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Fabrício Carpinejar


 

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Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

QUE 2007 SEJA O ANO DOS "MALAS"
Gravura de Giacometti

Fabrício Carpinejar




Fiquei nos últimos dias sem celular. Com o aparelho, mas sem a possibilidade de fazer ligações. Recebia apenas chamadas. Foi um respiro e uma revelação. Revelação porque já me vi na mesma situação outras vezes quando me apaixonava, e não podia ligar para não soar como um chato ou como um dependente.

Aguardava uma resposta, pouco imaginando que a mulher também fazia o mesmo. Duas respostas aguardando não formam uma pergunta. Nem um casal.

Não compreendo porque o apaixonado não pode dizer que está apaixonado. Se ele declara, é taxado de precipitado e estraga o mistério. Que mistério? Todos os seus conhecidos sabem que ele é apaixonado, ela igualmente, o que tem ainda para esconder? É uma convenção que atrapalha a franqueza. Como o amor pode vingar, se ele já começa mentindo o que sente? O que há de errado em se expressar, narrar, caminhar pela boca?

Ao longo da vida, preferi perder relacionamentos para não ser um "mala", alguém que não se toca e teima. Não retornava aos chamados, me fazia de complicado, alegrava-me com os adiamentos. Estou reavaliando minha posição. Talvez o "mala" seja mais feliz do que o sedutor, porque ele acaba conhecendo o limite, as possibilidades de cada paixão, não vive de uma expectativa com pavor de fracassar. Ele vai até o fim, descobriu que a cerveja é mais gelada e barata na fossa. O sedutor acomoda-se no deslumbramento do início - e no pressentimento que seria perfeito se continuasse. O que não continua não é perfeito.

O "mala" é a consagração do inconseqüente. Deve sofrer, porém tem realidade para sofrer, não é como o sedutor que sofre do invisível.

O sedutor controla cada palavra ao seu respeito. Um narcisista capaz de anotar suas conquistas numa cadernetinha escolar. O "mala" não está preocupado com sua reputação, com que a mulher vai contar dele, do que deveria dizer. Ele fala com uma honestidade unicamente encontrada durante a fome.

As mulheres estão acostumadas com o que é difícil. Se for impossível, melhor. Infelizmente, não acolhem com generosidade o "mala". Observam a figura com ares de repulsa. Até repugnância. O "mala" é a contradição feminina, o que ela deseja no decorrer da relação, não em seu princípio. O "mala" pode ser mala depois, desde que simule resistência nas primeiras semanas.

Só que o "mala" não finge. Ele se denuncia no momento destinado a se conter, transparece seus temores com pontualidade. Não está disfarçado de homem sério. É um ansioso amoroso. Um suicida intelectual. Um nervoso infantil.

E é justo da insistência intrépida do "mala" que o amor precisa para ser carregado de volta à sinceridade.

8:36 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 26, 2006

MINHA FILHA COMPLETA TREZE ANOS
Pintura de Allen Jones

Fabrício Carpinejar



Não é a minha idade que determina que envelheço; é a idade de meus filhos. Costumo absolver minha erosão, dar um desconto às rugas e vincos, sair com a roupa malpassada do corpo, não me ameaçar com comparações do que fui e do que sou. Mas o que fazer quando sua filha completa 13 anos?

Treze anos? Calma, não consegui absorver. Quando ela tinha 12, não parecia tão longe, ainda era possível brincar de gangorra e enganá-la com desculpas.

Não mais a interessa uma piscina de 1000 litros. Muito menos poderei inventar penteados ou indicar roupas. Ela gosta de tudo o que não gosto. Sou o pai que ela precisa enfrentar, não mais o protetor que a colocou na bicicleta e retirou as rodinhas sem que percebesse. Resta-me esperar que ela tenha saudades de minha paternidade. Um dia, quem sabe, ver que algo ficou dos ciscos que soprei de seus olhos e descobrir que os ciscos são os meus olhos dentro dos seus.

Hoje Mariana completa 13 anos. Treze. Desculpa a repetição, estou me habituando. É um choque. Antes brigava pela festa de aniversário, por bolo, brigadeiro, branquinho, amigos ao redor. Não a agrada mais o estardalhaço de crescer. Prefere que as velas queimem sozinhas, longe da enseada da boca. Aos treze, ela não quer comemorar, ela se conforma.

De uma forma e de outra, terminou sua infância. Da adolescência vai para a vida adulta, sem volta. Não vou mais pegá-la no colo. Terei que tomar cuidado em não tocar em seus seios na hora de abraçar. Ela regula com minha altura. Pela primeira vez, não a olharei de cima. Ela me repreenderá mais do que concordará comigo. Sou obrigado a bater na porta para entrar. Nosso amor está cheio de cuidados e pudores. É um amor mais recôndito.

Ela será grosseira ao telefone e nem irá reparar (fui igual com os meus pais). Estarei sempre a atrapalhando. Ao aguardar a ligação de um guri, telefonarei na hora. Fará o possível para que desapareça rápido. Monossilábica, pronunciará bala ou palha diante de minhas sugestões. Usará fones nos ouvidos e vai recorrer à mímica para expressar sua opinião. Dirá que não a entendo mais vezes do que o necessário. E não a entenderei mesmo.

Chegou o momento de minha insônia, permanecer acordado mexendo a luz do abajur e da geladeira, até que ela volte das festas. Pais são sonâmbulos quando os filhos nascem e quando os filhos partem ao mundo. Terei que ser independente e justo, mesmo sofrendo de medo. Não receberei mais cartões e desenhos com a promessa de amizade eterna. É recomendável guardar um estoque de sua infância para visitar e não se desesperar com a falta de notícias.

Deixarei de ser seu ídolo. Serei mais humano e falível. Ela só me elogiará quando não estiver junto, para não me influenciar.

Minha filha tem treze anos. Ontem trocava suas fraldas, andava com um cueiro como manta, levava-a de carrinho para praça, enxergava seu riso trocando os dentes, serenava sua febre, mentia para viver mais de uma vez sua verdade. Era ontem, ela brincou de esconde-esconde e está debaixo da cama, com alguns anos que não percebi passar em seu rosto. O tempo não voa, a voz voa.

Minha filha agora me põe a envelhecer.

11:03 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 25, 2006

BRAÇADA DE ABELHAS

Fabrício Carpinejar


Foto de Evelson de Freitas/AE

Precisava levar uma rosa para a professora.
Meus colegas carregavam arranjos dia sim dia não.
Menos eu, que amava desperfumando.

Uma rosa que fosse sapato de abelha,
barco de pássaro, cadarço de espinho.
Podia ser rosa apenas.
Com o talo do tamanho de uma gravata,
que não ultrapassasse o cinto.

Uma rosa ainda aspergida, luzindo,
joelho escapando da saia.

Arriscado tomá-la dos jardins e quintais.
Havia sempre um conhecido na janela.
Um amigo de parente. Um cachorro latindo.

Percorria o cemitério antes da escola,
para ganhar dois quarteirões de vento.
As ruas tortas e as camas
sem a pressa dos hospitais.
Os acenos entre as letras. O acento
de pedra para o lado errado. As datas
fotografando o tempo deitado.

Em nome de minha professora,
roubei várias rosas das lápides.
Larápio, mudava de túmulo.
O coração morrendo de vergonha.
Arrumava a folhagem do vaso para despistar,
como quem preenche a falta de um livro
distribuindo os que ficaram.

Todo ano que passa, estou
devendo uma rosa nova a um morto.

(Poema especial de Natal publicado no Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25/12/06)

9:31 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

MAIS ROSTO
Pinturas de Paul Klee

"Suas mãos iam e vinham várias vezes. Meus raros cabelos tornavam-se longos com seus gestos."

Fabrício Carpinejar



Eu tenho cabelo curto. Curto é uma forma educada de dizer que não tenho mais cabelo. Tenho a lembrança do cabelo. Uma clareira. De costas, sou um monge beneditino. Só de costas.

Quando criança, meus cabelos eram claros, leves, nem pesavam. Voavam, será que esqueceram de voltar?

As franjas eram cortadas com uma bacia. Tornei-me um bleateamaníaco sem saber. Era o único loiro de casa, o que gerava ciúme entre os irmãos. Assim como alguém de olhos azuis sofre o olho-gordo dos castanhos. Deu no que deu: meus cabelos até que resistiram um bom tempo, mas caíram de inveja na maturidade.

Quando adolescente, não pensei em economizar o dom. Usei cabelo até cintura. Tentarei reconstituir, apesar de ter queimado todas as fotos da época: cordas de um violão atrás e franjinha na frente. Fui o primeiro caso de dupla sertaneja estando sozinho.

Não precisava esforço para definir meu destino capilar: bastava consultar os álbuns de retratos da família. Do lado materno, o avô Leônida ficou como eu, devastado, com a testa reluzindo, espelho ao sol. Assim como seus irmãos Aldemaro, Bedochi e Giannino, todos violinistas da Itália.

Por mais que eu tenha encontrado motivos para não entrar em depressão, justificativas para me assumir, eu percebi que me encontrava destelhado subitamente. Diante da televisão, num dia normal depois do serviço, cocei a cabeça de maneira despretensiosa e verifiquei enormes entradas, verdadeiras pistas de aeroporto.

Saí do meu conforto para conversar com minha mulher. Uma conversa séria, difícil, espinhosa. Demorei a iniciar, gaguejei, como quem vai revelar uma doença letal.

- Ana, estou sem cabelo... Você está casada com um careca.

- E daí?, ela respondeu, com alegre indiferença.

Achei que não entendeu a gravidade da situação e repeti:

- Você está casada com um careca, é propaganda enganosa, pode me devolver.

- Que nada, disse.

Ela se aproximou de mim. Tentei recuar, não adiantou. Seu passo era determinado. Subiu o pescoço e beijou minha testa, justo na área extinta.

- É melhor assim, eu tenho mais rosto para beijar.

11:14 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 19, 2006



IH...ELE NÃO ESTÁ PREPARADO PARA COMPROMISSOS SÉRIOS
Arte de Marc Chagall
Do Consultório Poético
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Para não perder teu tempo, nem o meu: como alguém apaixonado, que num dia me diz que eu era a coisa mais importante que tinha acontecido na vida dele, no outro cai fora do namoro de um ano argumentando que não consegue ter compromissos sérios e acha que falta gostar mais de mim pra seguir a história?

Fora outros requintes de crueldade, claro. Mas acho que a tua sensibilidade está muito acima de um comportamento desses. Tu nem deves saber explicar isso. Adoro tanto o que tu escreves. E sei que umas palavrinhas tuas colocariam um pouco de ordem no que se transformou a minha vida nos últimos tempos.

Beijos, Caroline"


Oi, Caroline

É raro o homem terminar uma relação por intensidade do amor. Como quantificar: é forte, é médio, é fraco? Não há bafômetro para o beijo a definir que a vida a dois está embriagada. Das duas uma, está ou não apaixonado.

Ele encerra o namoro quando tem interesse por uma outra mulher. Vem com um papo sentimental de que não gosta como antes, que precisa se dedicar à carreira e que não consegue ter compromissos sérios. Ou ele já cometeu a infidelidade ou está envolvido com uma menina. Não se espante se logo mais ele aparecer namorando em sua frente. E o pior, com alguém que conhece, do seu círculo de amizades.

Não iria esperar um ano para tomar essa decisão, posso garantir! Alguma coisa mudou no percurso que fez virar o leme. É óbvio que não adianta questionar, que ele não irá falar. É um escorpião brincando de siri. Mostra o temperamento de quem gosta de sair por cima, pela amizade, e não suporta críticas e discussões de fundo. Para deixá-la ainda mais apaixonada, optou pela "elegância masculina" da revisão e do tempo consigo mesmo. Posso estar errado, mas na maioria das vezes é assim: a crise pessoal acontece da cintura para baixo.

O homem nunca escolhe ficar sozinho. Quer ficar sozinho para escolher.

Revela que deseja sair com cópia da chave, caso queira voltar. Se a nova relação não vingar, regressará correndo dizendo que não vive sem sua presença e que pensou melhor a relação.

Para ele, não houve extremismo. Não mandou apenas notícias dos seus últimos dias. Sua confissão expressa uma encruzilhada. Não duvido que seja a coisa mais importante da vida dele, é ele que talvez tenha deixado de ser a coisa mais importante de sua vida. Vai doer, sim, minha amiga, mas a dor devolve a consciência.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

12:23 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

SAIDEIRA

Nesta terça (19/12), participo da última edição de 2006 do SARAU ELÉTRICO. O enredo é infância, Natal, nostalgia, apelidos, frutas e beijos roubados, namoro de portão, porta aberta. Ao meu lado como convidado, Rodrigo Rosa, ilustrador do meu livro infantil Filhote de Cruz-credo (Girafinha). Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno e Kátia Suman comandam a conversa. Canja musical de Vanessa Longoni.

O encontro acontece às 21h, no bar Ocidente (Rua João Teles, 960 Bom Fim Fone: (051) 3312-1347). Ingresso: R$ 8

6:48 PM :: Comentários:

CAMPEÃO DO MUNDO

Fabrício Carpinejar



Nasci numa família de gremistas. Meu pai convenceu os irmãos Miguel e Rodrigo a seguir com ele. Recebi uma camiseta do Grêmio como chantagem. Nunca usei: tecido de três listras era pijama. Vesti a camisa na bananeira do terreno baldio. Ficou lá amarelando com a chuva.

Cresci numa família de gremistas. Com irmãos soprando corneta, eu não torcia, eu me defendia em casa. A rivalidade arrebentou a porta do banheiro. Como só havia uma tevê em casa, sempre fui minoria. Apanhei algumas vezes, revidei outras. Em último caso, mordia e puxava cabelo. Meus dentes tortos serviam como abridor de lata.

Era para ter sido gremista. Fui colorado por teimosia, por não conter a voluptuosidade dos olhos quando avistava o uniforme vermelho. Não era questão de cor, era questão de temperamento. Não segurava a garganta com a entrada da multidão no estádio, os bordões alinhados, o coro grego, a unanimidade social de uma arquibancada.

Ser colorado foi o mais perto que cheguei do comunismo. Não havia ninguém para me levar aos jogos quando pequeno. Acompanhava meu pai no Gre-nal, na torcida adversária. Ficava quietinho, suspirando alto, louco para incentivar os jogadores. Tinha que me calar. Assisti, calado, várias vezes meu time ganhar. Absoluto silêncio, na impossibilidade de declarar meus gestos, meu gosto, minha vontade. De vez em quando, subia os ombros no gol do Inter, logo me recompunha e fingia xingar a zaga do Grêmio.

Ser colorado era uma desesperança. Uma resistência. As estrelas haviam sido preenchidas na geração anterior. Passei toda a década de 80 mudando de assunto na segunda-feira. Grêmio ganhou Brasileiro, Libertadores, Mundial, Brasileiro, Libertadores, não parava de crescer. Dos meus oito anos em diante, restava o caneco do café de manhã. Sofri humilhação, chacota, perdi a serenidade; de tanto xingar o juiz virei cafetão de sua mãe. Na entrada de Porto Alegre, um outdoor debochava que era a cidade do Campeão do Mundo. Olhava com desdém, o despreparo para esconder a inveja.

Fui tricampeão brasileiro durante a pré-infância, ou seja, em coma - não contava. Perdi vários campeonatos nas finais e nas semifinais. Time do quase. Com dois filhos colorados, faltava argumento para as minhas desculpas e desculpas para meu argumento.

No último domingo, quando meu time ganhou do Barcelona, não telefonei para meus irmãos. Não xinguei os gremistas, não desaforei, não desabafei. Chorei mais soluços do que água. Estava redimido, não precisava provar nada. Ninguém ganha o mundo por recalque. O Inter fez alguma coisa sem depender de seu rival. Uma vitória por ele. Para ele. Uma vitória sem vingança. Por merecimento.

4:23 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

UM PATINHO MUITO FEIO
Carpinejar lança "Filhote de Cruz-Credo"

PATRÍCIA ROCHA


Rodrigo Rosa ilustrou a saga de apelidos do escritor e poeta Fabrício Carpinejar
Foto: Rodrigo Rosa, reprodução/ZH



Placenta, Cara de Morcego, Panqueca. O dono destes e de muitos outros apelidos não se deixou levar pelas piadas dos colegas de escola. Depois de um tempo de maturação, em que mal saía da sala de aula no recreio, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar decidiu mostrar a cara para quem fazia troça da sua aparência: - Tem gente que coleciona borboletas, eu coleciono apelidos. Nasci com uma careta, não tem o que fazer.

Fabrício aprendeu a rir de si mesmo. Cresceu e transformou o dilema da infância em uma história bem-humorada para todo mundo que dá e recebe apelidos: o livro Filhote de Cruz-Credo, que ele lança amanhã, em Porto Alegre.

- Apelido tem que ser como doença de infância. Dá uma vez e depois passa - ensina.

A doença de Fabrício começou quando era pequeno. Um dia, saiu do banho, olhou-se no espelho e desconfiou que não parecia tão bonitinho quanto o pai e a mãe diziam. Na escola, veio a certeza: até a guria de quem gostava aderia aos apelidos.

- Não posso tolher a criatividade do outro. Dar apelido é uma forma de fazer poesia. Mas quem recebe o apelido não deve ficar quieto esperando o advogado. Ele é o próprio advogado - afirma. - Quando descobri que poderia dar apelidos também, acolhi melhor os meus.

Dos tempos de escola, sobrou um apelido - Bito, abreviação de Fabito, que era como Fabrício se chamava. Mas, de vez em quando, topa com um amigo de infância que diz:

- Panqueca!

Fabrício gosta, diz que cada apelido conta um pouquinho da sua história, que terminou em poesia, crônicas e nesta narrativa infantil, que rima com a beleza das ilustrações de Rodrigo Rosa.

- Hoje, tenho certeza de que o fato de eu ter sido feio me fez procurar a beleza - diz o poeta. - Sei que a beleza não está em mim, busquei-a no outro.


Trecho
"Nunca pergunte o motivo do apelido. Nunca. A resposta pode ser pior do que imaginava. Eu cometi o erro e perguntei.
Aproximei-me de Alice. Ela zombou de novo.
- Quer mesmo saber?
- Sim, quero.
- Ué, não reparou que sua cara é toda amassada?"


O QUE: lançamento e sessão de autógrafos do livro Filhote de Cruz-Credo, de Fabrício Carpinejar, com ilustrações de Rodrigo Rosa, editora Girafinha, 40 páginas
QUANDO: neste sábado (16/12), às 17h
ONDE: na Livraria do Arvoredo (Félix da Cunha, 1.213, fone 3268-6535)
QUANTO: preço sugerido de R$ 27

(ZERO HORA, SEGUNDO CADERNO, PG. 10, Porto Alegre, 15/12/06. Edição nº 15089)

8:28 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

FALTA DE TEMPO
Pintura de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Nunca temos tempo. Para ser e até para não ser. Para arrumar ou desarrumar. Decidi organizar a biblioteca e baixei todos os livros da estante. Um assalto, os livros no solo com pavor de minha reação. Foi um surto de um dia, mas que demandaria um mês inteiro para terminar. Quem disse que levei adiante? Os livros continuam deitados. O assalto virou seqüestro. Deixei a ânsia de corrigir minha vida e ordenar alfabeticamente os autores para outro momento.

Nunca temos tempo. Para trabalhar ou rever amigos ou descansar e desfrutar as distrações. O tempo de férias não conta, é um templo planejado, que mais se assemelha a um trabalho free lancer do que a uma espontânea inquietação. Passagens, hotel ou casa alugada, pagar as contas com antecedência, procurar alguém para controlar a casa, manter a água das plantas, isso que não possuo cachorro...

Não temos tempo a perder, muito menos a ganhar. Tempo é espaço, estar perto para conseguir voltar. Não tenho tempo para responder mensagens, não tenho tempo para ir à praça. Diversão termina rápido. Minha boca é um relógio de corda.

Meu tempo transformou-se curiosamente na minha falta de tempo. Sempre me desculpando, sempre alegando algum outro compromisso. Ainda mais para quem não aprendeu a dizer não. Eu desmarco, não nego nada. O constrangimento de cancelar algo me transtorna. Fico dias sem dormir aventando perdões absurdos. Qualquer contemporâneo tem vidas paralelas. E mortes paralelas também.

Existe um único antídoto para a falta de tempo. Um único. Estar apaixonado. Esquecer de si para inventar o desejo. O desejo transforma-se no próprio tempo. Tudo é adiado. A dispersão nos leva a reparar nas janelas, nos interruptores, nos sapatos dos colegas. As córneas se abaixam. Nada mais tem tanto significado do que se aprontar, ensaiar e aguardar perfumado o encontro. Passar as roupas é uma necessidade. Os vincos são desafiados com inusitada paciência. Depilamos a agenda. Compromissos sérios pulam de casas e horários. Antes imutáveis, as reuniões trocam de vôo de modo nervoso. O trabalho passa violentamente rápido. Não há o medo de ser demitido, o medo de se proteger, o medo de repetir as relações passadas, a segurança de prever. Cada um assume uma condição noturna, intermitente, o olhar abobado e a vontade excessiva. A imaginação pára a escrita em um só nome.

Aconselho a quem não tem tempo: apaixone-se. Perca a cabeça na guilhotina. Entregue seus pés para a espuma. Permita a cintura subir como um chafariz. Não pense que vai dar errado. O que pode dar errado já aconteceu antes. Dentro do tempo.

8:24 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

PROBLEMAS NO BLOG

O provedor Globo.Com está com dificuldades no sistema. Primeiro, o blog ficou fora do ar uma semana, depois sumiu parte do arquivo de outubro e novembro, agora desapareceram os comentários. Peço desculpas pelo transtorno. Já pedi conserto. A equipe do blogger não parece ser muito rápida. Ou o problema é mais grave do que eu imaginava.

12:16 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

PAPAI-MAMÃE JÁ TIVERAM FILHOS
Arte de Allen Jones

Fabrício Carpinejar



Já me recomendaram muito não conversar depois do sexo e ainda mais sobre o sexo. Que termina com o mistério. É uma regra do Dom Juan.

Não caio na ladainha. Sou um narrador mesmo quando estou de folga, sofro de cistite verbal. Desconfio que o laconismo signifique preguiça sob o disfarce de confiança. Na hora em que alguma mulher pede: "nem precisamos falar". Ou quando afirma que "o silêncio diz tudo", abro um parêntese. (Por favor, o silêncio não diz absolutamente nada. É unicamente silêncio. Não é tradutor de quem não fala).

É uma espécie de covardia abençoada, uma forma de cada um viver para seu lado e não afiançar a solidão. Não acho que a voz estrague o clima, que o diálogo diminua a intensidade, que abrir o que se gosta é assassinar a relação. Qual é o problema de se expor, identificar suas taras, ir além da respiração e recomeçar? Deixar rolar serve para bola de futebol. Não para o corpo que pretende fixar leveza e se deliciar.

Que diga sem pudor que adora sexo oral, que adora prender os mamilos, que adora dar a bunda, que adora ser pega em flagrante ou se envolver com estranhos. Casais temem o rosto um do outro, temem confiar segredos, temem a audiência pública de suas fantasias. Temem ser ousados demais ou travados e ficam no meio-termo, aguardando que a coragem compareça na próxima vez. Um crime ser educado quando a nudez desafora. Restrições combinam com remédio, não com a saúde.

Ao sacrificar a fala, acomoda-se na aprovação equivocada. Parece que a transa foi tão ruim que não permite comentários. Ou que alcançou sua condição sublime, que perdeu a língua.

Um tabu crer que o sexo foi feito para a concordância, que deve-se embrulhar o amor para comer sozinho em casa. Sexo não é uma conclusão fechada. Não é um julgamento individual. É uma sentença a dois, um júri popular. Que ambos melhorem dentro e fora do beijo.

Sexo não combina com o silêncio, sexo combina com o sussurro, com o gemido, com o palavrão. É mais teatro do que livro. Não para ser lido quietinho. Pede a expressão cênica.

No sexo, somos atores do próprio desejo. Uns canastrões, outros bem mais convincentes. Uns esperando o Godot, outros falando pelos cotovelos como as personagens de Lorca.

Vou viver pela boca.

12:36 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

MEU PIJAMA MONOCROMÁTICO
Pintura de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



Com os filhos, queremos ressuscitar nossa infância. Fui comprar pijama para o Vicente, de 4 anos. Passei nas lojas mais descoladas com ele a tiracolo e não encontrei um conjunto que servisse. Não era problema de número, nem de falta de mercadoria. O problema era eu.

Não achei um pijama como antigamente. Pijama inconfundível, com cara e temperamento de pijama. As atendentes mostravam apenas roupas que poderiam servir para passeio e festas com o título falso de pijama.

Bermudas e camisas estampadas com figuras da hora que não se diferenciavam em nada daquelas que pulam das gavetas do seu armário. Desde quando bermuda e camisa coloridas formam pijama?

Cadê o conjunto monocromático que ninguém duvidava antes de sua natureza sonâmbula, que poucos teriam a coragem de ostentar na rua? Pijama mesmo, com sonoplastia de telenovela, de tecido leve para trafegar entre a janta e o café da manhã. Pijama como roupa para dentro. Pijama que tinha como único parente possível à malfadada ceroula, calça colada que a mãe me obrigava a botar no inverno debaixo do uniforme.

Pijama que combinava com os cabelos em pé e os olhos remelentos. Com uma caneca de Nescau e bocejo de urso.

O pijama representava um segundo lençol, uma segunda cama, as bainhas arrastadas na cozinha. Nosso cheiro dormindo. Minhas melhores noites dependiam se o pijama estava limpo, seco e passado.

Agora os pijamas são trajes para sair, vestuário freqüente na praça, na piscina, na lanchonete, sem causar um ruído de estranhamento.

Na minha época, sair com pijama para recolher o jornal era sair pelado. Um risco, atenuado com pedaladas cronometradas e rápidas corridas com a porta entreaberta. Atender visita de pijama respondia a um constrangimento. Ou expressava um grau severo de intimidade.

Hoje pijamas são peças comuns, que mostram a pressa dos casais. Os filhos dormem daquele jeito e estão prontos para sair. Não precisam se arrumar. Já dormem vestidos de escola. Não têm folga para se desapegar do sono, negociar com a luz e fazer chantagem com as janelas. Mal levantam e são intimidados a pegar suas coisas e voar pelas escadas. Até os pássaros gozam do direito de trocar a voz quando acordam. Sem o pijama, descemos roucos com o sono ainda dominando os movimentos.

Sou favorável ao velho pijama. Nem tanto ao pijama velho. Pode me rotular de nostálgico, de saudosista, de conservador, argumentar que o figurino atual é bem mais atraente. Sei que é. Questiono o sacrifício do costume que se escondia no pijama e que permitia ficar mais tempo com os filhos. Mais tempo com a hibernação da casa no corpo.

Coluna de novembro/2006 do Clube da Calcinha

7:38 AM :: Comentários:

CANALHA ROMÂNTICO EM SOROCABA

O Sesc de Sorocaba (SP) é palco do show "Canalha Romântico" nesta terça-feira, 5/12, a partir das 20h. Narrando as agruras e delícias de um casamento, o espetáculo consolida minha parceria com o músico paulista Fernando Chuí. Apresentaremos letras inéditas como "Telhados" e "O Homem Precisa".

O público poderá conferir onze músicas de Chuí, parte do recém-lançado CD "Nunca vi Mandacaru". Farei a leitura de dez crônicas, cinco delas do meu mais recente livro "O amor esquece de começar" (Bertrand Brasil) e cinco de "O homem quando chora", com publicação prevista para 2007.

SERVIÇO:

O quê: Canalha Romântico- espetáculo com a participação do músico Fernado
Chuí e do escritor Fabrício Carpinejar

Quando: dia 5/12 (terça-feira), 20h

Onde: Sesc Sorocaba (Av. Washington Luis, 446, Jardim Emília, tel: (15)
33329933).

Entrada franca


7:35 AM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 03, 2006


Zero Hora, Caderno Vida, Porto Alegre, 02 de dezembro de 2006. Edição nº 15076

"A vida não recompensa o fumante. E o cigarro não recompensa a vida. Pelo menos pensa nisso, pai, e saiba que não pretendo estragar seu dia, mas apenas consertar todos os seus dias a partir de agora."

POR FAVOR, PARE AGORA
Carpinejar não quis enfrentar a luta contra o vício sozinho, criou um blog, onde compartilha a cotidiano de quase ex-fumante

LEANDRO RODRIGUES

Foto(s): Adriana Franciosi/ZH

O poeta Fabrício Carpinejar acredita que durante este verão vencerá a batalha contra o cigarro, contando com o apoio da filha, Mariana


Com frases como essa, em um e-mail enviado no começo de setembro, Mariana, 12 anos, levou o pai, o poeta e jornalista Fabrício Carpinejar, a tomar uma decisão: largar o cigarro. A jornada revelou-se mais dura do que ele imaginava. Mesmo assim, ele sentencia: é irreversível, o cigarro está com os dias contados.

- Até agora, o máximo que consegui foi ficar cinco dias sem fumar. Mas com aquela correria da Feira do Livro, não segurei e voltei. Terei de mudar a minha rotina para não recair. Vou conseguir isso nas férias de verão, com o apoio e a fiscalização da Mariana - diz o poeta.

Carpinejar não quis manter em segredo a agonia de um viciado em nicotina. No seu blog na Internet, escreveu sobre a difícil tarefa, de 16 a 28 de setembro. Foi uma vitrina virtual de um fumante sofrendo os efeitos da ausência do tabaco e refletindo sobre isso. A solidariedade não tardou a surgir.

- Abordei isso no blog para não me sentir tão só nessa luta. Criei uma novela da minha experiência. E também para mostrar a quem não fuma que não é fácil, isso é um vício. Recebi muita solidariedade dos internautas - afirma.

Ele se descobriu mais dependente do cigarro do que imaginava, após 16 anos fumando. Nos dias em que evitou dar uma tragada, foi sentindo a evolução da síndrome da abstinência da nicotina. O humor e o trato com as pessoas foram os primeiros a sofrer. As mãos começavam a tremer, e os delírios o acometeram à noite nas primeiras 24 horas sem a companhia da fumaça.

Pneumologistas asseguram que esses efeitos não são exagero ou "fiasco" dele. Eles alertam que o cigarro é muito potente. Uma máquina perfeita para viciar: pequeno, barato, de fácil acionamento e rápido efeito. Apenas sete segundos separam a tragada da absorção da nicotina pelo cérebro.

- Usamos gomas de mascar e adesivos para repor nicotina e reduzir os efeitos da abstinência nos primeiros dias, mas é difícil. Nada oferece tanta nicotina em tão pouco tempo - afirma José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

A pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira, que coordena o Programa de Tratamento do Tabagismo no Hospital Conceição, alerta que muitos fumantes necessitam ajuda médica para conseguir largar o cigarro. O aviso parece certeiro no caso de Carpinejar.

- Vamos ver o que será nesse verão, com as minhas férias. Se não der certo, vou procurar ajuda médica. O importante é que eu já decidi, não vou recuar - promete.

( leandro.rodrigues@zerohora.com.br )

Tentativas
O que você pode fazer em casa antes de procurar um médico:

* Marque o dia D para largar o cigarro, faça dele um momento especial, marque algo diferente para fazer

* Pense no que poderia mudar na rotina. Buscar atividades diferentes ajuda muito. A idéia é quebrar as associações que existem entre fumar e a sua rotina, evitando certas situações e ficando longe de fumantes

* Você poderá ficar ansioso, irritado, com dificuldade de concentração e ter dores de cabeça por causa da falta da nicotina. Fique firme, isso passa em, no máximo, duas semanas

* Se sentir muita vontade, você pode escovar os dentes a toda hora ou comer uma fruta. Não fique parado na fissura, converse com um amigo, distraia a atenção. Saiba que essa vontade forte não dura mais do que cinco minutos

* Que tal guardar o dinheiro que você gastaria com o cigarro e contá-lo no final de cada semana? Pode usá-lo para fazer algo diferente

* Voltou a fumar? Saiba que isso não é fracasso e nem significa que você não vai parar de fumar. Você nunca volta à estaca zero, cada tentativa de largar aumenta as chances de sucesso. Procure um médico para ter ajuda mais personalizada ou em grupos

Fonte: Instituto Nacional do Câncer

DAR UM BASTA


Foto(s): Adriana Franciosi/ZH

A possibilidade de surgir um remédio que libere o fumante do vício está fora de cogitação no momento. É a determinação de abandonar o tabagismo, a consciência absoluta dos males do cigarro que fará a diferença. Os repositores de nicotina (gomas de mascar ou adesivos) e antidepressivos apenas tornam o processo menos doloroso. Não há solução mágica.

- A primeira coisa que fazemos é avaliar o grau de motivação para largar o cigarro e o grau de dependência. A partir disso, definimos como o paciente quer, se largar de uma vez só ou gradualmente, e quando vai começar. A isso agregamos a medicação - resume a pneumologista Maria Eunice Moraes de Oliveira.

Ela explica que se analisa a rotina do paciente para mapear as ocasiões onde o cigarro é aceso. Há "gatilhos" para cada pessoa que devem ser identificados. Uns não conseguem falar ao telefone sem fumar, outros acendem o cigarro quando ligam a TV, e aí por diante. Nessa fase de mudança, entra a terapia cognitivo-comportamental. E quando a fissura começa a bater, os medicamentos fazem sua parte. Geralmente, o uso de repositores de nicotina e antidepressivos é feito durante três meses.

Neste mês, na França, será lançado um medicamento que pode deixar para trás o que se usa hoje. A vareniclina bloqueia a entrada da nicotina no neurônio. Em caso de recaída, o fumante não sentirá o mesmo prazer, pois os receptores da nicotina no cérebro estarão "tampados". No Brasil, a vareniclina deve chegar em maio de 2007.

- A julgar pelos resultados dos ensaios clínicos, esse remédio parece muito promissor, dobrando a chance de sucesso na tentativa de parar de fumar - diz José Miguel Chatkin, coordenador do Ambulatório de Auxílio ao Tabagista do Hospital São Lucas.

Os benefícios do chega

* Após 20 minutos: a pressão e a pulsação voltam ao normal

* Após duas horas: não há mais nicotina circulando no sangue

* Após oito horas: o nível de oxigênio no sangue fica normal

* Entre 12 e 24 horas: os pulmões funcionam melhor

* Após dois dias: o olfato percebe melhor os cheiros, e o paladar sente melhor a comida

* Após três semanas: a respiração se torna mais fácil, e a circulação melhora

* Após um ano: o risco de morte por infarto cai pela metade

* Entre cinco e 10 anos: o risco de sofrer infarto será igual ao de pessoas que nunca fumaram

Fonte: Instituto Nacional do Câncer

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UM VELHO TANGO 78 ROTAÇÕES
Márcia Denser raspa o álbum de uma família incestuosa em Caim - Sagrados Laços Frouxos

Fabrício Carpinejar*
Especial para o Estado



Só uma escritora hoje diminui minha saudade de Hilda Hilst: Márcia Denser. Ou La Denser, como ficou conhecida. No fim da década de 70 e início de 80 vibrou a pasmaceira da estante com seu alter ego Diana Marini (O Tango Fantasma e Diana Caçadora), mulher fatal, inteligente e desbocada. Uma figura que pensava sexo a cada tragada. Aliás, fazia sexo para pensar e não esquecer da vida. Mulher auto-suficiente, tão independente que nem precisava dos homens para ser ela mesma. Uma divindade, que equiparava o prazer físico ao prazer intelectual. Diana gozava com os dedos no teclado.

Márcia pagou alto o preço de ser admirada por Paulo Francis, Rubem Fonseca, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Wilson Martins. Ainda paga com a melhor literatura. Não tem sentido ser chamada de musa dark, mas continua musa. E agora lança Caim - Sagrados Laços Frouxos.

Diana Marini torna-se Júlia. Uma transformação que implica em serenidade, consistência psicológica, sem nunca perder o enfrentamento.

O livro é construído como um diálogo teatral, dilacerado, entre Júlia e sua irmã Amanda, prestes a dar à luz. O nascimento do filho é antecedido por um ajuste de contas. Não é a melhor hora. Entretanto, o receio de transmitir o fardo da família para uma nova criança impõe a revisão do álbum de família.

Não há pausa, respiro. Não agüentam a proximidade, muito menos agüentam igualmente se distanciar. Com a separação, resta a culpa; com a convivência, a raiva.

Um verniz do cinema cênico e venenoso de Ingmar Bergman: a palavra colada na expressão do rosto, tensa e contorcida, a desejar uma trégua que não chega. As dúvidas entre a racionalidade e a loucura que todo o desabafo traz. Os rituais escondendo os crimes e segredos de sangue. Afloração, defloração. Movimentos contínuos de recuo, choques e disputas. Provocações, sustos, blefes e cortes. Um livro nervoso, trancado, truncado. Com o perdão, ninguém sai ileso. Isso é o que demonstra Denser.

As conversas são de ordem intelectual. Não copiam ou imitam a realidade. Contrariando o mimetismo da maior parte das narrativas atuais, representam uma conversa entre ideologias e convicções. Denser não empobrece a literatura com a realidade, realiza a literatura como um mundo à parte, uma paródia desafiadora de idéias ou um pandemônio de desejos descontrolados.

As histórias de quarto-cozinha são reprisadas em uma insana tentativa de entender as dificuldades das duas de aceitar o mundo. São como gêmeas da vergonha (ou do medo). Desde o bisavô Maximilian Hehl, vivem em uma casa recheada de incestos e casamentos entre primos-irmãos, com filhos deficientes e tabus.

A marca de Caim está no lábio leporino, "sinal de nascença" dos integrantes da família. O lábio é uma cicatriz antes de ser boca. Uma memória coletiva sobrepujando a individual. Uma purgação, uma condenação perpétua igual ao anti-herói bíblico, fadado a vagar pelo mundo sem a possibilidade de morrer.

Júlia representa a escritora solteirona, decidida, culta, um pouco recalcada, um pouco raivosa, um pouco fora de si. A ovelha negra. É Diana Marini em forma no sarcasmo: "Quando você me fala em destino me dá vontade de sacar a pasta de dente." Há uma dificuldade de aceitar o afeto. Agride para se defender, incapaz de esconder o ciúme que sente da irmã. Julga as aparências de sua margem confortável e troça da estabilidade e das instituições por não se enxergar dentro delas.

Não existe como confiar em nenhum dos familiares, que invertem com facilidade os papéis de vítimas e algozes. Oferecem versões, não verdades. Em cinco capítulos, Márcia Denser cria uma atmosfera de paranóia e desconfiança. Opiniões tendenciosas, mutáveis de acordo com o fôlego moral de seus interlocutores. Ao alterar o passado para agradar ou suportar, a linhagem de Júlia e Amanda segue a sina e não modifica o futuro.

Um dos méritos da obra é a sobreposição psicológica. Além de diferentes relatos de outras épocas, Denser se põe muito na personagem. Transfere-se para confundir. Citações de autores como Thomas Mann, Byron e Coleridge, e explicações dos mitos e deuses gregos caberiam perfeitamente em entrevistas da própria autora. O recurso da metalinguagem soa enganador. Uma falsa identificação, já que quanto mais se parece com Denser menos é Denser. A protagonista alimenta a crise existencial com sua fossa literária, a ponto de provocar os acidentes para ter assunto. "Que prazer indescritível imaginar que talvez fosse Caim que estivesse querendo escrever-me e não eu a escrevê-lo."

Como um velho tango 78 rotações, os ruídos fazem parte da música. Os ruídos e as elipses são a música desse perturbador romance. Afinal, não há parto sem dor.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

(SERVIÇO)
Caim - Sagrados Laços Frouxos, Márcia Denser, Record, 144 págs., R$ 31,90

Publicado em O Estado de São Paulo, Caderno 2/Cultura, 3/12/06

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