Eu respirava pela boca. A boca obrigada a falar e respirar ao mesmo tempo. O nariz preguiçoso, mais alto e forte, mandava nela. E ela obedecia.
Não descansava os lábios. Entreabertos. Cumprindo um turno pela voz e o outro pelo sopro. Os dentes como lápis apontados pelo vento.
Os lábios sem cola, sem comissura, sem liga. Os lábios levantando-se ao beijo todo sempre. No meio da escada.
Meus lábios não dormiram sequer uma vez em minha vida.
Do mesmo modo que trocava a boca pelo nariz, confundia a amizade com o amor.
Não amei nenhuma mulher pela atração simples e direta. Pela beleza fulminante. Pela sedução lacônica e apressada.
Não amei uma mulher à primeira vista. Meus amores foram a prazo, bem parcelados. Com o carnê cheio de folhinhas. Conversados longamente para encontrar a quietude. Observados, desesperados, lentos. Segurar inicialmente os braços, depois as mãos, bem depois o rosto.
Amei pela convivência, pelas afinidades, pelas discussões, pelos cantos da chuva, pelo sol pintado do meio-fio. Amei na continuidade, no alinhamento do riso, nas brincadeiras involuntárias. Amei ao expor confidências ¿ as confidências já eram provas de que amava. Desabafei muito antes de amar, pedi muito ajuda antes de amar, fui incompreendido muito antes de amar.
Amei durante a semana mais do que nos finais de semana.
Amigo leal e pontual de uma menina, amigo inseparável, não tinha jeito: queria namorá-la. Não conseguia parar o corpo. O amor aparecia como compreensão inteira, dedicada. Não desejava uma mulher que não me entendesse, desejava quando ela me entendia. Percebia o amor como um segredo desde a escola. Um amigo secreto. Ele gosta de alguém e ninguém sabe. Ela gosta de alguém e ninguém sabe. Guardava-se uma paixão com coração e iniciais, sorrateiramente, na última página do caderno de matemática. Não era assim?
Escondia o amor dentro da amizade. Não havia melhor esconderijo.
A amizade me levava ao amor. Mas o amor, logo que encerrava, renunciava a amizade do começo. Não dava para voltar à amizade quando me declarava. Para continuar, a amizade não pode ter a consciência do amor. A amizade termina se o amor surge, a amizade termina igualmente se o amor acaba.
Não mudei com o tempo. Amo pela amizade, respiro pela boca, converso pela respiração.
A partir de hoje, quem não tiver educação e elegância para entrar no blog, dar sua opinião e discordar perderá o comentário. Aceito debate, não agressão. Nenhum dos leitores merece ouvir grosseria. Não admito falsos nomes, sem identificação de e-mail. Se quer contestar os textos, use o próprio rosto. Isso pode ser um chat, nunca um purgatório de chatos. Peço desculpa aos bem-intencionados, que amam a literatura.
AMOR NA GRAVIDEZ Do Consultório Poético Pintura de Gustav Klimt
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Fabrício Carpinejar
"Fabrício,
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adoro seu blog, coloquei-o como favorito e acesso toda semana para alimentar minha alma.
Resolvi te escrever para uma "consulta poética", pois estou em um momento da mais pura inspiração: estou grávida (12 semanas), segunda gestação (tenho uma filha linda, de 6 anos), mas desta vez está tudo tão diferente. Tenho me sentido extremamente triste (não era pra ser o contrário?), apesar de não ter parado com minhas atividades (nem profissionais, nem pessoais). Às vezes me pego cobrando atenção do meu marido, não o vejo "babando" por mim ou pela gravidez, não recebi nenhuma cartinha dele de alegria pelo novo fato (e olha que já estávamos 'tentando' há mais de um ano e meio), será que estou querendo demais?
Ele recebeu a notícia com a maior alegria, e às vezes pra puxar assunto pergunta se eu já pensei em algum nome, mas é o máximo de manifestação! Não sei se fiz mal, homens têm a mania de termos de explicar tudo o que queremos (até o que nos parece óbvio) e foi isso que fiz: pedi a ele que se expressasse mais, que me escrevesse algo, mas foi tudo em vão.É claro que cada um tem um temperamento diferente, eu sou mais sensível, enquanto ele é mais prático, mas você não acha que a gestação era pra 'quebrar' todos os gélidos 'muros individuais'?"
Olá, Cristina
A gravidez aumenta a sensibilidade. A audição, o tato, o gosto. É uma TPM do bem. Fica-se mais generosa e afetiva. Mais inteira. A alegria e a tristeza aparecem com intensidade redobrada. Tempo de solidão, em que os acontecimentos são interiores e imperceptíveis. Um calafrio e chute no ventre, um enjôo, uma vontade de comer algo estranho, uma lembrança inusitada. Como explicar que isso é importante para ele?
É o mesmo que discursar no almoço sobre o carregamento de folhas pelas formigas perto da chuva. São fenômenos poéticos e musicais, próprios de uma atmosfera de encantamento. Reverenciam-se os pressentimentos e as premonições. A mulher grávida é uma profecia.
Durante o período, a gestante é um ser da invisibilidade. Valoriza os sentimentos, as vésperas das roupas, os detalhes, o tom da pronúncia, os rituais de cortejo e de carinho. Repara na melodia, enquanto o seu companheiro procura a letra. O homem é um animal da visibilidade.Presta atenção somente na escolha do nome, na identificação do sexo, quando a barriga cresce. Naquilo que é enxergado. Diria mais: a mulher é grávida por toda a vida; o homem, unicamente nos nove meses.
É natural sua cobrança para que seja mais assistida, mas ele não entendeu o que vem acontecendo. Pensa que é mais uma etapa da vida do casal, como o namoro, o casamento, a ascensão profissional, a compra da casa. Se ele é prático, não vai mudar na gravidez. Será inútil fazer roteiros turísticos pela sua imaginação. Mudará assim que nascer a criança. O filho oferece tudo o que o homem não entendeu de sua mulher antes. Temo que possa sofrer um desgaste maior na estima depois do nascimento do bebê. Já que o bebê tende a absorver a atenção, colocando a mãe em segundo plano.
Alguns homens acreditam que estão perdendo a mulher para a gravidez, outros acreditam que ganham a mulher com a gravidez.Talvez seu marido seja o primeiro caso e não perceba que ele também está grávido. Ainda não caiu a ficha.
Pode mandar cartas com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br
Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente.
Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo.
Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza.
Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado.
Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance.
Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido.
Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.
Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral.
É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.
Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra.
Lançamento do livro "O Herói Desvalido", de Maria Carpi (Bertrand Brasil)
Segunda (9/10), às 19:30h, Livraria Cultura Bourbon Shopping Country Av. Tulio de Rose, 80 Fone (51) 3028-4033 Porto Alegre RS
Sessão de autógrafos, leitura de poemas e debate.
Farei a apresentação da autora.
Acabo de receber o Prêmio Erico Verissimo pelo conjunto da obra. A decisão é da Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre. O projeto apresentado por Sofia Cavedon (PT) teve aprovação do plenário do Legislativo em sessão nesta quarta-feira (4/10), curiosamente Dia do Poeta e do meu padrinho São Francisco de Assis.
O bonito: meu pai (Carlos Nejar) ganhou o mesmo prêmio em 1981 e a mãe (Maria Carpi), em 1991.