Glauco Mattoso
André Vallias
Micheliny Verunschk
Fábio Oliveira Nunes
Marcelo Tápia

Livraria Fnac (Av. Paulista, 901), 19h

Mediação: Edson Cruz (Cronópios)
Apoio logístico: Fnac Paulista (Michele Lanzotti)


12:03 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 24, 2006

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE: PRIMEIRA SEMANA
Arte de Tom Wesselmann



* Tive minha primeira experiência buscando parar de fumar em viagem. Obtive estrondosos fracassos.

* Era para ter fumado seis cigarros no sábado, fumei doze. No domingo, deveria insistir na meia dúzia. Foram oito. Uma carteira de cigarro em dois dias. A lareira continua acesa.

* O cigarro é meu modo de roer as unhas. Dependo dele para não me sentir deslocado. As espirais da fumaça formam a franja que não mais terei.

* Sofro ao não fumar em bar ou balada. Ainda mais com alguém suspirando fumaça em minha frente. Bolachas de chopp são cinzeiros sem fundo.

* Aliás, recomendo ao fumante lamber cinzeiros. Vai entender o que está virando sua língua.

* Quero beijar de novo meu beijo.

* É impossível parar de fumar na companhia do amigo escritor Flávio Moreira da Costa, ele dobra o cigarro com a pressa.

* O fumante culpa os outros por não fumar. Culpa a si mesmo por permanecer fumando.

* Tem vergonha de respirar sozinho.

* É um megalomaníaco disfarçado, engole suas palavras antes de virar pensamento.

* Fumar é tão bom quanto um desaforo. Só que o desaforo que cada um pode dizer para si mesmo.

* O que faço com meus bolsos vazios? Minhas chaves ficarão viúvas.

* Meu erro é a ânsia em substituir o cigarro. O cigarro me substituiu. Já é questão de vingança.

* O cigarro não paga meu plano de saúde, mas o justifica.

* O fumante não será convencido. É caso de conversão.

* Lembrei: comecei o vício por uma dor-de-cotovelo: quando a minha melhor amiga ficou numa festa com meu melhor amigo, que sabia que eu gostava dela. Comi um maço de Hollywood com o escritório fechado. Escutava Pink Floyd. Poderia dar certo?

* Não desistirei: largo o cigarro até 23 de outubro, meu aniversário.

11:26 PM :: Comentários:



VOU FICAR ENCALHADA?
Do Consultório Poético
Pintura de Egon Schiele
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Oi, Fabrício

Eu tenho 18 anos e nunca tive um namorado - e também sou virgem (isso me incomoda, tenho vergonha). As pessoas vivem pegando no meu pé por causa disso.

Quando eu digo que não tenho namorado, elas não acreditam. Bem, eu tenho uma grande expectativa em relação a isso, mas sempre que algum homem se interessa por mim, eu não sei, eu tento fugir dele. Minhas amigas não entendem, eu reclamo tanto de não ter namorado e quando alguém se interessa por mim tento fugir. Isso é muito confuso para mim, eu também não entendo. Eu sou um pouco tímida e sinto que isso atrapalha minha vida social, minhas amigas dizem que eu tenho que mudar, mas eu não consigo. Minha mãe diz que se eu continuar fugindo - e escolhendo demais - vou acabar sozinha.

E eu tenho receio de começar um relacionamento só por medo de ficar solteira. Como sou filha única, minha mãe me prende muito. Então, quando tenho uma oportunidade, preciso aproveitar? Eu não sei, e me desculpe se fui confusa. Bem, é isso, espero que possa me aconselhar.

Luanda"


Oi, Luanda

Não vai ficar sozinha, lhe garanto. Mas não adianta se prevenir das decepções, elas são necessárias e amadurecem a própria alegria e discernimento. Levará foras como todo mundo, e encontrará paixões maiores do que as possibilidades da memória.

Deve se entregar para quem gosta, já que a expectativa não é de sexo, e sim de romance. Ainda está na fase de mirabolar como será. Ninguém deve se meter nisso. Nem eu. É uma idealização saborosa, em que nos concentramos em cada porção do corpo como se fosse parte sensível dos lábios. Não entre na onda de se libertar da virgindade a qualquer custo. Tente trabalhar sua timidez para que não vire aversão. Fugir não adianta, diga não se não gostou da conversa. Fique à vontade para negar. Assim se verá depois confortável durante o "sim".

Fugir é fobia. Assuma seu gosto. Brinque mais contigo. Seja menos severa. Durante a aproximação, escute o que os interessados têm a dizer. Não leve a sério a obrigação de aproveitar a vida antes que passe. Um barco encalhado, dependendo da praia, é charmoso.

Está indecisa entre ser sua mãe ou ser o contrário dela. Acho que não depende de nenhuma das duas alternativas. Expressar o que sente é sua maior liberdade e desobediência - não subestime a transparência. Fale, fale, para que os condicionamentos não mais a silenciem.

Pode mandar cartas para carpinejar@terra.com.br

8:02 PM :: Comentários:

DESAFIO
Arte de Peter Blake



A Unisinos abriu o hotsite Desafio Literário. Para interessados mostrarem seu trabalho. A primeira provocação é escrever um miniconto de até 200 caracteres. Haverá depois outras charadas como palavras cruzadas da literatura contemporânea e dezenas de fotos de autores numa reprodução literária do Sgt. Pepers (quem acertar todos os escritores colocará sua imagem no cenário). Faça seu perfil e divulgue seu talento.

Abaixo meu texto de apresentação.

MINI MIM, O VILÃO EM MINIATURA ATACA DE NOVO

O hotsite é um escritório ambulante, imaginário, amalucado, feito para todo escritor que estava esperando a chance para mostrar seus inéditos e palpitar na produção contemporânea. Um modo de estar na vitrine e divulgar o talento. O espaço propõe desafios literários, jogos intelectuais e charadas visuais.

Entre um e outro exercício, o que vale é a amizade que se cria e a possibilidade de encontrar uma galera com as mesmas afinidades, gostos, taras e obsessões.

O primeiro desafio é escrever um miniconto, com tema livre, de no máximo 200 caracteres. Nem adianta escrever mais do que isso, que o alarme de incêndio
irá soar.

O exercício é inspirado em iniciativas como "Os cem menores contos brasileiros do século" (Ateliê Editorial), antologia organizada por Marcelino Freire. Os melhores textos receberão brindes.

Para quem pensa que é impossível ser tão conciso, basta pensar no mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso, com apenas 37 letras:

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".

Literatura para nocaute: jab, hook, gancho, cruzado, direto. Sucessão de golpes para o leitor ver estrelas mais cedo.

Brevidade é intensidade. Dizer pouco, mas dizer bem. As narrativas microscópicas pretendem reproduzir a persuasão de torpedos. Exigem poder de síntese e de imaginação, a partir de um pequeno conflito ou uma contradição. Cabe, portanto, sugerir mais do que expor, captar um detalhe e uma semelhança até então irrelevantes.

Uma outra referência de nosso projeto é o grupo francês Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), algo como "oficina Literária Potencial", que aproximou a literatura da matemática com provocações quase impossíveis. Grandes escritores fizeram parte dessa trupe da metade do século passado: Italo Calvino, Raymond Queneau, Jacques Roubad, Georges Perec.

O Oulipo estabelecia restrições formais na execução de um livro. Estimulava as dificuldades como forma de excitar a fantasia e a criatividade. Por exemplo, "Exercícios de Estilo", de Queneau, narra uma banal subida de um passageiro no ônibus de 99 formas diferentes, e "La Disparition", de Perec, não contém nenhuma palavra com a vogal "e", a mais assídua da língua francesa.

Venha, portanto, brincar com a linguagem. Entenderá que a literatura é uma brincadeira séria.

Ah, o título não tem nada a ver com o texto. Para variar, bem coisa de Austin Powers. Ou você acredita em Dr. Evil?


7:52 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 21, 2006

QUALQUER COISA
(PEQUENA HISTÓRIA DE AMOR)

Para Fernando Chuí, protagonista da fábula
Arte de Tom Wesselmann

Fabrício Carpinejar



Ele vai dormir no sofá.

Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos.

Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite.

Ele vai dormir no sofá por escolha.

Por decisão.

Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa.

Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão.

Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.

Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua.
Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado.

Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho.

Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela.

Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la.

Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença.

Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil.

Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça.

Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência.

Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.

Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas.

Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento.
Ele só não esperava não se conhecer depois dela.

Casou com ela com toda a clareza.
E casou consigo no escuro.

Tudo o que conheceu dela desconheceu de si.
Liberou memória na personalidade.

Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia.

Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã.

Não se repetem.

O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.

Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites.

Não é gozação. Ela não age por mal.

Foi ele que a ajudou a superar os limites.

10:54 AM :: Comentários:

DIÁRIO DE UM EX-FUMANTE - 5º e 6º DIA
Arte de Philip Guston



Parei de fumar antes de mim. Fui proibido de fumar nos bares. Fui proibido de fumar nos restaurantes. Fui proibido de fumar nos shoppings. Fui proibido de fumar nos aeroportos. Fui proibido de fumar no trabalho. Fui proibido de fumar em casa. Tinha a rua ainda, mas sempre um ônibus vinha primeiro. Parar de fumar no corpo era só uma questão de tempo. Ou de falta de espaço.

10:53 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 20, 2006

O AMIGO QUE ME ESPERA NO FINAL DA AULA
Arte de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



O amigo é aquele que tem todos os motivos para desistir de você e não desiste.

Você fez por merecer a separação. Exagerou. Afastou o abraço, gritou que ele não o compreende.

Mas o amigo entende até na incompreensão. Aguarda entender.

Eu preciso de um amigo que não me renuncie quando já desisti. Que me lembre de não desistir.

Que seja insistente como o esquecimento dos velhos.

Que desperte o meu humor no desespero, que se desespere com a ausência de notícias.

Um amigo que não numere as páginas do livro. Toda página pode ser a mesma.

Um amigo que sopre meu rosto perto de sua boca, como uma gaita de mão.

Um amigo capaz de esconder seu amor para proteger a amizade e de me aconselhar a seguir o que ele tinha vontade. Um amigo que desconheça minha infância para repeti-la, que conheça minhas dores para não tocá-las, que assobie minha alegria para alardeá-la. Que não me torture com os meus defeitos. Que me perdoe por não ser como ele. Aliás, que me agradeça por não ser igual a ele.

Um amigo que não use meus segredos para ganhar outros amigos.

Um amigo que abra o vidro do carro para apanhar o resto do céu. Que cante alto no volante no momento em que ansiava pelo silêncio e me obrigue a dispensar a timidez para desafinar junto. Na estrada, o vento também canta de olhos fechados.

Um amigo com cheiro de cortina. Isso: cheiro de cortina, com a experiência de enrolar várias e várias vezes o corpo na cortina. E que tenha recebido beijos dos pais com o tecido arregalado no rosto.

Quem se escondeu na cortina deu giros dentro de si e de seus problemas e aprendeu a regressar.

O amigo do primeiro desejo, não do último.

O amigo que não me espera no recreio, o amigo que me espera no final da aula.

O amigo que é a haste do mar, que não fica de pé no barco, para não desequilibrá-lo.

Não quero um amigo que fuja na primeira ofensa, que se isole ofendido num canto, amarrado no orgulho, condicionado às palavras. Um amigo que não fale por mim, que fale através de mim.

Não quero um amigo que me ofenda porque não atendi suas expectativas.

Amigo não tem expectativa, tem esperança.

O amigo vai procurá-lo não sendo necessário. Vai aumentá-lo enquanto está diminuído e vai diminuí-lo para preveni-lo da ambição. O amigo é do contra ao seu lado.

O amigo dirá as verdades por respeito, não se eximirá de opinar, tudo com zelo e contenção. Não abandonará a corda da pandorga ainda que ela sirva de fio telefônico para chuva.

Tive amigos que se fecharam, desapareceram, que me trocaram por uma fofoca, que chegaram à porta e recuaram ao portão.

Esses amigos não foram amigos, se é amigo só depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade.

O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão. O amigo sempre volta.

Pensando bem, não volta, nunca saiu do lugar. Ele é a rua que atravesso para chegar em casa.

10:48 AM :: Comentários:

DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 4º DIA
Pintura de Jean Cocteau



* Meu filho Vicente sempre diz que vai ganhar de mim no futebol. Agora ele mudou o discurso para me animar: entra em campo querendo empatar.

- Assim os dois ganham, né?

Segui o exemplo com o cigarro. Montei um time retranqueiro, não cogito a vitória, mas não deixarei o jogo sem um empate.

* No trabalho, é mais cômodo suportar a ausência de cigarros. Basta não sair dos ambientes fechados. Logo, logo terei agorafobia.

* O cigarro é minha asma mal-curada.

10:47 AM :: Comentários:

FEIRA DE RIBEIRÃO PRETO

Participo da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (SP), para falar de um dos homenageados da sexta edição: Mario Quintana. No sábado (23/9), às 17h, estarei no Salão de Idéias. Discutirei o centenário do poeta, ao lado de Márcio Vassalo e Anníbal Gama

No município paulista de 500 mil habitantes, que concentra um grande número de distribuidores das principais editoras brasileiras e megastores, a Feira do Livro segue até 24/9, numa área de 16 mil metros quadrados nas praças XV de Novembro e Carlos Gomes e na Esplanada do Theatro Pedro II. Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, reunirá 300 autores em mais de mil atividades.

Aproveito o evento para autografar meu mais recente livro, "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006).

10:45 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 18, 2006

DIÁRIO DO EX-FUMANTE - 3º DIA




* Hoje fui melhor talvez porque ainda tenha a esperança de fumar. Quando botei que iria largar de vez o vício, foi um deus-me-acuda. Engano meu desejo. Despisto. Acostumo com menos.

* Estou fumando seis cigarros por dia e reduzindo um por semana. Um jeito mais severo e ponderado. Não posso me livrar da doença, mas posso me livrar progressivamente do excesso dela, até ganhar força para erradicá-la.

* Para quem consumia mais de uma carteira, estou menos fumante. Mas ainda não sou um ex-fumante.

* Alguns efeitos colaterais da diminuição: fico tonto toda vez que fumo.

* Até verdura passou a cheirar bem. Não sabia que alface tinha perfume...

* A grande diferença é que não fumo por fumar. Antes fumava sem pensar. Nem tinha motivo. Acendia cada vez que ia para rua. Atualmente, em cada cigarro, penso o que faço, tenho consciência e negocio o prazer.

* Sou agora um fumante alfabetizado.

* Nunca pensei que participaria de uma reunião de condomínio com 4 700 substâncias tóxicas. Sou um voto vencido.

9:12 PM :: Comentários:

FAXINA
Para o escritor David Sedaris, que já trabalhou em limpeza de casas
Pintura de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



Quando uma faxineira vem limpar a casa, eu me torno hóspede. Dei-me conta disso. Ela age com uma velocidade impressionante, mexendo os panos, a vassoura e o aspirador. Localiza os detergentes ao virar os ouvidos. Movimenta o balde com a elasticidade de um terceiro braço. Entra obcecada a terminar logo. Não há segredo para ela, esconderijos para mim. Caminha em sua solidão com a naturalidade de roupas íntimas. Espana os móveis, encera os bidês, como se estivesse lendo um livro e ninguém, ninguém estivesse a olhando. Assim que minha faxineira entra, assume meu endereço.

Fico com a impressão de que estou incomodando. Um intruso. Estorvo. Ela se aproxima de onde estou como uma ameaça. O apartamento nunca é suficientemente espaçoso para conter seu avanço. Pergunto sempre se ela precisa de alguma coisa. Questiono como estão os filhos e o marido. Não suporto o silêncio. Faço café para ela. Tento agradar. Não encerro meus textos. Embaralho-me ao telefone. Peço emprestado o computador. Ela treina o desembaraço e eu, uma retração perpétua. Será que tenho culpa pela baderna do apartamento e me diminuo em criança temendo o castigo? Pode ser. Quando pequeno, era fácil esconder quando derramava suco no sofá. Virava as almofadas.

A faxineira é um Messias toda a semana. Ao telefonar que não poderá ir, estranhamente respiro a mais repentina satisfação, pouco me importando de que modo acalmarei a bagunça. É um alívio não mudar minha rotina. Não me estrangeirar com sua vigilância.

A entrada da faxineira no apartamento lembra a separação de um casal. Eles ainda estão morando juntos, mas não se comunicam. Respeitam seus territórios. Só que ambos estão loucos de diferenças, loucos por dizer, loucos para se arrepender, loucos para se abençoar com desaforos. Mas por achar que não é o momento certo, por achar que a sujeira ainda é muito grande, que a sobrevivência é a prioridade, emudecem com gentilezas e educação. Após tanta intimidade, após tantos anos de cumplicidade, protegem-se na formalidade. São visitas habituadas a permanecer conformadas. O quarto dedicado ao sexo vira um hotel macrobiótico.

Um dos dois - com o tempo - decide ser a faxineira. Enquanto um finge que nada mudou, o outro tira as cadeiras e a mesa do lugar, desmorona a pilha de roupas, procura os restos, as nódoas e as manchas das mentiras e terá que mostrar que há conserto ou não há o que fazer. É sempre o mais corajoso e desconfiado. O que enfrenta a rinite alérgica e abre as janelas. O que esvazia a geladeira para encontrar o que está estragado. Vai esfolar os joelhos, derramar-se no solo para esfregar o piso, mostrará que a gordura não sai e pedirá explicações do que aconteceu.

Não se suporta uma faxineira porque ela conhece nossos defeitos. Não se suporta testemunhas de nossa precariedade. Tem gente que não casa para não ser descoberta. Tem gente que não se separa para não ser desmascarada. Tem gente com pavor de intimidade, a que existiu ou a que existirá com a limpeza.

No fim do dia, após a faxina, entende-se que a falta de amor denuncia mais do que o amor.

7:07 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 17, 2006

Folha de Londrina, Folha 2, Domingo (17/09/06)

ENTREVISTA

UM CRIADOR CONTEMPORÂNEO
Antenado com seu próprio tempo, o escritor Fabrício Carpinejar explora as linhas do cotidiano conquistando cada vez mais leitores

Por Katia Michelle
Foto de José Suassuna


Fabrício Carpinejar: "Se eu era um menino feio, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu achava que escrever era covardia, eu fui descobrir depois que escrever era coragem"

Curitiba - Para quem acredita na existência de uma metamorfose no comportamento masculino, existe um exemplo. Alguém a quem apontar o dedo e dizer: esse aí faz parte da revolução. Mas felizmente não é preciso guilhotina, nem tampouco interrogatório para saber mais sobre o tema. O poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar, 33 anos, não oscila ao falar sobre o assunto nem admitir (ou mostrar) que faz parte dessa mudança. Um exemplar autêntico dos homens que não só querem saber mais sobre os mistérios femininos, como também não têm medo de se admitir sensíveis.

Dono de uma personalidade intrigante e sedutora, Carpinejar utiliza as palavras para soprar ao leitor, masculino ou feminino, a pujança da vida. Depois de saborear um brownie com sorvete de nozes, numa charmosa confeitaria de Curitiba - onde participou do projeto Sempre um Papo, da Caixa Econômica Federal - ele concedeu entrevista à Folha. Acompanhe.

Como a literatura nasceu em você?
Eu não diria que ela nasceu. Eu diria que eu a despertei à medida em que aprofundei meus próprios defeitos. Todas as dificuldades que eu tive na infância e na adolescência eu nunca notei como uma abolição do caráter. Eu notava como se fosse o princípio do caráter porque eu tinha que exigir mais de mim. O fato de ser feio, por exemplo, te torna mais esforçado. Tu vai explorar muito mais a tua capacidade de persuasão. Tu não vai ser preguiçoso. Tem que se esforçar o dobro, o triplo. Mas isso é uma recompensa, porque tu vai aprender a compreender o outro. Tu vai aprender a se antecipar ao outro. Tu vai aprender a sair de si mesmo.

E essas questões te ajudam a escolher os temas que você aborda nos seus poemas e crônicas, já que o cotidiano, as relações amorosas, a família, são questões recorrentes nos seus textos?
Eu acho que isso é do autismo infantil. O fato de estar sempre desatento para o conjunto, mas desperto e atento para o detalhe. E a maioria das pessoas não repara nos detalhes porque não os julgam importantes. Acho que as pessoas são muito ambiciosas no amor. A gente devia ser menos. A gente sempre procura uma salvação. Sempre procura alguma coisa que tem utilidade. Eu fui criado ao lado de um terreno baldio, ao lado de uma reserva de inutilidades, uma reserva de sonho, uma reserva de imaginação. Chegou o momento que eu não queria que minha mãe transformasse aquele terreno ou o comprasse para convertê-lo em um campo de futebol. Porque ali eu podia imaginar, além de um campo de futebol, outras coisas. Eu podia brincar com toda a insuficiência do terreno. A gente tem que brincar na vida com o que a gente também não foi.

Reunindo essas características e esses conceitos, você conseguiu uma coisa que é difícil hoje na literatura, que é a projeção. Você acha que é raro conquistar isso no Brasil?
Eu sou passional. Eu não vivo porque eu posso. Eu vivo porque eu quero. Eu vivo porque eu não sei fazer outra coisa. Aliás, todas as minhas incompetências herdaram essa competência literária. O escritor não é aquele que foi escolhido, é aquele que se escolheu. Eu me escolhi. Eu não tinha ninguém pra fazer no meu lugar aquilo que eu tinha que fazer. Eu não tive a opção da covardia. Se eu não cuidasse de mim, quem cuidaria?

Essa tua experiência de vida é o que te credencia para ter colunas, como a que você publica na Super Interessante, por exemplo, em que você dá conselhos amorosos?
Imagina, se eu era um menino feio, deslocado, é óbvio que eu exercitei as cartas de amor. Mas eu pensava que escrever fosse covardia. Como eu não tinha capacidade para me expor publicamente, eu escrevia. Eu fui descobrir depois que escrever é coragem. Que é muito mais difícil escrever e se comprometer e assumir o risco, a letra, do que falar. Escrever é olho no olho, não tem como se desviar, não há letra que se desvie. E eu também fui sempre o melhor conselheiro. Sempre trafeguei sobre universos paralelos, masculino e feminino.

Fale um pouco sobre sua relação com a internet, depois do seu blog, que acumula 300 mil visitas, teve alguma transformação na sua maneira de escrever?
Houve tranformações, sim, porque depois do blog eu comecei a ler o leitor e me abrir. Eu contesto os escritores que pensam que se aproximar do público é se diminuir na literatura. Bom escritor é aquele que está no mesmo patamar do leitor, a ponto de ambos se confundirem. Eu não suporto a idéia de que o escritor tem que estar um degrau acima.

Você está lançando um livro infantil. Para quando é e como são os seus projetos agora?
Eu estou escrevendo um livro de poesia intitulado ''Meu filho, minha filha', que fala sobre minha experiência paterna em dois estágios. Uma com um filho morando comigo e outra com filho morando longe. Eu quero pegar esses dois ângulos da paternidade: o pai de final de semana e o pai da sequência. Estou bem feliz com o resultado, mas só vou lançá-lo em 2008. A Bertrand Brasil também está republicando toda a minha obra. Este ano deve sair ''Um Terno de Pássaros ao Sul'', o ano que vem ''Terceira Sede'' e em 2008, ''Biografia de uma Árvore''. O infantil é o ''Filhote de Cruz Credo'', onde eu brinco com a história dos meus apelidos e que vai sair pela Editora Girafa. A ilustração é do Rodrigo Rosa. E no ano que vem sai meu outro livro de crônicas, ''O homem quando chora'', que mostra essa metamorfose masculina de comportamento.

Trecho da crônica "Sou quando deixo de ser", de Carpinejar

"Quando amo, nunca me vejo tão próprio. Sou possível. Sou véspera. Viera para ler minha vida. A praia amarelada é meu rosto pensando. O marulhar não me distrai. Os pássaros escoltam a luz até o alto-mar. Os barcos se soltam como bóias e recolhem promessas de Navegantes. Não há guerra civil. O espelho antigo perdoa as rugas que chegaram depois. As mãos são lábios apertados. O lápis não quebra a ponta ao sugerir quadros.

Mas quando amo não sou eu. Quando amo, me esvazio de mim para ser ela. Eu me anulo para ser ela. Não compreendo como sou mais eu logo quando não sou. Como me sinto pleno quando saí de mim. Como me sinto lúcido ao desarticular o senso. Como me sinto guardado ao me desperdiçar. Ao me sacrificar, acredito que me reencontrei."


9:29 PM :: Comentários:

DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 2º DIA
Fotografia/Jean Cocteau



* Mais de 30h longe do cigarro, virei anti-social. Qualquer coisa me enervava, mas o que me levou ao desespero foi a derrota de 2x0 do Inter para o São Paulo. É provocação exagerada à abstinência.

* Finalmente entendo a gravidade da TPM.

* Assim que acendi meu primeiro cigarro, o gosto foi horrível. Horrível mesmo. Como mastigar corda e ferrugem.

* Entonteci. Tive que sentar enquanto o cigarro permanecia de pé.

* Ao mesmo tempo, tomei coragem. Desfalcado da nicotina, sou medroso. Eu me conheço mais e não gosto do que vejo.

* Telefonei para alguns amigos para me encorajar. A maioria disse para pegar leve. E que eu era bonito fumando.

* Só o bêbado não reconhece o seu hálito. Só o fumante não reconhece a cremação de suas roupas.

* Faro. Da sala, identificava o cheiro de fumaça nos apartamentos vizinhos. Meu vício é paranormal.

9:22 PM :: Comentários:

DIÁRIO DO EX-FUMANTE: 1º DIA
Imagem de Jean Cocteau



* Eu me vejo acabado. São vinte e quatro horas sem fumar e escapou o domínio da vida. Login e senha? Login e senha? Login e senha?

* Minhas mãos tremem, tive delírios de noite. Ansioso e irritado, já não sei o que fazer. Mudei de personalidade. O negócio é físico: fumava vinte e cinco cigarros por dia.

* Eu fumo porque não consigo parar de fumar. Não é mais uma escolha, é dependência. Estou doente. Não é questão de força de vontade.

* Se pudesse, eu me internava.

* O cigarro estava vinculado a tudo o que fazia. Não se restringia ao prazer do "tapa" depois da refeição. O cigarro já vinha aceso, involuntário. Tocava o telefone e fumava. Descia as escadas e fumava. Usava o computador e fumava. Acordava e dormia com um cigarro.

* Vou me desculpando a cada momento, antecipando o fracasso da tentativa. Vou me perdoando.

* Minha tática é fumar seis cigarros a partir de amanhã e seguir diminuindo semana a semana.

* Meus dias são enormes e inativos. Há uma queda de produção. Não quero escrever nada, ler nada, sair, fiquei pesado, meu corpo perdeu os braços da poltrona.

11:41 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 16, 2006

PAREI DE FUMAR
Para Mariana e Vicente, meus filhos
Para meu paizinho, que está fazendo cirurgia hoje

Pintura de Fernando Botero

Fabrício Carpinejar



Decidi parar de fumar, a partir do meio-dia de sábado (16/9). Ao lado das crônicas, começo a escrever o diário do ex-fumante. Recuso chicletes, remédios e tratamento. Tenho um pacote cheio na gaveta. Tudo leva a crer que não conseguirei. Sou uma estatística nula. Alheio às probabilidades, paro de fumar.

Não sei o que farei com a vida que vai sobrar, não tenho a mínima idéia de como fingirei que estou acompanhado sem a fumaça. Como esconder minha timidez? O vício sempre foi minha virtude para disfarçar.

O cigarro é minha bengala de velho. A boca tropeça sem ele. O cigarro é meu aparelho de dentes. Trinquei minha adolescência nele. O cigarro é minha barba ruiva. A gola de minha barba. O cigarro foi minha primeira desobediência. Minha ansiedade de morder. Minha pressa em cuspir. Meu medo de beijar.

Eu vou sentir falta da solidariedade dos fumantes. Eu vou sentir falta da pausa ensolarada de brasa depois do almoço. Eu vou sentir falta da coceira da luz diante da janela. Eu vou sentir falta de fumar nas baladas quando a música não ajudava e a bebida fazia efeito. Eu vou sentir falta de fumar enquanto caminhava - o cigarro acelerava chegar. Eu vou sentir falta de fumar quando suportava atrasos. Eu vou sentir falta de fumar para controlar a tensão das palestras. Eu vou sentir falta de procurar no lixo os telefones anotados na carteira. Eu vou sentir falta da raiva dos ex-fumantes. Eu vou sentir falta porque o cigarro me tornava misterioso. Eu vou sentir falta dos segredos que ouvia fazendo de conta que fumava. Triste me desfazer dos meus doze isqueiros engraçados - acendia o cigarro pelo barulho deles. Os cinzeiros permanecerão em casa esperando visitas. Os cigarros adormecem espiralados, como túmulos de flores.

Eu me senti homem com cigarro. Me sentirei ainda mais homem sem ele.

Fumo desde os 16 anos. Mais da metade de minha vida fumando. E escrevendo fumando. Fumando escrevendo. Não suspirava, tragava. Confundirei a família ao acordar, não haverá minha tosse preparando café. Se meu texto piorar, terei que lidar com a hipótese de que o talento vinha da nicotina.

Decidi parar de fumar. Recebi uma mensagem emocionada da Mariana, minha filha. É ridículo parar de fumar porque a filha pede, mas é mais ridículo continuar fumando depois que ela pediu.

Minha filha não herdará minha mentira. Não herdará minha morte. Não herdará minha covardia. Herdará minha palavra.

From: mariananejar
To: carpinejar
Sent: Tuesday, September 05, 2006 7:03 PM
Subject: Sem assunto


Pai

Estou te escrevendo com o objetivo de fazer você parar de fumar. Por incrível que pareça, é esse o objetivo.

Pensa só, cada pacote de cigarro que você adquirir possui uma mensagem localizada no verso dele, feita pelo Ministério da Saúde. Mas nenhum fumante dá bola para essa mensagem. Nenhum. Mas o Ministério não se preocupa particularmente com ninguém. Eu me preocupo.

São fabricados milhões de pacotes de cigarro por dia. Cada um deles tem uma mensagem do Ministério da Saúde. Cada um dos pacotes tem esse tipo de mensagem, diversificadas, mas todas com a mesma intenção.

Mensagens de uma filha não são tão comuns quanto uma advertência do Ministério da Saúde. Eu não estou escrevendo para poder fabricar legalmente um pacote de cigarro. E não estou te escrevendo por pura obrigação de Ministério.

Meu objetivo não é deixá-lo brabo, nem impaciente.

Há muitos anos que você me prometeu que não fumaria mais. Prometeu, claramente, diante da ingenuidade infantil. Minha satisfação se passou, e o cumprimento ficou escondido atrás da fumaça. O cumprir, gasosamente, se foi com a fumaça, com a fotossíntese. E o Fabrício continuou aqui, com a mesma promessa e uma cara de quem quer convencer que um dia vai abandonar o fumo, mas não convence NINGUÉM.

A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida.

Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora.

Se você morrer muito cedo, sentirei muita falta.

E de tanto que sentirei falta, meu amor me convenceu de escrever, talvez inutilmente, mas com muita esperança. A esperança é inútil?

Você virou o dono da minha lágrima e do meu pesadelo. Guardião de tudo o que me assusta e me faz sentir como quem não pode mudar o destino. E o destino está nas suas próprias mãos.

As palavras de pedido não vão mais se repetir. Elas se guardaram para essa terça-feira, depois de tantos anos solitários e inúteis. Mas é assim que eu me sinto. Inútil ao efeito do cigarro. Inútil. Não adianta esconder seu pacote se sempre terá mais de cinqüenta à venda em qualquer revistaria.

Não adianta mais falar palavras com o mesmo sentido se seu ouvido se recusa a aprender depois dos 30 anos. Não adianta eu querer, se o pensamento não supera o ato.

Te amo.
Beijos.
Tchau.

Mari


10:49 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 15, 2006



DEPENDÊNCIA TOTAL
Do Consultório Poético
Pintura de Egon Schiele
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Fabrício Carpinejar



"Quando ele chegou, foi como se o Universo se despisse. E, assim, conhecê-lo foi como ver o mundo sem roupa, tímido e desavergonhado. Na noite de setembro em que eu o conheci, dei-me conta de que o desencontro em mim era encontro nele. Descobri que o meu amar era mais bonito porque enchia a noite com risinhos, porque nos fazíamos encontrados no silêncio, porque nossos olhos tinham longos diálogos, porque éramos a medida da alegria indiscreta, a alegria que é quase afronta de tão descarada e sedutora que é.

Muito não tardou para que o meu encontro nele fosse desencontro para ele. Sentia-se preso. Temia minha dependência e com razão. A risada minha só podia ser ao lado dele, a alegria só era descarada se ele estivesse comigo. E logo quis impedir que ele tivesse gargalhada solo. Logo exigi estar ao lado dele em todo e qualquer riso. Não deixei que ele se encontrasse em outras alegrias, que não a minha. Erro meu. Ele, por sua vez, acenava com bandeira branca, pedindo liberdade, cada vez mais longe. E ele já estava na margem de lá quando eu, daqui, o vi partir para outra paixão. Depois de uma dolorosa traição, ele se foi. Reconheço minha responsabilidade. Exigi demais.

Perdi o sorriso, o mundo se vestiu correndo e partiu de mim. Quando eu já estava de volta ao rio, e não mais à margem, ele voltou, com os olhos úmidos a pedir perdão. Aceitei. E assim foram duas vezes. Duas novas traições por se sentir pressionado. Duas voltas porque eu tentava perdoar (e talvez não pudesse. Como esquecer, afinal?).

Agora, na terceira traição, ele se foi. E de vez. Qual não foi meu desespero ao perceber que, desta vez, ele não voltou, não quis meu perdão, não quis estar de volta... Diz que não quer mais me fazer mal, que não se sente capaz de ser fiel, que vai sempre me fazer chorar e que, apesar de me 'amar mais que tudo, para sempre' (são palavras dele, daí as aspas), não quer mais ir ao meu encontro. Desde a última traição, ele não ligou. Eu telefonei. Vez ou outra, ele atendeu. Dizia sempre que me amava. Soube agora que ele namora. Deixei de ligar. Tem sido um grande esforço. Muito grande. Não nos falamos há dois dias. Porque eu não ligo, controlo o desejo de falar com ele, de mantê-lo por perto mesmo que longe. Me esforço porque ele se retirou de cena e não posso forçá-lo a ser protagonista se ele já faz par com outra personagem de uma história nova e distante de mim.


Reconheço que não daríamos certo. Afinal, ele não me oferece o compromisso, o tal amor com coragem. Ou talvez não me ame, apesar de dizer. O que pensar? Ele me ama? Esconde-se atrás de 'estou confuso', mas ama? Ou não ama? Quanto a mim, ainda o amo. E me culpo por isso. Como amar alguém que tanto me fez chorar? E penso em estratégias para esquecê-lo como num passe de mágica, porque esse amor que sinto talvez seja vício. Quero amor fresco, amor doce, amor com alegria descarada, mas leve de pureza. Sem mágoa, sem dor. E, embora o ame, sei que a relação é inviável. Por que, então, não o esqueço? Será vício? Há uma técnica para esquecer, caro Fabrício? Há um caminho para entender? Será que devo me esforçar para mantê-lo longe e, quem sabe, um dia ele volte? Mas por que querer de volta alguém que me faz chorar assim?

Enfim, dói.

Carinho e admiração,

Manuela"


Olá, Manuela

Você entrou em uma cilada. Uma armadilha brutal. Ao ficar ao lado dele, ele parte. Na hipótese de se afastar dele, deseja que volte. Tanto a separação como a reconciliação são estratégias para alimentar o amor doentio. Amor unilateral. Criou a certeza de que sua alegria nasceu do encontro com ele. Quem vai tirar isso de sua cabeça? Posso até tirar, mas de seu coração não tenho a chave.

Ele não deseja o compromisso. Cômodo. Houve três reincidências e ainda guarda esperança. Precisa a quarta, a quinta, para ter certeza de que não presta? Esperança de convertê-lo, de convencê-lo? Vai adiantar... Já entrou no terreno da caridade e da teimosia. Não largamos amores porque precisamos provar que o tempo com eles foi especial. Nossa guerra pela manutenção de uma relação não é a favor do futuro, e sim para valorizar o passado.

Pode perdoar o rapaz, só que não vai se perdoar nunca mais. Como amá-lo sem estima, sabendo que não é ideal, que ele vive escapando, que não se contenta contigo? Como satisfazer uma ausência? Garanto que ele não a ama mais do que tudo, o amor dele fica sempre abaixo do ego e do narcisismo.

Chega ao cúmulo de se condenar e se martirizar porque ele arrumou outra namorada. Ele trai e você é culpada. Sua alegação é que "exigiu demais". Que se tornou dependente e o privou da liberdade. Não, vem exigindo de menos de você. E ele não é homem para atender suas exigências. Há algumas pessoas que deveriam sair pela porta da cozinha. E receber as sobras de comida e de nossa vida.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:10 PM :: Comentários:


Domingo, Setembro 10, 2006

MULHER-COLAR OU MULHER-BRINCO
Arte de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Eu desconfio de teorias. Mas crio as minhas para desconfiar ainda mais.

Uma delas é a da mulher-colar e da mulher-brinco, duas formas femininas de organizar a vida.

A mulher-colar é mais caseira, procura a unidade. Não é dispersiva, não costuma ter vida dupla, tenta manter uma coerência absoluta entre o trabalho, a casa, o sexo e os filhos (ou os animais). Pretende ter a história sob o controle, o que a atormenta. Fica irritada quando escapa as rédeas da janela. Toma a posição extremista: ou tudo ou nada. Percebe que o nada - bem acompanhada - não é tão ruim assim. Oscila entre a posição de vítima e algoz. Cuidado: quando é vítima é algoz. Adora ser surpreendida. O colar é despir as costas. Como não é posto pela frente, carrega o sopro de um segredo, o leque de um ritual, o vento envidraçado.

A mulher-colar se arrepia toda na nuca. Os beijos antecedem os lábios.

Sua protagonista guarda uma inclinação para transparência. A mulher-colar dificilmente pensará antes de falar - pensará e falará simultaneamente. Pensará enquanto fala. Será rude caso necessário e não voltará atrás. Pedir desculpa é um tormento para ela. Enleia-se em dizer obrigado. De igual modo, será verdadeira para o elogio. Com tal contundência, que todo elogio da mulher-colar se assemelha a um pedido de casamento. Perigoso discernir entre a sedução e a carência.

Colar é mais complicado de perder. Não há como extraviar, ou fingir que ele não existe. Não há como esquecer que está se usando. Uma mulher-colar não aceita metades, suplências e realidades provisórias. É possessiva, com uma teimosia implacável de menina mimada. Mas não é uma menina mimada, é uma menina independente.

Domina o corpo pelo pescoço. Exige que seja olhada com a veemência nos olhos. Mostrará os seios com ambição. O colar é primo da coleira. Com a diferença: quem o usa manda, não é mandado. Os brincos são complementos. Secundários, discretos e dispensáveis. Aparecem para chamar atenção do colar. Como o colar é exagerado, dispensará os anéis e as pulseiras. Ela se julga importante ao escolher.

A mulher-colar tem resistência para abdicar do passado. As pedras estão muito próximas da garganta, lembram as palavras ásperas obrigadas a engolir. Ela põe o colar como quem separa uma voz para ouvir sozinha. O colar é o herdeiro do escapulário. Ao vestir um colar (colar se veste, não é um adereço), a mulher está se ligando aos antepassados: avó, mãe, filha. A mulher-colar mentirá para proteger alguma verdade, em último caso. Não mentirá para se proteger. É constante em suas mudanças. Muda para continuar igual e mais confortável. Abusará da cor escura nas unhas, para exibir personalidade forte. Não vai se influenciar com a opinião alheia, porém fica abalada com sua autocrítica.

A mulher-brinco é de outra ordem. Mais expansiva e volúvel. Ela valoriza os detalhes. As etiquetas. As vogais. Os talos das frutas. Sofre uma inaptidão para escolher: prefere ser escolhida. Casa o brinco com o anel. Ou com a pulseira. Mas não suporta a solteirice do colar.

Perde o brinco, para permanecer com a sensação de que está procurando algo. O brinco é um pretexto para não parar de procurar, mesmo quando já encontrou. Ela acredita que pode estar melhor ainda que extremamente feliz. É insaciável na alegria e na tristeza. Quando fica abatida, não admite concorrência. A mulher-brinco emprega a duplicidade, não se agrada em apontar que o namoro "terminou". Abandona o final, preocupada em preservar o início. Deixa para resolver no último minuto. Deixa, na verdade, o último minuto para não resolver. A mulher-brinco esquece do passado com facilidade, preocupada em crescer e amadurecer o quanto antes. Não tem tempo para fazer tempo. Valoriza o rosto como moldura. Tem uma fixação pelos cabelos. O brinco é um jeito de diminuir a orelha ou aumentá-la. O brinco não está lá por acaso e acidente. É uma tatuagem do queixo. Nas relações amorosas, não permanece muitos anos. Encontra um jeito de fugir sem dar na vista. Dá o fora e disfarça que recebeu.

A mulher-brinco odeia sua solidão. Odeia não contar com testemunhas. Odeia viver para não contar o que viveu. Seu porta-jóias é um emaranhado de fios e de pares trocados. O porta-jóias é o resumo do seu quarto na infância. Demora um tempo para escolher o que colocar, para reparar nas jóias que não a interessava. Recusa a insônia, que afeta sua pele com olheiras, covas e maledicências. A mulher-brinco observa o sono com luxúria. Seu mau-humor depende de como se acorda. Compra tapetes ralos, para facilitar a localização de objetos. Pinta as unhas com misturinha, para não atrair atenção sobre os movimentos das mãos.

Impõe-se na troca rápida de assunto. Mente como experiência. Mente para dominar assuntos que desconhece. Mente para conhecer. É ardilosa e faz com freqüência testes e jogos com seus parceiros. Quer se ver desafiada. A mulher-brinco deseja a cômoda livre para se espalhar. Metódica em sua confusão. Nunca conhece direito onde colocou sua vida.

A mulher-colar e a mulher-brinco podem coexistir numa única mulher. Mas somente uma delas surgirá diante de um homem.

5:16 PM :: Comentários:

ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA, página D5
Domingo, 10 setembro de 2006

CONTRA A ESPERANÇA PASSIVA
Menalton Braff retorna ao gênero que o premiou com o Jabuti e acentua solidão de personagens



Fabrício Carpinejar
Especial para o Estado

Menalton Braff já foi outro: Salvador dos Passos. Pseudônimo com que publicou seus dois primeiros livros. Com os contos de À Sombra dos Ciprestes, Prêmio Jabuti 2000 - Livro do Ano Ficção, assumiu seu nome, tão estranho e nórdico como um viking exilado. Que parece mais pseudônimo do que seu pseudônimo anterior. O conto significa sempre ao autor uma guinada. Com os contos, abandonou o pseudônimo em 1999 e se fez conhecido. Depois de três romances, volta ao gênero que o consagrou. E melhor do que nunca - acentuando as possibilidades de narrar, ora expressionista, realista, lírico, no compasso combinado entre denúncia, suavidade e mergulho psicológico.

É sobre a perspectiva do outro, que Menalton lança A Coleira no Pescoço (Bertrand Brasil, 160 págs., R$ 25). Transparece uma obsessão em retratar seres solitários. As tramas não se limitam a emitir opiniões, desconfortam como um arroto, algo rude e trancado. Não confortam como um suspiro ou um bocejo. Os habitantes de A Coleira do Pescoço não são seres desajustados, mas personagens que estão tentando ganhar a vida dentro das regras, que se ferram e não buscam compreender o que houve de errado, que não explodem e embrulham as mágoas sociais para comer frias no quarto. Sofrem com a dependência do emprego, a obrigação financeira de sustento, e não se arriscam a pensar diferente, aceitam a brutalidade das relações como um pré-requisito.

Vinte narrativas curtas e uma linha harmônica a penetrar em cada história: a solidão incomunicável. Praticamente em todos os contos, sabe-se mais dos personagens por aquilo que pensam do que por aquilo que fazem. São assombrações da palavra. Menalton escreve em terceira pessoa, como se estivesse narrando na primeira pessoa. Grudado na personagem, em tal medida que só enxerga o que a personagem está enxergando. Um crente, Daniel, pretende converter uma puta e se transforma num garoto de programa. Uma noiva acompanha, por fora, a construção da casa que seria dela se não houvesse o rompimento. Uma violoncelista sofre os horrores físicos do ensaio num jogo sexual com o marido. A realidade é curta perto das hipóteses imaginadas pelos protagonistas. Eles se antecipam no sofrimento, para sofrer duas vezes. Menalton faz um anticonto, no sentido de que a história subterrânea sobrepuja a história visível. Não testam os limites, seguem ordens. Seja da família, de Deus, da educação. Se o velho e o cachorro morrem atropelados por viverem amarrados no primeiro texto que confere o título à obra, a maioria das caracterizações da coletânea vive atropelada por se manter amarrada às convicções.

Menalton desenha figuras que são vocacionadas ao isolamento. O zelador e o vigia, por exemplos. Presos ao fim por uma coleira invisível, que é a crença que a vida pode dar certo se atenderem os preceitos do serviço.

O primeiro desenvolve com o cachorro uma convivência leal e cega, a ponto de humanizar o cachorro e cobrar atitudes. A conseqüência é que ele vira um animal, preocupado em tossir para não atrofiar sons humanos e coloca a amizade com o bicho abaixo de sua sobrevivência profissional. O segundo aceita um emprego, sem nunca conhecer o nome de seu patrão. Em ambos os casos, há uma resignação brutal, um voto inútil no dia seguinte, que as coisas vão melhorar caso não ocorra mudança de conduta.

O escritor assume um olhar minoritário da classe média baixa. Nos romances, desenvolvia a estranheza da normalidade, indo para o lado da corda mais frágil que arrebenta com o tempo e a velhice. Que Enchente me Carrega? (2002) contava as agruras do sapateiro Firmino, perdendo clientela e se tornando uma profissão extinta. Na Teia do Sol (2004), acompanhava o esconderijo de um militante político disfarçado de horticultor no Nordeste, para fugir da repressão militar. Enquanto Salvador de Passos, em Janela Aberta (1984), oferecia a visão adoentada de um desempregado paulista, que não conseguia conter o deslumbramento de consumo de sua filha adolescente.

Seus contos prolongam o mesmo mal-estar. Assim é emblemática a demissão de Rita em um dos contos, por não ter sorrido em seu trabalho, cláusula que constava no contrato de admissão. Do mesmo modo, o caminhoneiro, atolado de atrasos e pressão, sensibiliza-se com a brisa e decide que é um argumento suficiente para seguir viagem. A esperança é observada por Menalton Braff como um defeito, por renovar a passividade. Nesse aspecto, o destino do pintor desmemoriado na delegacia será igual ao da Anita, impotente, depois do assédio do padrasto. A consciência não faz diferença nenhuma.

O viés político do autor é de ordem estética, não se propõe a fazer propaganda de nada que não seja literatura. É interessante como já criou, em seu décimo livro, marcas estruturais de sua voz e estilo, como os dois pontos, culminando uma descrição com uma imagem poética.

"O suor secara por debaixo da camisa: o tempo nunca parara de escorrer."

Com um vocabulário levemente arcaico, a linguagem tende a um barroco, mas não estiliza o estilhaçamento. Trata-se de um barroco compartimentado em diferentes ritmos. Encontram-se momentos de fluxo de consciência com passadas mais ponderadas. Não é de se esperar um único escritor, há vários escritores brigando dentro de Menalton.

Além da coragem crítica de mexer preconceitos, o contista conversa de igual para igual com a tradição literária e revigora referências. Em Os Sapatos do Meu Pai, recria versão feminina de A Terceira Margem de um Rio, de Guimarães Rosa, uma tarefa quase impossível. Traz a obstinada espera de uma vendedora pela volta do pai pródigo, a partir da lembrança do par de calçados. Pode ser recortada para antologias a comovente cena em que o pai finalmente se aproxima e a filha, então, pensa: "Agora não adianta mais, porque agora já sou."

Semelhante processo é percebido em De cima do Muro, releitura do Barão nas Árvores, de Italo Calvino. Teodoro abandona a família e passa a morar no muro, como observador privilegiado do tempo e das manias dos vizinhos. Ele não tem ao certo o motivo que o faz estar ali. Espera descobrir o motivo, que não chegará com a morte, porque talvez ele nunca tenha existido.

Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar

9:28 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 09, 2006

O DIALETO DOS AMANTES
Arte de Egon Schiele

Fabrício Carpinejar



Eu me iniciei na matemática com palitos de fósforo. A professora começou com feijão. Mas como era escola pública e a fome grande dos alunos, teve que dispensar a primeira alternativa e se contentar em não chamar atenção do estômago, da barriga roncando e da merenda. Até porque os grãos desapareciam rapidamente de cima das classes.

Aparecemos com caixinhas para dispensar o uso dos dedos.

Na primeira contagem, estava com doze palitos, ela retirou quatro. Perguntou-me com quantos fiquei:

- Dezesseis!, respondi eufórico.

Ela me observou desapontada.

- Não, são oito.

Já com a voz recuando, retruquei.

- Não, são oito palitos e oito chamas.

E risquei os palitos. Foi um fogaréu na minha mesa.

Ela me policiou para não acender mais dentro da aula, era perigoso e pediu que refizesse as contas com os palitos apagados.

Mantive a minha opinião:

- Dezesseis!

- Mas agora não tem mais chama, Fabrício!

- Tem a lembrança do fogo. São oito palitos e oito fogos apagados.

Por insubordinação, fui para a sala do SOE (Serviço de Orientação ao Estudante). Fiquei a manhã inteira de castigo, lamentando que fui injustiçado.

Cada um tinha sua razão. No amor, a mesma incompreensão perdura. Quem está dentro de um relacionamento não é capaz de falar o idioma de quem está enxergando de fora. São ritmos diferentes. É complicado e arriscado entender de maneira prática o que é vivido com poesia. Cobra-se um comportamento padrão, recusando os pormenores e as particularidades. Como definir que se o homem não liga no dia seguinte da transa, ele não quer nada com ela. O homem pode pensar igual, não?

A poesia só cabe aos amantes. Enquanto se é a resposta, não se caça a resposta.

Os conhecidos vão procurar a tradução literal, os resultados e a lógica, eliminando a rima, as imagens e as sutilezas. Não encontrarão a beleza transparente e pequena, a carência que se apossou do desejo e não aceita ser arrancada sem explicação e resistência.

É simples culpar uma mulher por se aventurar com um homem casado. Mas a gente não tem noção do que eles viveram juntos. Nem eles mesmos. Ou por que nossa melhor amiga não larga aquele cara que aparentemente não presta? O que ele despertou nela? Amor-próprio?

É comum alguém não abandonar uma relação viciada para não desperdiçar todo o sofrimento depositado nela durante anos. Ela pagou à vista o amor com a dor e busca a recompensa de qualquer jeito. Adivinhava o trágico desfecho, mas a fé não suporta ser contrariada. Qual é a graça se de ser uma opinião unânime?

De repente, o amante nem sente mais o amor, sente apenas o orgulho do amor. Orgulho ferido do amor é pior do que o amor - não admite a renúncia e o saldo.

Não somos iniciados no dialeto criado pelos amantes. Por que se entregaram? Tem como evitar em se apaixonar, sim, tem. Mas é preciso evitar em viver também. O preço é muito alto. Não existe pessoa errada, existem circunstâncias erradas.

O amor unicamente é pecado para quem se confessa. Não procure entender o quarto pela sala. O quarto pela varanda.

Se o fogo acendeu uma vez ele será sempre a lembrança da chama. A matemática é de menos. Por mais que a conclusão esperada seja a de oito palitos.

11:19 AM :: Comentários:

SEMPRE UM PAPO



Estarei fazendo palestra e autografando "O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR" (Bertrand Brasil) em Curitiba (13/9) e Maringá (14/9), no Paraná, dentro do tradicional Sempre um Papo. Confira abaixo os locais e horários. Mais informações no site do projeto.

CURITIBA, 13/09, quarta-feira, às 19h30 | Local: Teatro da Caixa Cultural, Rua Conselheiro Laurindo 280, Centro (41) 3321-1950/ 3321-1613 ENTRADA FRANCA

MARINGÁ, 14/09, quinta-feira, às 19h30 | Local: Anfiteatro Nupélia da Universidade Estadual de Maringá, à Av. Colombo, 5790, Bloco G90, (44) 3321-2657 ENTRADA FRANCA

9:15 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 07, 2006

POESIA

Sou o entrevistado do "Gaveta do Autor", edição setembro. Confira meu bate-papo abaixo e a matéria no site.

Como oxigenar a poesia, sempre tão asfixiada por clichês e rimas fáceis?
Mergulhar fundo na linguagem, não se importando se vai faltar ar lá embaixo. Henri Michaux diz que a alma não voa, a alma nada. Concordo com ele.
O poeta não pode se sentir dono de uma voz. Ela mais será dele quando mais lhe faltar. O erro é a casa da verdade. Subverter o lugar-comum, sair do jogo, do trocadilho, do jogral. Falar só quando se tem necessidade, quando é impossível adiar. A verdade não é um hábito como a mentira, a verdade rompe hábitos. O poeta é a instabilidade cardíaca. Concorda para discordar logo em seguida. Não conheço nenhum poeta aposentado. Ou se é para trabalhar toda a vida ou nunca foi.

O que existe entre um verso e outro?
O poema perfeito, que não foi lido, porque estava apressado em escrever o meu.

Por que o poeta foge da prosa?
Por educação, para não contaminar. A poesia costuma bagunçar, anarquizar a linguagem. O poeta não sabe escrever sentado. Escreve de pé, para não ser enterrado. Ele quer comunicar de cara o ruído, o espanto, o relâmpago. Ele é ansioso por vocação. Escreve com os ouvidos. Sua audição é de socos.

Que tipo de bem fazem prêmios e honrarias aos escritores?
Cartas dos leitores. Sinceridade e comoção. Conseguir uma tal identificação, que o leitor esquece o meu nome e toma aquilo que foi escrito como seu. Ser esquecido é o maior prêmio que um autor pode alcançar.

Que tipo de prazer é o ofício do escrever?
O de gargalhar. Não o riso cínico, o riso enviesado, o riso contido. Mas o riso que joga o corpo para frente, que nos põe caminhar. Enquanto dois dedos batucam, os outros oito já são platéia.

7:56 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 06, 2006

UMA CONVERSA DE AMOR COM MINHA FILHA
Pintura de Mark Gertler

Fabrício Carpinejar



Vi que minha filha de doze anos estava encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.

- O que houve?
- Eu não sei o que é amor, respondeu. Eu não sei se te amo, amo minha mãe, amo o mundo. Às vezes amo, outras vezes o amor é somente companhia do amor que aconteceu.

Não respondi com pressa. Fui pesquisar em mim. Retirei-me para pescar cigarras nas árvores.

Por mais profana a dúvida, ela tem razão. Temos o amor como algo definitivo. Imutável. Uma comoção com início, sem fim. Mas nem sempre sentimos amor por quem amamos, pode ser o conforto do amor que já sentimos. O passado do amor.

O amor é nostálgico e se fortalece em desenterrar os ossos. O amor tende a ser lembrança do amor. Melhor seria se fosse presságio do amor.

Uma vez dito: eu te amo, a impressão é que o amor tende a crescer e nunca terminar, que ele já fez seu trabalho e agora tem direito a descansar. O amor não tem domingo. Talvez se transforme em uma crença: eu amo aquela pessoa e pronto. Nada é capaz de dissuadir a afirmação do contrário. Isso é um erro. O amor é contrariar o próprio amor, para afirmá-lo em seguida. Não acaba de seduzir. O amor é seduzir a si mesmo, depois de seduzir alguém.

O amor não é uma verdade, muito menos uma mentira. Está se convencendo de que existe. E existir depende de não se convencer.

Corresponde a uma descoberta inventada. Descobre-se um sentimento que a gente inventou. Inventar é permitir que cresça a empatia, que a paixão se instale, que faça sentido, que até se aborreça de não ter chegado antes. No amor, ninguém entra sem pedir licença. Ninguém entra sem a concordância do outro, ainda que involuntária. Ninguém entra sem um "amém", um "obrigado", um "estava esperando", uma saudade, um aceno, uma necessidade.

Mas amar é justamente não ter certeza. Não encerrar o assunto. Ama-se aos bocados, não ama-se como um pacote turístico, com passagens, hotéis e passeios orientados. Amor é sofrer a inexistência do amor. Combater com mais amor o que está se esgotando. Amor é reconhecer a possível ausência do amor em alguma hora e recomeçar. É identificar a condição de já ter sido mais forte e remar violento com a boca em direção ao fundo. Nadar na alegria do desespero.

Houve dias que minha filha não me amou. Houve dias que minha mulher não me amou. Houve dias em que eu não amei. Mas houve dias em que minha mulher me amou em dobro, que minha filha me amou em dobro, que eu amei como se não houvesse um entardecer do braço.

Antes de dormir, apareci para minha filha e conclui:

- Amar é não parar de perguntar.

Ela virou o rosto para o travesseiro, enfiou o pescoço na coberta e me confidenciou:

- Então, eu te amo pai, mas não espalha.

9:43 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 04, 2006

MEU MEDO DA VELHA
Arte de Picasso

Fabrício Carpinejar




Eu só jogava futebol. Ou pegava frutas, mas depois de jogar futebol. O futebol era o início e o fim de meu dia. O resto ocupava em imaginar meus gols.

Quando criança, o terror consistia em chutar a bola na casa da vizinha. O meu pátio tinha uma ligação com o pátio dela. Uma cerquinha não dava conta. Na decisão da partida, a bola escapulia. Na primeira vez que fui pedir, ela já ralhou: "não devolvo, é meu terreno". Foi apelidada para sempre de Velha. A Velha. Nem sequer cogitei perguntar o nome. Eu pergunto o nome de quem guardo esperança.

Eu e os irmãos começamos a criar estratégias de guerra, como descida do telhado, segurar as pernas do outro de cabeça para baixo e se fingir de mendigo ("Tem pão velho?") no interfone para distrair sua atenção. O jogo ganhava entusiasmo. Mas ela comprou um doberman, que dificultou os resgates. Além de zelar com latidos histéricos, o cachorro mostrava uma tara incomum pelas bolas (será que foi treinado?). Era obsceno: ele lambia as bolas. Com toda a conotação sexual que pode existir. Lambia a bola, como um filhote. Levava a bola como se fosse um boneco inflável. Roubamos da geladeira a chuleta de domingo. A mãe culpou depois a empregada (desculpa, Aurélia, foi a gente). Arremessei o alimento do portão enquanto os manos pulavam a cerca por detrás. Funcionou, mas não tinha como furtar a carne todo dia.

O doberman careceu de patas para guardar tantas esferas. E foi assim que definimos nossa vida: caso caísse na Velha, o brinquedo era morto.

Não imaginava que o trauma fosse se repetir comigo aos 33 anos. Jogo futebol com o Vicente no terraço. Antes, seu chute não ultrapassava a altura da cerca. Garantia de diversão. Porém, ele ganhou força na perna e lança agora a bola longe, para os telhados das casas embaixo. Foram quatro bolas para o telhado da vizinha, com o barulho estridente de ovo.

Gritei para meu filho: "abaixe-se! Para ela não enxergar". Expliquei que ela não devolveria, que estávamos colocando sua casa em risco, poderíamos quebrar alguma vidraça.

Ele se calou, assustado, o susto é a compreensão de um menino de quatro anos.

Sobraram três bolas.

Não tocamos mais no assunto e tentávamos nos controlar. Até que meu filho inventou de dizer ter sonhado que recuperou todas as bolas, que recebeu uma sacola com elas e citava uma por uma, o tipo, a cor, o peso. Não reprimia a árvore dos cílios.

"Sonho se realiza, pai?"

Fui para o trabalho incomodado. Como comprar todas as bolas parecidas com as dele? Não havia jeito. Adquiri em diferentes lugares.

Decidi, com o medo ancestral da Velha que estava introjetada em mim, bater na casa da vizinha. Apertei o interfone, esperei um pouco, quando completava a meia-volta, uma voz feminina replicou: "quem é?".

Avisei que era o vizinho do terraço.

- O Fabrício?

- Sim (ela sabia meu nome).

- Só um minutinho.

O minutinho demorou um corredor de hospital.

Ela abriu a porta com um riso. Pensei que fosse sádico, não era. De ternura severa.

- Queres as bolas?

- É que meu filho sonhou que conseguiu de volta.

Logo em seguida, ela veio com uma sacola de oito bolas.

- Toma todas que caíram aqui, podes vir sempre. E manda um beijo para teu menino. Sou professora e o que alegra os pés alegra as mãos.

O nome dela é Dorinha.

8:50 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 02, 2006



CERTINHA DEMAIS?
Do Consultório Poético
Imagem de Man Ray
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Fabrício Carpinejar



"Sr. Fabrício Carpinejar,

Eu passei minha vida inteira tentando ajudar a todas as pessoas que amo. Tive relacionamentos, inclusive um noivado, que acabaram porque a pessoa acabava me achando 'certinha demais'. Até hoje não entendi exatamente o que isto significa.

Eu tenho certos modos peculiares de ver a vida, mas jamais impus isto a qualquer pessoa.

Certa vez um amigo me disse que quando convivemos com alguém muito bom, nos sentimos mal por não sermos tão bons e evitamos essa pessoa. Se isso é verdade, eu não sei... Só sei que todos me acham muito boa, e é fato que eu estou sempre sozinha.

Homens se apaixonam por mim e somem da noite pro dia (e isto não é uma figura de linguagem, eles somem da noite pro dia mesmo). Outros dizem que me adoram, que sempre vão gostar de mim, mas que eu sou certinha demais.

Nunca demonstro pra ninguém minha tristeza, mas choro todas as noites, sinto-me sozinha. A impressão que tenho é que eu não consigo encontrar alguém pra mim. Vejo ex-namorados ou moços que já gostaram de mim felizes com outras meninas, fico feliz por eles, mas morro por dentro, porque eu nunca tive isso de verdade.

Por favor, me mande algumas palavras porque assim, de certa forma, eu vou sentir que alguém se importa.

Obrigada, Isabel"



Olá, Isabel

Vejo que é vítima do medo. Isso. Vítima do medo. O medo mata você. Não assume o comando de sua expectativa. Está buscando mais a aprovação do que o relacionamento. Ainda não tem certeza do que deseja porque está sempre procurando atender o que os outros desejam. Sente-se culpada por aquilo que não viveu e compara sua vida com a dos outros. Depois se sente culpada pela inveja e o caminho de volta se torna mais difícil. Nada é bom o suficiente. E o tempo passa, e fica condicionada a uma idade para um amor.

Sua vida é incomparável, nem deveria pensar nisso.

O amigo disse que os homens se afastam porque se apequenam diante de uma pessoa boa. Acredito que o ressentimento parte de você, por ser justamente uma pessoa boa. Talvez inspire relacionamentos duradouros enquanto eles só querem aventura. Ou não encontrou alguém que passe pelo mesmo problema e seja capaz de seduzir com paciência. Problema, aliás, que eu gostaria de ter. O nome dessa moléstia é sinceridade. Deve se apaixonar logo pelos seus olhos antes que fiquem desidratados.

É certinha? Não identifico mal nisso. Agora temos que ser loucos, desviados, agressivos, perturbados para mostrar que amamos com vontade? Não, amar com violência pode ocorrer dentro das regras. Não é exclusividade do transgressor.

Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:46 PM :: Comentários: