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Fabrício Carpinejar


 

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Quinta-feira, Novembro 30, 2006

UMA AVE-MARIA
Arte de Gerhard Richter

Fabrício Carpinejar



Quando ligo para um amigo, cedo da manhã ou tarde da noite, e escuto sua dicção anasalada, teimosa, dormindo, desligo no ato. Por covardia, bato o telefone na cara da criatura. Não consigo raciocinar que acordei de vez o coitado e é tarde para fugir. Desligo. O cumprimento desaparece no tambor da ligação. Não prevejo que ele pode ter me reconhecido. Desligo no susto, no afã de não incomodar. O pudor de ser inconveniente impede o melhor juízo, e não percebo que fui grosseiro abortando a chamada sem me identificar. Se o cara tentar dormir depois, terá um pesadelo. Se acordar depois, será um pesadelo. Faço de conta que não telefonei. Torno-me um trote, um telefonema anônimo. Sou uma criança assustada com a própria respiração. Enfio-me, em seguida, debaixo das coberta da barba para me escurecer.

No final da aula, recebi a notícia de que uma de minhas alunas de Poesia havia falecido. Teve uma parada cardíaca aos 50 anos. Saudável, bonita, disposta, educada. Quase alegre. Quase porque seus olhos foram desenhados para a tristeza. As pedras e os cílios não seriam capazes de conter a inclinação de riacho. Seu pescoço a deixava ainda mais alta. Os cabelos armados de quem se demorava no secador. Maria Tereza. Conversei com ela na semana anterior, fez os exercícios, me entregou os temas. Maria Tereza. Ela recém havia ingressado na oficina. Compareceu a três aulas. Estava ali ao alcance de meu braço, de minhas pernas, de um giro da cabeça. Maria Tereza. Queria ter chegado mais perto. Mas juro que não sabia como chegar.

Ela permanecia calada ciscando frases do quadro-negro. As mãos arregaladas no caderno. Vejo o fundo vazio da sala, o lugar onde sentava, ao longe, para se proteger de mim. Sua mesa está limpa. Desmemoriada. Como uma muleta alugada que logo troca de dono. Ela não esqueceu a bolsa, não esqueceu o caderno, não esqueceu o livro, esqueceu de todo seu corpo debaixo da cadeira. Corro até a porta e tudo é ainda recente para falar. Estou aqui com sua letra viva e ela, morta. Seu nome vivo na lista de chamada e ela, morta. Não tenho para quem devolver minhas anotações ao lado de seus versos. Não entregarei seus trabalhos. Seus poemas esperavam uma resposta e agora eu aguardo sua pergunta. Poderia ser um bom-dia, poderia ser um olá, tudo que viesse de sua boca seria uma pergunta. Eu me contentaria com pouco, com nada, com flores amarelas do ipê na calçada, com o cheiro da cor. Antes era uma resposta, porque não suspeitava que era tarde. Que cada hora que passava comigo já era tarde. Estava me dedicando seus últimos dias e, seguro de nossa longevidade, confundi que seriam os primeiros.

Hoje tocou o telefone de madrugada. Alguém me ouviu e desligou rapidamente.

1:10 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 29, 2006

ÚLTIMO DIA

Hoje é o último dia (29/11) de inscrições para o processo seletivo do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos, HORÁRIO NOTURNO. As provas vão rolar no dia 2 de dezembro, das 9h30 às 12h (redação) e das 14h30 às 17h30 (questões discursivas). Quem tem mais de 25 anos, pode solicitar a realização somente da redação. Inscreva-se aqui.

11:29 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 24, 2006



A EX DE MEU MARIDO USA OS FILHOS DELE CONTRA MIM
Arte de Allen Jones
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Prezado Fabrício,

Seus préstimos me foram muitíssimo bem recomendados por um amigo com quem discuti, sem sucesso, a questão que passo a expor.

Tive um relacionamento com um homem que, quando conheci, era casado. Alguns meses depois ele se separou e hoje vivemos juntos. Eu adoro a vida que tenho com ele. Gosto dele, da companhia dele, dos beijos e abraços dele. Mas a nossa vida tem sido atribulada.

A ex-mulher dele tem criado inúmeros problemas com os filhos.

Fala muito mal dele e de mim. Fala mal para muitas pessoas, inclusive para os filhos. Os filhos dele estão ficando distantes, e ele sofre com isso. Os dois não vão à nossa casa, negam-se a me conhecer.

Além disso, é incrível a rejeição social que sofremos. Os amigos dele se afastaram totalmente. Dizem que não se interessam pela vida pessoal dele. Antes de ficarmos juntos, conhecíamos pessoas em comum. Essas pessoas ignoram o fato de estarmos juntos. Convidam para eventos e dizem claramente que, se eu for, eles não querem a presença dele.

Disso tudo parece que sou uma pessoa execrável, mas isso não é verdade. Eu trabalho duro, venho de uma família decente, cuido das minhas filhas. O único "pecado" que cometi foi o de me apaixonar por ele, enquanto ele era casado. Disso, pessoas que antes demonstravam até apreço e carinho por mim, passaram a me taxar como indigna.

Além de tudo isso (falatório, problemas com filhos e rejeição de amigos), eu ainda tenho problemas meus. Eu acho que o que fiz foi errado mesmo. Tenho uma culpa danada. E não aceito, até hoje, saber que ele, durante o período em que já estávamos juntos, e dizia que me amava, transava com a ex-mulher.

Houve coisas, Fabrício, de uma crueldade fenomenal. Ele, por exemplo, viajou com a ex-mulher num feriado. Mas ficava me mandando mensagens de amor no celular! Eu sofrendo como uma camela, chorando desesperadamente, e ele me mandando mensagens.

Eu não aceito isso, não sei se vou aceitar, e misturo todas essas coisas numa enorme confusão que me pesa no pensamento o tempo inteiro. Em resumo, não tenho paz!

Um abraço,

Silvia"


Olá, Sílvia!

Revolto-me com mães que utilizam os filhos como escudo para atrair seu marido de volta ou culpar a separação. Que abusam da inocência das crianças para gerar ressentimento. Que não são capazes de separar a maternidade da filiação, a paternidade da responsabilidade com os filhos.

Vamos por partes, com calma.

Apaixonou-se enquanto ele era casado, houve erro no início do relacionamento, mas não significa que roubou o marido de ninguém. Ele se deu a você. Ele permitiu que você entrasse na identidade dele. A sedução e a escolha foram mútuas.

Portanto, ele deve defendê-la de toda e qualquer rejeição.Não lamentar apenas as cisões, e sim mostrar aos filhos quem é a sua nova mulher, abrir espaço, salvaguardá-la das ofensas. As atitudes se tornam palavras, não o contrário.

Posso garantir: não destruiu a família dele, ampliou a família. Existem suas crianças e as crianças dele. É uma nova relação de força e aproximação.

Se os amigos se afastam, ele também precisa se afastar dos amigos e não ir a compromissos que excluam o casal. Isso é ultrajante. Afinal, formam um casal hoje e merecem - ao menos - um voto de confiança e a possibilidade de convivência. Ele não pode ser compreensivo e tolerante com as censuras, porém determinado e taxativo.

Indigno é alguém que não luta por seu amor, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis.

É natural que se veja sufocada de culpa. Está asfixiada de cobranças, sem encontrar saída para escoar as virtudes. Sofre de uma desvalia permanente, um sentimento derrotista de isolamento. A confusão não lhe dará paz, porque percebo que ele colabora, ainda que involuntariamente, em embaralhar o sentido de sua convicção.

Não é ele que está empregando o pretexto dos filhos para não sair de perto da ex-mulher? Faço uma pergunta apenas. Tente mudar o ponto de vista. Sendo passivo, ele não está discordando.

Será que o constrangimento não parte do seu marido? Não pode viajar com a ex depois de tudo o que aconteceu como se fosse natural. Nenhuma mensagem de amor vai recompensar o futuro ou abafar as vozes dos demônios do passado.

Pense bem: quando você se apaixonou, apaixonou-se pela vida que ele tinha, pelo ideal de família? Caso a resposta seja afirmativa, cuidado. A vida que ele tinha não existe com você. Terão que criar uma outra vida juntos.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:44 PM :: Comentários:

FRANQUEZA PARA MACHUCAR
Pintura de Allen Jones

Fabrício Carpinejar



Os casais terminam se odiando porque eles se reduzem. Eles se apequenam e não reparam na dispersão destrutiva. Se no começo ambos enxergam apenas o lado bom e se apaixonam; com a convivência, tomam gosto pela agressão gratuita. Não que o lado bom tenha desaparecido, é que não tem mais graça.

Com o pretexto da franqueza, preparam o veneno. Há uma esperança enganosa de que o pedido de desculpas apaga a grosseira, que a compreensão abole a ofensa, que a cumplicidade é maior do que as adversidades.

Não fazem por mal, mas fazem. Espancam o primeiro que aparece pela frente. O primeiro que aparece é sempre um ou o outro. Afinal, são os únicos que estão em casa.

Como se conhecem perfeitamente, os dois passam a listar os defeitos numa discussão ou numa tola conversa. Como se os defeitos dependessem de reprise.

Ele dá uma opinião sobre o casamento e ela o desqualifica, avisando que ele não tem base moral na família para dizer isso. E mexe os galhos podres sobre sua cabeça.

Ela chega com mechas no cabelo e ele lembra que é a terceira vez em duas semanas que ela volta do salão com um novo corte.

Ele põe uma camisa listrada todo feliz e ela pergunta se ele sairá desse modo ridículo.

Ela está nervosa com as contas do cartão e ele vem com um sermão de que gasta o desnecessário, sendo que parte do superficial são o sorvete e as frescuras que ele pede no mercado.

Ambos estão jantando com amigos e a mulher confessa que é impraticável dormir com os roncos dele. O marido, sexy e solto até o momento, quase morre de apnéia com o drinque.

Ela narra sua adolescência e os lugares que freqüentou e o cara consegue ficar com ciúme dos fantasmas e perguntar pormenores.

Ele recebe um elogio de uma mulher e ela, de pronto, chama a menina, que nem conhece, de piranha e interesseira.

Ela estaciona o carro numa brecha impossível. Ao invés de elogiar, ele declara que é o mínimo que se pode fazer depois de 45 horas de auto-escola.

Ele se sente um pouco mais musculoso, ela logo encontra com as mãos:
- Ainda tem uma barriguinha.

Ela compra lingerie e se assanha de perfume, ele confessa que teve um dia cheio. Um dia cheio que não apaga a televisão.

Ele tenta dançar, depois de inúmeras reclamações de que não se mexe em festas.
- O que você achou?, pergunta, eufórico, depois da balada.
- Melhor ficar parado, ela diz, categórica.
A mulher percebeu que ele se soltou exclusivamente nas músicas gays. Os braços histéricos e as pernas duras.

Ela é convidada para uma festa dos colegas e ele transforma sua ida em favor e sacrifício. Claro que ela não se diverte, termina entretendo o marido que não deseja se enturmar.

Os casais não necessitam se bajular, mentir, simular quando não se tem vontade. Mas é masoquismo não deixar que o desejo se torne memória, reprovar de modo permanente quem amamos, rebaixar quem depende de uma delicadeza. Ninguém ajudará sua companhia falando a verdade, mas sendo a verdade.

Intimidade é gentileza.

10:56 AM :: Comentários:




É neste domingo (26/11), a partir das 15h, o lançamento de meu livro infantil "Filhote de cruz-credo" (Girafa), ilustrado pelo amigo Rodrigo Rosa. Será na Fnac Pinheiro (Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros), em São Paulo. A atriz Kiara Terra, do grupo História Aberta, participa da leitura de fragmentos da obra. Minha infância espera por vocês.

A sessão de autógrafos de Porto Alegre (RS) está prevista para 16/12, às 17h, na Livraria do Arvoredo (Rua Felix da Cunha, 1213).

8:02 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 22, 2006

DESABAFO
Pintura de Allen Jones

Fabrício Carpinejar



Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele?

Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir.

É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade.

Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro.

Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu.

Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre.

Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto.

Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele.

O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo.

Amor nunca dirá: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos.

Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.

Não confie nisso que chamam de paixão. Não é amor. É uma maneira certa de nunca chegar a ele.

8:51 PM :: Comentários:

LANCHERIA CAFÉ DA MANHÃ
Pintura de Emil Nolde

Fabrício Carpinejar



Quando não tenho respostas, escuto o mundo. Pelas grades, cheiro as flores do vizinho, que prefere papoulas às rosas. Fico levemente irritado: as papoulas roubaram o cheiro de meu capote.

Vou comprar frutas, mais lento. Tenho dó das que estão estragadas e pisadas no fundo. Por pouco, que não me junto a elas. Presto atenção às palavras do cobrador de ônibus, como se ele fosse uma mensageiro involuntário. Estou sempre esperando uma senha, um símbolo, um conselho. Algo de fora que me esclarecesse. Ando dependente de um aviso. Vejo o quanto ainda acredito em anjos, fantasmas, árvores.

Qualquer aparição faz sentido: um cão estranho lambendo minha mão, um gato olhando para trás na linha dos muros, um pássaro que atravessa as janelas de casa por dentro.

Os olhos se embaralham em cartas de tarô. Fio-me na adivinhação e leitura das coisas pelas coisas. Toda pessoa que encontro na rua torna-se minha visita - nem preciso atender o interfone. Estou me aguardando em cada desencontro.

Ao me entristecer, unicamente um lugar me conforta. Não é a residência materna, como era de se esperar. É o boteco Café da Manhã, que não muda seu cardápio desde 1979. Uma pastelaria localizada na lomba da rua Riachuelo. Sento de frente ao balcão. Nada de mesas, nada de observar as calçadas no mesmo nível. Cadeira alta, dura, perto do fervor da cozinha e da movimentação dos atendentes. Sou um solitário acompanhado. Um solitário acompanhado de solitários em fila indiana. Na maioria dos dias, chovendo ou não, vejo-me como um guarda-chuva. É fácil confundir um guarda-chuva com outro guarda-chuva. Ali não!: sou um chapéu que não perde a forma e não se mistura com os demais nos ganchos.

Peço um pastel e um suco de morango. Meus cotovelos são os pratos. A cozinheira avisa que vai fritar um novo para mim. Respondo: é isso que preciso. Ela limpa o sorriso no avental.

Meu pai me apresentou o cantinho, espremido entre duas livrarias, e não deixei de freqüentar. É minha igreja, meu confessionário. Estou em paz - prevejo o que acontecerá nos próximos minutos. O suco não vem medido e contado. Recebo o copo inteiro do liquidificador, cheio até as bordas. Posso me servir do próprio cansaço da polpa.

Só dois locais usam aqueles azulejos verdes: banheiros e lanchonetes. As paredes não envelhecem, não há como riscá-las e diminuí-las com quadros. O dono me conhece de pequeno e finge que não cresci.

Pago R$ 6 para reencontrar a minha solidão.

10:18 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 18, 2006



ELA BEIJA OUTRO CARA PENSANDO EM MIM
Colagem de Jean Dubuffet
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Oie, Carpinejar! Tudo bom?

A sua fama de conselheiro amoroso está chegando ao Nordeste. E eu, com toda humildade, peço seus conselhos para este coração sofredor.

Minha história começa praticamente há um ano, quando recebi um e-mail de um site de relacionamentos e resolvi me cadastrar nele. No mesmo dia, encontrei a mulher da minha vida.

Ela, psicóloga, 23 anos na época. Começamos a conversar e perguntei o que ela estava procurando naquele site, e ela me respondeu que era o menino que Deus tinha prometido a ela. Marcamos um encontro e foi paixão à primeira vista.

Ela não queria nada sério. Tive de ficar numa marcação cerrada durante um mês e meio, colocando idéias na cabeça dela de que era melhor assumir o namoro. Na véspera de Natal, marcamos para ir um na casa do outro e todos perguntavam por que a gente já não assumia o namoro. Dito e feito: começamos a namorar naquela data festiva. Foi um ótimo presente, já que eu estava praticamente há dois anos sem um namoro sério, somente ficando ou arranjando namoricos fajutos.

Vivemos um conto de fadas, ela sempre dizia que eu era a 'encomenda', que era tudo que ela sempre sonhou. E eu repetia a mesma coisa.

A gente gosta praticamente das mesmas coisas, dividíamos os mesmos sonhos. Eu estava no começo de carreira em engenharia, ela também estava no começo de carreira em psicologia. Fomos descobrindo que tínhamos muitos amigos em comum e que todos adoravam saber que estávamos namorando. Diziam que um completava o outro. Ela sempre teve relacionamentos-relâmpago, que a família dela não aceitava. No meu caso, a família dela me adorava.

Entretanto, dava para contar nos dedos a quantidade de garotas que tinham passado na minha vida. Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela.

Começamos a ter pequenas brigas: quatro para ser exato. Ela tem um temperamento forte, dominador. Ela é de Áries e eu, de Escorpião. É briga na certa, mas sempre conseguimos superar. Mas eu também não nego fogo. Se eu tinha alguma discussão no trabalho, sempre levava a briga para rua, nunca deixei onde começou. Se fosse tão simples deixar nossos problemas debaixo da porta... Em um desses dias, lembro como hoje (6 de setembro), tivemos uma discussão feroz e ela resolveu ficar indiferente comigo até o dia 5 de outubro, quando ela resolveu terminar. A partir deste ponto, começa a minha aflição.

Eu começo a fazer todo tipo de 'chantagem emocional': ligar para ela, mandar mensagens de texto para o celular. Enfim, usei quase tudo e tinha já praticamente desistido dela. Há três domingos, ela me encontrou num site de bate-papo e pediu para a gente conversar no MSN. Eu não pedi a chance de tentar reconquistá-la e disse o que sentia ainda por ela: se ela assim desejasse poderia ser a minha única rosa pelo resto da minha vida. Ela respondeu: 'Não sei que te dizer', pedi que ela falesse com sinceridade, e ela novamente respondeu: 'Com sinceridade, gosto muito de você, mas não sei o que te dizer'. Vi uma janela e, na terça, mandei flores para ela. Ela não ligou de imediato para mim, mas também não estava esperando algum tipo de resposta. Mas ela agradeceu no mesmo dia, no MSN, dizendo que me adorava. Pois bem, neste meio tempo arranjei uma garota e ela estava tapando um buraco na minha carência afetiva. Na semana passada, eu a encontrei novamente no MSN e ela comentou que está com um rapaz, mas o beija pensando em mim! Ainda confessou que gosta muito de mim, mas quer deixar as coisas acontecerem. Também não posso te negar que estou na mesma situação que ela, já que estou com outra garota - e por sinal tenho que terminar com ela o quanto antes, para não ficar uma coisa mais séria.

Cara! Juro a você: não sei mais o que fazer. Como uma pessoa joga na sua cara que gosta de você, mas ainda assim fica com outro? Será que é isso que o povo chama de 'tempo'? Devo continuar insistindo? Ela me quer ou não? Cara... Preciso dos seus conselhos com urgência!

SOCORRO!

Abraços,

Rubens"


Nossa, Rubens, quanto sofrimento à toa.

Eu não aconselho afirmar que é a mulher de sua vida, faz um depósito exagerado na relação. O certo é chamá-la de mulher de uma fase de sua vida, pode ser que seja de várias fases de sua vida, tanto melhor.

Iniciou o namoro no papel submisso e não houve mudança de postura. É sempre o que vai atrás, o que se perturba, o que sofre, o que espera um sinal. Ela é quem manda e desmanda, define a direção e o curso da história. Deveria ter ocorrido alguma inversão de papel. Ela se mostra indiferente e, logo depois, carente, a transtornar suas razões. Corre no encalço dela como um louco e sua lâmina desorientada de palavras. Viraste um grude, que é o personagem mais abominado pela história feminina de todos os tempos. Aceitável sacrificar o orgulho por um amor, mas não a inteligência da sedução e a autonomia.

Desperdiça energia à toa. E, ainda por cima, desvaloriza as mulheres com que anda: "namoricos fajutos", "tapar um buraco de minha carência afetiva", etc. Ela percebe seu desinteresse por outras e se sente segura para fazer o que quiser contigo e quando quiser.

Não é mais paixão, é sadismo. Digo mais: vocês criaram uma atração de gato-rato, uma fixação pelo atrito. Quanto mais desespero, melhor. Quanto mais ela diz que fica com um cara pensando em beijá-lo, mais você a quer. Não é romance, e sim uma relação de poder. Ela quer manter o poder sobre suas decisões; o poder é charme, é posse, é sexual. Não acho que ele o ama ainda... O que identifico é tortura.

Sua desvantagem revela-se inclusive no reconhecimento menor de sua bagagem: "Ela questionava muito essa minha falta de experiências amorosas e a falta de flexibilidade diante da 'enorme' vivência dela".Desde quando o número de mulheres que amou significa que tem ou não domínio? Um dedo com aliança pode superar uma mão de aventuras. Uma mulher pode ter se relacionado com trinta homens e não encontrar nem metade de seu prazer. Faz favor, meu amigo, quilometragem funciona só para carro. Corpo é qualidade.

Eu desencanaria para salvar a estima. É ela que necessita reconquistá-lo, não o contrário. Deixaria que ela sofresse um pouco. Não necessariamente para voltar, para entender ao menos o seu sofrimento.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:33 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 16, 2006

VELHO-DO-SACO
Pintura de Jean Dubuffet

Fabrício Carpinejar



Tremia de horror do Velho-do-saco.

O Velho-do-saco poderia ser um mendigo, carroceiro, vendedor de vassouras, representante da Hermes, traficante de enciclopédia e amolador de facas. Sempre aparecia quando contrariava os pais. Comigo, não funcionava o aviãozinho. Se não desejava comer, alguém inventava de apertar a campainha e meu estômago e zum: minha boca virava uma colheitadeira. A mãe suspirava diante da mudança de atitude.

O velho do saco ficava ainda mais assustador quando perguntava o que ele carregava.

- Crianças, ora bolas!

A mãe respondia a seco, sem o mínimo de complacência. Atitude esquisita para quem se mostrava sensível e preocupada com entidades carentes e que ia toda santa manhã na igreja. Demonstrava indiferença com o destino dos meninos e meninas sufocados no tecido de estopa e afastados dos pais. Eu me revoltava com sua insensibilidade social.

O Velho-do-saco foi o primeiro seqüestrador que eu tive conhecimento. Sonhei várias vezes com ele e ainda desfruto de condições de fazer um retrato falado. Barbudo, olhos vermelhos, sem queixo, com roupas de lenhador e ouvidos imensos de concha de praia, entenderam?

Ele se parece com todo mundo, por isso é o Velho-do-saco. Ele se disfarça dele mesmo, o que deveria confundir a localização pela polícia. Agiu impunemente durante a infância inteira. Lia o jornal para conferir se foi capturado, o que ainda não aconteceu. Fui uma criança que acompanhava o noticiário policial. Não pude constatar os efeitos colaterais desse hábito precoce.

O Velho-do-saco gostava das esquinas com mais vento. Deduzia que seu ponto fosse o da rua Bagé com a Palmeira, perto de uma lomba. Passei uma tarde espiando sua ausência de binóculo.

De noite, os irmãos lembravam comigo das escalações dos times de futebol para afugentar o sono e distrair a obrigação noturna. O pai surgia no quarto para dizer que o Velho-do-saco estava fazendo ronda pelo bairro e que o silêncio era o único jeito de enganá-lo. Eu me escondia nas cobertas, ouvindo minha respiração e os dentes do coração mastigando o ar. Os dentes tortos do coração. Os dentes de leite do coração que nunca cederam lugar aos permanentes.

Recordei de tudo isso no Dia das Bruxas. A escola pediu para o meu filho desenhar o que lhe dava pavor.

Um colega dele providenciou o lobo mau, um segundo confessou covardia do escuro, o terceiro imaginou monstros no armário, a menina lembrou dos fantasmas, outra colega ilustrou a morte com uma cruz... Cartazes ocupavam a porta da sala de aula.

Perto da fechadura, o rabisco do filho reproduzia um homem de pernas para o ar. A legenda era ainda mais estranha e engraçada: Vicente tem medo de aula de capoeira.

É um alento descobrir que o Velho-do-saco se aposentou.

9:51 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 14, 2006

SERÁ QUE TE CONHEÇO?
Arte de Marisol Escobar

Fabrício Carpinejar



Não diga a uma mulher: "eu te conheço". Conhecendo há tempo ou recém conhecendo. É tudo o que uma mulher não precisa ouvir.

Imagino que não é por mal. Que diz: "eu te conheço", como a provar intimidade, a avisar que a observa desde antes, que recorda de suas atitudes. "Eu te conheço" não é para ofender, mas ofende. Não se guarda uma mulher na memória, uma mulher se guarda no desejo.

"Eu te conheço" parece que é um sinal de continuidade e permanência. O homem expressa sua preocupação em fixá-la, não perder de vista, acompanhá-la. Busca gravar as afinidades e documentar suas características. Funciona como uma bóia, uma bengala, um apoio.

Apesar disso, não diga. Morra afogado, mas não diga. Caia no silêncio, mas não diga. Pelo amordedeus. No casamento ou no namoro, na amizade ou no convívio do trabalho. Morda a língua, não diga. Cerre os dentes, não diga. Dito uma vez virá sempre poluir a boca.

"Eu te conheço" significa que ela está se repetindo. A mulher não se repete, ela apenas não terminou o assunto.

Significa que ela está esgotada de mistérios. Sem mistério, não há vontade de descobrir mais.

Significa que ela é previsível, soa como uma censura e advertência de que ela está fazendo sempre igual.

Significa que ela não tem mais nada a acrescentar. Que não é surpreendente ou atemorizante. A mulher quer dar medo para em seguida dividir o medo.

"Eu te conheço" não é o fim do amor, é o desamor. Uma obediência à fronteira. Acata-se um limite. Terminam-se o pressentimento, a intuição e o inesperado. O casal faz tão-somente mímica entre si.

"Eu te conheço" é encerrar alguém dentro de uma imagem, de uma projeção, de uma expectativa. É ter a lembrança do corpo ao invés do corpo.

"Eu te conheço" é covarde. É desistir da sedução, abandonar a cintura.

Não a conheça, desconheça sua mulher com toda a convicção. Escute com o ouvido da primeira vez. O ouvido da mão nos cabelos.

"Eu te conheço" torna qualquer pergunta depois desnecessária.

Não se defenda com "eu te conheço", desarme-se, facilite o riso mais do que as palavras.

"Eu te conheço" traz segurança e conforto, não a verdade, a verdade muda de idéia a cada gesto.

Pensaria muito antes de dizer "eu te conheço". Pensaria uma vida.

"Eu te conheço" é arrogância de saber mais do que o próprio futuro. E mostra que sabe menos do que o passado dela.

10:18 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 13, 2006

SOU UM CARACTERE CHINÊS
Arte de Paul Klee

Fabrício Carpinejar




Na escrita chinesa, apenas cinco caracteres permitem a leitura de primeira, sem combinação. Apenas cinco são desenhos que geram a compreensão imediata. Os outros 20 mil são lidos pelo conjunto. Uma letra ampara e completa a anterior.

A escrita chinesa é casada. Os ideogramas dormem juntos.

Eu sou um caractere chinês.

Sempre fui casado mesmo quando solteiro. Por dentro, casado. Por dentro, romântico e incurável. Por dentro, jurando viver toda uma vida com uma única mulher. Por dentro, singelo e pavorosamente crédulo. Já ouvi que sou ingênuo. Tentei ser ranzinza, cético e calhorda. Não funcionou, porque não me interessa a realidade, interessa-me se é possível. Sendo possível, insisto.

Não sirvo para imitar. Não sirvo para emprestar, dou e não reclamo. Dou.

Sou dos homens o pior. O que não se enxerga sem uma mulher o enxergando. Valorizo o que sou quando recebo de volta. Eu me atravesso numa mulher. Nem saio se ela não estiver em mim.

Nenhuma dor diminuiu meu casamento por dentro. Nenhuma dor me separou da ilusão de estar casado. Minha voz é casada, meus braços são casados, minhas pernas são casadas.

Sou tão casado que subestimo a separação. Separação não existe. O máximo que acontece é se afastar. Não há como apagar o que se avançou. Não há como riscar o caminho da boca. A boca não deixa pegadas. Não há como eliminar o que já faz parte do seu movimento, do seu caráter, do seu modo de segurar as palavras. Afastar-se é observar de longe, não abandonar.

Quem não é casado por dentro nunca será casado por fora. É uma escolha, não um estado civil. Um homem casado não depende de uma aliança para mostrar compromisso. Ele é a aliança.

Olho o céu com paciência. O azul não me cansa. Uma ave voando não significa que está partindo. Uma ave voando pode estar regressando.

12:09 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 12, 2006

FILHOTE DE CRUZ-CREDO



"Um apelido só fica se a gente não gosta. Quando se começa a brigar para não ter aquele apelido, aí sim as pessoas vão nos chamar daquele nome. A melhor tática para não ficar com um apelido que não se gosta é não revidar, não implicar e até aceitar. O apelido é do contra.

Calçava botas ortopédicas com ferro na dianteira, para tentar consertar os pés chatos. Minhas botas usavam aparelhos nos dentes.

As solas eram pesadas, eu me arrastava para subir ladeiras. Patins sem rodas. Ia lento como uma lesma no sol.

Naquele tempo, ninguém tinha dinheiro para comprar uma bola. Roubava uma meia da gaveta dos pais, enchia de pano e papel e inventava algo que lembrasse uma circunferência.

Confiava que jogava bem futebol, que as crianças saíam da minha frente porque não conseguiam alcançar e conter meus dribles. Sumiam, na verdade, para escapar de um pontapé da minha bota metálica e dentuça. Fazia gol, ninguém queria se machucar."


Já chegou nas livrarias meu novo livro infantil: Filhote de cruz-credo, lançamento da Girafinha (selo da Girafa). As ilustrações são de Rodrigo Rosa, que tornou a narrativa precisa, divertida e intensa. Conto a história de meus apelidos e de como superei as dificuldades de adaptação na escola.

A SESSÃO DE AUTÓGRAFOS SERÁ NA FNAC/PINHEIROS EM SÃO PAULO, no domingo (26/11), a partir das 15h30, com contação de histórias pela atriz Kiara Terra, do História Aberta

FNAC - Espaço Infantil
Praça dos Omaguás, 34 Pinheiros
São Paulo Telefone: 45013000


Editora Girafinha:
(11) 3258 88 78



FILHOTE DE CRUZ-CREDO
Autor: Fabrício Carpinejar
Ilustrações: Rodrigo Rosa
ISBN: 8599520237
Editora: A GIRAFA EDITORA
Número de páginas: 40
Encadernação: Brochura
Edição: 2006
Preço: R$ 27,00

2:08 PM :: Comentários:


Sábado, Novembro 11, 2006

UM COQUE GRISALHO PARA MINHA VIDA
Pintura de Richard Diebenkorn

Fabrício Carpinejar



Há homens que se imaginam com mechas loiras entre as mãos. Cabelos morenos, lisos, brilhantes. Cabelos cacheados, perfumados. Cabelos ruivos, intensos. Cabelos coloridos, disfarçados. Cabelos encharcados de vigor. Cabelos para dizer o quanto são jovens, o quanto são viris, o quanto são sedutores.

Eu me pressinto com um coque grisalho entre as mãos. O cheiro de tecido alisado com vapor. Ou da madeira encerada de varanda. Um coque caprichado, com toda a brancura de um inverno na serra. Um coque como uma cesta de laranjas desembarcando na fruteira. Um coque como um ninho, o ninho já é jardim e quintal para o pássaro.

Um coque grisalho como um novo ombro para a janela. Um coque grisalho e até o vento respeita. Um coque ao alto, como uma lâmpada que não se queima, que não depende de escadas.

Não é nenhuma perversão. Enxergo-me desde agora segurando os cabelos brancos de minha mulher. Envelhecido com ela, sem mentir a natureza de minhas sobrancelhas e esconder a fragilidade de meus braços. Fico excitado em estar com alguém que madurou e não perdeu o viço. Respeitar quem amo e amar quem respeito. Poder errar as lembranças para recuperar o desejo. A coragem de avançar para trás, não terminando de musicar a memória e de acrescentar datas.

Um coque grisalho entre os dedos já afinados de flauta. Os cabelos armados pelo costume de soltá-los somente na cama. Ver minha mulher se pentear de manhã, devagar, namorando o espelho como se o meu rosto fosse sempre perto daquele rosto. Seu apuro de ouvido, definindo se o cabelo está pronto pelo barulho fácil do pente.

As linhas dos lábios desenhadas pelo batom suave. Nenhum escândalo diante do tempo, nenhum pavor de mortalidade. A mesa da sala limpa de alegria e sofrimento. Limpa, com um vaso a mostrar seu centro. Nossas vozes dentro das vozes dos filhos dentro das vozes dos netos. Enganar o nome de quem chega. A amizade de entender as manias e não sacrificá-las com o julgamento. A maior aventura não é correr o mundo, é correr os olhos, aventurar-se pelo interior da casa.

Não desejo a juventude de uma mulher, desejo sua permanência. O que a faz recente não é o quanto ela se preservou, mas o quanto ela se entregou.

12:26 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 09, 2006

DESPEDIDA DE ANA
Não queria escrever este texto. Este texto é uma derrota.

Gravura de Klimt

Fabrício Carpinejar



Você mudou minha literatura, mudou a alma de meus sapatos. Você me deu um ventre e um filho. Você me ensinou a esperar na cozinha a bacia de roupas, para levarmos até o sol. Você soltou minha cintura, pesada, para que pudesse rodar como um pião. Você, tão você, tão eu. Como avisar ao amor que ele terminou se ele não precisou de meus conselhos? Como avisar ao filho que tudo dói sem um lugar certo para soprar? Você põe os travesseiros na janela, para a vizinhança invejar o nosso cheiro. Para a vizinhança sentir que um casal amou a noite inteira. Os travesseiros são o canteiro de flores e ervas que esquecemos de concluir na varanda. Hoje nossa janela estará fechada.

Você me amou em dobro, e eu acreditei que era dois. Eu a amei pela metade, você completou o que faltava.

Você se veste no espelho do banheiro e se confirma no espelho da sala. Você liga o secador e não escuta o telefone. Não me escuta agora gritando por você.

Eu sempre falei demais, eu sempre transbordei o café na xícara. A toalha de mesa não me perdoa. Transbordei-me e era o que menos tinha.

Minha mão esquerda está castrada. As palavras não têm sentido. A língua portuguesa morreu para um homem.

Vejo você mesmo quando não a via. Sua mania de deixar as toalhas molhadas na cadeira. Sua mania de se demorar na cama para não descer as escadas e pegar o jornal. Você: invisível. Que se levantava de noite várias vezes para atender o pequeno e eu não notava. Que se levantava em mim várias vezes para acomodar minha respiração e eu não notava. Você: de sono leve como uma fruta madura.

Você: de uma pureza devassa. A única mulher que me fez bonito. Que me fez sair da infância. Que puxou minha cadeira para sentar. Você, só poderia pintar as unhas para você, pintar as mãos, pintar a pele toda, ser uma tela viva pedindo sua assinatura.

Eu não era nada sem você. Sou o apartamento vazio. Minhas roupas já não me aceitam, perdi o tamanho e o número.

Você, tão você, tão eu. Nenhuma mulher soube mais do que você. Teve mais orgulho de mim do que você. Teve mais pena de mim do que você. Teve mais cansaço. Teve mais alegria. Você. Sempre você, no passado e daqui por diante. Minha amiga terrível, que explicou a verdade o que ela não havia vivido, que ensinou a paternidade a dar três beijos e uma história. Minha amante, muito melhor do que um vinho dormindo. Minha confidente, muito melhor do que um segredo guardado. Minha fome inédita, minha bebida, que devolve o gosto de boca para a boca.

Você que lia meus textos antes de publicar, nunca publiquei antes de sua leitura. Não vivia qualquer coisa antes de sua leitura.

Você, que todos falam que é uma mulher forte, e é forte porque não podia ser fraca. Ninguém a deixou ser fraca, nem eu. Nunca a deixei sofrer, pois se preocupava primeiro com o meu sofrimento. Você que fala poesia sem precisar anotar, que faz poesia para esquecer.

Eu não li o que estava escrito em meu próprio corpo. Você mudou minha literatura - pena que o homem não acompanhou.

9:56 AM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 07, 2006

QUANDO NÃO SE ESPERA
Arte de Giacometti

Fabrício Carpinejar



Você está cansada, peças mistas, roupa de terça-feira, a língua não pousa sábia, teve irritações no trabalho, não arrumou as unhas, andou pra cima e pra baixo com as botas, é o dia perfeito para não encontrar nenhum amor. Para descansar e ficar em casa, comendo chocolate e assistindo capítulos perdidos do seriado preferido.

Mas ele surge sem ser convidado. Ele aparece como para contrariar. É um amigo que não prometia atração, um colega que não demonstrava interesse, um conhecido que abre a guarda.

Ontem estava disposta, ontem estava perfumada e irretocável, ontem estava com chapinha e decote, ontem desejava que acontecesse. Hoje se sente um bagulho, acima do peso, acima da idade (se é jovem ou velha dependendo do humor), e ele se oferece, cheio de intenções e malícia, soprando palavras misteriosas, que confundem e a tiram para dançar.

Como explicar que não está depilada? Muitas amigas desistem do compromisso para manter a reputação das virilhas. O homem vai deduzir que ela não está a fim enquanto a razão é outra.

A verdade é essa: ele a convida para sair logo hoje. De repente, não haverá um segundo convite. Aceita contrariada, querendo retornar cedo. Não consegue se desvencilhar e enfrenta a decisão de ir até o fim ou deixar para depois. Arruma dezenas de desculpas infundadas, despropositadas, esfarrapadas como a lingerie que tenta esconder, que precisa terminar um projeto ou que tem reunião de manhãzinha.

Toda mulher teme perder o homem porque não está produzida e preparada. Mas o que o homem mais gosta é de uma mulher desprevenida. Uma mulher que supera os condicionamentos da beleza para se inventar. Uma mulher que surpreenda sua indisposição com a vontade da voz. Uma mulher com cara de quem se acorda, não com cara de quem vai dormir. Uma mulher que não aguarda o melhor momento, mas deixa que aquele momento, tão ínfimo e opaco, despretensioso e discreto, encontrar sua grandeza. É quando ela se dá conta de que terá que tomar banho mesmo nos lábios dele. É quando ela se dá conta de que terá que esticar as pernas para apertá-lo dentro.

Despreparados para o amor, o amor é sincero. Ao invés da sedução partir de frases escolhidas, escolhe qualquer cisco para o ninho e o ensina a voar. Uma gafe, um tropeço, um arrependimento não prejudicam a conversa, o que existe é cumplicidade, que pede água para manter a naturalidade da boca. Vocês não estão bêbados, vocês não estão irresponsáveis, vocês não enlouqueceram, nenhum motivo para esquecer, e a noite se molda aos seios como uma segunda pele.

A noite perfeita não é a noite prometida, com a expectativa de brilhar, a noite perfeita é a que não se espera.

11:50 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 06, 2006

RINDO NO AMOR, NÃO DO AMOR
Pinturas de Nicolas De Staël

Fabrício Carpinejar



O riso não costuma reinar no sexo. Já ouvi que é inibidor num espaço de concentração, tensão, num espaço para dentro. Os dois corpos hipnotizados, como serpentes seguindo a música. Entrelaçados pela corrente sanguínea do vento, pelo toque, pela expansão das unhas e cheiro selvagem dos lençóis. Como se não fosse permitido rir dentro da igreja e do quarto. Como se o amor fosse um segredo sério, um segredo lento.

Um riso dela: o homem pensa que ela está zombando do tamanho do pau e dos movimentos de seu corpo. Um riso dele: a mulher jura que ele está troçando de suas imperfeições e de sua experiência. Convenciona-se que o humor brocha. O humor traz desconfiança. O humor lança suspeita. Que o amor deve ser sério como um drama. Trágico.

Não foi isso que aconteceu com os dois. Ambos transavam com alegria. Com alvoroço festivo. No meio do gozo, passaram a rir desbragadamente. Rir da entrega mútua, do que foi recebido, do que foi oferecido, do mistério de estar pleno e sem volta.

Aquilo que fizeram foi mais do que desejaram. Aquilo que fizeram foi mais do que uma aventura. Aquilo que fizeram foi mais do que ouvir um ao outro, e sim falar um no outro. O rosto dele moldado no pescoço dela. Os seios dela apertados pelo seu peito. A simplicidade da ternura. Nadavam, andavam dentro dos braços, sem a ameaça da dúvida, sem remédio, as papoulas como sapatos descansando fora da casa. Todo beijo não pedia beijo, pedia soluço, sol no dia seguinte.

Não havia a gravidade da chuva, havia a graça da garoa. Não havia a maldade do meio-dia, havia o perdão da meia-noite. A boca diurna e a cintura noturna.

Davam-se como o vinho e a toalha de mesa, como as pétalas e os livros, como a plumagem do ninho e alecrim, como a cabeleira da névoa e os altos frutos.

Gargalhavam quando não sussurravam e nada diminuía o prazer. Desnecessária qualquer explicação sobre as risadas. Entendiam-se na absoluta ausência de explicação. Gemiam rindo. Gemiam misteriosamente rindo. A nudez abençoada pelas sombras.

Uma oferta. Uma paixão. Uma necessidade. Gemiam rindo. Nenhum arrependimento atravessou a cama. Nenhuma culpa desmereceu a voz. Rir é trocar a despedida pela véspera. Voltavam e se arremessavam, torneavam o tempo como queriam. Soltos pelo riso, nunca amarrados pelo grito.

Acreditava que chorar junto era a maior cumplicidade que existia. Mas rir durante o amor supera qualquer intimidade.

Amar na alegria é amar casando.

8:01 AM :: Comentários:

EMPAREDADO

Sou o entrevistado de novembro do Digestivo Cultural. Confira a entrevista abaixo e no site, conduzida por Julio Daio Borges.

A LITERATURA NÃO SUBSTITUI A VIDA
Segunda-feira, 6/11/2006

Por Julio Daio Borges


Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore - até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.

Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) - sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de "marqueteiro", tem uma resposta na ponta da língua: "Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho". Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser "o Wando da poesia". Carpinejar conclui, ainda, que é um "feio carismático" e alerta que "a literatura não substitui a vida". (JDB)

1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é "melhor" do que a sua mãe mas "pior" do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você - ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu?

As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos).

2. No embalo da pergunta anterior, como "se fez" poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? "Poeta", pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)?

Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo "escritor" na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista.

3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... - embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?

Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado - aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente.

4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos - inclusive na internet - alimentando o mito de que "qualquer um consegue"... Queria ouvir sua opinião.

Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente - depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um "sangue azul". Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam - raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores.

5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff - você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações - por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?

Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios).

6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma "unanimidade poética" como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra - do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, "o contínuo de si mesmo"?

Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi - algumas vezes - que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim.

7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 - de certo modo, a sua geração - com a crítica estabelecida ("Que crítica estabelecida?", perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha tem certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como "rebelde sem causa"?

Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.

8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu "consultório sentimental", e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?

Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela.

9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava "carpinejando"... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?

Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo.

10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que "intelecto" é também "vontade" (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros - ao contrário de você - reclamam demais e fazem de menos...)

Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.

12:26 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 05, 2006

RELÂMPAGOS DA FEIRA DO LIVRO


- Vicente, 4 anos, me acompanhou durante uma hora na sessão de autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre, na noite de sábado (4/11). Não cansou em nenhum momento, nem se desgrudou de meu pescoço. Eu assinava e ele desenhava. Criou vários tipos de carrinho: voador, com duas pernas, com pescoço de girafa, com chapéu de árvore...


- Na noite de sexta (3/11), eu e Fernando Chuí contracenando no espetáculo "Poesia Explícita ao Vivo", apelidado carinhosamente de "Canalha Romântico". Foi minha primeira apresentação ao seu lado. Emocionante alternar canção e poesia.

12:01 PM :: Comentários:


Sábado, Novembro 04, 2006

NA RECEPÇÃO DA POUSADA
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Esperava o motorista para me levar ao aeroporto de Confins. Apesar das largas paredes e muralhas, Ouro Preto não faz silêncio. Galos desregulados soltam uivos querendo acordar todo mundo. Malditos galos! Quais foram os lobos que os ensinaram a uivar, a enganar que o sol está próximo?

Quatro horas da manhã e o recepcionista do hotel combate comigo o sono, em secreta aliança. Um pouco por curiosidade, um outro tanto por obrigação. Ele me trata com zelo exagerado, reconhecendo-me como mais um fantasma de seu turno insone até 6h.

Durante um tempo, permanecemos calados. Oferece um café, para pingar voz e leite na sala. Enxerga minha coleção de isqueiros no bolso. E ri. Um riso que se assemelha ao esgar de choro. Foi complicado discernir o choro do riso, mas logo ele se recompôs. Homenzarrão. Podia me carregar nos ombros como seu filho pelas ladeiras da cidade e não cansar.

Pergunto se é casado. Maldita pergunta! Poderia ter perguntado sobre seu time de futebol. Onde mora. O que gosta de fazer. O que ouve de música. De todas as realidades, escolhi justo sua mulher.

Agora ele ri. Agora defino: rir é seu soluço. Confessa que montou uma coleção de 283 óculos. Não falou 300. Não falou 250. Foi preciso na numeração. Duzentos e oitenta e três. Afora o que comprava, vários amigos encontravam peças extravagantes em diferentes estados e mandavam para ele. De camelô a lojas, vestia óculos. Lembrou de alguns, de oncinha, de hippie, de boiadeiro.

Adorava quando sua mulher pedia para tirá-los e enxergar seus olhos.

- Ela sempre brincava comigo, que era fácil confundir a verdade com os óculos.

Adorava quando sua mulher cismava que ele não teria coragem de sair com eles e o chamava de bagaceiro.

- Bagaceiro, eu?

Emoldurou grande parte dos óculos e cobriu sua casa com a coleção. O escritório povoado de quadros com sua fortuna de aros e lentes.

Mas isso o que falo é passado, ou uma dívida do passado. Jogou fora a coleção, como o resto de sua mobília. Ele está viúvo há um ano. Desculpa, ele está viúvo há 283 dias. Ficou me julgando severo, a exclamar:

- Que coincidência, que coincidência, que coincidência.

Tive pena de mim por não falar mais nada.

Pôs a perder a coleção porque não fazia sentido. Não fazia sentido juntar durante décadas o que ele não necessitava.

- Eu deveria ter colecionado os olhares de minha patroa.

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REVELAÇÕES

Mariana, minha filha de 12 anos, continua investigando seu pai. Veja lá.

6:00 PM :: Comentários:

NOVO CARPIM
De Fernando Chuí e Fabrício Carpinejar



5:57 PM :: Comentários: