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Fabrício Carpinejar


 

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Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Com a providencial ajuda de Charles Pilger, que me inspirou a criar esse blog em 2003, decidi melhorar para permanecer e festejar os 300 mil visitantes. Meu blog está em um novo endereço. Atualizem.

10:39 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Janeiro 08, 2007

A MEGERA
Pintura de Salvador Dali

Fabrício Carpinejar



Há um tipo de mulher que me irrita e me deixa totalmente abatido: a megera. Só ela me dá vontade de alterar o passado. Eu me envergonho do sol que bate em minha janela.

Corrigindo, a megera não é uma mulher, é a falta de mulher. Tampouco é um homem, é a ausência de sexualidade.

A megera não é mal-amada, ela não ama.

A megera dirá que você abandonou os filhos quando na verdade se separou dela.

Ela não sairá do passado porque não tem futuro.

Fará com que seu filho o odeie, não suporta odiá-lo sozinha. É incompetente até para odiar.

Produzirá na criança uma bomba-relógio contra o pai, a explodir na adolescência.

A megera educa seus filhos para não ter amigos e amores. Amigos e amores afastam os filhos dela.

Tentará atingi-lo sempre usando as crianças contra você.

Sua malícia é revestida de ingenuidade infantil.

Depois de meses sem notícias, telefonará para ofendê-lo de pai ausente, quando é ela que não deixa a criança conviver sem culpa.

A megera é a Idade Média.

A megera costuma falar mal de você de propósito na frente do filho.

Incitará com que os filhos questionem sua atual esposa. Que briguem com ela. Que provoquem. Qualquer tapa moral que a atual esposa der no filho para repreender, a megera armará um barraco alegando que seu filho foi espancado.

Ela pode bater no filho de cinto, mas não permite que ninguém rivalize com sua raiva.

É fácil reconhecer uma megera: ela não mente, ela exagera. É incompetente até para mentir.

Ela não se depila, ela se corta.

Sofre por não fazer sofrer.

Ela tem filhos e cria os filhos para dizer que fez tudo sozinha. É a vítima de sua própria ambição. Depois não consegue sucesso profissional e amoroso e culpa os filhos porque foi obrigada a ser mãe em tempo integral.

A megera não é mãe em tempo integral, é ex-esposa em tempo integral.

O triste é que os filhos não podem se separar da megera, como o pai.

A megera terá sua família para fingir que ela não é uma megera.

A megera é incapaz de falar "tudo bem?", logo pergunta "O que foi?"

A megera entrará na Justiça para avisar que você é rico e famoso e sonega rendimentos. Nunca diga sequer uma vírgula para a megera, ela não é confiável nem num enterro.

A megera está se lixando para felicidade dos filhos, para a compreensão entre os irmãos de outros casamentos.

A megera não conseguiu ser feliz, é seu propósito não deixar ninguém mais ser.

Pelo bem dos filhos, a megera esquecerá os escrúpulos.

Ela quer aparecer na foto quando não foi convidada.

A megera é a bomba-relógio que deveria ter explodido na adolescência.

A megera colocará seu filho no psicólogo, mas esquecerá de ir ao psicólogo.

A megera estará sozinha enquanto escrevo esse texto. Nenhum homem suporta que ela fique falando do ex.

Ela transforma a separação numa briga de condomínio.

A megera pedirá para que fique com os filhos quando está interessada em viajar.

Será educada somente quando não tiver opção.

Ela encontrará um jeito de não permitir que seu filho viaje contigo.

A megera é o fracasso do amor.

2:20 PM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 07, 2007

FILÓSOFA VIVIANE MOSÉ LAVA AS PALAVRAS
Escritora mostra sensibilidade e talento para poemas em duas obras

Fabrício Carpinejar*

Quase sempre, o poeta inicia o percurso pensando que sua vida rende poesia. Confunde a pulsão emotiva com o excesso biográfico. Conclui equivocadamente que basta sentir para escrever poesia. Mas sentir não faz poesia. Quem sente é poesia, não poeta. O poeta é o que não sente e se esforça para sentir. A emoção não apanha a realidade, apanha da realidade.

A poesia não é a própria vida, porém a vida em choque com a vida dos outros. Sua ausência devolvida na ausência próxima. O alheamento é intimidade; a observação, residência.

Sabe disso muito bem a filósofa e psicanalista Viviane Mosé, natural do Espírito Santo e radicada no Rio de Janeiro, que se tornou popular após apresentar o quadro Ser ou não Ser, do Fantástico (Rede Globo), onde explicava assuntos espinhosos da filosofia numa conversa simples e cotidiana. Ela se transfere com domínio para o outro. Realiza um translado lírico de vivência. Um empréstimo de casa, corpo e lugar. Sua ambição é estar fora de si.

Nos últimos dois anos, publicou: a bela antologia Receita pra Lavar Palavra Suja (Arte Clara, 2004, 91 págs.) e o lançamento Desato, a registrar suas performances poéticas em eventos como CEP 20.000 do Rio de Janeiro.

O desejo de experimentar a estranheza se revela em dois momentos preciosos:

"Desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo, querendo."


(Receita pra Lavar Palavra Suja, pág. 3)

"Como eu queria escrever a história de um homem em uma janela de trem em Minas, de terno escuro de linho e óculos, olhando a menina moça que vende doce de leite em forminhas de empada. Ele olha pra ela, depois o foguista ganha uns peixes do rapaz que um dia vai enamorar dela e casar. O rio corre ao largo sempre ralo e barrento. O homem do terno escuro olha como eu gostaria de ter olhado, a estação e a menina, que nem percebe o rapaz que deu os peixes e mora na pensão. Marília talvez fosse o nome dela. Marília de vestido amarelo amaria na relva o rapaz, somente para que eu pudesse compor o amarelo em Marília, ou o amor dos dois na relva. Caso pudesse suportar."

(Receita pra Lavar Palavra Suja, pág. 44)

Viviane é uma surpresa, uma voz toda imbuída de curiosidade. Percebe que a força do poema está na suposição. Quando a poesia se torna certeza, impetra-se em religião e dogmatiza, em vez de encantar. Ao imaginar o que os outros podem estar vivendo, expressa uma urgência pessoal. Emociona, cativa, assinala o desejo com voracidade. Na pele da caixa de supermercado ou do vizinho que ama gritando ou da vendedora de doce de leite, sua imaginação está à vontade para completar o que falta conhecer. Não depende de uma escolha entre o que conhece, e sim de sua capacidade fabulosa de elaborar o invisível.

Os dois livros apresentam uma obra em formação, ainda transpirando as influências. Adélia Prado está no tom eminentemente confessional, na percepção aguda do olfato e da atmosfera doméstica. Abordam a cozinha, a espera da pesca e o ritual mínimo do interior, marcas do repertório da autora mineira (lendo Desato I, impossível não lembrar de poemas como Casamento ou Dona Doida). Manoel de Barros marca presença nos versos curtos, explicativos, circulares e redundantes, numa didática da infância. Outra correlação contemporânea é Arnaldo Antunes e a dicção infantil e perguntadeira de Coisas.

Em Desato, Viviane Mosé expande-se em diferenciar os elementos como uma menina. Conceitua o que não precisa ser esclarecido, para readquirir o deslumbramento do momento do aprendizado. Tem o propósito de ser alfabetizada de novo ou alfabetizar de novo. Nela, alternam-se as figuras de professora e aluna, de observadora e observação. Ela quer lavar a palavra, esfregar a palavra nas pedras, livrando-as da poluição do uso corrente, numa proposta semelhante à pré-história das palavras de Barros. Volta à nomeação fundadora do mundo. Explica o que é um bote de uma canoa de um barco de uma jangada. O que muitas vezes irrita pela facilidade e simplificação e, em outras vezes, arrebata pelo espírito frágil e sensível das comparações: "Minha mãe gosta de pescar em rios/ Meu pai sabe pescar em mar."

Seu discurso lírico é arriscado, porque transforma versos que deveriam ser de apoio em alicerces, reboando superficiais e caricatos: "Eu amo meu amor eu amo meu amor eu amo./ Nossas coisas dão certo nós damos certo nós acertamos./ de neném a festas nós acertamos." A repetição e as frases clonadas geram linhas de pouco valor literário, tal "Como se fosse tarde para mim./ E o meu Mim dissolvesse como leite em pó na água".

Ilumina quando investe na contemplação de seus costumes: "Só sei guardar segredos dos outros./ Os meus conto pra todo mundo." Ou no senso de humor inteligente das manias dos relacionamentos: "Fazíamos sexo quase o tempo todo. Quando não/ Fazíamos pão integral e iogurte ou cuidávamos das abelhas."

A escritora utiliza o método filosófico de descascar as camadas da linguagem, como a esfoliar um leque ou folhear a nudez. "Eu tenho muitas coisas, quero dizer, tenho muitas camadas./ Uma camada de livros, outra de sapatos./ Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto./ Tenho camadas de nomes e coisas que vejo." A racionalidade, quando exacerbada, aguda-se em penetração investigativa e poética, fotografando a esmo tudo o que a cerca, valorizando detalhes até então despercebidos. O acúmulo não permite enxergar o conjunto, assim o refazendo. Tão claro, que resulta distorcido. O que importa é a falta de foco. Ao relacionar gratuidades, produz maravilhamentos como "minha pessoa é muito mais fraca do que meus pés".

Viviane Mosé é uma grande poeta. Não precisa mais explicar sua poesia.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006)

SERVIÇO
Desato Viviane Mosé, Record, 89 págs., R$ 24,90

(Publicado em O ESTADO DE S.PAULO, CADERNO CULTURA, pág. 5, Domingo, 7/01/2007)

7:04 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

A INFÂNCIA POR PERTO
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Há homens que primeiro olham a bunda; outros caçam os seios e as pernas. Não que eu não olhe, eu olho só depois. A primeira coisa que procuro em uma mulher é a infância.

A infância estará nas mãos que seguram as saias, não nas saias. Estará no jeito que coça os olhos, não nos olhos. Estará na forma como penteia os cabelos, não nos cabelos.

É um temperamento, o modo como ela recebe as brincadeiras, o humor melancólico que recolhe as pequenas desaparições da bolsa.

A beleza de uma mulher está na infância que teve ou não teve. Naquilo que sofreu escondida ou escondeu para não sofrer. Naquilo que deixou passar e não significa que esqueceu.

O tempo de uma mulher não é o que está à frente, mas o que não aconteceu desde que ela pisou as unhas de esmalte.

Eu me interesso em reaver quais os nomes de suas bonecas, de seus cachorros, de seus gatos, onde dormia, se dividia o quarto com os irmãos, se lembra do cheiro do estofado do carro, do nervosismo da escola em fazer amigos, da estréia no palco nas apresentações do final do ano. O que me agrada não é o que ela domina, e sim o que ela colocou de lado. A sexualidade iletrada. A primeira vez em que a chamaram de moça, de mulher, a primeira vez em que usou um desaforo. Ela preparava sopa de folhas, matava formigas, produzia arco-íris ao regar as plantas, tomava banho de chuva, ficava doente antes das provas? Todas as perguntas inúteis me tranqüilizam, porque me devolvem o gosto dispersivo de não chegar a parte alguma.

Não quero o que ela já conhece, mas o que esqueceu. Reencontrar desejos é mais difícil do que criar desejos. Não ambiciono que uma mulher diga que começou a viver comigo. Que diga tudo o que não viveu comigo para que acompanhe e entenda suas escolhas. Talvez 'merecer' seja a senha. Não se conquista uma mulher, é preciso merecê-la. Receber um livro não é lê-lo.

Complicado contornar a pressa. Ou a grosseira de falar por ela. Não é respeitar, é merecer. O que envolve observar com os ouvidos, não impor o ritmo, não deixar que a intimidade seja apenas o corredor ao quarto. Que as palavras não sejam filhos indesejados. Ou que o silêncio não seja filho casual da distração. Que não sejamos óbvios de amar por amar, que amemos para nos recuperar, como pássaros que improvisam telhados num prédio abandonado.

E não é olhando a bunda ou os seios que teremos o que dizer. E esperando que a linguagem devolva a vontade de olhar da infância.

8:48 PM :: Comentários: